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O ultrassom que mudou a minha vida
TestemunhosPró-Vida

O ultrassom que mudou a minha vida

O ultrassom que mudou a minha vida

Ex-diretora de clínica de abortos conta como abandonou a cultura da morte para se tornar ativista pró-vida

Abby JohnsonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Março de 2015
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O texto que segue é o primeiro capítulo do livro Unplanned (sem tradução para o português), da ativista pró-vida Abby Johnson. Conta como um simples ultrassom mudou totalmente a sua história e revelou a ela a terrível verdade sobre o aborto. A sua experiência é muito parecida com a do dr. Bernard Nathanson, produtor do filme "O Grito Silencioso". Se ainda não assistiu ao vídeo, clique aqui. Nessa produção, é possível acompanhar, com detalhes de um ultrassom, como é feito um aborto.

Sem mais delongas, eis o testemunho de Abby:

A cabeça de Cheryl apareceu em meu escritório. "Abby, precisam de mais uma pessoa na sala de exames. Você está disponível?"

Eu levantei os olhos de minha papelada, surpresa. "Claro."

Embora estivesse com a Planned Parenthood por oito anos, nunca tinha sido chamada para a sala de exames para ajudar a equipe médica durante um aborto, e não fazia ideia por que precisavam de mim agora. Eram as enfermeiras instrumentistas quem ajudavam nos abortos, não as outras equipes da clínica. Como diretora dessa clínica em Bryan, Texas, eu podia ocupar qualquer posição, se fosse necessário, exceto, é claro, a dos médicos e enfermeiras realizando procedimentos médicos. Em algumas ocasiões, atendi ao pedido de uma paciente de ficar com ela e até segurar a sua mão durante o processo, mas apenas quando era eu a assistente a acompanhá-la durante a entrada e o aconselhamento. Não era o caso de hoje. Então, por que precisavam de mim?

O aborteiro visitante de hoje só esteve aqui, na clínica de Bryan, duas ou três vezes antes. Ele praticava abortos privadamente a cerca de 160 quilômetros de distância. Assim que conversei com ele sobre o trabalho, algumas semanas antes, ele me explicou que, para ficar mais fácil, só fazia abortos por ultrassom – o procedimento abortivo com o menor risco de complicações para a mulher. Porque esse método permite ao médico ver exatamente o que está acontecendo dentro do útero, há menos chances de perfurar a parede do útero, um dos riscos do aborto. Eu respeitava isso da parte dele. Quanto mais pudesse ser feito para manter as mulheres seguras e saudáveis, melhor, eu pensava. No entanto, expliquei a ele que essa prática não era o protocolo comum em nossa clínica. Ele entendeu e disse que seguiria nossos procedimentos usuais, embora concordássemos que ele estaria livre para usar o ultrassom, se a situação assim o exigisse.

Pelo que sabia, nunca tínhamos feito abortos por ultrassom em nossas instalações. Fazíamos abortos apenas em sábados alternados, e a meta estipulada por nossa filial era realizar de 25 a 35 procedimentos naqueles dias. Gostávamos de terminar tudo por volta das 14h. Nosso procedimento costumava durar em torno de 10 minutos, mas um ultrassom atrasava mais 5 minutos – e quando você está agendando 35 abortos para um dia, esses minutos a mais fazem a diferença.

Relutei por um momento do lado de fora da sala de exames. Nunca gostei de entrar nessa sala durante um procedimento de aborto – nunca aceitei bem o que acontecia por trás daquela porta. Mas, como todos nós devíamos estar prontos para colaborar e fazer o serviço, eu abri a porta e entrei.

A paciente já estava sedada – ainda consciente, mas grogue –, com o médico lançando a luz sobre ela. Ela estava em posição, os instrumentos arrumados na bandeja próxima à porta e a enfermeira posicionava a máquina de ultrassom perto da mesa de operações.

"Eu vou realizar um aborto por ultrassom nessa paciente. Preciso que você segure a sonda", explicou o médico.

Assim que coloquei a sonda de ultrassom nas mãos e ajustei as configurações na máquina, argumentei comigo mesma: Eu não quero estar aqui. Eu não quero participar de um aborto. Não, atitude errada – eu precisava me concentrar para essa tarefa. Respirei fundo e tentei prestar atenção à música de rádio que tocava suavemente ao fundo. É uma boa experiência de aprendizado – nunca vi um aborto por ultrassom antes, disse a mim mesma. Talvez isso me ajude na hora de aconselhar as mulheres. Vou aprender em primeira mão sobre esse processo mais seguro. Além disso, vai acabar em apenas alguns minutos.

Eu não podia imaginar como os próximos 10 minutos iriam abalar as fundações dos meus valores e mudar o curso da minha vida.

Eu havia ocasionalmente diagnosticado clientes por ultrassom antes. Era um dos serviços que oferecíamos para confirmar uma gravidez e estimar a sua duração. A familiaridade de preparar um ultrassom aliviou a minha inquietação por estar nessa sala. Apliquei o lubrificante na barriga da paciente e, então, arrumei a sonda até que o seu útero aparecesse na tela e ajustei a posição da sonda para capturar a imagem do feto.

Esperava ver o que já tinha visto em ultrassons passados. Normalmente, dependendo de quanto tempo era a gestação e de como o feto estava virado, eu via primeiro a perna, ou a cabeça, ou alguma imagem parcial do tronco, e precisava mexer um pouco para conseguir a melhor imagem possível. Mas, dessa vez, a imagem estava completa. Eu podia ver a silhueta inteira e perfeita de um bebê.

