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“Harry Potter me converteu”
Testemunhos

“Harry Potter me converteu”

“Harry Potter me converteu”

Os livros de Harry Potter ajudaram esta mãe de família a perceber “como um antigo pecado não confessado estava emperrando” a sua vida. Conheça o seu testemunho.

Toni CollinsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Outubro de 2018
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Este texto, escrito em 2001, é o testemunho de uma mãe de família católica que, preocupada com a formação moral de seus filhos e havendo passado por uma experiência com o mundo do ocultismo, quer alertar as famílias para os males da magia e da feitiçaria, principalmente quando a cultura ao nosso redor tende a ridicularizar a oposição a essas práticas como exagero ou até mesmo “fanatismo”.

Não se trata propriamente de um “anátema” aos livros de Harry Potter, mas sim de um convite a refletir sobre a educação que damos a nossos filhos e as influências a que os deixamos expostos — e é com esse espírito que gostaríamos que todos lessem este texto, pois o que está em jogo aqui, mais do que a avaliação de uma obra de literatura (hoje, aliás, não tão em alta quanto alguns anos atrás), é a salvação das almas de nossas crianças.

A matéria original em inglês, de autoria de Toni Collins, foi adaptada aqui e ali para esta publicação.


Harry Potter: você por acaso se lembra de quando ele entrou na sua vida? Notou que crianças que mal conseguiam concentrar-se na leitura de uma carta de Pokémon eram capazes, de repente, de ler por horas a fio? Seus filhos repentinamente vinham da escola para casa contando, entusiasmados, histórias de magos e bruxas?

Os livros de Harry Potter, escritos por J. K. Rowling, ganharam milhões de crianças e adultos. Trata-se indiscutivelmente da obra mais rapidamente abraçada pelo público infantil na história. Você teria de se esconder no mais remoto dos eremitérios para evitar de ver os livros, e estar tão isolado quanto para evitar a controvérsia em torno deles.

São abundantes, de fato, as controvérsias, e Harry Potter mexe com as emoções de muitos. Alguns pais se entusiasmam com o fato de seus filhos se dedicarem à leitura pela primeira vez. Eles dizem amar o modo como os livros pintam o bem contra o mal, e usam os livros para ajudar seus filhos a aprender a diferença entre o que é certo e errado. Mas outros pais ficam profundamente perturbados com o assunto tratado pela saga. Eles se preocupam em ver tantas crianças abraçando um mundo de magia e bruxaria.

Quanto a mim, sou uma mãe que se enquadra nesta última categoria. Frequentemente me vejo no desconforto de tentar explicar aos amigos mais queridos o porquê de eu ficar tão incomodada com os livros. Não é fácil dizer a alguém: “Eu sei que você ama esses livros, mas…”.

Quando eu toco nesse assunto, vejo-me obrigada a compartilhar, mesmo que a contragosto, um pouco de meu testemunho antes de ser católica. Mas tem ficado difícil se abrir a respeito do próprio passado, principalmente porque aqueles de nós que passaram pelas mesmas experiências tendem a possuir, também, uma espécie de receio quanto à popularidade de Harry Potter. Apesar de meu incômodo com os livros, tenho de admitir que eles me ajudaram a perceber como um antigo pecado não confessado estava emperrando minha vida.

Astrologia, hipnotismo e bruxaria

Tendo sido batizada em um lar de católicos não-praticantes, passei minha infância frequentando várias igrejas protestantes. Aprendi a fazer minhas orações antes de dormir. Meus pais enfatizavam a educação moral em casa. Eu tinha um sentimento profundo e permanente da presença de Deus em minha vida. Sabia que Ele me amava e sempre soube que podia me voltar para Ele.

Mas, tanto quanto posso me lembrar, pela época em que meus pais se divorciaram, quando eu tinha 14 anos, Deus deixou de ser enfatizado em minha casa. Lembro-me de haver uma ênfase pesada na importância da astrologia para explicar as personalidades das pessoas, um fascínio com adivinhação e uma incrível festa temática do “zodíaco” que eu e minha mãe demos, cheia de luzes ambientes e jogos de levitação para entretenimento.

Não muito tempo depois, fui assistir a um espetáculo de hipnose, que depois comecei a frequentar. O show dava a uma jovem vaidosa como eu a oportunidade de cantar em frente a uma plateia. Considerava a hipnose uma fraude até a noite em que aquele hipnotizador me escolheu para o finale do seu show. Dizendo que meu corpo era “rígido como uma barra de ferro”, ele me fez deitar ao longo de duas poltronas reclináveis e então ficou em cima de mim.

Tê-lo ali, agindo sobre meu corpo aerotransportado, ensinou-me que algo realmente acontece quando você é hipnotizado. Meus amigos cristãos tentaram me dizer que esse “algo” não era saudável para mim espiritualmente, mas eu não dei ouvidos. Eu realmente pensava que não podia me afetar, que tudo não passava de diversão. Mas olhando para trás na minha vida, eu agora posso dizer que o final dos dois anos que eu passei assistindo ao show daquele hipnotizador coincidiu com minha decisão consciente de voltar as costas a Deus.

Consequência direta de ter sido hipnotizada? Provavelmente não. Posso assegurar a você, no entanto, que autorizar alguém a regularmente tomar o controle de minhas escolhas conscientes não fez bem algum à minha fraca vida de fé.

O evento mais assustador de minha vida aconteceu quando eu me arrisquei a fazer uma bruxaria. Eu cresci como uma menina de poucos amigos e havia me transformado em uma adolescente solitária, sempre à procura de amor. Um dia, escolhi um desses livrinhos que sempre são vendidos nos caixas de supermercados, e esse que comprei era sobre feitiços de amor. Levei-o para casa, tranquei-me no quarto e comecei a lançar um feitiço sobre o meu “namoradinho” da escola. Eu não me lembro das palavras que usei (graças a Deus), mas jamais esquecerei o que aconteceu.

Comecei a lançar o feitiço. ! Uma imensa porta preta (como o monólito de Uma Odisseia no Espaço) bateu com força como se viajasse de minha mão esquerda para a direita. “Deus não quer que você faça isso”, disse uma voz bem fundo dentro de mim. ! Uma porta tão grande quanto bateu forte na outra direção, e uma voz respondeu: “Tanto faz, Deus não existe”, eu me senti tentada a escutar. ! A porta bateu de volta na direção original e uma voz disse, devagar mas com firmeza: “Sim… Ele… existe”.

Coloquei o livro de magia no chão, para nunca mais pegá-lo. Fiquei bastante mexida com aquilo e sabia que havia encontrado algo além deste mundo. A dúvida havia entrado na minha vida pela primeira vez, e eu sabia que poderia ter abraçado um universo sem Deus no instante em que aquela segunda porta bateu. Eu sabia que algo ali queria que eu me afastasse de Deus para sempre, e esse algo teve a sua oportunidade quando eu tomei parte no mundo da bruxaria.

Teria esse ato abortado de bruxaria deixado consequências? Certamente sim. Pouco tempo depois, quando saiu o filme O Exorcista, aquele meu namorado enamorou-se pelo demônio, ao mesmo tempo atraído por ele e desejando ter o seu poder. Eventualmente ele começou a cruzar as ruas de Hollywood procurando por relacionamentos homossexuais, e eu dei fim à nossa amizade.

Eu também senti as consequências, mas elas não viriam à tona enquanto eu não abandonasse a Deus e voltasse a Ele, então, tornando-me católica. A essa altura eu descobri em mim uma incrível sensibilidade para o oculto. Qualquer coisa mesmo que remotamente associada a esse mundo — horóscopos, ler a mão, livrarias de astrologia ou cura através dos cristais — era capaz de me perturbar profundamente. Era como se eu sentisse um “borbulhar” obscuro dentro de minha alma, puxando-me para o preternatural. Eu lutava contra isso rezando pelas pessoas envolvidas em tais práticas e, ao mesmo tempo, protegendo-me de qualquer exposição a coisas desse gênero.

E Harry Potter?

Junto com isso, veio Harry Potter. Fui apresentada a ele quando minha melhor amiga descobriu que a saga havia feito seu filho mais velho gostar de leitura pela primeira vez na vida. Em seguida, Harry Potter já estava em todo lugar, e minha filha de 18 anos estava lendo os livros. Mas eu senti aquele “borbulhar”, e por isso sabia que precisava descobrir se meus medos tinham algum fundamento na realidade.

