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“Harry Potter me converteu”
Testemunhos

“Harry Potter me converteu”

“Harry Potter me converteu”

Os livros de Harry Potter ajudaram esta mãe de família a perceber “como um antigo pecado não confessado estava emperrando” a sua vida. Conheça o seu testemunho.

Toni Collins,  Catholic CultureTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Outubro de 2018
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Este texto, escrito em 2001, é o testemunho de uma mãe de família católica que, preocupada com a formação moral de seus filhos e havendo passado por uma experiência com o mundo do ocultismo, quer alertar as famílias para os males da magia e da feitiçaria, principalmente quando a cultura ao nosso redor tende a ridicularizar a oposição a essas práticas como exagero ou até mesmo “fanatismo”.

Não se trata propriamente de um “anátema” aos livros de Harry Potter, mas sim de um convite a refletir sobre a educação que damos a nossos filhos e as influências a que os deixamos expostos — e é com esse espírito que gostaríamos que todos lessem este texto, pois o que está em jogo aqui, mais do que a avaliação de uma obra de literatura (hoje, aliás, não tão em alta quanto alguns anos atrás), é a salvação das almas de nossas crianças.

A matéria original em inglês, de autoria de Toni Collins, foi adaptada aqui e ali para esta publicação.


Harry Potter: você por acaso se lembra de quando ele entrou na sua vida? Notou que crianças que mal conseguiam concentrar-se na leitura de uma carta de Pokémon eram capazes, de repente, de ler por horas a fio? Seus filhos repentinamente vinham da escola para casa contando, entusiasmados, histórias de magos e bruxas?

Os livros de Harry Potter, escritos por J. K. Rowling, ganharam milhões de crianças e adultos. Trata-se indiscutivelmente da obra mais rapidamente abraçada pelo público infantil na história. Você teria de se esconder no mais remoto dos eremitérios para evitar de ver os livros, e estar tão isolado quanto para evitar a controvérsia em torno deles.

São abundantes, de fato, as controvérsias, e Harry Potter mexe com as emoções de muitos. Alguns pais se entusiasmam com o fato de seus filhos se dedicarem à leitura pela primeira vez. Eles dizem amar o modo como os livros pintam o bem contra o mal, e usam os livros para ajudar seus filhos a aprender a diferença entre o que é certo e errado. Mas outros pais ficam profundamente perturbados com o assunto tratado pela saga. Eles se preocupam em ver tantas crianças abraçando um mundo de magia e bruxaria.

Quanto a mim, sou uma mãe que se enquadra nesta última categoria. Frequentemente me vejo no desconforto de tentar explicar aos amigos mais queridos o porquê de eu ficar tão incomodada com os livros. Não é fácil dizer a alguém: “Eu sei que você ama esses livros, mas…”.

Quando eu toco nesse assunto, vejo-me obrigada a compartilhar, mesmo que a contragosto, um pouco de meu testemunho antes de ser católica. Mas tem ficado difícil se abrir a respeito do próprio passado, principalmente porque aqueles de nós que passaram pelas mesmas experiências tendem a possuir, também, uma espécie de receio quanto à popularidade de Harry Potter. Apesar de meu incômodo com os livros, tenho de admitir que eles me ajudaram a perceber como um antigo pecado não confessado estava emperrando minha vida.

Astrologia, hipnotismo e bruxaria

Tendo sido batizada em um lar de católicos não-praticantes, passei minha infância frequentando várias igrejas protestantes. Aprendi a fazer minhas orações antes de dormir. Meus pais enfatizavam a educação moral em casa. Eu tinha um sentimento profundo e permanente da presença de Deus em minha vida. Sabia que Ele me amava e sempre soube que podia me voltar para Ele.

Mas, tanto quanto posso me lembrar, pela época em que meus pais se divorciaram, quando eu tinha 14 anos, Deus deixou de ser enfatizado em minha casa. Lembro-me de haver uma ênfase pesada na importância da astrologia para explicar as personalidades das pessoas, um fascínio com adivinhação e uma incrível festa temática do “zodíaco” que eu e minha mãe demos, cheia de luzes ambientes e jogos de levitação para entretenimento.

Não muito tempo depois, fui assistir a um espetáculo de hipnose, que depois comecei a frequentar. O show dava a uma jovem vaidosa como eu a oportunidade de cantar em frente a uma plateia. Considerava a hipnose uma fraude até a noite em que aquele hipnotizador me escolheu para o finale do seu show. Dizendo que meu corpo era “rígido como uma barra de ferro”, ele me fez deitar ao longo de duas poltronas reclináveis e então ficou em cima de mim.

Tê-lo ali, agindo sobre meu corpo aerotransportado, ensinou-me que algo realmente acontece quando você é hipnotizado. Meus amigos cristãos tentaram me dizer que esse “algo” não era saudável para mim espiritualmente, mas eu não dei ouvidos. Eu realmente pensava que não podia me afetar, que tudo não passava de diversão. Mas olhando para trás na minha vida, eu agora posso dizer que o final dos dois anos que eu passei assistindo ao show daquele hipnotizador coincidiu com minha decisão consciente de voltar as costas a Deus.

Consequência direta de ter sido hipnotizada? Provavelmente não. Posso assegurar a você, no entanto, que autorizar alguém a regularmente tomar o controle de minhas escolhas conscientes não fez bem algum à minha fraca vida de fé.

O evento mais assustador de minha vida aconteceu quando eu me arrisquei a fazer uma bruxaria. Eu cresci como uma menina de poucos amigos e havia me transformado em uma adolescente solitária, sempre à procura de amor. Um dia, escolhi um desses livrinhos que sempre são vendidos nos caixas de supermercados, e esse que comprei era sobre feitiços de amor. Levei-o para casa, tranquei-me no quarto e comecei a lançar um feitiço sobre o meu “namoradinho” da escola. Eu não me lembro das palavras que usei (graças a Deus), mas jamais esquecerei o que aconteceu.

Comecei a lançar o feitiço. ! Uma imensa porta preta (como o monólito de Uma Odisseia no Espaço) bateu com força como se viajasse de minha mão esquerda para a direita. “Deus não quer que você faça isso”, disse uma voz bem fundo dentro de mim. ! Uma porta tão grande quanto bateu forte na outra direção, e uma voz respondeu: “Tanto faz, Deus não existe”, eu me senti tentada a escutar. ! A porta bateu de volta na direção original e uma voz disse, devagar mas com firmeza: “Sim… Ele… existe”.

Coloquei o livro de magia no chão, para nunca mais pegá-lo. Fiquei bastante mexida com aquilo e sabia que havia encontrado algo além deste mundo. A dúvida havia entrado na minha vida pela primeira vez, e eu sabia que poderia ter abraçado um universo sem Deus no instante em que aquela segunda porta bateu. Eu sabia que algo ali queria que eu me afastasse de Deus para sempre, e esse algo teve a sua oportunidade quando eu tomei parte no mundo da bruxaria.