Parece-se com Grace quando tinha 12 semanas, eu pensei, surpresa, lembrando da primeira vez em que espreitei minha própria filha, três anos antes, protegida no aconchego de meu ventre. A imagem agora diante de mim parecia a mesma, apenas mais clara e mais nítida. Esse detalhe me assustou. Eu podia ver claramente o contorno da sua cabeça, dos seus braços e pernas, até mesmo dos seus pequenos dedinhos. Perfeitamente.

E, então, rapidamente, o sentimento da ardente memória de Grace foi substituído por um surto de aflição. O que eu estou prestes a ver? Meu estômago se remexeu. Eu não quero assistir o que está prestes a acontecer.

Suponho que isso soa estranho vindo de uma profissional que gerenciava uma clínica da Planned Parenthood por dois anos, aconselhando mulheres em crise, agendando abortos, revisando os orçamentos mensais da clínica, contratando e treinando equipes. Mas, estranho ou não, o simples fato é que eu nunca estive interessada em promover abortos. Eu viria para a Planned Parenthood oito anos antes, acreditando que o seu propósito principal era prevenir gestações indesejadas, reduzindo, desse modo, o número de abortos. Essa era certamente a minha meta. E eu acreditava que a Planned Parenthood salvava vidas – a vida de mulheres que, sem os serviços providos por essa organização, poderiam acabar nas mãos de algum açougueiro de fundo de beco. Tudo isso correu pela minha mente enquanto eu mantinha cuidadosamente a sonda em seu lugar.

"Treze semanas", ouvi dizer a enfermeira, depois de tirar as medidas para determinar a idade do feto.

"Ok", disse o médico, olhando para mim, "apenas mantenha a sonda no lugar durante o procedimento, para que eu veja o que estou fazendo."

O ar frio da sala de exames me fazia congelar. Com meus olhos ainda colados na imagem desse bebê perfeitamente formado, eu assistia ao vídeo, quando uma nova imagem surgiu na tela. A cânula – um instrumento em forma de canudo atado ao final do tubo de sucção – foi introduzida no útero e se aproximava do lado do bebê. Parecia como um invasor na tela, um intruso. Errado. Aquilo parecia errado.

Meu coração acelerou. O tempo parou. Não queria olhar, mas também não queria parar de olhar. Eu não podia não assistir. Estava aterrorizada, mas fascinada ao mesmo tempo, como um desses curiosos que desacelera o carro quando passa diante de algum acidente horrível – não querendo ver um corpo destroçado, mas olhando tudo, mesmo assim.

Meu olhar voou para o rosto da paciente. Corriam lágrimas dos cantos dos seus olhos. Eu podia ver que ela estava sofrendo. A enfermeira limpou o seu rosto com um lenço.

"Apenas respire", a enfermeira gentilmente a instruía. "Respire".

"Está quase acabando", eu sussurrei. Queria ficar focada nela, mas meus olhos voltaram rápido para a imagem na tela.

A princípio, o bebê não parecia se importar com a cânula. Ela tocou suavemente o seu lado e, por um segundo, eu me senti aliviada. É claro, eu pensei. O feto não sente dor. Tinha assegurado isso a inúmeras mulheres, como fora ensinada pela Planned Parenthood. O tecido fetal não sente nada ao ser retirado. Controle-se, Abby. Este é um procedimento médico simples e corriqueiro. Minha cabeça estava trabalhando pesado para controlar minhas reações – não podia esboçar nenhuma inquietação que se parecesse minimamente com terror, enquanto observava a tela.

O movimento seguinte foi o arranco súbito de um pezinho. O bebê começou a chutar, como se tentasse fugir daquele intruso ameaçador. Assim que a cânula apertou o seu lado, o bebê começou a lutar para virar e se mexer. Parecia claro para mim que ele podia sentir a cânula – e não gostava nada do que estava sentindo. Então, a voz do médico interrompeu, me assustando.

" Beam me up, Scotty" [*], ele disse tranquilamente à enfermeira. Estava pedindo a ela que iniciasse a sucção – em um aborto, a sucção só começa quando o médico sente que tem a cânula exatamente no lugar certo.

Eu tive um impulso súbito de gritar: "Pare!", de sacudir aquela mulher e dizer: "Olhe o que está acontecendo com o seu bebê! Acorde! Depressa! Impeça-os!"

Mas assim que concebia essas palavras, eu olhava para minha própria mão segurando a sonda. Eu era uma deles fazendo aquilo. Meus olhos voltaram para a tela de novo. A cânula já estava sendo girada pelo médico e, agora, eu podia ver o seu pequenino corpo ser violentamente retorcido. Por um brevíssimo momento, parecia que o bebê era espremido como um pano de prato, torcido e apertado. Então, ele ficou enrugado e começou a desaparecer para dentro da cânula, diante dos meus olhos. A última coisa que vi foi a sua coluna minúscula e perfeitamente formada ser sugada pelo tubo, e então já era. O útero estava vazio. Completamente vazio.

Eu estava imóvel e incrédula. Sem perceber, soltei a sonda. Ela escorregou da barriga da paciente e deslizou para a sua perna. Eu podia sentir meu coração batendo forte – tão forte que meu pescoço latejava. Tentei puxar fundo a respiração, mas não conseguia inspirar nem expirar. Ainda olhei espantada para a tela, mas ela estava preta agora, porque eu tinha perdido a imagem. Não conseguia assimilar nada. Estava muito chocada e abalada para me mexer. Estava consciente de que o médico e a enfermeira casualmente conversavam enquanto trabalhavam, mas aquilo soava distante, como um vago barulho de fundo, difícil de escutar, tendo o pulsar do meu próprio sangue nos ouvidos.

A imagem do corpo pequenino, destroçado e sugado fora, ainda se repetia em minha mente, e, com ela, a imagem do primeiro ultrassom de Grace – como ela tinha quase o mesmo tamanho. E podia ouvir em minha memória uma das muitas discussões que tive com meu marido, Doug, sobre aborto.

