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A peregrinação de uma mãe com Alzheimer
Testemunhos

A peregrinação
de uma mãe com Alzheimer

A peregrinação de uma mãe com Alzheimer

“A maior coisa que tenho feito como padre é ter o corpo de Jesus Cristo, o Filho de Deus, em minhas mãos. A segunda maior coisa tem sido cuidar do corpo fraco e debilitado de minha mãe, criada à imagem e semelhança de Deus.”

Pe. Thomas Milota,  Christ is Our HopeTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Junho de 2018
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A peregrinação de Betty Lou começou no dia 2 de maio de 1933. Ela cresceu com seus cinco irmãos mais novos em Freeport, Illinois, estudou em um colégio dominicano, casou-se com um bom católico de Cedar Rapids, Iowa, e criou seus quatro filhos em Bensenville. Foi uma esposa e católica fiel, cantava no coro da Igreja e servia de voluntária em sua paróquia. Um dia, 11 anos atrás, ela saiu do mercado às 8h da manhã e desapareceu.

Nós, amigos e familiares, já tínhamos notado que havia algo de errado antes de isso acontecer, mas não tínhamos ainda juntado as peças do quebra-cabeça. As compras se acumulavam aos montes na geladeira, e ela começava a fazer repetidas vezes as mesmas perguntas. Datas de aniversários caíram no esquecimento. Esperávamos que o problema não fosse o que todos temíamos, mas não havia jeito de tocar no assunto.

O que aconteceu no dia do desaparecimento? Betty Lou acabou voltando para casa depois de sua visita matinal ao mercado, mas não sem deixar a todos ansiosos e perplexos, rezando e procurando-a como loucos. Família, amigos e paroquianos organizaram uma busca mal sucedida por todo o Condado de DuPage. Tínhamos quase perdido a esperança de a encontrar quando, 12 horas após o sumiço, ela enfim apareceu na cul-de-sac em que vivia. Apesar de tantos esforços, foi só a oração que a trouxe de volta. É como se Deus nos estivesse dizendo: “Confiem em mim! Betty Lou é minha filha querida. Eu a trarei de volta para casa”.

Tinha começado o fim da peregrinação.

Levamos Betty Lou a um geriatra. O médico fez uma bateria de exames, incluindo uma consulta a um psicólogo comportamental. Betty Lou foi, enfim, diagnosticada com Alzheimer. Ela viveu ainda por sete anos com meu pai até que pudéssemos interná-la em uma clínica especializada. Um ano e meio mais tarde, o bispo R. Daniel Conlon permitiu gentilmente que eu a acolhesse na casa paroquial da igreja São Pedro e São Paulo, da qual eu era pároco na época.

Embora me sentisse feliz por ter minha mãe ao lado e poder-lhe proporcionar os melhores cuidados, ela teve uma crise e foi levada às pressas para o hospital. Diagnosticaram-na com um problema que ela tinha já desde algum tempo: uma perfuração intestinal e uma grave hemorragia interna. Disseram que a morte era certa. A família veio correndo do Texas, e os parentes mais próximos se hospedaram na casa paroquial. Meus irmãos nunca passaram tanto tempo na igreja! Os paroquianos trouxeram comida e ofereceram apoio moral. Contatamos um asilo. Mas Deus e sua amiga íntima, Betty Lou, tinham outros planos.

Betty Lou teve alta do asilo há 19 meses e tem sobrevivido ao seu diagnóstico há 24.

Uma peregrinação é uma viagem de sacrifícios em direção a um lugar sagrado, e Betty Lou percorre agora a peregrinação mais importante da sua vida em direção ao lugar mais sagrado de todos. Sua viagem final, que, para nós, chegaria ao fim dois anos atrás, continua. Embora saibamos que chegará o momento decisivo em que ela dará o último passo, nós, familiares e amigos, estamos decididos a não deixá-la sozinha nesta etapa terrena de sua peregrinação.

Estamos todos percorrendo com ela esse caminho. Ao longo dos últimos 11 anos, a irritação que sentíamos com suas reiteradas perguntas converteu-se em alegria por cada palavra saída de sua boca. Conseguimos às vezes captar algum sentido em suas palavras quase sempre murmuradas, lembrando-nos assim de que Betty Lou continua conosco. Sua frase predileta e mais repetida é “Ave, Ave, Ave”. Quando lhe perguntamos: “Você ama Nossa Senhora, não é?”, a resposta é um enfático “sim” acenado com a cabeça.