Teria esse ato abortado de bruxaria deixado consequências? Certamente sim. Pouco tempo depois, quando saiu o filme O Exorcista, aquele meu namorado enamorou-se pelo demônio, ao mesmo tempo atraído por ele e desejando ter o seu poder. Eventualmente ele começou a cruzar as ruas de Hollywood procurando por relacionamentos homossexuais, e eu dei fim à nossa amizade.

Eu também senti as consequências, mas elas não viriam à tona enquanto eu não abandonasse a Deus e voltasse a Ele, então, tornando-me católica. A essa altura eu descobri em mim uma incrível sensibilidade para o oculto. Qualquer coisa mesmo que remotamente associada a esse mundo — horóscopos, ler a mão, livrarias de astrologia ou cura através dos cristais — era capaz de me perturbar profundamente. Era como se eu sentisse um “borbulhar” obscuro dentro de minha alma, puxando-me para o preternatural. Eu lutava contra isso rezando pelas pessoas envolvidas em tais práticas e, ao mesmo tempo, protegendo-me de qualquer exposição a coisas desse gênero.

E Harry Potter?

Junto com isso, veio Harry Potter. Fui apresentada a ele quando minha melhor amiga descobriu que a saga havia feito seu filho mais velho gostar de leitura pela primeira vez na vida. Em seguida, Harry Potter já estava em todo lugar, e minha filha de 18 anos estava lendo os livros. Mas eu senti aquele “borbulhar”, e por isso sabia que precisava descobrir se meus medos tinham algum fundamento na realidade.

Muito assustada para ler os livros logo de cara, comecei a ler o que outras pessoas tinham a dizer sobre eles. Comecei a notar um padrão. Dos comentaristas que eu li e que diziam amar os livros de Harry Potter, praticamente nenhum havia passado por uma alguma experiência com o oculto. Para eles, a saga não passava de uma fantasia agradável do mesmo gênero de J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis. Em contraste, quase todo comentarista que eu lia e que havia passado por alguma experiência com o oculto achava os livros perturbadores, quase como se eles fossem cartilhas de iniciação à magia.

Por que a diferença de opiniões? Li os primeiros dois livros, Harry Potter e a Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara Secreta, e cheguei a uma resposta. A maior parte dos livros são, de fato, uma fantasia agradável. A autora, Joanne Rowling, faz cócegas em nossa imaginação com contos de unicórnios, jogos de quadribol e corujas mensageiras.

Mas em meio a esses charmosos retratos encontram-se seções mais tenebrosas, particularmente na parte inicial da educação recebida por Harry. Essa combinação — elementos mais sombrios introduzidos no começo e um acabamento agradável que só pode ser considerado imaginativo — deixa muitos leitores com uma sensação geral boa a respeito dos livros.

Então por que eu senti tal pavor ao ler Harry Potter? Por que outras pessoas que deixam o ocultismo, de modo geral, não gostam dos livros? John Gibson, que se converteu do neopaganismo para o catolicismo e cuja história de conversão encontra-se registrada em Surprised by Truth 2 (“Surpreendidos pela Verdade II”, sem tradução para o português), escreveu-me o seguinte: “Antes e acima de tudo, a maioria das pessoas que se envolveram com o oculto possuem como que uma impressão digital disso em suas almas. Isso nos dá uma espécie de sensibilidade ao oculto que outras pessoas não têm.”

Uma impressão digital na alma” — era essa a diferença que eu estava vendo entre os leitores que amavam Harry Potter e aqueles de nós que não o fazíamos. Aquela “impressão digital” estava sendo cutucada novamente toda vez que eu lia Harry Potter, e nossas almas iam se remexendo. Nós estávamos reconhecendo coisas com as quais já tínhamos tido contato no passado e que havíamos rejeitado por amor a Deus.

Para esclarecer o que eu quero dizer aqui, permitam-me oferecer apenas algumas histórias de pessoas cujas vidas, em algum ponto, entrelaçaram-se com o oculto e que hoje externam preocupações a respeito de Harry Potter.

“Só existe um tipo de magia”

Clare McGrath Merkle é uma ex-curandeira Nova Era, bem versada no ocultismo e convertida ao catolicismo. Sua preocupação com os livros de Harry Potter é profunda, porque ela reconhece em suas páginas muitas das artes que ela praticava. Ela e suas amigas de ocultismo — psicólogas, médicas e outras profissionais (que também eram feiticeiras e bruxas) — defendiam seus estudos juntas “como sendo da categoria de magia branca, quase como a escola de magia de Harry Potter”, isto é, Hogwarts.

Mas, tendo ela mesma deixado o mundo do oculto para entrar no aprisco da Igreja Católica, ela agora reconhece que, na verdade, só existe um tipo de magia, “conhecida por vários nomes, como magia negra, ocultismo, satanismo ou artes das trevas”.

Jacqui Komschlies dá um alerta similar: “Nós precisamos lembrar que a bruxaria, na vida real, não só pode como leva à morte — e a morte do tipo eterno”. Por mais de dez anos ela ficou fascinada com o sobrenatural, desenvolvendo um “apetite” pela leitura de histórias de “magos, magia, poder e aventura”. Eventualmente, ela descobriu que o sobrenatural estava tomando controle de seus pensamentos.

Um dia os espíritos, os poderes e as deusas que povoavam até mesmo seus sonhos começaram a falar com ela. Assustada, ela invocou Deus. Ele a resgatou, e as vozes cessaram.

Hoje ela adverte: “Nosso mundo está explodindo de interesse por bruxaria de verdade. Digite ‘Como posso me tornar uma bruxa?’ no Google e você terá listas para dezenas de sites relacionados. Uma matéria chega a trazer um processo de oito passos para se tornar uma bruxa por conta própria.”

Ainda que Vivian Dudro não tenha nenhum passado com o ocultismo, ela partilha das mesmas preocupações de Jacqui sobre o crescente fascínio das crianças com o oculto. Uma pesquisa feita por ela mesma mostra que, “em San Francisco, as histórias de Harry Potter já inspiraram numerosas crianças a procurar outros livros a respeito de bruxas, magos e fantasmas. As livrarias da cidade encheram suas prateleiras de contos juvenis com histórias desse gênero… A tendência me preocupa porque não só se trata de um pecado sério, mas o ocultismo é a porta principal pela qual o diabólico entra na vida de uma pessoa” [3].

