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O verdadeiro “sexto sentido”
Espiritualidade

O verdadeiro “sexto sentido”

O verdadeiro “sexto sentido”

Se tivéssemos um “sexto sentido” aguçado para falarmos com nossos entes queridos que já se foram, isso ainda seria muito pouco, diante da dádiva que é nos relacionarmos com o próprio Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Janeiro de 2019
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Quando deixam de acreditar em Deus, as pessoas passam a acreditar em qualquer coisa”: eis uma sentença atualíssima de G. K. Chesterton. Não é novidade para ninguém que nosso mundo, ainda que se denomine católico nesta ou naquela região, vive uma terrível perda generalizada da fé. Pessoas, famílias e sociedades que se orgulhavam de seu batismo, que se ufanavam do título de cristãs, hoje conservam dessa prática religiosa apenas uma vaga lembrança.

Não seria exato dizer, no entanto, que nos transformamos em ateus. Não. O homem é um ser essencialmente religioso, de modo que, se não adora o Deus com “d” maiúsculo, fatalmente ele molda para si outros deuses, com “d” minúsculo; se não é o Evangelho de Cristo e o Catecismo da Igreja que nossa época segue, então são as crendices, as superstições e as idolatrias que predominam.

A crença de que os mortos estão de alguma forma entre nós, por exemplo, é praticamente o ar que respiramos, principalmente no Brasil, devido às fortes influências espíritas que infelizmente recebemos da mídia e de nossos antepassados. Vários anos atrás fez muito sucesso em todo o mundo a produção O Sexto Sentido, cujo enredo reafirma justamente esta tese: a de que as pessoas que morrem, no fundo, não nos deixam, estão andando entre nós, e a algumas pessoas especiais (os chamados “médiuns”) essas almas até apareceriam com certa frequência para revelar ou pedir que sejam feitas certas coisas etc.

Como todo “bom erro”, também este se serve de elementos de verdade para convencer os incautos. Ora, que exista uma vida além desta, todo católico que vá à Missa aos domingos o confessa quando diz: “Creio na vida eterna”. Aparições de pessoas que já morreram, por sua vez, são tão velhas quanto é velha a humanidade, e até a Igreja Católica admite a sua possibilidade extraordinária. Basta pensar nas inúmeras aparições de Nossa Senhora, de Saragoça a Fátima, ou nas visitas que as almas do Purgatório vez ou outra fazem aos vivos, pedindo orações e atestando as verdades de fé que aprendemos na catequese.

Disso não se segue, porém, que não haja barreira entre vivos e mortos nem que comunicações vindas do além sejam como que o pão que comemos todas as manhãs. A sã doutrina católica ensina-nos, a propósito, em consonância com inúmeras passagens bíblicas (cf. Lv 20, 27; Dt 18, 10ss; 1Cr 10, 13; Eclo 34, 2; Is 8, 19; 44, 25; Cl 2, 18), que é pecado tentar estabelecer contato com as almas de nossos entes falecidos. Fazer disso um “dom” ou uma profissão, então, nem se fale.

Mas para Hollywood e para nossos espíritas essa suposta “sensibilidade” para falar com os falecidos seria uma espécie de “sexto sentido”. A ideia por trás é a de um órgão humano mesmo, atrofiado na maioria das pessoas, mas que seria necessário desenvolver, talvez se tornando um “médium” profissional ou coisa do gênero. E o fato de ser um sentido a mais, além dos outros cinco que possuímos — visão, audição, tato, olfato e paladar —, passa a ideia de um conhecimento transcendente, superior. Trocando em miúdos, esse é o máximo que as pessoas conseguem vislumbrar em matéria de espiritualidade, seria esse o ápice da religiosidade moderna.

O que nos ensina, porém, a fé católica? O que Jesus Cristo veio nos ensinar dois mil anos atrás com seu Evangelho? Uma verdade muito mais poderosa e elevante do que a mensagem correntemente propagada pelo espiritismo: que Deus quer nos colocar em contato com Ele mesmo; que Ele quer nos fazer íntimos não apenas de nossos consanguíneos, ou dos santos e anjos do Céu, mas dEle próprio. Por isso, Ele não previu que sua doutrina fosse revelada aos homens por meio de espíritos desencarnados, mas enviou o seu próprio Filho ao mundo — “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai” —, e no-lo enviou na carne, a fim de que tomássemos parte em sua natureza divina (cf. 2Pd 1, 4). Eis a grande novidade do cristianismo, à qual infelizmente a nossa cultura não tem acesso… porque não crê.

