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Os bastidores espirituais de um atentado

Ou o Ocidente regressa ao Evangelho ou continuará a resvalar para o abismo.

O terrorismo islâmico mais uma vez fez as suas vítimas na Europa: desta vez, na cidade francesa de Nice, foram assassinadas mais de 80 pessoas. O Estado Islâmico já assumiu a autoria do ataque e os franceses novamente depositam sobre o asfalto, onde morreram brutalmente seus entes queridos, flores e lágrimas, de luto e de incompreensão.

Não é sobre o Islã, contudo, que pretendemos falar nestas breves linhas. Nossa pretensão aqui é fazer uma análise mais profunda, de natureza histórica e espiritual.

Comecemos com uma frase dita por Nossa Senhora das Graças a Santa Catarina Labouré, a religiosa francesa e vidente da Medalha Milagrosa, no dia 19 de julho de 1830: "Os tempos são maus", ela diz. "Haverá desgraças de toda espécie no mundo inteiro."

É importante que a Santíssima Virgem se refira à maldade deste período determinado da história em que vivemos. Embora sejam muitos os eventos do último século que mostrem como o homem se tem afastado de Deus — a Renascença e a Reforma são apenas alguns exemplos —, um deles, emblemático, estava sendo comemorado no momento exato em que ocorreu o atentado de Nice: a "Tomada da Bastilha". Feriado na França, aconteceu no dia 14 de julho de 1789 e selou o que hoje se conhece pelo nome de "Revolução Francesa".

O que foi esse acontecimento não é o tema deste artigo. Para mostrar o que ele significou, no entanto, basta-nos lembrar a "Constituição Civil do Clero", de 1790, que transformou boa parte dos sacerdotes católicos em "funcionários públicos" do Estado francês — numa nítida reprodução da primeira Besta do Apocalipse (cf. Ap 13, 1-10) — ou os "períodos de terror" que se multiplicaram nos anos seguintes à Revolução, levando à guilhotina, por exemplo, as 16 freiras carmelitas de Compiègne, acusadas de "fanatismo" e assassinadas enquanto invocavam o auxílio do Espírito Santo.

De lá para cá, o afastamento de Deus por parte do homem só se acentuou ainda mais. Primeiro, como denunciou certa vez o Papa Pio XII, gritou-se: "Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente, o grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu" [1].

As consequências disso são visíveis nas leis produzidas mundo afora. As autoridades civis há muito deixaram de consultar qualquer tipo de norma superior e transcendente para orientar sua conduta e ação pública: não há mais nem religião nem natureza à qual devam obedecer, nem um Deus ao qual tenham de um dia prestar contas. Não havendo nada, portanto, para além de suas "mentes iluminadas", tudo está permitido: desde o assassinato de seres humanos indefesos no ventre de suas mães, pelo aborto, até o abuso e a corrupção das crianças, pela ideologia de gênero. As leis deixaram de ser ditadas pela razão — como Santo Tomás sabiamente prevê que as leis devem ser feitas [2] — para serem impostas pelo mero arbítrio dos legisladores.

Esse quadro só existe, obviamente, porque a sociedade como um todo está em franca decadência moral: antes que Deus fosse destronado da vida pública das nações, Ele já havia sido expulso das casas cristãs, substituído pela ilusão da tecnologia e transformado em um mero acessório de domingo; antes do Estado laico, o que pavimentou o caminho para o "ateísmo moderno" foram as famílias laicas, as famílias de "católicos mornos", mais dispostos a agradarem ao mundo e conseguirem felicidade nesta vida do que a agradar a Deus e educar seus filhos — seus já reduzidos filhos — para o Céu.

Neste sentido, as linhas seguintes, de autoria do padre francês Stéphane Joseph Piat, o conhecido biógrafo da família de Santa Teresinha, são de uma atualidade fora do comum:

"A França [e por França se entenda aqui o Ocidente como um todo] reinava no mundo quando era o país dos lares estáveis e dos berços. O declínio inexorável principiou quando ela deixou desmoronar a casa e procurou diminuir as fontes da vida. Que vale o ardor no trabalho, a coragem física, o heroísmo militar, se a raça se entrega despreocupadamente ao suicídio coletivo que é o medo dos filhos?" [3]

Qual seja a solução para esse "egoísmo profundo que considera o filho como um estorvo", é esse mesmo sacerdote quem indica:

"Não é uma política de natalidade de vistas curtas que pode sobrepujar este obstáculo; torna-se indispensável o recurso intensivo às forças espirituais. Um vasto inquérito nacional sobre as causas da diminuição da natalidade não levaria a colocar em primeiro plano o esquecimento das normas religiosas? A família ou há-de ser cristã ou deixará de existir. Ou a França regressa ao Evangelho ou continuará a resvalar para o abismo." [4]

"A família ou há-de ser cristã ou deixará de existir". A França, e com ela todo o Ocidente outrora cristão, ou "regressa ao Evangelho ou continuará a resvalar para o abismo". Só uma sociedade com fortes laços cristãos é capaz de resistir às ideologias e às armas que a ameaçam. Os países que evangelizaram o mundo se iludem construindo alianças políticas e econômicas — como é a União Europeia — quando, na verdade, o seu primeiro grande ponto de convergência deveria ser o Cristo, aquele que primeiro os conquistou com o Seu sangue derramado na Cruz.

Não nos esqueçamos nunca, portanto, que o drama mais terrível que pode acontecer a uma sociedade não é que ela se afunde em crises econômicas ou colapsos políticos, mas que dê de ombros para as almas. O que Cristo veio trazer a este mundo, afinal, não foi sucesso nem prosperidade, mas salvação espiritual.