“Brincando com fogo… do inferno”

Steve Wood, editor da St. Joseph’s Covenant Keepers, uma comunidade virtual de pais sob o patrocínio de S. José, ponderou sobre o assunto a partir de sua própria experiência com o oculto. Tendo lido os primeiros livros da saga, ele sustenta uma opinião forte a respeito:

Antes de minha conversão ao cristianismo, eu estive envolvido em Nova Era e falsos movimentos religiosos que realmente praticavam várias das coisas casualmente descritas nos romances de Harry Potter… Tenho conduzido jovens do próprio mundo descrito nesses livros a um compromisso com Cristo… Eu pessoalmente confrontei e atendi indivíduos possessos envolvidos com satanismo e ocultismo. À luz dessa experiência, advirto os pais que expor os filhos ao ‘fascinante’ mundo de Harry Potter é brincar com fogo do inferno.

Não são apenas os leigos que se preocupam com Harry Potter. O padre Phillip Scott é um sacerdote que vive perto de uma comunidade de “góticos” na Flórida. Os jovens dessa comunidade praticam “missas” satânicas, vivem o ocultismo e realizam malefícios espirituais, frequentemente amaldiçoando a ele e a seus irmãos no sacerdócio.

O padre Phillip acredita que a entrada nesse estilo de vida horrendo começa com a curiosidade, e ele acredita que livros como Harry Potter podem estimular essa curiosidade. Em uma entrevista com Steve Wood, o padre conta ter atendido um jovem cuja mente estava povoada com imagens dos livros de Harry Potter. O mais assustador é que os livros não haviam sido escritos à época que o rapaz fora atendido; olhando para trás, o padre Phillip reconheceu nas páginas de Harry Potter exatamente as imagens que haviam atormentado aquele rapaz. Para este sacerdote, os livros de J. K. Rowling são um “veneno”.

Feitiços e poções

O que são algumas dessas imagens e quais os seus respectivos riscos? Em seu livro de 1991, Ungodly Rage (também sem tradução para o português), Donna Steichen partilhou esta citação perspicaz de uma ex-praticante da Wicca, Carmen Helen Guerra:

Quando eu era uma bruxa, eu realizava rituais, evocava espíritos e entidades, fazia feitiços, queimava velas e misturava poções. A única coisa que eu não fazia era voar a bordo de uma vassoura, mas eu provavelmente teria descoberto como fazer isso se tivesse tido tempo para tanto. Mas aonde isso me levou? Para a escuridão, a depressão e a criação de uma aura de melancolia ao meu redor. Eu vivia sob constantes ataques demoníacos. A casa em que eu vivia estava cheia de atividades fantasmagóricas… devido a “convidados” de rituais meus que haviam permanecido. Meus familiares e amigos tinham medo de mim. Eu sabia que não tinha futuro; tudo o que eu tinha era um presente sombrio. Eu estava presa por juramentos e pelo “destino”. Mas eu tinha poder, algo que eu sempre quis. Não era culpa de Satanás. “Ele não existia”, assim eu pensava. Eu desisti de tudo, e procurei a Jesus com os joelhos no chão… Ele me libertou da opressão em que eu vivia e devolveu-me a alma — que eu havia tão estupidamente entregado ao mal em troca de poder.

O que isso tem a ver com Harry Potter? Ainda que estejam travestidos com luzes e doçuras, o primeiro livro da série traz rituais (como a “Cerimônia de Seleção”); feitiços (como Hermione lançando o feitiço do “corpo preso” sobre Neville); espíritos e outras entidades não-humanas (Voldemort possui o corpo de Quirrell e há uma miríade de fantasmas em Hogwarts); velas (milhares flutuando sobre as mesas em Hogwarts); e poções (com aulas especiais do professor Snape).

Pode não ser agradável pensar nisso, mas realmente existem pessoas que praticam bruxaria, que lançam feitiços e fazem rituais, e procuram resultados. J. K. Rowling escreve como se esses poderes pudessem ser usados para o bem, e é esse o grande perigo dos seus livros. Rituais, feitiços e poções são usados por bruxas no mundo real, e só funcionam pelo poder de espíritos maus. Em si mesmos, eles não podem jamais levar ao bem. Retratar essas práticas intrinsecamente más como se pudessem ser “domadas” para o bem é uma mentira perigosa.

Rowling fomenta ainda mais confusão a esse respeito por retratar a bruxaria não como um problema moral, mas como uma questão de herança genética. No mundo de Rowling, a habilidade de praticar magia é herdada. Mas, na realidade, você não precisa pertencer a uma determinada linha de sangue para fazer trabalhos de bruxaria. Tudo o que você precisa fazer é atrair maus espíritos, mudar a sua vontade e trocar Jesus Cristo pelo mundo do ocultismo.

Nós temos duas falsidades, portanto, apresentadas às crianças que lêem esses livros: primeiro, que o “status” de bruxos está escrito em seus genes; e segundo, que se eles forem os “sortudos”, podem usar os poderes que têm para o bem. Essas são mentiras nocivas que se aprendem, porque a realidade é muito diferente e nada inofensiva. Basta perguntar às pessoas que se envolveram com isso no mundo real.  

O alerta da Igreja

O Catecismo da Igreja Católica afirma de modo inequívoco: “Todas as práticas de magia ou de feitiçaria com as quais a pessoa pretende domesticar os poderes ocultos, para colocá-los a seu serviço e obter um poder sobrenatural sobre o próximo — mesmo que seja para proporcionar a este a saúde —, são gravemente contrárias à virtude da religião. […] A Igreja adverte os fiéis a evitá-lo” (n. 2117).

Essa é uma linguagem forte no Catecismo, a mesma linguagem usada para condenar a luxúria, a fornicação e o aborto. Os católicos não podem em boa consciência menosprezar esse alerta. Se Harry estivesse usando luxúria, fornicação ou aborto para salvar seus amigos em Hogwarts, nós ainda consideraríamos esses livros alimento aceitável para crianças?

É importante destacar que a bruxaria sobre a qual Rowling escreve contrasta frontalmente com o mundo mágico retratado por Tolkien e Lewis. As boas personagens da Terra Média e de Nárnia não lançam feitiços sobre ninguém, não evocam espíritos, não convivem com eles como vizinhos queridos, não realizam rituais tampouco preparam poções. As boas personagens em Hogwarts, no entanto, fazem todas essas coisas.

Na Terra Média, um anel transporta você para outro mundo e, em Nárnia, relâmpagos aparecem em algum momento crítico para realizar alguma poderosa façanha. Mas em Hogwarts o malvado Voldemort encanta um diário para possuir a alma de uma garota. Essas são diferenças profundas e substanciais, e requerem que vejamos a magia de Rowling sob uma luz bem diferente da “magia” de Tolkien e Lewis.

À primeira vista, Harry Potter parece um nobre garotinho que colocará sua própria vida em risco para salvar seus amigos. Ele defende os fracos, conforta os abatidos e luta contra o mal. Mas eu descobri que ele também tinha uma má propensão a quebrar as regras da escola e a mentir.

