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Os heróis da Terra Média
Espiritualidade

Os heróis da Terra Média

Os heróis da Terra Média

A emoção da aventura e o desafio de se tornar um homem: eis o que jovens e adolescentes encontram no universo de J. R. R. Tolkien; eis uma razão para o grande sucesso de “O Senhor dos Anéis”.

Leon PodlesTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Janeiro de 2018
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Pouquíssimos escritores contribuíram tanto para a literatura fantástica no século XX quanto J. R. R. Tolkien. Com milhões de livros vendidos e um site que recebe mensalmente 30 milhões de visitas, “O Senhor dos Anéis”, a principal obra literária de Tolkien, foi considerado pelos britânicos o melhor livro do século XX e, para os membros da Folio Society, o melhor livro inglês de todos os tempos.

Meu interesse por Tolkien surgiu aos dezesseis anos, quando me entretinha com o catolicismo de Chesterton e as sagas islandesas, que o artista, designer e escritor do século XIX, William Morris, traduziu. Encontrei em Tolkien um grande amigo. Mas a enorme popularidade do autor justifica-se por preocupações maiores que as minhas naquela idade: preocupações sobre masculinidade e heroísmo, sobre o significado do amor entre criaturas mortais e a importância da vida em um mundo sombrio onde a morte é inevitável.

A presença desses assuntos nos livros de Tolkien é recorrente porque, assim como todo o século XX, o autor viveu sob as sombras da guerra e dos genocídios. E isso levou-o a entender que a salvação vem apenas pela graça, por meio de um heroísmo semelhante ao de Cristo.

Tolkien formou uma imaginação cristã e masculina. A masculinidade heróica de “O Senhor dos Anéis, por exemplo, possui vários pontos em comum com a missão heróica de Cristo: a bravura, a piedade, a misericórdia, o amor, a abnegação e o sofrimento. Todos esses elementos estão presentes na obra de Tolkien, e são fundamentais para se compreender o apelo e a riqueza de um livro escrito por uma imaginação cristã.

O heroísmo masculino

O Senhor dos Anéis” assemelha-se a epopeias tradicionais como a “Odisseia”. Trata-se de livros que traduzem, de maneira fantástica, a jornada de um menino para tornar-se adulto. De fato, a vida de todo garoto é um grande desafio para receber o título de “homem de verdade”. Eles crescem ouvindo histórias de como rapazes da sua idade deixaram a própria casa, enfrentaram lutas e ameaças de morte, até retornarem transformados em homens. Nesta fase, o menino deve distanciar-se da pessoa de quem é mais próximo e de quem mais ama — sua mãe —, porque ela não lhe pode fornecer o modelo do que ele se deve tornar.

O menino precisa distanciar-se do mundo infantil, onde está seguro e protegido, a fim de que possa entrar no mundo adulto, onde aprende a cuidar e proteger os outros. O tema do desafio é universal porque todas as culturas do mundo contam histórias a seus garotos sobre desafios para se tornar homem. O herói, ou seja, aquele que alcançou esse objetivo e se tornou homem, é a figura central da literatura de cada cultura. E, ainda que a maior parte dos homens dos quais Tolkien escreveu seja da raça dos hobbits, eles têm os mesmos problemas de maturidade que um humano do sexo masculino tem.

Tolkien tornou-se um homem, por assim dizer, durante a Primeira Guerra Mundial, quando perdeu amigos próximos, viu a dureza das batalhas e, especialmente, os horrores do genocídio industrial, que envenenou a terra e deixou dezenas de milhares de corpos abandonados no campo de batalha.

Na faculdade, o autor interessou-se pela literatura masculina anglo-saxã e islandesa. O estilo dessas literaturas é lacônico, e seu assunto consiste em batalhas e lutas diante da morte inevitável. Em contraste com a atmosfera efeminada e homossexual da universidade inglesa (basta pensar no personagem Sebastian, de Evelyn Waugh, em “Memórias de Brideshead”), J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis e outros Inklings bebiam cerveja, usavam tweeds e faziam longas caminhadas, de modo que sua vida civil era marcada pela masculinidade.

Tolkien entendia que a tarefa de tornar-se homem e herói (a excelência da masculinidade) não era simples, porque está cheia não só de perigos, mas também de paradoxos. A força masculina pode ser usada tanto para o bem como para o mal; a vontade de enfrentar a morte pode levar ao amor pela morte; e o niilismo é o poço onde pode cair o homem mais disposto a aceitar os desafios da masculinidade. Ou seja, o herói ou é divino ou demoníaco. Aquiles é um fogo ardente e devorador; Beowulf é como seu adversário, Grandel. Como em todas as realidades da Terra Média, masculinidade e heroísmo são autodestrutivos. A Terra Média, portanto, não pode salvar-se a si mesma.

Guerra e amizade masculina

O tradicional heroísmo militar também está presente em “O Senhor dos Anéis. Aragorn, por exemplo, é o rei disfarçado, que eventualmente lidera seu exército na batalha, mas apenas como uma diversão. O heroísmo militar, entretanto — por maior e mais digno que seja —, é, na melhor das hipóteses, inadequado, e, na pior, perigoso para as pessoas que procura proteger. De fato, os cavaleiros de Rohan lançaram-se contra o inimigo sob o grito de “morte!”, mas não puderam derrotar os Nazgûl, nem a tropa de Aragorn venceu Sauron. Mais ainda: Boromir quis usar o Anel para defender o seu povo, mas acabou pervertido e transformado em um monstro, só se redimindo mais tarde, ao dar a vida pela salvação dos hobbits, em um ato supremo de verdadeira amizade.

