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Católico pode se casar com protestante?
Doutrina

Católico pode se casar com protestante?

Católico pode se casar com protestante?

Casar-se com alguém de outra religião, em princípio, é até possível, mas, se você ainda está solteiro e nos permite um conselho, aqui vai uma orientação dos Papas da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Agosto de 2018
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Nesta matéria, vamos falar de uma das principais causas da indiferença religiosa que existe hoje no mundo. Trata-se dos chamados “casamentos mistos”.

Um aluno envia-nos uma pergunta a esse respeito, manifestando dúvidas sobre como seria o casamento de um católico, por exemplo, com uma protestante, e quais são as recomendações e ressalvas da Igreja quanto a isso.

Por uma questão de clareza, diferenciemos antes entre “casamento misto” (entre um católico e um batizado não católico) e “casamento com disparidade de culto” (entre um católico e alguém que sequer foi batizado). Embora as consequências de tais situações sejam muito parecidas na prática, canonicamente se trata de coisas diversas.

Respondamos à questão com aquilo que a Igreja sempre ensinou a esse propósito. Para tanto, vamos nos servir de algumas manifestações mais antigas do Magistério, a fim de que todos entendam como a doutrina católica é uma rocha firme, e não um punhado de grãos de areia “batidos pelas ondas e levados por qualquer vento de doutrina” (Ef 4, 14).

Esclareçamos desde já o porquê das palavras duras e enérgicas que serão lidas mais adiante. Trata-se de conselhos paternos, necessários sobretudo para as pessoas que estão ainda na fase de namoro e talvez estejam “apaixonadas” por alguém de outra religião, seja ele cristão ou não. (Para quem já se encontra casado nesta situação, a conversa é evidentemente diferente.)

Como palavras de um pai, são palavras graves, sim, mas isso porque são igualmente graves as consequências de se entrar em um arranjo familiar como esse. De fato, é por ter em vista os grandes prejuízos dessa forma de relacionamento que a Igreja usava essa linguagem dura (não muito diferente da que vai nos próprios Evangelhos), tentando dissuadir os católicos, que receberam o dom precioso da fé no dia do Batismo, de colocarem em risco a salvação de suas almas, contraindo matrimônio — uma responsabilidade tão séria e, lembremo-nos, por toda a vida — com alguém que não ama e não odeia as mesmas coisas que eles.

Ouçamos em primeiro lugar o Papa Bento XIV, no ano de 1741:

No que se refere àqueles matrimônios que são contraídos por católicos com hereges, seja que um homem católico espose uma mulher herege, seja que uma mulher católica espose um homem herege: Sua Santidade, antes de tudo grandemente amargurado pelo fato de haver católicos que, torpemente enlouquecidos por um amor doentio, não fogem de toda a alma desses matrimônios detestáveis, que a santa mãe Igreja sempre tem condenado e proibido, e não acham que devem absolutamente se abster, exorta e admoesta [os pastores de almas] de modo sério e grave para que, na medida do possível, afastem os católicos de ambos os sexos de contrair semelhantes matrimônios para ruína das próprias almas e façam de tudo para obstaculizar da melhor maneira tais núpcias e impedi-las de modo eficaz.” [1]

Ouçamos também o Papa Leão XIII, na encíclica “Arcanum”, de 1880:

Deve-se ter o cuidado de não se desejar com facilidade o casamento com pessoas que não pertencem à Igreja Católica, pois dificilmente pode-se esperar que os ânimos discordes sobre a religião consigam a concórdia em tudo o mais. E que se devam evitar esses casamentos entende-se especialmente disso: (i) impedem a participação comum às coisas sagradas, (ii) criam perigo para a religião do cônjuge católico, (iii) impedem uma boa educação dos filhos e muitas vezes (iv) levam os ânimos a ter na mesma estima todas as religiões, tirando toda diferença entre o falso e o verdadeiro.” [2]

Por fim, ouçamos o Papa Pio XI, na encíclica “Casti Connubii”, de 1930:

Muito faltam neste ponto e, por vezes, pondo em perigo a própria salvação eterna, os que temerariamente contraem matrimônio misto, do qual a providência e o amor materno da Igreja afastam os fiéis por gravíssimas razões [...]. E se a Igreja, por vezes, em virtude das circunstâncias dos tempos, das coisas e das pessoas, é levada a conceder a dispensa destas severas disposições [...], só muito dificilmente é que o cônjuge católico não recebe qualquer dano de tal matrimônio. De fato, dele deriva, não raro, uma triste defecção da religião nos descendentes, ou, pelo menos, a queda fácil naquela negligência religiosa que se chama indiferença, tão vizinha da incredulidade e da impiedade. Acresce ainda que, nos matrimônios mistos, se torna muito mais difícil aquela viva união dos espíritos, que deve imitar o mistério [...] da inefável união da Igreja com Cristo. [3]

Antes de qualquer coisa, portanto, tiremos de nossas cabeças a mentalidade do “tanto faz, como se não houvesse nenhum problema em se casar com pessoas mundanas e sem fé católica. Se a Igreja possui uma orientação a respeito desse tema, investiguemos-lhe as razões.