Muito assustada para ler os livros logo de cara, comecei a ler o que outras pessoas tinham a dizer sobre eles. Comecei a notar um padrão. Dos comentaristas que eu li e que diziam amar os livros de Harry Potter, praticamente nenhum havia passado por uma alguma experiência com o oculto. Para eles, a saga não passava de uma fantasia agradável do mesmo gênero de J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis. Em contraste, quase todo comentarista que eu lia e que havia passado por alguma experiência com o oculto achava os livros perturbadores, quase como se eles fossem cartilhas de iniciação à magia.

Por que a diferença de opiniões? Li os primeiros dois livros, Harry Potter e a Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara Secreta, e cheguei a uma resposta. A maior parte dos livros são, de fato, uma fantasia agradável. A autora, Joanne Rowling, faz cócegas em nossa imaginação com contos de unicórnios, jogos de quadribol e corujas mensageiras.

Mas em meio a esses charmosos retratos encontram-se seções mais tenebrosas, particularmente na parte inicial da educação recebida por Harry. Essa combinação — elementos mais sombrios introduzidos no começo e um acabamento agradável que só pode ser considerado imaginativo — deixa muitos leitores com uma sensação geral boa a respeito dos livros.

Então por que eu senti tal pavor ao ler Harry Potter? Por que outras pessoas que deixam o ocultismo, de modo geral, não gostam dos livros? John Gibson, que se converteu do neopaganismo para o catolicismo e cuja história de conversão encontra-se registrada em Surprised by Truth 2 (“Surpreendidos pela Verdade II”, sem tradução para o português), escreveu-me o seguinte: “Antes e acima de tudo, a maioria das pessoas que se envolveram com o oculto possuem como que uma impressão digital disso em suas almas. Isso nos dá uma espécie de sensibilidade ao oculto que outras pessoas não têm.”

Uma impressão digital na alma” — era essa a diferença que eu estava vendo entre os leitores que amavam Harry Potter e aqueles de nós que não o fazíamos. Aquela “impressão digital” estava sendo cutucada novamente toda vez que eu lia Harry Potter, e nossas almas iam se remexendo. Nós estávamos reconhecendo coisas com as quais já tínhamos tido contato no passado e que havíamos rejeitado por amor a Deus.

Para esclarecer o que eu quero dizer aqui, permitam-me oferecer apenas algumas histórias de pessoas cujas vidas, em algum ponto, entrelaçaram-se com o oculto e que hoje externam preocupações a respeito de Harry Potter.

“Só existe um tipo de magia”

Clare McGrath Merkle é uma ex-curandeira Nova Era, bem versada no ocultismo e convertida ao catolicismo. Sua preocupação com os livros de Harry Potter é profunda, porque ela reconhece em suas páginas muitas das artes que ela praticava. Ela e suas amigas de ocultismo — psicólogas, médicas e outras profissionais (que também eram feiticeiras e bruxas) — defendiam seus estudos juntas “como sendo da categoria de magia branca, quase como a escola de magia de Harry Potter”, isto é, Hogwarts.

Mas, tendo ela mesma deixado o mundo do oculto para entrar no aprisco da Igreja Católica, ela agora reconhece que, na verdade, só existe um tipo de magia, “conhecida por vários nomes, como magia negra, ocultismo, satanismo ou artes das trevas”.

Jacqui Komschlies dá um alerta similar: “Nós precisamos lembrar que a bruxaria, na vida real, não só pode como leva à morte — e a morte do tipo eterno”. Por mais de dez anos ela ficou fascinada com o sobrenatural, desenvolvendo um “apetite” pela leitura de histórias de “magos, magia, poder e aventura”. Eventualmente, ela descobriu que o sobrenatural estava tomando controle de seus pensamentos.

Um dia os espíritos, os poderes e as deusas que povoavam até mesmo seus sonhos começaram a falar com ela. Assustada, ela invocou Deus. Ele a resgatou, e as vozes cessaram.

Hoje ela adverte: “Nosso mundo está explodindo de interesse por bruxaria de verdade. Digite ‘Como posso me tornar uma bruxa?’ no Google e você terá listas para dezenas de sites relacionados. Uma matéria chega a trazer um processo de oito passos para se tornar uma bruxa por conta própria.”

Ainda que Vivian Dudro não tenha nenhum passado com o ocultismo, ela partilha das mesmas preocupações de Jacqui sobre o crescente fascínio das crianças com o oculto. Uma pesquisa feita por ela mesma mostra que, “em San Francisco, as histórias de Harry Potter já inspiraram numerosas crianças a procurar outros livros a respeito de bruxas, magos e fantasmas. As livrarias da cidade encheram suas prateleiras de contos juvenis com histórias desse gênero… A tendência me preocupa porque não só se trata de um pecado sério, mas o ocultismo é a porta principal pela qual o diabólico entra na vida de uma pessoa” [3].

“Brincando com fogo… do inferno”

Steve Wood, editor da St. Joseph’s Covenant Keepers, uma comunidade virtual de pais sob o patrocínio de S. José, ponderou sobre o assunto a partir de sua própria experiência com o oculto. Tendo lido os primeiros livros da saga, ele sustenta uma opinião forte a respeito:

Antes de minha conversão ao cristianismo, eu estive envolvido em Nova Era e falsos movimentos religiosos que realmente praticavam várias das coisas casualmente descritas nos romances de Harry Potter… Tenho conduzido jovens do próprio mundo descrito nesses livros a um compromisso com Cristo… Eu pessoalmente confrontei e atendi indivíduos possessos envolvidos com satanismo e ocultismo. À luz dessa experiência, advirto os pais que expor os filhos ao ‘fascinante’ mundo de Harry Potter é brincar com fogo do inferno.

Não são apenas os leigos que se preocupam com Harry Potter. O padre Phillip Scott é um sacerdote que vive perto de uma comunidade de “góticos” na Flórida. Os jovens dessa comunidade praticam “missas” satânicas, vivem o ocultismo e realizam malefícios espirituais, frequentemente amaldiçoando a ele e a seus irmãos no sacerdócio.

O padre Phillip acredita que a entrada nesse estilo de vida horrendo começa com a curiosidade, e ele acredita que livros como Harry Potter podem estimular essa curiosidade. Em uma entrevista com Steve Wood, o padre conta ter atendido um jovem cuja mente estava povoada com imagens dos livros de Harry Potter. O mais assustador é que os livros não haviam sido escritos à época que o rapaz fora atendido; olhando para trás, o padre Phillip reconheceu nas páginas de Harry Potter exatamente as imagens que haviam atormentado aquele rapaz. Para este sacerdote, os livros de J. K. Rowling são um “veneno”.

Feitiços e poções

O que são algumas dessas imagens e quais os seus respectivos riscos? Em seu livro de 1991, Ungodly Rage (também sem tradução para o português), Donna Steichen partilhou esta citação perspicaz de uma ex-praticante da Wicca, Carmen Helen Guerra:

Quando eu era uma bruxa, eu realizava rituais, evocava espíritos e entidades, fazia feitiços, queimava velas e misturava poções. A única coisa que eu não fazia era voar a bordo de uma vassoura, mas eu provavelmente teria descoberto como fazer isso se tivesse tido tempo para tanto. Mas aonde isso me levou? Para a escuridão, a depressão e a criação de uma aura de melancolia ao meu redor. Eu vivia sob constantes ataques demoníacos. A casa em que eu vivia estava cheia de atividades fantasmagóricas… devido a “convidados” de rituais meus que haviam permanecido. Meus familiares e amigos tinham medo de mim. Eu sabia que não tinha futuro; tudo o que eu tinha era um presente sombrio. Eu estava presa por juramentos e pelo “destino”. Mas eu tinha poder, algo que eu sempre quis. Não era culpa de Satanás. “Ele não existia”, assim eu pensava. Eu desisti de tudo, e procurei a Jesus com os joelhos no chão… Ele me libertou da opressão em que eu vivia e devolveu-me a alma — que eu havia tão estupidamente entregado ao mal em troca de poder.

O que isso tem a ver com Harry Potter? Ainda que estejam travestidos com luzes e doçuras, o primeiro livro da série traz rituais (como a “Cerimônia de Seleção”); feitiços (como Hermione lançando o feitiço do “corpo preso” sobre Neville); espíritos e outras entidades não-humanas (Voldemort possui o corpo de Quirrell e há uma miríade de fantasmas em Hogwarts); velas (milhares flutuando sobre as mesas em Hogwarts); e poções (com aulas especiais do professor Snape).

