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Onde está escrito que só a Bíblia vale?
Doutrina

Onde está escrito
que só a Bíblia vale?

Onde está escrito que só a Bíblia vale?

Cristo não disse aos Apóstolos: “Sentai-vos, escrevei ou viajai e distribui Bíblias”, mas sim: “Ide e pregai; quem vos ouve, a mim ouve”.

Pe. Leonel Franca6 de Novembro de 2017
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“A Bíblia, e só a Bíblia: eis a única regra de fé”. Verdade capital, fundamento de todo o cristianismo e que, por isso mesmo, se devera encontrar expresso com uma clareza insofismável na própria Escritura. No entanto, abro a Bíblia, percorro-a de cabo a rabo, e não a encontro uma só vez nem sequer acenada! Que terrível decepção! Para firmar a sua norma de fé, o protestantismo começa por violá-lo flagrantemente. A contradição irrompe logo pela primeira porta e crava-se no coração do sistema.

Lutero e os seus discípulos encalçados pela lógica dos católicos deram-se a folhear as Escrituras à cata de textos que os justificassem. Baldado esforço. Nenhum protestante instruído ousaria fazer gala das investigações exegéticas dos primeiro reformadores. Nem foram mais felizes os que lhes sucederam na desesperada empresa. Assim, da sua excursão pela imensa seara bíblica colheu o Sr. C. Pereira [1] não mais de três textos. Quereis ver-lhes a força demonstrativa?

O Pe. Leonel Franca, autor destas linhas.

O primeiro é de S. João (5, 39): “Examinai as Escrituras”. O seu significado nem de longe acena à tese protestante. Cristo num discurso apologético prova contra os seus adversários a divindade de sua missão. Invoca primeiro o testemunho do Padre, depois o do Precursor, apela em seguida para os seus milagres e finalmente num argumento ad hominem aduz a verificação das profecias escritas: “Vós examinais [2] as Escrituras cuidando ter nelas a vida  eterna; pois são elas que dão testemunho de mim”.

Ver nestas palavras — dirigidas não aos discípulos, mas aos adversários, propostas não como regra de fé do cristianismo, senão como prova apologética do seu messiado — uma confirmação da teoria protestante, é zombar da Escritura e insultar o bom senso dos leitores.

O segundo texto é tirado de S. Mateus (13, 43). Ao terminar a explicação da parábola do trigo e do joio diz Jesus: “Quem tem ouvidos de ouvir, ouça”. O Sr. C. Pereira vê aí toda a doutrina da Reforma: só a Bíblia é regra da fé; só o livre exame deve interpretá-la. Se, a grande esforço, não chegais a enxergar naquelas palavras todas estas importantíssimas verdades, a culpa é vossa. Falta-vos aquela agudeza de intuição que caracteriza a exegese do ilustrado gramático.

O Apocalipse de S. João subministra-lhe outro passo não menos peremptório: “Bem-aventurado aquele que lê e ouve as palavras desta profecia” (1, 3). O que diz o Discípulo amado, entende-se facilmente. Ler e ouvir a palavra inspirada é fonte de felicidade. A Igreja a lê todos os dias na sua liturgia e aconselha repetidamente a sua leitura aos fiéis. Mas daí à afirmação protestante vai um abismo que nem a hermenêutica mais atrevida é capaz de saltar.

Com estas infantilidades proferidas em tom de seriedade aruspicina, julga-se o Sr. C. Pereira no direito de concluir: “estes passos e muitos outros [3] da Sagrada Escritura importam em um reconhecimento formal do direito, e, ainda mais, do dever do livre exame e juízo privado no estudo do código divino”. Quem tem ouvidos de ouvir ouça... e pasme diante desta lógica de por aí além!

Mas se a Escritura, nem mesmo torturada, dá um só texto em favor do protestantismo, a sua origem, a sua índole, as suas declarações formais depõem concordemente contra ele.

Jesus Cristo só ensinou de viva voz, não escreveu uma só linha. E todo o cristianismo deveria apoiar-se num livro! E Cristo não nos deu este livro! E Cristo não disse aos seus apóstolos: “Sentai-vos, escrevei ou viajai e distribui Bíblias”; senão: “Ide e pregai; quem vos ouve, a mim ouve”. E os apóstolos foram fiéis à sua missão; poucos escreveram e pouco, todos pregaram e muito.

Já a Igreja estava fundada, já o cristianismo se havia propagado e não havia ainda um livro do Novo Testamento! O primeiro evangelho de S. Mateus, escrito em aramaico, saiu na Palestina vários anos depois da ascensão do Senhor; o último, de S. João, veio à luz nos derradeiros anos do primeiro século. Durante este tempo a Igreja crescia e prosperava em todo o mundo. Qual era então a regra de fé dos cristãos? Qual o veículo da doutrina integral de Jesus? O ensino oral, vivo, autêntico dos apóstolos ou dos a quem eles confiaram o governo e a doutrina das cristandades [4].

Em que dia, em que ano, em que época cessou esta economia para dar lugar ao reino do livro? Só a Bíblia o deveria dizer. Di-lo? Não. Antes como depois da Bíblia, a Igreja continua sempre como a fundou Cristo, como a estabeleceram os apóstolos, afirmando o direito de ensinar de viva voz, de examinar e interpretar os livros que se apresentam como inspirados. Na história, nenhum vestígio de ab-rogação da antiga regra de fé.

Seria mesmo possível esta ab-rogação? Seria possível que a Igreja, mais tarde, substituísse outra norma de crer à que foi ensinada, praticada e inculcada pelo próprio Cristo e pelos apóstolos?

Mas, enfim, os apóstolos escreveram alguma coisa; escreveram  evangelhos e epístolas. Porventura pretenderam encerrar nestes escritos todo o cristianismo, todo o depósito das verdades reveladas? Basta considerar-lhes a índole e natureza para responder imediatamente e sem tergiversar: não.

S. Mateus escreve para provar aos hebreus que Jesus é o Messias prometido. Da vida do Salvador escolhe os fatos que lhe faziam ao intento e omite os outros. S. Marcos, que resume a pregação de S. Pedro, é ainda mais conciso e poucas notícias novas adianta às que já escrevera S. Mateus. Aos evangelistas anteriores S. Lucas acrescenta algumas parábolas, alguns milagres, alguns episódios da vida do Senhor. S. João, a pedido dos fiéis, toma a pena para pôr em maior relevo a divindade de Cristo, contra as heresias nascentes dos corintianos, ebionitas e nicolaítas.

E as epístolas? Escrevem-nas os seus autores, segundo a oportunidade, para corrigir um erro, extirpar um preconceito, expor uma doutrina, premunir contra uma heresia, dar um conselho, etc. Surgem escândalos na igreja de Corinto? Dirige-lhe S. Paulo duas epístolas veementes. Ilaqueiam os judaizantes a boa fé dos Gálatas? Escreve-lhes o apóstolo precavendo-os contra as suas insídias. A Timóteo, a Tito manda conselhos, exortações, instruções sobre o modo de governar a Igreja, etc.