E é justamente às palavras de nosso divino Redentor que recorremos ao término desta reflexão, a fim de lembrar que atitude devemos tomar diante de tragédias e catástrofes como a de Nice, que se tornaram infelizmente tão comuns ao redor do mundo. Ao comentar duas fatalidades de Seu tempo, uma de natureza criminosa — que foi o assassinato de alguns galileus por Pôncio Pilatos, enquanto ofereciam sacrifícios religiosos —, outra de ordem acidental — como foi o esmagamento de dezoito homens pela queda da torre de Siloé —, Nosso Senhor Se perguntava se aqueles atingidos por essa sina eram por acaso mais pecadores que os outros homens. A Sua resposta foi a seguinte:

"Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que qualquer outro galileu, por terem sofrido tal coisa? Digo-vos que não. Mas se vós não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito que morreram quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que qualquer outro morador de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo." (Lc 13, 2-5)

Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça! Nenhum dos fatos que acontecem na história dos homens é sem razão ou sem propósito. Deus nos convida à penitência! Não sejamos surdos ao Seu apelo!

Regressemos, enfim, à mensagem da Virgem da Medalha Milagrosa. "Quando tudo parecer perdido", diz ela a Santa Catarina Labouré, "lá eu estarei convosco".

A promessa da Mãe de Deus permanece. Que as famílias que perderam seus entes nesse terrível atentado sejam acolhidas pelo abraço materno de Nossa Senhora. Que ela console os corações aflitos e que as almas dessas pessoas, pela misericórdia de Deus, descansem em paz.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa Pio XII, Discurso por ocasião do 30.º aniversário da Ação Católica (12 de outubro de 1952), n. 16: AAS 44 (1952), pp. 830-835.
  2. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 90, a. 1.
  3. Stéphane Joseph Piat, História de uma família, 3. ed., Braga, Apostolado da Imprensa, p. 12.
  4. Ibid., p. 13.

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O santo que soube o que fazer da vida

São Boaventura entendeu cedo que esta vida não serve para outra coisa senão para preparar nossa morada definitiva no Céu.

Após o tempestuoso "século obscuro", no qual tantas almas se perderam pela impiedade e mau exemplo de muitos sacerdotes, a reforma impulsionada pelos monges de Cluny deu novo fôlego à espiritualidade cristã, suscitando numerosas e santas vocações no seio da Igreja — vocações que mudaram não somente a história do cristianismo, mas também a própria história da humanidade.

O século XIII, filho inconteste desse movimento de renovação espiritual, viu nascer uma geração profundamente enraizada na fé cristã, como jamais se viu desde os primórdios da Igreja. É nesse período que surgem São Domingos de Gusmão e São Francisco de Assis, fundando duas das maiores e mais importantes famílias espirituais do mundo: a Ordem dos Pregadores e a Ordem dos Frades Menores. Com o apelo à missão apostólica e a fidelidade aos três conselhos evangélicos — obediência, pobreza e castidade —, dominicanos e franciscanos construíram a grande civilização cristã da Idade Média sobre o desejo e a busca da santidade.

Dentre os filhos de São Francisco, um nome que não pode passar despercebido é o de São Boaventura, que, com seu trabalho espiritual e teológico, ajudou Santo Tomás de Aquino, herdeiro de São Domingos, a defender e ensinar a verdade católica em sua época.

São Boaventura nasceu em Bagnoregio, na província italiana de Viterbo, no ano de 1217. Pouco se sabe sobre sua infância, a não ser o episódio marcante que teria influenciado a escolha de seu nome religioso. Tendo caído numa forte doença, sua mãe pediu a intercessão de São Francisco, há pouco canonizado, para que o salvasse. Foi haurindo do santo a "boa ventura" que começou a simpatia do até então João Fidanza pelo impressionante testemunho do Poverello, como conta o Papa Bento XVI:

"A figura do Pobrezinho de Assis tornou-se-lhe ainda mais familiar alguns anos mais tarde, quando se encontrava em Paris, aonde tinha ido para estudar. Obtivera o diploma de Mestre de Artes, que poderíamos comparar com o de um Liceu prestigioso dos nossos tempos. Nesta altura, como muitos jovens de ontem e também de hoje, João formulou uma pergunta crucial: 'O que devo fazer da minha vida?'" [1]

São Boaventura, por sua vez, entendeu cedo que a verdadeira vida não é aquela dedicada à obtenção de um diploma, à conquista de uma namorada "bonitinha" ou à persecução de um cargo importante. A vida não pode ser decidida por escolhas apenas temporais. Neste sentido, o filho de São Francisco decidiu-se pelo cumprimento fiel de sua vocação à santidade, abraçando a cruz que teria de carregar até o dia da redenção e tomando, em 1243, o hábito franciscano: "Confesso diante de Deus que a razão que me fez amar mais a vida do Beato Francisco é que ela se assemelha aos inícios e ao crescimento da Igreja. A Igreja começou com simples pescadores e em seguida enriqueceu-se de doutores muito ilustres e sábios" [2]. Trata-se de um exemplo valioso para a geração atual, que, infelizmente, quase não entende mais o valor do sacrifício e das escolhas definitivas.

Terminados os estudos na Universidade de Paris, São Boaventura ganhou uma cátedra na mesma instituição para ensinar teologia, ofício que cumpriu com heroica dedicação, apesar das dificuldades. Havia, naquela época, uma antipatia dos padres seculares pelas ordens mendicantes, de modo que muito se contestou a presença de seus membros dentro do ambiente acadêmico. Questionava-se quase tudo: o seu estilo de vida, a fidelidade à doutrina e até a própria vocação deles. Para responder aos críticos e defender os seus, Boaventura redigiu um texto exemplar que, dada a sua profundidade, ainda hoje pode ser lido com proveito por todos os cristãos. No livro A perfeição evangélica, o santo mostra que a Igreja é mais bela e luminosa quando seus filhos e filhas são fieis à vocação para a qual Deus os chamou e, vivendo-a exemplarmente, tornam-se "testemunho de que o Evangelho é nascente de alegria e de perfeição" [3].