Ela ainda faz suas orações de costume, embora as palavras lhe saiam agora quase incompreensíveis e as tenhamos de completar. Ela ainda consegue se alimentar, ainda que, de vez em quando, alguém precise ajudá-la segurando-lhe a mão e cantando um hino à Imaculada Conceição. Se o ajudante não cantar, Betty Lou canta por si mesma e deixa de comer. De um modo ou de outro, ela tem feito com que todos — família, amigos, médicos, enfermeiros, auxiliares, funcionários, motoristas de ambulância, conhecidos e cuidadores — cantem e rezem a Nossa Senhora.

Tenho aprendido muitas coisas à medida que vou caminhando com Betty Lou, mas algumas lições merecem ser destacadas. A primeira e mais importante delas é que não podemos deixar sozinhas no fim de sua peregrinação as pessoas a quem amamos. Esta primeira lição tem duas caras, uma divina e outra humana. Por um lado, cada um de nós tem o dever de cuidar dos que têm necessidade. É o que diz Nosso Senhor no Evangelho segundo S. Mateus: “Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 40).

Minha mãe já não reconhece o marido, de 61 anos, ainda que ele esteja aqui perto, ao lado dela todos os dias, dando-lhe de comer. Uma vez me disseram: “Não se esqueça: ela pode não se lembrar de quem você é, mas você sabe quem ela é”. Por outro lado, Deus não se esquece dos que lhe são fiéis. Minha mãe vive em um mundo onde todas as pessoas que lhe dão banho, trocam suas roupas e a alimentam são rostos novos a cada novo encontro. Esse isolamento seria aterrador, não fossem duas pessoas que ela ainda conhece muito bem: Nosso Senhor e a Virgem Maria. O que resta à minha mãe, quando tudo parece ter-se desvanecido? O seu relacionamento com estas duas pessoas. Rezar com ela é a coisa mais importante que fazemos todos os dias.

A segunda lição é que os pacientes de Alzheimer não perdem a identidade. Não há dúvidas de que minha mãe está sendo despojada pouco a pouco de tudo o que caracterizava a sua vida neste mundo. Ela já não é mais capaz de cozinhar. Ela já não pode mais dançar ou caminhar. Até mesmo a sua capacidade de falar, ou de ao menos se fazer entender, está desaparecendo. Diante disso, o que sobra? Ela ainda canta e reza.

Já me perguntei várias vezes: “O que sobrará de mim, no fim das contas?” Espero que não seja raiva ou frustração. Espero poder seguir o exemplo de minha mãe, fazendo de minhas últimas ações uma canção e uma prece.

Um padre amigo meu lembrou-me certa vez: “Lembre-se do que aprendemos no seminário. A memória intelectual reside na alma, e a alma humana é imortal. Isso significa que, embora o corpo dela esteja debilitado e a mente não possa mais se expressar, há lembranças que ela guardará eternamente”. A essa altura da vida, a identidade de Betty Lou carece de ambiguidades e complexidades desnecessárias. Ela é agora aquilo que sempre foi no mais íntimo da alma: uma mulher mais preocupada com os outros do que consigo mesma, uma doce mulher que quer amar e ser amada, uma mulher de grande fé.

Minha mãe é valiosa, não pelo que pode dar ou fazer por mim. A dignidade dela nasce do fato de que Deus a criou à sua imagem e semelhança. E ela continua a levar dentro de si esta semelhança. A maior coisa que tenho feito como padre é ter o corpo de Jesus Cristo, o Filho de Deus, em minhas mãos. A segunda maior coisa tem sido cuidar do corpo fraco e debilitado de minha mãe, criada à imagem e semelhança de Deus.

Betty Lou não desapareceu. Ela está em peregrinação para o Lugar Sagrado. Ela disse a um de seus cuidadores há alguns dias que, daqui a pouco, ela estará em outro lugar. Ela às vezes olha pausadamente para longe, para um destino que não podemos ver. Sem ser presunçosa, Elizabeth Louise tem grande fé em que Aquele do qual ela ainda se lembra, a quem conhece e ama, a levará para casa e lhe dará tudo o que o coração dela sempre desejou.

