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A Igreja deve estar sujeita à autoridade civil?
Doutrina

A Igreja deve estar
sujeita à autoridade civil?

A Igreja deve estar sujeita à autoridade civil?

“Desde quando uma sentença da Igreja tem de receber autoridade do imperador?… São Paulo teve amigos entre os da casa de César, mas não os admitiu como companheiros de suas decisões.”

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)6 de Agosto de 2019
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I. O problema. — Não será necessário recordar aqui que a Igreja que Cristo fundou é uma verdadeira sociedade, ao mesmo tempo divina e humana, sobrenatural e existente na terra, e cujo fim é a salvação ou felicidade eterna de seus membros.

Em filosofia do direito, distinguem-se duas classes de sociedade: uma perfeita, cujo fim é o bem humano, supremo em seu gênero e que conta com os meios suficientes para consegui-lo ou que, pelo menos, tem direito a exigi-los; outra imperfeita, se carece de algumas destas qualidades. Esta última, como consequência de sua imperfeição, formará parte de outra sociedade de ordem superior, que lhe proporcionará os meios necessários para conseguir o seu fim. Na ordem natural, sabemos que o Estado é uma sociedade perfeita, e toda outra sociedade de ordem familiar, comercial, artística, recreativa etc. são sociedades imperfeitas, dentro do Estado e subordinadas a ele.

Contudo, não se devem confundir os conceitos de sociedade perfeita e imperfeita, de um lado, com os de sociedade completa e incompleta, de outro. Com efeito, chama-se completa a sociedade que procura diretamente o bem total do homem, tanto espiritual como temporal; ao passo que se chama incompleta a sociedade que atende só a um destes aspectos. A família, por exemplo, é uma sociedade completa, embora imperfeita; o Estado, por sua vez, é uma sociedade perfeita, mas incompleta, já que, diretamente, procura apenas o bem material de seus membros. 

Toda sociedade perfeita, por sua própria definição, é uma sociedade independente e exclui, portanto, toda subordinação direta, isto é, aquela subordinação que se dá quando uma sociedade é regida por outra dentro da esfera própria de seu fim. Por ter tal subordinação direta, um município ou uma família não são sociedades independentes dentro do Estado.

Supostas essas noções básicas, indispensáveis para compreender o problema que nos propusemos, cabe agora perguntar: é a Igreja uma sociedade perfeita e absolutamente independente?

II. Orientação histórica.1) Doutrinas errôneas. — A quem se lembra de qual é o fim altíssimo da Igreja (de que falamos noutro artigo), superior evidentemente a qualquer fim terreno, parecerá óbvio dar uma resposta afirmativa à pergunta que nos fizemos acima. No entanto, poucas verdades terão sido negadas com tanta frequência ao longo da história como esta. Primeiramente, quiseram na prática fazer caso omisso dela aqueles imperadores cristãos que, herdeiros dos antigos imperadores pagãos, chefes absolutos tanto no campo civil como no religioso, continuavam intervindo nos assuntos religiosos e tentavam subordinar a Igreja ao Estado. 

Assim agiram muitos imperadores bizantinos no Oriente, e no Ocidente, desde a Idade Média, alguns dos novos imperadores e reis cristãos. Preparado assim o ambiente, Marsílio de Pádua formulou a doutrina segundo a qual o imperador estaria acima do Papa: “Tudo o que na Igreja é temporal está submetido ao imperador, e este pode tomá-lo como coisa sua. Ao imperador, pois, cabe corrigir o Papa, investi-lo do pontificado, destituí-lo e castigá-lo. Toda a Igreja em conjunto não pode, por conseguinte, castigar um homem com pena coativa, se não lhe concede este poder o imperador” (cf. D 595-500). Estas proposições, condenadas pelo Papa João XXII em 1327, foram extraídas do livro Defensor pacis, verdadeira carta magna da doutrina que afirma a hegemonia do Estado sobre a Igreja, e na qual irão se inspirar todos os erros que, através dos séculos, forem surgindo nesta matéria.

