| Categoria: Santos & Mártires

Uma visita ilustre a um corpo incorrupto

Dentre os muitos fiéis que já visitaram o corpo de Santa Madalena de Pazzi, um nome especial ficou registrado nos anais do carmelo de Florença.

Santa Maria Madalena de Pazzi, cuja memória a Igreja universal celebra neste 25 de maio, viveu na passagem do século 16 para o século 17.

Enfrentando a resistência de uma família abastada, Madalena se fez carmelita com apenas 16 anos, em Florença. Passou em sua vida religiosa por inúmeros sofrimentos de ordem física e espiritual, pelos quais foi recompensada com experiências místicas e visões extraordinárias de Nosso Senhor, da Santíssima Virgem e de muitos outros santos.

Era uma mulher de muita oração e intimidade com a Palavra de Deus. Uma testemunha de seu processo de canonização conta que via Madalena passar horas meditando os Evangelhos:

"Eu me lembro, em particular, de que todos os sábados, tomando o livro dos evangelhos, ela pegava dois ou três pontos do evangelho do domingo seguinte, a sua escolha, e meditava sobre eles a semana inteira, gastando cerca de duas horas pela manhã e uma, à noite, nessa meditação." [1]

Depois de sua morte, no ano de 1607, o seu corpo foi um dos muitos na história da Igreja a experimentar o fenômeno da incorrupção:

"O corpo da santa foi cuidadosamente examinado durante as exumações de 1612 e 1625, e de novo em 1663 para o processo de canonização. A cada vez era atestado por todas as testemunhas que a preservação de seu corpo era de natureza miraculosa, 'já que ele não estava em nenhuma parte aberto ou embalsamado, nem nenhum artifício havia sido usado nele'." [2]

No momento de sua morte, as suas irmãs no convento afirmavam que seu corpo "não inspirava terror como os cadáveres geralmente fazem, mas, ao contrário, à morte daquela santa alma, seu rosto permaneceu alegre e todos os seus membros ficaram tão brancos quanto o marfim". Hoje, mais de 400 anos depois de sua morte, o "marfim" tomou uma cor amarelada, mas o seu rosto ainda sorri. Uma descrição recente de sua relíquia diz que Madalena "parece gentilmente dormir à espera da ressurreição" [3].

Visitante ilustre de seu corpo incorrupto foi a pequena Teresa de Lisieux, em 1887.

O encontro entre essas duas santas mulheres se deu durante uma peregrinação da família Martin à Itália. Santa Teresinha, sua irmã Celina e seu pai Luís (também ele santo canonizado) voltavam de Roma, depois de uma tentativa frustrada de obter do Papa Leão XIII o ingresso prematuro de Teresa no carmelo. O breve episódio é relatado em seu famoso livro História de uma alma:

"Em Florença, fiquei contente de contemplar Santa Madalena de Pazzi no meio do coro das Carmelitas que nos abriram a grande grade. Não sabíamos deste privilégio, e como muitas pessoas queriam tocar seus terços no túmulo da Santa, só eu pude passar a mão pela grade que nos separava dele. Assim, todos me traziam os terços e eu estava toda orgulhosa com meu ofício... Achava sempre o meio de tocar em tudo." [4]

O primeiro dado notável desse encontro são as suas protagonistas: duas mulheres, veneradas como santas e mestras da vida interior pela Igreja Católica — a mesma que o feminismo moderno acusa de misoginia e de patriarcalismo. Ditas acusações se devem, em grande medida, a uma tremenda ignorância histórica. Desde o seu início, de fato, a religião cristã deu um tratamento especial às mulheres [5], a começar por Maria, escolhida por Deus para ser a própria mãe do Verbo encarnado:

"A mulher em si mesma [...] nunca foi tão exaltada como no cristianismo. Dir-se-ia até que o foi mais do que o homem, não só porque Jesus a encontrara mais aviltada, e a tomou de mais baixo, como também porque, pela apoteose incomparável de Maria Santíssima, colocou uma simples mulher em culminâncias inatingíveis a nenhuma outra criatura humana." [6]

A própria Santa Teresinha do Menino Jesus escreve que "elas [as mulheres] amam a Deus em número bem maior do que os homens, e durante a Paixão de Nosso Senhor, as mulheres tiveram mais coragem do que os Apóstolos, pois enfrentaram os insultos dos soldados e ousaram enxugar a Face adorável de Jesus" [7].

Assim, o sexo que acabou muitas vezes, após a queda do gênero humano, sucumbindo a uma dominação destruidora do sexo masculino (cf. Gn 3, 16), agora se encontra cumulado de inúmeros benefícios, a ponto de o Apóstolo dizer que, "em Cristo, não há nem judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher" (Gl 3, 28): independentemente do sexo com que nascem as pessoas, todas são chamadas à perfeição na caridade.

No encontro entre essas duas grandes almas, transparece, ao mesmo tempo, uma grande humanidade: Santa Teresinha não só contemplava Madalena, mas "achava sempre o meio de tocar em tudo". Olhando o modo como esta piedosa jovem tratou as relíquias de Santa Madalena de Pazzi, também nós aprendemos a venerar os restos mortais dos santos de Deus: embora não sejam "deuses", as suas almas já participam definitivamente da natureza divina (cf. 2 Pd 1, 4) no Céu.

Por isso, enquanto seus corpos parecem "gentilmente dormir à espera da ressurreição", nós, a exemplo de Santa Teresinha, achemos sempre o meio de tocar em suas santas relíquias, na esperança de que o mesmo repouso celestial de que eles gozam, nós também experimentemos um dia, por toda a eternidade.

Santa Maria Madalena de Pazzi,
rogai por nós!

Santa Teresinha do Menino Jesus,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. VASCIAVEO, Chiara. Maria Madalena de Pazzi, o tesouro escondido na Igreja. 30 Dias, n. 11 (2007).
  2. CRUZ, Joan Carroll Cruz. The Incorruptibles. Charlotte: TAN Books, 2012, p. 195.
  3. Ibid., p. 196.
  4. Manuscrito A, 66r. Obras completas: escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 137.
  5. Cf. STARK, Rodney. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006.
  6. CORRÊA, Dom Aquino. Elevação da mulher (9 de dezembro de 1934). Discursos, v. 2, t. 2. Brasília, 1985, pp. 135-137.
  7. Manuscrito A, 66v. Obras completas: escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 138.