Referências

  • O presente texto é uma tradução levemente adaptada do artigo “Betty Lou’s Pilgrimage”, de autoria do Pe. Thomas Milota, publicado em Christ is Our Hope, Diocese de Joliet, Illinois, vol. 11/4 (jul. 2018), pp. 12-13.

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Bispos anglicanos querem ideologia de gênero em suas liturgias
Notícias

Bispos anglicanos querem
ideologia de gênero em suas liturgias

Bispos anglicanos querem ideologia de gênero em suas liturgias

Diretriz pastoral recém-publicada pela Igreja da Inglaterra orienta sacerdotes a oferecer cerimônias parecidas com o batismo para pessoas transgêneras e suas “novas identidades”.

Doug Mainwaring,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Dezembro de 2018
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A Igreja Anglicana, a maior denominação cristã no Reino Unido, está evitando chamar sua recém-instituída bênção para “transgêneros” de um “segundo batismo”, mas a orientação é para que seus sacerdotes ofereçam cerimônias parecidas com o sacramento para aqueles que anunciarem sua nova identidade sexual.

Em uma diretriz pastoral publicada nesta semana, o clero anglicano é orientado a chamar os homens por seus novos nomes femininos, e as mulheres por seus novos nomes masculinos. O documento declara: “O rito do ministro de se dirigir à pessoa trans usando pela primeira vez o nome que ela escolheu, pode ser um momento poderoso na liturgia”.

“Deve-se notar que o ato de dar ou adotar um novo nome tem uma longa história na tradição judaico-cristã, atestada pela Escritura”, diz o documento. “Em alguns círculos cristãos, por exemplo, existe o costume de os fiéis adotarem um nome adicional ou o nome de um santo no momento de sua confirmação.”

O clero também é aconselhado a respeitar os pronomes do gênero escolhido pela pessoa, ainda que eles não correspondam à realidade.

Denominado Afirmação da Fé Batismal, o rito convida as pessoas já batizadas e confusas com o próprio gênero a “renovarem publicamente os compromissos firmados no batismo e dá a possibilidade, aos que passaram por uma grande transição, de dedicarem novamente suas vidas a Jesus Cristo”.

Para as pessoas “transgêneras” ainda não batizadas e que procuram ingressar na Igreja da Inglaterra, a nova orientação descreve o batismo como o “contexto litúrgico natural para reconhecer e celebrar-lhes a identidade”.

Ao invés de criar um novo sacramento, os bispos anglicanos estão recomendando que o já existente sacramento do batismo e a afirmação dos votos batismais sejam deformados não apenas para acomodar mas também para celebrar a disforia de gênero dentro de suas igrejas.

A diretriz emitida pela Casa Episcopal da Igreja Anglicana na terça-feira (11) adverte os pastores a imporem as mãos sobre o fiel e a rezar usando o novo nome de transgênero por ele escolhido. Os pastores também são orientados a incorporar a esse rito a aspersão de água benta e a unção com óleo consagrado.

Andrea Minichiello Williams, chefe-executiva da organização evangélica Christian Concern e leiga membro do Sínodo Geral da Igreja Anglicana, criticou a nova orientação, dizendo que se trata de uma continuação da “trajetória devastadora [da instituição] rumo a uma franca negação de Deus e de sua Palavra”.

“A finalidade do batismo é configurar uma pessoa a Jesus, quando ela começa uma vida no seguimento dEle”, defende Andrea. “Usar uma afirmação do batismo para celebrar uma transição de gênero vira isso de ponta cabeça e encoraja as pessoas a seguirem seus próprios sentimentos e a viverem com identidades contrárias ao modo como Deus as criou.”

Não é sinal de amor desviar as pessoas — e, mais amplamente, a sociedade — para os mitos e as falsidades da ideologia de gênero”, ela concluiu.

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O impressionante martírio de Santa Luzia
Santos & Mártires

O impressionante
martírio de Santa Luzia

O impressionante martírio de Santa Luzia

Popularmente conhecida como protetora dos olhos, Santa Luzia deu um belo testemunho de pureza antes de ser martirizada e “só rendeu o espírito depois que alguns sacerdotes lhe deram o Corpo do Senhor”.