Assim pensaram também os protestantes alemães do séc. XVI, com o seu célebre axioma: “Cuius regio, eius et religio” (quer dizer, a religião da cada território há-de ser a do seu senhor); o anglicanismo, com aquele artigo de fé anglicana, vigente desde 1552: “O rei de Inglaterra é a suprema cabeça da Igreja Anglicana depois de Cristo”; o regalismo e o galicanismo, que, apesar de terem surgido antes mesmo de Marsílio de Pádua nas lutas de Felipe, o Belo, contra Bonifácio VIII, chegaram ao apogeu com Edmundo Richer (1560-1631) e depois, em maior ou menor grau, influenciaram grandes homens do clero francês, como Bossuet, e deram origem aos artigos do clero galicano, declarados nulos por Alexandre VIII (cf. D 1322-1326). 

As teorias galicanas sobre a sujeição mais ou menos total da Igreja ao Estado se renovaram na Alemanha e na Áustria algum tempo depois com o febronianismo, sistema propugnado no livro De Statu Ecclesiae, que Nicolás Hontheim publicou sob o pseudônimo de Justino Febrônio, e o josefinismo, nome proveniente de José II, imperador da Áustria, que quis intervir em todos os assuntos da Igreja, coisa que lhe valeu o título de “o imperador sacristão”. 

Em nossos dias, ideias errôneas sobre a sujeição da Igreja ao Estado foram ressuscitadas nos sistemas totalitários do séc. XX, o nacional-socialismo e o comunismo, contra os quais o Papa Pio XI escreveu duas encíclicas: Mit brennender Sorge (de 14 de março de 1937) e Divini Redemptoris (de 19 de março de 1937).

2) Doutrina católica. — À medida que foram aparecendo as diversas doutrinas que atacam a independência da Igreja e querem sujeitá-la ao Estado, os Sumos Pontífices tiveram o bom cuidado de fazer resplandecer toda a verdade nesta matéria. Assim, Bonifácio VIII, na bula Unam Sanctam, define que “é necessário para a salvação de toda criatura humana submeter-se ao Romano Pontífice” (D 469). E João XXII condenou, como vimos, as teorias de Marsílio de Pádua (cf. D 495-497).

O Concílio de Trento definiu a plena independência da hierarquia eclesiástica de qualquer potestade humana (cf. D 960.967). Pio VI condenou os erros do falso Sínodo de Pistóia, que limitavam o poder da Igreja (cf. D 1504).

Mais recentemente, Pio IX levantou sua voz vigilante contra as teorias liberais e laicistas que propugnam a subordinação da Igreja ao Estado ou as que defendem como ideal a completa separação entre as duas potestades. No Syllabus, encontramos uma longa lista de proposições condenadas sobre este ponto em particular (cf. D 1719.20.28.39.41-45.51-55). Leão XIII escreveu diversas encíclicas sobre esta matéria, sendo a mais importante delas a Immortale Dei.

Pio XII, na encíclica Mystici Corporis, chamou também à Igreja sociedade perfeita e pronunciou dois discursos de grande transcendência para enfocar o difícil problema das relações entre Igreja e Estado, tendo em conta o estado atual das coisas.

III. Valoração teológica. — Deve-se considerar como, no mínimo, teologicamente certo que a Igreja é uma sociedade perfeita e absolutamente independente. 

1) Ensinamento bíblico. — De toda a doutrina evangélica, consta claramente que:

  1. A Igreja tem como fim a salvação sobrenatural dos homens. Recordem-se, por exemplo, os textos do Novo Testamento com que demonstramos noutra ocasião que o fim da Igreja é dar continuidade à missão de Cristo, e que a missão de Cristo é, pois, a salvação dos homens. Ora, este fim é evidentemente o mais perfeito e supremo que pode haver, superior a qualquer outro fim e, portanto, de tal natureza que todos os outros fins devem estar subordinados a ele, e a nenhum outro.
  2. Para conseguir este fim, Cristo deu à sua Igreja todos os meios necessários nos plenos poderes de ensinar, reger e santificar. Ensinar a lei evangélica, lei da mais alta perfeição (recordem-se, por exemplo, os capítulos 5 a 7 de S. Mateus) e, portanto, a mais apta para chegar ao fim sobrenatural de unir o homem a Deus; e isto com a absoluta garantia de ensinar a verdade, graças à prerrogativa da infalibilidade (cf. Mt 28, 20; Mc 16, 16; Jo 14, 13.16s. etc.). Reger, de modo que tudo o que a Igreja ou sua autoridade suprema atar ou desatar na terra ficará atado ou desatado, isto é, plenamente ratificado no céu (cf. Mt 16, 18; 18, 18). Santificar por meio dos sacramentos, que dão ou aumentam o penhor seguro da vida eterna, quer dizer, a graça santificante (cf. Jo 3, 5; 6, 48-59; 20, 22s.).