Em todo o Novo Testamento não há um só compêndio ordenado da doutrina cristã, nada que se pareça com um manual, um código, um catecismo destinado a substituir o magistério vivo e ser para o futuro o canal exaustivo do ensinamento cristão. À vista deste caráter evidentemente ocasional de todos os livros inspirados do N.T., como afirmar que só a Bíblia é fonte de fé, que só nela se encerram todas as verdades religiosas?

Os Apóstolos na Ascensão do Senhor.

Há mais. Os próprios apóstolos que deixaram escritos e precisamente os que por último escreveram, são os primeiros a declarar que não escreveram tudo, são os primeiros a insistir em que se conserve a tradição do seu ensino oral. S. João remata o seu Evangelho advertindo que Jesus fez muitas outras coisas que não se acham escritas no seu livro nem em livro algum (cf. Jo 20, 30; 21, 25). O mesmo apóstolo termina as suas duas últimas epístolas dizendo expressamente que não quis confiar tudo à tinta e ao pergaminho, reservando para o comunicar de viva voz: os ad os loquemur (cf. 2Jo, 12; 3Jo, 14).

S. Paulo não se cansa de inculcar a necessidade da tradição oral. Aos tessalonicenses: “Estai firmes, irmãos, e conservai as tradições que aprendestes ou de viva voz ou por epístola nossa” (2Ts 2, 15). Na mesma carta: “Nós vos prescrevemos […] que vos aparteis de todos os irmãos que andem desordenadamente e não segundo a tradição que receberam de nós” (2Ts 3, 6). A Timóteo: “O que de mim ouviste por muitas testemunhas, ensina-o a homens fiéis que se tornem idôneos para ensinar aos outros” (2Tm 2, 2). Aí está claro o ensino vivo,  transmitido por tradição de uns a outros. O apóstolo já velho, nas vésperas do martírio, adverte a Timóteo a necessidade de prover quem continue o seu magistério. Nada de livre exame das Escrituras; sempre o ensino oral feito por mestres autorizados.

Nas suas duas epístolas ao mesmo discípulo, insiste ainda São Paulo para que conserve o bom depósito: “bonum depositum custodi” (1Tm 6, 20; 2Tm 1, 14). Com os corintos, na sua primeira epístola, congratula-se porque haviam conservado as suas tradições orais: “sicut tradidi vobis, praecepta mea sustinetis” (1Cor 1, 14).

De todos estes textos o Sr. C. Pereira nem uma palavra! Em vez de cantar em todos os tons o mesmo estribilho: a Bíblia, e só a Bíblia, fora melhor que a patenteasse aos seus leitores e lhes dissesse sinceramente: “Julgai. Em todo o N.T. nem uma só vez se propõe explicitamente ou implicitamente a regra protestante.  Em mil lugares diversos se inculca a necessidade do ensino vivo, a importância de conservar a tradição, a insuficiência da Escritura, que, segundo afirma S. João, não encerra tudo o que ensinou o Salvador. Jesus Cristo nunca mandou aos seus discípulos que folheassem em um livro para achar a sua doutrina, mandou pelo contrário aos fiéis que ouvissem aos que Ele mandara pregar: Quem vos ouve, a mim ouve; se algum não ouvir a Igreja, seja considerado como infiel e publicano, isto é, não pertencente à minha Igreja; se algum não vos receber nem ouvir as vossas palavras, saindo da casa ou da cidade, sacudi o pó dos sapatos; Pai, oro, não só por esses (apóstolos), mas por todos os que hão de crer em mim mediante a sua palavra a fim de que sejam todos uma coisa só. Foi Jesus ainda quem prometeu o seu Espírito de Verdade, a sua assistência espiritual, todos os dias até à consumação dos séculos, para que os apóstolos, vivendo moralmente em seus sucessores, continuassem até ao fim dos tempos a ensinar sempre tudo o que Ele nos mandou. Eis, meus caros leitores, o que diz a Bíblia”.

Assim devera falar o Sr. C. Pereira, se desejasse ser sincero e realmente lhe interessasse o conhecimento exato e fiel das Escrituras. Mas é mais fácil repisar o estafadíssimo chavão: A Bíblia, só a Bíblia. É mais cômodo passar a esponja na história e continuar a escrever: Roma fecha a Bíblia; só a Reforma abriu aos povos o Livro da palavra de Deus.

Referências

  1. Trata-se de Eduardo Carlos Pereira (1855-1923), mineiro de origem que durante vários anos lecionou português e latim no estado de São Paulo. Foi uma das principais vozes do presbiterianismo em terras brasileiras no século XIX e inícios do século passado. Publicou, por volta de 1920, um estudo intitulado O Problema Religioso do América Latina, de tom marcadamente anti-católico. Foi contra as afirmações contidas nesta obra que o Pe. Leonel Franca escreveu, em 1922, o livro A Igreja, a Reforma e a Civilização, de cuja 5.ª edição são transcritas no presente artigo apenas alguns trechos (Equipe CNP. Todas as demais notas são do autor).
  2. O contexto mostra evidentemente que scrutamini é forma de indicativo, não de  imperativo.
  3. Que pena terem eles ficado no tinteiro do erudito pastor.
  4. Em duas admiráveis conversões relatadas por S. Lucas salienta-se com admirável relevo a necessidade do ensino oral. Saulo, prostrado no caminho de Damasco pergunta a Jesus: Senhor, que quereis que eu faça? — Levanta-te, entra na cidade, e aí te dirão o que deverás fazer. Act., IX, 6. Não lhe dá uma Bíblia. — Voltava de Jerusalém o eunuco  da rainha Candace de Etiópia e lia Isaías. Filipe, apóstolo, movido pelo Espírito Santo  aproxima-se e pergunta-lhe: crês porventura que entendes o que estás lendo? — E como o poderei entender, torna o eunuco, se não houver alguém que mo explique? Sobe então o apóstolo ao carro e, tomando ocasião do passo que acabara de ler, evangeliza-o e administra-lhe o batismo. Act., VIII, 26, sgs. — Onde a suficiência da Escritura interpretada pelo livre exame?

Notas

  • Transcrição de Pe. Leonel Franca, A Igreja, a Reforma e a Civilização. 5.ª ed., Rio de Janeiro, Vozes, 1948, pp. 212-217.

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“3 horas de Purgatório são como 300 anos”
TestemunhosDoutrina

“3 horas de Purgatório
são como 300 anos”

“3 horas de Purgatório são como 300 anos”

O frei Daniele Natale, capuchinho e amigo próximo do Padre Pio, voltou à vida depois de passar pelo Purgatório e garante: nenhum sofrimento desta vida se compara às penas do outro mundo.