Beato Tiago de Varazze12 de Dezembro de 2018
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O nome Luzia (ou Lúcia) vem de lux, “luz”. A luz é bonita de se ver porque, segundo Ambrósio, ela está por natureza destinada a ser graciosa para a visão. Ela se difunde sem se sujar, por mais sujos que sejam os lugares em que se projeta. Seus raios seguem linha reta, sem a menor curva, e sem demora ela atravessa imensas extensões.

Daí ser apropriado o nome de Luzia para aquela virgem bem-aventurada que resplandece com o brilho da virgindade sem a mais ínfima mácula, que difunde calor sem nenhuma mescla de amor impuro, que vai direto a Deus sem o menor desvio, que sem hesitação e sem negligência segue em toda sua extensão o caminho do serviço divino. Lúcia também pode vir de lucis via, “caminho da luz”.

Lúcia, virgem de Siracusa, de origem nobre, ouvindo falar por toda a Sicília da fama de Santa Ágata, foi até o túmulo dela com a mãe, Eutícia, que havia quatro anos sofria de hemorragias sem esperança de cura. Naquele dia, lia-se na Missa a passagem do Evangelho na qual se conta que o Senhor curou uma mulher que padecia a mesma doença (cf. Mt 9, 20-22; Mc 5, 25-29; Lc 8, 43-48).

“Martírio de Santa Luzia”, atribuído a Elisabetta Sirani.

Lúcia disse então à mãe: “Se acreditas no que foi lido, deves crer que Ágata está na presença dAquele por quem ela sofreu. Portanto, tocando o túmulo dela com fé, logo estarás completamente curada.”

Quando todo o povo partiu, mãe e filha ficaram orando perto do túmulo. O sono apossou-se de Lúcia, que viu diante dela, de pé, Ágata rodeada de anjos e ornada de pedras preciosas dizendo-lhe: “Minha irmã Lúcia, virgem toda devotada a Deus, por que pedes a mim o que tu mesma podes conseguir, neste instante, para tua mãe? Fica sabendo que ela acaba de ser curada pela fé.”

Lúcia despertou e disse: “Mãe, tu estás curada. Em nome daquela por quem acabas de obter a cura, peço-te que não me procures um esposo, e que meu dote seja distribuído aos pobres.” Respondeu a mãe: “Depois que eu fechar os olhos, tu podes dispor de teus bens como quiseres”. Lúcia replicou: “Se me dás alguma coisa ao morrer, é porque não podes levá-la contigo; dá-me enquanto estás viva e serás recompensada.”

Voltando para casa, passaram todo o dia a vender uma parte dos bens, distribuindo o dinheiro aos pobres. A notícia da partilha do patrimônio chegou aos ouvidos do noivo, e ele perguntou a razão daquilo à mãe de Lúcia. Esta respondeu que sua filha havia encontrado um investimento mais rentável e mais seguro, daí estar vendendo seus bens.

O insensato, crendo tratar-se de um comércio plenamente humano, passou a colaborar na venda daqueles bens, buscando os melhores negócios. Quando soube que tudo o que fora vendido tinha sido dado aos pobres, o noivo levou-a à justiça, diante do cônsul Pascásio, acusando-a de ser cristã e de violar as leis imperiais.

Pascásio convidou-a a sacrificar aos ídolos, mas ela respondeu: “O sacrifício que agrada a Deus é visitar os pobres e prover às suas necessidades, mas como não tenho mais nada a dar, ofereço a Ele a mim mesma.”

Pascásio retorquiu: “Poderias dizer essas coisas a um cristão insensato como tu, mas a mim, que executo os decretos dos príncipes, é inútil argumentar assim.”

Lúcia rebateu: “Tu executas as leis de teus príncipes; eu executo a lei do meu Deus. Tu temes os príncipes, eu temo a Deus. Tu não gostarias de ofendê-los; eu evito ofender a Deus. Tu desejas agradá-los; eu anseio ardentemente agradar a Cristo. Faz então o que julgares útil para ti, e eu farei o que sei que me será bené­fico.”

Pascásio replicou: “Tu dilapidaste teu patrimônio com uns depravados e agora falas como uma meretriz.” Lúcia retrucou: “Pus meu patrimônio num lugar seguro e nunca conheci os que depravam espírito e corpo.”

