CNP
Christo Nihil Praeponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
“Sou um diabo, não um santo!”
Espiritualidade

“Sou um diabo, não um santo!”

“Sou um diabo, não um santo!”

Os santos da Igreja Católica “sabiam que, se chegassem a perder a luz divina, poderiam cometer culpas horrendas”.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Maio de 2018
imprimir

“Vai-te embora, eu sou um diabo, e não um santo!” [1] — Era com palavras fortes assim que o grande São Filipe Néri, fundador dos Oratorianos — um homem que levitava, literalmente, enquanto rezava e cuja santidade ninguém ousaria pôr em dúvida —, reagia quando o honravam; era assim que ele se humilhava quando o exaltavam.

Muito antes dele, foi da mesma forma que agiu São Pedro, príncipe dos Apóstolos, primeiro Papa, o homem a quem Cristo confiou o governo de sua Igreja e as chaves do Reino dos céus, quando Cornélio saiu-lhe ao encontro, “caiu a seus pés e se prostrou diante dele”: “Levanta-te”, ordenou Pedro. “Eu também sou apenas um homem” (At 10, 26).

Então quer dizer que os santos não queriam que nós lhes prestássemos culto? Os protestantes estão certos, afinal de contas?

Devagar com o andor porque — literalmente, neste caso — o santo é de barro. Para entender essas atitudes de São Filipe Néri e São Pedro, é necessário lembrar que o tesouro da graça, nesta vida, nós todos o trazemos “em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós” (2Cor 4, 7).

Os santos, enquanto estavam neste mundo, mandavam levantar os que se prostravam diante deles não porque fossem iconoclastas — eles mesmos, sendo católicos, veneravam os santos que os precederam e pediam-lhes a intercessão —, mas porque não queriam ser glorificados antes do tempo; não queriam receber a glória dos homens antes de receber a glória definitiva de Deus, no Céu. Além disso, eles tinham consciência de que a santificação é uma obra da graça divina, não um mérito nosso.

“Negação de Pedro”, por Carl Bloch.

Poderíamos dizer, simplesmente, que São Filipe Néri e São Pedro eram humildes, mas, sendo mais claro e direto, os santos não queriam culto para si próprios porque tinham uma noção da realidade. “Qual o motivo que fazia os santos implorar incessantemente a luz divina”, perguntava-se Santo Afonso de Ligório, “temendo converter-se nos pecadores mais abomináveis do mundo?” E responde: “É porque sabiam que, se chegassem a perder a luz divina, poderiam cometer culpas horrendas.” [2]

Sim, os santos da Igreja Católica… afastados de Deus… “poderiam cometer culpas horrendas”. E ninguém se espante com isso. Porque está tudo nos próprios Evangelhos. São Pedro, que morreu professando as verdades da fé, foi o mesmíssimo Apóstolo que, querendo seguir a Cristo de longe, querendo ser cristão “do seu jeito”, negou três vezes a Jesus: mentiu e disse que não O conhecia (cf. Mt 26, 69-75; Mc 14, 66-72; Lc 22, 54-62; Jo 18, 25-27). Ao repreender o Senhor quando Ele predisse sua Paixão, esse mesmo apóstolo que hoje nós veneramos como santo foi chamado por Cristo de diabo: “Vai para longe de mim, Satanás!” (Mt 16, 23)

Por isso, São Filipe Néri chamando a si mesmo “diabo” não é exagero retórico nem humildade empostada. É simplesmente a condição do homem, quando afastado da graça de Deus. Santa Teresa d’Ávila revela ter visto, em sua autobiografia, “o lugar que os demônios tinham preparado” para ela, e por isso ela dizia: “Que Sua Majestade nunca tire a sua mão para que eu não volte a cair, pois já vi onde iria parar” [3]. Às suas monjas ela escrevia, noutro lugar, o seguinte:

Um homem espiritual disse-me certa vez que não se espantava com o que faz aquele que está em pecado mortal, mas com o que não faz. Que Deus, em sua misericórdia, nos livre de tão grande mal, pois só há uma coisa, enquanto vivemos, que de fato merece esse nome, já que acarreta males eternos e sem fim: o pecado. Isso, filhas, é o que deve nos atemorizar e o que havemos de pedir a Deus em nossas orações. Se Ele não guardar a cidade, trabalharemos em vão, pois somos a própria vaidade. [4]

Prestemos atenção às palavra deste santo Doutor da Igreja: “só há uma coisa, enquanto vivemos”, que merece o nome de “mal”, por acarretar “males eternos e sem fim”, e esta coisa é o pecado.

Ensinamento semelhante é o que encontramos no livro “Apologia pro vita sua”, do bem-aventurado John Henry Newman, católico convertido do protestantismo, oratoriano e cardeal da Igreja Católica — uma das mais belas linhas já escritas a esse respeito:

A Igreja Católica assegura que é preferível ver o sol e a lua caírem do céu, a terra desaparecer, os milhões de seres humanos que a povoam morrerem de fome na pior das agonias, até onde possa chegar a aflição temporal, a admitir que uma só alma, não digo, se perca, mas cometa um único pecado venial, diga voluntariamente uma pequena mentira ou roube sem escusa alguns miseráveis centavos. [5]

A pergunta que nos precisamos fazer, antes mesmo de qualquer exame de consciência, é se nós ainda cremos nisso — se é que alguma vez já acreditamos. Temos consciência da gravidade do pecado, ou para nós tanto faz? Acreditamos que o pecado acarreta, de fato, “males eternos e sem fim”, ou estamos anestesiados pelo espírito do mundo? A nossa fé é a fé da Igreja ou estamos rendidos às ilusões e mentiras que os homens contam? Cremos no que Cristo revelou e ensinou a seus Apóstolos ou, ao contrário, nós temos um evangelho moldado à nossa própria medida, um céu rebaixado à nossa própria mesquinharia, um “inferno vazio” em que possamos nos fiar para viver do modo como quisermos?