As amizades mais próximas em “O Senhor dos Anéis” são entre homens de diferentes espécies: humanos, hobbits, anões e elfos. A amizade masculina é o centro emocional do livro. No caso de Bilbo e Frodo, por sua vez, os leitores notam uma coisa típica da tradição germânica, na qual a relação “tio-sobrinho” está mais próxima da relação “pai-filho”. Bilbo vive solteiro e faz de seu sobrinho Frodo o seu herdeiro. Há ainda outros relacionamentos masculinos, como a relação mestre-servo de Frodo e Sam, a camaradagem dos adolescentes Pippin e Merry, a amizade entre os opostos Legolas e Gimli, a liderança de Aragorn e a fraca liderança de Boromir.

Sam, que se torna um grande herói no final de “O Senhor dos Anéis”, é o modelo dos soldados que Tolkien encontrou na Primeira Guerra Mundial. A camaradagem dos soldados no sofrimento é intensa e física. Na guerra, os homens sentem a proximidade de seus companheiros, que estão dispostos a morrer um pelo outro, em um amor que supera o das mulheres. A cena em que Sam resgata Frodo dos orcs mostra a intensidade e a proximidade dessa relação.

Bravura e misericórdia

Embora “O Hobbit” seja mais alegre que “O Senhor dos Anéis”, este aprofundou muitos dos temas sérios que já estavam naquele. Na história de “O Hobbit”, Bilbo Bolseiro começa com uma vida segura e tranquila em sua toca agradável, mas logo assume o desafio da aventura e procura o dragão e seu tesouro. Bilbo passa por provações que os soldados da Grande Guerra também enfrentaram e dispõe-se a lutar, envolvendo-se em uma batalha ainda mais importante: vencer o seu próprio medo. Quando o pequeno Bolseiro desce à caverna para enfrentar a criatura, ele vive a fase tremenda da sua jornada:  

Foi nesse ponto que Bilbo parou. Ultrapassá-lo foi o gesto mais corajoso de sua vida. As coisas tremendas que aconteceram depois não eram quase nada em comparação àquilo. Lutou a verdadeira batalha sozinho no túnel, antes mesmo de perceber o enorme perigo que estava à sua espera.

Bilbo e os companheiros têm ainda de lidar com os orcs, sobre os quais Tolkien diz:

Não é improvável que tenham inventado algumas das máquinas que desde então perturbam o mundo, especialmente os instrumentos engenhosos para matar um grande número de pessoas de uma só vez, pois sempre gostaram muito de rodas e motores e explosões, como também de não trabalhar com as próprias mãos além do estritamente necessário.

Tolkien encontrou essas máquinas durante o combate na Frente Ocidental.

O desafio mais importante de Bilbo, cujo significado é esclarecido apenas em “O Senhor dos Anéis”, acontece nas cavernas das Montanhas Sombrias, onde, após se separar dos amigos, ele encontra acidentalmente o Anel, que seu antigo dono, Gollum, havia perdido. Bilbo descobre que o Anel o torna invisível, então decide usá-lo para escapar de Gollum — que o está perseguindo e bloqueando a saída das cavernas:

Bilbo quase parou de respirar, enrijecendo-se também. Estava desesperado. Tinha de sair dali, daquela escuridão horrível, enquanto ainda lhe restavam forças. Tinha de lutar. Tinha de apunhalar a coisa maligna, apagar seus olhos, matá-la. Ela queria matá-lo. Não, não seria uma luta justa. Agora ele estava invisível. Gollum não tinha espada. Gollum não havia ameaçado matá-lo, nem havia tentado ainda. E estava arrasado, sozinho, perdido. Uma compreensão repentina, um misto de pena e horror, cresceu no coração de Bilbo: um vislumbre de dias infindáveis e indistintos, sem luz ou esperança de melhora, cheios de pedra dura, peixe frio, movimentos furtivos e sussurros. Todos esses pensamentos lhe passaram pela mente em um lampejo. Estremeceu. Depois, de súbito, num outro lampejo, como se impelido por uma nova força e resolução, deu um salto.

A posse de Bilbo sobre o Anel começa com a virtude da piedade. Embora sua bravura masculina fosse essencial, foi a piedade o que finalmente salvou seus amigos e ele mesmo.

Amor misericordioso

Em “O Senhor dos Anéis”, Frodo torna-se o verdadeiro herói, mas seu heroísmo não é o militar. Ele é como um padre que se sacrifica tornando-se ele próprio o sacrifício. Frodo cruza as terras mortas, que são como os campos de batalha envenenados da Primeira Guerra, e desfaz-se de todas as suas posses — de sua espada e até mesmo da comida de que ele precisaria para retornar ao Condado. Quando tem a chance de livrar-se de Gollum, Frodo não o mata, lembrando-se das palavras de Gandalf sobre piedade e misericórdia.

“É uma pena que Bilbo não tenha apunhalado aquela criatura vil quando teve a chance.”

“Pena?! Foi justamente pena o que ele teve. Pena e misericórdia: não atacar sem necessidade. E foi bem recompensado, Frodo. Tenha certeza de que ele foi tão pouco molestado pelo mal, e no final escapou, porque começou a possuir o Anel desse modo. Com pena.”

“Sinto muito — disse Frodo. — Mas estou com medo; e não sinto nenhuma pena de Gollum.”

“Você não o viu — Gandalf interrompeu.”

“Não vi e não quero ver — disse Frodo. Não consigo entender você. Quer dizer que você e os elfos deixaram-no viver depois de todas coisas horríveis que fez? Agora, de qualquer modo, ele é tão mau quanto um orc, e um inimigo. Merece a morte.”

“Merece! Ouso dizer que sim. Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para julgar ou condenar alguém à morte. Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver os dois lados.”