Se nos fosse permitido pegar emprestada aqui a ideia do “sexto sentido”, nós diríamos que, sim, todos os seres humanos o têm, e devem usá-lo, e devem aperfeiçoá-lo. Mas este sentido, de que se trata propriamente?

A boa teologia católica nos ensina que a graça santificante, que todos recebemos no sacramento do Batismo, gera em nós um verdadeiro organismo sobrenatural, criado por Deus na alma e com o qual nos relacionamos não com uma alma penada ou outra — pois isso, sinceramente, seria muito pouco, já que a sede de felicidade de nossa alma clama pelo infinito, clama pelo eterno, clama por Deus, e nenhuma criatura neste mundo, por mais amor que tenhamos tido por ela nesta vida, é capaz de preencher esse vazio… Com esse organismo, nós nos relacionamos com o próprio Deus vivo, que nos alimenta continuamente através da oração e dos sacramentos de sua Santa Igreja.

Isso só nos parece pouca coisa — e muitos de nós talvez gostaríamos de ter mais a presença dos próprios entes queridos que a presença de um Deus que não somos capazes de tocar, sentir, pegar etc. — porque é pouca nossa fé, e grande o nosso “sentimentalismo”. Aqui, a analogia dos sentidos precisa ser retomada para nos recordar que a experiência religiosa é fundamentalmente uma experiência que transcende, que supera, diferentemente daquilo a que temos acesso com nossa visão, nosso tato e nossos outros sentidos. Nas palavras do Apóstolo, “coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Cor 2, 9).

Nosso Senhor também, ao falar do Reino de Deus, referiu-se certa vez a um tesouro escondido que, para ser encontrado, requer que também nós nos escondamos, nos retiremos no interior do nosso coração (cf. Mt 13, 44-46). Com isso, Cristo estava a indicar-nos que precisamos sair da experiência meramente sensorial para entrar em contato com Ele. A oração cristã, quando bem compreendida e realizada, é justamente essa experiência — a respeito da qual há vários cursos disponíveis em nosso site, a propósito.

Sem oração, desenganemo-nos, nossa única familiaridade será com as coisas daqui, com as realidades deste mundo terreno e passageiro. Se não tirarmos um pedaço do nosso dia para entrarmos em contato com as verdades divinas, para nos alimentarmos com a sua Palavra, viveremos só do que conhecemos com nossos sentidos, continuaremos na carne… e nosso destino eterno será o equivalente dessa escolha terrível: pereceremos juntamente com nossos cinco sentidos.

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A amizade deve estar “acima de tudo”?
Espiritualidade

A amizade deve estar “acima de tudo”?

A amizade deve estar “acima de tudo”?

Quem seria tão “arrogante”, “intolerante” ou “farisaico” a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais, afinal, do que princípios ideológicos “frios”?

James H. TonerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Abril de 2019
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I. Eu faço parte de um pequeno círculo de conhecidos do passado — todos ex-alunos da mesma universidade, em 1968 — que compartilha histórias, piadas, citações, recomendações de livro e vídeos. Recentemente, deparamo-nos com a seguinte declaração, comumente atribuída a Thomas Jefferson: “Eu nunca considerei uma divergência de opinião em política, em religião ou em filosofia como razão para me afastar de um amigo.”

Nem é preciso dizer que a citação foi recebida com unanimidade. Afinal de contas, por que qualquer um de nós, velhos conhecidos, amigos e companheiros que somos, descartaríamos nossos cinquenta anos de parceria devido a uma possível diferença de opinião em assuntos tão “triviais” como política, religião ou filosofia?

Digo que “a citação foi recebida com unanimidade”, exceto por mim (ainda que eu tenha me contido). Às vezes, tudo o que alguém sabe ou tudo aquilo em que acredita é colocado em xeque através de uma simples afirmação. Como professor, diácono, soldado (e também como esposo e pai de família), eu passei praticamente toda a minha vida adulta argumentando contra o ponto de vista expresso nessa declaração atribuída a Thomas Jefferson. Ironicamente, eu aprendi essa lição “antijeffersoniana” na mesma faculdade de que participaram os membros desse nosso “grupo virtual”.

Mas, afinal, quem seria tão arrogante, tão intolerante ou tão farisaico a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais numa escala de valores do que princípios ideológicos “frios”? A lealdade aos amigos não é a maior das virtudes? Não deveríamos dizer, com o romancista Edward Morgan Forster: “Se eu tivesse de escolher entre trair a minha pátria e trair um amigo, eu esperaria ter a coragem de trair o meu país”?

“Proibido nadar”, de Norman Rockwell.

