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A Santa Missa e as quatro lições mais importantes de nossa infância
Espiritualidade

A Santa Missa e as quatro lições
mais importantes de nossa infância

A Santa Missa e as quatro lições mais importantes de nossa infância

Poder dizer a Deus “perdão”, “eu te amo”, “por favor” e “obrigado”, na Santa Missa, não é só um privilégio único para uma simples criatura. É um ato constantemente transformador.

Michael P. Foley,  Catholic CultureTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Novembro de 2018
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Uma das questões do velho Catecismo de São Pio X era: “Para que fins se oferece o Santo Sacrifício da Missa?” A resposta era dada em quatro partes:

  1. “para honrar a Deus como convém, e sob este ponto de vista o sacrifício é latrêutico;
  2. para lhe dar graças pelos seus benefícios, e sob este ponto de vista o sacrifício é eucarístico;
  3. para aplacá-lo, dar-lhe a devida satisfação pelos nossos pecados, para sufragar as almas do Purgatório, e sob este ponto de vista o sacrifício é propiciatório;
  4. para alcançar todas as graças que nos são necessárias, e sob este ponto de vista o sacrifício é impetratório” (n. 657).

Adoração, ação de graças, petição e satisfação: a menção desses quatro fins está presente em muitos missais antigos e é ainda uma lição corriqueira de qualquer catequese tradicional sobre a Missa. O que geralmente se deixa de lado, no entanto, é a relação que guardam esses fins com nossas próprias vidas concretas como seres humanos. Como exatamente essas quatro coisas se relacionam com o nosso bem-estar psicológico, emocional e espiritual?

Uma forma de tratar esta questão é ter em mente as quatro coisas mais importantes que nós aprendemos a dizer quando somos crianças: “eu te amo”, “obrigado”, “por favor” e “desculpe-me”. Essas quatro simples expressões não só são capazes de colocar tanto jovens quanto adultos no caminho da felicidade humana; elas também proporcionam uma útil analogia para o que acontece em cada Sacrifício da Missa.

Lições para a vida

A tragédia da linguagem após o Éden é que um veículo originalmente projetado para denominar corretamente a realidade (como vemos em Adão com os animais) tornou-se mais frequentemente um meio de a manipular ou obscurecer. Dizer “eu te amo”, “obrigado”, “por favor” e “desculpe-me” pode ser um ato de tremenda dissimulação e até exploração, mas me parece evidente que, quando um bom pai passa tais palavras a seu filho, não é para equipá-lo com ferramentas de manipulação.

Por mais que falemos da importância de ensinar nosso filhos a “dizer” por favor e obrigado, nossa meta final é fazê-los dizer essas coisas e realmente senti-las. Quando uma mãe faz o seu filho se desculpar com a própria irmã por puxar-lhe o cabelo, ela normalmente não fica satisfeita com um “desculpe-me” frio e um olhar desafiador e obstinado. Obviamente, seu objetivo é fazer o menino entender que o que ele fez é errado, a fim de que ele possa sentir um arrependimento verdadeiro do que fez e procurar corrigir a injustiça, não simplesmente pronunciar uma sequência específica de sons verbais. A mesma coisa vale para as três outras coisas que instruímos nossos filhos a “dizer”.

Implícito, portanto, no objetivo de educar crianças que digam “eu te amo”, “obrigado”, “por favor” e “desculpe-me” está algo maior do que um hábito trivial de boas maneiras, ou uma conformidade e submissão sem sentido a convenções sociais. De alguma forma, a ideia é transformar uma jovem mente no tipo de pessoa que seja amoroso, agradecido, deferente e, quando necessário, contritamente determinado a fazer reparos. Talvez porque essas qualidades não sejam apenas escolhas dignas em si mesmas, mas também conduzam à aquisição de outras virtudes.

Alguém que sabe a importância do arrependimento, por exemplo, também sabe a importância de perdoar (o que não é pouca coisa); e alguém verdadeiramente agradecido mais facilmente se inclina a ser generoso para com os outros. Certamente, uma das razões pelas quais tanto crentes quanto não crentes acham o servo impiedoso da parábola (cf. Mt 18, 23-34) tão repreensível é o fato de ele violar tão grosseiramente ambos esses princípios do senso comum.

Por trás dessas expressões simples, portanto, reside uma antropologia moral saudável, um esboço amplo do que seja viver bem. Idealmente falando,

  • uma pessoa capaz de dizer “eu te amo” com sinceridade é capaz de compromisso, devoção e autossacrifício;
  • uma pessoa capaz de dizer “obrigado” com sinceridade reconhece, como veremos, o dom imerecido da própria existência e o seu débito para com um mundo mais amplo que ela não criou;
  • uma pessoa capaz de dizer “por favor” com sinceridade confessa sua dependência de uma realidade fora de si mesma e rejeita o princípio de que “a verdade é relativa”, transcendendo o egoísmo debilitante que faria dela, na expressão de Walter Scott, um vil “desgraçado, concentrado todo em si mesmo”; e, finalmente,
  • uma pessoa capaz de dizer com sinceridade “desculpe-me” (ou “perdão”, para ofensas maiores) está fazendo o difícil mas crucial ingresso no mundo do autoconhecimento, sem desculpas nem disfarces, apresentando a coragem de reconhecer as próprias faltas e a resolução de corrigi-las.