De fato, ao fim do primeiro livro, Harry salva o mundo do malvado Lord Voldemort contando covardemente uma mentira. Fazer isso para salvar o mundo pode parecer aceitável à primeira vista, mas temos de lembrar que esta é uma obra de ficção, e a autora poderia facilmente ter encontrado uma forma honesta de Harry salvar o mundo. Uma leitura atenta do segundo livro mostra que mentir, a partir de então, tornou-se muito mais fácil para Harry do que era no primeiro livro. Assim o caráter de Harry vai se enfraquecendo, ao invés de fortalecer-se.

Também me preocupa a forma como Harry é autorizado a evitar a devida disciplina. Ele é famoso e talentoso, uma celebridade. Várias vezes, tanto no primeiro quanto no segundo livro, quando Harry quebra as regras da escola, ou ele é esperto o suficiente para se safar ou artificioso o bastante para não ser castigado

Repetidamente ameaçado com expulsão, ele é sempre perdoado. No pior de todos os casos, ele é ameaçado com expulsão de Hogwarts se voar em sua vassoura. Mas quando ele de fato o faz, e com grande talento, ele na verdade é recompensado com uma posição privilegiada no time de quadribol da escola.

Como muitos heróis do esporte, ele não recebe uma punição sequer, precisamente por ser um grande atleta. A mensagem que fica é de que, se você for bonito o suficiente, talentoso o suficiente, forte o suficiente, ou esperto o bastante, você não precisa se preocupar com seguir as regras em seu cantinho do universo. Isso dificilmente me parece ensinar a diferença entre o que é certo e errado.

Um agente de conversão

Há muitas outras coisas que eu vejo de errado nos livros de Harry Potter, mas deixei para o final um modo importante por meio do qual eles mudaram minha vida… para melhor.

Vocês se lembram do feitiço que eu havia tentado fazer quando era jovem? Não tendo sido educada como católica, nunca me havia ocorrido de levar aquele ato para o confessionário. Em meu grande desconforto com os livros, sentindo aquele “borbulhar” na minha alma só de olhar para eles, eu finalmente me dei conta de que precisava da graça da Confissão por haver tentado, uma vez, lançar um feitiço sobre alguém. Eu poderia ter argumentado que não precisava me confessar (pois certamente não havia preenchido todos os requisitos para o cometimento de um pecado mortal), mas fiquei muito feliz por ter feito isso.

Por meio da minha confissão, Deus em sua misericórdia concedeu-me um grande dom: seu perdão abençoou minha vida e eu experimentei benefícios palpáveis vindos do sacramento que eu recebi naquele dia. Aquele “borbulhar”, aquela força oculta e poderosa que costumava atrair-me para o oculto, tudo isso se foi. Eu ainda rezo por bruxas e adivinhos quando deparo com eles, e com frequência peço a Deus proteção contra o mundo do ocultismo, mas não mais com o medo paralisador que eu sentia antes.

Feliz liberdade! Nesse sentido, eu devo ver Harry Potter como um agente de minha conversão. É nesse sentido que eu espero que você também o veja como um agente de conversão na vida de seus filhos.

Nem todos que lêem Harry Potter serão espiritualmente prejudicados. Ao mesmo tempo que eu vejo nos livros o perigo de estimularem um interesse pelo ocultismo, sou a última a me preocupar com crianças protegidas pelos sacramentos e bem educadas na sua fé.

Se seus filhos ainda não leram Harry Potter, eu espero que você lhes dê várias razões para que não o façam. Mas, se eles já tiverem lido os livros, como tantas crianças nos Estados Unidos, no Brasil e mundo afora, eu espero que você use esta matéria para incentivar uma discussão dentro de sua família. Compartilhe com seus filhos o ensinamento da Igreja sobre a magia, e fale com eles da influência destrutiva que o ocultismo exerce sobre as pessoas.

Se Harry Potter se tornar para sua família uma prevenção contra o ocultismo, ao invés de um portão que conduz a ele, ele terá feito, ainda que involuntariamente, um grande favor a seus filhos.

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Matrimônio, “um duelo até a morte”
Espiritualidade

Matrimônio, “um duelo até a morte”

Matrimônio, “um duelo até a morte”

O casamento por toda a vida é um ato de desafio contra todas as dificuldades da vida, das catástrofes às imoralidades. Trata-se de um “duelo até a morte”, não contra a pessoa amada, mas por causa dela.

Nathanael Blake,  The Public DiscourseTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Dezembro de 2018
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O matrimônio é um duelo até a morte, do qual nenhum homem honrado deveria fugir”. Como muitos dos aforismos de G. K. Chesterton, essa linha ilumina… e surpreende. É uma bela fala de um personagem da obra Manalive, e muitos leitores sentirão que ela tem algo de verdadeiro.

Ainda assim, com um pouco mais de reflexão, ela não deixa de ser confusa. Quem são os duelistas? Se são marido e mulher, então o ditado torna-se sombrio de uma forma decididamente não-chestertoniana: não é possível que ele quisesse louvar os conflitos desagradáveis que tornam miseráveis tantos casamentos. E mesmo se a expressão quisesse referir-se tão-somente a uma “disputa romântica”, ainda assim ela seria exagerada e míope. Os cônjuges podem competir graciosamente às vezes, mas o casamento também está repleto de trabalhos terrenos — lavar roupas, agendar consultas médicas, lavar a louça etc. Descrever esse esforço comum na vida como um duelo seria entendê-lo da maneira errada. Além disso, Chesterton certamente não quis dizer com essa frase que os homens não-casados, inclusive os padres de sua própria fé católica, são todos desonrosos.

Mas a linha de Chesterton, nesse conto fantástico de sua autoria, soa como uma frase belamente articulada e de modo algum é destituída de sentido. Para os homens, o casamento é deveras um duelo até a morte, não contra a própria esposa, mas por causa dela. Os votos de nosso matrimônio tradicional são quase tão românticos quanto quaisquer juramentos que o cavaleiro de um livro de histórias já tenha feito. Na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, renunciando a todas as outras pessoas, até que a morte nos separe — tais promessas são um desafio contra o mundo inteiro, se for necessário. O duelo não é contra a própria esposa, mas contra tudo e contra todos em potencial, inclusive contra si mesmo. A busca por viver fielmente os próprios votos é ora difícil, ora alegre, mas a medida não se distribui igualmente. Aderir a essas promessas pode acarretar um sofrimento terrível.

Tal é o risco do amor.

