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Mortos por não serem homossexuais
Santos & Mártires

Mortos por não serem homossexuais

Mortos por não serem homossexuais

Conheça a história dos 22 mártires católicos de Uganda, que preferiram morrer a consentir nos desejos impuros do Rei Mwanga I. O seu testemunho atesta que “os prazeres mundanos e o poder terreno não dão alegria e paz duradouras”.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Dezembro de 2015
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Os primeiros missionários cristãos a pisarem no atual território de Uganda eram protestantes. Em 1877, eles foram acolhidos por Mutesa, o monarca de "Buganda" – como então era chamado o reino –, ficando livres para expandir a fé cristã em meio à população. A tolerância do Rei era tanta, que os missionários podiam pregar Jesus Cristo entre os próprios membros da sua corte. Mutesa mesmo, no entanto, não estava disposto a abandonar a poligamia – nem a circuncidar-se, como pedia o Islã. Apesar de aberto à pregação de todas as religiões, ele ficaria sem escolher nenhuma.

Dois anos mais tarde, em 1879, era a vez dos católicos serem acolhidos em seu reino: os Missionários da África – ou "Padres Brancos", como eram denominados – também passaram a evangelizar Uganda.

Em suas bocas, estava o discurso inflamado contra as práticas pagãs e supersticiosas dos nativos africanos. Os missionários da época não sacrificavam a fé no altar do "politicamente correto". Aderir a Cristo significava uma ruptura total com o antigo modo de vida, uma completa mudança de mentalidade e de comportamento. Ao aderir àquela "religião estrangeira", os abasomi – como eram chamados os convertidos à fé cristã – não só abandonavam as velhas tradições de suas tribos, como eram considerados "rebeldes" por seus compatriotas.

O martírio de José Mukasa

Um desses conversos, o seminarista católico José Mukasa, era particularmente importante para a evangelização em Buganda. Amigo pessoal tanto de Mutesa quanto de seu filho Mwanga, Mukasa tinha levado a fé a muitos dos jovens pajens que trabalhavam na corte real. A sua posição de influência junto do Rei confirmava ainda mais a sua liderança e eram muitos os que se faziam católicos graças à sua pregação.

No entanto, aproximava-se o dia em que o mordomo real teria de escolher entre Deus e César, entre o amor à Igreja e a lealdade ao Rei.

De fato, tão logo assumiu o trono em lugar de seu pai, Mwanga I demonstrou-se um verdadeiro inimigo da religião cristã. Os seus motivos eram manifestos. Influenciado por más amizades, Mwanga começou a praticar a homossexualidade e, não podendo suportar as críticas da moral cristã a esse comportamento, passou a perseguir sistematicamente os cristãos de Buganda – tanto anglicanos, quanto católicos. Também não lhe agradava a rejeição dos cristãos ao tráfico de escravos, o qual constituía uma importante fonte de recursos para o reino. Para que pudesse agir como bem entendesse, Mwanga tinha tomado uma firme decisão: teria que riscar o cristianismo do mapa de seu reino.

No dia 31 de janeiro de 1885, os jovens anglicanos Makko Kakumba, Yusuf Rugarama e Nuwa Sserwanga foram as primeiras vítimas do Rei. Eles foram desmembrados e queimados no povoado de Busega, ao sul do país. Não contente com a execução, em outubro do mesmo ano, Mwanga ordenou o assassinato do bispo anglicano James Hannington, alegando "más intenções" por parte do prelado, só por ele ter entrado no reino por uma rota mais curta que a tradicional.

Tamanha barbaridade suscitou a indignação de José Mukasa, que – a exemplo de Natã diante do rei Davi – reprimiu severamente Mwanga, por matar Hannington sem ao menos dar-lhe a oportunidade de defender-se. Outra crítica, todavia, fez acender de vez a cólera real: avesso à homossexualidade do monarca, Mukasa pediu a Mwanga que parasse de compelir os membros da corte às suas imoralidades. De fato, a promiscuidade do Rei era insaciável e ele não hesitava em transformar os seus súditos em "parceiros sexuais". Como reação a isso, José não apenas tinha ensinado os rapazes a resistirem, como fez questão de deixá-los longe do alcance do Rei.

Perturbado com as críticas de Mukasa, Mwanga jogou-o na prisão e, no dia 15 de novembro, mandou queimá-lo publicamente, para que servisse de exemplo a todo o povo de Uganda. Antes de morrer, disse ao seu executor: "Um cristão que dá a sua vida a Deus não tem razão para temer a morte. Diga a Mwanga que ele me condenou injustamente, mas eu o perdoo de todo o meu coração." O carrasco ficou tão impressionado que decapitou-o antes de amarrá-lo e queimar o seu corpo.

O massacre de Namugongo

Muitos outros cristãos caíram nas mãos de Mwanga, totalizando um número de 45 mártires (22 deles católicos). A perseguição da Coroa à fé cristã duraria até o dia 27 de janeiro de 1887, com a morte do católico Jean-Marie Muzeeyi. De todas as atrocidades cometidas por Mwanga, porém, a pior de todas foi o massacre de Namugongo, quando 26 cristãos, sob a liderança de São Carlos Lwanga, foram mortos de uma só vez.