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O que Chesterton diria sobre o “casamento gay”?

Embora a expressão “casamento gay” seja nova, as raízes dessa ideia são muito mais antigas — e Chesterton já havia alertado para o seu perigo

Por Dale Ahlquist | Tradução: Equipe CNP — Um dos temas prementes na época de Chesterton era o "controle de natalidade". Ele não fazia objeção apenas à ideia, mas ao próprio termo, porque significava o oposto do que queria dizer. Não significava nem natalidade, nem controle. Posso supor que ele teria as mesmas objeções contra o "casamento gay". Não só a ideia, como também o nome está errado: o "casamento gay" não é gay, no sentido original do termo [1], nem é casamento.

Chesterton era sempre sensato em seus pronunciamentos e profecias porque entendia que qualquer coisa que atacasse a família era ruim para a sociedade. Foi por isso que ele falou contra a eugenia e a contracepção, contra o divórcio e o "amor livre" (outro termo que ele rejeitava por sua falsidade), mas também contra a escravidão assalariada e a educação estatal compulsória, com mães contratando outras pessoas para fazer o que elas foram designadas para fazer por si mesmas. É seguro dizer que Chesterton se levantou contra toda moda e tendência que hoje nos aflige porque cada uma dessas modas e tendências minava a família. Um Estado intervencionista (Big Government) tenta substituir a autoridade da família, e um Mercado dominador (Big Business) tenta substituir a sua autonomia. Há uma constante pressão comercial e cultural sobre o pai, a mãe e os filhos. Eles são minimizados, marginalizados e, sim, ridicularizados. Mas, como diz Chesterton, "esse triângulo de truísmos — pai, mãe e filho — não pode ser destruído; só se destroem as civilizações que o desprezam" [2].

A legalização das uniões homossexuais não é nem o último nem o pior ataque à família, mas tem um valor impressivo, apesar do processo de dessensibilização em que nos colocaram as indústrias de informação e entretenimento ao longo dos últimos anos. Quem tenta protestar contra a normalização do anormal é recebido "ou com ataques ou com o silêncio" — assim como Chesterton, quando ele tentou argumentar contra as novas filosofias promovidas pela maior parte dos jornais de sua época. Em 1926, ele alertou: "A próxima grande heresia será um ataque à moralidade, especialmente à moral sexual" [3]. Seu aviso passou desapercebido, enquanto a moral sexual decaía progressivamente. Mas vamos nos lembrar que tudo começou com o controle da natalidade, que é uma tentativa de viver o sexo por ele mesmo, transformando um ato de amor em um ato de egoísmo. A promoção e a aceitação do sexo sem vida, estéril e egoísta evoluiu, logicamente, para a homossexualidade.

Chesterton mostra que o problema da homossexualidade como inimiga da civilização é bem antigo. Em O Homem Eterno, ele descreve que o culto à natureza e a "simples mitologia" produziram uma perversão entre os gregos. "Da mesma forma que eles se tornaram inaturais adorando a natureza, assim eles de fato se tornaram efeminados adorando o homem". Qualquer jovem, ele diz, "que teve a sorte de crescer de modo sensato e simples" sente um repúdio natural pela homossexualidade porque "ela não é verdadeira nem para a natureza humana, nem para o senso comum". Ele argumenta que, se tentarmos agir indiferentemente em relação a ela, estaremos nos enganando a nós mesmos. É "a ilusão da familiaridade" quando "uma perversão se torna uma convenção" [4].

Em Hereges, Chesterton quase faz uma profecia sobre o abuso da palavra "gay". Ele escreve sobre a "poderosa e infeliz filosofia de Oscar Wilde", "a religião do carpe diem". Carpe diem significa "aproveite o dia", faça o que quiser, sem pensar nas consequências, viva apenas pelo momento. "No entanto, a religião do carpe diem não é a religião das pessoas felizes, mas a das absolutamente infelizes" [5]. Há um desespero bem como um infortúnio ligado a isso. Quando o sexo é apenas um prazer momentâneo, quando não oferece nada além de si mesmo, ele não traz nenhuma satisfação. É literalmente sem vida. E, como Chesterton escreve em seu livro São Francisco de Assis, "no momento em que o sexo deixa de ser um servo, ele se torna um tirano" [6]. Essa é talvez a mais profunda análise do problema dos homossexuais: eles são escravos do sexo. Estão tentando "perverter o futuro e desfazer o passado". Eles precisam ser libertados.

O pecado tem consequências. Ainda assim, Chesterton sempre sustenta que devemos condenar o pecado, não o pecador. E ninguém mostra mais compaixão pelos decaídos do que ele. Sobre Oscar Wilde, que ele chama de "o chefe dos decadentes" [7], Chesterton diz que ele cometeu um "erro monstruoso", mas também sofreu monstruosamente por isso, indo para uma terrível prisão, onde ele foi esquecido por todas as pessoas que antes tinham brindado a sua rebeldia impulsiva. "A vida dele foi completa, naquele sentido inspirador em que a minha vida e a sua são incompletas, já que nós ainda não pagamos por nossos pecados. Nesse sentido, podemos chamar a vida dele de perfeita, assim como falamos de uma equação perfeita, que é neutralizada. De um lado, nós temos o saudável horror ao mal; de outro, o saudável horror à punição" [8].

Chesterton se referia ao comportamento homossexual de Wilde como um pecado "altamente civilizado", por ser uma das piores aflições entre as classes ricas e ilustradas. Era um pecado ao qual Chesterton nunca havia sido tentado, e ele diz que não é uma grande virtude nunca termos cometido um pecado ao qual não fomos tentados. Outra razão pela qual devemos tratar nossos irmãos e irmãs homossexuais com compaixão. Nós conhecemos nossos próprios pecados e fraquezas o suficiente. Fílon de Alexandria dizia: "Seja gentil, pois todos à sua volta estão lutando uma batalha terrível".