Pode não ser agradável pensar nisso, mas realmente existem pessoas que praticam bruxaria, que lançam feitiços e fazem rituais, e procuram resultados. J. K. Rowling escreve como se esses poderes pudessem ser usados para o bem, e é esse o grande perigo dos seus livros. Rituais, feitiços e poções são usados por bruxas no mundo real, e só funcionam pelo poder de espíritos maus. Em si mesmos, eles não podem jamais levar ao bem. Retratar essas práticas intrinsecamente más como se pudessem ser “domadas” para o bem é uma mentira perigosa.

Rowling fomenta ainda mais confusão a esse respeito por retratar a bruxaria não como um problema moral, mas como uma questão de herança genética. No mundo de Rowling, a habilidade de praticar magia é herdada. Mas, na realidade, você não precisa pertencer a uma determinada linha de sangue para fazer trabalhos de bruxaria. Tudo o que você precisa fazer é atrair maus espíritos, mudar a sua vontade e trocar Jesus Cristo pelo mundo do ocultismo.

Nós temos duas falsidades, portanto, apresentadas às crianças que lêem esses livros: primeiro, que o “status” de bruxos está escrito em seus genes; e segundo, que se eles forem os “sortudos”, podem usar os poderes que têm para o bem. Essas são mentiras nocivas que se aprendem, porque a realidade é muito diferente e nada inofensiva. Basta perguntar às pessoas que se envolveram com isso no mundo real.  

O alerta da Igreja

O Catecismo da Igreja Católica afirma de modo inequívoco: “Todas as práticas de magia ou de feitiçaria com as quais a pessoa pretende domesticar os poderes ocultos, para colocá-los a seu serviço e obter um poder sobrenatural sobre o próximo — mesmo que seja para proporcionar a este a saúde —, são gravemente contrárias à virtude da religião. […] A Igreja adverte os fiéis a evitá-lo” (n. 2117).

Essa é uma linguagem forte no Catecismo, a mesma linguagem usada para condenar a luxúria, a fornicação e o aborto. Os católicos não podem em boa consciência menosprezar esse alerta. Se Harry estivesse usando luxúria, fornicação ou aborto para salvar seus amigos em Hogwarts, nós ainda consideraríamos esses livros alimento aceitável para crianças?

É importante destacar que a bruxaria sobre a qual Rowling escreve contrasta frontalmente com o mundo mágico retratado por Tolkien e Lewis. As boas personagens da Terra Média e de Nárnia não lançam feitiços sobre ninguém, não evocam espíritos, não convivem com eles como vizinhos queridos, não realizam rituais tampouco preparam poções. As boas personagens em Hogwarts, no entanto, fazem todas essas coisas.

Na Terra Média, um anel transporta você para outro mundo e, em Nárnia, relâmpagos aparecem em algum momento crítico para realizar alguma poderosa façanha. Mas em Hogwarts o malvado Voldemort encanta um diário para possuir a alma de uma garota. Essas são diferenças profundas e substanciais, e requerem que vejamos a magia de Rowling sob uma luz bem diferente da “magia” de Tolkien e Lewis.

À primeira vista, Harry Potter parece um nobre garotinho que colocará sua própria vida em risco para salvar seus amigos. Ele defende os fracos, conforta os abatidos e luta contra o mal. Mas eu descobri que ele também tinha uma má propensão a quebrar as regras da escola e a mentir.

De fato, ao fim do primeiro livro, Harry salva o mundo do malvado Lord Voldemort contando covardemente uma mentira. Fazer isso para salvar o mundo pode parecer aceitável à primeira vista, mas temos de lembrar que esta é uma obra de ficção, e a autora poderia facilmente ter encontrado uma forma honesta de Harry salvar o mundo. Uma leitura atenta do segundo livro mostra que mentir, a partir de então, tornou-se muito mais fácil para Harry do que era no primeiro livro. Assim o caráter de Harry vai se enfraquecendo, ao invés de fortalecer-se.

Também me preocupa a forma como Harry é autorizado a evitar a devida disciplina. Ele é famoso e talentoso, uma celebridade. Várias vezes, tanto no primeiro quanto no segundo livro, quando Harry quebra as regras da escola, ou ele é esperto o suficiente para se safar ou artificioso o bastante para não ser castigado

Repetidamente ameaçado com expulsão, ele é sempre perdoado. No pior de todos os casos, ele é ameaçado com expulsão de Hogwarts se voar em sua vassoura. Mas quando ele de fato o faz, e com grande talento, ele na verdade é recompensado com uma posição privilegiada no time de quadribol da escola.

Como muitos heróis do esporte, ele não recebe uma punição sequer, precisamente por ser um grande atleta. A mensagem que fica é de que, se você for bonito o suficiente, talentoso o suficiente, forte o suficiente, ou esperto o bastante, você não precisa se preocupar com seguir as regras em seu cantinho do universo. Isso dificilmente me parece ensinar a diferença entre o que é certo e errado.

Um agente de conversão

Há muitas outras coisas que eu vejo de errado nos livros de Harry Potter, mas deixei para o final um modo importante por meio do qual eles mudaram minha vida… para melhor.

Vocês se lembram do feitiço que eu havia tentado fazer quando era jovem? Não tendo sido educada como católica, nunca me havia ocorrido de levar aquele ato para o confessionário. Em meu grande desconforto com os livros, sentindo aquele “borbulhar” na minha alma só de olhar para eles, eu finalmente me dei conta de que precisava da graça da Confissão por haver tentado, uma vez, lançar um feitiço sobre alguém. Eu poderia ter argumentado que não precisava me confessar (pois certamente não havia preenchido todos os requisitos para o cometimento de um pecado mortal), mas fiquei muito feliz por ter feito isso.

Por meio da minha confissão, Deus em sua misericórdia concedeu-me um grande dom: seu perdão abençoou minha vida e eu experimentei benefícios palpáveis vindos do sacramento que eu recebi naquele dia. Aquele “borbulhar”, aquela força oculta e poderosa que costumava atrair-me para o oculto, tudo isso se foi. Eu ainda rezo por bruxas e adivinhos quando deparo com eles, e com frequência peço a Deus proteção contra o mundo do ocultismo, mas não mais com o medo paralisador que eu sentia antes.

Feliz liberdade! Nesse sentido, eu devo ver Harry Potter como um agente de minha conversão. É nesse sentido que eu espero que você também o veja como um agente de conversão na vida de seus filhos.

Nem todos que lêem Harry Potter serão espiritualmente prejudicados. Ao mesmo tempo que eu vejo nos livros o perigo de estimularem um interesse pelo ocultismo, sou a última a me preocupar com crianças protegidas pelos sacramentos e bem educadas na sua fé.

Se seus filhos ainda não leram Harry Potter, eu espero que você lhes dê várias razões para que não o façam. Mas, se eles já tiverem lido os livros, como tantas crianças nos Estados Unidos, no Brasil e mundo afora, eu espero que você use esta matéria para incentivar uma discussão dentro de sua família. Compartilhe com seus filhos o ensinamento da Igreja sobre a magia, e fale com eles da influência destrutiva que o ocultismo exerce sobre as pessoas.

Se Harry Potter se tornar para sua família uma prevenção contra o ocultismo, ao invés de um portão que conduz a ele, ele terá feito, ainda que involuntariamente, um grande favor a seus filhos.

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Possessão? A tentação é pior, diz exorcista
Doutrina

Possessão?
A tentação é pior, diz exorcista

Possessão? A tentação é pior, diz exorcista

“Nós não devemos subestimar a gravidade da tentação. Ela não é tão espetacular quanto a possessão, mas é de longe muito mais perigosa para a alma.”

Catholic News AgencyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Maio de 2019
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Ainda que representações dramáticas de possessões demoníacas, como as de Hollywood, dêem a entender que são elas a principal atividade do demônio, um padre e exorcista dominicano alerta: a ameaça maior e mais comum colocada pelo demônio para a salvação de uma pessoa é a tentação ao pecado.

“A manifestação demoníaca mais comum é a tentação, e ela é muito pior do que a possessão”, disse o Pe. François Dermine, O.P., em entrevista à Catholic News Agency, em 10 de maio.

O sacerdote, exorcista há mais de 25 anos, explica que a possessão não é uma ameaça espiritual da mesma forma que a tentação, e que é até possível, a um possesso, que ele faça um “progresso espiritual extraordinário”, chegando mesmo à santidade.

Isso se deve ao fato de que a possessão do corpo de uma pessoa ocorre sem o seu conhecimento ou consentimento. A possessão em si mesma não torna a sua vítima moralmente culpável.

“Nós não devemos subestimar a gravidade da tentação. Ela não é tão espetacular quanto a possessão, mas é de longe muito mais perigosa [para a alma]”, diz o sacerdote.