Apontado pelo Rei como novo mordomo da corte, Lwanga não demoraria a causar novos problemas à Coroa. Assim como Mukasa, de fato, Carlos sabia ser "necessário antes obedecer a Deus que aos homens" ( At 5, 29). Uma de suas primeiras preocupações à frente do palácio foi justamente proteger os jovens cristãos dos desejos luxuriosos do monarca. Certa vez, um dos pajens se recusou a manter relações sexuais com o soberano. Perguntado qual era o seu motivo, ele respondeu que estava recebendo catequese de um católico. Tomado pela ira, Mwanga chamou o responsável à sua presença, tomou sua lança e decepou a sua cabeça, sem piedade. 26 de maio de 1886, Daniel Ssebuggwawo é a vítima da vez.

Ainda insatisfeito, o Rei convocou toda a corte para o dia seguinte. Carlos Lwanga, prevendo o que haveria de acontecer, deu o sacramento aos quatro catecúmenos que ainda não tinham recebido o Batismo – entre eles, uma criança de 14 anos, chamada Kizito. No outro dia, logo de manhã, Mwanga separou de sua corte todos os cristãos e, depois de pedir inutilmente que abandonassem a sua fé, condenou-os todos à morte.

"Quem dentre vocês não tiver a intenção de rezar, pode ficar aqui ao lado do trono; aqueles, porém, que quiserem rezar, reúnam-se contra aquele muro", teria dito o Rei, na ocasião. Lwanga foi o primeiro a dirigir-se ao muro, seguido por outros tantos. Mwanga, então, perguntou-lhes: "Mas vocês rezam de verdade?", ao que Carlos respondeu: "Sim, meu senhor, nós rezamos e queremos continuar até a morte".

Alguns deles foram mortos ainda naquele mês, como o católico Nowa Mawaggali, que padeceu estraçalhado por cães selvagens. A maioria, porém, estava destinada a morrer em Namugongo, no dia 3 de junho de 1886.

Era uma quinta-feira da Ascensão do Senhor e os prisioneiros, sentenciados à fogueira, estavam tranquilos e alegres diante de seu veredito. A fila de condenados partia ao lugar da execução, rezando bem alto e recitando o Catecismo pelo caminho. O pequeno Kizito simplesmente sorria, como se tudo aquilo não passasse de uma brincadeira. Testemunhas oculares relatavam a alegria e a confiança dos mártires, encorajando uns aos outros, enquanto eram amontoados em uma grande fogueira por seus carrascos.

"Invoque o seu Deus, e veja se ele pode salvá-lo", disse um deles. "Pobre louco", replicou São Carlos Lwanga. "Você está me queimando, mas é como se estivesse derramando água sobre o meu corpo."

Os outros prisioneiros estavam igualmente calmos. Das chamas ardentes, só se ouviam as suas orações e canções, que ressoavam cada vez mais alto. Quem assistiu à execução atesta nunca ter visto ninguém morrendo daquela forma.

"Semente de novos cristãos"

São Carlos Lwanga e os outros 21 mártires católicos de Uganda foram beatificados pelo Papa Bento XV, em 6 de junho de 1920, e canonizados por Paulo VI, em 18 de outubro de 1964.

Recentemente, durante viagem apostólica à África, o Papa Francisco visitou o Santuário dos Mártires de Namugongo e celebrou uma Missa em sua honra. "O testemunho dos mártires mostra a quantos, ontem e hoje, ouviram a sua história que os prazeres mundanos e o poder terreno não dão alegria e paz duradouras", disse o Santo Padre. "São a fidelidade a Deus, a honestidade e integridade da vida e uma autêntica preocupação pelo bem dos outros que nos trazem aquela paz que o mundo não pode oferecer."

Assim como em outros tempos da Igreja, o sangue desses homens valorosos foi um incentivo para a conversão de muitos outros. O reino de terror instaurado por Mwanga não teve o efeito pretendido: ao invés de diminuir, o número de cristãos só aumentou cada vez mais. Realmente, como escreve Tertuliano, "sanguis martyrum semen christianorum – o sangue dos mártires é semente de novos cristãos".

Hoje, Uganda é um país majoritariamente cristão, graças ao exemplo desses jovens mártires, que resistiram a um governo ímpio para guardar a sua fé e a sua castidade. Notoriamente, trata-se do país africano que mais avanços obteve no combate à AIDS, graças a um programa de saúde que envolve principalmente – mais do que a simples distribuição de preservativos – a abstinência e a fidelidade no casamento. O programa já foi elogiado por especialistas e apontado como o mais eficaz na contenção do vírus HIV.

A primeira-dama do país, Janet Museveni, fala abertamente aos universitários sobre a castidade. "Honrem seus corpos como templo de Deus", ela diz. "Não tomem atalhos nem ponham em perigo suas vidas, utilizando meios inventados pelo homem, como os preservativos, e indo contra o plano de Deus para suas vidas."

Para quem teve Mwanga no passado, é alentador ter uma posição tão contundente defendendo a castidade do alto dos telhados. Que São Carlos Lwanga e seus 21 companheiros mártires sigam intercedendo pela África e por todo o mundo, a fim de que a castidade que os conduziu ao martírio arda no coração dos nossos jovens e também os leve a um testemunho irrepreensível de amor a Cristo.