Pois bem, tais meios são suficientíssimos, por si mesmos, para conseguir o fim sobrenatural da salvação eterna, e se algo impede de fato que os homens cheguem à consecução deste fim, isto não é certamente devido a algo que falta à Igreja, provida da assistência divina até o fim do mundo, mas à deficiência do homem, que com sua liberdade põe obstáculos à ação salvífica da Igreja. 

A Igreja, além disso, é absolutamente independente, porque a sua autoridade suprema, nem por razão de seu fim nem por razão de um fim mais alto que fosse necessário alcançar, não está subordinada a nenhuma outra autoridade, como é evidente, suposto o que dissemos antes a respeito do fim sobrenatural da Igreja. Ademais, Jesus Cristo, ao fundar a Igreja como sociedade, a constituiu com completa independência de toda outra sociedade humana, como se vê claramente no modo como Ele escolheu os Apóstolos e a S. Pedro, constituindo-os hierarcas de sua Igreja, dando-lhes sua autoridade divina: “Como meu Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós” (Jo 20, 21); “Todo poder me foi dado no céu e na terra. Ide, pois, e fazei discípulos a todos os povos” (Mt 28, 29), e profetizando-lhes repetidas vezes que eles encontrariam nos poderes civis apenas oposição e perseguições: “Entregar-vos-ão aos sinedritas e em suas sinagogas vos açoitarão; sereis levados por minha causa diante de governantes e reis, para que sirva de testemunho a eles e aos gentios” (Mt 10, 17s.); “Se me perseguiram a mim, também a vós hão-de perseguir” (Jo 15, 20).

Depois da Ascensão de Cristo aos céus, os Apóstolos, ao estenderem a Igreja por todo o mundo, o fazem com plena independência das potestades civis; mais ainda, com oposição aberta das mesmas: “Julgai-o vós mesmos”, diziam os Apóstolos às autoridades judaicas de Jerusalém, “se é justo diante de Deus obedecermos a vós mais do que a Deus. Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido” (At 4, 19s.; cf. 4, 5-31; 5, 17-42; 12, 1-24).

2) A voz da Tradição. — A perfeita independência da Igreja ante toda intromissão da autoridade civil é defendida acerrimamente por ela ao longo de toda a sua existência, de tal maneira que a história deste ponto em particular coincide com a história de todas as perseguições que a Igreja vem sofrendo, desde os tempos do Império Romano até os nossos dias. Contentemo-nos agora com somente alguns textos de dois grandes campeões da fé e da independência da Igreja, um do Oriente e outro do Ocidente. Escreve S. Atanásio: “Desde quando uma sentença da Igreja tem de receber autoridade do imperador?… São Paulo teve amigos entre os da casa de César, mas não os admitiu como companheiros de suas decisões” (História dos arianos, 52: PG 25, 726). E Ósio de Córdoba escreveu a Constâncio Augusto: “A ti confiou Deus o império; a nós, as coisas da Igreja: nem a nós é lícito ter poder na terra, nem a ti, imperador, tê-la sobre o que é sagrado” (A Constâncio Augusto: PL 8, 1327-29).

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 828-832, nn. 673-680. 

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Teriam sofrido e morrido em vão os santos mártires?
Santos & Mártires

Teriam sofrido e morrido
em vão os santos mártires?

Teriam sofrido e morrido em vão os santos mártires?