Por que a mesma religião?

Partamos do que diz Leão XIII, e que facilmente podemos comprovar no dia a dia de nossas vidas: “Dificilmente pode-se esperar que os ânimos discordes sobre a religião consigam a concórdia em tudo o mais”. Ou seja, não é possível haver verdadeira amizade — e, mais do que isso, verdadeira “união dos espíritos”, como deve acontecer no casamento — sem que haja, em primeiro lugar, uma comunhão na fé e nos princípios católicos.

O primeiro ponto é enxergar, pois, com toda clareza, que papel tem a religião na sua vida. Se a fé católica é o seu “amuleto”; se Deus não passa de uma coisa superficial e acessória para você, à qual só de vez em quando vale a pena recorrer, você nunca será capaz de entender o que esses Papas estão querendo dizer.

Se, ao contrário, você vê na Igreja Católica — como deveriam ver todos os batizados — a “Mãe e Mestra da Verdade”, como cantamos no Hino Pontifício; o instrumento que o próprio Jesus Cristo instituiu e deixou no mundo para salvar a humanidade, você entende facilmente que a religião não pode ser algo marginal e de pouca importância na vida de um católico, mas, sim, uma realidade que compromete e transforma toda a sua vida.

Assim sendo, um católico que procura sua esposa na Igreja Católica não está fazendo mais do que subordinar aos seus afetos meramente naturais o afeto sobrenatural devido a Deus e à religião que Ele mesmo instituiu. Não sem razão o Papa Bento XIV usa acima a expressão “torpemente enlouquecidos por um amor doentio”, que é dura, sim, mas que pode ser uma luz para muitas pessoas. Quantos, de fato, não são os que entram em um negócio visivelmente fadado ao fracasso — pois pessoas boas e prudentes já as aconselharam — e, mesmo assim, movidos por um sentimento irracional, terminam “se amarrando” por toda a vida?

Falando de modo mais concreto, os problemas dos casamentos mistos, ou mesmo com disparidade de culto, são brevemente resumidos abaixo por Leão XIII — e quem quer que tenha entrado nesta “empresa” pode dar o seu testemunho de que, salvo exceções, é assim mesmo que as coisas acontecem. Esses relacionamentos:

  1. “impedem a participação comum nas coisas sagradas,
  2. criam perigo para a religião do cônjuge católico,
  3. impedem uma boa educação dos filhos e
  4. muitas vezes levam os ânimos a ter na mesma estima todas as religiões, tirando toda diferença entre o falso e o verdadeiro”.

E não é justamente o que vemos hoje em nossas igrejas? Famílias separadas, filhos que não seguem a religião dos pais, e até pior, pessoas que acham que “tanto faz” pertencer a esta ou aquela religião, desde que se “seja bom” — como se pudéssemos ser bons sem a graça de Deus, que vem a nós pela fé e os sacramentos. Todo esse quadro deve-se em grande parte aos maus casamentos e às famílias despedaçadas pela desunião principalmente em matéria religiosa.

Desfazendo mal-entendidos

Alguém nos interpelará dizendo que “as pessoas podem mudar”, e nós responderemos que sim, é verdade, a graça de Deus pode operar verdadeiros milagres dentro das famílias, principalmente quando seus membros se entregam à oração e à penitência uns pelos outros. Isso é inegável e nós recebemos testemunhos todos os dias dessa verdade. Mas a experiência demonstra também que, em nossa condição decaída, é muito mais fácil que um cônjuge mundano arraste consigo o outro que vai à Igreja do que o contrário.

Alguém poderia perguntar ainda se, após o Concílio Vaticano II, a Igreja não teria mudado seu parecer a esse respeito, aceitando mais facilmente esses relacionamentos. Quanto a isso, é importante desfazer aqui um mal-entendido muito comum: o de que, nas coisas de Deus, “o que valia ontem não vale mais hoje e pode até mudar por completo amanhã”. Mudanças acidentais podem acontecer, é claro — como o Código de Direito Canônico, que efetivamente mudou, trazendo novos cânones sobre os casamentos mistos —, mas a sabedoria da Igreja tem uma linha de continuidade que não pode ser simplesmente rompida.