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O segredo dos santos para vencer os pecados da carne
Espiritualidade

O segredo dos santos
para vencer os pecados da carne

O segredo dos santos
para vencer os pecados da carne

Os pecados da carne sempre estiveram conosco, desde a queda de Adão, mas nunca como agora se experimentou tamanho bombardeio de propaganda sexual e de tentações carnais.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Março de 2019
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Os jovens católicos hoje — e não apenas os jovens — estão experimentando um bombardeio sem precedentes de propaganda sexual e tentações carnais. Os pecados da carne sempre estiveram conosco desde a queda de Adão, mas nunca antes houve uma tal multidão e disponibilidade de imagens impuras e tantas incitações para ceder ao pecado, sem atenção à saúde espiritual do homem ou até mesmo à sua saúde física e psicológica.

Se C. S. Lewis acertou em dizer que “a castidade é a menos popular das virtudes cristãs”, por outro lado também é possível dizer que “a impureza é o mais popular dos vícios do mundo”. Nossa situação moderna foi descrita com bastante antecedência por Nossa Senhora do Bom Sucesso, que apareceu à Venerável Madre Mariana de Jesus Torres, em Quito, Equador, de 1594 a 1634, e falou-lhe com grandes detalhes de uma “catástrofe espiritual” que ocorreria na Igreja “um pouco depois de meados do século XX”. Entre as muitas profecias havia esta:

O terceiro motivo pelo qual se apagou a lamparina é porque nesses tempos estará a atmosfera saturada do espírito de impureza, que, à maneira de um mar imundo, correrá pelas ruas, praças e logradouros públicos com uma liberdade assombrosa. Quase não haverá almas virgens no mundo.

De modo similar, Nossa Senhora apareceu a Santa Jacinta de Fátima diversas vezes, entre dezembro de 1919 e fevereiro de 1920. Uma das coisas ditas por ela deve fazer-nos pensar: “Vão mais almas para o inferno por causa dos pecados da carne do que por qualquer outra razão”. E ainda: “Hão de vir umas modas que ofenderão muito a Nosso Senhor”.

Em seu livro The Message of Our Lady of Fatima, Dom Augustine Marie, OSB, comenta sobre essas palavras:

Vão mais almas para o inferno por causa dos pecados da carne do que por qualquer outra razão.” A Irmã Lúcia, última vidente viva de Fátima, diz que isso se refere primeiramente aos pecados contra a castidade, também chamados de pecados de impureza. Essa afirmação não é porque os pecados contra a castidade são os mais graves, mas sim porque eles são os mais comuns e, nas palavras da Irmã Lúcia, “por causa da consciência”, já que os pecados de impureza tendem a ser menos penitenciados do que os outros. Por quê?

Primeiro, porque o sentimento da injustiça cometida, que é o primeiro estímulo para que uma pessoa se arrependa de seus pecados, não é sentido fortemente quando se praticam esses pecados, com exceção do adultério.

Segundo, porque há um maior sentimento de vergonha quando se cometem certos atos impuros e, por consequência, há maior dificuldade em confessá-los no sacramento da Confissão, ou até mesmo em se arrepender deles de coração.

Terceiro, porque a atividade sexual de todos os tipos é apresentada por nossa cultura popular pós-cristã (ou até anticristã) como algo bom e natural, ao mesmo tempo que chegam a ensinar que a abstinência sexual faz mal à saúde.

Como explicado, então, ainda que a impureza, a imodéstia e vícios correlatos de intemperança não sejam em si mesmos os piores dos pecados, eles estão sem dúvida entre os mais comuns, especialmente em certas faixas etárias, e são ainda mortais para a alma e corrosivos para a sociedade. Que uma pessoa impenitente seja condenada ao inferno por homicídio ou fornicação, por roubo ou masturbação, seja como for ela acabará no inferno, um lugar de tormento e escuridão eternos; e ainda que a Divina Comédia de Dante esteja correta em retratar o inferno com círculos de punição mais ou menos severa, a depender dos graus de malícia com que foram cometidos os pecados, todos os condenados experimentam a pena da perda de Deus e do fogo sensível por toda a eternidade. Eis uma coisa da qual precisamos querer nos livrar a todo custo, por meio de um autocontrole honesto, de arrependimento caso tenhamos caído, de uma confiança humilde e inabalável na misericórdia de Deus e, finalmente, de um recurso contínuo à Confissão e à Comunhão.

In quo corrigit adolescentior viam suam? In custodiendo sermones tuos (Sl 118, 9). Neste versículo, que na Liturgia das Horas se traduz por: “Como um jovem poderá ter vida pura?”, o rei Davi — que teve, ele mesmo, alguns problemas com os pecados da carne — faz uma pergunta tão velha quanto andar pra trás. A nova resposta que o cristianismo dá é o próprio Cristo. Não seremos capazes de permanecer puros ou castos sem Jesus, e não há um substituto secular adequado: nenhum programa educacional, não importa o quão bem tenha sido desenhado, pode tomar o lugar de Cristo e fazer o seu trabalho.