Compaixão, contudo, não significa jamais compromisso com o mal. Chesterton ressalta aquele equilíbrio pelo qual nossa verdade não deve ser desprovida de piedade, nem a nossa compaixão deve ser separada da verdade. A homossexualidade é uma desordem. É contrária à ordem. Os atos homossexuais são pecaminosos, ou seja, são contrários à ordem de Deus. Eles jamais poderão ser normais. Pior ainda, jamais sequer poderão ser vividos normalmente. Como diz o grande detetive Padre Brown: "Os homens até podem se manter em um nível razoável de bondade, mas ninguém jamais foi capaz de permanecer em um nível de maldade. Essa estrada conduz ao fundo do abismo" [9].

O matrimônio é entre um homem e uma mulher. Essa é a ordem. E a Igreja Católica ensina que essa é uma ordem sacramental, com implicações divinas. O mundo tem feito uma sátira do casamento que agora culminou com as uniões homossexuais. Mas foram os homens e as mulheres heterossexuais que pavimentaram o caminho para essa decadência. O divórcio, que é algo anormal, é agora tratado como normal. A contracepção, outra coisa anormal, é agora tratada como normal. O aborto ainda não é normal, ainda que seja legal [10]. Legalizar o "casamento" homossexual não o tornará normal, só vai aumentar ainda mais a confusão dos tempos e a decadência da nossa civilização. Mas a profecia de Chesterton permanece: não seremos capazes de destruir a família. Ao desprezá-la, o que vamos fazer é simplesmente destruir-nos a nós mesmos.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e referências

  1. Antes de significar "homossexual", a palavra inglesa gay remetia simplesmente à ideia de alegria e despreocupação.
  2. CHESTERTON, G. K. The Superstition of Divorce. London: Chatto & Windus, 1920, p. 63.
  3. ______. The Next Heresy. In: The Chesterton Review 26 (3), p. 295-298 (2000).
  4. ______. O Homem Eterno (trad. de Almiro Pisetta). São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 164-165.
  5. ______. Hereges (trad. de Antônio Emílio Angueth de Araújo). 3. ed. Campinas: Ecclesiae, 2012, p. 119.
  6. ______. Saint Francis of Assisi. London: Hodder and Stoughton, 1923, p. 30.
  7. ______. The Victorian Age in Literature. London: Williams and Norgate, 1913, p. 226.
  8. ______. Oscar Wilde. In: On Lying in Bed and Other Essays. Calgary: Bayeux Arts, 2000, p. 248.
  9. ______. The Flying Stars. In: A Inocência do Padre Brown. Porto Alegre: L&PM, 2011.
  10. Nos Estados Unidos, o aborto é legalizado desde a famosa decisão Roe vs. Wade, de 1973.

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Ônibus se preparam para o Ramadã na Inglaterra

A mesma Inglaterra que censura o Pai Nosso nas telas de cinema durante o Natal, prepara os seus ônibus públicos para celebrar o Ramadã islâmico.

Processo de islamização da Europa quase completo. De acordo com a agência Independent:

"Centenas de ônibus britânicos irão portar propagandas exaltando Alá como parte de uma campanha, promovida pela maior organização filantrópica muçulmana do país, para ajudar vítimas da guerra civil na Síria.

A associação Islamic Relief espera que os pôsteres, com as palavras Subhan Allah, que significa 'Alá seja louvado' em árabe, ajudem a retratar de maneira positiva o Islã e a intervenção estrangeira no Oriente Médio.

Ônibus farão parte da campanha em Londres, Birmingham, Manchester, Leicester e Bradford."

A iniciativa, que coincide com a preparação para o Ramadã, a maior festa religiosa do islamismo, já havia sido anunciada antes mesmo da eleição do muçulmano Sadiq Khan ao cargo de prefeito de Londres, no último dia 9 de maio.

Até o momento, nenhum protesto de grande dimensão foi registrado no país em resposta a essa campanha. Em compensação, no último Natal, um simples comercial com pessoas rezando o Pai Nosso foi o suficiente para despertar a censura dos defensores do "Estado laico". Empresas de cinema barraram o vídeo das telas porque "ele poderia ofender as pessoas".

Aparentemente, o mesmo argumento não se aplica aos ônibus de Alá. A Inglaterra, outrora cristã, hoje se prepara para o Ramadã.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Santos & Mártires

Rita de Cássia, uma história de amor através do sofrimento

A história da famosa Santa Rita de Cássia mostra que, realmente, “fora da Cruz, não existe outra escada por onde subir ao Céu”.

O corpo incorrupto de Santa Rita de Cássia é um dos casos mais célebres da história da Igreja. Ela morreu em 1457, mas até hoje, quem quer que visite a pequena comuna de Cássia, no interior da Itália, ficará impressionado em encontrar os restos mortais dessa santa mulher, ainda bem preservados no interior de uma urna dourada de cristal.

Numerosos eventos aconteceram ligados a essas relíquias. Só "no momento de sua entrada no Céu, a cela em que ela se encontrava ficou repleta de um perfume extraordinário, uma luz espantosa emanou do estigma que ela tinha na testa e conta-se que os sinos da cidade foram tocados alegremente pelos anjos". Os fenômenos odoríferos e muitos outros milagres fizeram as autoridades civis e eclesiásticas "instalarem as suas relíquias em um lugar acessível aos peregrinos que visitavam continuamente o seu túmulo". Antes de sua canonização, em 1627, "o corpo foi cuidadosamente examinado e achado perfeitamente como no dia de sua morte, com a pele apresentando ainda a sua cor natural" [1], fato que salta aos olhos principalmente porque o seu corpo nunca tinha sido adequadamente sepultado, no correr de mais de 150 anos.

O reconhecimento de sua santidade, no entanto, não provém necessariamente da incorrupção de seu corpo. Há inúmeros homens e mulheres canonizados pela Igreja cujos restos mortais passaram por um processo natural de decomposição, sem que houvesse quaisquer acontecimentos extraordinários. Por isso, é preciso dizer que, ainda que o corpo de Santa Rita de Cássia não fosse encontrado incorrupto, ela seria canonizada por sua vida e pelo grande amor com que serviu a Deus.

