| Categoria: Santos & Mártires

Mártires brasileiros serão canonizados pelo Papa Francisco

Vaticano aprova canonização de beatos assassinados em 1645, em duas igrejas do Rio Grande do Norte, durante ocupação dos calvinistas holandeses.

Por José Maria Mayrink — O Estado de S. Paulo | O papa Francisco aprovou nesta quinta-feira, 23, a canonização de 30 beatos brasileiros que foram massacrados em 1645 nas localidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte, durante a ocupação holandesa do Nordeste, por se negarem a abjurar da fé católica e aderir ao calvinismo, religião dos invasores. Os futuros santos serão André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, sacerdotes diocesanos, Mateus Moreira e outros 27 companheiros leigos.

"Ficamos muito felizes, pois esta canonização é uma grande bênção para a Igreja e com certeza vai reavivar a fé e a devoção dos fiéis", disse o arcebispo de Natal, d. Jaime Vieira Rocha, após receber a notícia da aprovação do papa. Os 30 brasileiros foram beatificados em março de 2000 por João Paulo II. O cardeal d. Cláudio Hummes, que foi arcebispo de Fortaleza, ajudou a levar adiante a causa dos mártires e, no ano passado, confidenciou a d. Jaime que Francisco estava interessado na canonização.

Foram dois massacres coletivos: o primeiro em 15 de julho, em Cunhaú, atualmente município de Canguaretama, e o segundo em 3 de outubro, em Uruaçu, hoje município de São Gonçalo do Amarante. Segundo relatos da época, mais de 70 pessoas foram assassinadas, mas a Congregação para as Causas dos Santos reconhece apenas o martírio daqueles cujos nomes são conhecidos. Na cerimônia de beatificação, João Paulo II chamou os novos beatos de protomártires e disse que eles eram exemplos e defensores da fé cristã.

Os massacres foram executados por índios tapuias e soldados holandeses, sob comando de Jacob Rabbi, um alemão a serviço da Companhia das Índias Ocidentais Holandesas. As vítimas foram mortas em um domingo, durante a missa celebrada pelo padre Ambrósio Ferro. Após a consagração da hóstia e do vinho, a tropa holandesa trancou as portas da igreja e, após um sinal de Rabbi, os índios chacinaram os fiéis.

Com a notícia das atrocidades em Cunhaú, o medo se espalhou pelo Rio Grande do Norte e capitanias vizinhas. Com razão. Outra vez sob as ordens de Jacob Rabbi, um grupo de dezenas de pessoas, entre as quais o padre André de Soveral, foi massacrado. Além dos padres André de Sandoval e Ambrósio Ferro, foram mortos os leigos Mateus Moreira e seus 27 companheiros que serão transformados em santos. O camponês Mateus Moreira teve o coração arrancado pelas costas, enquanto repetia a frase "Louvado seja o Santíssimo Sacramento".

Emissários do governo holandês enviados para investigar os massacres constataram a prática de violência, atrocidade e crueldade. Cronistas da época relatam que em Uruaçu a crueldade foi maior. Os índios e a tropa holandesa fecharam as portas da igreja e mataram os católicos ferozmente. Arrancaram línguas, deceparam braços e pernas, cortaram crianças ao meio e degolaram corpos. A história dos massacres foi pesquisada na Torre do Tombo, em Portugal, e no Museu de Ajax, na Holanda. Segundo documentos levantados, os holandeses ofereceram aos católicos a opção de salvar a vida, se eles se convertessem ao calvinismo.

Data. D. Jaime pensou na hipótese de a canonização ser em outubro deste ano, se Francisco viesse ao Brasil por ocasião da comemoração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Como não virá, a cerimônia deverá ser celebrada no Vaticano, em data a ser marcada. Milhares de devotos celebram a memória dos mártires nos meses de julho e de outubro. Há celebrações frequentes também nas quatro paróquias dedicadas aos beatos no Rio Grande do Norte.

| Categoria: Virgem Maria

A mensagem de Fátima, tão politicamente incorreta quanto o Evangelho

Fátima possui uma mensagem “dura” que, na linguagem de hoje, dizemos ser “politicamente incorreta”. Exatamente por causa disso ela está de acordo com o Evangelho.

Por Vittorio Messori* — Todas as aparições marianas parecem assemelhar-se umas às outras, havendo sempre no centro das mensagens um apelo à oração e à penitência e, ao mesmo tempo, cada uma é diferente da outra pela "acentuação" de um aspecto particular da fé.

A aura que circunda Lourdes é pacata, tanto é que se nota que em nenhuma outra ocasião Maria sorriu tanto, chegando ao ponto de fazê-lo em três ocasiões. "Ria como uma menina", disse Bernadete. E não sabia, aquela santinha, que justamente isso iria induzir os austeros inquisidores da comissão que investigava a autenticidade da aparição a ficarem ainda mais desconfiados. "Nossa Senhora que ri! Por favor, um pouco mais de respeito com a Rainha do Céu". Por fim tiveram que superar essa suspeita: pois foi assim mesmo que tudo aconteceu. Não se deve esquecer, é claro, que esta mesma Senhora que apareceu na gruta, dizendo ser a Imaculada Conceição, assumirá ainda um aspecto um tanto sério, repetindo os apelos de penitência e oração por si mesmos e pelos pecadores. Mas há um ar de serenidade, a falta da ameaça de um castigo, que é talvez um dos aspectos que mais atraem aos Pirineus as multidões que conhecemos.

Misericórdia e justiça

A atmosfera de Fátima, ao contrário, parece sobretudo escatológica, apocalíptica. Ainda que seja com um final que conforta e asserena. É evidente que a razão principal da aparição portuguesa é conclamar os homens a uma vida terrena de tremenda seriedade, e que não seja outra coisa senão uma breve preparação à vida verdadeira, a uma eternidade que pode ser de felicidade ou ainda de tragédia. É um chamado à misericórdia e, ao mesmo tempo, à justiça de Deus.

