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Por que o milagre de São Januário é tão importante?
EspiritualidadeSantos & Mártires

Por que o milagre de
São Januário é tão importante?

Por que o milagre de São Januário é tão importante?

O mundo inteiro está falando do sangue de São Januário. Mas você sabe, afinal, em que consiste o milagre da sua liquefação e o que ele realmente significa?

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Dezembro de 2016
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Não é a primeira vez que o milagre da liquefação do sangue de São Januário vira notícia recentemente. Em 21 de março de 2015, dia incomum para a ocorrência do fenômeno, os restos sanguíneos do padroeiro de Nápoles se dissolveram à vista do Papa Francisco. Agora, no último dia 16 de dezembro, o que causou estranheza mundo afora foi justamente a ausência do milagre, a qual, como já dito, "sempre esteve ligada a momentos nefastos da história da cidade" italiana.

Considerando toda a atenção que se vem dando a este acontecimento de caráter realmente sobrenatural, transcrevemos abaixo uma pequena matéria, publicada no blog português Senza Pagare, que descreve de modo bem resumido em que consiste este milagre e qual é, afinal, a sua importância.

No passado dia 16 de dezembro, ao contrário do habitual, não aconteceu o milagre da liquefação do sangue de S. Januário, em Nápoles.

Este milagre acontece 3 vezes por ano: 19 de setembro, dia de S. Januário; 16 de dezembro, porque nesse dia, em 1631, foi feita uma procissão com as relíquias de S. Januário que impediu a iminente erupção do vulcão Vesúvio; no sábado que antecede o primeiro domingo de maio, dia da primeira trasladação do corpo do santo.

As datas da liquefação do sangue de São Januário são celebradas com grande pompa e esplendor.

As relíquias são expostas ao público, e se a liquefação não se verifica imediatamente, iniciam-se preces coletivas. Se o milagre tarda, os fiéis convencem-se de que a demora se deve aos seus pecados. Rezam então orações penitenciais, como o salmo " Miserere".

Quando o milagre ocorre, o Clero entoa um solene Te Deum, a multidão irrompe em vivas, os sinos repicam e toda a cidade rejubila.

Entretanto, sempre que nas datas costumeiras o sangue não se liquefaz, isso significa o aviso de tristes acontecimentos vindouros, segundo uma antiga tradição nunca desmentida.

O sangue de São Januário está recolhido em duas ampolas de vidro, hermeticamente fechadas, protegido por duas lâminas de cristal transparente. A ampola maior possui 60 cm cúbicos de volume; a menor tem capacidade de 25 cm cúbicos. Em geral, o sangue endurecido ocupa até a metade da ampola maior; na menor, encontra-se disperso em fragmentos.

A liquefação do sangue produz-se espontaneamente, sob as mais variadas circunstâncias, independentemente da temperatura ou do movimento, o sangue passa do estado pastoso ao fluido e, até, fluidíssimo. A liquefação ocorre da periferia para o centro e vice-versa. Algumas vezes, o sangue liquefaz-se instantânea e inteiramente, ou, por vezes, permanece um denso coágulo em meio ao resto liquefeito. Varia o colorido: desde o vermelho mais escuro até o rubro mais vivo. Não poucas vezes surgem bolhas e sangue fresco e espumante sobe rapidamente até o topo da ampola maior.

Trata-se verdadeiramente de sangue humano, comprovado por análises espectroscópicas.

Há algumas peculiaridades, que constituem outros milagres dentro do milagre liquefação, há uma variação do volume: algumas vezes diminui e outras vezes aumenta até o dobro. Varia também quanto à massa e quanto ao peso. Em janeiro de 1991, o Professor G. Sperindeo fazendo uso, com o máximo cuidado, de aparelhos de alta precisão, encontrou uma variação de cerca de 25 gramas. O peso aumentava enquanto o volume diminuía. Esse acréscimo de peso contraria frontalmente o princípio da conservação da massa e é absolutamente inexplicável, pois as ampolas encontram-se hermeticamente fechadas, sem possibilidade de receber acréscimo de substâncias do exterior.