II. Não, não e não.

Em grande parte da boa literatura, a amizade é exaltada com justiça e sabedoria. É possível ler sobre o assunto na Ética Nicomaqueia de Aristóteles e na Sirácida bíblica, especialmente em seu capítulo sexto, sem falar de outras obras de duradoura significância. Com isso somos levados a concluir, prima facie, que Thomas Jefferson deve estar certo: se nos fosse dado escolher entre ser fiel a um princípio abstrato ou ser fiel aos amigos, nós deveríamos escolher este último. E esse é, ao que parece, o consenso de nossos contemporâneos.

Mas a amizade ou é meritória ou é “meretrícia”. Se meretrícia, é falsa, fraudulenta e fugaz; se meritória, é verdadeira, fidedigna e duradoura. Se meretrícia, a amizade é construída sobre a areia da falta de caráter, da frivolidade ou da alegria vã; se meritória, porém, é construída sobre a rocha do que é supremo, permanente e piedoso. É o testemunho que nos dá o Salmo 101: “Detesto o crime de quem vos renega; que não me atraia de modo nenhum! Bem longe de mim, corações depravados, nem nome eu conheço de quem é malvado” (v. 3-4), e é o sentido deste versículo de Eclesiástico 6: “Separa-te daqueles que são teus inimigos, e fica de sobreaviso diante de teus amigos” (v. 13).

Toda as lealdades, amizades e camaradagens — valiosas como são — só se mantêm até certo ponto. Elas são circunstanciais, condicionais e contextuais; são contingentes e devem estar em conformidade com o que é bom, verdadeiro e belo, devem ser consistentes tanto com a razão natural quanto com a revelação (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1954). Quando o que parece ser uma amizade é, na verdade, tentação ao pecado e ao mal, a amizade já está dissolvida.

Suponha que um “amigo” viesse lhe pedir para ajudá-lo a fazer algo manifestamente criminoso ou pecaminoso. Sua resposta deveria ser, primeiro, recusar-se e, segundo, admoestar o pecador, tentando convencê-lo do erro e ganhá-lo de volta para fazer o que é certo.

Tudo isso exige, no entanto, algo que está em falta nos dias de hoje: fidelidade a normas transcendentes. Essa ideia foi expressa de maneira clara, concisa e cogente pelo Papa São João XXIII em sua encíclica Ad Petri Cathedram, de 1959:

A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade. E não só na ignorância, mas às vezes até no desprezo e no temerário afastamento dela. Daqui erros de toda a espécie, que penetram como peste nas profundezas da alma e se infiltram nas estruturas sociais, desorganizando tudo, com grave ruína dos indivíduos e da sociedade humana (n. 4).

III. A citação de Thomas Jefferson transcrita no começo deste artigo deve ser lida, portanto, justamente ao contrário. Nós deveríamos considerar, sim, uma divergência crucial de opinião em política, em religião ou em filosofia, como forte razão para se afastar de um amigo. Mas o que seria, nesse sentido, uma divergência “crucial”?

Na magnífica peça A Man for All Seasons, de Robert Bolt [n.d.t.: da qual há um filme homônimo, em português chamado “O homem que não vendeu a sua alma”], São Thomas More é instado a trair a verdade para se aliar a outros (que já haviam traído a verdade) “por amizade”. O santo então pergunta, quando a consequência da ação de uma pessoa é ela ser mandada ao inferno, se seus amigos a deveriam acompanhar também àquele lugar, só “por amizade”.

Eis o ponto crucial. Quando uma suposta amizade aprova o mal ou nos conduz ao caminho do pecado (algo a que se costuma chamar “cooperação formal ou material com o mal”), nós devemos ter a prudência e a fortaleza de rejeitar esta que é uma “amizade” falsa, fraudulenta e fugaz. Aqueles que nos levam à perdição não são nossos melhores amigos, mas sim nossos piores inimigos, e nós devemos sim nos afastar deles (tendo-os aconselhado primeiro quanto à razão da rejeição).

O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos tem um ditado segundo o qual “um soldado em dever de guarda não tem amigos”. Tampouco a nós toca ter amigos se o que estamos guardando (cf. 2Tm 1, 14) se encontra ameaçado pelas palavras ou ações daqueles que nós pensávamos ser amigos, aliados, colegas ou companheiros (incluindo nessa lista, a propósito, os homens de colarinho).

“Nós devemos envidar todos os nossos esforços”, diz Aristóteles, “para evitar a iniquidade e ser bons”. É dessa forma que alguém pode se tornar o verdadeiro amigo de outra pessoa. Sem o nosso próprio esforço, supremo e contínuo, pela virtude (cf. 2Pd 1, 3-11), não há fundamento para a amizade. Quando virmos que os outros estão se tornando ou se tornaram corruptos, nossa responsabilidade é nos apartarmos deles, e não nos juntarmos a eles. Provavelmente citando o poeta grego Menandro, São Paulo nos adverte: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33; 5, 11; 6, 9; Pr 13, 20; 2Cor 6, 14).