A insistência unilateral de hoje somente sobre a misericórdia esquece a máxima do "et-et" (a harmonia entre a graça e a natureza, entre o tempo e o eterno, entre passado e futuro, entre liberdade e justiça) que preside o espírito do catolicismo e que, aqui, vê em Deus o Pai amoroso que nos recebe de braços abertos e, ao mesmo tempo, o juiz que pesará sobre a sua infalível balança o bem e o mal. Recebe-nos no paraíso, sim, mas um paraíso que é necessário ganhar, gastando da melhor forma os pequenos ou grandes talentos que nos foram confiados. O Deus católico certamente não é aquele sádico do calvinismo que, a seu bel-prazer, divide em duas a humanidade: aqueles que nascem predestinados ao paraíso e aqueles que ab aeterno são esperados no inferno. É assim, afirma Calvino, que Ele manifesta a glória do seu poder. Não, o Deus católico não tem nada a ver com semelhante deformação. Mas muito menos é o permissivista bonachão, o tio tolerante que tudo aceita e tudo igualmente acolhe, o Deus de que fala sobretudo o laxismo dos teólogos jesuítas (que foram condenados pela Igreja) e contra os quais Blaise Pascal lançou as suas indignadas Cartas provinciais.

Ainda que soe desagradável aos ouvidos de um certo "bonismo" atual, tão traiçoeiro à vida espiritual, Cristo propõe à nossa liberdade uma escolha definitiva para a eternidade inteira: ou a salvação ou a condenação. Assim, poderia esperar-nos inclusive aquele inferno que omitimos, mas ao preço de omitirmos também as claras e repetidas advertências do Evangelho. Nele está contido o comovente apelo de Jesus: "Vinde a mim vós todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos darei descanso". E tantas outras são as palavras e gestos de sua ternura. Ainda assim, gostem ou não, nos Evangelhos há também outra coisa. Há um Deus que é infinitamente bom e infinitamente justo, e a cujos olhos um homem mal e impenitente não equivale a um fiel crente que se esforçou, mesmo com as limitações e as quedas de todo ser humano, em levar a sério o Evangelho.

O inferno não é uma invenção

No texto fundamental do ensinamento da Igreja que é o Catecismo, aquele que foi inteiramente renovado, redigido por vontade de São João Paulo II e sob a direção do então cardeal Joseph Ratzinger (um texto que fez todo seu o espírito do Vaticano II), os seus autores advertem: "As afirmações da Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja acerca do Inferno são um chamado à responsabilidade com a qual o homem deve usar de sua liberdade em vista de seu destino eterno. Constituem também um apelo insistente à conversão" (§1036). São estes mesmos apelos (à responsabilidade e à conversão) que constituem o centro da mensagem de Fátima e que a tornam tão mais urgente e atual: agora certamente mais do que no momento em que Maria apareceu na Cova da Iria.

Já há décadas que desapareceram da pregação católica os Novíssimos, como são chamados pela teologia a morte, o juízo, o inferno e o paraíso. Uma reticência clerical que omitiu — mais do que isso, renegou, no fundo — o velho e salutar adágio que salvou tantas gerações de fiéis: o início da sabedoria é o temor de Deus. Na história dos santos, esta consciência de uma possível condenação eterna constituiu um estímulo constante à prática mais profunda das virtudes. Eles sabiam que a existência do inferno não é um sinal de crueldade divina, mas sim de respeito radical: o respeito do Criador para com a liberdade concedida às suas criaturas, até o ponto de permitir-lhes escolher a separação definitiva.

Tanto na teologia como na pastoral atual, ao imperioso anúncio da misericórdia não se uniu o também imperioso anúncio da justiça. Mas, se em Deus convivem todas as virtudes em dimensão infinita, estaria faltando nele a virtude da justiça que a Igreja — inspirada pelo Espírito Santo, mas seguindo também o senso comum — incluiu entre as chamadas "virtudes cardeais"? Não faltam teólogos, respeitados e renomados até, que gostariam de amputar uma parte essencial das Sagradas Escrituras, omitindo aquilo que enfastia os que se crêem melhores e mais generosos que Deus. Dizem, então: "O inferno não existe. Mas, se existe, está vazio."

Pena que a Virgem Maria não seja da mesma opinião… É verdade que a Igreja sempre confirmou a salvação certa de alguns de seus filhos, proclamando-os beatos e santos. E a mesma Igreja não quis jamais proclamar a condenação de quem quer que seja, deixando justamente a Deus o último juízo. Quem afirmasse, todavia, que um inferno poderia até existir, mas estaria vazio, mereceria a réplica: "Vazio? Mas isso não exclui a possibilidade terrível de que eu e você possamos inaugurá-lo". Há quem tenha levantado a hipótese de a condenação ser somente temporária, não eterna. Mas também isso vai de encontro com as palavras de Cristo, o qual fala claramente, e mais de uma vez, de uma pena sem fim. Foi sem nenhuma dificuldade, portanto, que vários concílios rejeitaram semelhante possibilidade, a qual não encontra qualquer apoio nas Escrituras.

"Rezai, rezai muito"

Na aparição mais importante de Fátima, do dia 13 de julho de 1917, acontece o que a Irmã Lúcia narraria desta forma, em 1941, em famosa carta ao seu bispo:

"O segredo consta de três coisas distintas, duas das quais vou revelar.

A primeira foi a visão do inferno!

Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados nesse fogo os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das fagulhas nos grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor."