"Quando você estava grávida da Grace, não era um feto; era um bebê", ele dizia. Agora, aquilo me atingia como um raio: Ele estava certo! O que estava no ventre dessa mulher há alguns momentos estava vivo. Não era apenas tecido, células. Era um bebê humano. E estava lutando por sua vida! Uma batalha que ele perdeu num piscar de olhos. O que tenho dito às pessoas por anos, aquilo em que tenho acreditado, o que tenho ensinado e defendido, não passa de uma mentira.

De repente, senti os olhos do médico e da enfermeira em minha direção.

"Abby, você está bem?", perguntou o doutor. Os olhos da enfermeira procuravam o meu rosto com preocupação.

"Sim, estou bem." A sonda ainda não estava corretamente posicionada e, agora, estava preocupada, porque o doutor não conseguia mais ver o interior do útero. Minha mão direita segurou a sonda e a minha esquerda repousou cuidadosamente na barriga quente da mulher. Olhei de relance para o seu rosto. Mais lágrimas e uma expressão de dor. Mexi a sonda até recuperar a imagem do seu útero agora vazio. Meus olhos viajaram de volta para minhas mãos. Olhei-as como se sequer fossem as minhas próprias mãos.

Quantos estragos fizeram estas mãos durante os últimos oito anos? Quantas vidas foram ceifadas por causa delas? Não apenas pelas minhas mãos, mas pelas minhas palavras. E se eu soubesse a verdade, e se a contasse para todas aquelas mulheres?

E se...

Eu tivesse acreditado em uma mentira? Eu tinha promovido cegamente a "linha da empresa" por todo esse tempo. Por quê? Por que não havia procurado pela verdade por conta própria? Por que havia fechado meus ouvidos aos argumentos que escutava? Meu Deus, o que eu tinha feito?

Minha mão estava ainda na barriga da paciente e eu sentia que havia simplesmente tirado algo dela com aquela mão. Eu a tinha roubado. E minha mão começou a doer – sentia uma dor física, de verdade. E bem ali, de pé, ao lado da mesa, com minha mão na barriga daquela mulher em lágrimas, este pensamento emergiu do mais profundo do meu ser:

Nunca mais! Nunca mais.

Entrei no piloto automático. Enquanto a enfermeira limpava a mulher, coloquei de lado a máquina de ultrassom, levantei gentilmente a paciente, que estava mole e grogue. Ajudei-a a sentar-se, coloquei-a em uma cadeira de rodas e a levei à sala de recuperação. Arrumei um cobertor em volta dela. Como muitas pacientes que tinha visto antes, ela continuava a chorar, visivelmente condoída, emocional e fisicamente. Fiz o meu melhor para fazê-la sentir-se mais confortável.

Dez minutos – talvez quinze, no máximo – se passaram, desde que Cheryl me pediu para ajudá-la na sala de exames. E naqueles poucos minutos, tudo mudou. Drasticamente. A imagem daquele bebê sendo torcido e se debatendo ainda se repetia em minha mente… E a paciente? Eu me senti muito culpada. Tinha tirado algo precioso daquela mulher e ela sequer sabia disso.

Como as coisas chegaram a isso? Como deixei que acontecesse? Tinha investido meu ser, meu coração e minha carreira na Planned Parenthood porque me preocupava com as mulheres em crise. E agora era eu mesma quem enfrentava uma crise.

Olhando para trás, para aquele 30 de setembro de 2009, percebo como Deus é sábio não nos revelando o nosso futuro. Se soubesse a tempestade que estava para suportar, não teria tido a coragem de mover adiante. Como eu não sabia, não estava procurando ainda por coragem. Estava, todavia, tentando entender como eu fui terminar naquele lugar – vivendo uma mentira, espalhando uma mentira e machucando toda mulher que eu então queria ajudar.

Eu desesperadamente precisava saber o que fazer depois.

Essa é a minha história.

Abby Johnson.

Notas

* A expressão " Beam me up, Scotty!" é um bordão nos Estados Unidos, retirado da série de ficção científica Star Trek ["Jornada nas Estrelas"]. Trata-se de um comando dado pelo Capitão Kirk ao engenheiro-chefe da nave estelar, Scotty, quando ele precisa ser transportado de volta à nave estelar Enterprise. No contexto do procedimento do aborto, significa, como Abby mesmo explica, um comando para "transportar" a criança do útero materno pelo tubo de sucção. Uma tentativa patética por parte do aborteiro de "brincar" com a situação.

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A amizade deve estar “acima de tudo”?
Espiritualidade

A amizade deve estar “acima de tudo”?

A amizade deve estar “acima de tudo”?

Quem seria tão “arrogante”, “intolerante” ou “farisaico” a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais, afinal, do que princípios ideológicos “frios”?

James H. TonerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Abril de 2019
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I. Eu faço parte de um pequeno círculo de conhecidos do passado — todos ex-alunos da mesma universidade, em 1968 — que compartilha histórias, piadas, citações, recomendações de livro e vídeos. Recentemente, deparamo-nos com a seguinte declaração, comumente atribuída a Thomas Jefferson: “Eu nunca considerei uma divergência de opinião em política, em religião ou em filosofia como razão para me afastar de um amigo.”

Nem é preciso dizer que a citação foi recebida com unanimidade. Afinal de contas, por que qualquer um de nós, velhos conhecidos, amigos e companheiros que somos, descartaríamos nossos cinquenta anos de parceria devido a uma possível diferença de opinião em assuntos tão “triviais” como política, religião ou filosofia?