Ao contrário, uma pessoa que não tenha sido educada nesses quatro ditos e nas disposições por trás deles, foi gravemente injustiçada, porque não foi estimulada ou a superar o próprio egoísmo ou, o que acaba sendo a mesma coisa, a entender a realidade da condição humana.

Os quatro fins da Missa

Curiosamente, esse caminho quadriforme guarda uma semelhança formidável com a teologia tradicional da Santa Missa. Sendo mais específico, dizer “eu te amo” em casa é análogo ao ato de adoração que acontece na Missa, “obrigado” à ação de graças, “por favor” à petição, e “desculpe-me” à satisfação.

Quando Nosso Senhor se ofereceu na cruz como um sacrifício vivo, aquele sacrifício incluía um ato infinito de adoração a seu Pai, de ação de graças a Ele, de petição ou de impetração por nossa causa, e de satisfação (ou propiciação, expiação) pelos pecados da humanidade. Esses quatro componentes, por sua vez, são representados por Cristo através da ação do sacerdote em cada Missa. E nós, os fiéis, assistimos à Missa para tomar parte e ser enriquecidos por esses fins.

Nossos próprios atos de devoção não são, é claro, idênticos aos de Nosso Senhor. A expiação de Cristo, por exemplo, não incluía “desculpe-me” da mesma forma que a nossa, porquanto Ele não tinha nada por que ser perdoado. Mas nossa frágil tentativa de compensar os próprios fracassos em um ato de expiação torna-se eficaz pela liberalidade infinita de nosso Deus crucificado e ressuscitado, sendo profunda, portanto, a diferença entre os dois atos.

As quatro perturbações do espírito

Uma razão pela qual essa analogia é significativa, portanto, é o fato de ela indicar que o sacrifício da cruz — e por extensão o do altar — contribui poderosamente para a perfeição sobrenatural de nosso potencial natural para o bem, assim como para a restauração de nossa natureza após a Queda.

Para demonstrá-lo, só precisamos considerar o substrato emocional básico do ser humano, à luz das quatro perturbationes da alma: alegria, desejo, medo e tristeza. Essa útil classificação foi empregada por Cícero (cf. De finibus bonorum et malorum, 3, 10; Tusculanae Disputationes, 4, 6), o qual tomou-a emprestada dos estoicos, e depois seria usada por pensadores cristãos como Santo Agostinho (cf. Confissões, X, 14, 22).

As quatro emoções a que Cícero faz referência guardam uma interessante relação com as quatro expressões que discutimos e com as quatro finalidades da Missa — não que elas se encaixem perfeitamente uma na outra da mesma forma, mas bons atos de adoração, ação de graças, petição e restituição contrita levam à perfeição nossos instintos mais básicos de alegria, desejo, medo e tristeza.

Desejo

No plano natural, por exemplo, o puro desejo pessoal é humanizado e sublimado pelo ato simples e sincero de dizer “por favor”. Ao invés de arrebatar o que queremos, nós reconhecemos um limite de propriedade e humildemente pedimos que esse limite seja redesenhado, com o que trocamos a brutalidade da coerção pela gentileza da cortesia. A súplica consiste, portanto, em uma sublimação do desejo, não no sentido corrompido de Freud de suprimir a libido, mas no sentido genuíno de tornar o desejo sublime ou elevado.

É esse sentido de sublimidade que encontra sua mais alta expressão na Missa, onde o desejo pessoal é aperfeiçoado sobrenaturalmente no pedido altruísta que aí fazemos não apenas por nós mesmos, mas por todos os homens. Quão longe isso está do materialismo da “oração de Jabes” na moda (cf. 1Cr 4, 10), em que cristãos são encorajados a rezar pelas ninharias desta vida como se não trouxessem dentro de si nenhum desejo de eternidade. A Missa, ao contrário, existe seja para expandir e reordenar nossos desejos a fim de que bens maiores tenham prioridade sobre bens menores, por um lado, seja para transcender também a eles, por outro.

Isso fica particularmente claro nas orações da coleta do Missal tridentino para os Domingos depois de Pentecostes, o período do ano litúrgico correspondente ao tempo da Igreja. As coletas refletem um foco recorrente em reorientar e aumentar o desejo dos fiéis. Além de pedir que sejam atendidos nossos pedidos, por exemplo, as orações pedem por uma mudança no que queremos:

  • Fac nos amare quod praecipis, “fazei-nos amar os preceitos da vossa lei” (13.º Domingo);
  • Insere pectoribus nostris amorem tui nominis, “infundi no nosso coração o amor do vosso nome” (6.º Domingo);
  • Fac eos, quae tibi sunt placita, postulare, “fazei que vos peçam [aqueles que vos invocam] o que vos apraz” (9.º Domingo), etc.

E, uma vez que nossos desejos tenham se convertido ou se voltado para esses bens maiores, a Igreja vai além e declara que Deus superará até mesmo esses bens e nos dará, como é dito na coleta do 11.º Domingo, quod oratio non praesumit, “o que não ousamos esperar da pobreza das nossas orações”.