A notícia escrita mais antiga e segura do milagre consta de uma crônica do século XIV. Desde 1659, estão rigorosamente anotadas todas as liquefações, que já perfazem mais de dez mil!

Quanto à chave de interpretação com que devemos ler esse milagre (ou, no caso, a ausência dele), é a reação dos próprios fiéis napolitanos que nos ensina: "Se o milagre tarda, os fiéis convencem-se de que a demora se deve aos seus pecados". É a luta contra os nossos pecados, portanto, o que nos deve preocupar de modo especial ao sabermos que São Januário não quis operar o seu costumeiro milagre diante do povo de Nápoles.

Mais do que traçar conjecturas sobre o que acontecerá no mundo, mais do que perguntar que tipo de desgraça pode se abater sobre a humanidade, o momento presente pede oração e penitência. E essa é a mensagem não apenas do sangue de San Gennaro (como o chamam os italianos) ou da aparição de Nossa Senhora em Fátima, cujo centenário está às portas, mas de toda a revelação cristã. "Se não vos converterdes", afinal, diz o próprio Senhor, "perecereis todos do mesmo modo" (Lc 13, 3).

Essas palavras são muito sérias. O cristianismo é coisa muitíssimo séria. Mas, pelo visto, poucos de nós estão dispostos a emendar-se de vida e atender aos apelos que o próprio Céu nos tem feito com tanta insistência, especialmente nas últimas décadas. Nossos pecados se multiplicam indefinidamente, levando-nos para longe da presença de Deus, como mostrou a Virgem de Fátima aos três pastorinhos, e nós ficamos a pensar em que tipo de catástrofe se irá suceder aqui ou acolá, este ano ou ano que vem, preocupados com desastres físicos e materiais. Quando vamos acordar e perceber que a pior tragédia de todas se chama perdição das almas e já está acontecendo há muito tempo? Quando vamos abrir os olhos da fé, afinal, para enxergarmos o mundo sobrenatural à nossa volta e tomarmos então consciência verdadeira da situação em que nos encontramos?

Repitamos com o venerável bispo norte-americano Fulton Sheen uma verdade mais do que necessária para tempos conturbados como os nossos: "Se as almas não forem salvas, nada se salvará". As almas, as almas cuja salvação sempre foi a lei suprema da Igreja, as almas cujo preço foi o próprio sangue de Cristo derramado na Cruz: são elas a nossa meta, porque são elas a meta de Deus! Que eventos como o milagre de São Januário — ou o silêncio de São Januário — sirvam para lembrar-nos desta realidade e ressuscitem aqueles que estão na morte do pecado para a vida sobrenatural da graça.

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Pecado mortal, inferno antecipado
Espiritualidade

Pecado mortal, inferno antecipado

Pecado mortal, inferno antecipado

“Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará.”

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Outubro de 2018
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Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, amados e muitos queridos irmãos em Cristo Jesus, eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo e conforto no precioso sangue do seu Filho, desejosa de vos ver como verdadeiros filhos, sempre vivendo no autêntico e santo temor de Deus, de maneira que jamais desprezeis o sangue de Cristo.

Muito ao contrário, vós deveis desprezar e abominar o pecado mortal, que ocasionou a morte do Filho de Deus. De fato, bem merece repreensão quem entrega o próprio corpo à maldade e à impureza. Pensando na perfeita união de Deus com a humanidade, meus queridos irmãos, quero que isso não aconteça convosco. Especialmente tu, Vanni! Põe tua alma diante dos olhos, bem como a brevidade. Lembra-te de que deves morrer e não sabes quando. Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará. Mas convido os três a sacrificar os próprios corpos e a aceitar morrer por Cristo crucificado (na Cruzada), se for preciso. Antes disso, até que chegue a hora, quero que sejais santamente virtuosos confessando-vos e alegrando-vos sempre em ouvir a Palavra de Deus. Porque, como o corpo não pode ficar sem o alimento, também a alma não pode ficar sem ouvir a Palavra de Deus. Cuidado com os maus companheiros, pois seriam um obstáculo ao bom propósito.