A missão de São Boaventura, porém, não se resumiu aos debates teológicos da academia. Logo teve de assumir também o governo dos franciscanos, o que o obrigou a afastar-se definitivamente da universidade para que pudesse entregar-se aos cuidados da fundação de seu pai espiritual. Tal foi a sua dedicação que alguns chegam a atribuir-lhe o título de segundo fundador dos Frades Menores.

Quando São Boaventura tornou-se ministro-geral da Ordem, os franciscanos viviam uma tensão por causa da influência de um frade cisterciense chamado Joaquim de Fiore. Morto em 1202, este frade defendia uma teologia da história que se dividia trinitariamente. Haveria, nesse sentido, uma época do Pai (o Antigo Testamento), uma época do Filho (o Novo Testamento) e uma época do Espírito, consolidada pelo fim das instituições e pelo surgimento de "uma comunidade carismática de homens livres guiados interiormente pelo Espírito" [4]. A corrente dos chamados "franciscanos espirituais" acreditava ser São Francisco o fundador dessa "comunidade carismática". Vendo o risco de que a mensagem do Poverello degenerasse em anarquia, São Boaventura apressou-se em estudar os escritos de Joaquim de Fiore e toda a documentação possível acerca de São Francisco de Assis.

Apesar de exaustivo e, muitas vezes, constrangedor, o trabalho de São Boaventura para purificar sua Ordem rendeu uma obra teológica inigualável, a começar pela sua biografia de São Francisco, em que demonstra toda a fidelidade dele à mensagem de Cristo e da Igreja. São Francisco não foi um hippie amante de Gaia, como sugerem algumas malfadadas interpretações, mas um "alter Christus, um homem que procurou Cristo apaixonadamente, que se conformou totalmente a Ele". Com isso, Boaventura provou que "a Ordem franciscana (...) pertence à Igreja de Jesus Cristo, à Igreja Apostólica, e não pode construir-se num espiritualismo utópico". Ao contrário, a sua missão é a de "estar presente em toda a parte para anunciar o Evangelho" — essa é a verdadeira novidade em relação ao monaquismo comum que, "a favor de uma nova flexibilidade, restituiu à Igreja o dinamismo missionário" [5].

Vale ainda um comentário breve sobre a visão espiritual de São Boaventura acerca do relacionamento de Deus com o homem. Com uma linguagem semelhante à que Santa Teresa d'Ávila usaria alguns séculos mais tarde, São Boaventura fala de um "itinerário", uma peregrinação que todos devem percorrer até chegarem ao fim definitivo que é Deus. Nesta peregrinação, haveria nove graus ou estágios de perfeição — assim como nove são as ordens angélicas —, que, com a graça de Deus, o homem iria galgando pouco a pouco. Para São Boaventura, os santos mais generosos, como São Francisco de Assis, pertenceriam à ordem seráfica, na qual o homem se converte em "puro fogo de amor".

Boaventura, porém, não deixa de lembrar que a santidade é dom de Deus e que, portanto, ninguém pode alcançá-la somente com forças humanas. Ela é sobretudo fruto da comunhão com o amor divino, comunhão que se desenvolve na oração. O que se pode tirar da teologia de São Boaventura é uma firme confiança no amor de Deus, no amor que se manifesta precisamente naquela noite escura da razão, "onde a razão já não vê", mas o amor: "Se agora desejas saber como isto acontece (ou seja, a escalada para Deus), interroga a graça, não a doutrina; o desejo, não o intelecto; não a luz, mas o fogo, que tudo inflama e transporta em Deus" [6].

Antes de partir para a casa do Pai, onde teria o encontro definitivo com esse amor de que tanto falava, São Boaventura prestou um último serviço à Igreja aqui na terra, participando do II Concílio Ecumênico de Lião. Morreu em 1274 como bispo e cardeal. Os testemunhos de sua época diziam que Deus lhe havia concedido tal graça "que todos aqueles que o viam permaneciam imbuídos de um amor que o coração não podia ocultar" [7]. De fato, Boaventura entrou na pátria celeste para, como gostava de repetir, entrar na alegria de Deus. E assim encontrou a vida eterna que havia arduamente buscado e preparado já aqui nesta nossa pousada. Hoje somos favorecidos pela sua intercessão.

Oxalá todos os jovens sigam o exemplo de São Boaventura e façam de suas vidas um itinerário seguro para a casa do Pai, onde há muitas moradas (cf. Jo 14, 2).

São Boaventura de Bagnoregio,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e referências

  1. Papa Bento XVI, Audiência Geral (3 de março de 2010).
  2. São Boaventura, Epistula de tribus quaestionibus ad magistrum innominatum, in: Opere di San Bonaventura. Introduzione generale, Roma, 1990, p. 29.
  3. Papa Bento XVI, Audiência Geral (3 de março de 2010).
  4. Id., Audiência Geral (10 de março de 2010).
  5. Papa Bento XVI, Audiência Geral (3 de março de 2010). Cf., também, Papa Francisco condena "caricatura" de São Francisco de Assis.
  6. São Boaventura, Itinerário da mente a Deus, VII, 6.
  7. J. G. Bougerol, Bonaventura, in: A. Vauchez (org.), Storia dei Santi e della Santità Cristiana, vol. 6. "L'epoca del rinnovamento evangelico". Milão, 1991, p. 91.