Há uma forma de entender, por fim, as “amizades” corruptas e nossa obrigação de nos afastarmos (ou mesmo fugirmos) delas. Os verdadeiros amigos, as amizades autênticas podem facilmente se dissolver nos “ácidos morais” de nossa época. Esses “ácidos” vêm do mundo (e de sua insistência em que o aqui e o agora é tudo o que existe), da carne (e de sua insistência em que o prazer físico é o ponto principal de todos os “relacionamentos”) e do diabo (para cujos ardis nós hoje nos encontramos pouquíssimo alertas), os três inimigos da alma, que têm moldado nossos costumes sociais e encontrado sua expressão na música e em outras formas de cultura popular.

IV. Falsas amizades estão sempre fundadas em um destes três males: a crença (irônica) de que Deus não existe, de que a virtude consiste na exaltação soberba de si próprio, e de que podemos imaginar um mundo (pelagiano) no qual somos nós mesmos que fazemos o certo e o errado. (Note-se que Adão e Eva, ao traírem a amizade de Deus, necessariamente prejudicaram o próprio relacionamento entre eles: cf. Gn 3, 5; 6, 5.)

A verdadeira amizade, porém, está sempre fundada, de modo consciente ou não, na piedosa devoção a Deus, no humilde reconhecimento da própria condição de pecador e na nossa necessidade da redenção divina, bem como no entendimento refinado de que existem, de fato, razões profundas para se viver e morrer. Encontrar homens e mulheres que estejam moral e mentalmente vinculados a essas verdades é como descobrir “um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé” (Eclo 6, 14-15).

Um sacerdote católico se perguntou certa vez, refletindo, se os ateus poderiam ser bons cidadãos e chegou à conclusão negativa; eu me pergunto, do mesmo modo, se os que não crêem em Deus podem ser bons amigos, e não posso chegar senão à mesma conclusão. Lealdade autêntica e na medida certa a um amigo só pode ser fruto da minha obediência a Deus (cf. Catecismo, n. 144; Rm 1, 5; 16, 26), sem o qual é inevitável que se siga uma abjeta confusão moral.

Se existe um “conserto” para amizades perversas ou pervertidas? É claro que sim. O conserto está sempre à nossa disposição, se tivermos a inteligência agraciada para ver e ouvir, e então nos conformarmos (cf. Rm 12, 2) à vontade de Deus. Mas o discernimento moral das pessoas parece ter sido sacrificado à “divindade” atual: o subjetivismo, que diz a nós que podemos fazer o que quisermos escolher e apartar-nos arrogantemente do Pão da Vida (cf. Jo 6, 35.66).

Nosso Senhor chama-nos seus amigos (cf. Jo 15, 15), mas essa é uma amizade que podemos abandonar a qualquer momento (e, ai de nós!, mui frequentemente nós o fazemos). Quando, então, pelo pecado, nós traímos essa primeira amizade, perde-se o fundamento para todas as outras amizades.

A primeira obrigação de quem deseja ser um bom amigo deve ser, portanto, a fidelidade à Verdade; e a segunda obrigação deriva naturalmente da primeira: tendo nós mesmos reconhecido o que é bom, verdadeiro e belo, devemos generosamente compartilhar essa visão com os outros e resolutamente chamar à conversão nossos amigos que, vivendo no pecado, erram longe do caminho de Deus (cf. Tg 5, 19; Sl 50, 13).

A amizade genuína, como toda comunidade genuína, pode acolher várias pessoas. Ela deve sempre basear-se, no entanto, não sobre uma diversidade incoerente de julgamentos morais (cf. 1Cor 5), mas antes na devota união de certezas quanto ao que é amável de modo absoluto e infinito (Venite adoremus Dominum, “Vinde, adoremos o Senhor”).

Se a frase com que começamos este texto é de fato de Thomas Jefferson, portanto, ele está errado: a verdadeira amizade exige que nos afastemos dos amigos aparentes, que conspurcam ou traem o que é puro, nobre e eterno.

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“Nós, os leprosos”: o sacrifício do Padre Damião
Santos & Mártires

“Nós, os leprosos”:
o sacrifício do Padre Damião

“Nós, os leprosos”:
o sacrifício do Padre Damião

Daí em diante o padre Damião, nos seus sermões, já não dizia “meus irmãos”, mas “nós os leprosos”. E dizia que, se fosse possível curar-se abandonando a ilha, ainda assim ele não deixaria os leprosos.