“Pode haver situações em que o homem, e especialmente o cristão, não pode ignorar que deve sacrificar tudo, inclusive a própria vida, a fim de salvar a própria alma”. É o que nos recordam os mártires.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Agosto de 2019
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No antigo calendário litúrgico, o dia 1.º de agosto é dedicado a uma santa família do Antigo Testamento, que morreu martirizada durante a perseguição do rei Antíoco IV Epifânio, por volta do ano 150 a.C.: trata-se da comemoração dos Santos Macabeus, que, embora não conste mais no calendário reformado, é uma celebração tradicional, antiquíssima e quase universal, sendo recordada também nos ritos ambrosiano e bizantino. O prefácio da Missa de hoje no rito de S. Ambrósio chega a contar em detalhes o martírio desses irmãos: 

É justo e salutar, em honra do vosso nome, Senhor, celebrar anualmente com toda admiração os vossos santos mártires Macabeus, irmãos pelo nascimento, semelhantes pela paixão. Concebeu-os a mãe em seu útero e coração, a fim de que os que havia gerado ao mundo segundo a carne, pelo espírito de fecundidade os gerasse a Deus onipotente para a vida. Porquanto os que nasceram carnalmente para a morte, religiosamente morriam para a vida. Cortam-se-lhe as línguas, arranca-se-lhes o couro cabeludo: e entre estes <tormentos> os gloriosíssimos jovens não se lamentavam, para serem mais cruelmente punidos; mas antes exultavam, para mais gloriosamente expirarem e serem assim consolo e exemplo uns para os outros. Depois de todos eles, foi, por fim, a vez da mãe pelo sangue e pela fé: não porque fosse ela a última, mas para que entregasse antes a Deus os frutos do seu ventre e alcançasse, segura, o prêmio de sua oferenda (tradução e grifos nossos).

O relato completo, porém, do que aconteceu a esses irmãos e a essa mãe encontra-se nas próprias Escrituras, no cap. 7 do Segundo Livro dos Macabeus

“Martírio dos Sete Macabeus”, por Antonio Ciseri.

Os filhos, num total de sete, “foram um dia presos com sua mãe” e instados a comer carne de porco, “por meio de golpes de azorrague e de nervos de boi” (v. 1). Um azorrague era uma espécie de açoite feito com tiras de couro e que possuía, em cada ponta, um instrumento cortante ou pedaços de articulações de carneiro. 

O espírito daquela família, no entanto, era resoluto. Nenhum dos terríveis golpes de azorrague diminuiu-lhes o fervor em cumprir a vontade de Deus: “Estamos prontos a morrer, antes de violar as leis de nossos pais” (v. 2), disse um deles, sem medo.

As torturas se seguiam, como em um conto de terror: “O rei ordenou que aquecessem até a brasa assadeiras e caldeirões” e “que cortassem a língua do que falara por todos e, depois, que lhe arrancassem a pele da cabeça e lhe cortassem também as extremidades, tudo isso à vista de seus irmãos e de sua mãe” (v. 3-4).

O que fizeram, então, aqueles rapazes, vendo seu irmão ser cruelmente torturado até o suplício? Não renunciaram a seu propósito, nem titubearam, mas “exortavam-se mutuamente a morrer com coragem” (v. 6). Animados pela esperança na ressurreição dos mortos, eles entregavam bravamente sua vida a Deus, um após o outro.

Chegando o momento de infligir a morte ao filho mais novo, Antíoco recuou por um instante. Ele insistia com o caçula, “prometendo-lhe com juramento torná-lo rico e feliz, se abandonasse as tradições de seus antepassados, tratá-lo como amigo e confiar-lhe cargos” (v. 24). Mas nem assim o jovem cedia. Então o rei tentou conversar com sua mãe: mandou que ela se aproximasse e o fizesse mudar de opinião, a fim de conservar a própria vida.

Mas o que fez aquela mulher, que tinha visto seus outros seis filhos serem torturados e mortos diante de si? O que fez aquela mãe dolorosa, que a essa altura já tinha dilacerada a alma? A Escritura diz que “ela consentiu em persuadir o filho” (v. 26), mas que, em seguida, exortou-lhe, falando em língua materna: “Meu filho, não temas este algoz, mas sê digno de teus irmãos e aceita a morte, para que no dia da misericórdia eu te encontre no meio deles” (v. 27.29).

Esta santa mulher, mesmo acabrunhada pelo sofrimento de perder todos os seus filhos, estava consciente de haver algo muito pior que a morte do corpo. Depois, “seguindo as pegadas de todos os seus filhos, a mãe pereceu por último” (v. 41). Naquele dia, uma família inteira entregava-se em sacrifício a Deus. Eles preferiram morrer a violar as leis de seus pais, a abandonar as tradições de seus antepassados.