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A bondade que todo cristão deveria ter

Se é certo que bondade não significa frouxidão, firmeza também não significa estupidez

O mês dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Jesus pede necessariamente uma meditação sobre a bondade de Deus. Não por acaso um famoso escritor espiritual do século XIX dizia que "a bondade se mostra o melhor paladino do preciosíssimo Sangue" [1]. É que na raiz do sacrifício redentor, bem como de todo o mistério da encarnação, marcado por tanta angústia e sofrimento, não poderia estar outra coisa senão a infinita compaixão que o Senhor tem de Seus filhos, sobretudo daqueles mais necessitados de Sua misericórdia.

"Só Deus é bom" (Mc 10, 18). Essas são as palavras que Cristo dirige ao jovem rico quando este O interroga sobre o caminho para a vida eterna. O jovem desejava uma orientação acerca do que é preciso ser feito para se alcançar a coroa do Céu. Reconhecendo a Sua sabedoria e a autoridade com que pregava, o rapaz Lhe diz: "Bom mestre, que farei para alcançar a vida eterna?" (Mc 10, 17). A resposta de Jesus, embora induza o leitor desatento a questionar a Sua divindade, transmite um ensinamento assaz importante: toda bondade tem como origem a Santíssima Trindade. Jesus, portanto, é um "bom mestre" não porque ensina coisas proveitosas, mas porque Sua doutrina vem da fonte da verdade, do Criador de tudo o que é bom e belo.

O homem, enquanto criatura de Deus, participa de Sua bondade num grau ainda maior que os demais seres existentes, pois é o único criado à Sua "imagem e semelhança" (Gn 1, 26). Mais: como ser que ainda caminha para a perfeição, é convidado por Deus a crescer em bondade, a fim de unir-se à família trinitária.

A mancha do pecado original, porém, provocou uma desordem tão profunda no coração humano, que suas ações ficaram dramaticamente inclinadas para o mal, de modo que aquele chamado de Deus à perfeição acontece de ser não somente negligenciado, mas até ignorado. Essas más inclinações, por sua vez, só podem ser superadas na medida em que o homem se dedicar à vida interior, ou seja, a uma intimidade generosa com a Pessoa de Cristo.

Eis aqui, então, um problema demasiado difícil para os homens modernos que desejam ser bons como pede o Senhor.

De muitos modos, esta época não tem favorecido a virtude da bondade. Há como que uma guerra acirrada contra qualquer coisa que lembre a caridade, a continência, a fidelidade, a sinceridade, a temperança e tantos outros hábitos bons. Veja-se, por exemplo, a maneira como os "heróis" costumam ser apresentados nos filmes, novelas e outros programas de entretenimento vulgar. A sua figura é tão estereotipada e cheia de afetações que chega a causar asco em qualquer espírito viril e sensato, ao passo que os "vilões" aparecem muito mais interessantes: são inteligentes, charmosos, bem-sucedidos, fortes etc. Isso quando os papéis não se misturam, com heróis "pilantras" e vilões "piedosos". Trata-se de uma estratégia realmente perversa de inversão de valores.

Os efeitos dessa confusão não poderiam ser mais desastrosos. Muitos, influenciados pela mentalidade moderna e pretendendo afastar qualquer sombra de fraqueza, adotam um discurso tão rude e severo, que são incapazes de transmitir compaixão ou misericórdia. Para uma alma cristã, poucas coisas há que sejam tão trágicas quanto essa. O rosto do cristianismo termina desfigurado, transformado em uma caricatura de "moralismo".

É preciso entender que a bondade é um atributo divino e, sem ela, nenhum cristão pode realmente exercer um ministério eficaz. Isso já deveria ser claro para os católicos, dada a quantidade de passagens da Sagrada Escritura e do Magistério que se referem ao amor e à misericórdia de Deus por Suas criaturas. Aliás, foi justamente a Sua bondade que Ele fez passar diante de Moisés, proclamando: "O Senhor, o Senhor [YHWH, YHWH] é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade" ( Ex 34, 6).

É neste sentido que Dom Chautard escreve em seu famosíssimo livro A alma de todo apostolado uma página toda dedicada à busca da bondade. "Quanto mais o coração estiver unido a Jesus Cristo, tanto mais se tornará participante da qualidade principal do coração divino e humano do redentor, da sua bondade, indulgência, benevolência e compaixão", diz o monge trapista [2]. Disto se conclui que a evangelização não depende tanto da eloquência e dos métodos do evangelizador, apesar de serem elementos importantes, mas do grau de unidade com que esse mesmo evangelizador se relaciona com Jesus. Um missionário cheio do Espírito Santo irradia a bondade de Deus e convence os corações, até os mais duros, ainda que a mensagem cristã contrarie seus estilos de vidas e desejos.

Essa certeza deve ser acolhida plenamente pelos católicos, e, de maneira especial, por aqueles que, em seus apostolados, ainda insistem numa retórica agressiva e demasiado violenta. Se é certo que bondade não significa frouxidão, firmeza também não significa estupidez. Aqui, portanto, cabe o sábio conselho de São Josemaría Escrivá: "Sê intransigente na doutrina e na conduta. — Mas suave na forma. — Maça poderosa de aço, almofadada. — Sê intransigente, mas não sejas cabeçudo" [3].