Amici di Fra DanieleTradução:  Rainha Maria/Equipe CNP6 de Novembro de 2017
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O texto que publicamos a seguir é um testemunho direto do frei Daniele Natale, frade capuchinho e amigo muito próximo do Padre Pio de Pietrelcina, contando a sua experiência com o Purgatório. Ao fim de suas palavras, há uma conclusão — certamente de autoria do Padre Remigio Fiore, em cujo livro, “Fra Daniele racconta... le sue esperienze con Padre Pio”, estão contidas estas linhas — revelando como este santo homem passou os anos finais de sua vida, antes de partir deste mundo para o Pai, em 1994.

Trata-se de um testemunho muito edificante da vida eterna, e com uma base teológica muito sólida, pois, como explicou o Pe. Paulo Ricardo em homilia recente para o dia de Finados, a mais branda das penas do Purgatório é incomparavelmente superior ao mais terrível dos sofrimentos terrestres.

O texto que ora apresentamos foi traduzido do italiano, em grande parte, pelo site “Rainha Maria”, ao qual acrescentamos apenas alguns excertos que faltavam no original.


Sou um simples irmão capuchinho. Passei toda a minha vida fazendo o trabalho que me correspondia: porteiro, sacristão, pedinte de esmolas, cozinheiro. Frequentemente saia com uma bolsa às costas a pedir esmolas de porta em porta. Todas as manhãs fazia compras para o convento.

Todos me conheciam e me queriam bem. Todas as vezes que ia comprar alguma coisa, davam-me um desconto. As poucas liras que sobravam, em vez de entregá-las ao superior, conservava-as comigo para despesas com correspondência, para minhas pequenas necessidades e também para ajudar os soldados que vinham bater à porta do convento.

Isso foi logo depois da guerra. Eu encontrava-me em San Giovanni Rotondo, minha cidade natal, no mesmo convento do Padre Pio. Daí a pouco tempo, comecei a sentir algumas dores no aparelho digestivo. Após uma consulta, o médico me diagnosticou uma doença incurável: um tumor.

Pensando na iminência da morte, dirigi-me ao Padre Pio para informá-lo de meu estado, e ele, depois de me ouvir, disse-me prontamente: “Tu precisas ser operado!” Fiquei confuso e repliquei: “Padre, não vale a pena! O médico não me deu nenhuma esperança. Agora sei que vou morrer”. “Não importa o que disse o médico: tu tens de ser operado, mas em Roma, em tal clínica e com tal cirurgião”. O Padre me disse isto com com tanta firmeza e convicção que eu respondi: “Sim, Padre, o farei”. Ele então olhou-me com ternura e, comovido, acrescentou: “Não tenhas medo; eu estarei sempre contigo”.

O frei Daniele Natale e São Pio de Pietrelcina.

Na manhã seguinte parti de viagem a Roma. Sentado no trem, percebia ao meu lado uma presença misteriosa: era o Padre Pio cumprindo a promessa de estar comigo. Quando cheguei a Roma, soube que a clínica se chamava Regina Elena e o cirurgião, Ricardo Moretti. Fui internado ao entardecer. Todos pareciam estar à minha espera, como se alguém lhes houvesse anunciado a minha chegada. Acolheram-me imediatamente.

Logo depois da consulta, o diretor sanitário veio solicitar meu consentimento para que a cirurgia fosse realizada no dia seguinte. Assinei os papéis necessários. Às sete horas da manhã, já estava no centro cirúrgico. Prepararam-me para a operação. Apesar da anestesia, permaneci acordado e consciente, orando ao Senhor com as mesmas palavras que Ele dirigira ao Pai antes de morrer: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.

Os médicos deram início à operação, e eu podia entender tudo o que diziam. Senti dores terríveis, mas não me queixava; pelo contrário, estava feliz por suportar tanta dor, que eu oferecia a Jesus, e dei-me conta de como todos aqueles sofrimentos tornavam minha alma ainda mais pura dos meus pecados.

À certa altura, caí no sono. Quando voltei a mim, disseram-me que, antes de morrer, estive três dias em coma. Apresentei-me diante do Trono de Deus. Eu via a Deus, não como um juiz severo, mas como Pai afetuoso e cheio de amor. Compreendi então que o Senhor fizera tudo por amor a mim, que cuidara de mim desde o primeiro até o último instante de minha vida, amando-me como se eu fosse a única criatura existente sobre esta terra. Mas percebi também que eu não só não tinha correspondido a este imenso amor divino, mas ainda o havia negligenciado por completo.

Fui condenado a duas ou três horas de Purgatório. “Mas como?” — disse-me de mim para mim. — “Só duas ou três horas? E depois estar para sempre junto de Deus, eterno Amor?” Dei um salto de alegria, sentindo-me um filho predileto. A visão desapareceu e eu me encontrei no Purgatório. Fui condenado a duas ou três de Purgatório sobretudo por ter faltado com o voto de pobreza, por ter conservado comigo aquelas poucas liras, como disse acima. As dores eram terríveis, e não se sabia donde vinham; eu, porém, sentia-as intensamente. Os sentidos com os quais havia ofendido mais a Deus — os olhos, a língua… — experimentavam uma dor ainda maior, o que era espantoso, porque no Purgatório cada um sente como se tivesse corpo e conhece ou reconhece os demais, como acontece neste mundo.

Entretanto, embora não tivesse passado mais do que alguns momentos com tais penas, parecia-me estar ali há uma eternidade. O que mais faz sofrer no Purgatório não é tanto o fogo, por mais intenso que seja, mas o sentimento de estar afastado de Deus, e o que mais angustia é saber que tivemos todos os meios disponíveis para salvar-nos e não soubemos aproveitá-los bem.

Pensei então em ir pedir a um meu confrade do convento que rezasse por mim, agora que me encontrava no Purgatório. Aquele irmão ficou atônito, porque era capaz de ouvir a minha voz, mas não de me ver. Ele perguntou: “Onde estás? Por que não te vejo?” Eu persistia e, vendo que não havia meio de o alcançar, tentei tocá-lo; meus braços, contudo, cruzavam-se sem tocar-se. Foi só então que me dei conta de que não tinha mais corpo. Contentei-me, assim, em insistir com ele para que rezasse muito por mim, e por fim o deixei.

“Mas como?” — dizia a mim mesmo. — “Não deveriam ser somente duas ou três horas do Purgatório?... E já não se passaram trezentos anos?” — Ao menos assim me parecia.

De repente, apareceu-me a bem-aventurada Virgem Maria, e eu lhe roguei, implorando e dizendo: “Ó Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, alcançai-me do Senhor a graça de voltar à terra para viver e trabalhar apenas por amor a Deus!”

Notei também a presença do Padre Pio, a quem supliquei: “Por tuas dores atrozes, por tuas benditas chagas, ó meu Padre Pio, ora a Deus por mim para que me livre dessas chamas e me conceda a graça de continuar meu Purgatório na terra”. Depois disso não vi mais nada, mas percebi que o Pai estava falando com Nossa Senhora. Depois de alguns momentos, apareceu-me de novo a bem-aventurada Virgem Maria: era Nossa Senhora das Graças, mas sem o Menino Jesus. Ela acenou-me com a cabeça e sorriu. Naquele mesmo instante, tomei posse do meu corpo, abri meus olhos e estendi meus braços. Então, com um movimento brusco, livrei-me do manto que me cobria. Estava feliz, eu tinha recebido a graça! Nossa Senhora tinha me escutado.