Mesmo depois da traição de Gollum e de seu ataque, o amigo de Frodo, Sam, não o mata também:

A mão de Sam vacilou. Sua mente fervia com o ódio e com a lembrança do mal. Seria justo matar essa criatura traiçoeira, assassina, justo e muitas vezes merecido; além disso parecia a única coisa segura a fazer. Mas no fundo do seu coração havia algo que o impedia: ele não podia atacar aquela coisa caída na poeira, abandonada, arruinada, absolutamente desgraçada. Ele mesmo, embora apenas por pouco tempo, tinha carregado o Anel, e agora adivinhava vagamente a agonia da mente e do corpo murchos de Gollum, escravizados por aquele anel, incapazes de algum dia encontrar outra vez paz ou alívio na vida.

No final, Frodo falha, mas acaba salvo. Ele não joga o Anel no fogo e o reivindica para si. Gollum, então, luta com ele, morde seu dedo e acaba caindo no fogo, destruindo-se a si mesmo e o Anel. Nota-se, por conseguinte, a existência de um poder para além dos personagens, que cuida da Terra Média e traz a salvação, apesar da insuficiência e das falhas dos nossos heróis. E aqueles que, em vez de destruídos pelo poder, são salvos, agem com piedade, respondendo com amor ao sofrimento.

O herói ferido

O herói pode ser misericordioso com aqueles que sofrem porque ele mesmo sofreu. O herói, como qualquer rapaz que se tornou um “homem de verdade”, possui uma cicatriz. Todo homem carrega as cicatrizes — muitas vezes, literalmente — das lutas que precisou vencer para se tornar um homem. Tolkien e Lewis se sentiram atraídos pela literatura nórdica porque os próprios deuses nórdicos têm cicatrizes e são mortais. Eles, como os homens, morreriam na luta contra o mal, combatendo até o fim. Tyr, como Beren, tinha apenas uma mão; ele perdeu uma delas quando derrotou o lobo Fenris. Arthur também é ferido, sendo capaz de curar-se apenas em Avalon.

O soldado que salva seu país vai para a guerra como um menino e volta como um assassino profissional que, como mostra Paul Fussell em “The Great War and Modern Memory” (sem tradução para o português), viu hemorragias e mortes, devendo carregar suas feridas e lembranças para o túmulo. Meu próprio pai morreu por causa dos estilhaços com que ele foi atingido no Oceano Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial.

Frodo foi ferido pela faca envenenada de um Nazgûl, pela Laracna e, sobretudo, pelo peso do Anel que, no final, quase o derrota. Quando volta para o Condado, ele percebe que já não é mais o mesmo, que havia mudado demais.

“Tentei salvar o Condado, e ele foi salvo, mas não para mim. Muitas vezes precisa ser assim, Sam, quando as coisas correm perigo: alguém tem de desistir delas, perdê-las, para que outros possam tê-las.”

O amor abnegado tem uma glória transcendente, mas pode existir apenas em um mundo que tem sofrimento e morte.

A canção do Crucificado

O amor, que só se acha por meio do sofrimento, estava presente na canção dos Ainur no início da criação, como descreve Tolkien em “O Silmarillion”. Quando os Ainur cantam a canção que formou a Terra Média, os rebelados atrapalham a harmonia, introduzindo outras melodias. Ilúvatar, então, canta um tema “profundo, vasto e belo, mas lento e mesclado a uma tristeza incomensurável, na qual sua beleza tivera principalmente origem”.

O espírito rebelde Melkor cantou uma música “alta, fútil e infindavelmente repetitiva”, que tentou “abafar a outra música pela violência da sua voz, mas suas notas mais triunfais pareciam ser adotadas pela outra e entremeadas em seu próprio arranjo solene”. Finalmente, Ilúvatar levantou “e num acorde, mais profundo que o abismo, mais alto que o firmamento, penetrante como a luz do olho de Ilúvatar, a música cessou”. Ele havia cantado a Palavra final, e não havia mais nada a acrescentar.

Tolkien pensava que, nos mitos criados pelo homem, alguém poderia enxergar um leve e distante brilho do Evangelho, a Boa Nova. A característica principal dos contos de fada é a eucatástrofe, uma libertação inesperada e um final feliz. Nessa libertação, maior do que qualquer coisa que se poderia esperar, há um prelúdio, uma alusão, um deleite da libertação final e completa.

No mundo real, a Encarnação foi a eucatástrofe da criação e a Ressurreição, a eucatástrofe da vida do Senhor. A eucatástrofe é possível tanto na ficção como na vida real apenas porque a discatástrofe também é possível. A ressurreição só é possível em mundo onde a morte existe. Os deuses gregos são definitivamente frívolos porque são imortais. Por outro lado, homens e heróis são sérios porque devem enfrentar a morte. Os deuses nórdicos e o Deus verdadeiramente encarnado são sérios, porque eles, como os homens, podem “falhar” e “morrer”. Mesmo na mitologia nórdica, há uma promessa de novos céus e nova terra; na história cristã, por sua vez, foi pelo fracasso e pela morte que o Reino de Deus pôde ser trazido até nós.

Não há outro caminho, portanto, nem Deus tem outra mensagem ou outra Palavra que não seja a do crucificado. E é com este acorde que a música da criação deve ser concluída: “Está consumado”.

Uma história gloriosa

Frodo é considerado um herói moderno, mas o correto seria chamá-lo de herói nórdico ou, melhor dizendo, herói cristão, pois ele segue o padrão da jornada do herói: enfrenta perigos e quase morre para proteger os povos da Terra Média. Mais tarde, retorna com cicatrizes e feridas, e tem de desistir de algo para que outros possam continuar a jornada, não encontrando consolo na vida comum, razão pela qual deixa a Terra Média para sempre.

Frodo é, por conseguinte, um herói cristão porque mostra a glória e a inadequação do heroísmo e, de fato, de todo esforço humano. Fazemos o nosso melhor, e depois falhamos. O sucesso é uma coisa que vem de fora como um raio. O fogo cai sobre o sacrifício que foi preparado, e a preparação é penosa, o amor que reconhece a tristeza de toda vida fadada à morte.