Digo que “a citação foi recebida com unanimidade”, exceto por mim (ainda que eu tenha me contido). Às vezes, tudo o que alguém sabe ou tudo aquilo em que acredita é colocado em xeque através de uma simples afirmação. Como professor, diácono, soldado (e também como esposo e pai de família), eu passei praticamente toda a minha vida adulta argumentando contra o ponto de vista expresso nessa declaração atribuída a Thomas Jefferson. Ironicamente, eu aprendi essa lição “antijeffersoniana” na mesma faculdade de que participaram os membros desse nosso “grupo virtual”.

Mas, afinal, quem seria tão arrogante, tão intolerante ou tão farisaico a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais numa escala de valores do que princípios ideológicos “frios”? A lealdade aos amigos não é a maior das virtudes? Não deveríamos dizer, com o romancista Edward Morgan Forster: “Se eu tivesse de escolher entre trair a minha pátria e trair um amigo, eu esperaria ter a coragem de trair o meu país”?

“Proibido nadar”, de Norman Rockwell.

II. Não, não e não.

Em grande parte da boa literatura, a amizade é exaltada com justiça e sabedoria. É possível ler sobre o assunto na Ética Nicomaqueia de Aristóteles e na Sirácida bíblica, especialmente em seu capítulo sexto, sem falar de outras obras de duradoura significância. Com isso somos levados a concluir, prima facie, que Thomas Jefferson deve estar certo: se nos fosse dado escolher entre ser fiel a um princípio abstrato ou ser fiel aos amigos, nós deveríamos escolher este último. E esse é, ao que parece, o consenso de nossos contemporâneos.

Mas a amizade ou é meritória ou é “meretrícia”. Se meretrícia, é falsa, fraudulenta e fugaz; se meritória, é verdadeira, fidedigna e duradoura. Se meretrícia, a amizade é construída sobre a areia da falta de caráter, da frivolidade ou da alegria vã; se meritória, porém, é construída sobre a rocha do que é supremo, permanente e piedoso. É o testemunho que nos dá o Salmo 101: “Detesto o crime de quem vos renega; que não me atraia de modo nenhum! Bem longe de mim, corações depravados, nem nome eu conheço de quem é malvado” (v. 3-4), e é o sentido deste versículo de Eclesiástico 6: “Separa-te daqueles que são teus inimigos, e fica de sobreaviso diante de teus amigos” (v. 13).

Toda as lealdades, amizades e camaradagens — valiosas como são — só se mantêm até certo ponto. Elas são circunstanciais, condicionais e contextuais; são contingentes e devem estar em conformidade com o que é bom, verdadeiro e belo, devem ser consistentes tanto com a razão natural quanto com a revelação (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1954). Quando o que parece ser uma amizade é, na verdade, tentação ao pecado e ao mal, a amizade já está dissolvida.

Suponha que um “amigo” viesse lhe pedir para ajudá-lo a fazer algo manifestamente criminoso ou pecaminoso. Sua resposta deveria ser, primeiro, recusar-se e, segundo, admoestar o pecador, tentando convencê-lo do erro e ganhá-lo de volta para fazer o que é certo.

Tudo isso exige, no entanto, algo que está em falta nos dias de hoje: fidelidade a normas transcendentes. Essa ideia foi expressa de maneira clara, concisa e cogente pelo Papa São João XXIII em sua encíclica Ad Petri Cathedram, de 1959:

A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade. E não só na ignorância, mas às vezes até no desprezo e no temerário afastamento dela. Daqui erros de toda a espécie, que penetram como peste nas profundezas da alma e se infiltram nas estruturas sociais, desorganizando tudo, com grave ruína dos indivíduos e da sociedade humana (n. 4).

III. A citação de Thomas Jefferson transcrita no começo deste artigo deve ser lida, portanto, justamente ao contrário. Nós deveríamos considerar, sim, uma divergência crucial de opinião em política, em religião ou em filosofia, como forte razão para se afastar de um amigo. Mas o que seria, nesse sentido, uma divergência “crucial”?

Na magnífica peça A Man for All Seasons, de Robert Bolt [n.d.t.: da qual há um filme homônimo, em português chamado “O homem que não vendeu a sua alma”], São Thomas More é instado a trair a verdade para se aliar a outros (que já haviam traído a verdade) “por amizade”. O santo então pergunta, quando a consequência da ação de uma pessoa é ela ser mandada ao inferno, se seus amigos a deveriam acompanhar também àquele lugar, só “por amizade”.

Eis o ponto crucial. Quando uma suposta amizade aprova o mal ou nos conduz ao caminho do pecado (algo a que se costuma chamar “cooperação formal ou material com o mal”), nós devemos ter a prudência e a fortaleza de rejeitar esta que é uma “amizade” falsa, fraudulenta e fugaz. Aqueles que nos levam à perdição não são nossos melhores amigos, mas sim nossos piores inimigos, e nós devemos sim nos afastar deles (tendo-os aconselhado primeiro quanto à razão da rejeição).

O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos tem um ditado segundo o qual “um soldado em dever de guarda não tem amigos”. Tampouco a nós toca ter amigos se o que estamos guardando (cf. 2Tm 1, 14) se encontra ameaçado pelas palavras ou ações daqueles que nós pensávamos ser amigos, aliados, colegas ou companheiros (incluindo nessa lista, a propósito, os homens de colarinho).

“Nós devemos envidar todos os nossos esforços”, diz Aristóteles, “para evitar a iniquidade e ser bons”. É dessa forma que alguém pode se tornar o verdadeiro amigo de outra pessoa. Sem o nosso próprio esforço, supremo e contínuo, pela virtude (cf. 2Pd 1, 3-11), não há fundamento para a amizade. Quando virmos que os outros estão se tornando ou se tornaram corruptos, nossa responsabilidade é nos apartarmos deles, e não nos juntarmos a eles. Provavelmente citando o poeta grego Menandro, São Paulo nos adverte: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33; 5, 11; 6, 9; Pr 13, 20; 2Cor 6, 14).