Logo em seguida, os que me assistiam e rezavam saíram, espantadíssimos, da sala a ver se encontravam as enfermeiras e os médicos. Dentro de poucos minutos, a clínica se converteu num caos. Todos achavam que eu era um fantasma e decidiram fechar bem a porta e ir embora, por certo medo aos espíritos.

Na manhã seguinte, levantei-me muito bem disposto e sentei-me em uma poltrona. Apesar de a porta estar cuidadosamente vigiada, algumas pessoas conseguiram entrar, pedindo-me explicações do que sucedera. Para tranquilizá-las, disse que estava para chegar o médico de plantão, o qual lhes contaria o que havia ocorrido.

Como de costume, os médicos não chegariam antes das dez horas. Mas naquela manhã, embora não fossem ainda sete horas, eu disse aos presentes: “O médico está para chegar, e agora está estacionando o carro em tal posição”. Mas ninguém quis acreditar em mim. E eu continuava a dizer-lhes: “Agora está atravessando a rua, levando o casaco sobre o braço e passando a mão sobre a cabeça como se estivesse preocupado, não sei o que será…”. No entanto, ninguém dava crédito às minhas palavras. Então eu disse: “Para que vocês creiam que eu não estou mentindo, afirmo que o médico está subindo pelo elevador e está prestes a chegar à porta”. Mal terminara de falar, abriu-se a porta e entrou o médico, surpreendendo todos os presentes. Com lágrimas nos olhos, o médico disse: “Sim, agora eu creio em Deus, creio na Igreja e creio no Padre Pio...”.

Esse médico, que antes tinha pouca ou nenhuma fé, confessou que, naquela noite, não conseguira conciliar o sono pensando na minha morte, que ele havia comprovado antes, sem dar mais detalhes. Disse que, apesar do atestado de óbito que havia escrito, voltara com o fim de certificar-se do que tinha acontecido naquela noite, que tantos pesadelos lhe causara, pois aquele morto (que era eu) não era um morto como os outros. De fato, ele não estava enganado!


Conclusão

O frei Daniele, tempos depois de sua experiência sobrenatural.

Após esta experiência, frei Daniele realmente viveu o Purgatório nesta terra, purificando-se por meio de enfermidades, sofrimentos e dores, conformando-se sempre e em tudo com a vontade de Deus. Recordamos aqui algumas operações às quais ele posteriormente se submeteu: próstata, colecistite, aneurisma da veia abdominal com uso de prótese, tumor na vesícula, operação depois de um terrível acidente de trânsito perto de Bolonha, sem contar outras hospitalizações e dores, não só físicas como morais.

À irmã Felicetta, que lhe perguntou como se sentia de saúde, frei Daniele confidenciou: “Minha irmã, há mais de quarenta anos que já não me lembro o que significa estar bem”.

Frei Daniele morreu no dia 6 de julho de 1994.

Seus restos mortais foram depositados na capela da enfermaria do Convento dos Capuchinhos em San Giovanni Rotondo e, durante a récita do Rosário em sufrágio de sua alma, pareceu a muitos dos presentes que frei Daniele movia os lábios para acompanhar as Ave-Marias.

Sua voz propagou-se tão claramente que o superior, Pe. Livio de Matteo, quis ter certeza de que não se tratava de morte aparente. Por isso, trouxe ao local  o dr. Nicholas Silvestri, assistente de Medicina Legal, e o dr. José Pasanella, também assistente de Medicina Legal, que procederam à realização de um eletrocardiograma em frei Daniele, tomando-lhe também a temperatura do corpo, pelo que confirmaram definitivamente sua morte.

Frei Daniele certamente goza da visão beatífica de Deus e, do céu, nos sorri, abençoa e nos protege a todos.

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Quem são os “finados” pelos quais devemos rezar?
Doutrina

Quem são os “finados”
pelos quais devemos rezar?

Quem são os “finados” pelos quais devemos rezar?

As orações que fazemos pelos mortos aproveitam a todos eles? Quais são as almas que se beneficiam dos sufrágios que fazemos, seja neste dia de Finados, seja nas Missas que se rezam pelos defuntos?

Beato Tiago de Varazze1 de Novembro de 2017
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Todos os que saem desta vida, diz Agostinho, “são ou muito bons ou muito maus, ou medianos.

  • Os sufrágios dirigidos aos muito bons são ações de graças;
  • os dirigidos aos maus são consolos para os vivos;
  • os dirigidos aos medianos são expiações”.

Chamam-se muito bons os que vão imediatamente para o Céu, sem passar pelo fogo do Purgatório. Eles são de três tipos: os batizados, os mártires e os homens perfeitos, em cuja perfeição acumularam ouro, prata e pedras preciosas, isto é, amor a Deus, amor ao próximo e boas obras, sem terem pensado em agradar ao mundo, mas apenas a Deus. Eles podem cometer pecados veniais, mas o fervor da caridade consome neles o pecado, da mesma forma que uma gota de água é totalmente absorvida pelo fogo e por isso não têm nada que precise ser cremado.

Logo, rezar ou oferecer sufrágios a pessoas desses três tipos é ofendê-las: “Rogar por um mártir é fazer injúria a ele”, diz Agostinho. No entanto, rogar por alguém muito bom, na incerteza de que sua alma esteja no Céu, é fazer dessas preces ações de graças que redundam em proveito daquele que reza, segundo está escrito: “Minha oração retorna ao meu seio” (Sl 34, 13).

Para essas três espécies de pessoas — os batizados, os mártires e os homens perfeitos —, o Céu está imediatamente aberto após a morte, e elas não passam pelo fogo do Purgatório.

  • Ele se abriu para Cristo depois de seu batismo, conforme Lucas 3, 21: “Estando Jesus batizado e em prece, o Céu foi aberto”. Isso mostra que o Céu se abre a todos os batizados, sejam crianças pequenas, sejam adultos, de maneira que logo depois de falecer voam para lá. O batismo, em virtude da paixão de Cristo, purifica de todo pecado, seja original, seja mortal, seja venial.
  • Ele se abriu para Estêvão enquanto era apedrejado, conforme Atos dos Apóstolos 7, 56: “Vejo os Céus abertos”. Isso mostra que o Céu abre-se a todos os mártires, que voam para lá quando morrem, e se faltava algo a expiar pelo fogo, tudo é anulado pela foice do martírio.
  • Ele se abriu para João, que era de alta perfeição, conforme Apocalipse 4, 1: “Eu vi a porta do Céu aberta”. Isso mostra que para os homens perfeitos que cumpriram totalmente sua penitência e não cometeram pecados veniais, ou que, se os cometeram, consumiram-nos em seguida no fervor da caridade, o próprio Céu abre-se incontinenti e eles entram para ali reinar eternamente.