Nada mais acrescento. Queridos e bondosos irmãos em Cristo Jesus, permanecei no santo e doce amor de Deus [1].

Como muitos outros grandes santos e místicos da Igreja, Santa Catarina de Sena escolheu passar a vida no meio do mundo. Ela estava imersa em Deus, sim, mas justamente por amor a Ele, vivia “com as mãos na massa”, entregando-se ao apostolado, levantando as pessoas à sua volta e levando-as à comunhão com o Deus que ela mesma havia encontrado. A carta acima, aqui transcrita na íntegra, é apenas um exemplo das muitas correspondências que ela escreveu alertando seus filhos espirituais do perigo do pecado mortal.

Nesta carta em especial, a santa fala da importância de “desprezar e abominar o pecado mortal, que ocasionou a morte do Filho de Deus”.

Quando pecamos mortalmente — isto é, quando nos afastamos gravemente da lei de Deus querendo e sabendo o que estamos fazendo —, é como se serrássemos o próprio galho em que estamos sentados: o pecado grave corta nosso relacionamento com o autor da vida, com o sustentador do nosso ser, com Aquele que nos concede todas as graças de que precisamos. De modo que — é o que sempre ensinou a Igreja e é o que repete Santa Catarina nesta carta — se morrêssemos nessa condição, nosso destino eterno seria o inferno: “Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará.”

Ao que tudo indica, Santa Catarina escrevia a uma pessoa que já tinha fé católica. Hoje, porém, antes de recomendar às pessoas que se arrependam de seus pecados e procurem um padre para se confessarem, é necessário que primeiro elas creiam! Precisamos nos convencer de que, como diz Nosso Senhor no Evangelho, “se alguém não permanecer em mim, será lançado fora”, “secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo e será queimado” (Jo 15, 6). As mil justificativas que nossa cabeça tenta arrumar para pecarmos — ou pior, para vivermos afundados na lama do pecado — não passam de tentações e precisam ser afastadas sem demora. O que está em jogo é nossa salvação eterna.

Mas o inferno de quem vive em pecado mortal se antecipa, de certo modo, já nesta vida. O martelo do “Rei de tremenda majestade” nem sentenciou ainda a alma ao inferno, e ela já sofre nesta vida as terríveis consequências de seu alijamento de Deus. A começar pelo fato de que, quando cai no pecado, a primeira coisa que costuma fazer o pecador é deixar a vida de oração.

Se estivesse realmente disposto a sair do buraco em que se enfiou — ou seja, se visse no pecado que cometeu o que ele deveria ser de fato: uma queda, após a qual é preciso levantar-se rápido, sem demora —, o pecador não tardaria a se pôr de joelhos, suscitar em seu coração um arrependimento vivo de sua culpa e suplicar o perdão divino pelo que fez. Mas não… ele prefere voltar as costas a Deus e levar a vida como se nada tivesse acontecido, adiando sua Confissão e conversão verdadeira para “amanhã, semana que vem ou mês que vem, quem sabe”…

Nessa toada, os dias de quem vive no pecado mortal se transformam ou em remorso ou em falta de fé. Ou a pessoa sente constantemente os “remordimentos” de sua consciência, chamando-a de volta para o caminho que abandonou, ou faz calar essa incômoda voz e deixa de acreditar em Deus, no pecado e no inferno, abraçando de uma vez a falsa paz do mundo. Assim é o inferno antecipado dos que perderam a graça de Deus: estão condenados ou à amargura ou à infidelidade, ou à desobediência ou ao ateísmo, ou a viver fugindo ou a viver negando a Verdade.

Para não cairmos nessa tragédia, é preciso que fortaleçamos a nossa fé: em Deus, em Cristo e na Igreja, sim, mas também no pecado, porque há muitos hoje na Igreja que dizem crer em Deus, mas que, ao mesmo tempo, perderam completamente a noção do pecado.

Não aconteça isso conosco! Coloquemos de uma vez por todas em nossa cabeça que o pecado mortal não é um simples acidente de percurso… Não, ele é o desviamento total da rota, é o veículo que deu perda total e do qual precisamos sair o quanto antes, antes que exploda, ainda que tenhamos fazer o caminho a pé, vivendo em constante penitência por nossos erros.