Veja-se, por exemplo, como o Catecismo da Igreja Católica, ainda que com palavras mais suaves, continua a ensinar a mesmíssima coisa que os Papas Leão XIII e Pio XI ensinaram:

“A diferença de confissão entre os cônjuges não constitui obstáculo insuperável para o casamento, desde que consigam pôr em comum o que cada um deles recebeu em sua comunidade e aprender um do outro o modo de viver sua fidelidade a Cristo. Mas nem por isso devem ser subestimadas as dificuldades dos casamentos mistos. Elas se devem ao fato de que a separação dos cristãos é uma questão ainda não resolvida. Os esposos correm o risco de sentir o drama da desunião dos cristãos no seio do próprio lar. A disparidade de culto pode agravar ainda mais essas dificuldades. As divergências concernentes à fé, à própria concepção do casamento, como também mentalidades religiosas diferentes, podem constituir uma fonte de tensões no casamento, principalmente no que tange à educação dos filhos. Uma tentação pode então apresentar-se: a indiferença religiosa.” [4]

Assim, seja com a linguagem pastoral mais firme de outros tempos, seja com a linguagem mais branda de agora, ouçamos o “cave” da Igreja: não se devem subestimar as dificuldades dos casamentos mistos. Quem já está decidido a entrar em um matrimônio desse tipo e deseja apenas conhecer os trâmites canônicos para tanto, basta consultar os cânones 1124 a 1129 do Código de Direito Canônico, aqui. Mas, para quem ainda está namorando ou pensando em fazê-lo, talvez seja melhor pensar — e rezar — um pouco mais sobre o assunto.

Referências

  1. Papa Bento XIV, Declaração “Matrimonia quae in locis”, 4 nov. 1741: DH 2518.
  2. Papa Leão XIII, Carta Encíclica “Arcanum”, 10 fev. 1880, n. 68.
  3. Papa Pio XI, Carta Encíclica “Casti Connubii”, 31 dez. 1930, n. 82-83.
  4. Catecismo da Igreja Católica, §1634.

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Beato Eustáquio, um taumaturgo no Brasil
Santos & Mártires

Beato Eustáquio,
um taumaturgo no Brasil

Beato Eustáquio, um taumaturgo no Brasil

Dotado dos carismas do conselho e da cura, pastor de almas e modelo de pároco, Padre Eustáquio Lieshout suportou com humildade e fortaleza as muitas incompreensões que sofreu durante a vida.

Pe. Pedro Paulo de Figueiredo,  Arautos do Evangelho30 de Agosto de 2018
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“Jesus partiu dali numa barca para se retirar a um lugar deserto, mas o povo soube e a multidão das cidades o seguiu a pé. Quando desembarcou, vendo Jesus essa numerosa multidão, moveu-se de compaixão por ela e curou seus doentes” (Mt 14, 13-14).

Os últimos anos da vida do Beato Eustáquio Lieshout no Brasil tiveram muita semelhança com essas cenas descritas no Evangelho: multidões que acorriam para lhe pedir ajuda espiritual ou cura de enfermidades, sendo todos atendidos com carinho de pai. E quando as autoridades eclesiásticas ou seus superiores, temerosos com as repercussões daquele movimento, mandavam-no para outros lugares, logo o povo descobria e acorria atrás de seu “santo”.

Nascido na Holanda em 3 de novembro de 1890 e ordenado sacerdote em 1919, o Beato Eustáquio desembarcou no Rio de Janeiro em 12 de maio de 1925. Seu destino: o povoado de Água Suja, no Triângulo Mineiro.

Situado às margens do Rio Bagagem, aquele local sofria dos males comuns às regiões de mineração muito afastadas, sendo marcado por enormes necessidades espirituais e materiais. O farol que iluminava a vida dura dos mineiros era o antigo santuário de Nossa Senhora da Abadia, onde se fixou o padre vindo da Europa.

Nos seus dez anos em Água Suja — cujo nome foi mudado para Romaria — ele iniciou a edificação do Santuário de Nossa Senhora da Abadia, que se tornou um grande centro de peregrinação.

Pai dos pobres e dos enfermos

Em Romaria, como nas cidades onde atuou depois, dedicou-se com extremo desvelo aos pobres e aos enfermos. Nas suas visitas às casas de seus paroquianos, servia até mesmo de médico e enfermeiro dos doentes.