Toda essa teologia do desejo, da impetração e da transcendência talvez em nenhum outro lugar esteja mais bela e sucintamente expressa do que na coleta para o 5.º Domingo depois de Pentecostes:

Ó Deus, que preparastes para os que vos amam bens invisíveis, infundi nos nossos corações o fogo do vosso amor, e fazei que, amando-vos em todas e sobre todas as coisas, alcancemos o efeito das vossas promessas, que superam toda a nossa esperança.

Seria necessário um ensaio adicional para desvelar os diferentes pressupostos dessa coleta no que diz respeito ao télos da mente humana e a sua relação com a ordem criada e o seu Criador. Basta-nos dizer que o “por favor” do desejo humano está sendo transposto aqui para um nível completamente novo.

Medo e tristeza

Medo e tristeza, por outro lado, são ambos responsáveis pelo ato de pedir desculpas e fazer reparações, mas só se esses atos forem genuínos. Um pedido imperfeito de desculpas tem como motivo único o medo: “Estou pedindo desculpas a você não porque eu esteja verdadeiramente arrependido do que fiz, mas porque tenho medo do que você fará a mim caso eu não lhe peça desculpas”. O pedido perfeito de desculpas, ao contrário, traz consigo o sentimento de tristeza: “Eu vejo que te machuquei de alguma forma e fiquei realmente entristecido com isso”.

Um pedido de desculpas perfeito, no entanto, também envolve o medo, não o medo da represália, como no caso anterior, mas o medo de ser afastado da pessoa amada. Santo Tomás distingue dois tipos de temores:

  • o servil, como o de um escravo que tem medo de ser punido por seu senhor; e
  • o nobre ou filial (cf. Suma Teológica, II-II, q. 19; também I-II, q. 67, a. 4, ad 2; II-II, q. 7, a. 1), como o de um marido que teme fazer algo a sua esposa pelo medo de ela perder o respeito que tem para com ele, não pelo medo de que ela venha a agredi-lo pelo que ele fez.

Ainda que o temor servil tenha sua importância nesta vida (sendo inclusive suficiente para fazer um ato de contrição, mesmo imperfeito), ele é obviamente inferior ao temor filial, motivado mais por amor do que por mera autopreservação.

Assim se dá com a propiciação no culto divino, que pressupõe uma tristeza pelas injustiças que cometemos e um medo de ofender o Deus a quem amamos e que tanto fez por nossa causa.

Sim, o temor envolvido pode muitas vezes ser apenas o de ir para o inferno, aquele pressentimento de que, se eu dormir no domingo ao invés de ir à Missa estarei cometendo um pecado mortal; e esse medo, por mais ignóbil que pareça, pode me levar à Missa e até abrir-me às graças que podem ser obtidas ali. Mas, como Santo Agostinho observou ironicamente uma vez, “as pessoas que têm medo de pecar por causa do inferno têm medo não do pecado, mas do fogo”. Assim como o homem emocionalmente maduro é motivado pelo medo nobre mais do que pelo servil, também o homem espiritualmente maduro teme mais o poder destruidor intrínseco ao pecado e o efeito que este tem na amizade com o seu Criador do que o julgamento extrínseco que o espera ao final desta vida.

Alegria

Finalmente, o sentimento de alegria acompanha os atos sinceros de dizer “eu te amo” e “obrigado”. De fato, o amor nem sempre vem acompanhado de uma alegria eufórica; muitas vezes, os compromissos do amor trazem consigo tristeza e sofrimento. Entretanto, mesmo que pareça estranho, até a dor do amor é melhor do que a falta dele (assumindo que estejamos falando de um amor bem ordenado, não do de concupiscência) e é só através do amor que a verdadeira alegria pode ser experimentada.

A mesma coisa vale para a gratidão, ainda que não nos seja mais tão fácil reconhecê-lo como antes. Para pensadores como Immanuel Kant, ter de dizer “obrigado” é uma ocasião mais de tristeza que de alegria, porque, em sua avaliação, gratidão envolve dívida, e esta é uma ameaça à autonomia pessoal, o fundamento da filosofia kantiana e da democracia liberal moderna.

Tal visão legalista ignora, no entanto, o efeito libertador que os laços humanos têm sobre o indivíduo. Para os antigos, a resposta apropriada ao difícil trabalho de interdependência humana era a pietas, aquela nobre devoção à própria família, à própria terra e, em última medida, ao próprio Deus. Esse era um “débito” que as pessoas eram felizes em ter, pois residia em uma abundância de bens que elas tinham consciência de ter recebido imerecidamente. O ato de lembrar esses benefícios, por sua vez, era uma fonte de feliz gratidão. Nas palavras de Sêneca, “o homem mais ingrato de todos é o que esqueceu um benefício… não é possível que um homem se torne agradecido se veio a perder por completo a memória” (De beneficiis, 3, 1).

A gratidão, portanto, não é apenas um importante componente do caráter moral de alguém; trata-se de um sintoma de conformação à realidade, isto é, a habilidade de lembrar devidamente os reais benefícios que alguém recebeu de benfeitores reais, e de reagir a essas verdades da forma apropriada.