Quem caiu, portanto, levante-se logo e passe a viver o quanto antes “no autêntico e santo temor de Deus”. Não venhamos a desprezar, com nosso proceder, o preciosíssimo sangue de Cristo, derramado no madeiro para nossa salvação. Trabalhemos em nossa conversão com a urgência que essa obra reclama.

Referências

  1. Santa Catarina de Sena, Carta 157, “Conselho aos jovens”. In: Cartas Completas (trad. de João Alves Basílio). São Paulo: Paulus: 2016, pp. 524-25.

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Se Cristo andava com os pecadores, por que nem todos podem comungar?
Doutrina

Se Cristo andava com os pecadores,
por que nem todos podem comungar?

Se Cristo andava com os pecadores, por que nem todos podem comungar?

Se Jesus Cristo comia e bebia com os pecadores durante sua vida pública, por que nem todos podem comungar do Corpo e Sangue de Nosso Senhor na Eucaristia?

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Outubro de 2018
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Quem nunca ouviu versículos bíblicos sendo usados para a defesa de opiniões as mais disparatadas? Há alguns anos, em um vídeo que viralizou na internet, o Fantástico exibia o caso de um pastor protestante que, a partir de um versículo mal lido de Oséias, tinha chegado à conclusão (!) de que deveria “adulterar” uma fiel de sua igreja.

É claro que esse exemplo chega às raias do ridículo, mas serve para nos recordar como o ser humano pode distorcer e abusar do que Deus colocou à sua disposição. Antes de pensarmos, por exemplo, que uma citação da Escritura seja suficiente para legitimar uma posição qualquer, lembremo-nos que o próprio Satanás serviu-se de passagens sagradas fora de seu contexto para tentar Jesus no deserto (cf. Mt 4, 1-11; Mc 1, 12-13; Lc 4, 1-13).

Pois bem, assim como o inimigo de Deus conhece as Escrituras, também os inimigos da Igreja as conhecem, e até nosso orgulho ou vaidade pode se servir mal desse instrumento divino, fazendo com que nos iludamos ou, até pior, que façamos a cabeça de outras pessoas.

Um argumento muito comum, por exemplo, usado para justificar na Igreja o acesso indiscriminado à Sagrada Comunhão, ou até mesmo para defender uma vida de pecado, é o de que “Jesus comia e bebia com os pecadores”. — Se Ele se sentava à mesa com publicanos e pecadores públicos, se andava com eles e até se deixava tocar por eles, como aquela hemorroíssa que ficou curada apenas por encostar na orla de seu manto… quem seríamos nós, ou até: quem é a Igreja (quem são os padres!?) — diz-se com ares de orgulho — para dizer a este ou aquele pecador que não deve se aproximar da Comunhão, ou que não deve fazer tal e tal coisa?

À parte o fato de que Nosso Senhor, falando aos Apóstolos, disse: “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10, 16), e ainda: “Tudo o que ligardes na terra será ligado nos céus” (Mt 18, 18) — e por isso a Igreja tem toda autoridade para regular as coisas espirituais —, o argumento de que Jesus andava com pecadores (e, portanto, todos podem comungar) parece poderoso aos que o escutam pela primeira vez, mas é falho. E é Santo Tomás de Aquino que identifica o erro e resolve o problema, em sua Suma Teológica (cf. III, q. 80, a. 4, ad 1):

Quando Cristo aparecia no seu aspecto próprio, não se deixava tocar pelas pessoas como sinal de uma união espiritual com ele, como é o caso na Eucaristia. Por isso, os pecadores, que o tocavam na sua própria figura, não cometiam nenhum crime de falsidade a respeito das realidades divinas, como o fazem os pecadores que comungam.

Cristo então estava ainda na “condição da nossa carne de pecado”. Era natural, pois, que ele se deixasse tocar pelos pecadores. Ora, tendo sido afastada a “condição da nossa carne de pecado” pela glória da ressurreição, ele proíbe de tocá-lo à mulher que mostrava falta de fé a respeito dele: “Não me retenhas, pois eu ainda não subi para o meu Pai” (Jo 20, 17), a saber, “no teu coração”, como Agostinho explica. Assim, os pecadores, que carecem da fé formada a respeito de Cristo, devem ser afastados da comunhão.