Pascásio perguntou-lhe: “Quem são esses corruptores?” Lúcia respondeu: “Os que corrompem o espírito são vós, que aconselhais as almas a abandonarem o Criador. Os que corrompem o corpo são os que preferem os gozos corporais às delí­cias eternas.” Pascásio ameaçou-a: “Vais parar de falar quando começares a ser fustigada”, zo que Lúcia respondeu prontamente: “As palavras de Deus nunca terão fim.”

“Então tu és Deus?”, perguntou-lhe Pascásio. “Eu sou escrava do Deus que disse: quando estiverdes em presença de reis e de juízes, não vos preocupeis com o que dizer. Não sereis vós a falar, pois o Espírito Santo falará por vós” (Mc 13, 11), respondeu Lúcia. “Então o Espírito Santo está em ti?”, tornou Pascásio. “Os que vivem em castidade são templos do Espírito Santo”, respondeu-lhe.

Pascásio afirmou: “Então vou mandar que te levem a um lupanar, para que sejas violada e percas o Espírito Santo.” Lúcia: “O corpo só se corrompe se o coração consentir. Se fizeres com que eu seja violentada, será contra minha vontade e ganharei a coroa da pureza. Jamais terás meu consentimento. Eis meu corpo, ele está disposto a toda sorte de suplícios. Por que hesitas? Começa a me atormentar, filho do diabo.”

Então Pascásio mandou vir uns depravados, aos quais disse: “Convidai o povo todo e torturai-a até a morte.” Mas quando quiseram levá-la, o Espírito Santo a fez ficar imóvel e tão pesada que não conseguiram forçá-la a se mover. Pascásio mandou chamar mil homens e amarrar seus pés e suas mãos, mas eles não foram capazes de movê-la de modo algum. Aos mil homens ele acrescentou mil parelhas de bois, mas a virgem do Senhor permaneceu imóvel. Então convocou feiticeiros para movê-la com seus sortilégios, mas eles nada conseguiram.

Pascásio então perguntou: “Que malefícios são esses? Por que uma moça não é movida por mil homens?” Lúcia respondeu: “Não são malefícios, e sim benefícios de Cristo. E ainda que acrescentasses dez mil homens, tu não me verias menos imóvel.” Acreditando Pascásio na opinião segundo a qual se poderia livrar uma pessoa de malefícios jogando urina sobre ela, mandou que se fizesse isso com Lúcia, mas ela continuou sem se mover.

Furioso, Pascásio mandou acender em torno dela uma grande fogueira e jogar em seu corpo óleo fervente, misturado com pez e resina. Depois desse suplício, Lúcia exclamou: “Obtive uma trégua no meu martírio para que os crentes não tenham medo de sofrer e os incré­dulos tenham mais tempo para me insultar.”

Vendo Pascásio irritadíssimo, seus amigos enfiaram uma espada na garganta de Lúcia, que apesar disso não perdeu a palavra: “Eu vos anuncio que a paz foi restituída à Igreja, porque hoje Maximiano acaba de morrer e Diocleciano, de ser expulso do seu reino. Da mesma forma que minha irmã Ágata foi eleita protetora da cidade de Catânia, assim também fui eleita guardiã de Siracusa.”

Enquanto a virgem assim falava, chegaram uns funcionários romanos que prenderam Pascásio, agrilhoaram-no e levaram-no ao César, pois este ficara sabendo que ele tinha saqueado toda a província. Chegando a Roma, Pascácio compareceu diante do Senado, foi declarado culpado, condenado à pena capital e executado.

Quanto à virgem Lúcia, não foi tirada do lugar em que sofrera e só rendeu o espírito depois que alguns sacerdotes lhe deram o Corpo do Senhor. Então todos os presentes disseram: Amém. Ela foi sepultada naquele mesmo lugar, onde foi construída uma igreja. Seu martírio ocorreu no tempo de Constantino e de Maxêncio, por volta do ano 310 do Senhor.

Referências

  • Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 77-80.

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Rezar pelo telefone ou pelo breviário?
Liturgia

Rezar pelo telefone ou pelo breviário?

Rezar pelo telefone ou pelo breviário?

Que problema pode haver em usar um breviário eletrônico? Entenda nesta reflexão por que, embora “seja muito prático rezar com um breviário no próprio telefone ou no tablet”, os livros litúrgicos têm a sua razão (teológica) de ser.