E, seria desnecessário dizer, tudo isso aponta de maneira especial para a ação de graças que prestamos a Deus na Missa, esse ato supremo de anamnesis instituído pelo próprio Senhor, de lembrar e então representar o maior bem já recebido pela humanidade na história. Não sem razão o Aquinate vê a gratidão como uma virtude enraizada no amor, um amor que propositalmente não deve ter limites (cf. Suma Teológica, II-II, q. 106, a. 6, ad 2). Quão belo e apropriado, enfim, as últimas palavras da Missa, tanto no antigo quanto no novo rito, serem simplesmente: “Graças a Deus”!

Conclusão

Nossa comparação entre as quatro finalidades da Missa e as quatro grandes coisas que aprendemos na infância dá-nos ensejo a uma última ideia sobre a importância do sacrifício eucarístico. Pensar na “assistência” à Missa como um fardo legalista imposto a nós pela Igreja é tão empobrecedor quanto pensar em boas maneiras como meros caprichos e apêndices do pátrio poder.

Ainda que de modo algum sejam o suficiente, as boas maneiras são um instrumental orientando-nos para a ordem criada e, quando são incorporados da maneira correta, eles nos ajudam a atingir nosso pleno potencial como seres humanos. De modo similar, a adoração, a ação de graças, os pedidos e a satisfação que nós realizamos na Missa orientam-nos para o Criador de nossa natureza, fazendo-nos desenvolver não apenas nossas potências naturais, mas nossa capacidade de participar na natureza do próprio Deus.

Ser capaz de dizer “perdão”, “eu te amo”, “por favor” e “obrigado” a nosso Pai celeste, por meio de seu Filho e sob o auxílio de seu Espírito, não é só um privilégio único para uma simples criatura; é um ato constantemente transformador. E por esse dom só o que nos resta é dizer: Deo gratias.

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Quando uma vítima do nazismo reencontrou seu torturador...
Testemunhos

Quando uma vítima do nazismo
reencontrou seu torturador...

Quando uma vítima do nazismo reencontrou seu torturador...

O que acontece quando uma vítima do nazismo, católica devota, fica face a face com o homem que a havia torturado, 40 anos antes? Conheça a história emocionante de Maïti Girtanner.

K. V. Turley,  National Catholic RegisterTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Dezembro de 2018
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Esta é a história de uma jovem mulher, pianista de talento, que depois da invasão nazista à França começou a trabalhar na resistência ao regime. A prisão e a tortura que ela sofreu nas mãos da Gestapo fizeram com que ela ficasse inválida e sentisse dores agudas pelo resto da vida. É desnecessário dizer que, depois disso, ela não pôde realizar o sonho de se tornar uma pianista profissional.

Nas décadas que se seguiram, Maïti Girtanner, cristã devota, lutou com a raiva e com os sentimentos de vingança que a tortura havia deixado nela. Mal sabia ela que o médico nazista que a tinha torturado também sobrevivera à II Guerra Mundial. Menos ainda ela poderia prever que, 40 anos depois de seu primeiro encontro com aquele médico, seus caminhos viriam a se cruzar uma vez mais.

Maïti Girtanner, em sua juventude.

Em março de 2014, um obituário apareceu no jornal The Times falando da morte recente de Maïti Girtanner. Natural da Suíça, a história de Girtanner é mais conhecida pelo público francófono, mas permanece em grande parte oculta para o resto do mundo. Trata-se de uma história vinda de outra era, dos anos dolorosos da II Guerra Mundial, mas com uma lição permanente para todos os tempos. É uma história de sofrimento humano, e de uma resposta a ele. É uma história que nos recorda mais uma vez qual é a única forma verdadeira de enfrentar o sofrimento e suas dolorosas consequências.

Quando o exército de Hitler tomou a cidade de Paris em 1940, Marie Louise Alice Eleonore, conhecida como Maïti Girtanner, contava 18 anos. Ela havia nascido em uma família de músicos. Ainda pequena demonstrou que também possuía talento para a música, apresentando-se em seu primeiro concerto com apenas 9 anos de idade. “Soube desde cedo que um caminho havia sido demarcado para mim. Eu tinha nascido para ser pianista. A música era minha vida.”

Em meados de 1941, entretanto, Maïti viu-se envolvida em uma rede secreta: a Resistência Francesa. Ao mesmo tempo que dava recitais de piano para as elites nazistas que então ocupavam a França, ela coletava informações para os franceses que lutavam contra o ocupação alemã. Sem mais nem menos, ela foi presa em outubro de 1943 e levada para um centro de detenção na cidade de Hendaia, destinado a membros da Resistência.

Foi nesse centro que Maïti foi torturada por um jovem médico nazista chamado Leo e, como consequência disso, teve seu sistema nervoso central seriamente comprometido, a ponto de nunca mais poder tocar piano. Em fevereiro de 1944, ela ainda se encontrava encarcerada e mal podia ficar de pé sem ajuda de alguém, tão mal fora tratada. Só com a chegada da Cruz Vermelha ela foi finalmente resgatada de seu pesadelo e recebeu um tratamento hospitalar.

Maïti passou o restante de sua vida em meio a dores crônicas. Apesar de não poder mais tocar piano, o profundo desejo de voltar à música nunca a abandonou. Também como resultado da tortura sofrida, havia-lhe sido negada a possibilidade de ter uma família ou de levar uma vida minimamente normal, como a que levava antes de 1940. Pouco a pouco, ela foi-se dando conta de que pelo resto da vida as sequelas da tortura que sofrera imporiam limites à sua existência física.