Não obstante, mesmo no fracasso transformado em sucesso, o herói encontra a verdadeira glória. Ele faz parte de uma história; sua vida e sofrimento têm significado. Enquanto Sam e Frodo aguardam pela morte depois da destruição do Anel, Sam se pergunta se alguém saberá de seus atos.

“Fizemos parte de uma grande história, Sr. Frodo, não foi mesmo?”, disse ele. “Gostaria de poder ouvir alguém contando. O senhor acha que eles vão dizer: ‘Agora vem a história de Frodo-dos-nove-dedos e o Anel da Perdição?’”. E após o resgate e a recuperação deles, Sam e Frodo ouviram o menestrel dizer, na cerimônia de honras aos dois: “Vou cantar para vocês sobre Frodo-dos-Nove-Dedos e o Anel de Perdição”.

O grande mérito de “O Senhor dos Anéis” é nos fazer acreditar, enfim, que também fazemos parte de uma jornada ainda mais maravilhosa que aquela. Meninos e adolescentes encontram em “O Senhor dos Anéis” a emoção da aventura e o desafio de tornar-se um homem. Na verdade, eles e outros leitores encontram em Frodo, Sam e demais personagens o mistério da amizade em face da morte e do autossacrifício necessário para que outros possam viver.

O vinho da bem-aventurança

Os heróis da Terra Média encontram ainda algo ao mesmo tempo terrível e reconfortante: Aquele que conta a nossa história conhece nossas tristezas e sofrimentos, que existem desde o início do mundo, mas, felizmente, não têm a última palavra. Ainda maior que a amargura de nossos fracassos, decepções e mortes é o resgate que nos aguarda, rápido e inesperado, que traz uma alegria mais vibrante do que o sofrimento, e somente possível pela existência da tristeza; trata-se do bem provocado pelo mal, mas que supera esse mesmo mal com o amor cujo nome é piedade.

O Senhor dos Anéis” exala misericórdia por toda parte. Tolkien lida com o conflito e a morte, mas não lhes concede a palavra final. A coragem é algo fundamental para a batalha, mas não é mais forte do que a piedade e a misericórdia. O herói cristão luta contra a maldade, e deve derrotar principalmente o mal que existe dentro de si mesmo. Mas não pode fazer isso sozinho. Para vencer, deve saber que, sem o auxílio da graça, a vitória é impossível.

A graça atua pela misericórdia, e usa dela para atingir os seus fins. A misericórdia é, na verdade, o amor que existe no mundo mortal. Tolkien procura justificar os caminhos de Deus para o homem, especialmente o caminho pelo qual o homem encontra duramente o dom da morte. Sem a morte, diz o autor, o homem não conseguiria alcançar o amor maior do autossacrifício, da coragem de morrer pelo outro, como Deus escolheu fazer por nós. De fato, Deus permitiu a morte no mundo para que Ele também pudesse morrer e dar a sua vida pelas suas criaturas.

Para aceitar os fatos mais amargos da vida, é preciso prová-los até o limite do possível. Sam questiona Gandalf: “Eu achei que você estava morto. Depois, achei que eu mesmo estivesse morto. Afinal, tudo que era triste vai se revelar falso?”. “Não”, responde o mago, “mas a alegria é algo que só pode vir após a tristeza”. E Gandalf prossegue dizendo que “a alegria deles era como uma guerra, na qual a dor e o prazer fluem juntos e as lágrimas são o próprio vinho da bem aventurança”.

O herói vai para a morte carregando as suas feridas para a eternidade, e são elas a sua glória, o testemunho de um amor misericordioso que atravessa a própria morte. O Cordeiro é vitorioso principalmente porque sua vitória é a de ser eternamente uma vítima.

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Você daria cocaína para o seu filho?
Educação

Você daria cocaína para o seu filho?

Você daria cocaína para o seu filho?

Você daria a seu filho de sete anos uma garrafa de vinho para ele beber? E sua filha de 12 anos, que acabou de entrar na adolescência, você por acaso lhe daria um punhado de cocaína?

Religión en LibertadTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Maio de 2018
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Você daria a seu filho de sete anos uma garrafa de vinho para ele beber? E sua filha de 12 anos, que acabou de entrar na adolescência, você por acaso lhe daria um punhado de cocaína?

A resposta para essas perguntas parece óbvia, mas é o que acontece muitas vezes, quando se entrega a crianças, sem nenhum tipo de restrição, tablets e smartphones.

É o que afirma Mandy Saligari, especialista em vícios, terapeuta e diretora de uma clínica de reabilitação em Londres, que tem se deparado, nos últimos anos, com uma enxurrada de casos de crianças e adolescentes viciados nessas novas tecnologias.

Há anos que numerosos especialistas em educação vem alertando para esses males, e que neuropsicólogos de prestígio vem avisando dos efeitos negativos que essas tecnologias produzem nas crianças, sem que suas advertências, no entanto, surtam grandes efeitos.

Mandy, assim como muitos outros especialistas, afirma que os pais não têm real consciência da gravidade que é os seus filhos passarem horas e horas diante de uma tela.

“Sempre digo às pessoas: quando você dá a seu filho um tablet ou um telefone, é como se você estivesse realmente lhe dando uma garrafa de vinho ou um punhado de cocaína”, disse Mandy, durante uma conferência educativa em Londres. Ela se perguntava, ao mesmo tempo, “por que prestamos muito menos atenção a essas coisas do que às drogas e ao álcool, quando uma coisa e outra trabalham com os mesmos impulsos cerebrais”.