Os muito maus, que se tem certeza de terem sido precipitados no abismo do Inferno, não devem receber nenhum sufrágio, segundo disse Agostinho: “Se eu soubesse que meu pai está no Inferno, não rogaria por ele mais do que pelo diabo”. Oferecer sufrágio a algum condenado, por não se ter certeza de sua danação, não lhe serve para nada [1], nem para livrá-lo de seus tormentos, nem para abrandar ou diminuir suas penas, nem para suspender sua danação por um tempo, sequer por uma hora, nem para lhe dar uma força maior a fim de suportar mais facilmente os sofrimentos. No Inferno não há redenção alguma.

Os medianos são aqueles que levam consigo coisas para queimar, lenha, feno e palha, ou seja, aqueles que foram surpreendidos pela morte sem terem completado a penitência necessária. Eles não são suficientemente bons para dispensar sufrágios, nem bastante maus para que esses sufrágios não lhes possam ser proveitosos. Os sufrágios dirigidos a eles são expiações. Portanto, é somente a eles que os sufrágios podem ser úteis.

Na maneira de fazer esses sufrágios, a Igreja tem o costume de observar principalmente três dias, o sétimo, o trigésimo e o aniversário. A razão disso está assinalada no livro do Ofício Mitral.

  • Observa-se o sétimo dia ou para que as almas cheguem ao repouso do sabá eterno, ou para que sejam remidos todos os pecados cometidos na vida, que está dividida em períodos de sete dias, ou para reconciliar os pecados cometidos com o corpo, que se compõe de quatro humores [2], e com a alma, que tem três qualidades (memória, inteligência e vontade).
  • Observa-se o trigésimo, que se compõe de três dezenas, para purificá-las das faltas cometidas contra a Trindade e o Decálogo.
  • Observa-se o aniversário de morte, para que dos anos de calamidades elas cheguem aos anos da eternidade.

Da mesma maneira que celebramos o aniversário dos santos para honra deles e utilidade nossa, celebramos o aniversário dos defuntos para utilidade deles e devoção nossa.

Referências

  • Texto extraído do livro “Legenda áurea: vidas de santos”. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 920-922.

Notas

  1. As orações que fazemos pelos condenados não lhes servem de nada, mas, entenda-se bem, como nesta vida não temos condições de saber com certeza quem foi ou não para o inferno, não devemos privar antes do tempo certas pessoas de nossas orações, por mais terrível que tenham sido suas vidas. Na verdade, se algumas delas se salvaram, é então que elas mais precisam de nossas orações, para que se livrem do purgatório. Se foram condenadas, no entanto, nem por isso são inúteis as orações que fazemos: Deus se aproveita do valor de todas elas, por exemplo, para consolar os vivos, como diz S. Agostinho. (Nota de nossa equipe.)
  2. Para a ciência medieval, o corpo humano é formado pelos quatro elementos (terra, água, fogo, ar) e suas quatro qualidades essenciais (secura, umidade, calor, frio). A combinação de tais fatores define os humores, quer dizer, as características físicas e psicológicas do ser humano: os indivíduos de tipo sanguíneo são sociáveis por estarem ligados ao ar, quente e úmido; os coléricos impulsivos devido à sua relação com o fogo, quente e seco; os melancólicos pessimistas por estarem associados à terra, fria e seca; os fleumáticos introvertidos em função de sua ligação com a água, fria e úmida. (Nota do autor.)

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Com que direito Lutero pretendia “reformar” a Igreja?
História da Igreja

Com que direito Lutero
pretendia “reformar” a Igreja?

Com que direito Lutero pretendia “reformar” a Igreja?

Lutero negou a autoridade, negou a Tradição, negou o Magistério, negou a Igreja orgânica, visível e hierárquica. Mas com que direito? Quais as credenciais desta sua embaixada extraordinária?

Pe. Leonel Franca31 de Outubro de 2017
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Lutero começou por negar. Negou a autoridade, negou a tradição, negou o magistério eclesiástico, negou a Igreja orgânica, visível, hierárquica. Com que direito? Com que títulos? Não existia havia 15 séculos o cristianismo? Não ascendiam os seus pastores, os seus bispos, os seus papas, por uma sucessão ininterrupta até aos apóstolos, até ao próprio Cristo?

— Mas a Igreja Católica havia perdido o espírito primitivo, havia adulterado os ensinamentos do Evangelho, havia-o sobrecarregado com uma farragem de superstições humanas, havia-o prostituído com a idolatria de Babilônia.

— E como o sabe ele? Como o prova? Não havia Cristo prometido a sua assistência infalível à Igreja? Não lhe havia assegurado que com ela estaria todos os dias até à consumação dos séculos?

Não importa. Lutero entrincheira-se na Bíblia. — Mas a Bíblia, quem a interpreta? Não a possuía, não a possui porventura a Igreja Católica? Não a liam todos os Santos Padres e Doutores? Não a conheciam todos os concílios? Não a vulgarizavam todos os santos reformadores? E por que a nenhum ocorreu a ideia de começar uma reforma destruindo a Igreja em nome da Escritura, de embandeirar a Bíblia em pendão de revolta contra a autoridade constituída por Cristo?

Lutero, porém, possui um segredo especial de exegese desconhecido de toda a antiguidade eclesiástica. Ele, o frade despeitado, guinda-se às alturas proféticas de novo evangelista, recebe diretamente ilustrações do Espírito Santo, comunica com o santuário da Trindade [1] e dos seus recessos inacessíveis traz ao mundo o dom de uma hermenêutica sacra, de cujo bojo sai um cristianismo todo novo.

Destarte, de consequência em consequência, Frei Martinho é obrigado a arvorar-se uma missão divina, a atribuir-se uma legação religiosa especial.

O Pe. Leonel Franca, autor destas linhas.

Ora, onde estão as credenciais desta embaixada extraordinária? Nenhum homem pode levantar-se no meio dos seus semelhantes e afirmar, sem provas cabais, que é um enviado do Altíssimo. Nenhum homem pode guindar-se à trípode dos oráculos e daí legislar religião para a humanidade sem antes demonstrar apoditicamente a autenticidade de sua missão plenipotenciária. Religião, só Deus a pode impor ao homem. Falar à consciência religiosa, ensinando verdades a crer e preceitos a praticar, sem títulos divinos, sem autorização divina, sem sanção divina, é embuste, é impostura, é charlatanismo. Nossa dignidade de seres racionais revolta-se contra semelhantes exploradores da credulidade pública. — Profeta de Wittenberg, onde estão as cartas de crença de tua missão divina?

A garantia que temos da origem celeste de uma doutrina reside na autoridade recebida do alto por aquele que no-la propõe.

Ora os sinais com que Deus chancela a autoridade dos seus enviados são os milagres: milagres que se manifestam na ordem física, milagres que resplendem na santidade irrepreensível do divino enviado. Só o milagre, intervenção extraordinária da divina onipotência, pode autenticar as missões do céu.