Sempre devota, a partir de então ela abraçou a fé mais do que nunca, tornando-se uma terciária dominicana. Em carta a uma amiga ela disse simplesmente: “Eu não posso fazer da minha vida uma tragédia”.

Até aqui, a história de Maïti já impressiona por muitos aspectos, mas isso só aumentaria nos anos seguintes à guerra, quando ela começou a refletir sobre a sina que lhe fora reservada. A partir disso, ela se viu diante de um dilema: viver com ódio do homem que a havia debilitado ou escolher perdoá-lo. Ela começara a entender que o perdão não podia jamais ser uma ideia intelectual; ao contrário, tinha de ser algo dirigido a alguém. Ela escreveu: “O perdão não acontece em abstrato. Ele pede por uma pessoa a quem possa ser dirigido, alguém que o possa receber.” Ela começou a rezar por seus carrascos e, em particular, pelo jovem médico que a torturara.

Em 1984, tão inesperadamente como sua prisão em 1943, Maïti foi contactada por Leo, o médico nazista. Agora velho e enfermo, diagnosticado com uma doença terminal, ele enfrentava o medo da morte. Tendo se lembrado da jovem mulher cristã que, mesmo enquanto era torturada, se apegava à própria fé em Deus e em um céu, Leo escreveu-lhe perguntando se ela ainda acreditava em tais coisas. Maïti escreveu-lhe de volta e disse-lhe que sim, que ainda acreditava. Isso levou a mais contatos, não menos do que o que havia acontecido entre os dois 40 anos antes. Leo decidiu visitar Maïti.

Quantas memórias dolorosas aquela troca de correspondências havia trazido a Maïti, só se pode imaginar a partir dos pensamentos e das emoções que ela experimentou enquanto esperava a visita de seu algoz. Provavelmente, ela também sabia que esse segundo encontro seria, tanto para ela quanto para Leo, tão decisivo quanto o primeiro, 40 anos antes.

Ao chegar à casa de sua antiga “paciente”, o ex-médico implorou por seu perdão. Ela tomou-lhe a cabeça por entre as mãos, beijou-a e, enquanto o abraçava, perdoou-lhe.

Depois daquele momento, ela disse: “Eu o abracei a fim de colocá-lo dentro do coração de Deus. E [enquanto eu fazia isso] ele murmurou: ‘Me perdoe’.”

Seja qual for o presente que Leo recebeu naquele dia, outro presente ainda maior foi dado a Maïti Girtanner. Ela havia rezado ao longo de 40 anos pela graça de perdoar, pois sabia que, por meio daquele ato, também ela seria libertada. Daquele dia ela diria mais tarde: “Perdoá-lo libertou-me”.

Naquele encontro totalmente imprevisto, em 1984, as orações de Maïti Girtanner foram estranhamente atendidas.

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Bispos anglicanos querem ideologia de gênero em suas liturgias
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Bispos anglicanos querem
ideologia de gênero em suas liturgias

Bispos anglicanos querem ideologia de gênero em suas liturgias

Diretriz pastoral recém-publicada pela Igreja da Inglaterra orienta sacerdotes a oferecer cerimônias parecidas com o batismo para pessoas transgêneras e suas “novas identidades”.

Doug Mainwaring,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Dezembro de 2018
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A Igreja Anglicana, a maior denominação cristã no Reino Unido, está evitando chamar sua recém-instituída bênção para “transgêneros” de um “segundo batismo”, mas a orientação é para que seus sacerdotes ofereçam cerimônias parecidas com o sacramento para aqueles que anunciarem sua nova identidade sexual.

Em uma diretriz pastoral publicada nesta semana, o clero anglicano é orientado a chamar os homens por seus novos nomes femininos, e as mulheres por seus novos nomes masculinos. O documento declara: “O rito do ministro de se dirigir à pessoa trans usando pela primeira vez o nome que ela escolheu, pode ser um momento poderoso na liturgia”.

“Deve-se notar que o ato de dar ou adotar um novo nome tem uma longa história na tradição judaico-cristã, atestada pela Escritura”, diz o documento. “Em alguns círculos cristãos, por exemplo, existe o costume de os fiéis adotarem um nome adicional ou o nome de um santo no momento de sua confirmação.”

O clero também é aconselhado a respeitar os pronomes do gênero escolhido pela pessoa, ainda que eles não correspondam à realidade.

Denominado Afirmação da Fé Batismal, o rito convida as pessoas já batizadas e confusas com o próprio gênero a “renovarem publicamente os compromissos firmados no batismo e dá a possibilidade, aos que passaram por uma grande transição, de dedicarem novamente suas vidas a Jesus Cristo”.

Para as pessoas “transgêneras” ainda não batizadas e que procuram ingressar na Igreja da Inglaterra, a nova orientação descreve o batismo como o “contexto litúrgico natural para reconhecer e celebrar-lhes a identidade”.

Ao invés de criar um novo sacramento, os bispos anglicanos estão recomendando que o já existente sacramento do batismo e a afirmação dos votos batismais sejam deformados não apenas para acomodar mas também para celebrar a disforia de gênero dentro de suas igrejas.