Um papa comumente relacionado à defesa da Tradição é São Pio X. A sua heroica luta contra o modernismo, "síntese de todas as heresias", tornou-o um grande cavaleiro da fé para muitos católicos. Mas, atenção, a mera defesa dos costumes cristãos não torna ninguém santo. De fato, Pio X foi uma figura notável no Trono de Pedro porque soube conjugar a fidelidade aos princípios com a caridade necessária para com todas as almas, principalmente com a dos "inimigos". É particularmente tocante o relato que Dom Chautard apresenta em A alma de todo apostolado sobre esse grande pontífice:

"A um leigo eminente ouvimos contar o seguinte fato: Falando com S. Pio X, tinha esse leigo, no decurso da conversação, desfechado algumas palavras mordentes sobre um inimigo da Igreja. 'Meu filho, disse-lhe o papa, não aprovo a sua linguagem. Como castigo, ouça esta história. Acabara de chegar a sua primeira paróquia um sacerdote que eu conheci muito bem. Julgou ele do seu dever visitar todas as famílias: judeus, protestantes, até mações, ninguém foi excluído, e o pároco anunciou do púlpito que renovaria a visita todos os anos. Tanto se admiraram disto os colegas dele que se queixaram ao bispo. Este mandou logo chamar o acusado e repreendeu-o com veemência. Excelência, respondeu-lhe modestamente o pároco, Jesus no Evangelho ordena ao pastor que conduza ao aprisco todas as suas ovelhas, oportet illas addúcere. Como lograr esse resultado sem ir à procura delas? De mais a mais, eu nunca transijo com os princípios; limito-me a testemunhar meu interesse e minha caridade a todas as almas, mesmo às desgraçadas, que Deus me confiou. Anunciei essas visitas do púlpito; e se é desejo formal de V.Exª que cesse de as fazer, queira ter a bondade de me dar por escrito essa proibição, a fim de que se saiba que eu apenas obedeço às ordens de V.Exª. Abalado pelo acerto das palavras, o bispo não insistiu. O futuro veio depois dar razão a esse sacerdote que teve a alegria de converter algumas dessas almas desgarradas e impôs às outras grande respeito pela nossa santa religião. O humilde sacerdote veio a ser, por vontade de Deus, o papa que agora lhe dá, meu filho, esta lição de caridade. Seja, pois inabalável nos princípios, mas estenda sua caridade a todos os homens, mesmo que sejam os piores inimigos da Igreja'". [4]

Jesus foi um exemplo de virilidade na conduta com as pessoas de Sua época. Quando necessário, jogou cadeiras e mesas para o alto, admoestou e corrigiu a muitos. Mas, ao mesmo tempo, não deixou de compadecer-Se dos sofrimentos humanos, sobretudo na hora da crucifixão, hora em que Se calou e aceitou todas as humilhações pelo bem da humanidade. Essa é a bondade de Deus, da qual todos os cristãos devem tornar-se fiéis imitadores. Para tanto, não há melhor caminho que o da união com o preciosíssimo sangue de Cristo, derramado pela remissão dos nossos pecados.

Neste mês de julho, mês do Preciosíssimo Sangue, cada católico aprenda a ser "manso e humilde de coração", pois o Reino dos Céus é dos que assim agem (cf. Mt 5, 5). E que Nossa Senhora das Dores interceda por todos nós aos pés da cruz de Nosso Senhor.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. FÁBER apud CHAUTARD, 2015, p. 114.
  2. CHAUTARD, Jean-Baptiste. A alma de todo apostolado. São Paulo: Cultor de Livros, 2015, 252 p.
  3. São Josemaria Escrivá. Caminho, cap. 17, n. 397.
  4. CHAUTARD, op. cit., p. 115.

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É pecado usar roupas curtas ou colantes?

Assista a este vídeo especial e veja como o amor tem que estar em tudo, inclusive no modo como nos vestimos.

É pecado usar roupas curtas ou colantes?

Para responder a essa questão, é preciso que entendamos primeiro em que consiste a moral cristã, resumida por Nosso Senhor em dois mandamentos principais (cf. Mt 22, 34-40; Mc 12, 28-31; Lc 10, 25-28): "Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento" (Dt 6, 5) e "Amarás teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19, 18).

O núcleo da mensagem cristã não é outro, portanto, senão o amor. Quem não tem isso constantemente diante dos olhos pode terminar interpretando a doutrina moral do Evangelho sob um viés errado, como se ela fosse um simples "código de leis" ou um exacerbamento dos "complexos de culpa" mal resolvidos do homem. Não se trata disso, absolutamente. Como gostava de lembrar o Papa Bento XVI, a fé cristã é sobretudo o encontro com uma Pessoa, mais que com "uma decisão ética ou uma grande ideia" [1], e é por causa desse encontro pessoal e transformador que se desenvolve todo o mais da vida cristã.

Posto isso, é necessário considerarmos os três objetos do amor cristão [2], que são atingidos quando uma pessoa veste uma roupa sensual:

  1. O primeiro e mais evidente é o amor ao próximo, pois quem se veste indecentemente causa escândalo para as pessoas à sua volta, colocando-as em ocasião de pecado. Foi o próprio Cristo quem disse que "todo aquele que olhar para uma mulher com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela em seu coração" (Mt 5, 28). É verdade que os maus olhares e pensamentos sujos são de iniciativa das outras pessoas, mas quem quer que se vista de modo "francamente provocativo" atua como um chamariz, ainda que não tenha a intenção clara de "seduzir o próximo ou excitar as suas paixões", coisa que seria ainda pior [3].
  2. O segundo é o amor a si mesmo, pois a pessoa que se veste de modo sensual e provocante, ao mesmo tempo em que revela os traços de seu corpo, termina escondendo o que de mais importante há em si: sua alma [4]. Para comprovar essa verdade, basta olhar para o aviltante papel a que se prestam homens e mulheres sambando desnudos sobre os carros alegóricos carnavalescos, degradados como simples "pedaços de carne" à vista.
  3. O que se tem, por fim, é uma falta contra o amor a Deus, muitas vezes por temor mundano. Quando alguém sabe, por exemplo, que deve vestir-se dignamente, mas não o faz por medo do que pensarão ou dirão seus amigos ou familiares, é porque prefere o amor das criaturas ao de Deus.