Jacinta, passados três anos, ainda menina com 10 anos de idade e chocada com o que havia visto naqueles poucos instantes, dirá no seu leito de morte: " Se eu apenas pudesse mostrar o inferno aos pecadores, fariam de tudo para evitá-lo mudando de vida."

Semelhantes visões do inferno não são fatos isolados na história da Igreja. Defrontar-se com esta terrível realidade é uma experiência por que passaram muitos santos e santas. E a credibilidade psicológica e mental deles foi avaliada rigorosamente nos processos canônicos. Para limitar-nos aos mais famosos e venerados santos que tiveram esta experiência, eis, entre tantos outros, Santa Teresa d'Ávila, Santa Verônica Giuliani e Santa Faustina Kowalska. E, entre os homens, não podia faltar aquele tal São Pio de Pietrelcina, o estigmatizado que via o sobrenatural como se fosse a condição mais natural, a ponto de se surpreender que os outros não vissem o que ele via.

Em Fátima, confirmando a centralidade na mensagem do perigo de perder-se, encontra-se ainda o fato de que Nossa Senhora ensina aos videntes uma oração a se repetir no rosário após cada dezena de Ave Marias. Oração que teve um acolhimento extraordinário no mundo católico, tanto que é recitada onde quer que se reze o terço mariano, e que diz: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas para o Céu e socorrei principalmente aquelas que mais precisarem da vossa misericórdia". Todas as palavras, como se vê, centradas nos Novíssimos, e ditadas às crianças pela própria Virgem Maria. O que acima de tudo o cristão deve implorar é a salvação do "fogo do inferno", bem como pedir à misericórdia divina uma espécie de desconto de penas para aqueles que sofrem no purgatório. Dirá Nossa Senhora, "com grande dor e pesar", como observa a Irmã Lúcia: "Rezai, rezai muito e fazei sacrifício pelos pecadores. Muitas almas vão de fato para o inferno porque não há quem reze e faça sacrifícios por elas."

Debaixo de seu manto

Mas voltemos às últimas linhas do documento da testemunha Lúcia, após a visão da sorte terrível dos pecadores impenitentes: "Levantamos os olhos para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza: 'Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas". Eis, portanto, o toque de consolo a todos os cristãos, antes de tudo, católicos. A verdade nos obriga a recordar que correm um grave risco os homens esquecidos da seriedade do Evangelho. A misericórdia do Céu, entretanto, está sempre pronta a propor um remédio: refugiar-se sob o manto dela, de Maria, confiar no seu Imaculado Coração, aberto a quem quer que venha pedir a sua materna intercessão.

O peso crescente do pecado é grave, mas estão indicados os remédios e, sobretudo, Nossa Senhora tem sempre reservado um happy end ("final feliz"), com as famosas palavras que, com razão, constituem fonte de esperança aos fiéis. De fato, depois de haver profetizado as muitas tribulações do futuro, Maria anuncia, em nome de seu Filho: "Por fim o meu Coração Imaculado triunfará". Por isso, a salvação pessoal é possível — e sustentada pelo próprio Céu —, mesmo em meio à propagação da iniquidade. Ainda podemos esperar a conversão do mundo, em um futuro impreciso e que só Deus conhece, confiando no coração da Mãe de Cristo, poderosa advogada da causa da humanidade.

Para que "servem" as aparições? Fátima está entre as maiores respostas, para um mundo que estava sempre se esquecendo, e hoje continua a esquecer ainda mais mais, o verdadeiro significado da vida sobre a terra e a sua continuação na eternidade. Fátima é uma mensagem "dura" que, na linguagem hodierna, dizemos ser "politicamente incorreta": exatamente por causa disso ela está de acordo com o Evangelho, na sua revelação sobre a verdade e na sua refutação das hipocrisias, eufemismos e omissões. Mas, como sempre naquilo que é verdadeiramente católico, onde todos os opostos convivem em uma síntese vital, a "dureza" convive com a ternura, a justiça com a misericórdia, a ameaça com a esperança. Assim, o aviso que provém de Portugal é, ao mesmo tempo, inquietante e consolador.

Fonte: La Nuova Bussola Quotidiana | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere


(*) Foi lançado no dia 24 de janeiro de 2017, pela editora Mondadori, o livro Inchiesta su Fatima. Un mistero che dura da cento anni ("Investigação sobre Fátima, um mistério que perdura há cem anos", sem tradução portuguesa), de Vincenzo Sansonetti. Foi o site La Nuova Bussola Quotidiana que publicou o excerto acima, do prefácio escrito por Vittorio Messori.

| Categoria: Espiritualidade

A oração de um carmelita para a Quaresma

Precisamos “mergulhar”, “descer sempre mais”, “fazer uma viagem” ao interior de nossa alma, porque, se estamos em estado de graça, é aí que mora o Senhor.

É uma especialidade da Ordem do Carmo fazer-nos entrar em contato com Deus no mais íntimo de nosso ser — experiência que é, na verdade, fundamental para a fé cristã, e que foi condensada por Santo Agostinho na famosa frase de suas Confissões: "Eis que estavas dentro, e eu fora" (X, 27, 38). Santa Teresa d'Ávila comparava a alma do justo, por exemplo, a um jardim onde Deus encontra as suas delícias; Santa Teresinha do Menino Jesus, por sua vez, cantava a alegria de ter encontrado "o Céu na terra" — nada menos que Deus morando em seu coração; e Santa Elisabete da Trindade não tomou este nome senão para honrar a inabitação trinitária em si.

A Quaresma, tempo de profunda interiorização, nada mais é que um resgate sempre necessário, portanto, do que precisamos fazer por toda a nossa vida: "mergulhar", "descer sempre mais", "fazer uma viagem" para dentro de nossa alma, até encontrarmos Aquele que é mais íntimo que o que há de mais íntimo de nós, para usar outra expressão agostiniana (cf. Confissões, III, 6, 11).