A diretriz emitida pela Casa Episcopal da Igreja Anglicana na terça-feira (11) adverte os pastores a imporem as mãos sobre o fiel e a rezar usando o novo nome de transgênero por ele escolhido. Os pastores também são orientados a incorporar a esse rito a aspersão de água benta e a unção com óleo consagrado.

Andrea Minichiello Williams, chefe-executiva da organização evangélica Christian Concern e leiga membro do Sínodo Geral da Igreja Anglicana, criticou a nova orientação, dizendo que se trata de uma continuação da “trajetória devastadora [da instituição] rumo a uma franca negação de Deus e de sua Palavra”.

“A finalidade do batismo é configurar uma pessoa a Jesus, quando ela começa uma vida no seguimento dEle”, defende Andrea. “Usar uma afirmação do batismo para celebrar uma transição de gênero vira isso de ponta cabeça e encoraja as pessoas a seguirem seus próprios sentimentos e a viverem com identidades contrárias ao modo como Deus as criou.”

Não é sinal de amor desviar as pessoas — e, mais amplamente, a sociedade — para os mitos e as falsidades da ideologia de gênero”, ela concluiu.

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O impressionante martírio de Santa Luzia
Santos & Mártires

O impressionante
martírio de Santa Luzia

O impressionante martírio de Santa Luzia

Popularmente conhecida como protetora dos olhos, Santa Luzia deu um belo testemunho de pureza antes de ser martirizada e “só rendeu o espírito depois que alguns sacerdotes lhe deram o Corpo do Senhor”.

Beato Tiago de Varazze12 de Dezembro de 2018
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O nome Luzia (ou Lúcia) vem de lux, “luz”. A luz é bonita de se ver porque, segundo Ambrósio, ela está por natureza destinada a ser graciosa para a visão. Ela se difunde sem se sujar, por mais sujos que sejam os lugares em que se projeta. Seus raios seguem linha reta, sem a menor curva, e sem demora ela atravessa imensas extensões.

Daí ser apropriado o nome de Luzia para aquela virgem bem-aventurada que resplandece com o brilho da virgindade sem a mais ínfima mácula, que difunde calor sem nenhuma mescla de amor impuro, que vai direto a Deus sem o menor desvio, que sem hesitação e sem negligência segue em toda sua extensão o caminho do serviço divino. Lúcia também pode vir de lucis via, “caminho da luz”.

Lúcia, virgem de Siracusa, de origem nobre, ouvindo falar por toda a Sicília da fama de Santa Ágata, foi até o túmulo dela com a mãe, Eutícia, que havia quatro anos sofria de hemorragias sem esperança de cura. Naquele dia, lia-se na Missa a passagem do Evangelho na qual se conta que o Senhor curou uma mulher que padecia a mesma doença (cf. Mt 9, 20-22; Mc 5, 25-29; Lc 8, 43-48).

“Martírio de Santa Luzia”, atribuído a Elisabetta Sirani.

Lúcia disse então à mãe: “Se acreditas no que foi lido, deves crer que Ágata está na presença dAquele por quem ela sofreu. Portanto, tocando o túmulo dela com fé, logo estarás completamente curada.”

Quando todo o povo partiu, mãe e filha ficaram orando perto do túmulo. O sono apossou-se de Lúcia, que viu diante dela, de pé, Ágata rodeada de anjos e ornada de pedras preciosas dizendo-lhe: “Minha irmã Lúcia, virgem toda devotada a Deus, por que pedes a mim o que tu mesma podes conseguir, neste instante, para tua mãe? Fica sabendo que ela acaba de ser curada pela fé.”

Lúcia despertou e disse: “Mãe, tu estás curada. Em nome daquela por quem acabas de obter a cura, peço-te que não me procures um esposo, e que meu dote seja distribuído aos pobres.” Respondeu a mãe: “Depois que eu fechar os olhos, tu podes dispor de teus bens como quiseres”. Lúcia replicou: “Se me dás alguma coisa ao morrer, é porque não podes levá-la contigo; dá-me enquanto estás viva e serás recompensada.”

Voltando para casa, passaram todo o dia a vender uma parte dos bens, distribuindo o dinheiro aos pobres. A notícia da partilha do patrimônio chegou aos ouvidos do noivo, e ele perguntou a razão daquilo à mãe de Lúcia. Esta respondeu que sua filha havia encontrado um investimento mais rentável e mais seguro, daí estar vendendo seus bens.

O insensato, crendo tratar-se de um comércio plenamente humano, passou a colaborar na venda daqueles bens, buscando os melhores negócios. Quando soube que tudo o que fora vendido tinha sido dado aos pobres, o noivo levou-a à justiça, diante do cônsul Pascásio, acusando-a de ser cristã e de violar as leis imperiais.

Pascásio convidou-a a sacrificar aos ídolos, mas ela respondeu: “O sacrifício que agrada a Deus é visitar os pobres e prover às suas necessidades, mas como não tenho mais nada a dar, ofereço a Ele a mim mesma.”

Pascásio retorquiu: “Poderias dizer essas coisas a um cristão insensato como tu, mas a mim, que executo os decretos dos príncipes, é inútil argumentar assim.”