De fato, Santa Rita é conhecida no mundo inteiro como "a santa das causas impossíveis" — e sua história não deixa de atestar a verdade do título que recebeu de seus devotos. Tendo casado muito cedo e meio que a contragosto, Rita sofreu muito com o temperamento violento e tempestuoso do marido, mas, graças ao fervor de suas orações e penitências, viu a graça divina agir sobre Paolo Ferdinando, pouco antes de seu assassinato, motivado por razões políticas. Os seus dois filhos juraram vingar a morte do pai, mas a mãe se prostrou novamente diante de Deus, dizendo que preferia ver os dois filhos mortos antes que que chegassem a cometer esse crime.

Sem dúvida, essas são palavras difíceis de serem pronunciadas por uma mãe, mas não para uma mulher convicta da eternidade e do valor da alma de seus filhos. Rita sabia que este mundo não era a "última palavra": sabia que, para além desta vida terrena, existia uma vida eterna futura, ou de glória ou de perdição, e que seria muito melhor para os seus filhos uma existência curta nesta terra que uma vida eterna sem Deus no inferno.

A exemplo de Santa Mônica, Rita foi atendida em suas preces e viu os seus filhos morrerem não só livres da culpa do homicídio, mas também do ódio e do rancor que eles nutriam em relação aos assassinos de Paolo Ferdinando. Os dois morreram perdoando os inimigos de seu pai. O que parecia humanamente impossível, Rita o alcançou pela força de suas orações.

Só por essa história belíssima — que muitos gostariam de ter repetida em suas famílias, vendo-as convertidas a Deus — a sua vida já mereceria um filme.

Rita, porém, depois de viver em plenitude o sacramento do Matrimônio, não deixando que se perdesse nenhum dos que lhe tinham sido confiados (cf. Jo 18, 9), decide entrar para a vida religiosa, a fim de celebrar aquele casamento definitivo com o Esposo de todas as almas que vivem neste mundo: Jesus Cristo. Aí, mesmo neste caminho tão belo de entrega a Deus, não é menor o sofrimento que a espera: primeiro, para conseguir entrar no Convento das Irmãs Agostinianas de Cássia, cuja regra impedia o ingresso de mulheres viúvas (outro impossível que ela superou com o auxílio de Deus); depois, para lidar com uma ferida supurante e malcheirosa, que fê-la viver os últimos 15 anos de sua vida em absoluto recolhimento (após a sua morte, foi dessa mesma ferida que emanou aquela luz gloriosa de que falamos).

A história de Santa Rita de Cássia é, em suma, uma história de amor a Deus através do sofrimento. Todos aqueles que querem ser verdadeiros devotos desta santa mulher devem trilhar a mesma via que ela: uns na vida matrimonial e outros na vida celibatária, mas todos no mesmo caminho do Calvário, porque, como dizia outra piedosa mulher, Santa Rosa de Lima, "fora da Cruz, não existe outra escada por onde subir ao Céu" [2].

Que o Espírito Santo nos ajude a transformar todos os nossos sofrimentos em atos de caridade; a converter toda a nossa dor em verdadeiro amor.

Santa Rita de Cássia,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Sugestões

Referências

  1. CRUZ, Joan Carroll. The Incorruptibles. Charlotte: TAN Books, 2012, p. 102.
  2. HANSEN, P. Vita mirabilis (...) venerabilis sororis Rosae de sancta Maria Limensis. Roma, 1664, p. 137.

| Categoria: Avisos

Na próxima segunda-feira... "A Mensagem de Fátima"!

Você não pode perder o programa ao vivo da semana que vem, quando Padre Paulo Ricardo falará sobre as aparições, os segredos e a mensagem de Nossa Senhora de Fátima.

Será que nós compreendemos realmente a mensagem de Fátima?

É a pergunta que o Padre Paulo Ricardo quer responder no programa ao vivo desta segunda-feira, dia 23 de maio de 2016.

Às portas do centenário das aparições, falaremos sobre a história desse acontecimento, os famosos segredos que Nossa Senhora contou aos três pastorinhos e, acima de tudo, veremos como aplicar em nossa própria vida as mensagens da Mãe de Deus.

Diferentemente de nosso Especial de 10 Anos de Apostolado, esta aula será exclusiva para os alunos do site. Se você ainda estava hesitante, esta é uma grande oportunidade para fazer de vez a sua inscrição.

Enquanto aguarda a nossa transmissão, acompanhe o material que já possuímos sobre Nossa Senhora de Fátima:

Não perca, segunda-feira, no horário de sempre (às 21h), o nosso programa ao vivo sobre as aparições de Nossa Senhora de Fátima. Nós esperamos por você!

| Categoria: Espiritualidade

Como fazer do Pai Nosso uma arma espiritual?

Se nem todos podem realizar um ritual de exorcismo como o dos filmes, todos os cristãos podem, sem exceção, rezar a Oração do Senhor. E isso não é pouca coisa.

Por Pe. Dwight Longenecker | Tradução: Equipe CNP — Certa vez, durante uma palestra conduzida por um importante autor e psiquiatra cristão, três mulheres entusiasmadas lhe contaram que havia uma seita de bruxas em sua cidade e elas queriam saber o que fazer para acabar com isso.

O médico era uma pessoa de renome e, ao mesmo tempo, de grande espiritualidade. Ele disse com calma: "Pela minha experiência, na maioria dos casos, tudo o que é necessário para livrar um lugar do mal é reunir um grupo de cristãos fiéis e rezar em silêncio, repetindo todos juntos a oração do Pai Nosso e concentrando-se na frase 'Livrai-nos do mal'." Ele sorriu e deu sequência à sua fala. "Isso geralmente funciona. Alguém tem mais alguma pergunta?"

Acredito que as senhoras ficaram um pouco desapontadas. Talvez elas quisessem fazer um exorcismo dramático cheio de cabeças girando, levitações, água benta e sinais extraordinários. É verdade que, não raramente, muitas situações exigem um exorcismo. Nesses casos, só um exorcista treinado pode realizar o ritual adequado, contando com a autorização do bispo local.

Todos os cristãos batizados e confirmados, porém, são chamados a ser soldados na batalha espiritual, e um uso consciente da Oração do Senhor pode ser um instrumento bem prático e concreto para derrotar o demônio e libertar um lugar ou uma pessoa da influência maligna.