Um outro carmelita que compreendeu, viveu e transmitiu essa verdade foi o Beato Francisco Palau, sacerdote espanhol do século XIX e beatificado em 1988. São de sua pena, a propósito, as expressões "mergulhar" e "descer sempre mais", colhidas da seguinte oração para a Quaresma, a qual compartilhamos com todos os nossos visitantes:

Senhor,
nesta Quaresma,
tempo de mergulhar no meu interior,
de revisão e de conversão,
ensina-me a descer sempre mais
até onde Tu te encontras: o meu coração.

Como "descer" até aí?
Pelo silêncio, encontrando tempo para rezar,
pela leitura da Tua Palavra que tanto me quer dizer,
pelos Sacramentos,
especialmente a Confissão e a Santa Missa.

Também pela aceitação das contrariedades,
o peso das circunstâncias e da monotonia da vida…
com os olhos postos em Ti.

Senhor, Tu que estás no meu íntimo,
ajuda-me nesta Quaresma,
a fazer uma viagem ao meu interior,
para aí me encontrar conTigo!

Que possamos, pela intercessão do bem-aventurado Francisco Palau, transformar essa brevíssima prece em um verdadeiro "projeto de vida": procurando a Deus, de fato, pelo silêncio, pela leitura da Palavra de Deus, pelos Sacramentos e pela aceitação das contrariedades, seguramente estaremos no caminho da perfeição.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categorias: Testemunhos, Pró-Vida

Fui vendida por sexo centenas de vezes, até ficar grávida

Darlene passou muitos anos refém da indústria sexual, mas Deus, em sua providência, tinha outros planos para a vida dela.

Por Darlene Pawlik — Fui refém do tráfico sexual dos 14 aos 17 anos. Traficar pessoas não é como nenhum outro negócio regulamentado. Trata-se de uma anarquia total. Não existem regras.

Eu fui concebida durante um estupro brutal e fiquei sabendo disso quando era muito nova. Essa consciência, o abuso sexual que sofri do meu próprio pai e, mais tarde, de um tio materno, fizeram com que eu me sentisse vulnerável e inferior aos outros. Eu tinha 12 anos quando a minha mãe se divorciou pela segunda vez. Aos 13, eu já usava álcool e drogas, e costumava andar pelo meu bairro com um desses homens musculosos de academia, dentro de um Cadillac preto. Ele foi paciente ao me cortejar e manipular, até que eu parasse na cama dele.

Eu não estava presa ao tráfico por cadeados, barras ou algemas, mas por medo, ameaças e desespero. Eu não tinha esperanças que as autoridades me ajudassem. Um dos apartamentos em que fiquei estava alugado ao candidato a xerife de uma pequena cidade. Alguns dos compradores eram homens de negócios, deputados, profissionais, assim como delinquentes que tinham fetiche por dor e violência.

Ele me vendeu pela primeira vez no meu aniversário de 14 anos. Fiquei parada em quase 1 metro de neve, com meus sapatos cheios de água congelante, tremendo em frente a uma farmácia no final da rua onde eu morava, esperando que me buscasse um rapaz chamado "Ace". O comprador estava entusiasmado em saber que eu era tão nova, apesar de meu jeito um pouco estranho e assustado.

Ace me vendeu por sexo centenas de vezes até que, por fim, fui vendida a um outro homem que também fazia o mesmo. Vivi um lamaçal de abusos, estupros coletivos, tentativas de suicídio, insônias, noites mal dormidas em escadarias de igrejas e portarias, drogas, bebidas, prisões e abrigos, e fugindo de novo. Aos 17, fui vendida para um homem como "animal de estimação". Eu pensei que estaria mais segura — pelo menos eu só teria que servi-lo. Ele me vestia bem e me levava para comer em bons restaurantes. Eu tinha um emprego. Finalmente eu me sentia meio estável, meio normal.

Ele me disse no entanto que, caso eu engravidasse, eu teria que abortar. Isso me assustou, mas senti que não havia escolha.

Depois de 4 meses, então, eu engravidei. Ele golpeava o braço de madeira do sofá, e gritava: "Eu não quero essa vida!" Foi aterrorizante. A voz dele ecoou pelo meu corpo todo. O homem era chefe de um pequeno grupo de criminosos. Ele me disse que ou eu abortava ou ele me mataria, e eu sabia que era verdade. Um dos seus capangas já tinha me traficado, batido e estuprado várias vezes. Eu marquei a consulta na presença dele.

Naquela tarde, eu literalmente ergui os braços aos céus e chorei enquanto rezava: "Deus, se você é real, por favor me ajude!" De alguma forma, eu adormeci e tive um sonho no qual presenciava um aborto, ao vivo e a cores, da perspectiva de dentro do útero. Na época eu não tinha conhecimento nenhum sobre aborto, mas agora eu sei que era de uma precisão pelo nível de desenvolvimento em grande detalhe. Aqueles pés e mãos pequenas, aquele rosto minúsculo, as costelas e o sangue… Foi horrível, especialmente para mim, que sempre quis e pensei em ser mãe.

Quando acordei, liguei para todo o mundo em que eu conseguia pensar, passando por velhos cartões de negócios que, vez ou outra, as pessoas me davam. Entrei em contato com uma assistente social que tinha tentado me ajudar a fugir no passado. Ela encontrou uma maternidade que me acolheria. Alguns amigos levariam as minhas coisas para serem armazenadas. Mas como eu iria fugir? Meu captor insistia para que fôssemos jantar depois da consulta para o aborto.