Há uma forma de entender, por fim, as “amizades” corruptas e nossa obrigação de nos afastarmos (ou mesmo fugirmos) delas. Os verdadeiros amigos, as amizades autênticas podem facilmente se dissolver nos “ácidos morais” de nossa época. Esses “ácidos” vêm do mundo (e de sua insistência em que o aqui e o agora é tudo o que existe), da carne (e de sua insistência em que o prazer físico é o ponto principal de todos os “relacionamentos”) e do diabo (para cujos ardis nós hoje nos encontramos pouquíssimo alertas), os três inimigos da alma, que têm moldado nossos costumes sociais e encontrado sua expressão na música e em outras formas de cultura popular.

IV. Falsas amizades estão sempre fundadas em um destes três males: a crença (irônica) de que Deus não existe, de que a virtude consiste na exaltação soberba de si próprio, e de que podemos imaginar um mundo (pelagiano) no qual somos nós mesmos que fazemos o certo e o errado. (Note-se que Adão e Eva, ao traírem a amizade de Deus, necessariamente prejudicaram o próprio relacionamento entre eles: cf. Gn 3, 5; 6, 5.)

A verdadeira amizade, porém, está sempre fundada, de modo consciente ou não, na piedosa devoção a Deus, no humilde reconhecimento da própria condição de pecador e na nossa necessidade da redenção divina, bem como no entendimento refinado de que existem, de fato, razões profundas para se viver e morrer. Encontrar homens e mulheres que estejam moral e mentalmente vinculados a essas verdades é como descobrir “um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé” (Eclo 6, 14-15).

Um sacerdote católico se perguntou certa vez, refletindo, se os ateus poderiam ser bons cidadãos e chegou à conclusão negativa; eu me pergunto, do mesmo modo, se os que não crêem em Deus podem ser bons amigos, e não posso chegar senão à mesma conclusão. Lealdade autêntica e na medida certa a um amigo só pode ser fruto da minha obediência a Deus (cf. Catecismo, n. 144; Rm 1, 5; 16, 26), sem o qual é inevitável que se siga uma abjeta confusão moral.

Se existe um “conserto” para amizades perversas ou pervertidas? É claro que sim. O conserto está sempre à nossa disposição, se tivermos a inteligência agraciada para ver e ouvir, e então nos conformarmos (cf. Rm 12, 2) à vontade de Deus. Mas o discernimento moral das pessoas parece ter sido sacrificado à “divindade” atual: o subjetivismo, que diz a nós que podemos fazer o que quisermos escolher e apartar-nos arrogantemente do Pão da Vida (cf. Jo 6, 35.66).

Nosso Senhor chama-nos seus amigos (cf. Jo 15, 15), mas essa é uma amizade que podemos abandonar a qualquer momento (e, ai de nós!, mui frequentemente nós o fazemos). Quando, então, pelo pecado, nós traímos essa primeira amizade, perde-se o fundamento para todas as outras amizades.

A primeira obrigação de quem deseja ser um bom amigo deve ser, portanto, a fidelidade à Verdade; e a segunda obrigação deriva naturalmente da primeira: tendo nós mesmos reconhecido o que é bom, verdadeiro e belo, devemos generosamente compartilhar essa visão com os outros e resolutamente chamar à conversão nossos amigos que, vivendo no pecado, erram longe do caminho de Deus (cf. Tg 5, 19; Sl 50, 13).

A amizade genuína, como toda comunidade genuína, pode acolher várias pessoas. Ela deve sempre basear-se, no entanto, não sobre uma diversidade incoerente de julgamentos morais (cf. 1Cor 5), mas antes na devota união de certezas quanto ao que é amável de modo absoluto e infinito (Venite adoremus Dominum, “Vinde, adoremos o Senhor”).

Se a frase com que começamos este texto é de fato de Thomas Jefferson, portanto, ele está errado: a verdadeira amizade exige que nos afastemos dos amigos aparentes, que conspurcam ou traem o que é puro, nobre e eterno.

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“Nós, os leprosos”: o sacrifício do Padre Damião
Santos & Mártires

“Nós, os leprosos”:
o sacrifício do Padre Damião

“Nós, os leprosos”:
o sacrifício do Padre Damião

Daí em diante o padre Damião, nos seus sermões, já não dizia “meus irmãos”, mas “nós os leprosos”. E dizia que, se fosse possível curar-se abandonando a ilha, ainda assim ele não deixaria os leprosos.

W. M. Jackson, Inc.15 de Abril de 2019
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Num mesmo seminário da Bélgica se achavam dois irmãos, preparando-se para o sacerdócio. O mais velho devia ser em breve missionário e, nessa qualidade, ir para as ilhas dos mares do sul. Brilhavam-lhe os olhos, esfregava as mãos de contente, sempre que se referia à obra que o esperava além-mar.

Um dia, porém, adoeceu gravemente, e teve de recolher-se ao leito. Era presa de uma febre terrível, e ainda mais empalidecia e se definhava ao pensar na inação a que a doença o obrigava. O irmão mais novo, vindo-lhe à cabeceira, disse um dia com carinho: “Sentir-te-ias melhor se eu ocupasse o teu lugar de missionário?” Os olhos do doente brilharam um momento e ele apertou, sorrindo, as mãos do irmão, o qual escreveu secretamente às autoridades, pedindo permissão para partir em seu lugar.

Um dia, quando estudava, veio ter com ele o diretor do seminário e informou-o de que estava autorizada a sua ida. O rapaz levantou-se, saiu a correr do quarto e percorreu o pátio aos pulos, como um animal selvagem.

“Enlouqueceu?”, perguntavam os colegas.