O argumento colocado pelo Aquinate é muito simples: tocar em Cristo é diferente de unir-se a Ele, assim como uma mulher casada pode ter contato com muitas pessoas, mas só com o seu marido ela mantém um relacionamento íntimo. É claro que Deus não nega a ninguém as suas graças; o que acontece na Comunhão sacramental, porém, envolve uma comunhão anterior, interna, de alma; sem isso, o ato de receber o Corpo e Sangue de Nosso Senhor não passará de uma “simulação”, de uma falsidade. É como quem dá um beijo, sinal de amor, mas por dentro não ama realmente aquele a quem beija. Como fez Judas.

A Comunhão não pode ser recebida por todo o mundo, portanto, não por um defeito da misericórdia divina, mas por uma falta de preparação adequada por parte do homem. Digno de receber este Santíssimo Sacramento ninguém o será plenamente, é verdade, mas desde sempre a Igreja exigiu dos fiéis um mínimo, sem o qual o ato de comungar não só deixa de produzir frutos, como se torna “causa de juízo e condenação”: “Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente”, diz o Apóstolo, “será culpável do corpo e do sangue do Senhor” (1Cor 11, 27).

O chamado estado de graça faz parte desse “mínimo” necessário para receber a Sagrada Comunhão. Por isso, todos os que têm consciência de haver cometido um pecado mortal — isto é, de terem transgredido os Mandamentos em uma matéria grave, com plena consciência e deliberação (sabendo e querendo) — “devem ser afastados da comunhão”. Com essa expressão, Santo Tomás está falando, evidentemente, de um juízo que cada fiel em particular deve fazer antes de entrar na procissão da Comunhão: “Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma desse pão e beba desse cálice” (1Cor 11, 28).

Isso não exclui, porém, a possibilidade de os ministros da Igreja negarem a Santa Eucaristia a fiéis que estejam em pecado público, como políticos que sejam manifestamente favoráveis ao aborto ou pessoas que estejam em uma situação de vida que contradiga de modo notório a doutrina da Igreja sobre o Matrimônio. O próprio Aquinate comenta essa questão em sua Suma (cf. III, q. 80, a. 6) e o Código de Direito Canônico prevê claramente que “não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto” (cân. 915).

Talvez surpreenda a muitos esse modo de agir, e alguns até acusem a Igreja de querer “excluir” as pessoas. A esses, é sempre oportuno lembrar as duras palavras que Cristo dirigia aos fariseus, chamando-lhes “hipócritas”, “raça de víboras” e “filhos de Satanás”. Quando a Igreja manda que seus filhos comunguem com responsabilidade, prestando atenção à grandeza dAquele que recebem na Eucaristia, ela procura prevenir-nos justamente desse “fermento dos fariseus”, que fazem consistir sua religião mais em ritos externos do que em um impulso do coração; que querem mais aparecer diante dos homens do que fazer a vontade de Deus.

Porque, afinal de contas, o que importa não é se estamos comungando ou não nas Missas de domingo; se estamos fazendo novenas ou rezando muitos terços; se estamos pagando o dízimo à risca ou se somos católicos “de carteirinha”... Tudo isso é muito importante, sim, mas deve ser precedido de uma relação verdadeiramente íntima com Deus, na oração e no cumprimento dos Mandamentos — em uma conversão radical, que brote do interior.

Sem isso, “ainda que toquemos mil vezes o Corpo do Senhor”, como diz S. João Crisóstomo, jamais entraremos realmente comunhão com Ele.

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Egoísmo, esterilidade e sacrilégio: a antirreligião de Satanás
Doutrina

Egoísmo, esterilidade e sacrilégio:
a antirreligião de Satanás

Egoísmo, esterilidade e sacrilégio: a antirreligião de Satanás

Assim como a Igreja existe para a salvação eterna de todos, Lúcifer construiu aos poucos uma antirreligião, um catolicismo falsificado, que tem como propósito a condenação de todos os homens ao inferno.