Com milagres provou Jesus a sua messianidade (cf. Jo 5, 36; 10, 37-38; 15, 22; Mt 12, 39-40); com milagres sigilou Deus a embaixada dos seus apóstolos (cf. 2Pd 1, 18; 2Cor 12, 12; Mc 16, 20); no milagre reconheceu sempre a apologética cristã, firmada nos princípios da razão e nos ensinamentos dos livros inspirados, a assinatura inimitável do divino Autor nas suas manifestações extraordinárias à humanidade.

O próprio Lutero reconheceu a necessidade desta autenticação celeste. Querendo impedir a pregação de Tomás Müntzer em Mulhouse, escreve em 1524 aos magistrados desta cidade que, se o turbulento inovador não puder provar com obras extraordinárias a sua missão, não o recebam. “Se ele disser que Deus e o seu espírito o enviam como aos apóstolos, que o prove com prodígios e milagres; do contrário, proibi-lhe a pregação” [2].

Quando Carlostadt, apelando para ilustrações divinas, o contradisse, Lutero intimou-o a demonstrar com milagres a sua vocação: “É necessário que Deus manifeste com obras milagrosas que revoga os seus antigos preceitos” [3]. E alhures:

Quem quer pôr em campo alguma novidade ou ensinar doutrinas diversas deve ser chamado por Deus e comprovar a sua vocação com verdadeiras ações prodigiosas. Quem não a puder demonstrar deste modo, abra mão da empresa et in malam rem abeat. [4]

Julgando-o por esta craveira, que milagres fez Lutero? Que milagres fizeram os primeiros reformadores para atestar o caráter divino de sua missão? De todos os protestantes escreveu, gracejando, Erasmo, que até então não haviam endireitado a perna a um cavalo coxo. Lutero acabou por perceber esta lacuna na sua missão, mas, por um destes truques de sofista em que era useiro e vezeiro, virou de bordo e proclamou o milagre uma inutilidade… Depois, triunfando exclama: “Não hão de ver milagres feitos por nós”, porque, se os fizéramos, o mundo os havia de atribuir ao diabo [5]!

E profecias? — Há uma que ocorre frequentemente nos escritos dos primeiros inovadores: a iminente ruína do Papado. Lutero gostava muito do verso Pestis eram vivens, moriens tua mors ero, papa, isto é, “Em vida eu era a tua peste, morrendo, serei a tua morte, ó Papa!” Inseriu-o numa carta em 1527; mais tarde, com um pedaço de giz, escreveu-o nas paredes do quarto onde, poucas horas depois, o salteou de improviso a morte. — Depois de quatro séculos podemos dizer que a esmagadora realidade histórica não abonou os títulos proféticos do vate saxônio.

Além dos prodígios físicos, que são extrínsecos ao taumaturgo, há outro milagre de ordem moral, que, por assim dizer, se consubstancia com a sua própria pessoa: é a santidade da vida. Um homem que pode atirar aos seus adversários a luva, dizendo-lhes: Quis ex vobis arguet me de peccato?, “Quem de vós me pode acusar de pecado?” (Jo 8, 46). Um homem, em cuja veracidade não pode caber a mínima suspeita de impostura, merece lhe prestemos fé. Nesta grandeza moral, superior à fragilidade humana temos uma fiança de que Deus está com ele. Salvas as proporções necessárias, o que se diz de Cristo vale de um puro homem que se apresenta na história com uma missão divina.

Ora, deram os primeiros reformadores este espectáculo edificante de santidade? Oh, se o protestantismo pudera passar uma esponja sobre as nódoas que enxovalham as origens vergonhosas! Mas a história não se apaga e a verdade beneficia sempre de suas lições indeléveis.

Pouco a pouco, a despeito de dificuldades inauditas, rasgou-se o véu que cobria ao mundo as torpezas e incoerências destas vidas vergonhosas e a posteridade pregou os patriarcas do protestantismo no pelourinho da ignomínia e da execração pública.

Não é meu intuito humilhar aqui os protestantes. Quisera tão somente iluminá-los. Verdades que amargam são muitas vezes verdades que salvam.

Lutero inaugura a sua missão com o gravíssimo pecado do sacrilégio e da apostasia. Jovem, era livre. Um dia, enamorado do ideal evangélico de perfeição, desejoso de seguir de perto a Cristo, estende espontaneamente a mão sobre o altar e pronuncia os votos religiosos de pobreza, obediência e castidade. Passam os anos. Raia o dia do seu sacerdócio. Ainda uma vez, quando o crisma sagrado lhe ungia as mãos, o neolevita renova a consagração do religioso. Mais tarde, que faz Lutero de todas estas promessas firmadas com a santidade inviolável do juramento? Quebra a fé empenhada, rasga os seus compromissos, atira o burel de religioso às urtigas e enxovalha a candura da estola sacerdotal no lodo de um casamento duplamente sacrílego!

O orgulho fizera o fedífrago, o orgulho cegou o doutor. Na sua autossuficiência dir-se-ia que esqueceu não só a humildade evangélica mas as reservas da modéstia mais elementar. Até ao aparecimento do seu Evangelho ninguém soubera quem era Cristo, que eram os sacramentos, que era a fé, quem era Deus e a sua Igreja [6]. Os Santos Padres, os Apóstolos, os Concílios, a Igreja toda errou! Sua doutrina é a única verdadeira. “Muito embora a Igreja, Agostinho e os outros doutores, Pedro e Apolo e até um anjo do céu ensinem o contrário, minha doutrina é tal que só ela engrandece a graça e a glória de Deus e condena a justiça de todos os homens na sua sabedoria” [7]. Qualquer dos seus sequazes, as crianças que estudaram os seus ensinamentos, sabem mais em matéria de religião e de cristianismo que todos os religiosos e todas as escolas católicas. — Que demência de soberba!

Mais ao vivo ainda se revela o frenesi desta inteligência decaída, nestas palavras que não têm semelhantes nos fastos do despotismo e do orgulho humano:

Quem não crê como eu é destinado ao inferno. Minha doutrina e a doutrina de Deus são a mesma coisa. Meu juízo é o juízo de Deus. [8]

Tenho certeza que meus dogmas vêm do céu… eles hão de prevalecer e o Papa há de cair a despeito de todas as portas de inferno, a despeito de todos os poderes dos ares, da terra e do mar. [9]

Não devemos ceder aos ímpios papistas… Nossa soberba contra o Papa é necessária… Não havemos de ceder nem a todos os anjos do céu, nem a Pedro, nem a Paulo, nem a cem imperadores, nem a mil Papas, nem a todo o mundo… a ninguém, cedo nulli. [10]

Orgia de orgulho satânico ou caso de patologia mental?