Para ilustrar melhor aonde queremos chegar, deixemos falar, de novo, o Cardeal Newman:

Eu sei que os homens fazem declarações solenes, gabando-se de serem cristãos e falando do cristianismo como uma religião do coração. Mas, quando pomos de lado palavras e declarações, e tentamos descobrir qual é a sua religião, acabamos por descobrir, eu receio, que a grande massa dos homens, de fato, se livra de toda religião que seja interior; que eles não dão importância alguma nem a atos de fé, esperança e caridade, nem à pureza de intenção, nem à mortificação dos próprios pensamentos; que eles desconhecem palavras como contrição, penitência e perdão; e acham e argumentam que, no final das contas, se um homem cumprir seu dever neste mundo, de acordo com sua vocação, é impossível que ele não vá para o Céu, não obstante o quão pouco ele faça além disso ou, até pior, não obstante o quanto ele faça, em outras matérias, de inegavelmente ilícito. [6]
“John Henry Newman”, por John Everett Millais.

Trocando em miúdos, o Cardeal Newman está falando… de nós!, de pessoas que se dizem cristãs, mas que acreditam no que lhes dá na telha:

  • Jesus ensina que é preciso termos para nos salvarmos (cf. Jo 3, 18); nós achamos que basta “ser bom” (seja lá o que isso quer dizer) e ninguém se perderá.
  • A Igreja nos manda “confessarmo-nos ao menos uma vez ao ano” (e qualquer pessoa com o mínimo de fé sabe que… é o mínimo!), mas nós achamos que não precisa, porque “o que importa é o coração”, “o padre é tão pecador quanto eu” e “Deus já sabe os meus pecados” (se é que alguma vez acreditamos na existência do pecado).
  • O Evangelho nos fala, bem claramente, para fazermos “todo esforço possível para entrar pela porta estreita”, porque “muitos tentarão entrar e não conseguirão” (Lc 13, 24); nós, porém — eis a que ponto chega a petulância humana —, discordamos de Deus! Se alguém cumpre seus deveres mundanos nesta vida, dizemos e pensamos, “é impossível que não vá para o Céu”, não importa o quão pouco se esforce, não importa o quanto apronte (“não roubando e não matando…”, é claro, porque aí já seria demais).

Em resumo, nós deixamos de crer como católicos. Temos fé em nós mesmos, nos gurus que nós mesmos criamos ou até em algumas coisas que a Bíblia diz… mas não “em tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica”.

— É difícil acreditar em tudo — alguém dirá. É difícil, sim, de fato. Mas “dez mil dificuldades não fazem uma dúvida” [7]. A doutrina da Igreja nos foi deixada por Deus para ser crida, não para ser conveniente ou para afagar nossas próprias misérias. A palavra da Igreja para nós deve ser uma palavra de desafio, e não de consolação meramente humana.

Por mais difícil que seja viver de acordo com essa doutrina, por mais doloroso que seja abandonar nossa mentalidade mundana, nossos hábitos destrutivos, nossos “pecados de estimação”… Ou nós temos na fé na palavra de Cristo, antes de qualquer coisa, ou sequer seremos capazes de nos arrepender dos nossos pecados. Ou nós cremos que o pecado nos leva ao inferno e que só a graça de Deus pode nos salvar… ou seremos diabos, até o fim.

Curioso que tenha sido justamente este o pecado dos anjos: querer ser igual a Deus sem a graça; querer ser igual a Deus prescindindo dEle. Não seja este, também, o nosso destino. Queiramos Deuse queiramo-lo enquanto Ele quer ser achado por nós. Não aconteça de, voltando o Filho do Homem, não encontrar fé sobre a terra (cf. Lc 18, 8); não nos aconteça de, voltando para nós o Filho do Homem, não encontrar fé sobre a terra… do nosso coração.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

“Eu fui estuprada violentamente aos 16, mas o aborto foi muito pior”
Pró-Vida

“Eu fui estuprada violentamente aos 16,
mas o aborto foi muito pior”

“Eu fui estuprada violentamente aos 16, mas o aborto foi muito pior”

“Algo terrível aconteceu naquela noite. Mas nem se compara com a dor e o remorso que eu fui acumulando, e que Satanás foi acumulando sobre mim, ao longo dos anos que se seguiram ao aborto.”

Tammy,  Save the 1Tradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Maio de 2018
imprimir

Aos 16 anos de idade, poucos dias antes de meu 17.º aniversário, tive meu primeiro encontro [1]. Eu estava nervosa. Ele jogava futebol americano e era popular. Nós comemos e assistimos a um filme. Eu ainda tinha algum tempo antes de voltar para casa, então fomos dar umas voltas de carro na região rural em que morávamos. Fomos a uma das propriedades de sua família e fizemos um passeio olhando cavalos. Meu primeiro encontro, que parecia para mim como um sonho completo, converteu-se imediatamente em um pesadelo, quando ele me estuprou com violência em um celeiro.