“Resistir à tentação é simples”, ele afirma, ainda que nem sempre seja fácil. “É preciso evitar as ocasiões de pecado, é claro, levar uma vida cristã e ter vida espiritual. Faz-se necessário rezar, comportar-se corretamente e amar as pessoas com que nos encontramos todos os dias e também aquelas com que convivemos.”

Segundo o Pe. Dermine, depois da tentação, outra forma muito comum de atividade demoníaca é a opressão. Às vezes as pessoas podem encontrar alguns problemas, geralmente de saúde, nos negócios ou na família, e que não podem ser explicados por causas naturais. Quando se julga que a causa desses problemas é uma opressão diabólica, dá-se-lhes o nome de “preternaturais” e eles podem demandar o auxílio de um exorcista.

“Das ações extraordinárias do demônio, essa é a mais comum”, diz o Pe. Dermine, explicando que a tentação é considerada como ação demoníaca “ordinária”.

O sacerdote adverte que as pessoas não deveriam concluir de imediato que problemas físicos ou sofrimentos sejam resultado de uma opressão demoníaca, porque na maioria das vezes eles podem ser explicados por causas naturais.

Se alguém visitou um médico (ou um psicólogo, se for o caso) e nenhuma explicação natural pôde ser encontrada, então é o caso de se procurar um exorcista. “Quando uma pessoa vem e pede uma bênção para um problema específico”, diz o padre, “a primeira coisa que um exorcista deve perguntar é: você já foi a um médico?”.

O Pe. François Dermine é nascido no Canadá, mas vive na Itália praticamente desde que foi ordenado sacerdote, em 1979. Exorcista desde 1994, ele exerce seu ministério na Arquidiocese de Ancona-Osimo e foi convidado a falar sobre como é a vida de um exorcista durante o 14.º curso sobre exorcismo e orações de libertação — evento organizado pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum e pelo Gruppo di Ricerca e Informazione Socio-Religiosa.

O curso tem duração de uma semana, encerrou-se no dia 10 de maio e tem como finalidade não só formar novos exorcistas, mas também inteirar sacerdotes e leigos do exorcismo e de tópicos semelhantes. O Pe. Dermine disse que muitos dos leigos participando do curso compareceram a pedido de seus bispos, para que aprendessem a prestar auxílio aos sacerdotes durante os exorcismos.

O sacerdote conta ainda que, em sua palestra, apresentou alguns dos erros mais comuns cometidos por exorcistas, como o de confundir manifestações demoníacas preternaturais com carismas sobrenaturais, vindos de Deus. “Há uma diferença muito importante”, ele explica. “Nós temos uma natureza humana e não podemos conhecer as coisas sem antes as termos aprendido por meio de nossos sentidos.”

“Deus nos criou para agir de uma certa forma. Se você tem percepções extrassensoriais e coisas do tipo, e elas não servem para influenciar ou provocar um resultado espiritual, então elas não podem vir de Deus”, ele adverte. Pessoas com tais percepções são normalmente chamadas de “médiuns” na cultura secular.

Esses tipos de sentimentos ou manifestações preternaturais podem ser “causa de muitos problemas”, explica o sacerdote, e as pessoas envolvidas nisso podem precisar da ajuda de um exorcista.

O padre nota que existe um valor cultural em se ministrar um curso sobre exorcismos para padres e leigos, e isso acontece porque o tópico é no mais das vezes misterioso, suscitando o desejo de aprender. “A maior parte das pessoas que vêm aqui fazem-no não porque têm intenção de se tornarem exorcistas necessariamente, mas porque querem aprender”, ele diz.

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Um exame de consciência litúrgico
Liturgia

Um exame de consciência litúrgico

Um exame de consciência litúrgico

Toda liturgia deveria ser capaz de expressar a grandeza que é pertencer à Igreja. Tudo nela deveria nos dizer ao coração: “Esta é a tua casa. Este é o teu lugar. Tudo aquilo por que tanto anseia o mais profundo de tua alma… está aqui.”

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Maio de 2019
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“Quão amável, ó Senhor, é vossa casa,
quanto a amo, Senhor Deus do universo!
Minha alma desfalece de saudades
e anseia pelos átrios do Senhor!
[...]
Na verdade, um só dia em vosso templo
vale mais do que milhares fora dele!”

(Sl 83(84), 2-3.11)

É notório o trabalho pastoral e teológico que Bento XVI, antes mesmo de ser eleito Papa, realizou no âmbito da sagrada liturgia. Quem não conhece esse trabalho tem agora a oportunidade de adquirir a obra Teologia da Liturgia, lançada recentemente pela CNBB, e que constitui o primeiro volume das obras completas de Ratzinger em português.

Foi desejo do próprio Papa emérito que no primeiro volume de suas opera omnia constassem seus escritos sobre a liturgia. Ele quis seguir a mesma ordem do Concílio Vaticano II — de cujos documentos o primeiro foi justamente a Sacrosanctum Concilium — e priorizar aquela que foi a “realidade central” de sua vida desde a infância, como ele mesmo escreve em sua autobiografia:

Cada novo degrau no acesso à liturgia era, para mim, um grande acontecimento. Cada livro novo me era uma preciosidade, e eu não podia sonhar com nada mais lindo. Foi para mim uma aventura cativante esse lento acesso ao misterioso mundo da liturgia, que lá no altar, diante de nós e para nós, se realizava. Tornou-se cada vez mais claro para mim que eu me encontrava aí diante de uma realidade que não foi inventada por uma pessoa qualquer, e não havia sido criada por uma autoridade ou grande personagem. Essa misteriosa fusão de textos e ações tinha nascido da fé da Igreja, através dos séculos. Carregava dentro de si o peso de toda a história, mas era, ao mesmo tempo, muito mais do que um produto da história humana. Cada século tinha contribuído com seus vestígios. As introduções nos ensinavam o que tinha vindo da Igreja primitiva, da Idade Média, dos tempos modernos. Nem tudo era lógico. Tudo era bastante complicado; nem sempre era fácil a gente se orientar. Mas exatamente por isso aquela estrutura era maravilhosa, e nos sentíamos em casa [1].

Detenhamo-nos por um momento nestas últimas palavras do Papa, pois elas descrevem um sentimento que com certeza já perpassou o coração de todo católico diante de uma liturgia bem celebrada: sentirmo-nos em casa.

A expressão tem um sentido bem preciso. O Papa evidentemente não está dizendo que a liturgia foi feita para as pessoas se sentirem em casa como se se tratasse de algo banal, trivial, profano. Ele fala de nos sentirmos em casa como um sinal de pertença e de familiaridade. Neste sentido preciso, sim, é possível afirmar que a liturgia foi feita para que nos sintamos em casa.

Mas a casa a que o Papa se refere não é um templo feito por mão de homens, para usar uma expressão do Apóstolo (cf. At 17, 24). O que a liturgia faz é colocar-nos em contato com o mistério da Igreja, o mistério

da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos, da assembleia festiva dos primeiros inscritos no livro dos céus, e de Deus, juiz universal, e das almas dos justos que chegaram à perfeição, enfim, de Jesus, o mediador da Nova Aliança, e do sangue da aspersão, que fala com mais eloquência que o sangue de Abel (Hb 12, 22-24).

Em uma palavra, a liturgia existe a fim de nos transportar para o que há além desta vida terrena. No Batismo, todos nós, católicos, recebemos uma nova vida, a vida sobrenatural da graça, isto é, uma vida muito acima dos dados meramente naturais. Por meio desta porta, nós adentramos o edifício espiritual da Igreja, o Corpo místico de Cristo, formado

  • por todos os santos que já passaram por este mundo e agora estão no Céu,
  • por todas as almas justas que estão se purificando no Purgatório e
  • por todos os guerreiros valorosos que militam neste vale de lágrimas.

Esta casa, caro leitor, é a morada de todos os bem-aventurados, dos homens e mulheres que, em todos os tempos e lugares, temeram e amaram a Deus, e cumpriram com a sua santíssima vontade. Por isso, porque é uma casa ornada das mais belas virtudes, nenhuma casa se lhe é capaz de igualar.

A liturgia deveria ser capaz de expressar esta magnificência que é pertencer à Igreja. Todas as orações que nela existem, todos os cantos que foram compostos e incorporados a ela ao longo dos séculos, todos os gestos sagrados que o sacerdote faz e que o povo acompanha (ou deveria acompanhar) com piedade e devoção, tudo isso deveria falar mui ternamente ao nosso coração e dizer: “Esta é a tua casa. Este é o teu lugar. Tudo aquilo por que tanto anseia o mais profundo de tua alma está aqui.”