Então, o dia chegou. Eu saí e fiz os arranjos com a assistente social, mas ainda teria que voltar para me arrumar para o jantar. Eu estava com tanto medo que chorava quase histericamente o dia todo. Com a cara inchada, olhos vermelhos, tremendo e suspirando, eu entrei no carro. Estava extremamente nervosa e com a respiração ofegante. Eu gaguejava, enquanto lhe dizia que queria ir morar com uma prima que me prometera um emprego.

"Algo aconteceu comigo em cima daquela mesa", eu disse, "não quero mais ficar aqui". Eu pensei que ele entenderia, já que ele tinha me falado de outras garotas que ele obrigou a abortar, mas que tinha deixado irem embora. A noite toda, eu não conseguia me acalmar, com medo de que ele descobrisse. Ia ao banheiro com frequência durante o jantar para chorar, fingindo que estava com náuseas e dores. No caminho para casa, ele disse que eu poderia ir, desde que eu o procurasse, se voltasse para a cidade novamente.

Mudei-me rapidamente no dia seguinte. Prometi a Deus que educaria os meus filhos no temor e na lei de Deus, se meu bebê nascesse sem problemas. Ela nasceu perfeita, e eu mantive a minha promessa. As pessoas que me conhecem hoje não conseguem imaginar que eu tenha levado uma vida assim. E eu lhes explico, então, que salvar o meu bebê salvou a minha vida.

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

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Ela tomou uma pílula para abortar, mas mal sabia o que estava por vir

Não demorou muito para que Christina percebesse que tinha tomado a decisão errada. Mas, para o seu filho, abortado com ainda 9 semanas, infelizmente já era tarde demais.

Christina foi informada pela Planned Parenthood que o seu aborto por pílula seria "como uma menstruação mais forte". Ela não estava preparada para câimbras agonizantes, sangramento intenso, e muito menos para ver o corpo perfeitamente formado de seu bebê abortado.

Christina estava grávida de 9 semanas quando foi parar em uma clínica da Planned Parenthood por insistência do namorado. Ela já tinha um bebê de 4 meses em casa, e sua saúde estava precária. Christina descreve o tipo de "aconselhamento" que recebeu na Planned Parenthood:

A atendente me perguntava se eu estava sendo forçada a fazer aquilo. Perguntou-me também se a decisão era 100% minha. Ela me aconselhou a ter certeza de que era isto o que eu queria.

Ela então começou a me dizer que o processo era bem simples… e que eu não veria nada. Eles nunca usavam a palavra "bebê". Eles sempre diziam que era um "tecido" ou "um processo". Eles jamais diziam algo sobre o nível de desenvolvimento [da criança]. Disseram-me que ela seria muito pequena para se ver.

No vídeo abaixo, Dr. Anthony Lavatino descreve como age a pílula abortiva, geralmente receitada ainda no primeiro trimestre da gestação:

A Planned Parenthood também não lhe avisou da dor que o aborto iria causar. Depois de tomar os comprimidos, Christina escreve como o procedimento estava muito longe do que ela esperava:

A pílula não era de forma alguma aquilo que a Planned Parenthood disse-me que seria. Eles disseram que eu iria sentir como se fosse uma menstruação pesada. Mas foi infernal o que eu senti! Foi pior do que o parto do meu filho.

Mas o pior ainda estava por vir. Christina estava na 9.ª semana de gravidez, a contar de seu último período menstrual. Como a fecundação geralmente ocorre cerca de duas semanas depois, na ovulação, o que ela gestava era um bebê prematuro de 7 semanas.

Ela estava completamente despreparada para o choque de ver o corpo do seu filho:

Dentro de duas horas em que tomei a segunda dose de comprimidos, eu tive o bebê no toalete. Quando virei para trás lá estava o bebê intacto, dentro da bolsa e tudo. Estourei então a bolsa e segurei o pequeno bebê indefeso em minha mão. Eu chorei e senti como se tivesse acabado de tirar a vida de um inocente.

Christina percebeu que tinha tomado a decisão errada. Mas já era tarde demais.

Mesmo depois de perder o seu bebê no toalete, a provação de Christina não havia terminado. Dentro de alguns dias ela foi encaminhada, sangrando, para o departamento de emergência do hospital. Ela continuou a experimentar contrações extremamente dolorosas durante 2 semanas.

Christina sabe que foi enganada pela Planned Parenthood e ainda sofre com a perda do seu bebê.

Arrependi-me 100% do que fiz, depois daquela noite. Nada pode prepará-la verdadeiramente para um aborto, não importa o caminho que você tome. Ainda sofro muito e tenho pesadelos a toda hora. Sempre me pergunto: "E se eu jamais tivesse feito isso?"

Ela deseja que sua história ajude outras mulheres a tomarem a decisão certa, evitando assim a mesma experiência traumática por que ela passou:

Desde aquela noite eu me sinto horrível e envergonhada. Eu tenho outro filho, e o meu coração sangra em saber que eu poderia ter dois agora... Eu gostaria que todas as pessoas soubessem como se parece de fato um bebê de nove semanas. Apenas nove semanas!

Fonte: Live Action News | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

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O que foi a paixão de São José?

São José sabia que Maria, aquela mulher que ele mais amava, estava imersa num mistério, do qual ele não tinha sido chamado por Deus a participar.

Esta brevíssima explicação do Padre Paulo Ricardo sobre o que foi, por assim dizer, a paixão de São José, faz parte de aula recém-lançada de nosso curso "Aprenda a Ler a Bíblia".

Trata-se do vídeo de n.º 12, publicado semana passada. Ao comentar o nascimento de Jesus segundo o Evangelho de São Mateus, Padre Paulo enfrenta questões delicadas acerca da origem de Cristo. Diante da notícia de que Maria estava grávida, o que pensou José? Por que, antes da revelação do anjo, o santo Patriarca teve medo de recebê-la definitivamente como esposa?