A princípio, eu não contei nada a ninguém. Afinal de contas, logo depois ele me ameaçou, dizendo que eu me arrependeria se contasse para alguém, que ele acabaria comigo e que ninguém acreditaria em mim. Algumas semanas depois, eu contei tudo a uma amiga. Depois de conversar com algumas pessoas e de descobrir que ele já havia espalhado sua própria versão do que havia acontecido naquela noite, de fato, ninguém acreditou em mim. Pessoas em quem eu confiava, pessoas que eu amava, pessoas que eu esperava que fossem me apoiar, não fizeram nada disso. Comecei então a negar tudo aquilo para mim mesma e tentar apagar da minha memória o que tinha acontecido.

Na ocasião, eu não pensei muito sobre a possibilidade de estar grávida, porque eu tinha uma visão distorcida sobre o assunto: já que tinha sido um estupro, pensei, era de alguma forma menos provável que eu ficasse grávida. Foi só quando comecei a sentir os sintomas que passei a me dar conta de que, talvez, eu pudesse estar grávida.

Peguei o carro sozinha e fui a uma cidade diferente para comprar um teste de gravidez. Fiz o teste no banheiro de um posto de combustível, a fim de que ninguém em minha terra natal soubesse de nada. Antes de fazê-lo, eu já tinha meio que planejado o que faria se o teste desse positivo: eu tinha o nome de um “centro para crise na gravidez” (CCG, ver nota), que eu pensava ser uma clínica de aborto [2]. Eu estava muito assustada e revoltada ali, sozinha, no banheiro daquele posto. Estava revoltada com Deus, perguntando como Ele poderia ter deixado aquilo acontecer comigo, e comigo mesma, por ter me colocado em uma situação de permitir que aquilo acontecesse.

De um telefone público, liguei para o CCG e eles disseram que eu poderia ir até lá imediatamente. Foi o que fiz. Estava a cerca de uma hora de carro. A essas alturas, já não confiava em ninguém e tinha escolhido não contar nada, nem a amigos, nem a nenhum familiar. Senti que isso só confirmaria o que as pessoas já estavam dizendo sobre eu estar “inventando um estupro”. Fui ao CCG porque pensei que se tratava de uma clínica de aborto, na esperança de ter um naquele mesmo dia.

As pessoas ali foram muito gentis comigo e contaram-me tudo o que eu já sabia sobre a vida que estava dentro de mim. Não me senti em nenhum momento julgada por eles. Eles só tinham alguns dias específicos da semana em que realizavam ultrassonografias, e eu teria de retornar dois dias depois para fazer uma. Chorando, eu lhes disse que estava tão apavorada que não conseguiria encarar as pessoas por causa da gravidez; disse ainda que iria a uma clínica de aborto assim que saísse dali. As conselheiras me disseram que, mesmo que eu passasse por um aborto, eu poderia sentir-me bem-vinda para voltar lá e falar com elas sobre isso. Até o dia de hoje, 17 anos depois, eu ainda tenho amizade com uma dessas pessoas.

Estremecendo com medo de enfrentar o ridículo, esgotada por causa das calúnias que o estuprador já estava espalhando a meu respeito, dirigi-me a uma clínica de aborto naquele mesmo dia. Era o oposto do CCG: este era caloroso e acolhedor, mesmo passando a impressão de uma clínica médica; a clínica de aborto era fria e sem vida. Havia pessoas na sala de espera, mas ninguém era capaz de olhar um para o outro ou reconhecer, de alguma forma, a presença das outras pessoas. Não houve privacidade nem delicadeza alguma para se falar com a recepcionista a meu respeito. Ela disse que eles poderiam me examinar, mas eu teria de agendar um retorno para fazer o procedimento no dia seguinte. Respondi a ela que não poderia faltar à escola outro dia, então ela disse que eles dariam um jeito de cuidar do meu caso.

Não houve nenhuma espera e nenhuma pergunta. A preocupação deles se resumia a saber se eu tinha dinheiro para lhes pagar. Eles sequer deram bola para o fato de eu estar sozinha. Foi absolutamente a pior experiência da minha vida — pior até mesmo que o estupro. Eu ficava dizendo para mim mesma que tudo iria ficar bem, que eu havia sido estuprada, então eu estava justificada, e eu iria superar isso. Eu não acreditava em nada daquilo, por isso eu ficava repetindo para mim mesma sem parar. Dizia a Deus que era tudo culpa dele. Eu estava muito nervosa na hora. Mas eu sabia que havia um bebê dentro de mim. Eu sabia que a vida começava com a concepção, mas, na minha cabeça de 17 anos, eu simplesmente não estava conectando as coisas.

A clínica de aborto estimou que eu tinha entre 14 e 16 semanas de gravidez, então eles usaram ultrassom durante o procedimento. O monitor estava virado, então eu não podia ver. Eu não sei se ele parou de funcionar, ou se a enfermeira cometeu um erro, mas eu escutei o coração do meu filho bater, e foi então que a conexão finalmente aconteceu. Eu disse ao médico que queria que ele parasse, mas ele disse que era tarde demais para parar. Então eu apaguei, porque eles me deram um Diazepam para relaxar. As enfermeiras ajudaram a me limpar e a me vestir. Elas faziam tudo bem rápido porque precisavam do lugar. Eu não me sentia pronta nem para me mover nem para ir a lugar algum, mas elas não estavam nem aí: não se preocuparam com o que eu estava sentindo, não se ofereceram para me levar até o meu carro, nem perguntaram se alguém podia dirigir para mim.