Nacho Calderón, um prestigiado neuropsicólogo espanhol, assegura que “os celulares e tablets estão gerando déficit de atenção com hiperatividade. Indo aos casos mais extremos, chegaríamos, é claro, a problemas graves de conduta, de agressividade, de isolamento social, e de crianças que só sabem viver através de uma tela”.

Isso ficou patente em um pequeno experimento feito por Dolmio, uma marca britânica de alimentos, com o objetivo de promover as refeições em família. Sem querer, os produtores do comercial se depararam com algo aterrador.

Os protagonistas eram quatro famílias com filhos e o momento escolhido era a hora da refeição. Neste experimento o filho se encontrava sentado à mesa com seu tablet enquanto seus pais preparavam a comida. O objetivo era observar o que faria as crianças deixarem de olhar para a tela, enquanto a realidade ao redor delas fosse se transformando.

Mas a dependência das crianças era tal que elas haviam perdido o contato com o espaço e o tempo, bem como com a realidade de tudo à sua volta. Os pais começaram mudando os quadros e a decoração da sala sem que eles se dessem conta. Também passavam pela sala com objetos estranhos e com capacetes de vikings, por exemplo. Mas nada disso fazia seus filhos erguerem a cabeça.

O experimento foi mais além e seus pais foram trocados por outros adultos que simplesmente vestiam roupas da mesma cor. As crianças não notaram nada, apesar de eles se moverem de um lado para o outro. Inclusive seus irmãos foram trocados por outras crianças, que chegaram a se sentar à mesa com eles. Nem assim, porém, eles perceberam o que acontecia.

Só uma coisa fez com que eles levantassem os olhos: o momento em que se desligou a internet. As crianças tiveram então uma grande surpresa, ao notarem o que havia ocorrido.

Mas esse é apenas um exemplo recente do que está acontecendo em tantos lares onde as telas já constituem como que uma “extensão” das mãos de crianças e adolescentes. As cifras são arrepiantes.

Mandy recorda que inúmeras crianças de 13 anos são tratadas por vício em tecnologia digital e que dois terços dos britânicos entre 12 e 15 anos não conseguem ter um equilíbrio entre o tempo em que estão em frente a esses dispositivos e outras atividades.

Vícios são “um padrão de comportamento que pode se manifestar de diferentes maneiras”.

Quando pensam em vícios — adverte essa especialista —, o pensamento dos pais se dirige a coisas específicas ou a determinados tipos de substância, mas, na realidade, a dependência é “um padrão de comportamento que pode se manifestar de diferentes maneiras”.

Um problema ligado a esse é o aumento no número de menores de idade que enviam e receberam imagens pornográficas, ou que acessam conteúdos impróprios para sua idade a partir dos dispositivos que têm em mãos.

Mandy afirma que dois terços dos pacientes de sua clínica têm entre 16 e 20 anos, um “aumento dramático” em relação a 10 anos atrás. “Muitas de minhas pacientes são meninas de 13 e 14 anos, envolvidas com os chamados nudes, e descrevendo-os como coisas ‘completamente normais’.”

Segundo sua experiência, muitas dessas meninas acreditam que enviar uma foto de si mesmas nuas a alguém, através de um telefone, é algo “normal”, desde que o pai ou um adulto não descubra o que está acontecendo.

Por essa razão, muitos especialistas como ela estão de acordo em que deve existir um maior controle dos pais nessa matéria. 40% dos pais de filhos entre 12 e 15 anos confessam que acham difícil controlar o tempo que seus filhos passam diante desses dispositivos. O resultado é que, mesmo morando sob o mesmo teto que seus pais, as crianças e adolescentes de hoje recebem estímulos e influência de uma porção de pessoas e lugares, menos daqueles que os geraram e que realmente os deveriam educar.

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Existe “cura gay”?
Doutrina

Existe “cura gay”?

Existe “cura gay”?

“A ‘cura gay’ não é aquilo que muitas vezes as pessoas pensam”. Uma resposta firme, equilibrada e católica para a delicada questão da homossexualidade.

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Maio de 2018
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É bastante conhecida a orientação da Igreja às pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo. O Catecismo da Igreja Católica diz, em seu parágrafo 2359, que:

As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes de autodomínio, educadoras da liberdade interior, às vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem se aproximar, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.

O que muitas vezes se pergunta é se a Igreja não estaria exigindo demais dos homossexuais, pedindo-lhes que vivam a castidade. Não seria um fardo demasiado pesado para se carregar? Por que não “liberar” simplesmente que essas pessoas vivam seus desejos e “abrir” a doutrina da Igreja a esse tipo de situação?

Essas perguntas dizem respeito à realidade de “um número não negligenciável de homens e de mulheres”, que “apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas” (Catecismo, § 2358). Por isso, exigem uma resposta elaborada, minuciosa e profunda — justamente o que Padre Paulo Ricardo faz neste breve vídeo, extraído de nosso episódio ao vivo “Masturbação: nunca mais”.

Trocando em miúdos o que explica o padre, temos o seguinte.

Em primeiro lugar, “é perfeitamente possível ser feliz sem praticar sexo”. A frase pode escandalizar a muitos, mas é isso mesmo. As pessoas só pensam o contrário porque ficaram cegas, obstinadas no pecado, e não querem ouvir nada que aponte o erro de seus maus hábitos:

A imoralidade desenfreada que reina no mundo de hoje é uma das causas principalíssimas — a mais importante depois da propaganda materialista e ateia — da descristianização cada vez maior da sociedade moderna. O mesmo Cristo nos avisa no Evangelho que “todo o que pratica o mal odeia a luz” (Jo 3, 20). Não há nada que cegue tanto como a obstinação no pecado. [1]

Muita gente confunde, além disso, “felicidade” com “prazer”. Enquanto esta é uma sensação principalmente animal, a primeira experiência só pode ser feita pelos seres humanos, detentores que são de uma alma imortal.