Aproveite esta solenidade de São José para entender o pouco que as Escrituras falam sobre este silencioso varão que é, depois da Virgem Santíssima, o maior de todos os santos da Igreja.

| Categoria: Espiritualidade

Por que o Filho de Deus quis ter um pai humano?

Longe de representar uma simples “adoção”, a paternidade de São José foi para o menino Jesus uma verdadeira “escola de virilidade”.

São José foi verdadeiramente pai de Jesus: não pai biológico, porque não lhe deu a vida natural; mas também não simplesmente "pai adotivo" ou "pai nutrício", como se simplesmente lhe outorgasse um nome, um abrigo, alimentos e só. Muito mais do que isso, convinha que Cristo, humano que era, fosse realmente educado por um homem [1], inspirando-se em seu exemplo de masculinidade e paternidade para amadurecer totalmente e, chegando à idade adulta, entregar-se pela redenção da humanidade inteira.

Dada portanto a nobre e difícil missão que tinha diante de si, é razoável imaginar o patriarca da Sagrada Família como um homem jovem, na plenitude de suas forças físicas, de modo que, "se parte da iconografia mais recente tende a representá-lo com os traços de um velho, devemos pensar que é menos para sublinhar o número dos seus anos do que para dar uma idéia das suas virtudes, em especial da sua prudência e da maturidade do seu caráter" [2].

Tampouco se deve pensar em São José como um homem de aspecto efeminado, como se a virgindade e a pureza de alma fossem incompatíveis com a virilidade masculina. Ao contrário — ensina-nos a experiência —, só um homem verdadeiramente forte, capaz de submeter as suas paixões ao império da razão, pode enfrentar com igual vigor os grandes desafios e as lidas do dia-a-dia.

Olhando para a personalidade de Jesus Cristo, essas verdades tornam-se-nos ainda mais claras. De fato, só um homem de coragem é capaz de tecer um chicote com suas próprias mãos e servir-se dele para expulsar os vendilhões da casa de Deus (cf. Jo 2, 13-17); só um homem varonil pode suportar, como Cristo suportou, a traição dos próprios amigos, a flagelação na carne, os espinhos na cabeça e os cravos nos membros. Com quem o Filho de Deus encarnado aprendeu a ser homem assim, de modo perfeito, senão com o seu pai virginal, São José?

Nestes tempos em que a masculinidade experimenta uma grande crise, peçamos urgentemente a intercessão do carpinteiro de Nazaré, para que, imitando o seu exemplo, os homens possam enfrentar sem temor o desafio da paternidade, assumir o compromisso de formar os seus filhos e ver, enfim, coroados os seus esforços, nos frutos da boa educação que ministraram.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e Referências

  1. A natureza humana exige que as pessoas sejam criadas por um pai e por uma mãe, desenvolvendo-se a partir da complementaridade dos dois sexos. O fato de as famílias ditas "monoparentais" se terem tornado uma realidade comum não as torna normais. Tampouco a chancela do Estado às chamadas "uniões homossexuais" faz com que elas estejam aptas a educar uma criança. "Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adoção significa, na realidade", explica o Cardeal Joseph Ratzinger, "praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano" (Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, n. 7). E não é apenas a Igreja Católica que o reconhece. Em 2015, os estilistas criadores da marca Dolce & Gabanna, assumidamente homossexuais, deram declarações públicas contra a adoção de crianças por pares gays.
  2. Michel Gasnier. José, o silencioso. São Paulo: Quadrante, 1995, p. 46.

| Categorias: Sociedade, Pró-Vida, Política

O STF não tem competência para descriminar o aborto no Brasil!

Relembre o dia em que dois juízes da Suprema Corte reconheceram, com honestidade, que é impossível legalizar o aborto por via judicial sem que se cometa um grave atentado à Constituição.

Mais de 75% dos brasileiros não querem que o aborto seja descriminado.

O Congresso Nacional, igualmente, como mandatário do povo, não está minimamente a fim de avançar um projeto desse gênero.

Mas os militantes da causa contrária não se consolam. Eles querem ver o aborto legalizado no Brasil, custe o que custar. Por isso, trabalham dia e noite, dentro e fora das instituições, para encontrar alguma forma alternativa de vencer, já que nem a população nem o Poder Legislativo estão do seu lado.

Aparentemente, eles encontraram uma saída. Tendo como respaldo o voto do ministro Barroso ( proferido durante o julgamento de um habeas corpus, dezembro passado) que questionou a criminalização do aborto no primeiro trimestre de gravidez, o PSOL — que leva no nome a curiosa antítese "Socialismo e Liberdade" — acaba de ingressar no Supremo Tribunal Federal com uma ação solicitando "a legalização ampla do aborto para qualquer gestação com até 12 semanas". O instrumento processual em questão é a ADPF, sigla para "Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental". Trata-se de mais uma ação do complexo controle de constitucionalidade brasileiro, de competência do STF e com efeitos erga omnes, isto é, válidos para todos.

Para quem conhece um pouco a história das últimas tentativas institucionais para facilitar o acesso ao aborto no Brasil, a sigla ADPF não é nova. Foi com uma ação assim — a ADPF de n.º 54 — que o STF despenalizou, em 2012, o abortamento de bebês com anencefalia. Na ocasião, o argumento dos ministros favoráveis à causa era muito parecido com o de hoje: criminalizando o aborto de fetos anencefálicos por meio de seu Código Penal, o Estado estaria a violar "preceitos fundamentais", tais como a "dignidade da pessoa humana", os princípios da "legalidade, liberdade e autonomia da vontade" e o "direito à saúde".