E por que José Damião mostrava tanta alegria, se afinal ia para um exílio? Por que desejaria abandonar a terra feliz onde se falava sua língua e cujos costumes lhe eram familiares? Por que razão iria trabalhar entre selvagens, para além de mares longínquos, tornando-se invisível aos amigos e deles esquecido?

É que já abandonara o mundo para ser sacerdote e amava, mais que à pompa do mundo, mais que à paz do lar, mais que ao amor de pai e mãe, o Redentor.

Amá-lo e segui-lo, praticando o bem, tornou-se o seu ideal.

José Damião, com um entusiasmo de moço, partiu para as ilhas dos mares do sul e ali missionou. Trabalhou com firmeza e nobremente até a idade de trinta e três anos. Então, um dia, em sua missão entre o povo, ouviu dizer o bom bispo que infelizmente não tinha quem mandar aos pobres leprosos de Molokai, e que esses infelizes estavam entregues não só àquele terrível mal como ainda a pecados terríveis.

José Damião, cuja alma muitas vezes se tinha condoído ao ouvir falar dos leprosos, pediu ao bispo que o mandasse, e o seu oferecimento foi aceito.

Aqui estava outro sacrifício ainda mais respeitável: ir dos selvagens para os leprosos representava abnegação maior do que da Bélgica para os selvagens. Os leprosos viviam isolados, longe de toda a gente, evitados por todos. Estavam fora da humanidade. O mal que lhes roía os corpos tornava-lhes as almas também ruins. Suas cabanas eram verdadeiras pocilgas; viviam como animais; eram horríveis e ver, e mais ainda depois de conhecidos. Não podem vocês imaginar os horrores de Molokai. Deles só uma pequena parte bastaria para impressionar.

Mas o padre Damião levou aos desgraçados a mensagem simples de que Deus os amava; e o seu rosto alegre, a sua voz terna, o seu olhar acarinhador, e, mais que tudo isso, a fé ardente e viva que punha nas suas palavras, converteu-os em filhos do Senhor. Começaram a arrepender-se dos pecados, começaram a sentir que, em verdade, talvez Deus os amasse. Ao menos uma coisa era certa: amava-os o padre Damião.

Dezesseis anos viveu este homem santo e bom entre os leprosos. Ergueu uma igreja, a que se afeiçoaram muito, construiu-lhes casas mais confortáveis, deu-lhes um melhor fornecimento de água, foi seu enfermeiro, tratando das suas chagas horrendas; confortava-os à hora da morte e cavava as suas sepulturas.

Padre Damião, fotografado por William Brigham.

Ouviu-se, então, falar deste padre que trabalhava sozinho entre os leprosos. Escreveram-lhe, mandaram-lhe caixotes de coisas úteis para a sua gente, e houve mesmo quem lá fosse visitá-lo e ajudá-lo. Durante muitos anos trabalhou entre os infelizes, mas por fim foi ele próprio vítima do horrível mal. Um dia entornou água a ferver, e ela lhe caiu num pé. Estranhou não sentir dor nenhuma. Procurou um médico. “Tenho a lepra?”, perguntou. “Sinto informá-lo”, respondeu o médico, “mas está, com efeito, leproso”. Daí em diante o padre Damião, nos seus sermões, já não dizia “meus irmãos”, mas “nós os leprosos”. Sentia-se perfeitamente feliz. Dizia que, se fosse possível curar-se abandonando a ilha, ainda assim não deixaria os leprosos. Continuou trabalhando, com a morte a roer-lhe feroz e vorazmente o corpo.

Quando o levaram para o leito, agradeceu a Deus todos os benefícios e confortos recebidos. Dois padres e irmãs de caridade ajoelharam-se-lhe ao pé do leito.

— Quando estiver no céu, padre Damião — perguntou um deles — não esquecerá estes órfãos que aqui deixa?

— Não, não! — disse, sorrindo, o bom padre. Se algum valimento tiver ante Deus, rezarei por todos que estão no Leprosário.

— E — tornou o padre ajoelhado — não me deixará, como Elias, o seu manto?

— Para quê? — replicou o padre Damião. E depois acrescentou lentamente: Está cheio de lepra.

Nenhum rei teve, porém, manto mais belo!

É que toda a sua vida tinha sido um longo ato de heroísmo.

Referências

  • Extraído de “O melhor do tesouro da juventude”, de W. M. Jackson, Inc., v. 1, Editora Concreta, pp. 90-92 (grifos nossos).

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Quando um protestante descobriu que a Missa é o sacrifício da Cruz
Testemunhos

Quando um protestante descobriu
que a Missa é o sacrifício da Cruz

Quando um protestante descobriu
que a Missa é o sacrifício da Cruz

Quando Scott Hahn ficou sabendo que os católicos ensinavam ser a Eucaristia a renovação do sacrifício do Calvário, relação que ele só descobriu depois de muita investigação, primeiro ele ficou furioso e despeitado. Mas depois...

José Maria C. S. André15 de Abril de 2019
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Durante a Semana Santa, que começa hoje, a liturgia católica leva-nos a viver uma Páscoa judaica surpreendente. Recordo a perplexidade de Scott Hahn, hoje um grande biblista católico, no tempo em que ele ainda era protestante. Um dia, ao fio dos Evangelhos, o pregador da sua comunidade protestante foi seguindo os passos da Última Ceia, conforme o cânone habitual da Páscoa judaica.

Até dada altura, tudo decorria da forma habitual, ainda que num clima de extraordinária intensidade. A minúcia dos preparativos, da sala e da celebração, anunciava algo especial e Cristo começou por alertar os discípulos para a importância do momento: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de padecer”.