Mons. Charles Pope,  Community in MissionTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Dezembro de 2018
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É difícil superestimar a conveniência de rezar a Liturgia das Horas com um breviário digital. Ele não é só conveniente: é também de grande ajuda para descomplicar as dificuldades que temos frequentemente na hora de rezar com o livro tradicional. Por exemplo:

  • Os salmos a rezar são os do dia ou do Comum?
  • Usamos o Comum dos Pastores ou o dos Doutores da Igreja?
  • As orações e antífonas das férias do Advento têm preferência sobre as do Santoral?
  • Hoje é Memória ou Festa?

Usar corretamente as fitinhas marca páginas pode ser um desafio, e as complexas “regras” durante a Oitava de Natal são quase um pesadelo.

A disponibilidade desses breviários on-line diminuiu a chance de não conseguirmos rezar a Liturgia das Horas só por não termos à disposição o nosso livro de orações. Hoje em dia não há quase ninguém que não esteja com o celular em mãos.

Logo, que problema pode haver em usar um breviário eletrônico? O problema é a perda de “sacralidade”.

Dizer que algo é “sagrado” indica não somente que se trata de algo santo, mas de algo que foi “separado” para servir a um propósito específico. Por exemplo, os cálices usados na Missa não são copos como quaisquer outros. Eles são separados para um uso especial: conter o Preciosíssimo Sangue de Cristo. Seria um erro utilizá-los em casa para um jantar ou uma festa. Também seria errado usar como cálices para conter o Preciosíssimo Sangue copos comuns trazidos de casa. As coisas sagradas têm normalmente um único uso ou são utilizadas para fins que dizem respeito a Deus e ao culto divino.

Isso também se aplica aos livros e textos sagrados. Via de regra, espera-se que, na liturgia, os sacerdotes leiam as orações e as leituras diretamente dos livros sagrados como o Lecionário, o Evangeliário e o Missal. Especialistas em liturgia e Conferências episcopais costumam torcer o nariz para o uso de livros digitais. Por exemplo, os bispos da Nova Zelândia baniram o uso de iPads como substitutos do Missal durante a liturgia. A explicação é que “os iPads e outros dispositivos eletrônicos admitem uma variedade de usos como, por exemplos, jogar, conectar-se à internet, assistir a vídeos e checar e-mails. “Isso por si só”, decidiram os bispos, “torna inapropriado o uso desses aparelhos na liturgia”.

O Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, é de igual aparecer: “Talvez seja muito prático rezar com um breviário no meu próprio telefone ou tablet; mas não é digno: é dessacralizar a oração”. Não se trata de uma instrução formal do Cardeal, enquanto autoridade oficial na matéria, mas a opinião devia fazer-nos parar para pensar, mesmo se se trata da recitação privada da Liturgia das Horas.

Alguns talvez pensem que objeções como essas são coisa de gente “rigorosa” ou “puritana”. A mim me parece que elas têm algum sentido. Um texto sagrado, como norma geral, merece um livro sagrado onde ele esteja preservado e do qual seja lido.

É claro, normas gerais não são normas absolutas, de modo que pode haver exceções, e algumas até bem generosas, dado o ritmo e a mobilidade da vida moderna, além da suposta necessidade de ter muitas coisas ao alcance de um dedo. Pode ser que você esteja viajando ou queira ter acesso rápido a algumas orações para poder rezar ao longo de um dia atarefado. Talvez a complexidade do Ofício Divino, que pode ser um obstáculo para os leigos com pouca formação litúrgica, possa ser superado com o uso de um aplicativo de celular para rezar sem muitos rodeios.

Mas esforçar-se por proteger a norma geral sobre o uso dos livros sagrados pode ter, certamente, resultados muito valiosos. Quero mencionar apenas dois.

Antes de tudo, reforçamos a ideia de sacralidade, tão desprezada hoje em dia.

Em alguma medida, nossas ações sagradas deviam parecer, ser sentidas e soar como algo sagrado e “posto à parte” das coisas ordinárias. Por exemplo, as igrejas deveriam ser diferentes, soar diferentes e até mesmo ter um cheiro diferente do mundo que as rodeia. A função principal das igrejas é ser um lugar de adoração; por isso, elas não deveriam ter apenas o aspecto de um saguão de eventos.