Nosso Senhor traz-nos, de fato, incontáveis dons, mas dois são preciosos de modo especial: o conhecimento da Verdade, por meio da qual devemos viver, e a Santa Eucaristia, que nos une ao próprio Senhor que nos purifica e nos salva. Nós precisamos conhecer o caminho, e precisamos de força para segui-lo. Como é trágico ver as pessoas tentando viver sem nenhum sentido do que seja intrinsecamente certo e errado, verdadeiro e falso! Sem um mapa e uma bússola como essa, facilmente nos perdemos na selva e nos tornamos presa de feras selvagens. Mas não menos trágico é ver aqueles que, conscientes do que seja certo e errado, verdadeiro e falso, ainda vacilam e caem por não terem vida dentro de si para viver retamente. “Quem se une ao Senhor torna-se com ele um só espírito” (1Cor 6, 17).

São Cirilo de Jerusalém, Padre e Doutor da Igreja, exclama em uma de suas homilias:

Se te sentes tentado pela intemperança, alimenta-te com o Corpo e o Sangue de Cristo, que na vida terrena praticou com excelência a sobriedade, e tornar-te-ás temperante. [...] Se tu te sentes arder pela febre da impureza, aproxima-te do banquete dos anjos, e a carne imaculada de Cristo te fará puro e casto.

Comentando sobre essa passagem em seu maravilhoso livro Jesus, nosso amor eucarístico, o Pe. Stefano Manelli diz:

Ao procurarem saber como fez São Carlos Borromeu para se conservar puro e justo em meio a seus pares jovens, frívolos e entregues à dissipação, as pessoas descobriam que o seu segredo era a Comunhão frequente. [...] E São Filipe Néri, conhecedor profundo dos jovens, dizia: “A devoção ao Santíssimo Sacramento e a devoção à Virgem Maria são, não o melhor, mas o único meio para conservar a pureza. Nada a não ser a Comunhão pode conservar puro um coração aos vinte anos de idade… Não pode haver castidade sem Eucaristia.

A Eucaristia é o próprio Cristo — verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o Deus que nos criou e que nos santifica, o homem que conhece nossas fraquezas e que as cura com sua carne. É Ele quem nos assegura: “O que é impossível aos homens, é possível a Deus” (Lc 18, 27). Aproximemo-nos, pois, cada vez mais dEle, com temor e com fé, e deixemos que a força de sua presença opere milagres em nós.

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São José não é um santo qualquer!
Santos & Mártires

São José não é um santo qualquer!

São José não é um santo qualquer!

Os católicos amamos todos os santos da Igreja e até elegemos um e outro como santo de devoção. Mas São José… São José é especial. Afinal, a que outro santo Deus chamou de pai?

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Março de 2019
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Neste dia em que celebramos a grande solenidade de São José, nada é tão necessário quanto considerar a razão do culto tão fervoroso que prestamos a este santo. Por que nos deleitarmos ouvindo um Te Joseph, por que acendermos velas diante das imagens de São José, por que assistirmos a Missas, novenas e tríduos em sua honra? Qual o sentido, afinal de contas, de tantas orações, ladainhas e práticas devocionais?

Consideremos, em primeiro lugar, o motivo de toda a veneração que prestamos aos santos de modo geral.

A sagrada liturgia, dirigindo-se a Deus, reza o seguinte: “Na assembleia dos santos, vós sois glorificado e, coroando os seus méritos, exaltai os vossos próprios dons”. Essa passagem contida no Prefácio dos Santos é de uma catequese tão profunda que mereceu ser incluída no Catecismo da Igreja Católica (§ 2006). Para sondar-lhe melhor o significado, vamos logo a Santo Agostinho, de quem é tirada essa intuição (En. in Psal. 102, 7):

Deus coroa os seus dons, não os nossos méritos. — “É Ele quem te coroa de bondade e misericórdia” (Sl 102, 4). Quiçá já havias começado a te orgulhares, quando ouviste: “Te coroa”. “Portanto, sou grande”, dizes contigo; “portanto, hei pelejado”. Com as forças de quem? Com as tuas, por certo, mas ministradas por Ele. Porque é evidente que lutas; e por isso serás coroado, porque hás-de vencer: mas vê bem quem venceu primeiro, vê bem quem te há-de fazer vencedor ao seu lado. “Eu”, diz o Senhor, “venci o mundo. Alegrai-vos!” (Jo 16, 33). E por que nos havemos nós de alegrar, se foi Ele quem venceu o mundo? Não será acaso porque é como se nós mesmos tivéssemos vencido? Pois assim nos havemos de alegrar plenamente, porque fomos nós que vencemos. Os que fomos vencidos em nós pelo pecado, nele saímos vencedores pela graça. Portanto, Ele te coroa, porque coroa os seus próprios dons, não os teus méritos.

“Tenho trabalhado mais do que todos”, reconhece o Apóstolo, mas vê o que acrescenta em seguida: “Não eu, mas a graça de Deus que está comigo” (1Cor 15, 10). E depois de todos esses trabalhos espera ele receber a coroa, e diz: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia” (2Tm 4, 7-8). Por quê? Porque “combati o combate”. Por quê? Porque “terminei a carreira”. Por quê? Porque “guardei a fé”. E como combateste? Como guardaste a fé? “Não eu, mas a graça de Deus que está comigo”.