W. M. Jackson, Inc.15 de Abril de 2019
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Num mesmo seminário da Bélgica se achavam dois irmãos, preparando-se para o sacerdócio. O mais velho devia ser em breve missionário e, nessa qualidade, ir para as ilhas dos mares do sul. Brilhavam-lhe os olhos, esfregava as mãos de contente, sempre que se referia à obra que o esperava além-mar.

Um dia, porém, adoeceu gravemente, e teve de recolher-se ao leito. Era presa de uma febre terrível, e ainda mais empalidecia e se definhava ao pensar na inação a que a doença o obrigava. O irmão mais novo, vindo-lhe à cabeceira, disse um dia com carinho: “Sentir-te-ias melhor se eu ocupasse o teu lugar de missionário?” Os olhos do doente brilharam um momento e ele apertou, sorrindo, as mãos do irmão, o qual escreveu secretamente às autoridades, pedindo permissão para partir em seu lugar.

Um dia, quando estudava, veio ter com ele o diretor do seminário e informou-o de que estava autorizada a sua ida. O rapaz levantou-se, saiu a correr do quarto e percorreu o pátio aos pulos, como um animal selvagem.

“Enlouqueceu?”, perguntavam os colegas.

E por que José Damião mostrava tanta alegria, se afinal ia para um exílio? Por que desejaria abandonar a terra feliz onde se falava sua língua e cujos costumes lhe eram familiares? Por que razão iria trabalhar entre selvagens, para além de mares longínquos, tornando-se invisível aos amigos e deles esquecido?

É que já abandonara o mundo para ser sacerdote e amava, mais que à pompa do mundo, mais que à paz do lar, mais que ao amor de pai e mãe, o Redentor.

Amá-lo e segui-lo, praticando o bem, tornou-se o seu ideal.

José Damião, com um entusiasmo de moço, partiu para as ilhas dos mares do sul e ali missionou. Trabalhou com firmeza e nobremente até a idade de trinta e três anos. Então, um dia, em sua missão entre o povo, ouviu dizer o bom bispo que infelizmente não tinha quem mandar aos pobres leprosos de Molokai, e que esses infelizes estavam entregues não só àquele terrível mal como ainda a pecados terríveis.

José Damião, cuja alma muitas vezes se tinha condoído ao ouvir falar dos leprosos, pediu ao bispo que o mandasse, e o seu oferecimento foi aceito.

Aqui estava outro sacrifício ainda mais respeitável: ir dos selvagens para os leprosos representava abnegação maior do que da Bélgica para os selvagens. Os leprosos viviam isolados, longe de toda a gente, evitados por todos. Estavam fora da humanidade. O mal que lhes roía os corpos tornava-lhes as almas também ruins. Suas cabanas eram verdadeiras pocilgas; viviam como animais; eram horríveis e ver, e mais ainda depois de conhecidos. Não podem vocês imaginar os horrores de Molokai. Deles só uma pequena parte bastaria para impressionar.

Mas o padre Damião levou aos desgraçados a mensagem simples de que Deus os amava; e o seu rosto alegre, a sua voz terna, o seu olhar acarinhador, e, mais que tudo isso, a fé ardente e viva que punha nas suas palavras, converteu-os em filhos do Senhor. Começaram a arrepender-se dos pecados, começaram a sentir que, em verdade, talvez Deus os amasse. Ao menos uma coisa era certa: amava-os o padre Damião.

Dezesseis anos viveu este homem santo e bom entre os leprosos. Ergueu uma igreja, a que se afeiçoaram muito, construiu-lhes casas mais confortáveis, deu-lhes um melhor fornecimento de água, foi seu enfermeiro, tratando das suas chagas horrendas; confortava-os à hora da morte e cavava as suas sepulturas.

Padre Damião, fotografado por William Brigham.

Ouviu-se, então, falar deste padre que trabalhava sozinho entre os leprosos. Escreveram-lhe, mandaram-lhe caixotes de coisas úteis para a sua gente, e houve mesmo quem lá fosse visitá-lo e ajudá-lo. Durante muitos anos trabalhou entre os infelizes, mas por fim foi ele próprio vítima do horrível mal. Um dia entornou água a ferver, e ela lhe caiu num pé. Estranhou não sentir dor nenhuma. Procurou um médico. “Tenho a lepra?”, perguntou. “Sinto informá-lo”, respondeu o médico, “mas está, com efeito, leproso”. Daí em diante o padre Damião, nos seus sermões, já não dizia “meus irmãos”, mas “nós os leprosos”. Sentia-se perfeitamente feliz. Dizia que, se fosse possível curar-se abandonando a ilha, ainda assim não deixaria os leprosos. Continuou trabalhando, com a morte a roer-lhe feroz e vorazmente o corpo.