Mas a experiência que, ao pequeno Ratzinger, transmitiu imediatamente a sensação de pertença, pode ser para outros, em um primeiro momento, ocasião de choque e estranhamento. Vejamos o que aconteceu, por exemplo, ao famoso escritor francês Paul Claudel (em suas próprias palavras):

Assim era a infeliz criança que, a 25 de dezembro de 1886, foi a Notre-Dame de Paris para assistir aos ofícios de Natal. Começava então a escrever, e parecia-me que nas cerimônias católicas, consideradas com um diletantismo superior, encontraria um excitante apropriado e a matéria de alguns exercícios decadentes.

Foi com essas disposições que, acotovelado e empurrado pela multidão, assisti, com um prazer medíocre, à missa cantada. Depois, não tendo nada melhor a fazer, voltei para assistir às vésperas. As crianças do coro, vestidas de branco, e os alunos do seminário menor de Saint Nicholas du Chardonnet, que os ajudavam, cantavam o que mais tarde soube ser o Magnificat.

Eu próprio estava de pé entre a multidão, junto do segundo pilar à entrada do coro, à direita da sacristia. E foi então que se produziu o acontecimento que domina toda a minha vida. Em um instante, meu coração foi tocado e acreditei.

Acreditei com tal força de adesão, com tal elevação de todo o meu ser, com tão poderosa convicção, com tal certeza sem deixar lugar a qualquer espécie de dúvida, que, a partir de então, todos os livros, todos os raciocínios e todas as circunstâncias de uma vida agitada não puderam abalar-me a fé, nem mesmo, para ser mais preciso, atingi-la.

Tive de súbito o forte sentimento da inocência, da eterna juventude de Deus, uma revelação inefável. Tentando, como o fiz várias vezes, reconstituir os minutos que se seguiram a esse instante extraordinário, encontro os elementos seguintes que, entretanto, formavam apenas um clarão, uma única arma de que a Providência Divina se servia para atingir e abrir enfim o coração de uma pobre criança desesperada: ‘Como são felizes os que crêem! E se fosse verdade? É verdade! Deus existe. Ele está em toda parte. É alguém, é um Ser tão pessoal quanto eu. Ele me ama, Ele me convoca.’

As lágrimas e os soluções vieram… e o canto tão doce do Adeste fideles aumentou ainda mais minha emoção. Emoção bem doce, mas a que se misturava um sentimento de espanto e quase de horror. Pois minhas convicções filosóficas estavam intactas. Deus as deixara desdenhosamente onde estavam, e eu nada via a mudar nelas; a religião católica me parecia continuar o mesmo tesouro de anedotas absurdas, seus padres e fiéis me inspiravam a mesma aversão que ia até o ódio e o desgosto. O edifício de minhas opiniões e de meus conhecimentos permanecia de pé, e não lhe achava qualquer defeito. Tinha apenas me retirado dele. Um novo e formidável ser, com exigências terríveis para o jovem e o artista que eu era, tinha-se revelado, e não sabia como conciliá-lo com coisa alguma que me cercava.

O estado de um homem que fosse arrancado de um golpe de seu corpo, para ser colocado em um corpo estranho, no meio de um mundo desconhecido, é a única comparação que posso encontrar para exprimir este estado de confusão completa. O que mais repugnava a minhas opiniões e a meu gosto, era, entretanto, a verdade e o fato de ter de acomodar-se a ela custasse o que custasse. Ah! Isso não aconteceria sem que tentasse tudo que me fosse possível para resistir [2].

Percebam como, curiosamente, o que para um católico de berço, praticante, foi sentir-se em casa, para esse artista (até então um católico “morno”) foi justamente a experiência do deslocamento: o homem que ele era até aquele momento sentia-se fora de lugar, transportado a uma realidade nova e inesperada.

É que o pequeno Ratzinger tinha fé; Paul Claudel ainda não. E foi só a partir do momento em que lhe caíram as escamas dos olhos, foi só quando ele acreditou, que a liturgia ganhou, para ele, todo o sentido que realmente possui.

Paul Claudel.

Foi preciso, portanto, uma experiência totalmente alheia a seu mundo para que Paul Claudel se convertesse. Como o peixe que é tirado da água para a terra, Cristo pescou a alma desse homem, tirando-a de um ambiente para colocá-lo em outro completamente diferente. Essa migração — que constitui, no fundo, a essência de toda e qualquer conversão — deveria nos lembrar uma coisa de que muitos em nossa época parecem ter-se esquecido, a saber: que não são as nossas “adaptações”, as nossas “manipulações”, as nossas tentativas de “acomodar” o sagrado à banalidade das nossas vidas o que trará as pessoas de volta à Igreja. Muito pelo contrário, é justamente o estupor diante do sobrenatural, o espanto diante do sagrado, a admiração com o que é nobre e elevado, a isca de que tantos precisam para se livrar da miséria, da baixeza, da lama em que estão afundados.

Lendo o relato da conversão de um homem ao simples ouvir de uma música sacra, deveríamos nos perguntar se a mesma experiência teria acontecido, por exemplo, se aquelas crianças em Notre-Dame (a mesma Notre-Dame que estava em chamas alguns dias atrás) estivessem cantando uma música popular, um “sambinha” para Cristo, um jogral infantil ou um iê-iê-iê festivo para homenagear os fiéis presentes na celebração daquelas Vésperas…

Ora, alguém poderá dizer, “o Espírito sopra onde quer”. E é verdade. Mas será que podemos tão soberbamente pretender que o Espírito Santo se adeque à pobreza de nossos esquemas, à vulgaridade de nossas profanações, à baixeza de nossas invencionices? Que Deus se sirva até das mais insignificantes das coisas para trazer uma pessoa a si, é coisa de que ninguém duvida; agora, que façamos o que quisermos na liturgia, sob o pretexto de que “o que importa é o coração”, e como se um “batuque” e um “molejo” estivessem no mesmo nível de um coro de crianças cantando um Magnificat ou um Adeste fideles, é no mínimo uma profunda falta de bom senso (para não falar do pecado de irreverência que aqui se esconde sob a aparência de “simplicidade” e “despojamento”). Além do mais, que uma e outra pessoa aja dessa forma por ignorância, é coisa que se pode muito bem admitir; que não haja, no entanto, uma única voz capaz de dizer esse óbvio ululante, é coisa que escapa à nossa compreensão, é coisa que só a expressão “mistério da iniquidade” pode explicar…

É por isso que nós, católicos, precisamos fazer um exame de consciência urgente, perguntando-nos se o modo como celebramos a liturgia tem revelado aos homens a face de Deus ou a face… do próprio homem. Nossas crianças será que sentem, a respeito da liturgia de nossas igrejas, o mesmo que sentia o pequeno Ratzinger, a ponto de dizerem: “Estou em casa”? Será que nossas Missas têm favorecido e despertado nas pessoas esse nobre sentimento de pertença que o Papa Bento XVI teve em menino e que foi decisivo para sua vida e vocação cristã? Ou, ao contrário, não estaremos sonegando a nossos filhos, com nossos desrespeitos, nossas bizarrices, nossas danças e piruetas “litúrgicas”, o próprio tesouro da fé da Igreja?

E os que estão de fora — como estava Paul Claudel antes daquela visita a Notre-Dame —, com que impressão ficam ao se aproximar de nossas igrejas? A de um grupo sério de pessoas que temem a Deus e O veneram com respeito e reverência? Ou a de um bando que vive da gritaria e do oba-oba?

Na verdade, ante a dessacralização e as profanações que acontecem em tantas de nossas Missas, ao ver o silêncio e as orações secretas substituídas pela verborragia e pelos “programas de auditório”, diante do sentimentalismo que tomou o lugar da nobreza do canto gregoriano [3], não há como não tomar emprestadas as palavras do salmista ao ver desolada sua terra: “Por que razão vós destruístes sua cerca, para que todos os passantes a vindimem, o javali da mata virgem a devaste, e os animais do descampado nela pastem?” (Sl 79(80), 13-14).

Nós nos perguntamos o porquê, mas não é muito difícil chegar a uma resposta satisfatória. Como não enxergar em tudo isso que nos está acontecendo a justa mão de Deus nos castigando por nossos pecados? Não é curioso (para não dizer providencial) que justamente a nossa época, tão dada à sensualidade, seja privada na liturgia de todos os aspectos sensíveis que a enobreceram em outras épocas? Por que outro motivo nos teria sido negada a beleza e as glórias da liturgia, senão para que pagássemos o preço (merecido) da feiura dos pecados em que vivemos atolados?