Às vezes nós nos esquecemos que uma dimensão importante do ministério do Senhor era a Sua batalha contra Satanás. Imediatamente depois de ser batizado, Jesus é enviado ao deserto para confrontar o pai da mentira. Logo depois, vemo-Lo expulsando demônios; curando os doentes do corpo, da mente e do espírito; e, finalmente, através de Sua paixão e ressurreição, esmagando de uma vez por todas a antiga serpente.


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Nesse ínterim, Ele também nos dá o Pai Nosso como uma arma na guerra, deixando nessa oração três expressões intimamente relacionadas à batalha que nós devemos travar com a Sua ajuda.

A primeira dessas expressões é o pedido "Perdoai-nos as nossas ofensas". Antes de qualquer coisa, nós pedimos perdão por nossos pecados, e isso está ligado com a ação de perdoarmos os outros. Quando dizemos, "assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido", nós estamos agindo como canais do perdão de Deus, que flui através de nós em direção ao próximo.

O primeiro passo consiste, pois, em rezar o Pai Nosso bem devagar, com uma ênfase nessas duas frases. Quando fazemos isso depois de um bom exame de consciência, a Oração do Senhor se converte em um poderoso ato de contrição. Santo Tomás de Aquino ensina, por exemplo, que os nossos pecados veniais podem realmente ser perdoados no Pai Nosso, se a nossa oração incluir "um movimento de detestação dos pecados". É claro que, se a nossa consciência nos acusa de um pecado mortal, o nosso ato de contrição não basta, e devemos recorrer ao sacramento da Reconciliação.

Ao rezar uma segunda vez a Oração do Senhor, focamo-nos no pedido "Não nos deixeis cair em tentação", pedindo, desta vez, que não sejamos enganados pelas vozes que pretendem nos levar ao pecado. Por "tentação", nós não falamos simplesmente da atração que temos para o pecado, referimo-nos também à tentação ativa que o demônio coloca diante de nós. Em outras palavras, "Senhor, defendei-nos dos ataques do mal" ou "Mantende-nos a salvo das contínuas armadilhas do mal. Dirigi-nos para perto da luz e para longe da escuridão".

Essa segunda vez rezando está claramente ligada à terceira, quando damos ênfase à última petição, "Livrai-nos do mal". Essa é a petição final e mais poderosa de libertação, porque, afinal, é nisso que consiste uma oração "de cura e libertação": livrar uma pessoa da escravidão do mal. É muito simplista imaginar que a escravidão ao demônio só se dê sob a forma da possessão diabólica. Muitas pessoas sofrem como escravas do mal: algumas estão presas a vícios, comportamentos sexuais obsessivos ou outros pecados particulares; outras são escravas das drogas, de maus relacionamentos; e outras ainda são escravas de sua auto-estima negativa, de hábitos destrutivos, de depressão, do medo e da ansiedade. Em todas essas dificuldades pode haver uma dimensão espiritual. Maus espíritos podem agir sobre uma pessoa prejudicando a saúde do seu corpo e do seu espírito.

De maneira bem prática e serena, então, podemos lutar contra o mal por meio de um uso consciente e intencional da Oração do Senhor: (1) para recebermos e darmos perdão, (2) para não cairmos em tentação e (3) para sermos libertos dos poderes malignos que nos acorrentam.

Finalmente, o Pai Nosso pode ser usado ainda não só para nós mesmos, mas como uma intercessão pelos outros. É inclusive um ato de misericórdia rezar pelo próximo que está escravizado pelo pecado, pedindo ao Senhor que o liberte.

Essa oração nos une com a oração de Jesus. Foi assim que Ele rezou e era isso o que Ele pedia. Acredito que esse aspecto do Pater Noster seja o mais importante e, no entanto, é o mais negligenciado de todos. Quando essa oração é rezada com simplicidade, serenidade e reflexão, nós unimos as nossas orações às de Cristo e a nossa vontade à d'Ele pela salvação do mundo e pela libertação das almas.

Fonte: Pantheos | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Virgem Maria

Aparições Marianas: o que são e qual o seu papel na vida cristã?

Embora não façam parte do “depósito da fé”, as aparições marianas reconhecidas pela Igreja constituem um chamado sobrenatural à conversão e à santificação pessoais

O mês de maio é tradicionalmente dedicado a uma meditação mais fervorosa sobre os mistérios da Virgem Maria e do papel que ela ocupa na Igreja como mãe e advogada dos cristãos. Romarias, orações comunitárias do Santo Terço, novenas, Missas e outras manifestações de piedade para com a Mãe de Deus costumam acontecer em vários lugares. Trata-se de um carinho todo filial que os católicos procuram ofertar à Virgem, aquela que nos trouxe a salvação, a "Mãe de meu Senhor", como diria Santa Isabel (cf. Lc 1, 43).

Maio é também o mês em que nossos olhares se voltam para a cidade de Fátima, em Portugal, onde há quase cem anos a Virgem Maria aparecia a três criancinhas, os videntes Francisco, Jacinta e Lúcia, pedindo-lhes que rezassem pela conversão dos pecadores e pelo triunfo de Seu Imaculado Coração. Ainda hoje, os famosos segredos de Fátima são causa de muita especulação e curiosidade dentro e fora da Igreja.


Você não pode perder, nesta segunda-feira, dia 23, o nosso programa ao vivo sobre "A Mensagem de Fátima":


A pergunta que queremos responder hoje, no entanto, é esta: de que maneira os fiéis católicos podem prestar maiores homenagens à Virgem Santíssima, a partir de aparições como as de Fátima e tantas outras já testemunhadas na história da Igreja?

O papel e o limite das "revelações privadas"

Os eventos de Fátima, assim como as demais aparições da Virgem Maria, pertencem àquele gênero de revelações que a Igreja chama de "privadas". Na definição de alguns teólogos, essas revelações consistem em uma "manifestação visível de um ser cuja visão naquele lugar ou naquele momento é inusitada e inexplicável segundo o curso natural das coisas" [1]. Uma vez que não fazem parte do depósito da fé, nenhum católico é obrigado a aceitá-las com o obséquio da fé, embora sejamos docilmente convidados a "discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja". Como resume o Catecismo, o papel delas "não é 'aperfeiçoar' ou 'completar' a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época da história" [2].