Não é pois de maravilhar que este homem assim enfatuado de sua ciência, depois de haver negado a infalibilidade do Papa e proclamado a liberdade de exame para legitimar os próprios excessos, se tenha arvorado em cátedra inerrante de fé, constrangendo os seus sequazes a curvarem submissos a fronte ante os arestos inapeláveis de suas decisões infalíveis. Não houve tirania mais insuportável nem arrogância mais impetuosa que a deste pregador do livre exame.

Lutero pregando em Wartburgo, de Hugo Vogel.

Todos os seus correligionários gemem sob o peso de seu jugo de ferro. Müntzer dizia: “Há dois papas: o de Roma e Lutero, e este mais duro”. Ao seu confidente Bulinger escrevia Calvino: “Já não é possível suportar os arrebatamentos de Lutero: cega-o a tal extremo o amor próprio que não vê os próprios defeitos nem tolera que o contradigam”. Contra Carlostadt, seu antigo mestre, que em tirar as conclusões da nova doutrina foi além do que pretendia o reformador, obteve o decreto de expulsão da Saxônia e não o readmitiu senão com a promessa de “não defender em público, por palavra ou por escrito, suas opiniões contrárias à de Lutero” [11]. A Müntzer, por motivo análogo, cessou a liberdade de palavra, apesar do verbum Dei non est alligatum — “a Palavra de Deus não está acorrentada” (2Tm 2, 9) — que ele tantas vezes invocara contra a Igreja Católica. Assim entendia Lutero o livre exame!

Ao ver esta prepotência com que o chefe da Reforma impunha despoticamente as suas opiniões, crê toda a gente sensata que nada mais firme, nada mais assentado e maduramente refletido que a nova doutrina. Erro. O inculcado emissário divino que modestamente se prefere a todos os doutores do céu e da terra, que blasona de inspirado do Espírito Santo, que recebeu “os seus dogmas do céu”, hesita, retrata-se, contradiz-se, assenta e destrói dogmas pelos motivos mais fúteis, muda de opinião como um ator de roupa.

Trata-se do batismo sob condição. A 12 de maio de 1531 escreve Lutero a Link: “Quanto ao batismo sob condição, depois de diligente ponderação definimos (!) que deve simplesmente eliminar-se da Igreja”. Poucas horas bastaram para mudar-lhe o cânon definido após “diligente ponderação”. No dia seguinte, novamente inspirado sem dúvida, escreve a Ossiandro: “Não posso condenar o batismo sob condição dado às crianças de cujo batismo se duvida” [12].

Em 1519 escreve: “Confesso plenamente o supremo poder da Igreja Romana; fora de Jesus Cristo, Senhor Nosso, nada no céu e na terra se lhe deve preferir” [13]. Esta Igreja “é a predileta de Deus; não pode haver razão alguma, por mais grave, que autorize a quem quer que seja a apartar-se dela e, com o cisma, separar-se da sua unidade” [14]. Em 1520 na sua Epístola luterana tece os mais rasgados encômios a Leão X, louva-lhe a vida intemerata, superior a qualquer ataque [15]. Nesse mesmo ano já Leão X é o Anticristo, e a Igreja romana “uma licenciosa espelunca de ladrões, o mais impudente dos lupanares, o reino do pecado, da morte e do inferno” [16].

Em 1519, dois anos depois de haver iniciado publicamente a pregação da Reforma, defendendo-se dos adversários, ensina o culto dos santos, a existência do purgatório, a oração pelos defuntos, a prática do jejum, etc [17]. Alguns anos depois rejeita tudo isto como idolatria, superstição e fanatismo.

Em 1541, jura por Cristo que, ao iniciar a sua pregação contra o dominicano Tetzel não sabia nem o que significava a palavra indulgência! [18] E pensar que as indulgências foram o primeiro cavalo de batalha contra Roma, o especioso pretexto com que o monge agostiniano saiu a público para divulgar os seus erros e pregar a revolta!

Quanto à origem e legitimidade de sua missão, em pouco mais de 15 anos, Lutero mudou pelo menos 14 vezes de parecer [19].

Outro retrato de Martinho Lutero, desta vez, por certo, na famosa disputa de Leipzig.

O oportunismo decidia da escolha. Uma opinião servia-lhe para combater os católicos, outra para defender-se dos colegas, uma terceira para pacificar os ânimos turbulentos nas comunidades recém-formadas. O guarda-roupa do ator era bem provido: havia trajes para todas as personagens e todos os papéis.

Não fôra difícil continuar esse elenco. Quase não há dogma importante sobre o qual Lutero não tivesse, em épocas diversas, sustentado o sim e o não.

Não são menos instrutivas para o conhecimento da psicologia do reformador as razões que o induziam a abraçar suas opiniões. Acerca da comunhão sob uma ou duas espécie ele na sua Fórmula da Missa: “Se um Concílio ordenasse ou permitisse as duas espécies, por despeito ao Concílio, nós só receberíamos uma, ou mesmo, nem uma nem outro e anatematizaríamos os que, em virtude desta ordenação, recebessem as duas” [20].

De outra feita, declara haver finalmente suprimido a elevação da hóstia por despeito ao Papado e de havê-la conservado por tanto tempo por despeito a Carlostadt [21]. Com igual baixeza escrevia em 1523:

Se acontecesse que um, dois, mil ou mais concílios decidissem que os eclesiásticos pudessem contrair matrimônio, preferiria, confiado na graça de Deus, perdoar a quem, por toda a vida, tivesse uma, duas ou três meretrizes, do que aquele que, consoante à decisão conciliar, tomasse mulher legítima e sem tal decisão não a pudesse tomar. [22]

É ainda a mesma disposição dum ânimo acirrado contra os odiados papistas que lhe ditava estas linhas: “Enquanto eles (os papistas), a seu juízo, triunfam de uma heresia minha, quero propor outra” [23].

Sinceramente, esta linguagem, estas incertezas e contradições doutrinais, esta frivolidade em construir e destruir dogmas, esta soberba luciferina dizem bem num enviado do céu para restaurar o cristianismo?

Até aqui não acenamos senão aos vícios que mancham a parte superior do homem. Mas por uma lei infatigável da divina Providência, a soberba do espírito é castigada com as rebeldias da carne. Desce abaixo do bruto quem se arvora em divindade.

Retrato de Catarina de Bora.

Lutero oferece à história mais um triste exemplo desta punição providencial. Em 1521, uns restos de educação católica ditavam-lhe estas palavras de uma carta a Espalatino: “Santo Deus! Os nossos Wittenberguenses quererão casar também os frades? A mim é que não hão de impingir mulher… Toma tento e não cases para não incorreres nas tribulações da carne” [24]. Com os anos, as novas doutrinas abriram brecha no seu propósito. Em 1525, estalou às súbitas no mundo reformado a inesperada notícia que Lutero, aos 41 anos, havia casado com Catarina de Bora, egressa cisterciense. Que acontecera? O reformador resolvera-se repentinamente ao casamento para fechar a boca às más línguas.