Note-se, portanto, como o uso de roupas curtas ou colantes constitui uma grande falta de caridade para com Deus, para com o próximo e para consigo mesmo. Por isso, o amor tem que estar em tudo, inclusive no modo como nos vestimos. Na próxima vez que for abrir o seu guarda-roupa para escolher o seu vestuário, lembre-se: você é uma pessoa que ama.

Referências

  1. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est (25 de dezembro de 2005), n. 1.
  2. Cf. Suma Teológica, II-II, q. 25, a. 12. Neste artigo, Santo Tomás de Aquino cita a autoridade de Santo Agostinho para dizer que são quatro os objetos da caridade, não três. É que o Aquinate distingue o amor a si mesmo do amor ao próprio corpo, distinção que também o Padre Paulo Ricardo faz no vídeo, ao lembrar a supremacia de nossa alma sobre nosso corpo e a dignidade deste último.
  3. ROYO MARÍN, Antonio. Teología moral para seglares. I, Moral fundamental y especial. 4. ed. Madrid: BAC, 1973, p. 415.
  4. Santo Tomás de Aquino, ao responder se os pecadores se amam a si mesmos, mostra como os maus, amando "a si mesmos segundo a corrupção do homem exterior", não se amam verdadeiramente: "Os maus não querem conservar a integridade do homem interior, não aspiram para si os bens espirituais, não trabalham para alcançá-los, nem têm prazer em conviver consigo mesmos voltando-se ao seu coração porque nele encontram os males presentes, passados e futuros, que só podem detestar; não vivem em paz consigo mesmos pois sua consciência está cheia de remorsos, como está em Sl 49, 21: 'Eu te acuso e me levanto contra a tua face'." (Suma Teológica, II-II, q. 25, a. 7).

| Categoria: Espiritualidade

Jesus deseja ser consolado por você

Hoje em dia, com tantos ataques à dignidade de Deus, é urgente reaprendermos as práticas reparadoras para consolarmos o Coração de Cristo.

Ainda sobre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Seu Preciosíssimo Sangue, é preciso tratar agora da necessária reparação às ofensas cometidas contra a honra de Nosso Senhor.

Infelizmente, embora faça parte da Tradição cristã, a prática da reparação não está mais na moda; pouquíssimas homilias ou pregações são dedicadas a esse tema tão importante para o crescimento na fé. Não são poucos, aliás, os que reprovam os sacrifícios de expiação e consolação, sentenciando-os ao passado medieval. Se a misericórdia de Deus é infinita, argumentam, não há por que fazer atos de reparação e desagravo, uma vez que nenhuma falta humana seria grande o suficiente para ofender o Coração de Jesus; afinal, Ele mesmo declarou: "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9, 13).

Outros ainda insistem que, tendo Cristo derramado Seu sangue até a última gota no dia da Paixão, as penitências já não fariam sentido e acabariam atentando contra o único e verdadeiro sacrifício redentor, pois insinuariam, de certo modo, uma insuficiência na Paixão de Cristo pela salvação dos pecadores.

É comum que, diante desse quadro de objeções aparentemente sensatas às práticas de reparação, o fiel leigo — ou mesmo sacerdote — sinta-se dissuadido a realizar qualquer obra de amor pela conversão dos pecadores, pelas almas do purgatório e, mais importante ainda, em desagravo aos ataques contra a dignidade de Deus. Acontece que a história dos santos, inclusive de santos doutores, como Tomás de Aquino e Agostinho, é tão fortemente marcada pelos sacrifícios e por atos de desagravo a Nosso Senhor que não há teologia neste mundo que possa impugnar ou relativizar a sua importância.

De qualquer modo, vale a pena esclarecer o equívoco daqueles que se opõem aos atos de reparação, a fim de que não reste qualquer dúvida sobre o assunto.

De fato, a misericórdia de Deus é infinita e cobre uma multidão de pecados. Falta nenhuma é capaz de superar o tamanho desse amor. Contudo, esse mesmo Deus, infinito em sua bondade, quis estabelecer uma relação com Sua criatura, quis tornar-se sua família e seu amigo. Ele não é um deus longínquo ou uma divindade pagã alheia às necessidades de suas criaturas, como acreditavam as antigas civilizações. Deus nos amou por primeiro, estabeleceu como que uma pedagogia, manifestando-se por meio de inúmeros profetas, até a plenitude dos tempos, quando enviou seu Filho unigênito, para que n'Ele todas as coisas fossem recapituladas (cf. Hb 1, 1-2).

Entende-se, pois, que Ele nos ama como amigo e que, por isso, somos chamados a dar uma resposta de amor, porque "a caridade é amizade do homem com Deus" [1]. Somente por meio dessa resposta o homem se realiza enquanto pessoa humana e torna-se aquilo que é chamado a ser. O desprezo pelo sagrado, porém, destrói a vocação e ratifica uma indiferença com relação Àquele de quem recebemos tudo.

Ora, se a amizade é o meio pelo qual Deus decidiu nos salvar, é óbvio que aqueles que O recusam põem em xeque a própria salvação, e não por uma limitação da misericórdia divina, que é infinita, mas por uma escolha trágica do indivíduo. Essa escolha, no entanto, pode ser atenuada justamente pela reparação que os irmãos desses infelizes oferecem a Deus, repetindo as palavras de Cristo na cruz: "Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34).