Entrei no carro com dores e chorei por duas horas antes de sequer pensar em voltar para casa. Eu não deveria nem mesmo ter pegado o carro naquele dia. O problema estava resolvido de acordo com o “protocolo” social, e eu deveria estar aliviada e pronta para seguir em frente com a minha vida, mas alívio foi a última coisa que eu senti naquele momento. Eu me lembro de ter um diálogo comigo mesma, uma espécie de diálogo entre o bem e o mal: “Você fez o que tinha de fazer”, disse primeiro. “Você acha mesmo que tinha outra opção? A maioria das pessoas entenderia o que você acabou de fazer.” Mas então eu disse para mim mesma: “Você sabia que era um bebê. Como você pôde? Você é uma pessoa horrível.” Eu pensei que não podia ser realmente uma cristã, tendo feito o que acabara de fazer.

Por muitos anos, eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para dar um fim àquela dor. Tenho poucas lembranças da faculdade, porque eu estava sempre bebendo. Também lutei com uma desordem alimentar e, honestamente, não sei como sobrevivi, não fosse pela graça de Deus. Eu ainda frequentava a igreja durante esse tempo, mas parte de mim se sentia morta e eu ainda me perguntava: “Como Deus poderia me amar? Como Ele poderia um dia me perdoar por ter assassinado meu filho?

Depois de muito aconselhamento eu parei de beber e diminuí a desordem alimentar. Durante as sessões de terapia, nós focamos no estupro por um certo tempo e trabalhamos nisso, o que me ajudou, mas quase nunca tocávamos no assunto do aborto. Minha terapeuta chegou a me dizer: “Você fez realmente o que tinha de fazer naquela situação. Você tinha sido estuprada.”

Encontrei um rapaz cristão na igreja, e nós nos abstivemos de relações sexuais até nossa noite de núpcias. Senti que eu já tinha lixo o suficiente na minha vida e queria fazer as coisas direito, honrar a Deus. Mas o tempo passava e eu ainda sofria de depressão e lutava com minha desordem alimentar.

Eu sempre senti que, por causa da experiência que eu havia tido com o CCG, mais tarde na minha vida eu gostaria de me envolver com esse tipo de ministério. Nós tínhamos acabado de celebrar o National Sanctity of Human Life Day (lit., “Dia Nacional da Santidade da Vida Humana”) na minha igreja, e eu contei a meu pastor que o CCG mais próximo de nós estava a cerca de uma hora de distância, e que havia uma grande necessidade de um centro em nossa área. Ele sentiu que Deus estava me inspirando, e encorajou-me a começar um centro local.

Então eu reuni pessoas e começamos a planejar a instalação de um CCG. Durante esse processo, ao visitar outros centros e aprender os serviços que eram oferecidos aí, pela primeira vez ouvi falar do ministério pós-aborto. Eu me aprofundei em leituras sobre síndrome pós-aborto e me dei conta de que era esse o meu grande problema, o motivo pelo qual eu sofria tanto. Tudo passou a fazer sentido.

Então, alguns anos atrás, fui a um estudo bíblico sobre aborto, onde finalmente entendi e aceitei o perdão e a graça de Deus. Com isso, também superei a desordem alimentar que eu tinha. Ainda fico deprimida às vezes, mas é algo controlado, que não domina mais a minha vida. Comecei agora um ministério pós-aborto através de nosso CCG local e estou ajudando outras mulheres a se curarem desse trauma.

Estou aqui para dizer que o aborto nunca é a solução. Ele só fará com que uma situação já dolorosa e difícil se torne ainda pior. Durante meu procedimento de aborto eu fiquei aterrorizada. Fiquei fazendo perguntas sobre o que estava prestes a acontecer e ninguém parecia querer me dar uma resposta. Olhando para trás, acho que eles queriam correr comigo antes que eu tivesse a oportunidade de mudar minha cabeça.

Por muitos anos depois do que aconteceu, eu sofria crises de ansiedade e até ataques de pânico às vezes, sempre que eu escutava qualquer coisa remotamente parecida com a batida de um coração. Por muito tempo eu não entendi a que exatamente eu estava reagindo. Só muitos anos depois, quando meu marido e eu estávamos esperando nosso primeiro filho, eu passei a relacionar minha ansiedade a certos sons.

Eu vivi meu próprio inferno privado até passar por um estudo bíblico sobre aborto e encontrar a cura. A dor que eu senti por todos aqueles anos literalmente parecia que ia me matar às vezes. Eu estava muito deprimida. Houve momentos em que eu me cortei pensando que isso poderia liberar um pouco da dor que eu sentia dentro de mim. Houve muitos momentos em que eu pensei em dar um fim à minha vida e outras tantas vezes eu cheguei perto de tentar. Eu honestamente pensei que minha desordem alimentar iria eventualmente me matar, e essa se tornou, na verdade, a minha intenção com os comportamentos doentios que eu tinha. Era como se eu merecesse sofrer, sem viver nada que se parecesse com uma vida feliz, por causa do que eu havia feito.

Eu quero que as pessoas ouçam minha história. Por mais difícil que seja, elas precisam ouvir. Algo terrível se passou comigo naquele encontro, naquela noite. Naquela ocasião, eu fui traída pelas pessoas mais próximas a mim. Tudo isso foi extremamente doloroso, mas nem se compara com a dor, a culpa, a vergonha, o remorso ou o ódio a mim mesma que eu fui acumulando, e que Satanás foi acumulando sobre mim, ao longo dos anos que se seguiram ao aborto.