A liturgia deveria ter em si mesma um caráter sagrado. No passado, isso se enfatizava pelo uso do latim, de estilos próprios de música e por gestos e tons de voz específicos. Muito disso se perdeu hoje em dia, e é muito difícil ou até controvertido tentar recuperá-lo. Mesmo que as línguas vernáculas e um uso mais variado de estilos musicais possam ter o seu lugar, a qualidade de ser “diferente” e “separado”, própria das coisas sagradas da Igreja e da liturgia, reduziu-se gravemente.

Rezar o breviário diretamente dos livros sagrados é um pequeno passo na direção certa. E isso é ainda mais importante na recitação pública do breviário; mas, mesmo na recitação privada, é importante fazer desse tempo sagrado uma experiência que está, ao menos em alguma medida, “separada” das coisas comuns.

Em segundo lugar, ajuda-nos a lembrar que a nossa oração deve ser também sacrifício.

Vivemos numa época em que as pessoas insistem indevidamente em que tudo tem de ser conveniente, fácil e rápido — e, com frequência, ficam indignadas quando as coisas não são assim.

Haverá circunstâncias em que será útil ter acesso imediato aos textos do breviário, mas não nos deveríamos esquecer de que, na mentalidade bíblica, oração e sacrifício andam juntos. A ideia de uma oração sem sacrifício é algo típico do Ocidente moderno. A oração bíblica implicava oferecer um “sacrifício de louvor”. A ação de graças se fazia pelo sacrifício de coisas como frutos e pela libação de vinho e óleo.

Exigir que a adoração seja conveniente, rápida e de “baixo custo” não costuma ser sinal de um coração que transborda de amor (cf. Lc 7, 44-47).

É claro, não queremos com isso que toda oração e adoração se torne tão onerosa e difícil a ponto de desmotivar as pessoas. No entanto, alguns pequenos sacrifícios, como o uso do livro sagrado, mesmo na recitação privada do breviário, podem ser um ato de amor e um modo de contornar esse apego excessivo ao “conveniente”.

Como eu tenho o breviário em mãos todos os dias, sinto como se carregasse comigo todo o Povo de Deus enquanto rezo por ele e pela Igreja Católica. Eu simplesmente não consigo ter essa sensação ao rezar com o meu iPhone.

Muitos mais poderia ser dito, mas isso basta por ora. Por favor, encare essas orientações como normas gerais ou observações; elas não são absolutas. Há exceções, e não devemos presumir que, quem não segue esse modo pensar, é por isso um “ímpio”. Contudo, faríamos muito bem a partir de agora em levar em conta o sentido de nossas mais pequenas ações; isso é parte de uma vida reflexiva.

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“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero
Sociedade

“Definitivamente satânica”: um
exorcista fala da ideologia de gênero

“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero

Este exorcista está convencido de que “a forma como essa coisa de gênero tem se espalhado é demoníaca”, por mais que as pessoas não enxerguem, ou se recusem a fazê-lo.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Novembro de 2018
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Crianças “treinadas” desde cedo para “descobrir” a própria sexualidade ou questionar o próprio “gênero”, pais punidos pelo Estado por não aceitar que seus filhos recebam a “educação sexual” tendenciosa da escola, programas de TV cada vez mais abertamente ideológicos e pervertidos, inclusive para o público infantil… A lista de investidas que os ideólogos de gênero têm promovido nos últimos anos, em todas as áreas, parece não ter mais fim. Talvez seja necessário, em um futuro próximo, isolar-se numa caverna para escapar à sua influência.

Um episódio recente de promoção dessa agenda — protagonizado pela famosa cantora Celine Dion, cuja posição favorável à família e contra o divórcio já foi elogiada em outros tempos por sítios católicos — acendeu o alerta de muitos para o poder de sedução e de manipulação dessa ideologia. A artista fez campanha para a linha internacional de roupas infantis “NuNuNu”, inaugurando uma marca com a finalidade de “liberar as crianças dos papéis tradicionais de menino e menina”.

Não fosse isso o suficiente, a empresa em questão tem em seu histórico um mural de fotos para lá de controverso, com máscaras sem rosto, espelhos refletindo caveiras, bodes segurando livros infantis, crianças com tatuagens de piratas e anéis sombrios.