Como nos lembra C. S. Lewis, “amar plenamente é ser vulnerável”. Amar outra pessoa significa tornar-se refém seja da sorte, seja de uma vontade alheia. Os votos do matrimônio cristão tradicional são explícitos nesse ponto: a pessoa promete permanecer casada estando na pior situação, na pobreza e na doença, se for o caso. A prudência pode mitigar alguns dos riscos; mas, apesar de tudo, o casamento continua a ser uma aceitação de vulnerabilidade por toda a vida, se esses votos forem levados a sério. Para citar Chesterton (mais uma vez em Manalive): “Matrimônios imprudentes!... Onde no céu ou na terra existiram quaisquer matrimônios prudentes? Poder-se-ia falar igualmente de suicídios prudentes.” Um compromisso até a morte não é prudente, se uma pessoa está olhando apenas para si mesma.

E o casamento é uma morte de si, porque estabelece, no lugar do “eu” solitário do indivíduo, um “nós” por toda a vida. A união física do casamento, que a Bíblia descreve como “uma só carne”, é apenas uma parte da fusão que é o casamento, na qual o próprio eu, embora não seja abolido, volta-se de modo irrevogável para a outra pessoa. Ceder o controle sobre a própria vida dessa forma pode ser apavorante, e muitos se recusarão a fazê-lo. Pense-se, por exemplo, no eminente filósofo Jean-Jacques Rousseau, que ao longo de toda a vida procurou um meio de ter amor sem vulnerabilidade. Isso simplesmente não é possível nesta vida.

É possível ter prazer ao mesmo tempo em que se tem controle e segurança, mas amor não. E o prazer sem amor se esvai. Por isso, Lewis concluiu seus comentários sobre a vulnerabilidade do amor com um alerta: “O único lugar, fora o Céu, onde você pode ficar perfeitamente a salvo de todos os perigos e perturbações do amor, é o Inferno.” Aqueles que não arriscam seus corações acabarão fazendo de si mesmos pessoas sem coração. É por isso que os tradicionais votos matrimoniais admitem a possibilidade de corações partidos, pois, se os corações não endurecerem ao longo dos anos, ao menos um deles se partirá quando a morte fizer a sua parte.

Ainda assim, aqueles que amam continuam casados, não apenas por um costume social ou pelos benefícios que a estabilidade do romance e da família proporcionam à sociedade, mas porque o amor os impele a agir assim. Há algo a respeito do amor que nos induz a fazer promessas de fidelidade eterna, como se soubéssemos que tal fidelidade oferece um modo de vida melhor, sejam lá quais forem os riscos que se corram. É uma aliança o que permite que um relacionamento se mova da potência ao ato. O eu que sacrifica sua autonomia sobre o altar do matrimônio se verá mais plenamente realizado nesse relacionamento. Só quando eliminamos as outras opções do que nos poderíamos tornar é que podemos entrar no negócio de nos tornarmos alguma coisa; só renunciando a todas as outras pessoas é que poderemos realizar plenamente nosso relacionamento com uma única pessoa.

Mas, nessa matéria, há uma heresia em potencial que ronda nossa cultura: a da “alma gêmea” (da “tampa da panela”, da “metade da laranja”, ou seja lá como se queira chamá-la). Trata-se de uma noção quase espiritual: existe uma pessoa com a qual você nasceu para estar e, se você se casar com essa pessoa, você será feliz no casamento. Essa visão, abraçada por alguns cristãos, é como um bálsamo para as preocupações relativas aos riscos de se fazer uma aliança, mas ao mesmo tempo torna as coisas piores. A ideia passa a ilusão de que o romance e o casamento com a alma gêmea serão fáceis, mas essa garantia de conforto serve como uma desculpa, tanto para a preguiça (a moral e a outra) em um relacionamento, quanto para o abandono do casamento quando os problemas inevitavelmente aparecem. Além disso, a pessoa que parece ser a alma gêmea de alguém aos 20, 25 ou 30 anos pode se tornar um “encosto” mais tarde. O “par perfeito” para um ego imaturo impedir-lhe-á o amadurecimento, não deixará espaço para que ele se desenvolva. Assim, a ideia da alma gêmea, vinda da cultura pop, deixa de levar em conta o dinamismo e o desenvolvimento necessários para sustentar um relacionamento por toda a vida.

A noção da alma gêmea também ignora as realidades do livre-arbítrio e da pecaminosidade humana, que podem corromper e destruir inclusive relacionamentos entre almas gêmeas, se elas existissem na forma como são concebidas pela imaginação popular. Assim, a recusa de reconhecer a fragilidade de todos os pares humanos faz com que a noção da alma gêmea se transforme em um ídolo que nos afasta de nossos votos matrimoniais. J. R. R. Tolkien observou os perigos dessa falsa ideia das almas gêmeas em uma carta ao seu filho Michael. Eis o seu alerta:

Quando o glamour se vai, ou simplesmente diminui, as pessoas acham que cometeram um erro, e que a verdadeira alma gêmea ainda está por ser encontrada. A verdadeira alma gêmea se revelará, com muita probabilidade, como a primeira pessoa sexualmente atrativa que aparecer. Alguém com quem, de fato, elas deveriam ter-se casado, com muito proveito para si mesmas, se pelo menos… Daí o divórcio, a fim de providenciar o “se pelo menos”. E, é claro, via de regra elas até que estão certas: elas cometeram de fato um erro. Só uma pessoa muito sábia poderia, ao fim de sua vida, fazer um julgamento sadio de com quem, entre todas as alternativas possíveis, ela deveria ter-se casado com mais proveito!... Mas a “verdadeira alma gêmea” é a pessoa com a qual você se encontra casado de fato.

É necessário escolher cuidadosamente a própria companheira de vida, é claro, mas não devemos supor que encontraremos apenas conforto e compatibilidade perfeita se encontrarmos a pessoa certa. Ademais, nós poderíamos acrescentar ao conselho de Tolkien o seguinte: mesmo se houvesse uma pessoa perfeita preparada para você, o que faria você pensar que a merece? Ou que você gostaria mesmo de uma alma gêmea perfeita? Talvez o que você procura em uma alma gêmea é bem diferente do que aquilo de que você precisa. Uma pessoa realmente perfeita para você, ao invés de o deixar correr solto, o que gostaria era de que você se tornasse uma pessoa melhor, e muitos de nós não acolheremos essa correção, não importando o quão docilmente estejamos orientados para melhorar.

A tolice das almas gêmeas não dá nenhuma resposta para a vulnerabilidade do amor e para os riscos de uma aliança matrimonial por toda a vida. O que há é apenas uma escolha inicial (tomada com prudência, assim se espera) e então a tentativa, que durará a vida inteira, de ser fiel aos próprios votos, não obstante as tragédias, os sofrimentos ou mesmo o agradável tédio de uma vida comum levada em meio à prosperidade do mundo moderno. Embora esteja na moda menosprezar como chato e sem graça um homem e uma mulher comuns partilhando a vida no casamento, normalmente um casal assim se compromete a uma missão muito mais desafiadora e romântica do que qualquer coisa a ser tentada por um boêmio libertino.