Mas o que eram essas leis e tradições, e pelas quais esses santos deram a vida? Não se tratava de meras convenções humanas, e por mais dignos de honra que fossem seus antepassados, não foi simplesmente por eles que os mártires macabeus derramaram o próprio sangue. Essa família tinha consciência da origem das leis de sua religião: era o próprio Deus que as havia instituído. Por isso, desobedecer a elas era desobedecer a Deus. Foi para não ofendê-lo, portanto, para não pecar, que essa mãe e esses filhos enfrentaram as mais cruéis das torturas. Eles traziam bem vivas no coração as palavras do salmista: “Vosso amor vale mais do que a vida” (Sl 62, 4).

O que essa história tem a ver conosco, não é preciso muito para perceber… O exemplo desses jovens é um testemunho luminoso da coragem que precisamos ter em nossos dias para obedecer àquilo que Deus nos ensina através da Igreja que Ele mesmo deixou sobre a terra. No tempo desses Santos Macabeus, o que havia era a lei de Moisés e o oráculo dos profetas; foi em respeito a esse tesouro que eles morreram como mártires. Nos nossos tempos, porém, como diz a introdução da Carta aos Hebreus, foi o próprio Filho de Deus quem veio ao nosso encontro, deixando à Igreja a autoridade de ensinar em seu nome; é, pois, para conservar essa doutrina — muito mais elevada, perfeita e superior do que a antiga — que nós devemos estar dispostos a morrer.

Pode parecer “antiquada” essa teologia do martírio, mas ela é uma das respostas mais contundentes à crise moral que enfrentamos hoje, dentro e fora da Igreja. Não sem razão o Papa Pio XII, em um célebre discurso a mulheres (que já publicamos na íntegra aqui), recorreu justamente à história dos Santos Macabeus para ilustrar o heroísmo que muitas vezes o cumprimento da vontade de Deus nos exige:

Pode haver situações em que o homem, e especialmente o cristão, não pode ignorar que deve sacrificar tudo, inclusive a própria vida, a fim de salvar a própria alma. Todos os mártires no-lo recordam. E os há em grande número, também em nossos tempos. Mas será que a mãe dos Macabeus e seus filhos, santas Perpétua e Felicidade, sem embargo de seus recém-nascidos, Maria Goretti e milhares de outros, homens e mulheres venerados pela Igreja e que se opuseram à “situação”, sofreram inutilmente — e até por engano — uma morte sangrenta? Certamente não. E eles, com seu sangue, são os testemunhos mais expressivos da verdade contra a “nova moral”

Ao se referir à “situação” e à “nova moral”, o Papa Pio XII se referia à chamada moral de situação, segundo a qual “cada indivíduo em cada instante e conjuntura é dono de fazer o que lhe pareça melhor, sem ataduras de nenhum gênero”; Deus, nesse sistema moral, “só dá valor à intenção reta e à resposta sincera; a ação não lhe importa”. 

Na prática, isso significa que os Santos Macabeus poderiam muito bem ter se empanturrado de carne de porco; que os primeiros mártires cristãos poderiam muito bem ter jogado o quanto de incenso quisessem diante da estátua do Imperador; que São Thomas More poderia muito bem ter aceitado o adultério de Henrique VIII; que São José Sánchez del Río poderia muito bem ter cedido à pressão de seus perseguidores e negado a Cristo Rei… Bastava, veja só, que eles trouxessem no coração uma “boa intenção” e uma “sinceridade” meio abstrata, e estava tudo certo. 

Dedução lógica de tudo isso? Os pobres mártires sofreram “inutilmente”.

Mas é evidente que esse tipo de raciocínio não se limita a interpretações do passado; tudo é calculado para dar ao homem de hoje a “liberdade” (que está mais para libertinagem) de fazer o que lhe der na telha. Assim, diante das múltiplas situações (e algumas até muito difíceis, não negamos) com que se deparam os homens de hoje, seria lícito e perfeitamente aceitável que se contrariasse um “mandamentozinho” aqui e ali só para não se “enrascar”, só para não ficar numa situação embaraçosa, só para não sofrer um “martírio branco” diante dos outros. 