Na época, eu pensei estar justificada pelo que eu tinha feito, porque eu não tinha escolhido estar naquela situação: eu tinha engravidado por causa de um estupro. Eu sabia que havia uma vida dentro de mim, mas achava que não tinha importância, por causa do modo como ela tinha ido parar lá. Eu nunca estive tão errada. Abortar uma criança que é resultado de um estupro afeta a mulher como em qualquer outra circunstância. Trabalhando no CCG, tenho conversado com muitas mulheres que passaram por um aborto ao longo dos anos, e o que eu aprendi é que nós todas partilhamos a mesma dor. Não há absolutamente diferença nenhuma. O resultado final é sempre o mesmo.

Minha esperança é que, ouvindo a minha história, mais vítimas de estupro falem sobre suas experiências também, a fim de darmos um basta à história de que o estupro justifica a legalização do aborto. Eu amo e me compadeço da vida daquela criança, assim como faria com qualquer um dos meus outros filhos. Todos os dias eu penso quantos anos ela teria e com quem ela se pareceria se estivesse viva. Eu não sei se a teria criado por mim mesma ou entregado à adoção, mas é terrivelmente injusto que ela não tenha tido uma chance de viver. Ainda que a vida dela tenha sido abreviada por causa do aborto, isso não impediu que a sua existência tivesse sentido e propósito: contando minha história a você, eu faço memória da minha filha e asseguro que a vida dela não foi em vão.

Referências

  1. Tammy é esposa, mãe de duas crianças, coordenadora de um ministério pró-vida, membro de um “centro para crise na gravidez” e escritora pró-vida no site “Save the 1” (nota da autora).
  2. Os chamados crisis pregnancy centers (CPCs) são clínicas que, nos Estados Unidos, onde o aborto é legalizado, aconselham mulheres com dificuldades na gravidez a não seguirem esse caminho. A confusão de Tammy se explica pela estratégia, adotada por esses centros pró-vida, de se parecerem imparciais — o que, nem é preciso dizer, ajuda a salvar muitas vidas, não obstante as críticas ferozes da imprensa liberal e de grupos pró-aborto à iniciativa (nota do tradutor).

Recomendações

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

O santo que lutou sozinho contra o mundo inteiro
História da Igreja

O santo que lutou sozinho
contra o mundo inteiro

O santo que lutou sozinho contra o mundo inteiro

Quando a cristandade inteira, de repente, se viu dominada pela heresia ariana, Deus levantou um homem para portar o estandarte da ortodoxia.

Christopher Check,  Crisis MagazineTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Maio de 2018
imprimir

Quem de nós não gostaria de voltar atrás e testemunhar em primeira mão certos momentos da história da Igreja — certos momentos decisivos?

Eis alguns dos meus.

Na véspera da Batalha de Lepanto, sem levantar a voz, Dom João de Áustria silenciou seus almirantes que brigavam. “Cavalheiros”, ele disse, “o tempo para se aconselhar já passou, agora é a hora da guerra.” Imagine só o olhar aturdido no rosto de Sebastião Veniero, veterano de Veneza, com três vezes a idade de Dom João.

Ou imagine ouvir as carmelitas de Compiègne cantando o Veni Creator Spiritus enquanto caminhavam, em procissão, para o cadafalso. Dias depois cessou o Terror. Imagine ainda assistir à pequena Caterina Benincasa, com típica determinação sienense, dizer ao Papa Gregório XI, comodamente instalado em Avinhão: Esto vir!, “Seja homem!”, e mandá-lo de volta para Roma… Grandes momentos, todos esses.

Eis aqui mais um para fazer arder o coração. Imagine estar presente na reunião do Concílio de Niceia. Ver o esplendor da corte de Constantino. Ver os heroicos sobreviventes da perseguição de Diocleciano ostentando suas cicatrizes (talvez até comparando-as entre si, com um pouco de bravata, como os homens costumam fazer), alguns sem olhos e outros sem línguas. Ver São Nicolau acertar um golpe no maxilar do heresiarca Ário. Ver o bispo Alexandre, de Alexandria, defendendo a divindade de Jesus Cristo. E ver, em meio a tudo isso, um brilhante diácono, sem sequer ter chegado aos trinta anos, com os olhos ardentes e o coração cheio de confiança em Deus, chamado… Atanásio.

Santo Atanásio. Este homem foi decisivo.

Não quero dizer com isso, simplesmente, que ele foi bom em tomar decisões — embora ele tenha sido também —, mas sim que, no momento em que “o mundo inteiro, surpreso, se viu ariano”, como disse São Jerônimo, Deus levantou um homem para portar com bravura o estandarte da ortodoxia. Como todos os heróis que a história depois trata de colocar em situações decisivas, Santo Atanásio superou a própria vida. Entrou para a história, como se costuma dizer.

Sua biografia é, de fato, digna de uma epopeia. Atanásio foi sacerdote por mais de meio século, tendo servido como bispo de Alexandria, a sé de São Marcos, por quarenta e cinco anos. Conheceu cinco papas e cinco imperadores. Suportou cinco exílios, totalizando aproximadamente duas décadas. Seus exílios e aventuras levaram-no por toda parte do Império: desde Roma, no sudoeste, até a germânica Tréveris, no noroeste; e de Constantinopla e Niceia, no nordeste, até Tiro, Alexandria e os desertos do sudeste.