Sim, tudo isso é verdade, mas lembremo-nos sempre: Deus, como Pai amoroso, só nos castiga porque busca a nossa conversão. Ele não permitiria os males que estamos experimentando, se não quisesse deles extrair um bem muito concreto: a purificação da nossa fé.

Portanto, se a liturgia de sua paróquia está ruim, se na Missa de que você participa o Cristo parece se despojar totalmente, como fez no Calvário, não deixe nunca de adorá-lo sob as espécies eucarísticas e de fazer-lhe companhia em meio aos verdugos que O maltratam… E não, não se trata de “cruzar os braços”. Se você puder fazer algo, mãos à obra, é claro! O que pudermos realizar, o que estiver ao nosso alcance fazer pelo resgate da liturgia, façamos, não fiquemos inertes.

Só não caiamos na tentação de trair a fé; de deixar a nossa casa, que é a Igreja; de abandonar Nosso Senhor justamente quando Ele mais precisa daqueles que O adorem, em espírito e em verdade.

Referências

  1. Joseph Ratzinger, Lembranças da minha vida: autobiografia parcial (1927-1977), trad. Frederico Stein, 2.ª ed., São Paulo: Paulinas, 2007, pp. 20-21.
  2. Jacques Madaule, Paul Claudel (1868-1955), in: Convertidos do século XX, trad. Hoche Luiz Pulchério, 2.ª ed., Rio de Janeiro: Agir, 1966, pp. 132-133.
  3. “Halevy, afamado compositor de óperas, discípulo de Cherubini, diz: ‘Como podem os sacerdotes católicos, possuidores do canto gregoriano, a mais linda melodia religiosa que existe no mundo, permitir nas suas igrejas a pobreza da nossa música moderna?’” (Pe. João Batista Reus, Curso de Liturgia, 3.ª ed., Rio de Janeiro: Vozes, 1952, p. 65)

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Fátima, o “grande mistério” e a Teologia do Corpo
Família

Fátima, o “grande mistério” e a Teologia do Corpo

Fátima, o “grande mistério” e a Teologia do Corpo

Cem anos após a mensagem de Fátima, na época racionalista em que vivemos, onde a sexualidade é reduzida apenas à biologia, haverá espaço ainda para “o grande mistério” que é o Matrimônio?

Brian KranickTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Maio de 2019
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Como se sabe, a Irmã Lúcia de Fátima escreveu uma carta ao Cardeal Caffarra prevendo que “o confronto final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre a família e sobre o Matrimônio”. Não muito tempo depois, o Papa João Paulo II se encontrava no meio das famosas catequeses de sua “Teologia do Corpo”, sobre o Matrimônio e a família, quando um assassino turco tentou matá-lo. A tentativa de assassinato aconteceu em 13 de maio de 1981, dia da festa de Nossa Senhora de Fátima, e o mesmo dia em que o Papa João Paulo II iria anunciar a fundação de seu Pontifício Instituto para Estudos sobre Matrimônio e Família. Ele creditou “à mão de uma mãe”, Nossa Senhora de Fátima, o ter a vida salva naquele dia, permitindo assim que seus insights exegéticos sobre a Teologia do Corpo fossem promulgados.

A biografia de João Paulo II escrita por George Weigel descreveu suas ideias revolucionárias sobre a Teologia do Corpo como “uma espécie de bomba-relógio teológica, programada para explodir com dramáticas consequências, talvez no século XXI”. Quais eram essas novas ideias? Como reafirmou o autor Christopher West, a tese do Papa é a de que o corpo humano “foi criado a fim de transferir para a realidade visível do mundo o mistério escondido na eternidade em Deus; para ser um sinal disso, portanto”. O corpo é algo não só biológico, mas também teológico. O corpo é o sacramento da pessoa. Ao contrário das más interpretações que normalmente se fazem, a Igreja não ensina que o corpo ou o sexo é ruim; essa é uma heresia neognóstica que deprecia o corpo como algo que nos é externo e passível de ser consumido. Na verdade, a Igreja ensina que o corpo é bom e santo, templo do Espírito Santo. Ele é encarnacional e sacramental. O corpo é uma pessoa e a pessoa é um corpo.

Mas o corpo também é mais do que isso. Deus o criou como um sinal e autorrevelação de seu próprio mistério divino. Deus “imprimiu na carne modelada sua própria forma, de modo que até o que fosse visível tivesse a forma divina” (Catecismo da Igreja Católica, § 704). O mistério central da fé cristã é que Deus é uma comunhão eterna de três Pessoas divinas: Pai, Filho e Espírito Santo. Há uma sacramentalidade no corpo humano que torna visível esse mistério escondido na eternidade.

O que o corpo nos fala sobre Deus

Como isso se dá? No princípio, quando Deus criou o homem, ele o fez duas encarnações separadas, mas complementares, homem e mulher. Através da beleza da diferença sexual, masculina e feminina, somos chamados a formar uma comunhão de pessoas, assim como há uma comunhão de Pessoas na Divindade. Nesse intercâmbio de amor entre marido e mulher, uma terceira pessoa é gerada em uma criança, formando novamente um ícone do amor trinitário, assim como através do amor mútuo entre o Pai e o Filho procede o Espírito Santo. Desse modo, a família humana torna visível no mundo criado — ainda que por uma via analógica e de distância infinita — o intercâmbio de amor, eterno e oculto, que há em Deus. Ao homem é dado tomar parte nesse grande mistério de geração e criação, à imitação da Trindade. Pode-se entender então que, quando Deus diz a Adão e Eva: “Crescei e multiplicai-vos”, ele está realmente lhes dizendo, em um nível simbólico, para manifestar sua imagem trinitária em todo o mundo. Esta é a vocação original do ser humano: amar como Deus ama.

E Deus nos ensina a amar como Ele ama através da complementaridade dos sexos, tal como ela foi impressa em nossos corpos. Esse dado revela o significado esponsal da nossa própria existência. Jesus mesmo reafirma a dualidade dos sexos e seu significado nupcial. Quando os fariseus o questionam sobre o divórcio, Jesus lhes responde: “Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: ‘Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne?’ Assim, já não são dois, mas uma só carne” (Mt 19, 4-6). E os dois tornam-se um no sacramento primordial do Matrimônio: foi o sacramento original, o protótipo a apontar para a união esponsal de Cristo com a Igreja. São Paulo se refere a esse casamento de Cristo com a Igreja como um “grande mistério” (Ef 5, 32). Os casais unidos em santo matrimônio constituem um sinal sacramental do Esposo divino e sua Esposa.

Um tema subjacente a toda a Bíblia é que Deus quer nos “casar” (Os 2, 19). De fato, Ele quis nos tornar tão óbvio seu plano nupcial, que criou nossos próprios corpos, masculino e feminino, a fim de nos preparar para esse matrimônio místico e eterno. O casamento humano é, portanto, o sinal e o sacramento, revelando a realidade eterna da união entre Cristo e sua Igreja. Jesus também falou disso quando se dirigiu aos saduceus dizendo: “Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22, 30). Jesus reafirma que o casamento terrestre não é em si mesmo o fim último, senão um sinal do casamento celeste que há de vir. Trata-se de um precursor da verdade final, quando o sinal terreno finalmente dará lugar à realidade celestial. Na ressurreição, o corpo se tornará eterno, incorruptível, espiritual e divino. No entanto, como acontece com qualquer proposta de casamento, o consentimento mútuo é necessário. Nós devemos dar o nosso “sim” através da fé e da oferta de nós mesmos.

O casamento foi construído sobre essa noção de um dom livre e sincero dado de si para o outro. O dom de si próprio no casamento é um sinal e uma analogia do dom total de Cristo por sua Igreja. Na Última Ceia, quando Jesus institui a Eucaristia, Ele diz: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22, 19). Jesus se oferece corporalmente por nós, sua Esposa. A total auto-oferta de seu corpo é consumada com sua crucificação. Da mesma forma, a Eucaristia é uma renovação desse dom esponsal que Cristo oferece de seu corpo. Nas palavras de Jesus: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 56). Essa é a nossa comunhão em uma só carne com Ele.

O plano original de Deus para o casamento

Jesus por diversas vezes nos aponta de volta ao princípio, a fim de que vejamos o plano original de Deus para o Matrimônio. Em resposta aos fariseus que o desafiavam a respeito do casamento, Jesus diz que “no começo não foi assim” (Mt 19, 8). Implicitamente Ele nos diz que permanece em nós, ainda que de modo residual, um certo eco dessa inocência original. Na “nudez original” do ser humano, Adão e Eva “estavam nus e não se envergonhavam” (Gn 2, 25). Eles não tinham nem vergonha, nem medo, nem luxúria; apenas inocência. Suas naturezas compostas, corpo e alma, estavam em perfeita harmonia. Adão e Eva viam um no outro uma pessoa inteira, imagem perfeita do Criador. A total doação de si que eles estavam destinados a fazer um ao outro era uma personificação do amor oblativo de Deus e uma expressão perfeita do significado nupcial de seus corpos. Cristo nos chama a restaurar isso.