Porque o cristianismo custa, porque o Evangelho é exigente — e porque não queremos nos confessar fracos, miseráveis e até obstinados, dependendo do caso —, o pecado é visto por tantos de nós como algo “inevitável”: “todo o mundo faz”, “as coisas são assim mesmo”, “ninguém é de ferro” e, afinal, “o que importa é o coração”, “Deus não vai nos tratar assim também, a ferro e fogo” etc

Dedução lógica? Quem procura fazer a vontade de Deus é bobo, ultrapassado e está sofrendo à toa. Daqui a repulsa de tantos à vida religiosa, à busca de Deus e à obediência aos Mandamentos.

Para romper com essa forma mundana de pensar, nada melhor do que olhar com fé para o exemplo dos mártires. Os Santos Macabeus podiam muito bem ter cedido à tentação de comer carne e procurado “racionalizar” depois, usando alguma “justificativa” para sua traição. Mas, se o fizessem, seriam lembrados hoje na liturgia? Mais do que isso: teriam feito a coisa certa? Teriam salvado suas almas? 

Certos teólogos modernos arriscariam a dizer que “sim”, que no fundo é preciso compreender cada situação, e que o “certo” e o “errado” são muito relativosMas, afinal, iremos seguir as novidades do momento ou as leis e tradições de nossos pais? Iremos nos guiar pelas picadas que alguns decidiram abrir no meio do mato ou pela estrada segura que percorreram os santos? Iremos seguir as últimas modas teológicas ou a Palavra eterna que diz: “Seja o vosso sim, sim; e o vosso não, não; o que passa disto vem do Maligno” (Mt 5, 37)?

Certamente é mais difícil aceitar o que nos ensina o Senhor e nos submeter ao que Ele diz, ao invés de simplesmente fazer o que bem entendermos, tentando nos “desculpar” depois com alguma história mais ou menos bem elaborada. Acontece que viver de desculpas pode até trazer facilidades, mas não traz a salvação. Esta só nos vem quando entramos em contato com a Verdade, por mais dura e dolorosa que ela às vezes nos pareça num primeiro momento. É só conhecendo a ela que seremos verdadeiramente livres (cf. Jo 8, 32). Nesta e na outra vida.

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Leão XIII, São Miguel e o Combate Espiritual
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São Miguel e o Combate Espiritual

Leão XIII, São Miguel e o Combate Espiritual

“São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate…”: são a origem e a história desta oração, que tantos de nós dirigimos ao “príncipe da milícia celeste”, o tema de nosso mais novo curso.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Agosto de 2019
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São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate…”: eis a oração que tantos de nós, católicos, dirigimos insistentemente ao “príncipe da milícia celeste”, pedindo refúgio e proteção nas batalhas que travamos neste vale de lágrimas. 

Como você deve saber, essa oração foi composta há não muito tempo, por ninguém menos que o Papa Leão XIII, e depois de uma visão impressionante que ele teve, cujo teor Sua Santidade confidenciou a pouquíssimas pessoas e sempre com a devida reserva.

Mas não, não se trata de “teoria da conspiração”. As fontes mais abalizadas são concordes: houve de fato uma missiva celeste para que essa invocação a São Miguel Arcanjo fosse rezada. 

Nem é preciso dizer que as circunstâncias em que nos encontramos não fizeram diminuir em nada a urgência e importância desta devoção… Muito pelo contrário!

Para que batalhas, porém, essa oração foi composta? E como discernir, em meio às inúmeras histórias que circulam na internet, o que é verdade do que é lenda e fantasia? 

É o que você vai descobrir no mais novo curso de nosso site: “A Oração de São Miguel Arcanjo”!

O lançamento deste conteúdo exclusivo para alunos será no próximo dia 12 de agosto. Em 6 aulas, Padre Paulo Ricardo contará a história desta célebre oração e, sobretudo, aprofundará a teologia e a espiritualidade por trás delas, pois não só é verdade que os anjos nos auxiliam no combate espiritual desta vida, como São Miguel possui um papel preponderante nessa batalha.

Venha participar conosco desta jornada histórica e teológica! Para receber mais informações a respeito deste conteúdo, inscreva-se em nossa lista exclusiva de e-mails, clicando aqui, e aguarde nossas comunicações!