Sua mente foi aguçada em meio aos padres da Escola de Alexandria, onde a Verdade revelada e o pensamento grego se uniram para dar à cristandade a primeira fórmula extrabíblica capaz de explicar, na medida do possível, o insondável mistério da relação entre o Pai e o Filho, a Primeira e a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade: os dois são homousion, ou, como nós católicos rezamos no Creio, “consubstanciais”.

Em nossa época miserável, é difícil conceber pessoas comuns brigando por uma questão teológica, mas levar nossas mentes de volta a tal época pode ajudar. As perseguições dos primeiros três séculos de Igreja deram têmpera ao coração da Esposa de Cristo. As heresias inoportunas, que explodiram justamente quando a Igreja passou a se ver livre da tirania política, ameaçavam romper essa consistência. Os fiéis reagiram à heterodoxia de Ário e de seus seguidores com multidões amotinadas nas ruas.

Se a inteligência de Santo Atanásio foi formada em Alexandria, seu coração foi forjado depois, na companhia de Santo Antão do Deserto e dos ascetas que formavam uma comunidade em torno dele. Os primeiros monges solitários, cujas práticas Atanásio traria a Roma em seu segundo exílio (quase dois séculos antes de São Bento), levavam bem a sério as palavras de Jesus ao homem rico: “Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me” (Mc 10, 21).

Santo Atanásio seguiu Nosso Senhor, nas situações favoráveis e nas desfavoráveis. Niceia deveria ter resolvido a questão, mas o presbítero líbio Ário amava demais os holofotes sob os quais suas novidades teológicas o haviam colocado. Alto, magro e com o cabelo meio embaraçado, ele tinha um modo de falar peculiar e sedutor, que atraía especialmente a atenção das mulheres. Cultivava com cuidado a aparência de alguém que levava uma vida severamente austera. Foi o principal promotor, se não o próprio autor, da maior ameaça que a Igreja já havia enfrentado e enfrentaria até a revolta protestante: a heresia segundo a qual o Filho passou a existir, sendo criado por Deus Pai.

Escultura de Santo Atanásio presente na Catedral de Lichfield, Inglaterra.

É fácil ver aonde tudo isso leva: uma criatura pode mudar. Se uma criatura pode mudar, ela pode pecar. Se a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade foi criada, ela poderia pecar. Essa heresia, para dizer a verdade, não desapareceu totalmente. Trata-se de um princípio mantido hoje por mórmons e por testemunhas de Jeová.

Na época de Atanásio, porém, essa heresia não estava confinada aos seguidores de uma espécie de “Igreja Adventista do Sétimo Dia”. O arianismo havia seduzido a maior parte do episcopado, e até o Papa Libério foi forçado a assinar uma fórmula semiariana. Ário teve um fim trágico, sofrendo uma morte tão indigna que qualquer homem temente a Deus teria visto nisso um castigo divino, mas já era tarde demais. A heresia havia tomado conta dos palácios do poder, sejam os seculares sejam os religiosos. Inseparáveis como eram, no século IV, a Igreja e o Estado, a heresia ameaçou, ao mesmo tempo, a salvação eterna das almas e a paz temporal do Império.

E no olho do furacão estava sempre Santo Atanásio, cuja fortaleza e perseverança incendiaram os corações de seu rebanho. Em duas ocasiões, quando os imperadores mandaram bispos arianos para invadir a sé de Atanásio, os fiéis de Alexandria cuidaram do assunto com suas próprias mãos.

Uma corja infindável de caluniadores agiu para tentar desacreditar Atanásio. Se não podemos contestar os argumentos de um homem — eles pensavam —, ataquemos o seu caráter. Suas acusações eram as mais fantasiosas. Diziam que ele havia decepado a mão de um certo bispo, de nome Arsínio, para usá-la em ritos de necromancia e, para apanhá-lo, chegaram a forjar uma mão seca durante um julgamento público. Quando Atanásio mostrou o bispo, supostamente aleijado, vivo e passando bem, ele se divertiu um pouco com a situação: “Talvez Arsínio tenha nascido com três mãos?”, ele sugeriu, com um sorriso.

Ele violentou uma irmã, eles diziam. E arranjaram uma mulher para contar em detalhes tudo o que ela havia sofrido nas mãos de Atanásio. Um dos seus, então, passando-se por Atanásio, aproximou-se da moça. “Então eu fiz a você isto e isto?”, ele perguntou. “E isto?” “Sim, você fez!”, a garota respondeu, antes de perceber que havia sido enganada. De tanta vergonha, ela fugiu do julgamento.

Ainda assim, as acusações não cessavam. Quando tudo havia falhado, então, ele foi acusado de simplesmente não se dar bem com as pessoas: era uma pessoa “divisiva”. Como São Thomas More, que enfrentou a outra grande provação da Igreja doze séculos depois, a Atanásio pouco importava “se dar bem” com os outros. Sua preocupação era com a Verdade. E, a exemplo do santo inglês, Atanásio teve a coragem não somente de sofrer pela Verdade, mas também de agir sozinho.

Em sua obra Arians of the Fourth Century [“Arianos do Século Quarto”, sem tradução para o português], o bem-aventurado Cardeal Newman disse que foi Atanásio, “depois dos Apóstolos, um dos principais instrumentos por meio dos quais as verdades sagradas do cristianismo foram defendidas e transmitidas para o mundo”.