As más línguas, porém, não taramelavam sem motivo. Numa carta de 1525 endereçada a Ruhel, conselheiro de Mansfeld, dizia o heresiarca: “Se posso, a despeito do demônio (sic!) inda hei de casar com a minha Catarina, antes de morrer” [25]. Como quer que seja, a impressão causada nos contemporâneos e correligionários foi das mais desfavoráveis. Lutero percebeu-o. “Com este meu casamento tornei-me tão desprezível que os anjos se hão de rir e os demônios chorar. Só em mim escarnece o mundo a obra de Deus como ímpia e diabólica” [26].

Retrato de Felipe Melanchton.

Numa confidência a Camerário dizia Melanchton: “Lutero era um homem extremamente leviano e as freiras [por ele soltadas dos conventos] que lhe armavam laços com grande astúcia acabaram por envisgá-lo. O frequente comércio com elas teria talvez efeminado um homem mais forte e de mais nobres sentimentos e ateado o incêndio” [27]. Qual tenha sido o resto da vida do ex-frade circundado desse elemento feminino capaz, no dizer de Melanchton, de enervar constituições morais de mais robusta envergadura, é fácil imaginar e inconveniente dizer.

Raras vezes a vida licenciosa vai desacompanhada dos excessos intemperantes da mesa. Em Lutero, a febre de concupiscência carnal era estimulada pela embriaguez e pela crápula. À sua Catarina escrevia em 1540: “Vou comendo como um boêmio e bebendo como um alemão, louvado seja Deus!” [28] Em 25 de julho de 1534 de novo à Catarina:

Ontem aqui bebi mal e depois fui obrigado a cantar; bebi mal e sinto-o muito. Como quisera haver bebido bem ao pensar que bom vinho e que boa cerveja tenho em casa, e mais uma bela mulher… Bem farias em mandar-me daí toda a adega bem provida do meu vinho e, o mais frequentemente que puderes, um barril de tua cerveja. [29]

De Wartburgo (14 de maio de 1541) mandava dizer: Ego otiosus hic et crapulosus sedeo tota die — “Aqui passo todo o dia no ócio e na embriaguez” [30]. Na noite em que o reformador, em companhia de outros, chegou a Erfurt (19 de outubro de 1522) não se fez senão “beber e gritar, como de costume” [31], escreve Melanchton presente à cena.

O nobre motivo por que o reformador ia pedir ao aturdimento do vinho e da cerveja a distração e a paz que não encontrava na consciência, declara-o ele próprio numa carta consolatória a um amigo (6 de novembro de 1530). Jerônimo Weller era trabalhado de frequentes acessos de melancolia. Lutero, como bom diretor espiritual, manda-lhe esta receita anti-hipocondríaca:

Quando te vexar o diabo com estes pensamentos, palestra com os amigos, bebe mais largamente, joga, brinca ou ocupa-te em alguma coisa. De quando em quando se deve beber com mais abundância, jogar, divertir-se e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo para lhe não darmos azo de perturbar a consciência com ninharias… Quando te disser o diabo: não bebas, responde-lhe: por isso mesmo que me proíbes hei de beber e em nome de Jesus Cristo beberei mais copiosamente… Por que pensar que eu bebo, assim, com mais largueza, cavaqueio com mais liberdade e banqueteio-me com mais frequência, senão para vexar e ridicularizar o demônio que me quer vexar e ridicularizar a mim?... Todo o decálogo se nos deve apagar dos olhos e da alma, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo. [32]

E se bem o aconselhava, melhor o fazia. Era em comezainas pantagruélicas, entre o espumar dos vinhos generosos e os vapores das iguarias fumegantes que se reuniam os concílios dos novos reformadores e se decidiam as questões mais transcendentes do dogma e da moral evangélica.

Retrato de Martinho Lutero em seu leito mortuário.

Na manhã seguinte à da morte de Lutero encontraram-no por terra com o abdome intumescido pelo “demasiado comer e beber. O reformador tivera no dia precedente uma mesa ricamente preparada e abundância de vinhos doces e estrangeiros” [33].

Assim acabou como um gastrônomo e libertino vulgar o apóstata que se arvorara em reformador do cristianismo. “Na hierarquia dos anjos rebeldes, em que pese aos seus amigos, Lutero ocupa o degrau mais baixo, mais próximo do lodo e do pântano” [34].

E as sombras morais do homem projetam-se sobre toda a sua obra. Ante o espetáculo desta vida desregrada, temos o direito de pedir aos nossos adversários que nos demonstrem com razões peremptórias que este monge devasso, beberrão, grosseiro e insultador foi o eleito de Deus para reconduzir à sua pureza primitiva a Igreja de Santo Tomás e de São Bernardo, de São Gregório e de São Leão, de Santo Agostinho e de Santo Irineu.

Referências

  1. Certus sum dogmata mea habere de caelo, “Estou certo de ter recebido dos céus os meus dogmas”, Weimar, X, 2 Abt., p. 184.
  2. De Wette, II, 538; Weimar, XV, 240.
  3. Weimar, XVIII, 96-97.
  4. Weimar, XX, 724.
  5. Erl., XII, 218-21; XLVI, 205.
  6. Cf. Weimar, XXX, 3 Abteilung, 317.
  7. Weimar, XL, 1 Abt., 132.
  8. Weimar, X, 2 Abt., 107.
  9. Weimar, X, 2 Abt., 184.
  10. Weimar, XV, 1 Abt., 180-1.
  11. Weimar, XVIII, 86 sg.
  12. De Wette, IV, 254, 256.
  13. De Wette, I, 234.
  14. Weimar, II, 72.
  15. Cf. De Wette, I, 498.
  16. De Wette, I, 522, 500; Weimar, VII, 44.
  17. Weimar, II, 69ss.
  18. Erl., XXVI, 50ss. Aqui, porém, como tantas outras vezes, Lutero falta à verdade. Mas o caráter do homem revela-se do mesmo modo.
  19. Cf. Doellinger, Die Reformation, III, 205ss.
  20. Cf. Bossuet, Hist. des Variations, l. 2, n. 10.
  21. Erl., XXXII, 420, 422.
  22. Weimar, XII, 237.
  23. Weimar, VI, 501.
  24. De Wette, II, 40, 41.
  25. De Wette, II, 655.
  26. De Wette, III, 2, 3.
  27. Melanchton, Brief an Camerarius über Luthers Heirat von 16 Junii 1525, von P. A. Kirch, Mainz, 1900, p. 8, 11.
  28. Burkardt, Dr. M. Luth. Briefwechsel, Leipzig, 1866, p. 357. Cit., por H. Brück, Lehrbuch der Kirchengeschichte (4), Mainz 1888, p. 614.
  29. De Wette, IV, 553.
  30. De Wette, II, 6.
  31. Corpus reformatorum, I, 579.
  32. De Wette, IV, 188.
  33. Paulus, Luthers Lebensende und der Eislebener Apotheker Johann Landau, Mainz, 1896, p. 5.
  34. Th. Mainage, Témoignage des Apostats (2), Paris, Beauchesne, 1916, p. 76.

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