A celebração judaica começa com as abluções rituais. O mais novo da família leva uma jarra e uma bandeja, deitando a água da purificação sobre as pontas dos dedos de cada um. Neste caso, não foi o menos importante — foi o próprio Cristo! — Quem fez a ablução. E não derramou água sobre os dedos: pôs uma toalha à cintura e lavou os pés a cada um dos discípulos. Pedro recusa uma coisa dessas! Depois, é tal a insistência de Cristo, que aceita...

Seguiram-se os salmos do costume e vários cálices rituais, em ação de graças, como símbolo da Aliança do Povo com Deus, etc., até que Cristo altera o sentido de tudo ao estabelecer uma Aliança nova: “Este cálice é a nova Aliança no meu Sangue, derramado por vós”. Neste momento, Cristo coloca-Se a Si próprio como novo centro da ação litúrgica: “todas as vezes que o beberdes, fazei isto em memória de Mim”.

Há outros elementos revolucionários naquela celebração pascal, mas o que mais surpreendeu Scott Hahn e a sua congregação protestante foi que, imediatamente antes do momento culminante, que seria o cálice da Consumação, Cristo interrompe a cerimônia. Não só interrompe, como o declara solenemente, como se fizesse de propósito: “não tornarei a beber o fruto da videira, até àquele dia em que o beberei de novo no Reino de Deus”. Levantaram-se, pois, e saíram para o Monte das Oliveiras. A comunidade de Scott Hahn não sabia o que pensar. Talvez Jesus estivesse perturbado pela iminência da morte, talvez se tivesse esquecido de concluir a cerimônia da Páscoa…

Hahn decidiu reler os Evangelhos de uma ponta à outra, à procura do cálice que faltava, o cálice da Consumação. A conclusão imediata é que não tinha havido esquecimento, quase se diria que Jesus não pensava noutra coisa. Jesus sai do cenáculo da Última Ceia a falar do cálice que faltava: “Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice! Mas não se faça a minha vontade mas a tua”. “Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade!...”. Chegam Judas e os soldados, Pedro pega numa espada e corta a orelha de Malco, um criado do Sumo Sacerdote. Jesus cura milagrosamente o ferido e diz a Pedro “Mete a tua espada na bainha. Eu não havia de beber o cálice que o Pai Me deu?”.

Aquele cálice, vinha inclusivamente de muito antes. Ao pedido da mãe de Tiago e João, responde com um desafio misterioso: “Podeis beber o cálice que Eu hei-de beber, ou ser batizados no baptismo com que Eu vou ser batizado?” — qual cálice, tão singular? Qual batismo, se Jesus já tinha sido batizado no Jordão?

No final da Paixão, pendurado da Cruz, momentos antes de morrer, ressurge a referência à consumação da Aliança. “Sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse ‘tenho sede’. Havia ali um vaso de vinagre…” e um dos que estavam ali “correu a tomar uma esponja, ensopou-a, pô-la sobre uma cana e deu-Lhe de beber”... “Deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Tendo-o provado, não quis beber”. Não, aquele vinho misturado com fel não era o cálice esperado; aquele “tenho sede” não era a pedir aquele vinho. Imediatamente a seguir, Jesus exclama “Tudo está consumado!” e, inclinando a cabeça, expirou.

O Dr. Scott Hahn.

De repente, Scott Hahn percebeu que a Última Ceia só terminava no Calvário, no momento em que se estabelece a nova Aliança “no sangue derramado por Cristo”. A Última Ceia é uma unidade com todo o oferecimento de Cristo na Paixão. Participar na Missa é participar no Sacrifício de Cristo na Cruz. Como diz S. Paulo aos de Corinto, “porventura o cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo?”. Cristo é, como diz S. Paulo a seguir, “a vítima imolada no altar”. S. Paulo recorda como o próprio Jesus tinha avisado os discípulos, na Última Ceia, de que aquele vinho consagrado apontava para a sua morte no Calvário: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha”.

Um dia, na universidade protestante em que dava aulas, Scott Hahn apresentou esta sua investigação e ouviu um comentário de um aluno que tinha tido catequese católica em pequeno: “Isso faz todo o sentido, mas recorda-me o catecismo de Baltimore! [1]”. Scott nunca tinha ouvido falar de um “catecismo de Baltimore”, porque era um livrinho elementar, o primeiro catecismo das crianças católicas da época, e por isso ainda acusou mais o toque [2]. Então, os católicos, esses heréticos, ensinam às crianças que a Missa é a renovação do Sacrifício do Calvário?! Algo que ele só tinha descoberto ao fim de tanto esforço de investigação?!

Primeiro, Scott ficou furioso, despeitado. Depois, continuou a investigar e fez-se católico.

Referências

  • José Maria C. S. André in Correio dos Açores, 25 mar. 2018, publicado em Senza Pagare.

Notas

  1. O “Catecismo de Baltimore” foi o catecismo oficial para crianças adotado nos Estados Unidos até 1960 (Nota da Equipe CNP).
  2. “Acusar o toque” é expressão lusitana, e significa deixar transparecer dúvida por afirmação de outra pessoa (Nota da Equipe CNP).

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Deus escolheu José, e a mais ninguém
Santos & Mártires

Deus escolheu José, e a mais ninguém

Deus escolheu José, e a mais ninguém

Da tribo de Judá e dos filhos de Davi, haviam de surgir grandes patriarcas, célebres líderes para o povo e reis da mais alta nobreza, mas Deus não escolheu nenhum deles, só José.

Edward Healy ThompsonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Abril de 2019
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Descrever a vida e as glórias de José é descrever ao mesmo tempo a vida de Jesus e as glórias de Maria, pois Jesus, Maria e José estão tão intimamente unidos, que é impossível falar de um sem tratar dos outros. Estes três queridos nomes — Jesus, Maria e José — formam aquela tríplice aliança celeste que não pode ser quebrada jamais. Aquele, pois, que se dedica a narrar a vida de São José, está encarregado da feliz missão de narrar também, em grande medida, as vidas de Jesus e Maria.