Ademais, Cristo mesmo desejou os nossos sacrifícios pela redenção da humanidade ao fundar Sua Igreja como membro de Seu Corpo. Esse corpo místico também é objeto da Paixão, como atestam estas palavras de São Paulo: "Completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja" (Cl 1, 24). Quando meditamos os sofrimentos de São Pio de Pietrelcina, cujas mãos se dignaram experimentar as próprias chagas do Senhor, ou as humilhações de Santa Bernadette, que teve de escutar da Madre Superiora que "não servia para nada", não há como não perceber a presença viva e atuante de Jesus carregando o madeiro até o calvário, pois, como diz São Paulo, "à medida que os sofrimentos de Cristo crescem para nós, cresce também a nossa consolação por Cristo" (2 Cor 1, 5).

Note-se ainda o episódio do Horto das Oliveiras (cf. Mc 14, 32s). O mesmo Jesus, que tantas vezes se retirou para orar sozinho no deserto, aparece assustado, com Sua alma triste até a morte e com o desejo de ser consolado por Seus discípulos. Não se trata de uma carência afetiva, é certo, mas de um grande mistério: o Deus que se fez homem completo para redimir os demais e ensiná-los o caminho para o verdadeiro amor. Na Cruz se espelham todas as dores da humanidade. Portanto, a reparação às ofensas contra Jesus também nos une aos padecimentos de todo o gênero humano: "Ele nos consola em todas as nossas aflições, para que, com a consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que se acham em toda e qualquer aflição" (2 Cor 1, 4). Quem ousaria pensar numa escola de amor melhor e mais eficaz do que essa?

É possível agora entender o que Jesus pretendia ensinar quando disse não querer "sacrifício", mas "misericórdia". O sacrifício ao qual Ele se referia era aquele baseado unicamente na lei; tratava-se de um ato legalista. As penitências reparadoras, por outro lado, têm como gênese o amor verdadeiro à Pessoa de Jesus, como explica o Papa Pio XI: "Quando a caridade dos fiéis se entibia, a caridade de Deus se apresenta para ser honrada com culto especial" [2]. A misericórdia não contraria as penitências, antes as incentiva.

A Igreja aprovou, ao longo de sua história, os mais variados tipos de mortificação e penitência, desde o jejum à abstinência de carne nas sextas-feiras. Algumas almas mais generosas, como São João Maria Vianney, São Josemaria Escrivá, São João Paulo II etc., não tiveram medo de dormir no chão — para experimentarem a frieza do calabouço onde Cristo ficou preso —, de flagelar-se com a disciplina — para sentirem os chicotes rasgarem as costas de Jesus —, ou de usar o cilício, para se unirem à Paixão redentora que foi coroada de espinhos. Existem, além disso, as práticas espirituais das "comunhões reparadoras" ou da chamada "hora santa" e também as sempre recomendáveis obras de misericórdia: dar de comer aos pobres, visitar os doentes, vestir os nus, dar bom conselho etc.

Recorde-se, porém, que a melhor prática de reparação às ofensas contra Deus é aquela em que nossa vontade é contrariada para conformar-se amorosamente à vontade do Criador, pois "quanto mais perfeitamente corresponda ao sacrifício do Senhor nossa oblação e sacrifício [...], tantos mais abundantes frutos de propiciação e de expiação para nós e para os demais perceberíamos" [3]. Neste sentido, que grande ocasião é o nosso cotidiano, cheio de contratempos e de frustrações, para amar e consolar o Coração de Jesus.

Nossa época exige dramaticamente atos de reparação às ofensas cometidas todos os dias contra o dulcíssimo Coração de Jesus. Isso ficou claro nas inúmeras aparições de Maria no último século e, em especial, na mensagem de Fátima, cujo centenário se aproxima. Naquela ocasião, Maria Santíssima escolheu três inocentes crianças para sofrerem pela conversão dos pecadores. Que testemunho belíssimo deram Lúcia, Jacinta e Francisco ao nosso século, que perde mais tempo cuidando do corpo em academias e clínicas de estética do que com a alma. Loucos! São João Maria Vianney mesmo disse que se as pessoas condenadas tivessem ao menos um segundo para poderem livrar-se do fogo eterno, o inferno estaria vazio. Ah, se os homens usassem o tempo que têm disponível para amar a Deus. Mas, desgraçadamente, esse tempo é gasto com bobagens, blasfêmias, pornografia e outras monstruosidades.

É tempo de misericórdia, proclamou o Papa Francisco. É tempo de dobrarmos nossos joelhos no chão, batermos no peito e clamarmos: "Miserere nobis, Domine, quia peccatores sumus — Tende piedade de nós, Senhor, porque somos pecadores".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 23, a. 1
  2. Pio XI, Carta Encíclica Miserentissimus Redemptor (8 de maio de 1928), n. 2.
  3. Ibid., n. 8.

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O dia em que uma mula se prostrou diante do Santíssimo Sacramento

Para converter o coração de um herege, Santo Antônio de Lisboa chegou a fazer uma mula se prostrar diante do Santíssimo Sacramento. Conheça essa história.

Na região de Toulouse, na França, Santo Antônio disputava com um herege que não acreditava no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Apesar de vencido, o infiel não se convertia à Fé.

Depois de muito discutir, então, ele propôs:

— Deixemo-nos de palavras e vamos a obras. Se tu fores capaz de mostrar com milagres, na presença de toda a gente, que no Sacramento está de fato o Corpo de Jesus Cristo, eu prometo deixar a heresia e submeter-me à Fé católica.

E Santo Antônio, cheio de confiança, respondeu que assim faria.

— Pois então vou fechar em casa um animal. Vou atormentá-lo com a fome durante três dias, e ao fim vou trazê-lo perante todos os que quiserem assistir, dando-lhe algo de comer. Neste intervalo, vens tu com o Sacramento que dizes ser o Corpo de Jesus Cristo. Se o animal esfomeado parar de comer e correr para o Deus que, segundo afirmas, toda a criatura tem obrigação de adorar, podes ficar certo que imediatamente abraçarei a Fé da Igreja.