É preciso que todos os fiéis tenham muito claras essas noções, a fim de que não caiam ingenuamente em radicalismos e falsos messianismos, como sói acontecer em muitas ocasiões. A credulidade excessiva em muitas "profecias" e "revelações" — que, aliás, nem sequer foram ainda reconhecidas pela Igreja — pode incorrer num grave pecado contra a fé, conforme o que já alertava São João: "Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas se levantaram no mundo" (1 Jo 4, 1).

A Igreja age com salutar prudência todas as vezes que uma "revelação privada" surge. Essa atitude se justifica por razões teológicas e pastorais. Imaginem como seria danoso a uma comunidade descobrir, após grandes manifestações de adesão, que uma determinada "revelação" ou "mensagem celestial" não passava de charlatanismo. Ou ainda as consequências nocivas que tais "revelações" podem acarretar à obediência e à credibilidade da Igreja — especialmente por causa da grande repercussão que esses assuntos ganham pelos meios de comunicação —, quando pretendem "ultrapassar ou corrigir a Revelação de que Cristo é a plenitude" [3].

No que precisa crer o fiel católico? Na Revelação de Deus, encerrada com a morte do último apóstolo, e transmitida pela Igreja, quer por via oral, quer por escrito. Assim se expressou o Sagrado Concílio Vaticano I:

Deve-se, pois, crer com fé divina e católica todas as coisas que estão contidas na Palavra de Deus escrita ou transmitida pela Tradição, e que, pela Igreja, quer em declaração solene, quer pelo Magistério ordinário e universal, nos são propostas a ser cridas como reveladas por Deus [4].

Isso significa que o objeto material da fé católica corresponde àquilo que está exposto nas Sagradas Escrituras, nos símbolos apostólicos — os doze artigos do Credo — e no ensinamento perene da Igreja. Duas são as fontes da divina Revelação: a Tradição e as Sagradas Escrituras. Ambas constituem o depósito da fé, cuja tutela e interpretação são de responsabilidade do Magistério da Igreja.

No caso dos dogmas, por sua vez, somos obrigados a acolhê-los diligentemente porque, ao contrário dos protestantes, nossa fé não se fundamenta em juízos particulares, mas no juízo dos pastores, que são assistidos pelo poder do Espírito Santo e, que, portanto, não se enganam. Conforme explica o padre Royo Marín, "isso se dá porque não podemos ter certeza de que conhecemos e acolhemos o autêntico testemunho de Deus a não ser pela luz profética (que ilumina somente aqueles que recebem diretamente a divina revelação) ou pela proposição infalível da Igreja" [5]. Essas proposições podem manifestar-se de dois modos: por uma declaração solene de um Papa ou de um Concílio — a chamada declaração ex cathedra — ou por meio do Magistério ordinário e universal — ou seja, o ensinamento comum feito pelo Papa e pelos bispos reunidos a ele daquilo que é a fé de sempre da Igreja: "quod ubique, quod semper, quod ab omnibus — o que [foi crido] em todo lugar, sempre e por todos", diria São Vicente Lérins [6].

Com relação à Virgem Maria, quatro dogmas já foram solenemente proclamados: a Maternidade Divina, a Virgindade Perpétua, a Imaculada Conceição e a Assunção. Ao fiel católico já não é permitido questionar nenhum desses dogmas, sob pena de cair em graves heresias, porque "recusar fé a uma só doutrina da Igreja é não possuir fé" [7]. Existem, por outro lado, as piedosas opiniões, que nada mais são do que "uma verdade admitida pela Igreja desde tempo imemorial, mas ainda não declarada como revelada por Deus" [8]. É o caso da "mediação universal" de Maria e da sua "corredenção".

Como discernir as aparições marianas

Aparição de Nossa Senhora a São Tiago Maior, por Francisco Goya.

A primeira aparição mariana de que se tem notícia é a de Zaragoza, Espanha, ainda nos tempos apostólicos. Os relatos dão conta de que Nossa Senhora aparecera a São Tiago para confortá-lo acerca da conversão dos espanhóis, que se mostrava muito difícil. Essa aparição deu origem ao título de Nossa Senhora do Pilar, proclamada padroeira da Espanha.

Basicamente, as aparições marianas sempre tiveram uma conotação apologética. Na maior parte de suas mensagens, a Virgem pede por uma conversão dos costumes e pela reparação às ofensas contra Seu Filho Jesus, num contexto em que algum artigo da sã doutrina cristã se encontra visivelmente ameaçado. Como citamos anteriormente, o papel das "revelações privadas", quando verdadeiras, é fazer com que o depósito da fé seja acolhido e vivido "mais plenamente, numa determinada época da história". Não se trata de uma nova revelação ou dogma, mas de um incentivo a uma vida mais coerente com o Evangelho revelado. É por isso que a Igreja também alerta para o risco daquele racionalismo crítico que faz "duvidar até das revelações privadas aprovadas pela Igreja [...], que, sem pertencer ao depósito da revelação nem ser objeto de fé divina, seria presunçoso e temerário rechaçar" [9].

Com o decorrer dos séculos e a repercussão que esse tipo de fenômeno costuma ter, sobretudo com a participação dos meios de comunicação, a Santa Sé decidiu elencar alguns requisitos básicos para o reto discernimento das aparições, que levam em consideração aspectos positivos e negativos, "a fim de que a devoção suscitada entre os fiéis por acontecimentos deste tipo possa manifestar-se no respeito da plena comunhão com a Igreja e dar frutos, dos quais a própria Igreja possa discernir em seguida a verdadeira natureza dos acontecimentos" [10]. Ei-los aqui:

Quando a Autoridade eclesiástica for informada sobre uma presumível aparição ou revelação, será sua tarefa:

a) em primeiro lugar, julgar sobre o fato segundo critérios positivos e negativos (cf. infra, n. I);

b) em seguida, se este exame chegar a uma conclusão favorável, permitir algumas manifestações públicas de culto ou de devoção, prosseguindo na vigilância sobre elas com grande prudência (isto equivale à fórmula: «pro nunc nihil obstare»);

c) finalmente, à luz do tempo transcorrido e da experiência, com especial relação à fecundidade dos frutos espirituais gerados pela nova devoção, expressar um juízo de veritate et supernaturalitate, se o caso o exigir. [11]

É fundamental que haja o devido respeito a essas normas para que não se crie o risco de divisão no seio da comunidade. De fato, o diabo pode muito bem aproveitar-se da inocência de alguns fiéis, como já aconteceu inúmeras vezes, inculcando-lhes falsas mensagens celestiais, que perturbam a ordem do culto a Deus. Além disso, os videntes não são pessoas infalíveis, de modo que as mensagens que eles recebem correm o risco de se confundirem com os seus próprios pensamentos. É a autoridade da Igreja que pode julgar com segurança esses fatos.