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A “soberba disfarçada” dos que não têm tempo para Deus
Espiritualidade

A “soberba disfarçada”
dos que não têm tempo para Deus

A “soberba disfarçada” dos que não têm tempo para Deus

Rezamos, então? Ah, sim, rezamos! Mas o fazemos do nosso modo e em nosso tempo. As regras, somos nós que as ditamos; os termos, nós que os estabelecemos. Rezamos, sim, mas os deuses, no fundo, somos nós.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Julho de 2019
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No calendário litúrgico anterior à reforma litúrgica de Paulo VI, o Tempo depois de Pentecostes (correspondente ao “Tempo Comum” de agora) era inaugurado com a parábola do grande banquete (cf. Lc 14, 16-24). O texto, proclamado no domingo seguinte à grande solenidade de Corpus Christi (o 2.º depois de Pentecostes), servia de “complemento” para os ensinamentos desta grande celebração [1], lançando uma luz sobre toda a nossa vida espiritual.

Em primeiro lugar, o banquete a que faz referência Nosso Senhor nesta parábola pode significar várias coisas. Numa outra versão da mesma história, presente no Evangelho de S. Mateus (22, 1-14), Jesus fala mais propriamente de um banquete “nupcial”, ou seja, de um casamento. Com essa analogia, Ele quer fazer referência à união entre Deus e o homem que já aconteceu em Jesus Cristo (e à qual chamamos “união hipostática”), à que está acontecendo hoje em nossa vida de oração e em cada comunhão eucarística (pois incorporamos ao nosso o Corpo de Cristo) e, por fim, à que acontecerá no fim dos tempos, quando nos unirmos a Ele de modo total e definitivo.

Concentremo-nos no segundo sentido da comparação: nossa comunhão com Deus através da vida espiritual. À luz disso, as desculpas que os convidados apresentam ao longo da parábola nada mais são do que as desculpas que nós mesmos apresentamos para não procurarmos a Deus e nos unirmos a Ele através da oração e dos sacramentos. No Evangelho, é um homem que comprou uma fazenda e precisa governá-la; é outro que comprou umas juntas de bois e precisa vê-las; é outro que se casou e precisa cumprir seus deveres conjugais… Ou seja, ninguém desocupado; são justamente os “ocupados demais” que Nosso Senhor procura repreender. 

O problema não está, evidentemente, em ter ocupações, posses ou uma família a cuidar. A grande questão, aqui, é que esses homens não compreendem (ou não querem compreender) que toda a sua vida deveria girar em torno desse banquete que é a oração íntima com Deus. O fato mesmo de eles apresentarem desculpas para não comparecerem ao festim já constitui um absurdo. Seria como alguém dizer que está “ocupado demais” para comer, por exemplo; que tem muito o que fazer e, justamente por isso, deixará de se alimentar… Ora, mas não é justamente o alimento que dará forças a essa pessoa para desempenhar bem suas atividades? 

É com esses olhos que devemos enxergar as desculpas que tantos de nós arrumamos para não rezar: “não tenho tempo”, “estou muito ocupado”, “minha vida é uma correria” são o tipo de frase que só se deve usar para coisas dispensáveis ou insignificantes. Se achamos que a oração seja isso, então a verdade é que nós ainda não entendemos nada de cristianismo. Pior do que isso: não entendemos nada da realidade do nosso ser, que tem uma necessidade profunda de Deus, uma inquietude que não cessará jamais, enquanto não repousarmos nele. Se é essa a nossa postura, somos como o homem orgulhoso descrito pelo livro do Apocalipse: 

Dizes: Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito — e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que compres de mim ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro (3, 17-18). 

O homem que vive sem oração e, além disso, não se dá conta do quanto precisa de Deus, é exatamente isto: um “infeliz, miserável, pobre, cego e nu”, que se acha “rico”, homem de “bons negócios” e “de nada” necessitado. Ou seja, é um soberbo

Mas essa soberba… quantas vezes pode vir disfarçada de humildade! São Gregório Magno, comentando a frase com que os primeiros convidados pretendiam desculpar-se — “Peço-te que me dês por dispensado” (em latim: Rogo te, habe me excusatum) —, ensina que “aquele que se escusa de ir à ceia de quem o convida, seja por causa da fazenda, seja para experimentar as juntas de bois, simula palavras de humildade: com efeito, enquanto diz ‘rogo-te’, mas se recusa a ir, soa-lhe na voz humildade, mas soberba na ação (humilitas sona in voce, superbia in actione)” [2].