A doutrina católica é clara em indicar que a suma felicidade de nossa vida consiste em conhecer e amar a Deus. Todo o resto, portanto, deve subordinar-se a isso. Se estamos fazendo o contrário, somos nós quem devemos mudar, não a Igreja. São os homens que precisam converter-se a Deus, mudar a própria mentalidade e vida, e conformá-los à vontade divina. Propor o contrário seria paganizar a religião e colocá-la a serviço de nossos interesses.

Em segundo lugar, “a ‘cura gay’ não é aquilo que muitas vezes as pessoas pensam”. Como a expressão “cura gay” já gerou muitos mal entendidos, expliquemos o que queremos dizer com ela. Se existe uma “cura gay”, ela não consiste em fazer uma pessoa, que tem atração pelo mesmo sexo, sentir-se atraída pelo sexo oposto. Uma cura da sexualidade humana que se queira “integral” precisa colocar em relevo, sempre, o sexo compatível com a santidade: para quem deseja seguir a Cristo, o ato sexual só pode ser realizado dentro do Matrimônio e de um modo que não se feche à transmissão da vida.

O porquê desse ensinamento da Igreja poderia ser tranquilamente destrinchado tanto racionalmente quanto a partir da Revelação divina. Mas isso nos levaria longe demais. O que importa saber, à luz disso, é que o modo como nossa sociedade, de modo geral, vem vivendo a sexualidade, precisa ser profundamente transformado. Não são apenas os homossexuais, portanto, que precisam de curar-se. Um casal de namorados que se relaciona antes de casar-se, um cônjuge que trai a própria esposa, um jovem que vive afundado na masturbação e na pornografia, todos precisam ter a própria sexualidade curada. A Igreja não é homofóbica. O seu convite à castidade estende-se a todos os seus filhos, indiscriminadamente.

Por fim, “o celibato é o tempero da moral sexual”. Convidar as pessoas à castidade pode significar muitas vezes, até para pessoas casadas, uma renúncia, provisória ou definitiva, ao ato conjugal. Por isso, falar de celibato não pode ser um “bicho de sete cabeças” — como parece ser em muitos ambientes, de Igreja até! Por trás de uma omissão a esse respeito está escondida muitas vezes a ideia de que é impossível ser feliz e realizar-se sem sexo. Ou seja, estamos reduzindo a doutrina moral da Igreja aos postulados da revolução sexual.

A pergunta que precisamos nos fazer, ao fim e ao cabo, é se acreditamos mais em Freud ou em Jesus Cristo; se damos mais crédito ao que assistimos na televisão ou ao que lemos e ouvimos da Palavra de Deus. Só se tivermos fé no que nos ensina a Igreja, afinal, poderemos cumprir o que ela — não em seu próprio nome, mas em nome de Cristo — nos manda. Como diz G. K. Chesterton, “não é que o ideal cristão tenha sido tentado e considerado imperfeito; ele foi considerado difícil sem nem mesmo ser tentado” [2].

Tentemos, pois! O que está em jogo é a nossa realização neste mundo — e a nossa eterna salvação no outro.

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Os falecidos não podem nos trazer mensagens do além?
Doutrina

Os falecidos não podem
nos trazer mensagens do além?

Os falecidos não podem nos trazer mensagens do além?

Para sabermos o que acontece depois da morte, não necessitamos perturbar o repouso dos falecidos. Deus escolheu outro caminho para nos instruir sobre o sentido da vida e o destino eterno que teremos.

Frei Boaventura Kloppenburg22 de Maio de 2018
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Não é permitido, como já vimos, evocar as almas de pessoas que já morreram, prática muito comum no espiritismo. Mas por que tão rigorosa interdição, afinal? Não poderíamos ser positivamente ajudados pela instrução dos falecidos? Ou quererá Deus deixar-nos na ignorância acerca dos acontecimentos depois da morte?

O próprio Jesus nos deu a resposta na parábola do pobre Lázaro e do rico epulão (cf. Lc 16, 19-31). Ambos morrem e são julgados, cada um de acordo com a vida que levou nesta terra. Lázaro “foi levado pelos anjos ao seio de Abraão”, isto é, ao céu. O rico avarento é condenado ao inferno.

A diferença entre os dois, depois da morte, é grande. O falecido rico gozador implora: “Pai Abraão, tem piedade de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo para me refrescar a língua, pois estou torturado nesta chama”. Mas a separação entre ambos é definitiva e a comunicação, impossível. A resposta do céu é clara e dura: “Entre vós e nós existe um grande abismo, de modo que aqueles que quiserem passar daqui para junto de vós não o podem, nem tampouco atravessarem os de lá até nós” (v. 26).

“A alma de Lázaro levada para junto de Abraão”, Mestre de James IV da Escócia.

O falecido epulão insiste num pedido com filantrópica proposta: “Pai, eu te suplico, envia então Lázaro até a casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; que ele os advirta, para que não venham eles também para este lugar de tormento”. Era uma sugestão que parecia muito boa. Estabelecer-se-ia um útil intercâmbio entre os do além, com seus novos conhecimentos, e os da terra, sempre necessitados de esclarecimento e orientação. No entanto, a resposta do céu é seca: “Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam!” (v. 29).

Mas o proponente insiste, com uma justificação: “Não, pai Abraão, se alguém dentre os mortos for procurá-los, eles se converterão”. A razão parecia óbvia. É a solução proposta também pelos atuais movimentos espiritistas. Se é verdade que as almas dos falecidos sobrevivem conscientemente e que elas continuam solidárias conosco, afirmações que são corroboradas pela Bíblia e ensinadas pela Igreja Católica, por que não poderia o Criador escolher esta via para trazer revelações úteis do além? A resposta do céu, entretanto, segundo Jesus, é sem rodeios: “Se não escutam nem a Moisés nem aos Profetas, mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não se convencerão” (v. 31).