No final do século XIX e início do século XX, Maria visitou-nos com espantosa regularidade. Medalha Milagrosa, La Salette, Lourdes e Fátima constituem como que o ápice dessas visitas, cuja mensagem era uma só: reparação e conversão. Os frutos benéficos produzidos por essas mesmas aparições ainda hoje podem ser vistos e colhidos, de tal forma que os próprios Romanos Pontífices se referem a eles em suas exortações e programas de pontificado. É, portanto, muito salutar que os fiéis abram os ouvidos ao testemunho das aparições marianas, segundo o critério da Madre Igreja, com vistas para uma autêntica renovação dos costumes e um vigoroso crescimento na fé.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. LAURENTIN, René, "Aparições - II Parte: Aspectos Históricos", in DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Dicionário de Mariologia. São Paulo: Paulus, 1995, p. 116.
  2. Catecismo da Igreja Católica, n. 67.
  3. Idem.
  4. Concílio Vaticano I, Const. Dogm. Dei Filius c. 3: Denz. 1792.
  5. MARÍN, Antonio Royo. A Fé da Igreja: Em que deve crer o cristão de hoje. Campinas: Ecclesiae, Edições Cristo Rei, 2015, p. 69.
  6. Commonitorium, II.
  7. SPIRAGO, Francisco. Catecismo Católico Popular, vol. I. 3a. ed. Lisboa: União Gráfica, 1938, p. 74.
  8. Ibidem, p. 59.
  9. MARÍN, op. cit., p. 126.
  10. Congregação para a Doutrina da Fé, Normas para proceder no discernimento de presumíveis aparições e revelações (25 de fevereiro de 1978), n. 2.
  11. Idem.

| Categoria: Santos & Mártires

Os milagres do corpo incorrupto de São Pascoal

Ele foi para o Céu, mas o seu corpo ficou e Deus realizou inúmeros milagres através de suas relíquias.

Estátua que abriga o corpo de São Pascoal, na cidade espanhola de Villarreal.

Por Joan Carroll Cruz | Tradução: Equipe CNP — Nascido em Torre Hermosa, no então Reino de Aragão, de uma humilde família de agricultores, Pascoal trabalhou como pastor de ovelhas dos 7 aos 24 anos. Conta-se que ele recebeu uma visão de São Francisco e de Santa Clara ordenando a ele que entrasse para a Ordem Franciscana. Em uma data futura, ele acabou sendo admitido ao mosteiro dos Franciscanos Alcantarinos de Monteforte. Como irmão religioso, ele serviu em várias funções nos mosteiros da Ordem, mas sua atividade predileta era cuidar dos pobres e doentes, pelos quais ele frequentemente derramava lágrimas de compaixão e realizava milagres de cura.

A devoção à Santa Eucaristia era o tema dominante de sua vida. Seu primeiro biógrafo, Padre João Gimenez, que era amigo pessoal do santo, registra que Pascoal passava todo o seu tempo livre diante do tabernáculo, ajoelhado no próprio assoalho, com as mãos apertadas e firmes acima do rosto. Ele também conta que o santo se deleitava em servir a várias Missas sucessivas e que várias vezes passava a noite em oração diante do sacrário.

Durante uma viagem à França em missão, ele foi chamado várias vezes para defender sua fé na Santa Eucaristia. Para um frade, usar o hábito durante aquele tempo de guerras religiosas era um convite ao desastre, e ele foi muitas vezes preso, interrogado e maltratado pelos calvinistas huguenotes. Em uma das cidades, ele chegou a ser apedrejado e sofreu um ferimento no ombro que o afligiu pelo resto da vida.

Por uma coincidência, o exato "momento da partida desse santo homem para o Céu coincidiu com o de sua entrada no mundo. Ele tinha 52 anos naquele dia, Domingo de Pentecostes, ao amanhecer" de 15 de maio de 1592 [1].

Conheça o quadro Visión de San Pascual Bailón, de Giambattista Tiepolo, que retrata uma aparição do Santíssimo Sacramento ao santo espanhol.

Devido à grande quantidade de pessoas que desejava ver os restos mortais, o seu corpo foi transportado da humilde cela em que ele morreu para uma das capelas na igreja de Nossa Senhora do Rosário. Os fiéis que passavam em fila pelo caixão ficavam impressionados com a irradiação celeste de seu semblante e com o líquido perfumado que se acumulava em sua testa desde o momento de sua morte. Durante os três dias de exposição, "o óleo milagroso que destilava dos membros do santo fluía copiosa e continuamente" [2]. Conta-se que foram necessários guardas armados para controlar as pessoas, muitas das quais foram autorizadas a coletar o dito líquido em pequenos tecidos, que depois curaram várias doenças até então sem esperança de cura.

Também se conta que muitos dos que participaram do velório puderam testar a flexibilidade do corpo e abrir as pálpebras para ver os seus olhos, que eram de um brilho e de uma claridade incomuns.

Dos grandes prodígios e milagres que aconteceram em todos os cantos, talvez o incidente mais extraordinário que ocorreu durante esse período solene foi a miraculosa abertura dos olhos do corpo, um milagre visto por muitas das pessoas que lotaram a igreja.