O casamento por toda a vida é um ato de desafio contra todas as dificuldades da vida, das catástrofes às imoralidades. No casamento, homens e mulheres se prometem uns aos outros e mandam o destino às favas. As tradicionais promessas que tornam solene um matrimônio constituem uma das mais dignas e importantes atividades humanas. Nossa liberdade não se concretiza na possibilidade de fazermos algo, mas, sim, em fazer aquilo que demos a nossa palavra que faríamos. A liberdade humana se consuma na autolimitação voluntária da promessa feita e cumprida. No ato de fazer e manter promessas, nós nos posicionamos frente ao mundo e ao futuro como agentes ativos, e não como seres meramente passivos reagindo às circunstâncias. A força dos juramentos na ficção, na literatura e no direito deve-se à prova que eles fazem da vontade humana livre dentro do cosmos.

Como observava Hannah Arendt, é o ato de fazer e manter promessas, bem como o de perdoar, que põe fim às reações impulsivas e permite-nos começar alguma coisa nova. Vistos sob essa perspectiva, os votos matrimoniais não são um fim a inaugurar um estado imóvel, mas um começo a permitir o florescimento de algo novo. Ao viver nossos votos matrimoniais, renovamos nossa liberdade e nossa dignidade como agentes, ao mesmo tempo que unimos as duas metades da raça humana em uma união a dar-lhe continuidade.

E, para os cristãos, isso permite entrever um pouco como o matrimônio é uma fonte de graça e uma imagem de Cristo e sua Igreja. Jesus Cristo passou a vida em humilde serviço para estabelecer sua Igreja, até finalmente morrer por ela. Nada do que Ele nos pede, a fim de mantermos nossos votos no matrimônio, será mais difícil de suportar do que aquilo por que Ele já passou por nossa causa.

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Quando uma vítima do nazismo reencontrou seu torturador...
Testemunhos

Quando uma vítima do nazismo
reencontrou seu torturador...

Quando uma vítima do nazismo reencontrou seu torturador...

O que acontece quando uma vítima do nazismo, católica devota, fica face a face com o homem que a havia torturado, 40 anos antes? Conheça a história emocionante de Maïti Girtanner.

K. V. Turley,  National Catholic RegisterTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Dezembro de 2018
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Esta é a história de uma jovem mulher, pianista de talento, que depois da invasão nazista à França começou a trabalhar na resistência ao regime. A prisão e a tortura que ela sofreu nas mãos da Gestapo fizeram com que ela ficasse inválida e sentisse dores agudas pelo resto da vida. É desnecessário dizer que, depois disso, ela não pôde realizar o sonho de se tornar uma pianista profissional.

Nas décadas que se seguiram, Maïti Girtanner, cristã devota, lutou com a raiva e com os sentimentos de vingança que a tortura havia deixado nela. Mal sabia ela que o médico nazista que a tinha torturado também sobrevivera à II Guerra Mundial. Menos ainda ela poderia prever que, 40 anos depois de seu primeiro encontro com aquele médico, seus caminhos viriam a se cruzar uma vez mais.

Maïti Girtanner, em sua juventude.

Em março de 2014, um obituário apareceu no jornal The Times falando da morte recente de Maïti Girtanner. Natural da Suíça, a história de Girtanner é mais conhecida pelo público francófono, mas permanece em grande parte oculta para o resto do mundo. Trata-se de uma história vinda de outra era, dos anos dolorosos da II Guerra Mundial, mas com uma lição permanente para todos os tempos. É uma história de sofrimento humano, e de uma resposta a ele. É uma história que nos recorda mais uma vez qual é a única forma verdadeira de enfrentar o sofrimento e suas dolorosas consequências.

Quando o exército de Hitler tomou a cidade de Paris em 1940, Marie Louise Alice Eleonore, conhecida como Maïti Girtanner, contava 18 anos. Ela havia nascido em uma família de músicos. Ainda pequena demonstrou que também possuía talento para a música, apresentando-se em seu primeiro concerto com apenas 9 anos de idade. “Soube desde cedo que um caminho havia sido demarcado para mim. Eu tinha nascido para ser pianista. A música era minha vida.”

Em meados de 1941, entretanto, Maïti viu-se envolvida em uma rede secreta: a Resistência Francesa. Ao mesmo tempo que dava recitais de piano para as elites nazistas que então ocupavam a França, ela coletava informações para os franceses que lutavam contra o ocupação alemã. Sem mais nem menos, ela foi presa em outubro de 1943 e levada para um centro de detenção na cidade de Hendaia, destinado a membros da Resistência.

Foi nesse centro que Maïti foi torturada por um jovem médico nazista chamado Leo e, como consequência disso, teve seu sistema nervoso central seriamente comprometido, a ponto de nunca mais poder tocar piano. Em fevereiro de 1944, ela ainda se encontrava encarcerada e mal podia ficar de pé sem ajuda de alguém, tão mal fora tratada. Só com a chegada da Cruz Vermelha ela foi finalmente resgatada de seu pesadelo e recebeu um tratamento hospitalar.

Maïti passou o restante de sua vida em meio a dores crônicas. Apesar de não poder mais tocar piano, o profundo desejo de voltar à música nunca a abandonou. Também como resultado da tortura sofrida, havia-lhe sido negada a possibilidade de ter uma família ou de levar uma vida minimamente normal, como a que levava antes de 1940. Pouco a pouco, ela foi-se dando conta de que pelo resto da vida as sequelas da tortura que sofrera imporiam limites à sua existência física.

Sempre devota, a partir de então ela abraçou a fé mais do que nunca, tornando-se uma terciária dominicana. Em carta a uma amiga ela disse simplesmente: “Eu não posso fazer da minha vida uma tragédia”.

Até aqui, a história de Maïti já impressiona por muitos aspectos, mas isso só aumentaria nos anos seguintes à guerra, quando ela começou a refletir sobre a sina que lhe fora reservada. A partir disso, ela se viu diante de um dilema: viver com ódio do homem que a havia debilitado ou escolher perdoá-lo. Ela começara a entender que o perdão não podia jamais ser uma ideia intelectual; ao contrário, tinha de ser algo dirigido a alguém. Ela escreveu: “O perdão não acontece em abstrato. Ele pede por uma pessoa a quem possa ser dirigido, alguém que o possa receber.” Ela começou a rezar por seus carrascos e, em particular, pelo jovem médico que a torturara.

Em 1984, tão inesperadamente como sua prisão em 1943, Maïti foi contactada por Leo, o médico nazista. Agora velho e enfermo, diagnosticado com uma doença terminal, ele enfrentava o medo da morte. Tendo se lembrado da jovem mulher cristã que, mesmo enquanto era torturada, se apegava à própria fé em Deus e em um céu, Leo escreveu-lhe perguntando se ela ainda acreditava em tais coisas. Maïti escreveu-lhe de volta e disse-lhe que sim, que ainda acreditava. Isso levou a mais contatos, não menos do que o que havia acontecido entre os dois 40 anos antes. Leo decidiu visitar Maïti.