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Outubro de 2018
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Nós já vimos como Lúcifer, recusando-se a servir ao Deus da fertilidade e do amor sacrificial, mereceu sua própria isolação e esterilidade eternas, e como ele sempre procura conduzir as almas dos homens ao seu reino de egoísmo. Em particular, a recusa de subordinar o natural ao sobrenatural é o traço que o define. Isso explica o porquê de ele odiar o celibato e a virgindade mais do que qualquer coisa neste mundo.

Satanás odeia o Matrimônio pela mesma razão: também ele consiste em uma vida de autossacrifício — possível apenas graças à bênção divina —, um estado destinado a multiplicar os filhos de Deus, que terão o potencial de receber a elevação sobrenatural da graça e gozar da glória celeste, da qual se privou o demônio. Quão misterioso é o poder, dado ao ser humano, de gerar vida! Ser convidado a associar-se ao Criador! Tomar parte na origem da própria criação ex nihilo: eis um poder que nenhum espírito angélico possui. Trata-se de uma participação direta no ato criador de Deus.

Como explica o grande teólogo tomista Scheeben, se Adão e Eva não tivessem pecado, eles teriam transmitido não apenas a vida natural a sua descendência, mas também a vida sobrenatural: seus filhos seriam concebidos e nasceriam em estado de graça. É por isso que o demônio odiava tanto nossos primeiros pais, resplendentes de graça como eram: ele sabia que, a partir de seus corpos, floresceria toda uma raça destinada à glória imortal juntamente com os anjos. Ainda que nós agora estejamos em uma condição decaída, e não mais demos à luz “filhos de Deus” [1], permanecem conosco o privilégio da procriação e a liberdade de cooperar com Cristo na santificação de nossos filhos.

Como o Papa Pio XI atesta com eloquência no maior documento pontifício já escrito sobre o Matrimônio e a família:

Para apreciar a grandeza deste benefício de Deus e a excelência do Matrimônio, basta considerar a dignidade do homem e a sublimidade do seu fim. Na verdade, o homem ultrapassa todas as outras criaturas visíveis, já pela excelência de sua natureza racional. Mas acresce que, se Deus quis as gerações dos homens, não foi somente para que eles existissem e enchessem a terra, mas para que honrassem a Deus, o conhecessem, o amassem e o gozassem eternamente no Céu; em consequência da admirável elevação do homem, feito por Deus à ordem sobrenatural, este fim ultrapassa tudo o que “os olhos vêem, os ouvidos ouvem e o coração do homem pode conceber” (cf. 1Cor 2, 9). Por isso se vê facilmente quão grande dom da bondade divina e que precioso fruto do Matrimônio é a prole, nascida pela virtude onipotente de Deus e com a cooperação dos esposos […].

Embora os cônjuges cristãos, conquanto sejam santificados eles próprios, não possam transmitir a sua santificação aos filhos, porque a geração natural da vida se tornou, ao contrário, caminho de morte, pelo qual passa à prole o pecado original, eles participam, todavia, de algum modo, da condição da primeira união no paraíso terrestre, cabendo-lhes oferecer a sua prole à Igreja, a fim de que esta mãe fecundíssima de filhos de Deus a regenere pela água purificadora do Batismo para a justiça sobrenatural e a torne prole de membros de Cristo, participantes da glória, à qual todos aspiramos do íntimo do coração (Casti Connubii, 13-14).

Satanás fez o que estava a seu alcance para frustrar esse plano — e assim ele faz com cada um de nós, se o deixarmos agir. O diabo se opõe tanto à geração natural quanto à sobrenatural: ele procura impedir que homens e mulheres usem o dom de sua sexualidade para trazer mais vida ao mundo; ele procura convencê-los a matar o fruto que carregam; ele procura afastá-los da fonte de imortalidade que são os sacramentos da Igreja.