Quando o levaram para o leito, agradeceu a Deus todos os benefícios e confortos recebidos. Dois padres e irmãs de caridade ajoelharam-se-lhe ao pé do leito.

— Quando estiver no céu, padre Damião — perguntou um deles — não esquecerá estes órfãos que aqui deixa?

— Não, não! — disse, sorrindo, o bom padre. Se algum valimento tiver ante Deus, rezarei por todos que estão no Leprosário.

— E — tornou o padre ajoelhado — não me deixará, como Elias, o seu manto?

— Para quê? — replicou o padre Damião. E depois acrescentou lentamente: Está cheio de lepra.

Nenhum rei teve, porém, manto mais belo!

É que toda a sua vida tinha sido um longo ato de heroísmo.

Referências

  • Extraído de “O melhor do tesouro da juventude”, de W. M. Jackson, Inc., v. 1, Editora Concreta, pp. 90-92 (grifos nossos).

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Quando um protestante descobriu que a Missa é o sacrifício da Cruz
Testemunhos

Quando um protestante descobriu
que a Missa é o sacrifício da Cruz

Quando um protestante descobriu
que a Missa é o sacrifício da Cruz

Quando Scott Hahn ficou sabendo que os católicos ensinavam ser a Eucaristia a renovação do sacrifício do Calvário, relação que ele só descobriu depois de muita investigação, primeiro ele ficou furioso e despeitado. Mas depois...

José Maria C. S. André15 de Abril de 2019
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Durante a Semana Santa, que começa hoje, a liturgia católica leva-nos a viver uma Páscoa judaica surpreendente. Recordo a perplexidade de Scott Hahn, hoje um grande biblista católico, no tempo em que ele ainda era protestante. Um dia, ao fio dos Evangelhos, o pregador da sua comunidade protestante foi seguindo os passos da Última Ceia, conforme o cânone habitual da Páscoa judaica.

Até dada altura, tudo decorria da forma habitual, ainda que num clima de extraordinária intensidade. A minúcia dos preparativos, da sala e da celebração, anunciava algo especial e Cristo começou por alertar os discípulos para a importância do momento: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de padecer”.

A celebração judaica começa com as abluções rituais. O mais novo da família leva uma jarra e uma bandeja, deitando a água da purificação sobre as pontas dos dedos de cada um. Neste caso, não foi o menos importante — foi o próprio Cristo! — Quem fez a ablução. E não derramou água sobre os dedos: pôs uma toalha à cintura e lavou os pés a cada um dos discípulos. Pedro recusa uma coisa dessas! Depois, é tal a insistência de Cristo, que aceita...

Seguiram-se os salmos do costume e vários cálices rituais, em ação de graças, como símbolo da Aliança do Povo com Deus, etc., até que Cristo altera o sentido de tudo ao estabelecer uma Aliança nova: “Este cálice é a nova Aliança no meu Sangue, derramado por vós”. Neste momento, Cristo coloca-Se a Si próprio como novo centro da ação litúrgica: “todas as vezes que o beberdes, fazei isto em memória de Mim”.

Há outros elementos revolucionários naquela celebração pascal, mas o que mais surpreendeu Scott Hahn e a sua congregação protestante foi que, imediatamente antes do momento culminante, que seria o cálice da Consumação, Cristo interrompe a cerimônia. Não só interrompe, como o declara solenemente, como se fizesse de propósito: “não tornarei a beber o fruto da videira, até àquele dia em que o beberei de novo no Reino de Deus”. Levantaram-se, pois, e saíram para o Monte das Oliveiras. A comunidade de Scott Hahn não sabia o que pensar. Talvez Jesus estivesse perturbado pela iminência da morte, talvez se tivesse esquecido de concluir a cerimônia da Páscoa…

Hahn decidiu reler os Evangelhos de uma ponta à outra, à procura do cálice que faltava, o cálice da Consumação. A conclusão imediata é que não tinha havido esquecimento, quase se diria que Jesus não pensava noutra coisa. Jesus sai do cenáculo da Última Ceia a falar do cálice que faltava: “Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice! Mas não se faça a minha vontade mas a tua”. “Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade!...”. Chegam Judas e os soldados, Pedro pega numa espada e corta a orelha de Malco, um criado do Sumo Sacerdote. Jesus cura milagrosamente o ferido e diz a Pedro “Mete a tua espada na bainha. Eu não havia de beber o cálice que o Pai Me deu?”.