Quantas memórias dolorosas aquela troca de correspondências havia trazido a Maïti, só se pode imaginar a partir dos pensamentos e das emoções que ela experimentou enquanto esperava a visita de seu algoz. Provavelmente, ela também sabia que esse segundo encontro seria, tanto para ela quanto para Leo, tão decisivo quanto o primeiro, 40 anos antes.

Ao chegar à casa de sua antiga “paciente”, o ex-médico implorou por seu perdão. Ela tomou-lhe a cabeça por entre as mãos, beijou-a e, enquanto o abraçava, perdoou-lhe.

Depois daquele momento, ela disse: “Eu o abracei a fim de colocá-lo dentro do coração de Deus. E [enquanto eu fazia isso] ele murmurou: ‘Me perdoe’.”

Seja qual for o presente que Leo recebeu naquele dia, outro presente ainda maior foi dado a Maïti Girtanner. Ela havia rezado ao longo de 40 anos pela graça de perdoar, pois sabia que, por meio daquele ato, também ela seria libertada. Daquele dia ela diria mais tarde: “Perdoá-lo libertou-me”.

Naquele encontro totalmente imprevisto, em 1984, as orações de Maïti Girtanner foram estranhamente atendidas.

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Bispos anglicanos querem ideologia de gênero em suas liturgias
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Bispos anglicanos querem
ideologia de gênero em suas liturgias

Bispos anglicanos querem ideologia de gênero em suas liturgias

Diretriz pastoral recém-publicada pela Igreja da Inglaterra orienta sacerdotes a oferecer cerimônias parecidas com o batismo para pessoas transgêneras e suas “novas identidades”.

Doug Mainwaring,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Dezembro de 2018
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A Igreja Anglicana, a maior denominação cristã no Reino Unido, está evitando chamar sua recém-instituída bênção para “transgêneros” de um “segundo batismo”, mas a orientação é para que seus sacerdotes ofereçam cerimônias parecidas com o sacramento para aqueles que anunciarem sua nova identidade sexual.

Em uma diretriz pastoral publicada nesta semana, o clero anglicano é orientado a chamar os homens por seus novos nomes femininos, e as mulheres por seus novos nomes masculinos. O documento declara: “O rito do ministro de se dirigir à pessoa trans usando pela primeira vez o nome que ela escolheu, pode ser um momento poderoso na liturgia”.

“Deve-se notar que o ato de dar ou adotar um novo nome tem uma longa história na tradição judaico-cristã, atestada pela Escritura”, diz o documento. “Em alguns círculos cristãos, por exemplo, existe o costume de os fiéis adotarem um nome adicional ou o nome de um santo no momento de sua confirmação.”

O clero também é aconselhado a respeitar os pronomes do gênero escolhido pela pessoa, ainda que eles não correspondam à realidade.

Denominado Afirmação da Fé Batismal, o rito convida as pessoas já batizadas e confusas com o próprio gênero a “renovarem publicamente os compromissos firmados no batismo e dá a possibilidade, aos que passaram por uma grande transição, de dedicarem novamente suas vidas a Jesus Cristo”.

Para as pessoas “transgêneras” ainda não batizadas e que procuram ingressar na Igreja da Inglaterra, a nova orientação descreve o batismo como o “contexto litúrgico natural para reconhecer e celebrar-lhes a identidade”.

Ao invés de criar um novo sacramento, os bispos anglicanos estão recomendando que o já existente sacramento do batismo e a afirmação dos votos batismais sejam deformados não apenas para acomodar mas também para celebrar a disforia de gênero dentro de suas igrejas.

A diretriz emitida pela Casa Episcopal da Igreja Anglicana na terça-feira (11) adverte os pastores a imporem as mãos sobre o fiel e a rezar usando o novo nome de transgênero por ele escolhido. Os pastores também são orientados a incorporar a esse rito a aspersão de água benta e a unção com óleo consagrado.

Andrea Minichiello Williams, chefe-executiva da organização evangélica Christian Concern e leiga membro do Sínodo Geral da Igreja Anglicana, criticou a nova orientação, dizendo que se trata de uma continuação da “trajetória devastadora [da instituição] rumo a uma franca negação de Deus e de sua Palavra”.

“A finalidade do batismo é configurar uma pessoa a Jesus, quando ela começa uma vida no seguimento dEle”, defende Andrea. “Usar uma afirmação do batismo para celebrar uma transição de gênero vira isso de ponta cabeça e encoraja as pessoas a seguirem seus próprios sentimentos e a viverem com identidades contrárias ao modo como Deus as criou.”

Não é sinal de amor desviar as pessoas — e, mais amplamente, a sociedade — para os mitos e as falsidades da ideologia de gênero”, ela concluiu.

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O impressionante martírio de Santa Luzia
Santos & Mártires

O impressionante
martírio de Santa Luzia

O impressionante martírio de Santa Luzia

Popularmente conhecida como protetora dos olhos, Santa Luzia deu um belo testemunho de pureza antes de ser martirizada e “só rendeu o espírito depois que alguns sacerdotes lhe deram o Corpo do Senhor”.

Beato Tiago de Varazze12 de Dezembro de 2018
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O nome Luzia (ou Lúcia) vem de lux, “luz”. A luz é bonita de se ver porque, segundo Ambrósio, ela está por natureza destinada a ser graciosa para a visão. Ela se difunde sem se sujar, por mais sujos que sejam os lugares em que se projeta. Seus raios seguem linha reta, sem a menor curva, e sem demora ela atravessa imensas extensões.

Daí ser apropriado o nome de Luzia para aquela virgem bem-aventurada que resplandece com o brilho da virgindade sem a mais ínfima mácula, que difunde calor sem nenhuma mescla de amor impuro, que vai direto a Deus sem o menor desvio, que sem hesitação e sem negligência segue em toda sua extensão o caminho do serviço divino. Lúcia também pode vir de lucis via, “caminho da luz”.

Lúcia, virgem de Siracusa, de origem nobre, ouvindo falar por toda a Sicília da fama de Santa Ágata, foi até o túmulo dela com a mãe, Eutícia, que havia quatro anos sofria de hemorragias sem esperança de cura. Naquele dia, lia-se na Missa a passagem do Evangelho na qual se conta que o Senhor curou uma mulher que padecia a mesma doença (cf. Mt 9, 20-22; Mc 5, 25-29; Lc 8, 43-48).

“Martírio de Santa Luzia”, atribuído a Elisabetta Sirani.