Por isso, que também tu sejas coroado, é pela misericórdia que és coroado. Nunca sejas soberbo; louva sempre o Senhor, não “te esqueças de todos os seus benefícios” (Sl 102, 2). É benefício que, sendo tu um pecador e ímpio, sejas justificado. É um benefício que tenha Ele te erguido e guiado para que não tornes a cair. É benefício que te tenham sido dadas forças para que perseveres até o fim. É benefício que esta mesma carne sob a qual gemias venha a ressurgir, e que não se perca de tua cabeça um só fio de cabelo. É benefício que, após a ressurreição, sejas coroado. É benefício ainda que para todo o sempre louves a Deus sem defeito. Não te esqueças, pois, de todos os seus benefícios, se queres que tua alma bendiga ao Senhor (cf. Sl 102, 1-2), “que te coroa de compaixão e misericórdia”.

Respondamos, então, de uma vez: ao celebrarem os santos, os católicos não estão fazendo nada mais do que adorar a Deus, que os santificou nesta vida e os glorificou na eternidade. São festejados os coroados, sim, mas a glória dirige-se, no fundo, à bondade e à misericórdia de quem deu a coroa. Quando lemos a biografia de um santo, quando conhecemos sua vida, seus atos heroicos de virtude, o grande amor que eles tiveram a Deus, o que estamos contemplando senão a ação da graça divina neles? Seus méritos aparecem, de fato, mas por trás estão sempre os dons do alto.

Na vida de São José, porém, encontramo-nos na curiosa situação de conhecermos mais os dons com que ele foi agraciado do que propriamente os seus méritos. Sim, porque os atos de José não foram registrados por ninguém, nenhuma biografia a seu respeito legou-nos a história. O Autor Sagrado diz tão-somente que ele era “justo”, conta um e outro episódio envolvendo a Sagrada Família… e cala-se sobre todo o resto. Poderíamos dizer que a única grande notícia que temos a seu respeito é a sua paternidade, e nada mais.

Mas essa razão, se a um olhar superficial pode parecer pouco, a olhos espirituais é motivo suficiente para situarmos o culto a São José acima do culto que prestamos a qualquer outro santo da Igreja.

Santa Teresa d’Ávila, por exemplo, ao se perguntar o porquê da intercessão tão poderosa de José, tinha uma opinião muito razoável: “Parece-me que Deus concede aos outros santos a graça de nos auxiliar nesta ou naquela necessidade, mas sei por experiência que São José nos socorre em todas, como se Nosso Senhor quisesse fazer-nos compreender que, assim como Ele lhe era submisso na terra, porque estava no lugar de pai e como tal era chamado, também no céu não pode recusar-lhe nada” (Livro da Vida, VI, 6).

Na mesma linha e com muita simplicidade se manifestava o beato Cardeal Newman, no tríduo que ele compôs em honra ao pai de Jesus: “São José é santo porque seu ofício, de ser esposo e protetor de Maria, exigia especial santidade; é santo porque nenhum outro santo além dele viveu em tal e tão longa intimidade e familiaridade com a fonte de toda santidade, Jesus, Deus encarnado, e Maria, a mais santa das criaturas”.

Aprofundemo-nos um pouco mais, no entanto, e contemplemos a beleza destas linhas que o Pe. António Vieira compôs, mostrando como é especial a coroa reservada a São José, e distinta da coroa de todos os outros santos (cf. Sermão do Esposo da Mãe de Deus, São José, pregado em 19 de março de 1643):

Sonhou José, o que depois foi Vice-Rei do Egito, que o Sol, a Lua, e as Estrelas, abatendo do Céu à terra a majestade luminosa de seus resplandores, humildemente prostrados o adoravam. Quis interpretar este sonho seu Pai, e disse que ele, Jacó, era o Sol, Raquel, sua esposa, a Lua, seus filhos desde Rúben a Benjamim as Estrelas; e que viria tempo a José, em que Deus o levantaria a tão soberana fortuna, que seu mesmo Pai, sua Mãe, e seus Irmãos com o joelho em terra o adorassem (cf. Gn 37).

Os Doutores comumente têm esta interpretação do sonho por verdadeira; mas o certo é que um José foi o que sonhou, e outro José foi o sonhado. O José que sonhou foi José, o filho de Jacó: o José sonhado foi José, o Esposo de Maria. O José filho de Jacó sonhou somente; porque ainda que digamos que em seu Pai o adorou o Sol, e em seus Irmãos as Estrelas, é certo que em Raquel, sua mãe, lhe faltou a adoração da Lua; porque quando Jacó, e seus filhos adoraram a José no Egito, já era morta Raquel, e ficava sepultada em Belém.

Segue-se logo que o José verdadeiramente sonhado foi José o esposo de Maria; porque nele se cumpriram cabalmente todas as partes do sonho. Adorou a José o Sol; porque a título de sujeição filial lhe guardou reverência, e acatamento o mesmo Sol de justiça, Cristo: Et erat subditus illis (Lc 2, 51); adorou a José a Lua; porque a título de verdadeira esposa lhe deveu obediência, e amor aquela Senhora, que é como a Lua formosa: Pulchra ut Luna (Ct 6, 9); adoraram a José as Estrelas; porque a título, ou reputação de Pai de seu Mestre o respeitaram com grande veneração os Apóstolos, aqueles de quem diz o Espírito Santo: Fulgebunt quasi stellae in perpetuas aeternitates (Dn 12, 3).