É a rejeição pura e simples da via espiritista [1].

Deus certamente “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4). Ele não quer deixar-nos na ignorância. Mas o Criador dos homens escolheu outra via para instruí-los sobre o sentido da vida e o destino eterno. Na Constituição dogmática Dei Verbum, de 1965, o Concílio Vaticano II resume no n. 2 assim o plano divino da revelação:

Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tomar conhecido o mistério de sua vontade (cf. Ef 1, 9), pelo qual os homens, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, e, no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina. Mediante esta revelação, portanto, o Deus invisível, levado por seu grande amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33, 11; Jo 15, 14-15), e com eles se entretém para os convidar à comunhão consigo e nela os receber.

Este plano de revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si, de forma que as obras realizadas por Deus na história da salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras. Estas, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido. No entanto, o conteúdo profundo da verdade, seja a respeito de Deus, seja da salvação do homem, se nos manifesta por meio dessa revelação em Cristo, que é ao mesmo tempo mediador e plenitude de toda a revelação.

Deste plano de revelação estão excluídos os falecidos. Depois de Moisés e dos Profetas, Deus nos enviou seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os homens, para que habitasse entre os homens e lhes expusesse os segredos de Deus (cf. Jo 1, 1-18). Com Jesus recebemos a plenitude da revelação necessária para a nossa salvação.

  • Ele se apresenta a si mesmo com uma declaração solene: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6).
  • Ele está “cheio de verdade” (Jo 1, 14).
  • “Nele se acham escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2, 3).
  • Ele é pessoalmente o anunciado e prometido Emanuel, Deus-com-os-homens. Ele é para nós como a nuvem luminosa do Êxodo: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8, 12).
  • Ele é a luz das gentes (cf. Lc 2, 32), o sol nascente que ilumina os que estão nas trevas (cf. Lc 1, 78s).
  • “Eu, a luz, vim ao mundo para que aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (Jo 12, 46).

Não necessitamos perturbar o repouso dos falecidos (cf. 1Sm 28, 15). O Concílio Vaticano II, na citada Constituição Dei Verbum (n. 4b), nos garante que “a economia cristã, como aliança nova e definitiva, jamais passará, e já não há que esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Tm 6, 14; Tt 2, 13)”.

Não haverá “terceira revelação”.

O espiritismo, que pretende ser precisamente esta “terceira revelação”, não só não entra nos planos de Deus Revelador, mas se opõe à economia divina.

Referências

  • Trecho extraído e levemente adaptado de “Espiritismo: Orientação para Católicos”. 9.ª ed., São Paulo: Loyola, 2014, pp. 54-56.

Notas

  1. O que dizer, então, das aparições de almas do Purgatório, as quais já relatamos aqui em algumas oportunidades? Elas devem ser entendidas como milagres, permissões extraordinárias de Deus. “Quem negará a Deus todo-poderoso”, afinal, “a capacidade de enviar-nos seus mensageiros? Quando Deus manda, a iniciativa é sua; e a conseqüente manifestação do além toma para nós um caráter espontâneo. Bem outra é a situação quando a iniciativa é nossa, querendo nós provocar alguma conversação com entidade do além.”

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Se você usa camisinha, este texto é para você
Doutrina

Se você usa camisinha,
este texto é para você

Se você usa camisinha, este texto é para você

O tempo provou onde a sabedoria está. É hora de admitir o óbvio. Se você tem o costume de usar camisinha, pílulas e outros métodos contraceptivos, este texto é para você.

Mons. Charles Pope,  Community in MissionTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Maio de 2018
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Para falar sobre assédio e abuso sexual em nossa cultura, nós faríamos muito bem em avaliar o quanto a “mentalidade contraceptiva” contribuiu para muitos dos problemas que estamos enfrentando hoje.

De acordo com essa visão de mundo, não haveria qualquer conexão necessária entre sexo e geração de filhos: o que Deus uniu… foi arbitrariamente separado. Isso levou a uma enorme confusão quanto à natureza e ao fim da intimidade sexual, bem como quanto ao que sejam Matrimônio e família. Muitos tratam o sexo de maneira frívola e leviana; pensam erroneamente que o sexo pode ser vivido sem consequências; e, como temos visto em notícias recentes, muitos homens já não veem as mulheres como esposas, mães e pessoas que devem ser respeitadas, mas como objetos a ser explorados.

Duas gerações se passaram desde a publicação da corajosa e profética encíclica Humanae Vitae, a qual manteve a antiga condenação da Igreja ao uso da contracepção artificial. E talvez nenhum outro ensinamento da Igreja provoque tanto escárnio (mesmo entre os católicos) quanto esse sobre a regulação da natalidade. “Absurdo!”, dizem alguns. “Fora de cogitação!”, meneiam a cabeça. “Ridículo!”, fazem troça. “Você só pode estar brincando!”

Mas o tempo cuidou de provar onde estava a sabedoria (cf. Mt 11, 16-19). Cerca de cinquenta anos após a aceitação generalizada da contracepção, como nós estamos? Talvez seja melhor rever algumas das “promessas” que os defensores da contracepção fizeram e, então, fazer um paralelo com algumas das profecias do Beato Papa Paulo VI. Revisemos os registros e tomemos nota de quais foram, afinal, os “frutos” da contracepção.

As promessas dos defensores da contracepção eram:

  • Casamentos mais felizes e menos divórcios, porque os casais seriam capazes de ter tantas relações quanto quisessem sem o “medo” da gravidez.
  • Menor número de abortos porque haveria bem menos casos de gravidez “indesejada”.
  • Maior dignidade para as mulheres porque elas não estariam mais “presas” a seus sistemas reprodutivos.
  • Uma promessa mais recente: redução das doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e da AIDS.