Certo dia, numa choupana de Romaria, encontrou um menino cujo corpo era todo uma só chaga. Nem a mãe da criança tinha coragem de cuidar do pobrezinho. O Padre Eustáquio assumiu pessoalmente essa incumbência: dava-lhe banho todos os dias, lavava suas roupas, tirava com uma pinça os vermes que lhe corroíam a carne, da qual se exalava um insuportável mau cheiro, e aplicava as pomadas que ele próprio havia preparado. Em pouco mais de um mês, o menino estava curado.

Noutra ocasião, quando o pároco almoçava em companhia de seus auxiliares no modesto refeitório da casa paroquial, a campainha tocou, e um deles foi atender. Voltou pouco depois e sentou-se sem nada dizer.

— O que houve? — pergunta o Beato Eustáquio.

— Nada… nada de urgente. Estão querendo falar com o senhor… mandei esperar na sala de visitas.

— Não! Mandar esperar, nunca! O pároco é o escravo de seus paroquianos.

Dizendo isto, deixou na mesa a refeição inacabada e foi atender os visitantes.

Assim comportou-se o Padre Eustáquio durante seus 24 anos de sacerdócio. Com uma diferença: ele era o escravo de todos os necessitados, e não apenas de seus paroquianos.

O carisma da cura

Em Romaria, o Padre Eustáquio já fez algumas curas consideradas milagrosas. Mas foi em Poá (SP), para onde foi transferido, tomando posse como pároco em fevereiro de 1935, que esse dom começou a brilhar com maior intensidade, e sua fama de santidade começou a se espalhar irresistivelmente pelo Brasil inteiro.

Um dos maiores benefícios que o Padre Eustáquio fez à população daquela região foi vencer o indiferentismo religioso e resgatar numerosas almas que estavam se emaranhando nas teias da seita espírita.

Multidões cada vez maiores procuravam assiduamente o homem de Deus para pedir o alívio de seus sofrimentos espirituais e físicos. A afluência de povo era tão grande que chegaram a passar por Poá cerca de dez mil pessoas por dia.

A autoridade civil e a religiosa se inquietaram com isso. Por intervenção do Arcebispo de São Paulo — arquidiocese à qual pertencia então Poá — os superiores do Padre Eustáquio se viram obrigados a transferi-lo.

Nosso beato ficou chocado com a notícia. Não conseguia entender como poderia ser impedido de exercer um carisma que claramente Deus lhe havia concedido para o bem do povo. Mas, como pessoa virtuosa que era, obedeceu sem pestanejar.

Com ar de muito abatimento, deixou sua querida Poá no dia 13 de maio de 1941 sem nem sequer despedir-se das pessoas mais chegadas.

Teve de viver algum tempo oculto na cidade de São Paulo, numa situação humilhante, sob a vigilância de seus superiores, sendo até mesmo proibido de visitar seus amigos.

Desde a saída de Poá, a vida do Beato Eustáquio foi como a de um migrante. Onde quer que estivesse havia pessoas que o procuravam para lhe pedir ajuda, consolo e cura. Logo as multidões se lhe punham ao encalço, e isso causava desagrados e incompreensões. Quase invariavelmente, pouco depois era convidado a se retirar do local. É verdade que também recebeu mostras de carinho, como do Arcebispo de Campinas. Mas a par disso houve cenas constrangedoras, como quando foi obrigado a se retirar sem demora do Rio de Janeiro, ocasião em que nem lhe queriam dar tempo de rezar o breviário.

Chamado pelo jovem superior da comunidade da Congregação, em Patrocínio, Padre Eustáquio pôde finalmente encontrar sossego. Havendo chegado à cidade em outubro de 1941, ele sentiu-se de fato aliviado, pois seus companheiros de hábito, além de não lhe colocarem obstáculos, ainda o ajudaram nos seus labores apostólicos. Ali ele recebeu a comunicação de que o Arcebispo de Belo Horizonte queria sua presença em sua arquidiocese.

Na capital de Minas, onde chegou em 3 de abril de 1942, Padre Eustáquio assumiu a paróquia dos Sagrados Corações, na qual permanecerá até 30 de agosto de 1943, dia de sua morte. Após um início com algumas restrições, que fizeram temer a volta das sanções já aplicadas em outros lugares, o Beato pôde exercer com toda a liberdade os carismas da cura e do conselho, cumprindo a vocação para a qual o Senhor o destinara.

Acima de tudo, pastor de almas

Esse sacerdote exemplar, que sempre procurava remediar os males corporais, nunca se esquecia de que sua principal missão era salvar almas. E nesse apostolado “chegou a resultados que fazem lembrar os tempos da Igreja primitiva”, escreve seu biógrafo, o Pe. Venâncio, também da Congregação dos Sagrados Corações.