Além dessa obra de Newman — que é uma empreitada um pouco mais pesada —, os católicos que quiserem compreender melhor a grandeza de Santo Atanásio podem começar com a “Vida de Santo Antão”, escrita por ele mesmo e, depois, com seu livro sobre “A Encarnação do Verbo” — um favorito de C. S. Lewis. Sobre Atanásio, o autor das “Crônicas de Nárnia” escreveu que “só um gênio poderia, no século IV, ter escrito de modo tão profundo a respeito de um assunto como esse e com uma tal simplicidade clássica”.

Atanásio conclui esse seu trabalho, a propósito, com as mesmas palavras pelas quais ele tão ardorosamente viveu:

Para entender corretamente as Escrituras, é necessário ter uma vida reta e uma alma pura; e, para a virtude cristã guiar a mente, é necessário apegar-se, tanto quanto pode a natureza humana, à verdade referente ao Verbo de Deus. Ninguém é capaz de entender a doutrina dos santos, a menos que tenha uma mente pura e procure imitar-lhes a vida… Quem quer que deseje entender a mente dos escritores sacros deve, em primeiro lugar, purificar a própria vida e aproximar-se dos santos reproduzindo os atos que eles praticaram. Só assim, unindo-se assim a eles na comunhão de vidas, será possível entender as coisas que lhes foram reveladas por Deus e, escapando do perigo que ameaça os pecadores no julgamento, receber o que lhes está reservado no Reino dos céus.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Ressurreição ou reencarnação?
Doutrina

Ressurreição ou reencarnação?

Ressurreição ou reencarnação?

Teria Jesus ensinado uma vida definitivamente independente do corpo, como querem os espíritas? Qual a diferença entre a doutrina da reencarnação e a da ressurreição, ensinada por Cristo e por seus Apóstolos?

Frei Boaventura Kloppenburg1 de Maio de 2018
imprimir

Sustentam os reencarnacionistas que a alma ou, como eles preferem dizer, o espírito, chegado afinal à perfeição, viverá para sempre livre do corpo material. Coerentes com seus princípios, eles rejeitam decididamente a doutrina da ressurreição da carne: que a alma tornará a vivificar o mesmo corpo para, assim, unida ao corpo, viver eternamente.

De fato, também estas duas doutrinas (vida definitivamente independente do corpo, ou vida definitiva no corpo ressuscitado) excluem-se mutuamente: quem sustenta uma contestará logicamente a outra.

Ora, ainda nesta questão Jesus falou claro: todos, bons e maus, bem-aventurados e condenados, hão de ressuscitar com seus próprios corpos. “Virá a hora”, ensina Jesus, “em que todos os que jazem nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus, e ressurgirão para a vida os que praticaram o bem, e ressurgirão para a condenação os que praticaram o mal” (Jo 5, 28-29). Outra vez Cristo defende a ressurreição contra as objeções ridículas dos saduceus (cf. Mt 22, 23-33).

Também os Apóstolos pregaram abertamente e muitas vezes a ressurreição. São Paulo dedica todo o longo capítulo 15 da Primeira Epístola aos Coríntios à defesa e à explicação da ressurreição:

Se não há ressurreição dos mortos — argumenta o Apóstolo —, também Cristo não ressuscitou. Mas se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, vã é também a vossa fé; e nós aqui estamos como falsas testemunhas de Deus, porque contra Deus depusemos que ressuscitou a Cristo. Pois se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou (1Cor 15, 13-16).

E depois o Apóstolo passa a explicar a transformação por que há de passar o corpo ressuscitado:

O que se semeia é (um corpo) corruptível, o que ressuscita é (um corpo) incorruptível; o que se semeia é humilde, o que ressuscita é glorioso; o que se semeia é fraco, o que ressuscita é forte; o que se semeia é um corpo material, o que ressuscita é um corpo espiritual (1Cor 15, 42-44).

Convém adiantar aqui uma rápida explicação sobre uma dificuldade que os reencarnacionistas não se cansam de repetir. Querendo ridicularizar a fé e a esperança cristã na ressurreição, lembram que os corpos se desfazem, se transformam e passam a constituir outros corpos. Este é o motivo por que o próprio Allan Kardec pensa que “a ciência demonstra a impossibilidade da ressurreição, segundo a idéia vulgar” [1].

“A incredulidade de São Tomé”, de Mattia Preti.

Há, por certo, uma dificuldade na afirmação da identidade do corpo ressuscitado com o atual. Esta identidade é afirmada por Jesus, pelos Apóstolos e pela Igreja. Mas não é necessário afirmar uma identidade material absoluta, como se todos os átomos e moléculas que alguma vez fizeram parte de nosso corpo tivessem de voltar a formar o corpo ressuscitado. As fontes de nossa fé cristã não nos levam a esta conclusão. 1Cor 15, 37-38 e 42-44 insinuam o contrário.

Hoje conhecemos o fenômeno biológico do metabolismo, segundo o qual o corpo humano, pela constante assimilação e desassimilação das substâncias, de tempo em tempo se renova inteiramente, de tal maneira que os átomos ou as moléculas que anos atrás integraram nosso corpo hoje já estão totalmente substituídos por outros. E, não obstante, afirmamos com razão que nosso corpo de hoje é idêntico ao de dez ou vinte anos atrás: é uma identidade material relativa, mas verdadeira.

Por conseguinte, para que possamos conservar uma verdadeira identidade corporal não é preciso reter sempre os mesmos elementos materiais. A dispersão da matéria não impossibilita a identidade material do corpo humano. O demais, com relação ao corpo ressuscitado, o deixamos tranquilamente à onipotência divina.