Odiando a procriação, ele reuniu todas as suas forças a fim ou de impedi-la por meio da contracepção ou de destruir os seus frutos por meio do aborto. A contracepção é uma abominação da desolação no meio do templo, que é o corpo humano santificado pelo Espírito Santo: através dela, o Deus que dá vida é expulso como se fosse um espírito mau, e em seu lugar é entronizado o espírito da luxúria e da avareza, que faz do ventre estéril sua casa, como uma igreja sem sacrário e sem Presença Real.

Contra o espírito demoníaco de egoísmo, os cônjuges cedem o direito que têm de autodeterminação sobre seus próprios corpos justamente quando prometem amor fiel um ao outro até a morte, venha o que vier. Cristo, também, é fiel à sua Igreja, aconteça o que acontecer, e nunca desiste de seus membros pecadores até que todas as pessoas destinadas à glória alcancem a Pátria.

À luz da fidelidade de Deus ao povo pecador de Israel, bem como da fidelidade de Cristo à sua Igreja ainda imperfeita, o divórcio não passa de uma ficção irredimível; o adultério, de uma abominação; e a Comunhão eucarística para “recasados”, de um ato de sacrilégio por meio do qual o Salvador é cuspido, flagelado, coroado de espinhos e crucificado no seu Santíssimo Sacramento.

Não nos iludamos a esse respeito: Lúcifer, com sua pseudopaciência de espírito imortal, construiu aos poucos uma antirreligião, um catolicismo falsificado, que tem como propósito a condenação eterna dos seres humanos, assim como a religião católica tem como propósito a salvação eterna de todos:

  • o divórcio, e com ele o adultério, é o antissacramento do Matrimônio;
  • a contracepção, e a partir dela o aborto, é o antissacramento do Batismo;
  • a autoindulgência da masturbação e da homossexualidade é o antissacramento da Confirmação, que produz autocontrole e fortaleza;
  • a eutanásia é o antissacramento da Extrema Unção;
  • no lugar do sacramento da Ordem, há a paternidade negligente e o feminismo que odeia os homens;
  • no lugar do sacramento da Penitência, há a satisfação hedonista de todo apetite corporal;
  • no lugar da Eucaristia, há a idolatria do mundo, da carne e do demônio.

Agora podemos enxergar melhor a ligação entre a frase da Irmã Lúcia, de que “a batalha final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre o Matrimônio e a família”, e a condenação de Joviniano por negar a superioridade do celibato e da vida virginal consagrada a Deus. Falsas doutrinas sobre o Matrimônio e o “relaxamento” na disciplina do celibato clerical são dois flancos de um mesmo exército que sitia a Cidade de Deus nesta terra.

Qualquer palavra e ação contra a santidade do Matrimônio, o bem da família ou as elevadas vocações à vida religiosa e sacerdotal, tem sua origem no General do exército, no Inimigo da humanidade. Ao enfrentarmos a pior confusão doutrinal e laxismo moral que a Igreja jamais suportou, imploremos ao Senhor, poderoso na batalha (cf. Sl 23, 8), que salve o seu povo e abençoe sua herança (cf. Sl 27, 9).

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Pornografia, prostituição e “mulheres de mentira”
Sociedade

Pornografia, prostituição
e “mulheres de mentira”

Pornografia, prostituição e “mulheres de mentira”

A pornografia não satisfaz mais. Estão chegando à América os bordéis com “bonecas sexuais”, feitas de silicone e aperfeiçoadas para parecerem o máximo possível com mulheres de verdade.

Jonathon van Maren,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Outubro de 2018
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No ano passado, eu participei do programa de rádio de um amigo para discutir um dos assuntos mais estranhos sobre os quais já fui convidado a falar: a ascensão dos chamados “robôs sexuais”.

Em alguns países — sendo o Japão o mais notável deles —, esses robôs foram aperfeiçoados ao ponto de ficarem com a aparência muito próxima à forma humana e, apesar de serem o passo tecnológico seguinte em uma cultura tomada pela pornografia, eles têm sido anunciados por alguns como uma “válvula de escape” para as pessoas com desejos sexuais depravados. De fato, um dos outros convidados do programa, uma mulher, afirmou não ver problema em pedófilos que tivessem “bonecos sexuais de crianças” (algo já experimentado): melhor isso, ela disse, do que tê-los satisfazendo seus desejos machucando pessoas de verdade.