As preocupações e previsões do Papa Paulo VI, no n. 17 da Humanae Vitae, eram as seguintes:

Considerem, antes de mais, o caminho amplo e fácil que tais métodos abririam à infidelidade conjugal e à degradação da moralidade.

Não é preciso ter muita experiência para conhecer a fraqueza humana e para compreender que os homens — os jovens especialmente, tão vulneráveis neste ponto — precisam de estímulo para serem fiéis à lei moral e não se lhes deve proporcionar qualquer meio fácil para eles eludirem a sua observância.

É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada.

Pense-se ainda seriamente na arma perigosa que se viria a pôr nas mãos de autoridades públicas, pouco preocupadas com exigências morais. Quem poderia reprovar a um governo o fato de ele aplicar à solução dos problemas da coletividade aquilo que viesse a ser reconhecido como lícito aos cônjuges para a solução de um problema familiar? Quem impediria os governantes de favorecerem e até mesmo de imporem às suas populações, se o julgassem necessário, o método de contracepção que eles reputassem mais eficaz?

Quem estava, pois, com a razão? O mundo ou a Igreja? Vamos considerar alguns dados.

Em primeiro lugar, a taxa de divórcios não diminuiu; disparou. Nos Estados Unidos, a taxa de divórcios subiu na década de 1970 e depois até quase 50% dos casamentos estavam em crise. Nos últimos anos, o número de divórcios caiu ligeiramente, mas isso só deve ao fato de que cada vez menos pessoas querem se casar, preferindo, ao invés, coabitar ou relacionar-se em uma espécie de monogamia em série, pulando de um relacionamento para outro. A taxa geral de divórcio atualmente paira na faixa de 40%.

Os defensores da contracepção hoje reclamam que o divórcio é um assunto complicado, o que certamente é verdade, mas eles não podem ficar dos dois lados: primeiro dizem que a contracepção será uma solução “simples” para tornar os casamentos mais felizes e, depois, quando percebem tão drasticamente que estão errados, reclamam que o divórcio é complicado. O Papa Paulo VI, por outro lado, previu a maré difícil para o casamento com o advento da contracepção; parece que ele estava certo.

Em segundo lugar, a taxa de abortos não diminuiu; disparou também. Em poucos anos, a pressão para tornar o aborto mais acessível levou à sua legalização em 1973, nos Estados Unidos. Já está provado que os contraceptivos, longe de diminuírem a taxa de abortos, na verdade, só a fizeram aumentar. Como os contraceptivos costumam falhar, o aborto tem se tornado o último recurso para os casais que não querem ter filhos.

Além disso, como previu o Papa, a imoralidade sexual foi amplamente disseminada; e também isso tem levado a altas taxas de aborto. É difícil comparar os índices de promiscuidade entre as épocas porque as pessoas não costumam contar a verdade quando perguntadas sobre essas coisas. Mas alguém precisa ser muito míope para não perceber o aumento vertiginoso da promiscuidade aberta, da coabitação, da pornografia e de outras imoralidades. Todos esses maus comportamentos, que se tornaram mais comuns pelos contraceptivos, também alimentaram as taxas de aborto. Mais um ponto em que a previsão do Papa e da Igreja se mostrou certa.

Consideremos, em terceiro lugar, a dignidade da mulher. Trata-se de algo difícil de estimar, porque cada pessoa tem seus próprios critérios para medi-la. As mulheres têm, de fato, grandes oportunidades profissionais hoje, mas será essa realmente a fonte da dignidade de uma pessoa?

A dignidade de alguém certamente envolve mais que suas capacidades econômicas. Infelizmente, a maternidade foi para o banco de trás na cultura popular e, como o Papa previu, as mulheres foram hipersexualizadas também. Sua dignidade como mães e esposas foi posta de lado e substituída pelo prazer sexual que elas oferecem aos homens.

Muitos homens modernos, não mais obrigados ao casamento para terem satisfação sexual, usam e abusam das mulheres. Eles simplesmente “pegam o que querem” e muitas delas parecem dispostas a lhes fornecer isso livremente. Neste cenário, os homens “vencem”. As mulheres ainda são frequentemente infectadas por DSTs e abandonadas com seus filhos, os quais têm de assistir e educar sozinhas. E, quanto mais ficam velhas e “menos atraentes” para os homens, mais sozinhas ficam. Eu não estou muito certo de que isso seja dignidade.

Teriam as mulheres realmente se beneficiado com essa nova moralidade que a contracepção ajudou a inaugurar? Aparentemente, o Papa estava certo mais uma vez.

Em quarto lugar, o que dizer da contracepção como fator que previne e reduz as DSTs ou a AIDS? Novamente, uma grande decepção. As DSTs não foram prevenidas nem diminuíram. A taxa de infecções disparou entre os anos 1970 e 1980. A AIDS, que surgiu neste mesmo período, continua a apresentar taxas terrivelmente altas. Onde está a libertação prometida?

Os contraceptivos previnem muito pouco. O que eles fazem, na verdade, é encorajar a propagação dessas doenças, pois promovem o mau comportamento que as causa. Aqui, também, a Igreja estava certa e o mundo, errado.

O tempo cuidou de mostrar, portanto, onde estava a sabedoria. O que aprendemos ao longo destas décadas de contracepção? Primeiro, que é um grande erro acreditar em suas promessas; os contraceptivos só tornaram as coisas piores do que já estavam. Maus comportamentos têm sido estimulados e todas as consequências ruins decorrentes disso estão vindo à tona.

Por outro lado, a maioria das pessoas parece desinteressada nesses dados. Os corações se tornaram entorpecidos e as inteligências se encontram adormecidas. Apesar disso, espero que você considere com cuidado essas informações, compartilhando-as com outras pessoas. O tempo provou onde a sabedoria está. É hora de admitir o óbvio.

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