Repercutiram sensacionalmente na imprensa os milagres atribuídos ao Padre Eustáquio e há documentos de várias curas para as quais a ciência não tem explicação. Mas ele operou “milagres” muito mais importantes, e numa quantidade que de fato “fazem lembrar os tempos da Igreja primitiva”: a conversão de milhares de pecadores.

Passava seis horas por dia atendendo confissões. Não tinha dotes oratórios, mas possuía em alto grau o dom da palavra ardente que move ao arrependimento e à mudança de vida. Na paróquia de Poá, muitas vezes três coadjutores eram insuficientes para atender os penitentes que faziam fila diante dos confessionários após ouvir uma recomendação desse homem de Deus.

Durante um tríduo de pregações na maior igreja de Belo Horizonte, nos três dias verificou-se um fato inédito: terminado o sermão, centenas de homens de todas as classes e idades corriam ao confessionário, disputando o privilégio de serem os primeiros a se reconciliarem com Deus. Movimentação ainda maior ocorreu na páscoa dos funcionários públicos: mais de cinco mil pessoas obrigaram doze sacerdotes a socorrerem-no no atendimento de confissões.

Donde lhe vinha esse poder de arrastar os pecadores à conversão? Do esplendor de sua santidade

Vida interior exemplar

O Beato Eustáquio sabia que a alma de todo apostolado é a vida interior. Por isso, mesmo quando passava a noite em claro, começava o dia às cinco da manhã, para não se privar da hora de meditação quotidiana. Rezava o Rosário. Passava horas em adoração diante de Jesus Eucarístico. Nunca se dispensava de fazer seu exame de consciência nem de rezar o breviário.

Em certa ocasião, após um dia estafante, era noite alta e ele tinha de partir de viagem imediatamente. Vendo seu enorme cansaço, disse-lhe um bispo:

— Pe. Eustáquio, eu o dispenso de rezar o breviário hoje.

— Não posso, Excelência. O dia inteiro trabalhei para os outros, agora preciso pensar um pouco em mim mesmo.

Para esse religioso exemplar, a oração não era uma obrigação enfadonha, mas sim o alimento restaurador das energias. Fortalecido por ela, pôde ele realizar o empolgante lema de sua Congregação dos Sagrados Corações: “Para mim o trabalho, para o próximo a utilidade, para os Sagrados Corações a honra e a glória”.

Morte serena em meio a lancinantes dores

No dia 20 de agosto de 1943, atendendo a um doente que sofria de tifo exantemático, o Pe. Eustáquio contraiu essa grave enfermidade, então incurável.

Em dez dias partiria para a eternidade. Prostrado no leito do hospital, caminhando para a morte — que aliás ele mesmo profetizara — permaneceu sempre sereno em meio a sofrimentos atrozes, de tal modo que seus últimos dias foram dos mais edificantes de sua vida.

Várias vezes foi visto rezando a oração que ele mesmo costumava ensinar aos outros:

Ó meu Jesus, eu Vos amo. Eu Vos amo com a vossa Cruz, com o vosso sofrimento, com o vosso amor imenso. Ó Jesus, pelo sangue que derramastes e pelas lágrimas de vossa Mãe Santíssima, dai vista aos cegos, andar aos paralíticos, saúde aos enfermos, paz a todos os que sofrem e padecem. Meu Jesus, vossos passos quero seguir, vossas palavras falar, vossos pensamentos pensar, vossa cruz carregar, vosso Corpo comer, vosso Sangue beber, o pecado detestar e o Céu alcançar.

Nos seus derradeiros momentos, renovou os votos religiosos, e só deu o último suspiro depois de ver entrar em seu quarto, chorando e cansado por uma longa e estafante viagem, seu superior provincial, com quem queria estar de qualquer modo antes de morrer. Era 30 de agosto de 1943.

Suas exéquias foram uma apoteose nunca antes vista na capital mineira. Todos os jornais e emissoras de rádio lhe dedicaram grande espaço, comentando seus dons e transcrevendo sua biografia. Pode-se dizer que a quase totalidade da população compareceu para prestar-lhe as últimas homenagens. Sua tumba tornou-se desde logo local de peregrinação. Em 1949, seus restos mortais foram transladados para o interior da igreja que começara a construir.

Infinitamente mais importante, porém, é a glória com que foi recebido no Céu, à qual a Santa Igreja acrescentou a glorificação dos altares, beatificando-o no dia 15 de julho de 2006. Assim o apresentou como modelo para os fiéis do mundo inteiro, especialmente os párocos e os religiosos.