Lúcia rebateu: “Tu executas as leis de teus príncipes; eu executo a lei do meu Deus. Tu temes os príncipes, eu temo a Deus. Tu não gostarias de ofendê-los; eu evito ofender a Deus. Tu desejas agradá-los; eu anseio ardentemente agradar a Cristo. Faz então o que julgares útil para ti, e eu farei o que sei que me será bené­fico.”

Pascásio replicou: “Tu dilapidaste teu patrimônio com uns depravados e agora falas como uma meretriz.” Lúcia retrucou: “Pus meu patrimônio num lugar seguro e nunca conheci os que depravam espírito e corpo.”

Pascásio perguntou-lhe: “Quem são esses corruptores?” Lúcia respondeu: “Os que corrompem o espírito são vós, que aconselhais as almas a abandonarem o Criador. Os que corrompem o corpo são os que preferem os gozos corporais às delí­cias eternas.” Pascásio ameaçou-a: “Vais parar de falar quando começares a ser fustigada”, zo que Lúcia respondeu prontamente: “As palavras de Deus nunca terão fim.”

“Então tu és Deus?”, perguntou-lhe Pascásio. “Eu sou escrava do Deus que disse: quando estiverdes em presença de reis e de juízes, não vos preocupeis com o que dizer. Não sereis vós a falar, pois o Espírito Santo falará por vós” (Mc 13, 11), respondeu Lúcia. “Então o Espírito Santo está em ti?”, tornou Pascásio. “Os que vivem em castidade são templos do Espírito Santo”, respondeu-lhe.

Pascásio afirmou: “Então vou mandar que te levem a um lupanar, para que sejas violada e percas o Espírito Santo.” Lúcia: “O corpo só se corrompe se o coração consentir. Se fizeres com que eu seja violentada, será contra minha vontade e ganharei a coroa da pureza. Jamais terás meu consentimento. Eis meu corpo, ele está disposto a toda sorte de suplícios. Por que hesitas? Começa a me atormentar, filho do diabo.”

Então Pascásio mandou vir uns depravados, aos quais disse: “Convidai o povo todo e torturai-a até a morte.” Mas quando quiseram levá-la, o Espírito Santo a fez ficar imóvel e tão pesada que não conseguiram forçá-la a se mover. Pascásio mandou chamar mil homens e amarrar seus pés e suas mãos, mas eles não foram capazes de movê-la de modo algum. Aos mil homens ele acrescentou mil parelhas de bois, mas a virgem do Senhor permaneceu imóvel. Então convocou feiticeiros para movê-la com seus sortilégios, mas eles nada conseguiram.

Pascásio então perguntou: “Que malefícios são esses? Por que uma moça não é movida por mil homens?” Lúcia respondeu: “Não são malefícios, e sim benefícios de Cristo. E ainda que acrescentasses dez mil homens, tu não me verias menos imóvel.” Acreditando Pascásio na opinião segundo a qual se poderia livrar uma pessoa de malefícios jogando urina sobre ela, mandou que se fizesse isso com Lúcia, mas ela continuou sem se mover.

Furioso, Pascásio mandou acender em torno dela uma grande fogueira e jogar em seu corpo óleo fervente, misturado com pez e resina. Depois desse suplício, Lúcia exclamou: “Obtive uma trégua no meu martírio para que os crentes não tenham medo de sofrer e os incré­dulos tenham mais tempo para me insultar.”

Vendo Pascásio irritadíssimo, seus amigos enfiaram uma espada na garganta de Lúcia, que apesar disso não perdeu a palavra: “Eu vos anuncio que a paz foi restituída à Igreja, porque hoje Maximiano acaba de morrer e Diocleciano, de ser expulso do seu reino. Da mesma forma que minha irmã Ágata foi eleita protetora da cidade de Catânia, assim também fui eleita guardiã de Siracusa.”

Enquanto a virgem assim falava, chegaram uns funcionários romanos que prenderam Pascásio, agrilhoaram-no e levaram-no ao César, pois este ficara sabendo que ele tinha saqueado toda a província. Chegando a Roma, Pascácio compareceu diante do Senado, foi declarado culpado, condenado à pena capital e executado.

Quanto à virgem Lúcia, não foi tirada do lugar em que sofrera e só rendeu o espírito depois que alguns sacerdotes lhe deram o Corpo do Senhor. Então todos os presentes disseram: Amém. Ela foi sepultada naquele mesmo lugar, onde foi construída uma igreja. Seu martírio ocorreu no tempo de Constantino e de Maxêncio, por volta do ano 310 do Senhor.

Referências

  • Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 77-80.

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“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero
Sociedade

“Definitivamente satânica”: um
exorcista fala da ideologia de gênero

“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero

Este exorcista está convencido de que “a forma como essa coisa de gênero tem se espalhado é demoníaca”, por mais que as pessoas não enxerguem, ou se recusem a fazê-lo.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Novembro de 2018
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Crianças “treinadas” desde cedo para “descobrir” a própria sexualidade ou questionar o próprio “gênero”, pais punidos pelo Estado por não aceitar que seus filhos recebam a “educação sexual” tendenciosa da escola, programas de TV cada vez mais abertamente ideológicos e pervertidos, inclusive para o público infantil… A lista de investidas que os ideólogos de gênero têm promovido nos últimos anos, em todas as áreas, parece não ter mais fim. Talvez seja necessário, em um futuro próximo, isolar-se numa caverna para escapar à sua influência.