Na ocasião, eu discordei fortemente dessa perspectiva, destacando que muitas pessoas inicialmente pensaram que a pornografia violenta, também, poderia ser uma forma de impedir indivíduos com tendências violentas de satisfazer seus desejos com seres humanos reais; pensava-se que a pornografia poderia servir, ao contrário, como uma “válvula de escape” para esses desejos.

O que nós infelizmente descobrimos ao longo dos últimos anos é o exato oposto disso: a pornografia cria esses desejos perversos nas pessoas que inicialmente não os tinham, fortalece-os naqueles que já tinham tendências violentas, e inflama-os de forma a encorajar a sua prática. Em outras palavras, a pornografia não serve como um “escape”; serve, isso sim, para fortalecer ou até mesmo desencadear tendências sexuais violentas.

Com bonecas, é claro, isso pode se tornar ainda mais perigoso. Pessoas com fantasias sexuais depravadas poderão, possivelmente pela primeira vez, ver esses desejos satisfeitos de um modo físico e sensorial, se bem que com um “escape” não-humano. O resultado disso, eu apontei, é que nós estaremos encorajando e fortalecendo ainda mais esses desejos.

Com mais pesquisa depois, descobri que eu não era o único com esse argumento: um professor chegou a pedir ao governo britânico que barrasse a importação dessas bonecas, sublinhando o fato de que uma delas havia sido inclusive programada para “resistir a investidas” — autorizando o consumidor a tomar parte no que, em essência, é um estupro simulado. Esse tipo de coisa, ele notou, poderia encorajar comportamentos sexuais violentos.

Revisito aqui essa entrevista de rádio só porque o jornal canadense Toronto Star noticiou que a cidade de Toronto em breve terá o primeiro “bordel de bonecas sexuais” da América do Norte, oferecendo ao público uma variedade de bonecas sexuais feitas de silicone para aluguel. Eles planejam abrir o negócio em um shopping da cidade, e estão prometendo bonecas de várias etnias e de vários padrões de beleza, com preços que vão de 80 dólares canadenses por meia hora a 160 por duas bonecas.

O bordel promete que as bonecas terão aparência e sensibilidade de pessoas reais, e que haverá um processo triplo de higienização depois do uso por cada consumidor. Haverá uma equipe no “prostíbulo”, mas aparentemente eles não dirão palavra alguma aos consumidores para assegurar que sua experiência sexual não seja descarregada em um ser humano de verdade depois.

Na reportagem em questão, uma linha em particular chamou-me a atenção: “De acordo com o site Aura Dolls, a companhia por trás do bordel, a ideia é trazer uma nova forma de satisfazer as próprias necessidades sexuais ‘sem as muitas restrições e limitações com que pode vir uma companheira de verdade’.”

Entendeu? O que eles estão dizendo é que as “restrições e limitações” de uma parceira real — isto é, humana — não existem com uma boneca, e que todas as fantasias obscuras, esquisitas e violentas que não podem ser realizadas com uma pessoa real não precisam ser restringidas — elas podem ser realizadas com uma boneca de aparência humana. A mensagem é que esses desejos não precisam ser suprimidos — por 80 dólares, eles podem ser experimentados. Além do mais, quem pode dizer que qualquer desejo sexual é realmente errado em nossa cultura relativista e sexualmente liberal?

Nós já vimos isso antes. Por exemplo, uma das razões por que prostitutas recebem tanta violência de seus clientes é que — como um anônimo disse bem sucintamente em um relatório submetido à Câmara dos Comuns do Canadá durante um debate sobre prostituição — “com uma prostituta você pode fazer coisas que não faria com uma mulher de verdade”. Esse homem sequer parou para pensar no que ele disse, porque a pornografia objetifica e desumaniza as mulheres ao mesmo tempo em que inflama desejos exóticos que antes estavam “dormentes” ou sequer existiam.

O fenômeno dos “robôs sexuais” é simplesmente mais um passo nessa mesmo direção — e um passo ainda mais perigoso.

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