Referências

  • Texto publicado originalmente na Revista Arautos do Evangelho, Julho/2006, n. 54, pp. 31-33.

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Se todas as religiões são boas, por que seguir Jesus Cristo?
Doutrina

Se todas as religiões são boas,
por que seguir Jesus Cristo?

Se todas as religiões são boas, por que seguir Jesus Cristo?

Se todas as religiões são boas e iguais em essência, por que então veio Cristo, Ele mesmo, ensinar-nos uma nova religião? Apenas para atrapalhar os homens?

Frei Boaventura Kloppenburg29 de Agosto de 2018
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“Todas as religiões são boas e iguais, em essência, perante Deus”, dizem os espíritas. “Não somos contra nenhuma religião, pois julgamos todas boas”. “Todas levam, por diversos caminhos, para o mesmo fim”. “É tudo água da mesma fonte”. “A religião é uma questão de ética, e não de doutrinas”. “Basta fazer a caridade”.

Ora,

  • se Deus, em sua infinita bondade e misericórdia, nada nos tivesse revelado a respeito do modo como chegar a Ele;
  • se Deus tivesse deixado os homens em absoluta ignorância a respeito da vida após a morte;
  • se não houvesse nenhum mandamento positivo de origem certamente divina;
  • se o Verbo eterno não tivesse assumido a natureza humana e “habitado entre nós” (Jo 1, 14);
  • se Cristo não tivesse percorrido a Galiléia e Judéia “ensinando” (cf. Mt 5, 2; 13, 54; Mc 1, 21; 2, 13; 4, 2; 10, 1; Lc 4, 15; 4, 31; 5, 3; Jo 7, 14; 8, 2; etc.);
  • se Cristo Jesus fosse apenas um mito inventado por alguma fantasia piedosa;
  • ou se Cristo não tivesse dado nenhuma outra ordem senão que nos “amássemos uns aos outros”;
  • ou se Cristo não tivesse enviado os Apóstolos pelo mundo com a ordem solene e expressa de “pregar a todos os povos o seu Evangelho” (Mc 16, 15), nem tivesse dado a ordem de “ensinar a todas as gentes a observar tudo que Ele mandara” (cf. Mt 28, 18-20);
  • se Jesus não tivesse prescrito tantas outras coisas como absolutamente necessárias “para a vida eterna” (por exemplo, Jo 3, 5: “Quem não renascer pela água e o Espírito, não pode entrar no Reino de Deus”; Jo 3, 36: “Quem crê no Filho tem a vida eterna; quem, pelo contrário, descrê do Filho não terá a vida, mas pesa sobre ele a ira de Deus”; Jo 6, 53: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós”; Jo 15, 6: “Quem não ficar em mim, será lançado fora como o sarmento e secará”; Lc 13, 3: “Se não vos converterdes, perecereis todos”; Lc 8, 23: “Quem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, carregue a sua cruz, dia por dia, e siga-me”; Lc 14, 27: “Quem não carregar a sua cruz e me seguir, não pode ser meu discípulo”; Lc 14, 33: “Não pode nenhum de vós ser meu discípulo, se não renunciar a tudo quanto possui”; Mt 10, 38: “Quem não tomar a sua cruz e me seguir, não é digno de mim”; Mc 16, 16: “Quem crer e for batizado, será salvo; mas quem não crer, será condenado”);
  • se não estivesse tão claramente anunciado que “não há salvação senão nele (em Cristo), porque debaixo do céu não foi dado aos homens outro nome em que nos cumpra operarmos a nossa salvação” (At 4, 12),

Se não fosse tudo isso, então, sim, poderíamos, talvez, dizer que todas as religiões são boas. No entanto,

  • sabemos e temos certeza de que “muitas vezes e de modos diversos falou Deus, antigamente, aos nossos pais pelos profetas; nos últimos dias, porém, falou-nos por meio de seu Filho, a quem constituiu herdeiro universal” (Hb 1, 1-2);
  • sabemos que “toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, a fim de que o homem seja perfeito” (2Tim 3, 15s);
  • sabemos que os autores sagrados da Bíblia “falaram por impulso do Espírito Santo” (2Pd 1, 21);
  • sabemos que Cristo nos deu tantas e tão várias ordens, das quais fez depender a nossa salvação eterna.