A excelência de São José pode ser resumida, pois, nesta questão: a que outro homem sobre a terra Jesus chamou de “pai” e foi em tudo submisso como filho? A que outro Deus confiou uma missão tão assombrosa como esta, de ser pai do próprio Verbo de Deus feito carne? A que outro cumulou de graças tão abundantes e numerosas como a esse homem?

Portanto, não, a devoção a São José não é uma devoção como qualquer outra. O Patriarca da Sagrada Família está envolvido diretamente e de modo especialíssimo no mistério da união hipostática, de modo que o culto a ele é, juntamente com o da Virgem Maria, quase que uma “consequência necessária” da simples fé que os cristãos temos em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Fortaleçamos, pois, nosso amor a este grande Patriarca, certos de que, se até mesmo o Sol, a Lua e todas as estrelas se prostram diante desse humilde carpinteiro… só o que nos resta — a nós, que nem no céu estamos, a nós, homens tão terrestres e carnais — só o que nos resta é elevarmos a ele os nossos corações e dizermos, cheios de gratidão a Deus: “Valei-nos, glorioso São José!

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A Via Sacra e as almas do Purgatório
Espiritualidade

A Via Sacra e as almas do Purgatório

A Via Sacra e as almas do Purgatório

Enquanto meditamos as Estações da Cruz, percorrendo o mesmo caminho que Jesus percorreu até chegar ao Calvário, a Igreja nos concede a graça de sufragar as benditas almas do Purgatório.

Pe. François Xavier Schouppe/Equipe CNP15 de Março de 2019
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Poucas coisas há que sejam tão eficazes para conceder o repouso eterno às almas dos fiéis defuntos como a devoção da Via Sacra. Consideremos este santo exercício, primeiro em si mesmo e, depois, nas indulgências com que é enriquecido.

Em si mesmo, trata-se de uma maneira solene e muito excelente de meditar sobre a Paixão de nosso Salvador, sendo, por consequência, o mais salutar exercício de nossa santa religião. Literalmente falando, a Via Crucis, como também é chamada, ou simplesmente “Caminho da Cruz”, é o trajeto percorrido pelo Deus humanado enquanto Ele carregava o peso de sua cruz, desde o pretório de Pilatos, onde foi condenado à morte, até o alto do Calvário, onde foi crucificado.

Após a morte de seu divino Filho, a bem-aventurada Virgem Maria, seja sozinha seja em companhia das santas mulheres, frequentemente repetia aquele doloroso caminho. Seguindo o seu exemplo, os fiéis da Palestina — e no correr dos anos numerosos peregrinos de países os mais distantes — procuraram visitar aqueles santos lugares, cobertos pelo suor e pelo sangue de Jesus Cristo; e a Igreja, a fim de encorajar-lhes a piedade, abriu a esses peregrinos seus tesouros de bênçãos espirituais.

Como, porém, nem todos podem ir à Terra Santa, a Santa Sé autorizou que fossem erigidas, nas igrejas e nas capelas de todo o mundo, cruzes, pinturas ou baixos-relevos representando as tocantes cenas que se passaram na estrada verdadeira ao Calvário, em Jerusalém. Ao permitir a construção dessas santas “estações”, como são chamadas, os Pontífices Romanos, que compreendiam toda a excelência e eficácia desta devoção, se dignaram também enriquecê-las de todas as indulgências que tinham uma visita de verdade à Terra Santa.

Ainda hoje, segundo o Manual das Indulgências, “concede-se indulgência plenária ao fiel que fizer o exercício da via-sacra, piedosamente”, podendo essa indulgência aplicar-se aos defuntos como sufrágio e levando-se em conta o seguinte (conc. 63):

  1. “O piedoso exercício deve-se realizar diante das estações da via-sacra, legitimamente eretas.
  2. Requerem-se catorze cruzes para erigir a via-sacra; junto com as cruzes, costuma-se colocar outras tantas imagens ou quadros que representam as estações de Jerusalém.
  3. Conforme o costume mais comum, o piedoso exercício consta de catorze leituras devotas, a que se acrescentam algumas orações vocais. Requer-se piedosa meditação só da Paixão e Morte do Senhor, sem ser necessária a consideração do mistério de cada estação.
  4. Exige-se o movimento de uma para a outra estação. Mas, se a via-sacra se faz publicamente e não se pode fazer o movimento de todos os presentes ordenadamente, basta que o dirigente se mova para cada uma das estações, enquanto os outros ficam em seus lugares.”

Mencione-se ainda que a Via Sacra é um ato de piedade com o qual se pode ganhar a indulgência plenária em cada dia do ano. O mesmo se dá com a “adoração ao Santíssimo Sacramento pelo menos por meia hora” (conc. 3); a “leitura espiritual da Sagrada Escritura ao menos por meia hora” (conc. 50) e a “recitação do Rosário de Nossa Senhora na igreja, no oratório ou na família ou na comunidade religiosa ou em piedosa associação” (conc. 48). Estamos falando, portanto, de uma devoção que, seja por conta da excelência de seu objeto, seja em razão das indulgências que lhe são anexas, constitui um sufrágio de altíssimo valor para as santas almas do Purgatório.