Ao responder às dificuldades dos saduceus contra a ressurreição, Jesus lhes disse acertadamente: “Estais enganados, desconhecendo as Escrituras e o poder de Deus” (Mt 22, 29). O mesmo diria aos reencarnacionistas e a outros modernos negadores da ressurreição.

O Concílio Vaticano II confessa: “Nós ignoramos o tempo da consumação da terra e da humanidade e desconhecemos a maneira de transformação do universo” [2]. O que nos foi revelado e, na verdade, é o mais importante é que haverá ressurreição. O quando e o como são questões secundárias:

Deus nos ensina que nos prepara morada nova e nova terra. Nela habita a justiça e sua felicidade irá satisfazer e superar todos os desejos de paz que sobem nos corações dos homens. Então, vencida a morte, os filhos de Deus ressuscitarão em Cristo, e o que foi semeado na fraqueza e na corrupção revestir-se-á de incorrupção. Permanecerão o amor e sua obra e será libertada da servidão da vaidade toda aquela criação que Deus fez para o homem [3].

Preciso referir-me a mais uma curiosa alegação de Allan Kardec. Vimos que, segundo ele, os judeus “designavam pelo termo ressurreição o que o espiritismo, mais judiciosamente, chama reencarnação” [4]. Eis aí uma afirmação simplesmente arbitrária. Não há seriedade nisso. Nem posso imaginar como pôde Kardec chegar a semelhante asserção. Não conheço um só elemento que nos permita estabelecer essa identidade. É evidentíssimo que as ressurreições narradas na Bíblia, a de Elias ressuscitando o filho da viúva de Sarepta, as de Jesus ressuscitando o jovem de Naim, a filha de Jairo ou a Lázaro, tudo isso nada tem a ver com o que hoje os espíritas entendem por reencarnação.

Nem os judeus pensavam em reencarnação quando Jesus lhes anunciava que depois de três dias haveria de ressuscitar, visto que mandaram pôr guardas no sepulcro. Basta ler o capítulo 15 da Primeira Carta aos Coríntios, para saber o que os judeus entendiam quando falavam em ressurreição. Basta ler atentamente as palavras de Jesus em Jo 5, 28-29 e que acabamos de citar.

Enfim, seria suficiente recordar que a reencarnação se faz, como ensina Kardec, em sempre novos corpos “que nada têm de comum com o antigo” [5], enquanto a ressurreição, assim como era entendida pelos judeus, consistia na revivificação deste mesmo corpo abandonado pela alma na hora da morte.

A respeito da outra alegação de Allan Kardec, de que a reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, lembro as seguintes observações de Paulo Siwek [6]:

Os livros sagrados dos judeus mencionam várias vezes a prática da evocação dos espíritos (cf. Lv 20, 6.27; 19, 31; Dt 18, 9-12; 1Rs 28, 3; 4Rs 21, 6). Mas esta não tem relação nenhuma com a reencarnação. Só se excetua a Cabala: os livros desta, Zohar (ou livro dos esplendores), Zohar-Haddach, Tiqqunim expõem a doutrina da reencarnação, que assim faz parte integrante do esoterismo místico da Cabala. Mas é preciso notar que o Zohar só foi acrescentado à Cabala no fim do século XIII e que nela a reencarnação se apresenta como um episódio fragmentário, sem conexão íntima com o resto do sistema filosófico da Cabala; mais ainda, acha-se em contradição flagrante com os dogmas fundamentais da religião judaica, admitidos pela Cabala.

Em outra ocasião Kardec concede que Jesus não falou muito claro a respeito da reencarnação, pois — diz ele — Cristo “não pôde desenvolver o seu ensino de maneira completa”, porque “faltavam aos homens (daquele tempo) conhecimentos que eles só podiam adquirir com o tempo, sem os quais não o compreenderiam” [7] e, por esse motivo, Jesus não insistiu muito na pluralidade das existências: “A grande e importante lei da reencarnação foi um dos pontos capitais que Jesus não pôde desenvolver, porque os homens do seu tempo não se achavam suficientemente preparados para idéias dessa ordem e para as suas conseqüências” [8].

Ora, se é verdade, como quer Kardec, que a doutrina das vidas sucessivas era comumente ensinada pelos antigos e era até “ponto de uma das crenças fundamentais dos judeus” (veja o texto acima), não se compreende absolutamente tanta prudência da parte de Cristo no ensino de uma verdade tão difundida

Referências

  1. Allan Kardec, O livro dos espíritos, p. IV, c. 2, n. 1010. FEB, p. 574.
  2. Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes (7 de dezembro de 1965), n. 39.
  3. Id.
  4. Allan Kardec, O evangelho segundo o espiritismo (trad. de Guillon Ribeiro), 131.ª ed., Brasília: FEB, 2013, p. 68.
  5. Id.
  6. A reencarnação dos espíritos, São Paulo, 1946, p. 14. A este respeito pode-se consultar também R. Hedde, Metempsycose, Dict. Théol. Cath., X, 1585. Sobre a Cabala, veja-se também a col. 1586.
  7. Allan Kardec, A gênese (trad. de Guillon Ribeiro), 53.ª ed., Brasília: FEB, 2013, p. 28.
  8. Ibid., p. 345.

Notas

  • Trecho extraído e levemente adaptado de Espiritismo: Orientação para Católicos. 9.ª ed., São Paulo: Loyola, 2014, pp. 113-116.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.