Por tudo isso, devemos afirmar e conceder que nem todas as religiões são boas e iguais, em essência, perante Deus. Quem é o homem para levantar-se contra Deus ou contra seu Filho Unigênito? Se Deus estabeleceu positivamente meios de salvação, se prescreveu e indicou caminhos de chegar a Ele, se deu ordens expressas e bem determinadas, se fez declarações terminantes neste sentido, então é justo e necessário que o homem obedeça e siga as prescrições divinas. Fazer e propagar o contrário seria revolta aberta contra Deus.

E, infelizmente, há pessoas assim, que se levantam contra o Criador. São João abre o seu Evangelho com uma grande mensagem que, ao mesmo tempo, contém gravíssimas denúncias:

No princípio era o Verbo… e o Verbo era Deus… Todas as coisas foram feitas pelo Verbo… Nele estava a vida; e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, mas as trevas não a compreenderam… Veio ao mundo a luz verdadeira que ilumina a todo o homem. Estava no mundo; o mundo foi feito por Ele; mas o mundo não o conheceu. Veio ao que era seu, mas os seus não o receberam. A todos, porém, que o receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os que crêem no seu nome, os que nasceram… de Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.

É evidente que este Verbo, que “era Deus” e a “luz do mundo”, é Cristo Jesus. Os espíritas contestam obstinadamente que o Verbo “era Deus” e, por isso, são do número daqueles que não o compreenderam nem o conheceram nem o receberam… Dizer, pois, com os espíritas, que todas as religiões são boas; que não é preciso seguir a mensagem do Verbo, e toda a mensagem; que basta a caridade somente; que todas as religiões levam, por diversos caminhos, para o mesmo fim, e outras frases semelhantes, é revoltar-se contra Deus e contra Cristo.

Respondam-nos, portanto, os espíritas às seguintes perguntas: se todas as religiões são boas e iguais em essência, por que então veio Cristo, Ele mesmo, ensinar-nos uma nova religião? Apenas para atrapalhar os homens? Por que então insistiu Cristo tanto na necessidade da fé em suas palavras? Por que mandou Ele os Apóstolos pregar a todos os povos (que já tinham uma religião!) o Evangelho dele? Apenas para aumentar a confusão? Por que então declararam os Apóstolos que “não há salvação senão em Cristo” (At 4, 12)?

Se é verdade que todas as religiões são boas e iguais, então foi imperdoável a exigência de Cristo em fazer de todos os homens discípulos seus; então foram uns bobos aqueles numerosos mártires que preferiram morrer a renegar os ensinamentos de Cristo, para aderir a outra religião; então foram uns insensatos os Apóstolos e os missionários de todos os tempos, que, entre mil perigos e longe da pátria, correram e ainda hoje correm o mundo para levar a todos a mensagem cristã.

Se é verdade que todas as religiões são boas e iguais, por que então não deixam os espíritas aos brasileiros a religião católica, que mais de 90% afirma ter? Ou será que, segundo eles, todas as religiões são boas, menos a católica? Ou pensam eles que o Brasil é um país sem religião alguma? Se é verdade que todas as religiões são boas e iguais em essência, por que proclamou então Allan Kardec, em suas Obras Póstumas, que “o Espiritismo é a única tradição verdadeiramente cristã, a única instituição verdadeiramente divina e humana”?

Se todas as religiões são boas e iguais, então a vida mortificada dum São Pedro de Alcântara, glorioso padroeiro do Brasil, vale tanto aos olhos de Deus como a de um sultão turco no seu harém com 150 mulheres! Então Moisés, Brama, Marte, Júpiter, Lutero, Buda e Cristo (perdão, meu Deus!), todos merecem em igual medida os nossos respeitos! Então tanto faz se eu, com os astecas, sacrifico milhares de vidas humanas ou, com outros, adoro um touro, um gato, uma cegonha, o sol, a lua ou presto culto a Satanás.

Tudo isso será bom e igual, em essência, perante Deus?

Referências

  • Extraído e adaptado de Fr. Boaventura Kloppenburg, Resposta aos Espíritas, Rio de Janeiro: Vozes, 1954, pp. 17-21.

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O Evangelho imutável de Cristo
Doutrina

O Evangelho imutável de Cristo

O Evangelho imutável de Cristo

Jesus Cristo é o único Paradigma e permanece vivo dentro da Igreja Católica. Não cabe a nós modificá-lo, adaptá-lo ou enfeitá-lo, mas, sim, aceitá-lo humildemente na fé, internalizá-lo na oração e vivê-lo na caridade.