Em meio à pane geral de que foi alvo o Supremo naquela oportunidade (uma constante hoje, para dizer a verdade), duas vozes corajosas se levantaram contra o que estava acontecendo: foram os ministros Ricardo Lewandowski e Cezar Peluso (hoje aposentado). Os magistrados foram os únicos a afirmar, honesta e abertamente, o óbvio que se depreende do princípio da separação dos Poderes: o STF simplesmente não tem competência para descriminar o aborto no Brasil.

O voto do ministro Ricardo Lewandowski

Foi nessa afirmação que se sustentou de modo particular o voto do ministro Lewandowski, com alguns trechos que merecem menção integral:

"Caso o desejasse, o Congresso Nacional, intérprete último da vontade soberana do povo, considerando o instrumental científico que se acha há anos sob o domínio dos obstetras, poderia ter alterado a legislação criminal vigente para incluir o aborto de fetos anencéfalos, dentre as hipóteses de interrupção da gravidez isenta de punição. Mas até o presente momento, os parlamentares, legítimos representantes da soberania popular, houveram por bem manter intacta a lei penal no tocante ao aborto, em particular quanto às duas únicas hipóteses nas quais se admite a interferência externa no curso regular da gestação, sem que a mãe ou um terceiro sejam apenados."

[...]

" Não é lícito ao mais alto órgão judicante do País, a pretexto de empreender interpretação conforme a Constituição, envergar as vestes de legislador positivo, criando normas legais, ex novo, mediante decisão pretoriana. Em outros termos, não é dado aos integrantes do Poder Judiciário, que carecem da unção legitimadora do voto popular, promover inovações no ordenamento normativo como se parlamentares eleitos fossem."

Com uma fina ironia, o ministro Lewandowski ainda cita, para fundamentar seu entendimento, uma citação de ninguém menos que… Luís Roberto Barroso, o atual ministro do STF que, à época, era apenas o advogado da causa julgada. "Deveras, foi ao Poder Legislativo, que tem o batismo da representação popular e não o Judiciário, que a Constituição conferiu a função de criar o direito positivo e reger as relações sociais" — lição do livro "Interpretação e aplicação da Constituição", de Barroso, o qual parece não pensar o mesmo que ensina nos momentos em que julga.

O voto contundente do ministro Cezar Peluso

Ficou para o fim do julgamento, no entanto, o voto magistral do ministro Cezar Peluso — então presidente da casa —, o qual fulminou, de uma só vez, não só os partidários do "ativismo judicial", mas também os promotores da causa do aborto. Todos aqueles que estudam o Direito têm, na verdade, a obrigação de ler esta que é uma verdadeira aula de bioética (ressalvadas algumas considerações iniciais do ministro, relativas às células-tronco embrionárias, todo o resto se aproveita muitíssimo bem).

Vejamos, primeiro, o que diz Peluso ao adentrar no mérito da questão:

"Mui diversamente do que se aduz na inicial, o aborto provocado de feto anencefálico é conduta vedada, e vedada de modo frontal, pela ordem jurídica. E, a despeito dos esforços retóricos da autora, aparece, por conseguinte, de todo inócuo o apelo para a liberdade e a autonomia pessoais, fundado na pressuposição errônea de inexistência de proibição jurídico-normativa da conduta. Não há como nem por onde cogitar, sem contraste ostensivo com o ordenamento jurídico, de resguardo à autonomia da vontade, quando esta se preordena ao indisfarçável cometimento de um crime. Não se concebe nem entende, em termos técnico-jurídicos, únicos apropriados ao caso, direito subjetivo de escolha, contra legem, de comportamento funestamente danoso à vida ou à incolumidade física alheia e, como tal, tido por criminoso. É coisa abstrusa!"

" A conduta censurada transpõe a esfera da autonomia e da liberdade individuais, enquanto implica, sem nenhum substrato de licitude, imposição de pena capital ao feto anencefálico. E, nisso, atenta ainda contra a própria idéia de 'um mundo diverso e plural', que os partidários da arguente, como Débora Diniz e seu próprio patrono [Barroso], alegam defender."

"É que, nessa postura dogmática, ao feto, reduzido, no fim das contas, à condição de lixo ou de outra coisa imprestável e incômoda, não é dispensada, de nenhum ângulo, a menor consideração ética ou jurídica, nem reconhecido grau algum da dignidade jurídica e ética que lhe vem da incontestável ascendência e natureza humanas. Essa forma odiosa de discriminação, que a tanto equivale, nas suas consequências, a formulação criticada, em nada difere do racismo, do sexismo e do chamado especismo. Todos esses casos retratam a absurda defesa e absolvição do uso injusto da superioridade de alguns (em regra, brancos de estirpe ariana, homens e seres humanos) sobre outros (negros, judeus, mulheres e animais, respectivamente). No caso do extermínio do anencéfalo, encena-se a atuação avassaladora do ser poderoso superior que, detentor de toda a força, inflige a pena de morte ao incapaz de pressentir a agressão e de esboçar-lhe qualquer defesa. Mas o simples e decisivo fato de o anencéfalo ter vida e pertencer à imprevisível espécie humana garante-lhe, em nossa ordem jurídica, apesar da deficiência ou mutilação - apresentada, para induzir horror e atrair adesão irrefletida à proposta de extermínio, sob as vestes de monstruosidade -, que lhe não rouba a inata dignidade humana, nem o transforma em coisa ou objeto material desvalioso ao juízo do Direito e da Constituição da República."

[...]