Encontramos um exemplo disso na vida da Venerável Irmã Maria de la Antigua, que por muito tempo teve o piedoso costume de fazer as Estações da Cruz todos os dias para o alívio das almas falecidas; mas depois, por motivos injustificados, começou a fazê-las raramente, até finalmente omiti-las por completo. Nosso Senhor, que sempre teve grandes desígnios para essa piedosa virgem, e que desejava fazer dela uma vítima de amor para consolo das pobres almas do Purgatório, dignou-se dar-lhe uma lição que serve de aprendizado para todos nós.

Uma religiosa do mesmo convento em que ela vivia, e que morrera há não muito tempo, apareceu-lhe dizendo em tom de lamento: “Minha querida irmã, por que deixaste de fazer as Estações da Cruz pelas almas no Purgatório? Antes, tu tinhas o costume de aliviar-nos todos os dias por meio deste piedoso exercício, mas agora… por que nos privas desta assistência?”

Enquanto ainda falava esta alma, Nosso Senhor mesmo apareceu a sua serva e reprovou-lhe a negligência. “Fica sabendo, minha filha”, Ele acrescentou, “que as Estações da Cruz são muito proveitosas às almas no Purgatório e constituem um sufrágio do mais alto valor. Eis o porquê de eu haver permitido que esta alma, para seu próprio bem e para o bem de outros, te viesse implorar esse ato de misericórdia. Fica sabendo também que foi por conta de tua fidelidade na prática desta devoção que foste favorecida com uma frequente comunicação com os mortos. É por esta razão também que aquelas almas, agradecidas, não cessam jamais de rezar por ti, e de defender a tua causa no tribunal da minha justiça. Torna conhecida, pois, às tuas irmãs este tesouro, e dize-lhes para colher dele abundantes frutos, para si mesmas e para as almas dos fiéis defuntos.”

Uma boa Via Sacra para meditação neste tempo da Quaresma pode ser encontrada aqui. Também estão disponíveis na internet as meditações compostas por São Josemaría Escrivá para esta devoção, que podem ser acessadas aqui.

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Fiquemos tristes, mas não sejamos idiotas!
Espiritualidade

Fiquemos tristes,
mas não sejamos idiotas!

Fiquemos tristes,
mas não sejamos idiotas!

Por que ficamos tristes? O que é que “conturba” a nossa alma, nos aflige por dentro, fazendo com que muitas vezes percamos o sorriso no rosto, o sono, o apetite e até, quem sabe, a vontade de viver?

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Março de 2019
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Há uma passagem do Salmo 42, presente nas orações ao pé do altar da Missa Tridentina, que deveria nos fazer meditar. “Quare tristis es, anima mea, et quare conturbas me? — Por que te entristeces, minh’alma, a gemer no meu peito?”, pergunta o Autor Sagrado, para logo em seguida ajuntar, com uma frase imperativa: “Spera in Deo — Espera em Deus!”

A pergunta do salmista deveria ser uma constante em nossas vidas: Por que ficamos tristes? O que é que “conturba” a nossa alma, nos aflige por dentro, fazendo com que muitas vezes percamos o sorriso no rosto, o sono, o apetite e até, quem sabe, a vontade de viver? Sem querer, evidentemente, dar uma resposta única a um problema amplo, é por não responderem a essas perguntas no tempo e com a precisão devidas que tantas pessoas podem acabar afundando em problemas como a depressão, já considerada por tantos como o “mal do século”.

Lembremo-nos que a tristeza é a reação natural que manifestamos diante de um mal, diante da ausência de determinado bem. Ficamos tristes porque perdemos algo que nos era valioso, alguém que nos era querido e assim por diante. Por isso, a grande “sabedoria da tristeza”, por assim dizer, reside justamente na hierarquia das coisas que temos por bens e por males. A pergunta aqui é: O que é mais importante na minha vida? O que ocupa as primeiras posições na minha “escala de prioridades”?

Já aqui podemos entrever o primeiro erro em que as pessoas normalmente caem nessa matéria: achar que elas não têm controle sobre suas alegrias e tristezas. “É inevitável”, elas dizem, “é natural” (e, portanto, não há nada a fazer a respeito, pensam), e com isso elas se entregam aos seus sentimentos, sem lhes oferecer resistência alguma, como um caniço que é agitado de lá para cá pelo vento…

No homem e na mulher cristãos, no entanto, não deve ser assim. E não é questão de ser insensível, mas de submeter, com uma vontade firme, aquilo que sentimos à verdade que acessamos por nossa inteligência, como um cavaleiro que toma as rédeas de um animal e o conduz para onde ele quer, e não para onde o cavalo, agitado e desgovernado, deseja ir. Na vida espiritual, essa ordem é ainda mais admirável, pois envolve as verdades da fé, que acessamos por nossa inteligência, iluminada pela graça de Deus: temos assim “corpo, alma e espírito” (cf. 1Ts 5, 23); o cavalo submete-se ao cavaleiro, mas o cavaleiro é conduzido não apenas pelo que pensa ou deixa de pensar, mas pela vontade divina.