O verbo usado pelo autor sagrado é mesmo providencial: Rogo. Ora, rogar é uma espécie de oração. Logo, também os soberbos “rezam”. Não são pagãos os homens da parábola. Não se trata de descrentes, ateus ou incrédulos. Primeiro porque Nosso Senhor contou essa história aos judeus simbolizando nos primeiros convidados justamente o povo eleito que não O quis receber; mas depois, numa interpretação mais ampla, esses convidados “ocupados demais” somos nós mesmos, os religiosos que acreditamos em Deus, mas vivemos como se Ele não existisse.

Rezamos, então? Ah, sim, rezamos! Mas o fazemos do nosso modo, em nosso tempo; as regras, somos nós que as ditamos; os termos, nós que os estabelecemos; a data, nós que a definimos. Rezamos, sim, mas os deuses, no fundo, somos nós.

Mas poderia o verdadeiro Deus se contentar com um culto prestado deste modo, com uma oração assim soberba? Não, não poderia ser. Nosso Senhor diz que os seus O adorariam “em espírito e em verdade” (Jo 4, 23), e não exteriormente, de modo fingido e dissimulado. Por isso, o texto da parábola diz expressamente que o Senhor se irou com esses homens “ocupados demais”, e que não provariam jamais do seu banquete. Seus lugares seriam ocupados por outros: “os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (et pauperes, ac debiles, et caecos, et claudos). 

E por que eles? Porque é essa a disposição interior que Deus espera de nós; Ele quer que nos reconheçamos necessitados dele, que nos demos conta de nossa pobreza, de nossa debilidade, de nossa cegueira e de nossa inconstância; e não que nos consideremos “plenos” e “autossuficientes” a ponto de O abandonarmos e pensarmos que temos tudo aquilo de que precisamos. Porque essa postura, no fim das contas, não passa de uma ilusão. Pauperes, debiles, caeci et claudi somos todos. A diferença é que uns andam na verdade do que são (e, por isso, são humildes), enquanto outros escolheram deliberadamente viver numa mentira: a de que se bastam a si mesmos.

E quem se basta... infelizmente deixa de participar do admirabile commercium que aconteceu no momento da Encarnação: 

Deus veio a esta nossa pobre terra para realizar uma troca; para dizer-nos, como só um bom Deus poderia fazer: “Tu me dás a tua humanidade e eu te darei a minha divindade; tu me dás o teu tempo e eu te darei a minha eternidade; tu me dás o teu corpo frágil e eu te darei a redenção; tu me dás o teu coração partido e eu te darei amor; tu me dás o teu nada e eu te darei o meu Tudo.” [3]

Quem se basta continua “humano demais”; continua aprisionado no tempo tão passageiro desta existência; continua preso às necessidades tão corriqueiras deste corpo mortal; continua vivendo no mundo limitado dos próprios sentimentos; continua fechado em seu “nada” e, no fim, não ganha o Tudo que o Preciosíssimo Sangue de Cristo nos veio comprar.

Não nos esqueçamos, pois, que o Céu é um dom, que a vida sobrenatural é um presente de Deus, e não algo a que possamos ter “direito” com um simples crachá que nos identifique como católicos ou cristãos. Disponhamo-nos às transformações verdadeiras, profundas e radicais que Deus realmente deseja operar em nós. Mas sem desculpas, sem artifícios, sem subterfúgios. Podemos até enganar os outros, ou tentar enganar a nós mesmos; mas Deus non irridetur, “de Deus não se zomba” (Gl 6, 7): Ele conhece o mais íntimo de nosso coração.

Referências

  1. Dom Prósper Guéranger explica que, “quando ainda não se havia estabelecido a festa do Corpus Christi, este evangelho já estava assinalado para este Domingo. O Espírito divino que assiste a Igreja na ordenação de sua liturgia preparava deste modo, antecipadamente, o complemento dos ensinamentos desta grande solenidade.” (El Año Litúrgico, t. IV: El Tiempo despues de Pentecostes (I). Burgos: Editorial Aldecoa, 1955, p. 113)
  2. S. Gregório Magno, apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Lucam, c. XIV, l. 4.
  3. Fulton Sheen, “The Infinity of Littleness” (de 24 dez. 1933), in: The Eternal Galilean, Washington: National Council of Catholic Men, 1934, p. 12.

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