"A vida intrauterina, ainda quando concebível como projeto de vida, é objeto da tutela jurídico-normativa por várias formas. É-o por normas infraconstitucionais, mas também, e sobretudo, por força da própria lei penal, cujo sentido primário de proibição do comportamento tipificado é expressão da tutela dessa vida intrauterina, a qual guarda, por conseguinte, o significado indiscutível de bem jurídico, que como tal merece a proteção da ordem jurídica. A história da criminalização do aborto mostra que essa tutela se fundamenta na necessidade de preservar a dignidade dessa vida intrauterina, independentemente das eventuais deformidades que o feto possa apresentar, como tem apresentado no curso de história. As deformidades das vidas intrauterinas não são novidade fenomênica. Novidade são hoje os métodos científicos de seu diagnóstico. A consciência jurídica jamais desconheceu a possibilidade de que de uma gravidez possa não resultar sempre nascimento viável. No instante em que o transformássemos [o feto anencéfalo] em objeto do poder de disposição alheia, essa vida se tornaria coisa ( res), porque só coisa, em Direito, é objeto de disponibilidade jurídica das pessoas. Ser humano é sujeito de direito."

[...]

" A vida humana, imantada de dignidade intrínseca, anterior ao próprio ordenamento jurídico, não pode ser relativizada fora das específicas hipóteses legais, nem podem classificados seus portadores segundo uma escala cruel que defina, com base em critérios subjetivos e sempre arbitrários, quem tem, ou não, direito a ela. Havendo vida, e vida humana – atributo de que é dotado o feto ou o bebê anencéfalo –, está-se diante de valor jurídico fundante e inegociável, que não comporta, nessa estima, margem alguma para transigência. Cuida-se, como já afirmei, 'do valor mais importante do ordenamento jurídico'."

"A curta potencialidade ou perspectiva de vida em plenitude, com desenvolvimento perfeito segundo os padrões da experiência ordinária, não figura, sob nenhum aspecto, razão válida para obstar-lhe à continuidade. A ausência dessa perfeição ou potência, embora tenda a acarretar a morte nas primeiras semanas, meses ou anos de vida, não é empecilho ético nem jurídico ao curso natural da gestação, pois a dignidade imanente à condição de ser humano não se degrada nem decompõe só porque seu cérebro apresenta formação incompleta. Faz muito, a civilização sepultou a prática ominosa de sacrificar, segregar ou abandonar crianças recém-nascidas deficientes ou de aspecto repulsivo, como as disformes, aleijadas, surdas, albinas ou leprosas, só porque eram consideradas ineptas para a vida e improdutivas do ponto de vista econômico e social!"

[...]

"A dignidade fundamental da vida humana, como suposto e condição transcendental de todos os valores, não tolera, em suma, barateamento de sua respeitabilidade e tutela jurídico-constitucional, sobretudo debaixo do pretexto de que deformidade orgânica severa, irremissibilidade de moléstia letal ou grave disfunção psíquica possam causar sofrimento ou embaraço a outro ser humano. Independentemente das características que assuma na concreta e singular organização de sua unidade psicossomática, a vida vale por si mesma, mais do que bem humano supremo, como suporte e pressuposição de todos os demais bens materiais e imateriais, e nisto está toda a racionalidade de sua universal proteção jurídica. Tem dignidade, e dignidade plena, qualquer ser humano que esteja vivo (ainda que sofrendo, como o doente terminal, ou potencialmente causando sofrimento a outrem, como o anencéfalo). O feto anencéfalo tem vida, e, posto que breve, sua vida é constitucionalmente protegida."

Mencione-se, por fim, o " non possumus" do magistrado, dado já ao final de seu voto, quando ele declara expressamente a "competência exclusiva do Congresso Nacional para normatizar" o tema em debate e a "impropriedade da atuação do STF como 'legislador positivo'":

"Essa tarefa é própria de outra instância, não desta Corte, que já as tem outras e gravíssimas, porque o foro adequado da questão é do Legislativo, que deve ser o intérprete dos valores culturais da sociedade e decidir quais possam ser as diretrizes determinantes da edição de normas jurídicas. É no Congresso Nacional que se deve debater se a chamada 'antecipação do parto', neste caso, deve ser, ou não, considerada excludente de ilicitude."

[...]

" A ADPF não pode ser transformada em remédio absoluto que franqueie ao STF a prerrogativa de resolver todas as questões cruciais da vida nacional, responsabilizando-se por inovação normativa que a arguente e os adeptos de sua tese sabem muito bem que, na via própria da produção de lei, talvez não fosse adotada pelo Congresso Nacional, como intérprete autorizado dos interesses e das aspirações da maioria silenciosa do povo, que representa!"

Essas últimas palavras, em particular, nunca foram tão apropriadas como agora, quando grupos progressistas querem, mais uma vez, impor judicialmente a sua agenda de morte a uma nação inteira, desconsiderando, para tanto, instituições caríssimas de nossa democracia, tais como o princípio da separação dos Poderes e o direito fundamental à vida desde a concepção — este consagrado por pactos internacionais ( Convenção Americana sobre Direitos Humanos, art. 4), pela Constituição brasileira (art. 5.º, caput) e pelo próprio Código Civil (art. 2.º).

Nas condições normais de uma democracia, os juízes respeitam as leis e são responsabilizados se falham nesse mister. Mas, no Brasil, como já disse um ministro do STF!, eles não devem satisfação "depois da investidura a absolutamente mais ninguém".

A impressão é que vivemos em uma terra sem lei, governada tão-somente pelo arbítrio dos homens de toga. Irrefreáveis. Onipotentes. E, segundo eles mesmos, irresponsáveis. É como se a "morada dos deuses" tivesse mudado: do Monte Olimpo… para o Planalto Central.

Que Deus tenha misericórdia de nossa nação.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

P.S.: Nós já tínhamos esses dois votos, de Peluso e Lewandowski, preparados há muito tempo para uma matéria, mas só decidimos produzi-la de vez depois de lermos um excelente artigo do Felipe Moura Brasil sobre o assunto, do qual recomendamos vivamente a leitura.