E o que Deus quer de nós, senão que O amemos sobre todas as coisas, como diz o primeiro Mandamento? O que Ele pede de nós, senão que O aceitemos como nosso Bem, acima de todos os bens desta terra? Pois então, se é isso o que Ele pede a todos — não só aos padres e às religiosas, não só a esta ou àquela “classe” dentro da Igreja —, se deve ser Ele o nosso tesouro mais precioso nesta vida, voltemos às nossas tristezas e façamos um exame de consciência: O que me entristece? Quais têm sido os motivos de minhas “caras feias”, de minhas angústias, de minhas noites sem dormir? Foi um negócio que não deu certo no trabalho? Foi o fim de um relacionamento amoroso? Foi uma palavra ou atitude de um amigo que me desagradou?

Sejam quais forem as nossas respostas, a primeira pergunta que devemos fazer é: essas coisas pelas quais “minhas lombrigas se agitam” dentro de mim são males de verdade ou, ao contrário, não são bens que meu egoísmo, minha vaidade ou meus vícios interpretam como males? Tomemos por exemplo o rompimento de um relacionamento que claramente nos estava afastando de Deus. “Eu sinto tanta falta”, você pode dizer, “eu amava tanto essa pessoa”. Muito bem! Mas, se essa pessoa era para você “causa de juízo e condenação” — dizendo bem claramente, se você e essa pessoa estavam na lama do pecado mortal, um levando o outro para o inferno —, como não reconhecer nesse rompimento doloroso a mão providente de Deus, que quer a nossa salvação e a nossa felicidade eterna?

Mas não nos limitemos a essa análise “mínima”, poderíamos dizer, pois detestarmos o pecado mortal é o mínimo de que precisamos para levar uma vida na graça de Deus. Suponhamos que os males a respeito dos quais falamos sejam males de verdade. Ainda na esteira dos relacionamentos amorosos, suponhamos que o seu “romance” que terminou fosse um namoro casto, levado na graça de Deus, onde os dois procuravam fazer a vontade dEle, mas, em algum ponto do caminho, ambos descobriram que não era o caso de ficarem juntos… Agora, você diz, “eu sinto falta da pessoa”, “sinto falta das conversas”, “não me conformo com o fim” etc. Muito bem! Reconheço que é um mal a perda desse seu “grande” amor. Mas, diga-me uma coisa, quando você peca e se afasta de Deus, você tem se descabelado com a mesma proporção? Antes de se confessar, você se amargura tanto quanto, agora, está chorando por causa dessa criatura que você perdeu? Ou a perda do Criador é para você um mal menor?

Eis a verdade, caro leitor! A verdade é que, por mais “juras de amor” que façamos a Deus em nossos momentos de oração, nossas tristezas denunciam nossas prioridades! Nossas tristezas apontam o dedo para nós e nos acusam: Amamos mais as criaturas do que ao Criador! Estamos mais apegados aos bens da terra que ao nosso único e verdadeiro Bem! Sofremos menos por perder a Deus do que por perder as ninharias deste mundo!

Você reconhece em si este mal? Então, é hora de aplicar o remédio. E ele se chama oração. E não há outro. E não há como escapar. Porque é na oração, meditando sobre qual deve ser a hierarquia de nossos amores e pedindo a Deus que aumente a nossa fé nessa realidade — realidade que nossas “lombrigas” não querem aceitar, que nosso coração insiste em rejeitar —, é na oração que iremos, pouco a pouco, fortalecendo a nossa vontade tão fraca, tão sensual, tão inclinada às coisas deste mundo…

Portanto, fiquemos tristes, sim, mas com as coisas certas, e na medida certa, com as proporções certas! Tristes, sim, mas com sabedoria! Soframos, sim, mas não à toa! Angustiemo-nos, sim, mas — se nos permitem a expressão mais dura — façamo-lo sem sermos idiotas! Se já estamos perdendo neste mundo tanta coisa — dinheiro, pessoas, propriedades, cargos importantes —, não nos esqueçamos que, com a morte, perderemos todo o resto e só o que nos sobrará… será Deus. Ele nos basta e nós precisamos convencer-nos disto, aumentando dia após dia a nossa fé! O preço de não o fazermos é sermos arrastados por nossos sentimentos, é deixarmos que os instintos animalescos dominem nossa razão… é terminarmos andando por aí feito burros sem freio, chorando pelo que não deveríamos chorar e alegrando-nos com o que nos deveria fazer temer e tremer (cf. Ef 6, 5).

Com isso, voltamos ao salmo da liturgia antiga. “Quare tristis es, anima mea, et quare conturbas me? — Por que te entristeces, minh’alma, a gemer no meu peito?”, perguntemos à nossa alma, mas não tardemos em lhe responder: “Spera in Deo — Espera em Deus!” Sim, porque nEle temos tudo e, tendo a Ele, nada nos falta. A maior tragédia deste mundo é não estar na graça dEle e, se ela ainda não nos pesa o suficiente, somos nós que precisamos mudar.

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