Um episódio recente de promoção dessa agenda — protagonizado pela famosa cantora Celine Dion, cuja posição favorável à família e contra o divórcio já foi elogiada em outros tempos por sítios católicos — acendeu o alerta de muitos para o poder de sedução e de manipulação dessa ideologia. A artista fez campanha para a linha internacional de roupas infantis “NuNuNu”, inaugurando uma marca com a finalidade de “liberar as crianças dos papéis tradicionais de menino e menina”.

Não fosse isso o suficiente, a empresa em questão tem em seu histórico um mural de fotos para lá de controverso, com máscaras sem rosto, espelhos refletindo caveiras, bodes segurando livros infantis, crianças com tatuagens de piratas e anéis sombrios.

Para o monsenhor John Esseff, padre há 65 anos e exorcista experiente, que conversou com a escritora católica Patti Armstrong, colunista de National Catholic Register, “a forma como essa coisa de gênero tem-se espalhado é demoníaca”. O sacerdote exerce seu ministério na diocese de Scranton, no estado norte-americano da Pensilvânia, já foi diretor espiritual de Santa Teresa de Calcutá e ajudou a fundar e dirigir um instituto de formação para exorcistas.

“Quando uma criança nasce”, ele se pergunta, “quais as primeiras coisas que se dizem dela? Que é um menino ou que é uma menina. É a coisa mais natural do mundo de se dizer. Dizer que não há nenhuma diferença, ao contrário, é algo satânico. Eu não sei nem mesmo quantos gêneros deve haver agora, mas há apenas dois criados por Deus.”

Ainda que o demônio esteja em guerra com a humanidade desde o princípio, o padre John destaca que os ataques satânicos neste período da história têm-se tornado mais intensos. “O maligno sente que, de alguma forma, ele pode fazer essas coisas sem ser reconhecido. Ele é um mentiroso, e há grandes mentiras sendo contadas.”

Diante das fortes declarações do exorcista, houve quem sugerisse na internet que religiosos contrários à ideologia de gênero estariam acusando de “satanismo” a cantora Celine Dion. De fato, tanto o comercial quanto a marca apoiada por ela encontram-se repletos de elementos sombrios e perturbadores. Mas, ainda que não fosse o caso, nem por isso a proposta veiculada se tornaria menos perigosa. Muito pelo contrário, quanto mais disfarces usa o demônio, maior o seu poder de infiltração e conquista.

Trata-se, a propósito, de um grande erro da nossa época em relação ao mal: achar que a ação do demônio limita-se a rituais ocultistas, a possessões ou a manifestações malignas evidentes e indisfarçáveis. Não, o que o sacerdote acima está alertando é que Satanás age de modo sutil, muitas vezes “sem ser reconhecido”.

Como consequência de as pessoas não mais acreditarem na Verdade, não mais terem fé na Revelação divina, não mais levarem a sério o Credo e os preceitos da religião cristã, não mais escutarem a Palavra de Deus, elas acabam dando ouvidos às mentiras e ilusões do inimigo de Deus — entre as quais se inclui justamente a ideologia de gênero.

O Papa Bento XVI notou certa vez, com perspicácia, que por trás dessa ideia de que, à parte sua sexualidade como dado natural, o ser humano poderia moldar como bem entendesse o seu “gênero”, está uma “revolução antropológica”, uma noção não só herética de humanidade, mas avessa à própria razão natural. Não estivessem já confundidos pelas ideologias e obstinados em sua malícia, os homens de nossa época seriam facilmente curados com uma simples aula de catequese. Se desde crianças tivessem aprendido que o ser humano é corpore et anima unus — “uno de corpo e alma”, na expressão do Catecismo (n. 362) —, não se deixariam enganar por uma ideia tão maluca e distante tanto do bom senso quanto da realidade das coisas.

Ideias como essa, no entanto, não são apenas “mentirinhas” de mau gosto, contos sem nenhuma influência no dia-a-dia das pessoas… Quantas vidas não foram e não estão sendo “transtornadas”, no sentido mais literal da palavra, por uma teoria supostamente “científica” e com ares de modernidade!

Ponhamos de vez em nossa cabeça: a falta de fé e, com ela, as heresias e apostasias de nosso tempo não são inofensivas, ao contrário do que nossa época liberal tem sido levada a acreditar. Não é preciso invocar espíritos maus ou praticar rituais satânicos para estar a serviço do Anticristo. Na verdade, nunca foi tão fácil pertencer a esse corpo maligno que, “macaqueando” o Corpo místico de Cristo, a Igreja, constrói um verdadeiro império, e de proporções mundiais.

Se Santo Tomás de Aquino já falava, no século XIII, do Anticristo como cabeça dos maus (cf. Suma Teológica, III, q. 8, a. 8), nunca como agora esse organismo teve contornos tão nítidos, tão visíveis e tão… humanos. Na educação, nos governos civis, nos meios de comunicação, o satânico está por toda parte — e a ideologia de gênero é apenas um instrumento, muito poderoso e destruidor, desse sistema perverso.

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