Para o monsenhor John Esseff, padre há 65 anos e exorcista experiente, que conversou com a escritora católica Patti Armstrong, colunista de National Catholic Register, “a forma como essa coisa de gênero tem-se espalhado é demoníaca”. O sacerdote exerce seu ministério na diocese de Scranton, no estado norte-americano da Pensilvânia, já foi diretor espiritual de Santa Teresa de Calcutá e ajudou a fundar e dirigir um instituto de formação para exorcistas.

“Quando uma criança nasce”, ele se pergunta, “quais as primeiras coisas que se dizem dela? Que é um menino ou que é uma menina. É a coisa mais natural do mundo de se dizer. Dizer que não há nenhuma diferença, ao contrário, é algo satânico. Eu não sei nem mesmo quantos gêneros deve haver agora, mas há apenas dois criados por Deus.”

Ainda que o demônio esteja em guerra com a humanidade desde o princípio, o padre John destaca que os ataques satânicos neste período da história têm-se tornado mais intensos. “O maligno sente que, de alguma forma, ele pode fazer essas coisas sem ser reconhecido. Ele é um mentiroso, e há grandes mentiras sendo contadas.”

Diante das fortes declarações do exorcista, houve quem sugerisse na internet que religiosos contrários à ideologia de gênero estariam acusando de “satanismo” a cantora Celine Dion. De fato, tanto o comercial quanto a marca apoiada por ela encontram-se repletos de elementos sombrios e perturbadores. Mas, ainda que não fosse o caso, nem por isso a proposta veiculada se tornaria menos perigosa. Muito pelo contrário, quanto mais disfarces usa o demônio, maior o seu poder de infiltração e conquista.

Trata-se, a propósito, de um grande erro da nossa época em relação ao mal: achar que a ação do demônio limita-se a rituais ocultistas, a possessões ou a manifestações malignas evidentes e indisfarçáveis. Não, o que o sacerdote acima está alertando é que Satanás age de modo sutil, muitas vezes “sem ser reconhecido”.

Como consequência de as pessoas não mais acreditarem na Verdade, não mais terem fé na Revelação divina, não mais levarem a sério o Credo e os preceitos da religião cristã, não mais escutarem a Palavra de Deus, elas acabam dando ouvidos às mentiras e ilusões do inimigo de Deus — entre as quais se inclui justamente a ideologia de gênero.

O Papa Bento XVI notou certa vez, com perspicácia, que por trás dessa ideia de que, à parte sua sexualidade como dado natural, o ser humano poderia moldar como bem entendesse o seu “gênero”, está uma “revolução antropológica”, uma noção não só herética de humanidade, mas avessa à própria razão natural. Não estivessem já confundidos pelas ideologias e obstinados em sua malícia, os homens de nossa época seriam facilmente curados com uma simples aula de catequese. Se desde crianças tivessem aprendido que o ser humano é corpore et anima unus — “uno de corpo e alma”, na expressão do Catecismo (n. 362) —, não se deixariam enganar por uma ideia tão maluca e distante tanto do bom senso quanto da realidade das coisas.

Ideias como essa, no entanto, não são apenas “mentirinhas” de mau gosto, contos sem nenhuma influência no dia-a-dia das pessoas… Quantas vidas não foram e não estão sendo “transtornadas”, no sentido mais literal da palavra, por uma teoria supostamente “científica” e com ares de modernidade!

Ponhamos de vez em nossa cabeça: a falta de fé e, com ela, as heresias e apostasias de nosso tempo não são inofensivas, ao contrário do que nossa época liberal tem sido levada a acreditar. Não é preciso invocar espíritos maus ou praticar rituais satânicos para estar a serviço do Anticristo. Na verdade, nunca foi tão fácil pertencer a esse corpo maligno que, “macaqueando” o Corpo místico de Cristo, a Igreja, constrói um verdadeiro império, e de proporções mundiais.

Se Santo Tomás de Aquino já falava, no século XIII, do Anticristo como cabeça dos maus (cf. Suma Teológica, III, q. 8, a. 8), nunca como agora esse organismo teve contornos tão nítidos, tão visíveis e tão… humanos. Na educação, nos governos civis, nos meios de comunicação, o satânico está por toda parte — e a ideologia de gênero é apenas um instrumento, muito poderoso e destruidor, desse sistema perverso.

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