Aquele cálice, vinha inclusivamente de muito antes. Ao pedido da mãe de Tiago e João, responde com um desafio misterioso: “Podeis beber o cálice que Eu hei-de beber, ou ser batizados no baptismo com que Eu vou ser batizado?” — qual cálice, tão singular? Qual batismo, se Jesus já tinha sido batizado no Jordão?

No final da Paixão, pendurado da Cruz, momentos antes de morrer, ressurge a referência à consumação da Aliança. “Sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse ‘tenho sede’. Havia ali um vaso de vinagre…” e um dos que estavam ali “correu a tomar uma esponja, ensopou-a, pô-la sobre uma cana e deu-Lhe de beber”... “Deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Tendo-o provado, não quis beber”. Não, aquele vinho misturado com fel não era o cálice esperado; aquele “tenho sede” não era a pedir aquele vinho. Imediatamente a seguir, Jesus exclama “Tudo está consumado!” e, inclinando a cabeça, expirou.

O Dr. Scott Hahn.

De repente, Scott Hahn percebeu que a Última Ceia só terminava no Calvário, no momento em que se estabelece a nova Aliança “no sangue derramado por Cristo”. A Última Ceia é uma unidade com todo o oferecimento de Cristo na Paixão. Participar na Missa é participar no Sacrifício de Cristo na Cruz. Como diz S. Paulo aos de Corinto, “porventura o cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo?”. Cristo é, como diz S. Paulo a seguir, “a vítima imolada no altar”. S. Paulo recorda como o próprio Jesus tinha avisado os discípulos, na Última Ceia, de que aquele vinho consagrado apontava para a sua morte no Calvário: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha”.

Um dia, na universidade protestante em que dava aulas, Scott Hahn apresentou esta sua investigação e ouviu um comentário de um aluno que tinha tido catequese católica em pequeno: “Isso faz todo o sentido, mas recorda-me o catecismo de Baltimore! [1]”. Scott nunca tinha ouvido falar de um “catecismo de Baltimore”, porque era um livrinho elementar, o primeiro catecismo das crianças católicas da época, e por isso ainda acusou mais o toque [2]. Então, os católicos, esses heréticos, ensinam às crianças que a Missa é a renovação do Sacrifício do Calvário?! Algo que ele só tinha descoberto ao fim de tanto esforço de investigação?!

Primeiro, Scott ficou furioso, despeitado. Depois, continuou a investigar e fez-se católico.

Referências

  • José Maria C. S. André in Correio dos Açores, 25 mar. 2018, publicado em Senza Pagare.

Notas

  1. O “Catecismo de Baltimore” foi o catecismo oficial para crianças adotado nos Estados Unidos até 1960 (Nota da Equipe CNP).
  2. “Acusar o toque” é expressão lusitana, e significa deixar transparecer dúvida por afirmação de outra pessoa (Nota da Equipe CNP).

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Deus escolheu José, e a mais ninguém
Santos & Mártires

Deus escolheu José, e a mais ninguém

Deus escolheu José, e a mais ninguém

Da tribo de Judá e dos filhos de Davi, haviam de surgir grandes patriarcas, célebres líderes para o povo e reis da mais alta nobreza, mas Deus não escolheu nenhum deles, só José.

Edward Healy ThompsonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Abril de 2019
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Descrever a vida e as glórias de José é descrever ao mesmo tempo a vida de Jesus e as glórias de Maria, pois Jesus, Maria e José estão tão intimamente unidos, que é impossível falar de um sem tratar dos outros. Estes três queridos nomes — Jesus, Maria e José — formam aquela tríplice aliança celeste que não pode ser quebrada jamais. Aquele, pois, que se dedica a narrar a vida de São José, está encarregado da feliz missão de narrar também, em grande medida, as vidas de Jesus e Maria.

Não se oponha a isso o nosso leitor, já que, depois de Deus, Jesus, Maria e José são os mais doces e sublimes objetos de que podem ser preenchidos nossas mentes e corações. Eles são os três poderosos advogados da nossa causa, as três estrelas guias da nossa salvação. Mas, a fim de entender claramente a grandeza de José, devemos olhar mais longe, pois sua grandeza não começou em seu nascimento, tampouco em seus esponsais com Maria; sua origem é muito mais remota e deve ser procurada não no tempo, mas na eternidade: começou em sua predestinação.

Predestinação, de acordo com Santo Tomás de Aquino, é a preordenação divina, desde a eternidade, daquelas coisas que pela graça hão-de ser realizadas no tempo.