Não se oponha a isso o nosso leitor, já que, depois de Deus, Jesus, Maria e José são os mais doces e sublimes objetos de que podem ser preenchidos nossas mentes e corações. Eles são os três poderosos advogados da nossa causa, as três estrelas guias da nossa salvação. Mas, a fim de entender claramente a grandeza de José, devemos olhar mais longe, pois sua grandeza não começou em seu nascimento, tampouco em seus esponsais com Maria; sua origem é muito mais remota e deve ser procurada não no tempo, mas na eternidade: começou em sua predestinação.

Predestinação, de acordo com Santo Tomás de Aquino, é a preordenação divina, desde a eternidade, daquelas coisas que pela graça hão-de ser realizadas no tempo.

Pois bem, o compassibilíssimo Senhor Deus, nas admiráveis disposições de sua Providência, preordenou desde a eternidade o mistério inefável da divina Encarnação para reparar a queda de Adão e salvar seus descendentes da ruína eterna. Esse mistério “escondido às gerações”, como diz o Apóstolo (cf. Cl 1, 26), deveria ser revelado na plenitude dos tempos. A Palavra Eterna deveria assumir a carne humana e oferecer-se, depois de uma vida repleta de sofrimentos, como vítima voluntária para morrer em uma cruz, a fim de, semelhante a um cordeiro inocente, expiar os pecados de toda a humanidade. Este mistério deveria ser realizado em Jesus; e, portanto, Jesus, o Salvador de todos, na palavra do Apóstolo, “foi predestinado Filho de Deus no poder” (Rm 1, 4); como explica Santo Agostinho, estava predestinado que Jesus, filho de Davi segundo a carne, deveria ser, de fato, o Filho de Deus, visto já estar preordenado que a natureza humana deveria um dia subsistir junto com a natureza divina na Pessoa eterna da Palavra, a fim de que os sofrimentos de Jesus tivessem um valor infinito para satisfazer dignamente a Divina Justiça. E é nisso que consiste o chamado decreto eterno da divina Encarnação.

Ora, neste decreto estão compreendidos não apenas o mistério da divina Encarnação, mas também o modo e a ordem pelos quais esse mistério deveria se realizar, incluídas as pessoas que nele deveriam tomar parte de maneira principal e mais imediata; pois, de acordo com a doutrina do Doutor Angélico, a predestinação eterna inclui não apenas as coisas que hão-de realizar-se no tempo, mas também o modo e ordem em que devem acontecer.

E o modo e a ordem predestinados por Deus para a Encarnação de seu Divino Filho eram estes: que a santíssima humanidade de Jesus Cristo deveria ser tomada, embora sem pecado, da mesma natureza humana que havia pecado em Adão; que deveria ser da ascendência de Abraão, da tribo de Judá e da raça de Davi, e que o Corpo de Jesus deveria ser formado pelo poder do Espírito Santo no seio puríssimo de uma virgem imaculada. Essa virgem eleita é Maria; e, portanto, Maria, depois de Jesus, foi imediatamente incluída no decreto da Divina Encarnação, e desde a eternidade predestinada a ser a augustíssima Mãe do Filho de Deus. “A Virgem”, diz o grande doutor Suárez, “não poderia ser separada de seu Filho na eleição divina.” Maria foi realmente predestinada pelo conselho eterno de Deus: Santo Agostinho chama-lhe “a obra do conselho eterno”.

Mas, a fim de ocultar do mundo esse mistério de amor até que se completasse o tempo previsto, e para salvaguardar ao mesmo tempo a reputação da Virgem Mãe e a honra do Divino Filho, quis Deus que Maria, por um casamento todo celestial, fosse desposada pelo homem mais humilde, mais puro e mais santo da linhagem real de Davi (um que fosse expressamente predestinado, portanto, para esse fim); quis Deus um esposo virginal para a Virgem Mãe, o qual pudesse ao mesmo tempo assumir o papel de pai do Filho de Deus. Na mente divina, José foi escolhido dentre todos os outros. Foi ele que ficou em primeiro lugar. Foi ele o predestinado para este trabalho.

De fato, da tribo de Judá, da família de Davi, haviam de surgir grandes patriarcas, célebres líderes para o povo e reis da mais alta nobreza, mas Deus não escolheu nenhum deles. Deus escolheu José, e mais ninguém. José era o amado. Ele foi predestinado de modo especial a tornar-se um dia o ditoso esposo de Maria e o pai adotivo de Jesus. “Assim como Maria”, diz João Eck, o famoso adversário de Lutero, “foi desde a eternidade predestinada a ser a mãe do Filho de Deus, assim também foi José eleito para ser o guardião e protetor de Jesus e de Maria.”

Assim, pois, como Maria, também José foi incluído no próprio decreto da Encarnação e chamado a tomar parte “em tempo integral”, por assim dizer, nesse mistério inefável.

A partir disso, fica fácil perceber quanta honra recai em São José, pois se, ao lado da Santíssima Trindade, o mistério da divina Encarnação constitui o fundamento essencial da fé cristã, como não ver, no fato de alguém ser incluído no decreto eterno de tão admirável mistério — “que os próprios anjos desejam contemplar” (Hb 1, 12) —, uma glória incomparável?

Devemos ter sempre bem presente, portanto, esse destino singular que foi reservado a São José, porque é ele, de fato, o fundamento de toda a sua grandeza, a base sobre a qual se assentam todas as suas glórias, e é só tomando plena consciência dessa predestinação que se podem entender a predileção de Deus por São José e a altíssima honra e privilégio que lhe foram outorgados como guardião e padroeiro da Igreja universal.

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