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Agosto de 2018
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Em seu famoso Essay on the Development of Christian Doctrine (“Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã”, sem tradução para o português), o Beato John Henry Newman diz que, “embora seja diferente em um mundo superior, viver aqui embaixo é mudar, e ser perfeito é ter mudado várias vezes”. Essa afirmação é geralmente tirada do contexto por liberais e progressistas, que a citam para servir à sua agenda de subversão contínua na Igreja.

Um exame do contexto mostra, porém, o que Newman está realmente querendo dizer: enquanto a essência da fé cristã nunca muda, suas aparências externas, a amplitude e complexidade de sua expressão mudam — e não de qualquer modo, mas rumo a uma expressão mais perfeita e completa. Newman não poderia jamais ser legitimamente forçado a apoiar quaisquer “novos paradigmas” no cristianismo. De fato, ele deixou a Igreja Anglicana porque começou a acreditar que ela havia se afastado do único Paradigma original, que permanecia vivo dentro da Igreja Católica.

Como todo Padre e Doutor da Igreja, Newman acreditava que a humanidade havia recebido, de uma vez por todas, o Paradigma, na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, em sua doutrina divina e na sagrada liturgia, e que não cabia a nós modificá-lo, adaptá-lo ou enfeitá-lo, mas, sim, aceitá-lo humildemente na fé, internalizá-lo na oração e vivê-lo na caridade, tudo pelo poder da graça de Deus.

Às vezes, os costumes de seres humanos decaídos, como a escravatura, ainda que amplamente disseminados e tidos como legítimos, contradizem o Paradigma; assim, devem dar lugar à sua força irresistível. O Paradigma, em si mesmo, permanece firme, como uma rocha inamovível.

De acordo com a Escritura e a Tradição, o cristão é aquele que se aferra a princípios inamovíveis, a saber, as verdades divinamente reveladas sobre Deus, o homem, o mundo, nossa condição e nossa salvação. Esses princípios não mudarão jamais, em hipótese alguma, não importa o quanto mudem a cultura, a civilização, a sociedade, as leis, os costumes ou os comportamentos das pessoas. As páginas da história da Igreja estão repletas de incontáveis exemplos de santos que se aferraram de tal modo à Lei de Deus a ponto de preferirem morrer a agir contra ela ou permitirem que qualquer um o fizesse.

Essa atitude intransigente é notavelmente percebida em todos os Papas anteriores à modernidade, que viam o mundo secular marchando rapidamente rumo à própria destruição — um pessimismo amplamente confirmado pelos eventos subsequentes até a nossa época — e que opuseram a esse mundo o Evangelho imutável de Cristo, com suas elevadas exigências morais e sua promessa ainda mais elevada de socorro espiritual para aqueles que O invocam, e bem-aventurança final para os que nEle esperam.

Um dos “slogans” mais populares na pregação de hoje nas igrejas é: “Deus ama você do seu jeito”. Eu realmente sinto muito em dizê-lo, mas isso é falso, perniciosamente falso. Como disse certa vez o professor Anthony Esolen: “Eu não quero ouvir que não sou um pecador. Eu quero ouvir que preciso me converter”.

Se Deus nos ama simplesmente do jeito que somos, é o fim da religião. Não há necessidade alguma de conversão, arrependimento ou sacrifício. É precisamente porque não está tudo bem ser como somos que Deus se fez homem, morreu na Cruz e deu-nos os meios de nos juntarmos a Ele em sua morte e vida ressuscitada. Sim, Cristo morreu por nós quando éramos ainda pecadores — mas a fim de tornar-nos amigos seus, ou seja, para que, com sua graça e nosso esforço sincero, deixássemos de ser pecadores. Se já estamos “no ponto” sendo pecadores, Cristo morreu em vão, e nossa fé também é vã.

Nada impuro entrará no Céu. Portanto, nós devemos ser purificados de todos os nossos pecados, de seus efeitos duradouros sobre nós e até das simples sugestões de pecado, se quisermos entrar no Céu. E, mais uma vez, eu sinto muito em dizê-lo, meus amigos, mas o Purgatório não é o lugar onde pecados mortais são perdoados. Isso tem de acontecer nesta vida — ou não acontecerá jamais.

Se me permitem parafrasear Newman: “Embora seja diferente em um mundo superior, ser salvo aqui embaixo é se arrepender, e ser santo é ter-se arrependido várias vezes”. Nós nos arrependemos de nossa infidelidade para com o Paradigma, a Lei de Deus, o Evangelho de Cristo, o Deus três vezes Santo. O Paradigma é a rocha, e nós devemos lançar nossos pecados contra ela. Um “novo paradigma”, uma “mudança de paradigma”, tudo isso não passa de ficções do demônio.

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