Lúcia disse então à mãe: “Se acreditas no que foi lido, deves crer que Ágata está na presença dAquele por quem ela sofreu. Portanto, tocando o túmulo dela com fé, logo estarás completamente curada.”

Quando todo o povo partiu, mãe e filha ficaram orando perto do túmulo. O sono apossou-se de Lúcia, que viu diante dela, de pé, Ágata rodeada de anjos e ornada de pedras preciosas dizendo-lhe: “Minha irmã Lúcia, virgem toda devotada a Deus, por que pedes a mim o que tu mesma podes conseguir, neste instante, para tua mãe? Fica sabendo que ela acaba de ser curada pela fé.”

Lúcia despertou e disse: “Mãe, tu estás curada. Em nome daquela por quem acabas de obter a cura, peço-te que não me procures um esposo, e que meu dote seja distribuído aos pobres.” Respondeu a mãe: “Depois que eu fechar os olhos, tu podes dispor de teus bens como quiseres”. Lúcia replicou: “Se me dás alguma coisa ao morrer, é porque não podes levá-la contigo; dá-me enquanto estás viva e serás recompensada.”

Voltando para casa, passaram todo o dia a vender uma parte dos bens, distribuindo o dinheiro aos pobres. A notícia da partilha do patrimônio chegou aos ouvidos do noivo, e ele perguntou a razão daquilo à mãe de Lúcia. Esta respondeu que sua filha havia encontrado um investimento mais rentável e mais seguro, daí estar vendendo seus bens.

O insensato, crendo tratar-se de um comércio plenamente humano, passou a colaborar na venda daqueles bens, buscando os melhores negócios. Quando soube que tudo o que fora vendido tinha sido dado aos pobres, o noivo levou-a à justiça, diante do cônsul Pascásio, acusando-a de ser cristã e de violar as leis imperiais.

Pascásio convidou-a a sacrificar aos ídolos, mas ela respondeu: “O sacrifício que agrada a Deus é visitar os pobres e prover às suas necessidades, mas como não tenho mais nada a dar, ofereço a Ele a mim mesma.”

Pascásio retorquiu: “Poderias dizer essas coisas a um cristão insensato como tu, mas a mim, que executo os decretos dos príncipes, é inútil argumentar assim.”

Lúcia rebateu: “Tu executas as leis de teus príncipes; eu executo a lei do meu Deus. Tu temes os príncipes, eu temo a Deus. Tu não gostarias de ofendê-los; eu evito ofender a Deus. Tu desejas agradá-los; eu anseio ardentemente agradar a Cristo. Faz então o que julgares útil para ti, e eu farei o que sei que me será bené­fico.”

Pascásio replicou: “Tu dilapidaste teu patrimônio com uns depravados e agora falas como uma meretriz.” Lúcia retrucou: “Pus meu patrimônio num lugar seguro e nunca conheci os que depravam espírito e corpo.”

Pascásio perguntou-lhe: “Quem são esses corruptores?” Lúcia respondeu: “Os que corrompem o espírito são vós, que aconselhais as almas a abandonarem o Criador. Os que corrompem o corpo são os que preferem os gozos corporais às delí­cias eternas.” Pascásio ameaçou-a: “Vais parar de falar quando começares a ser fustigada”, zo que Lúcia respondeu prontamente: “As palavras de Deus nunca terão fim.”

“Então tu és Deus?”, perguntou-lhe Pascásio. “Eu sou escrava do Deus que disse: quando estiverdes em presença de reis e de juízes, não vos preocupeis com o que dizer. Não sereis vós a falar, pois o Espírito Santo falará por vós” (Mc 13, 11), respondeu Lúcia. “Então o Espírito Santo está em ti?”, tornou Pascásio. “Os que vivem em castidade são templos do Espírito Santo”, respondeu-lhe.

Pascásio afirmou: “Então vou mandar que te levem a um lupanar, para que sejas violada e percas o Espírito Santo.” Lúcia: “O corpo só se corrompe se o coração consentir. Se fizeres com que eu seja violentada, será contra minha vontade e ganharei a coroa da pureza. Jamais terás meu consentimento. Eis meu corpo, ele está disposto a toda sorte de suplícios. Por que hesitas? Começa a me atormentar, filho do diabo.”

Então Pascásio mandou vir uns depravados, aos quais disse: “Convidai o povo todo e torturai-a até a morte.” Mas quando quiseram levá-la, o Espírito Santo a fez ficar imóvel e tão pesada que não conseguiram forçá-la a se mover. Pascásio mandou chamar mil homens e amarrar seus pés e suas mãos, mas eles não foram capazes de movê-la de modo algum. Aos mil homens ele acrescentou mil parelhas de bois, mas a virgem do Senhor permaneceu imóvel. Então convocou feiticeiros para movê-la com seus sortilégios, mas eles nada conseguiram.

Pascásio então perguntou: “Que malefícios são esses? Por que uma moça não é movida por mil homens?” Lúcia respondeu: “Não são malefícios, e sim benefícios de Cristo. E ainda que acrescentasses dez mil homens, tu não me verias menos imóvel.” Acreditando Pascásio na opinião segundo a qual se poderia livrar uma pessoa de malefícios jogando urina sobre ela, mandou que se fizesse isso com Lúcia, mas ela continuou sem se mover.

Furioso, Pascásio mandou acender em torno dela uma grande fogueira e jogar em seu corpo óleo fervente, misturado com pez e resina. Depois desse suplício, Lúcia exclamou: “Obtive uma trégua no meu martírio para que os crentes não tenham medo de sofrer e os incré­dulos tenham mais tempo para me insultar.”

Vendo Pascásio irritadíssimo, seus amigos enfiaram uma espada na garganta de Lúcia, que apesar disso não perdeu a palavra: “Eu vos anuncio que a paz foi restituída à Igreja, porque hoje Maximiano acaba de morrer e Diocleciano, de ser expulso do seu reino. Da mesma forma que minha irmã Ágata foi eleita protetora da cidade de Catânia, assim também fui eleita guardiã de Siracusa.”

Enquanto a virgem assim falava, chegaram uns funcionários romanos que prenderam Pascásio, agrilhoaram-no e levaram-no ao César, pois este ficara sabendo que ele tinha saqueado toda a província. Chegando a Roma, Pascácio compareceu diante do Senado, foi declarado culpado, condenado à pena capital e executado.

Quanto à virgem Lúcia, não foi tirada do lugar em que sofrera e só rendeu o espírito depois que alguns sacerdotes lhe deram o Corpo do Senhor. Então todos os presentes disseram: Amém. Ela foi sepultada naquele mesmo lugar, onde foi construída uma igreja. Seu martírio ocorreu no tempo de Constantino e de Maxêncio, por volta do ano 310 do Senhor.

Referências

  • Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 77-80.

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