O santo varão de Deus sem demora em tudo consentiu. E no dia combinado ajuntou-se o povo na praça grande, e veio o dito herege na má companhia de outros hereges, e trouxe a mula que tinha atormentado com a fome, e também, para ela, provisão saborosa de comida. Santo Antônio celebrou a missa na capela que havia no lugar, e ao fim, à vista do povo, trouxe o Santíssimo Corpo de Jesus Cristo. Mandando a todos que se calassem, disse para a mula:

— Ó animal, em virtude e em nome do teu Criador que eu, embora indigno, tenho aqui presente em minhas mãos, ordeno e mando que venhas já sem demora até Ele e humildemente lhe prestes reverência, para que desse modo veja a maldade dos hereges que toda a criatura é sujeita ao Criador a quem a dignidade do sacerdote trata cada dia nos altares.

Enquanto isso, o herege punha de comer à mula esfomeada.

Eis, então, que coisa maravilhosa aconteceu! O animal, mesmo atormentado de tanta fome, quando ouviu as palavras de Santo Antônio, logo parou de comer e abaixou a cabeça, caindo de joelhos diante do Sacramento.

Diante deste fato, muito se alegraram os fiéis católicos, e merecidamente saíram confundidos os hereges. E aquele dito herege se converteu ali mesmo, conforme havia prometido, e começou a obedecer aos mandamentos da Igreja.

Adaptado por Equipe Christo Nihil Praeponere

Fonte

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Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus

Nesta pregação, conheça o caminho que produziu a primeira santa brasileira e que todos nós devemos trilhar para chegarmos à glória do Céu.

A Igreja celebra hoje, dia 9 de julho, a memória de Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Mesmo tendo nascido na Europa, foi no Brasil que Amábile Lúcia Visintainer se santificou, entregando a sua vida em sacrifício de amor a Deus e ao próximo.

Em homilia feita esta manhã na Paróquia Cristo Rei, de Várzea Grande (MT), Padre Paulo Ricardo conta brevemente a história dessa religiosa e revela o segredo de sua santidade, implícito em seu próprio nome religioso. Afinal, o que a agonia de Cristo tem a ver com os nossos sofrimentos? Como podemos aproveitar as dores e as misérias deste mundo para crescer em Deus?

Escute esta pregação e conheça o caminho que santificou a primeira santa brasileira e que todos nós devemos trilhar para chegarmos à glória do Céu:

Para fazer download desta homilia, basta clicar aqui.

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Ator de Hollywood propõe castidade como modelo de vida

Eduardo Verástegui impressionou os telespectadores da rede CNN ao revelar sua fé católica e sua opção pela castidade. Conheça um pouco a sua história de conversão.

O ator mexicano Eduardo Verástegui, que atuou em "Cristiada" (For Greater Glory, 2012) e mais recentemente em "Little Boy" (2015), impressionou os telespectadores da rede CNN quando revelou, durante uma entrevista concedida em 2015, estar há 13 anos sem relações sexuais.

A escolha que ele fez se deve à sua conversão definitiva à Igreja Católica, ocorrida em 2002. O ator diz que foi uma professora de inglês que o fez mudar de vida:

"Um dia minha professora de inglês se deu conta de que eu era uma pessoa um pouco fora do padrão, era a ovelha negra de minha família, consideravam-me impossível. [...] Cresci em um ambiente onde pensava que o verdadeiro homem era o Don Juan, o latin lover, o mulherengo, o playboy... E você acaba acreditando que, para ser feliz, tem que se transformar nesse tipo de homem."

Nesse percurso, o ator confessou ter machucado muitas mulheres em sua juventude. Mas as coisas começaram a mudar quando, aos 28 anos, sua professora fê-lo ver um novo caminho a seguir. Um dia, durante uma aula, ela lhe perguntou: "Você gostaria de se casar, ter família e filhas?". Verástegui respondeu que sim e, em seguida, fez uma lista das qualidades que ele queria em um genro. Foi então que ele percebeu estar sendo exatamente o oposto do tipo de homem que ele mesmo queria para suas filhas:

"Graças a essas conversas compreendi que o sexo é sagrado, que é um presente de Deus, e que é necessário cuidar dele, preservá-lo, a fim de compartilhá-lo com a pessoa mais importante de sua vida, no meu caso, a mãe de meus filhos. [...] A partir de então eu disse: 'Vou ser fiel a essa pessoa que ainda não conheço. E farei uma promessa de castidade, uma disciplina de abstinência'. Estou me preparando para ser um bom marido e um bom pai, se for essa a minha vocação. Não vivo pensando no futuro, o futuro é incerto."

O ator revelou sentir-se feliz, mas admitiu ser uma pessoa "muito fraca" e que apenas sua disciplina espiritual lhe permite conseguir manter seu estilo de vida. "Se tiram de mim minha disciplina espiritual, se me tiram Deus do centro de minha vida, eu entro em colapso em menos de dois minutos, não consigo. Vivo em um ambiente cheio de tentações. A capital das tentações é a nossa carreira... Se não vou ao ginásio da alma para desenvolver uma vida virtuosa, não consigo, é impossível", concluiu o ator.

Hoje, Eduardo Verástegui tem sua própria produtora de filmes (Metanoia Films), buscando viver a santidade em sua profissão. No começo de sua vida de fé, o ator até veio ao Brasil na perspectiva de ser um missionário, mas o padre mexicano Juan Rivas, que o dirigia espiritualmente, achou conveniente que ele voltasse para Hollywood para uma missão ainda mais ousada: evangelizar o mundo cinematográfico.

Que São José o mantenha firme na luta pela castidade e o ajude na pregação dessa virtude tão necessária para os nossos dias.

Com informações de People | Por Equipe Christo Nihil Praeponere