Pois bem, o compassibilíssimo Senhor Deus, nas admiráveis disposições de sua Providência, preordenou desde a eternidade o mistério inefável da divina Encarnação para reparar a queda de Adão e salvar seus descendentes da ruína eterna. Esse mistério “escondido às gerações”, como diz o Apóstolo (cf. Cl 1, 26), deveria ser revelado na plenitude dos tempos. A Palavra Eterna deveria assumir a carne humana e oferecer-se, depois de uma vida repleta de sofrimentos, como vítima voluntária para morrer em uma cruz, a fim de, semelhante a um cordeiro inocente, expiar os pecados de toda a humanidade. Este mistério deveria ser realizado em Jesus; e, portanto, Jesus, o Salvador de todos, na palavra do Apóstolo, “foi predestinado Filho de Deus no poder” (Rm 1, 4); como explica Santo Agostinho, estava predestinado que Jesus, filho de Davi segundo a carne, deveria ser, de fato, o Filho de Deus, visto já estar preordenado que a natureza humana deveria um dia subsistir junto com a natureza divina na Pessoa eterna da Palavra, a fim de que os sofrimentos de Jesus tivessem um valor infinito para satisfazer dignamente a Divina Justiça. E é nisso que consiste o chamado decreto eterno da divina Encarnação.

Ora, neste decreto estão compreendidos não apenas o mistério da divina Encarnação, mas também o modo e a ordem pelos quais esse mistério deveria se realizar, incluídas as pessoas que nele deveriam tomar parte de maneira principal e mais imediata; pois, de acordo com a doutrina do Doutor Angélico, a predestinação eterna inclui não apenas as coisas que hão-de realizar-se no tempo, mas também o modo e ordem em que devem acontecer.

E o modo e a ordem predestinados por Deus para a Encarnação de seu Divino Filho eram estes: que a santíssima humanidade de Jesus Cristo deveria ser tomada, embora sem pecado, da mesma natureza humana que havia pecado em Adão; que deveria ser da ascendência de Abraão, da tribo de Judá e da raça de Davi, e que o Corpo de Jesus deveria ser formado pelo poder do Espírito Santo no seio puríssimo de uma virgem imaculada. Essa virgem eleita é Maria; e, portanto, Maria, depois de Jesus, foi imediatamente incluída no decreto da Divina Encarnação, e desde a eternidade predestinada a ser a augustíssima Mãe do Filho de Deus. “A Virgem”, diz o grande doutor Suárez, “não poderia ser separada de seu Filho na eleição divina.” Maria foi realmente predestinada pelo conselho eterno de Deus: Santo Agostinho chama-lhe “a obra do conselho eterno”.

Mas, a fim de ocultar do mundo esse mistério de amor até que se completasse o tempo previsto, e para salvaguardar ao mesmo tempo a reputação da Virgem Mãe e a honra do Divino Filho, quis Deus que Maria, por um casamento todo celestial, fosse desposada pelo homem mais humilde, mais puro e mais santo da linhagem real de Davi (um que fosse expressamente predestinado, portanto, para esse fim); quis Deus um esposo virginal para a Virgem Mãe, o qual pudesse ao mesmo tempo assumir o papel de pai do Filho de Deus. Na mente divina, José foi escolhido dentre todos os outros. Foi ele que ficou em primeiro lugar. Foi ele o predestinado para este trabalho.

De fato, da tribo de Judá, da família de Davi, haviam de surgir grandes patriarcas, célebres líderes para o povo e reis da mais alta nobreza, mas Deus não escolheu nenhum deles. Deus escolheu José, e mais ninguém. José era o amado. Ele foi predestinado de modo especial a tornar-se um dia o ditoso esposo de Maria e o pai adotivo de Jesus. “Assim como Maria”, diz João Eck, o famoso adversário de Lutero, “foi desde a eternidade predestinada a ser a mãe do Filho de Deus, assim também foi José eleito para ser o guardião e protetor de Jesus e de Maria.”

Assim, pois, como Maria, também José foi incluído no próprio decreto da Encarnação e chamado a tomar parte “em tempo integral”, por assim dizer, nesse mistério inefável.

A partir disso, fica fácil perceber quanta honra recai em São José, pois se, ao lado da Santíssima Trindade, o mistério da divina Encarnação constitui o fundamento essencial da fé cristã, como não ver, no fato de alguém ser incluído no decreto eterno de tão admirável mistério — “que os próprios anjos desejam contemplar” (Hb 1, 12) —, uma glória incomparável?

Devemos ter sempre bem presente, portanto, esse destino singular que foi reservado a São José, porque é ele, de fato, o fundamento de toda a sua grandeza, a base sobre a qual se assentam todas as suas glórias, e é só tomando plena consciência dessa predestinação que se podem entender a predileção de Deus por São José e a altíssima honra e privilégio que lhe foram outorgados como guardião e padroeiro da Igreja universal.

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