É claro que, com a Queda do homem no pecado original, a imoralidade e a morte entraram no mundo. Adão e Eva tomaram folhas de figueira e juntaram-nas para cobrir seus corpos e ocultar sua vergonha. Na linguagem mítica da pré-história do Gênesis, as coisas tinham dado terrivelmente errado e nunca mais foram as mesmas desde então. A perfeita harmonia entre corpo e alma havia se rompido. Nossa natureza humana foi ferida pela concupiscência, o orgulho, a luxúria e a desobediência. A revelação da pessoa como uma imagem de Deus, a teologia estampada em nossos corpos, obscureceu-se.

Mesmo assim, apesar do pecado, aponta João Paulo II, “o casamento continuou a ser a plataforma para a realização dos planos eternos de Deus”. Em nenhum outro lugar isso ficou tão evidente quanto  na Encarnação. Jesus quis se fazer carne no seio de uma família e ser criado por uma mãe e um pai. A Encarnação de Jesus mostra que o corpo, e o casamento e a família permanecem “muito bons”. Ele destaca a centralidade do casamento como sacramento. As Escrituras nos dizem que Jesus também foi convidado para um casamento (cf. Jo 2, 2). Sua presença santifica o sacramento. Jesus realizou seu primeiro milagre público nas bodas de Caná, transformando a água em vinho. Aquele casamento aponta para a consumação do seu próprio matrimônio no Calvário, quando Ele oferece seu corpo por sua Esposa.

No Sermão da Montanha, Cristo novamente nos chama de volta ao modo como eram as coisas no princípio. Jesus diz: “Todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração” (Mt 5, 28). Ele nos desafia a encontrar uma maneira nova e pura de olhar um para o outro, com a custódia de nossos olhos e uma pureza de coração que seja capaz de ver a pessoa como imagem de Deus. Jesus nos chama à conversão e a um domínio de si mesmo. Esse é o novo ethos que Jesus institui para o coração: agora se infunde em nosso eros um amor ágape. A visão antropológica de João Paulo II é uma sexualidade redimida, um “ethos da redenção do corpo”, o qual, através do poder de Cristo, torna-se livre do domínio da concupiscência e da autogratificação sexual. Somos chamados a essa libertação e a essa liberdade de ser; foi para isso que Jesus veio nos resgatar; Ele veio para que tivéssemos vida, e vida em abundância (cf. Jo 10, 10).

Satanás trabalha para minar nosso relacionamento com Deus

Se, no entanto, o Matrimônio é o sacramento primordial — a primeira revelação, na Criação, do ser interior de Deus e a primeira revelação da união de Cristo com sua Igreja —, há alguma dúvida de por que Satanás o ataca? É precisamente nessa unidade original dos sexos que ele tenta romper nossa comunhão com Deus. O objetivo de Satanás é manter o homem longe de seu destino eterno com Cristo. A Irmã Lúcia comentou, de fato, que muitas pessoas vão para o inferno por causa dos “pecados da carne”. Ao distorcer a teologia de nossos corpos, Satanás planeja obscurecer a imagem trinitária dentro de nós. Ele procura zombar da nossa união em uma só carne com Cristo. Vivemos em uma sociedade cada vez mais depravada, que torce o sacramento, transforma-o em um antissacramento e distorce o sinal em uma impostura diabólica. A desconcertante perda da ética sexual nos últimos cinquenta anos pelo menos, como parte da Revolução Sexual (e subsequente “cultura da morte”), mostra o ataque selvagem que se tem feito ao casamento, à sexualidade, à procriação e à família. Não é difícil perceber quantas falsificações obtiveram ampla aceitação cultural, infelizmente até por muitos dentro da Igreja. Como João Paulo II declarou: “O ‘grande mistério’ encontra-se ameaçado em nós e ao nosso redor”. Não surpreende que a progressiva destruição da moral sexual, especialmente a redefinição tanto do casamento quanto dos sexos, seja agora a ponta de lança que ameaça a liberdade religiosa.

Refletindo ademais sobre as proibições sexuais da Igreja, como a contracepção, por exemplo, a conclusão do Papa é que ela é teologicamente sacrílega porque falsifica o sinal sacramental do Matrimônio. Ao explorar essas verdades sublimes, João Paulo II considerou sua Teologia do Corpo como “um extenso comentário” sobre a Humanae Vitae e a regulação do nascimento. Será que nós nos fazemos as perguntas difíceis, como se é livre, total, fiel e fecunda a nossa união dentro do Matrimônio? Em nossa modernidade racionalista, onde a sexualidade é reduzida apenas à biologia, haverá ainda espaço para “o grande mistério”? Para entender o ensinamento da Igreja sobre controle de natalidade e ética sexual, é necessário ter uma “visão integral do homem e de sua vocação ”. A abertura à vida faz todo o sentido no “profetismo do corpo” como imagem de Deus, mas parece loucura quando não se tem em mente o sinal sacramental.

Agora que cruzamos o limiar do centenário das aparições de Fátima, talvez possamos, como o Papa João Paulo II, apelar a Nossa Senhora de Fátima por uma intervenção em prol do Matrimônio e da família. Foi em outubro de 1917, no clímax da última aparição da Virgem, que o mundo recebeu a visão milagrosa da Sagrada Família: Nossa Senhora e o Menino Jesus nos braços de São José. Eles nos foram apresentados como o modelo da família perfeita. Nós também podemos nos esforçar em nossas famílias pela santidade e a perfeição através da oração, da penitência e dos sacramentos. Como a Irmã Lúcia escreveu sobre a visão da Sagrada Família:

Em tempos como o presente, quando a família muitas vezes parece incompreendida na forma como foi estabelecida por Deus, e é atacada por doutrinas errôneas e contrárias aos propósitos para os quais o divino Criador a instituiu, Deus quis nos deixar um lembrete do propósito para o qual Ele estabeleceu a família no mundo.

Por isso, na mensagem de Fátima, Deus nos chama a voltar os olhos para a Sagrada Família de Nazaré, na qual Ele escolheu nascer e crescer, em graça e estatura, a fim de nos apresentar um modelo para imitar, enquanto nossos passos percorrem o caminho de nossa peregrinação ao Céu.

O Matrimônio é um sinal sacramental por toda a vida do mistério interior de Deus, sinal que deve ser vivido de forma casta e experimentado na temperança quotidiana de nossas vidas, por reverência a Cristo. Esse é, para muitos, o mapa da nossa estrada para a vida eterna. Vamos estudar novamente a Teologia do Corpo, como parte da nova evangelização, a fim de que brilhem novamente a verdade e a compaixão neste mundo tão desesperadamente necessitado delas, pois o tempo urge.

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Nem todo o mundo é hipócrita como você!
Espiritualidade

Nem todo o mundo
é hipócrita como você!

Nem todo o mundo é hipócrita como você!

Não é que não haja hipócritas dentro de nossas igrejas. Certamente os há, certamente eles abundam. Mas quem está em condições de fazer esse juízo, apontando aos hipócritas um por um?

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Maio de 2019
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Se há uma coisa que ainda precisamos compreender bem e em toda a sua profundidade, é a ação transformadora, realmente transformadora, da graça de Deus na alma humana. Digo que precisamos compreender, na primeira pessoa, porque de modo geral até os católicos ignoramos a beleza da teologia da graça, que está presente não só nos bons escritos dos santos Doutores da Igreja, mas principalmente nas páginas do Santo Evangelho.

Para esclarecer as coisas, digamos desde o início qual é o erro que parece ter impregnado a mente das pessoas de nossa época e que precisamos combater com todas as nossas forças, especialmente nestes tempos de confusão moral: trata-se da visão protestante de justificação. Em que ela consiste, é o Pe. Boulenger quem nos explica:

Na opinião deles (Lutero, Calvino), o homem, desde o pecado original, está despojado do livre-arbítrio, e por isso incapaz de qualquer coisa boa, de modo que a fé sozinha, a fé sem obras, é o requisito único para a justificação. Acresce que esta fé, dos tais inovadores, não é a fé propriamente dita, pela qual cremos, por serem revelações de Deus, todas as verdades que a Igreja nos ensina, não. É uma confiança que nos leva a julgar perdoados pela imputação os nossos pecados, isto é, pela aplicação dos méritos de Jesus Cristo [...].

No sistema deles, pela justificação, os pecados não são verdadeiramente destruídos. São apenas vendados. Encobertos e ocultos pelos méritos de Jesus Cristo que nos são atribuídos. Não é nenhuma renovação intrínseca que a graça produz no homem justificado.

Essa justificação vem a ser, antes, uma espécie de sentença, uma proclamação que nos declara justos, se bem que, interiormente, não haja em nós mudança alguma [1].

Na prática, o que é essa “justificação” senão uma farsa, uma roupa bonita com que Deus veste o pecador só para lhe disfarçar a sujeira, as misérias e a podridão? É tão aberrantemente contrária ao espírito do Evangelho e da Nova Aliança essa forma de pensar que custa-nos crer que alguém lhe possa realmente dar crédito. O Jesus que tanto condenou a hipocrisia dos fariseus — cujos lábios e corações viviam fora de sintonia (cf. Is 29, 13) — torna-se nessa teologia miserável, Ele mesmo, um grande fariseu.

Mas, antes de apontar o dedo aos protestantes (pois não é a finalidade deste artigo), façamos nós mesmos, católicos, um exame de consciência, e vejamos bem se com nossas palavras e julgamentos não somos nós os primeiros a precisar de advertência e emenda.

Qual é a nossa reação, por exemplo, diante do bem e dos bons? Isto é, quando somos confrontados com a verdade do Evangelho, ou com alguém que procura vivê-la; quando nos deparamos com a vida de um santo, ou com uma pessoa que se esforça por viver os Mandamentos, ter uma vida de oração e lutar contra os próprios pecados… qual é normalmente a nossa postura? O que sai de nossa boca (ou em que tipo de pensamentos consentimos) quando o Cristo se apresenta diante de nós na forma de um ensinamento que nos constrange ou de uma pessoa que nos corrige, ainda que seja só com sua vida?

Talvez sejamos daqueles que dizem, meio que irrefletidamente: “Mas também não se pode ser tão radical assim”, ou: “Ninguém suporta, também, viver a religião assim, a ferro e fogo”. Talvez pensemos: “Religião não pode ser camisa de força”, ou achemos que as pessoas que procuram viver o Evangelho, no fundo, não passam de umas “reprimidas” e “recalcadas”. Talvez sejamos ainda piores e até já tenhamos teorias prontas sobre o interior e o passado dos outros: “O fulano fala e age assim agora, posa de santo, mas ele já fez isto e aquilo”; “O fulano se comporta assim agora, mas lá no fundo…” etc.

Ou seja, na cabeça de muitos de nós, qualquer pessoa que aparente ser um pouco melhor do que nós, um pouco mais esforçada do que nós, um pouco mais perfeita do que nós, já é motivo para darmos na língua e acharmos que é uma hipócrita. (No fundo, um artifício para que estejamos sempre “por cima”, para que nos sintamos sempre superiores.)

Pode até ser que não nos demos conta, mas por trás de todas essas ideias está escondida uma profunda falta de fé na santidade. No fundo, nós não acreditamos que as pessoas possam realmente ser transformadas pela graça. Para nós, elas sempre vão continuar as mesmas pecadoras miseráveis de sempre, mas disfarçadas com uma roupinha melhor aqui, um traje mais elegante acolá.

Ou seja, ao acusarmos de “hipócritas” e “farisaicas” as pessoas de igreja, na verdade, estamos revelando mais de nós mesmos do que daqueles a quem acusamos. Querendo enxergar o “fundo” do coração dos outros, nós estamos na verdade externando o que vai no fundo do nosso coração.

Talvez fosse necessário dizer a essas pessoas que nem todo o mundo é hipócrita como elas... Se é o seu caso, preste atenção: não é porque você acha os Mandamentos um fardo, não é porque você acha a religião um peso, que as pessoas são do mesmo modo. Há pessoas sinceras, que realmente querem a Deus, que realmente buscam a santidade, que realmente acreditam no Céu e querem viver por ele. E você, ao invés de desencorajar a piedade dos outros falando asneiras, faria muito melhor se entrasse na Igreja também, com o coração, ao invés de acusar as de dentro de estarem lá só de corpo presente.

Não que não haja hipócritas dentro de nossas igrejas. Certamente os há, certamente eles abundam. Mas quem está em condições de fazer esse juízo, apontando aos hipócritas um por um? E qual é a linha que separa um hipócrita, afinal, uma pessoa fingida e dissimulada, de um pecador que busca sinceramente conformar-se à vontade de Deus? Se tanto o fariseu quanto o publicano da parábola eram pecadores, por que Nosso Senhor elogiou a este e reprovou a conduta daquele (cf. Lc 18, 9-14)?

A resposta é simples: enquanto o publicano teve a humildade de reconhecer a própria miséria e saber-se necessitado da graça divina, o fariseu era cheio de si, autossuficiente demais para precisar de Deus. E talvez nós, com nossa soberba e arrogância, estejamos enveredando pelo mesmo caminho, pois, aparentemente, os esforços que os outros fazem no caminho da santidade não são necessários para nós, não é preciso ser tão “ferrenho” assim no seguimento da santidade…

Daí o fato curiosíssimo de algumas pessoas sentirem “alergia” só de ouvirem falar de “perfeição” e de “santidade”. Elas acham que está demais esse discurso. “Tem gente demais querendo ser perfeito”, talvez elas pensem.

Mas não, elas estão erradas. O que está em alta, ainda, não são os cristãos que querem ser perfeitos. (Chegaremos lá, se Deus quiser.) Hoje, infelizmente, o que abundam são cristãos medíocres, que não querem de jeito nenhum ser perfeitos. E é a esses que cabe puxar as orelhas, ao invés de desencorajar os católicos praticantes que, sendo imperfeitos, querem pelo menos abandonar o pecado e fazer-se santos por graça de Deus.

Em tempos de mornidão espiritual como os nossos, nos quais a mediocridade parece ter-se transformado em “regra de perfeição”, nunca é demais recordar o ensinamento tradicional da Igreja e dos Santos Padres de que, na vida espiritual, não progredir é regredir, pois é dever de todo cristão multiplicar o talento recebido, fazer brotar a semente plantada por Cristo e esforçar-se, numa palavra, por crescer dia a dia na caridade. Ouçamos o que nos diz a este respeito São Bernardo de Claraval:

Viu Jacó na escada anjos a subir e anjos descer. Mas viu acaso algum deles parado ou sentado? O parar-se no degrau desta frágil escada e na incerteza desta vida mortal não é, de forma alguma, permanecer imóvel no mesmo lugar. Não temos aqui morada permanente, nem possuímos ainda a futura, senão que nos dirigimos a ela. Não há remédio: é necessário ou que subas ou que desças; se tentares parar, é forçoso que caias. Não pode, em absoluto, ser chamado de bom quem não deseja ser melhor, pois quando começas a não querer melhorar, é então que deixas de ser bom (Epist. 91 [PL 182, 224]; cf. também Santo Agostinho, Sermão 169, 18).

“Quando começas a não querer melhorar, é então que deixas de ser bom”. Não nos esqueçamos nunca que “é uma luta a vida do homem sobre a terra” ( 7, 1), e que é só combatendo dia após dia contra nós mesmos, contra nossas más inclinações, contra nossa hipocrisia, sim — porque até que nos tornemos de Deus por inteiro, todos somos uma farsa em alguma medida —, só assim é que poderemos ganhar aquela paz que não nos pode dar o mundo, aquela tranquilidade de consciência que só experimentam os que vivem em Cristo.

Não é verdade, pois, que “o jogo já está ganho” — como deduzem os protestantes, tirando as consequências práticas de sua visão farisaica de justificação, e como muitos católicos fazem crer hoje em dia, desacreditados que estão da santidade. A santa liturgia ensina-nos justamente o contrário, quando canta a Jesus Ressuscitado, na Páscoa: “Tu nobis, victor rex, miserere! — Tu, rei vitorioso, tem piedade de nós!” Ora, se é vencedor o nosso rei, se derrotou o demônio, o pecado e a morte, por que pedir-lhe misericórdia? É que a vitória de Cristo já está garantida, mas a nossa perseverança não. E como só quem perseverar até o fim será salvo (cf. Mt 10, 22)... ninguém está dispensado de vigiar e orar.

Referências

  1. Boulenger, Doutrina Catholica: Manual de Instrucção Religiosa para uso dos Collegios e Catechistas voluntarios, v. 3. Livraria Paulo de Azevedo & Cia., pp. 19-20.

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