Eleonora Jorda y Miedes, uma testemunha ocular desse fato, que até então sentia repulsa por cadáveres, relatou em seu testemunho:

"Dirigi-me ao Irmão Pascoal como se ele estivesse vivo, beijei as suas mãos e seus pés e vi as milagrosas gotas de suor em sua fronte. No fim, estava me sentindo tão bem ao lado daquele santo homem que, a fim de permanecer o maior tempo possível com a sua bendita companhia, resolvi não deixar a capela antes do fim da Missa Solene. Devo confessar, para minha vergonha, que dava mais atenção ao que estava acontecendo ao redor do santo homem que à celebração do Santo Sacrifício. Quando o vi abrindo os olhos no momento da elevação da Hóstia, fiquei tão estarrecida que soltei um grito. 'Mamãe, mamãe! — exclamei para minha mãe, que tinha vindo comigo — Veja, veja! Irmão Pascoal está com os olhos abertos!' Ela olhou e também viu os olhos do santo abertos.

Todos os que fomos testemunhas desse milagre tínhamos em mente uma só coisa: que, com aquilo, Nosso Senhor queria recompensar a extraordinária devoção de Pascoal à Santa Eucaristia, dando a ele uma vida nova, a fim de que, mesmo do outro lado do túmulo, ele ainda tivesse a consolação de adorar Jesus no Santíssimo Sacramento do altar." [3]

Na noite do terceiro dia seguinte à sua morte, enquanto era preparado um lugar para o corpo sob o altar da Imaculada Conceição, Pascoal foi revestido de um novo hábito, já que o antigo havia sido despedaçado pelos fiéis. Antes do enterro, o vigilante cobriu o corpo com uma grossa camada de cal virgem para consumir rapidamente a carne e para produzir um material lustroso, que ele achou que poderia parecer bonito em um relicário. Ele também agiu pressupondo que a cal destruiria rapidamente a carne, impedindo assim que ela emitisse qualquer odor desagradável — um fato que chocaria as pessoas e "mancharia" a reputação adquirida pelo corpo depois de tantas maravilhas.

O corpo permaneceu imperturbável nesse agente cáustico por oito meses, até que o provincial da Ordem, Padre João Gimenez, que ficara impossibilitado de assistir ao funeral devido a uma doença, visitou a urna do santo com o propósito de exumar secretamente o corpo. Quanto a esse incidente, ele relata que, em companhia de vários frades:

"A tampa foi levantada e, quando nos aproximamos do relicário, atestamos a presença da crosta de cal que escondia o santo de nossa vista. Eu não permitiria que ninguém mais tivesse a honra de remover essa crosta. Por isso, fui retirando-a, pouco a pouco, começando com a porção que cobria o seu rosto.

Ó alegria celestial! À medida que eu tirava a máscara, as feições de nosso bem-aventurado irmão eram reveladas, cheias de ânimo e de vivacidade. Era de fato ele mesmo, milagrosamente preservado na carne, intacto da cabeça aos pés, até na ponta do nariz, que é normalmente a primeira parte a dar sinais de decomposição.

Quando levantei as pálpebras, parecia que os olhos se fixavam em nós e sorriam. Os membros estavam tão flexíveis que respondiam a cada movimento que fazíamos com eles. Nada lembrava morte, nem a presença de um cadáver: ao contrário, tudo respirava vida e trazia consolação e alegria para a alma. A linguagem humana é incapaz de retratar tal espetáculo.

De joelhos diante do relicário nós derramamos as mais doces lágrimas de nossas vidas. Tomei a mão do santo sobre a minha e, trazendo-a para perto de meus lábios, beijei-a ternamente. Um líquido cristalino como bálsamo destilou de seu rosto e de suas mãos. Quando todos os religiosos tinham satisfeito sua devoção, uma camada fresca de cal se espalhou sobre o corpo e, então, eu me dirigi ao santo nos seguintes termos:

'Aquele que por oito meses preservou-te tão milagrosamente sob esta cal, é poderoso o bastante para te preservar ainda, pelos muitos anos que hão de vir, e dar assim maior fulgor ao milagre, até chegar o tempo oportuno de transladar as tuas gloriosas relíquias a um sepulcro menos indigno de ti.'

Tendo restabelecido a urna em seu nicho, e reconstruído a pequena parede de tijolos, retiramo-nos em silêncio para preparar um registro desse primeiro reconhecimento do corpo." [4]

A segunda exumação foi realizada em 22 de julho de 1594. Os religiosos da comunidade encontraram apenas alguns pedaços de sua mortalha. O corpo, com exceção da extremidade das narinas e de alguns fragmentos de pele, continuava resistindo à corrupção, e descobriu-se que o pedaço de um ouvido e um dedo tinham sido anteriormente levados como relíquias. Também se descobriu que o corpo permaneceu sem apoio quando colocado em posição vertical.

A data da terceira exumação privada não é conhecida, mas um incidente ocorrido nessa ocasião é digno de nota. Um dos religiosos, em segredo e sem autorização, amputou ambos os pés do santo e levou-os consigo. Ao descobrirem o sacrilégio, os superiores ordenaram que os pés fossem devolvidos, sob pena de excomunhão, e eles foram imediatamente recolocados no caixão algumas horas depois. A mutilação acabou sendo vantajosa, no entanto, pois de seus pés foram retiradas numerosas relíquias.

Dezenove anos após a morte do santo, uma exumação oficial foi feita para o processo de beatificação. Na presença do bispo de Segorbe, do provincial, do postulante da causa, de alguns eminentes dignatários do país, de médicos, de cirurgiões e de um escrivão, os três cadeados do caixão foram abertos e as formalidades de costume foram observadas antes que o seu interior fosse revelado.

"Assim que a tampa foi aberta, uma fragrância agradável, parecida com um aroma de flores, emergiu do sepulcro. Com uma tesoura, o bispo começou a abrir o hábito do santo até a cintura, a fim de dar aos médicos a oportunidade de fazer uma avaliação do corpo, que já estava por dezenove anos fechado dentro do caixão. Os médicos e cirurgiões empreenderam aquele delicado procedimento com o cuidado e a reverência que eram esperados de cristãos sinceros. A tampa foi recolocada assim que eles terminaram, satisfeitos, as suas investigações. No dia seguinte, a comissão se reuniu mais uma vez para ouvir a leitura do relatório médico. A conclusão a que chegaram, baseada nos princípios da ciência médica, confirmava o estado milagroso do corpo:

'Nós, os médicos e cirurgiões abaixo assinados, afirmamos sob juramento diante de Deus e de acordo com a nossa consciência, que o corpo do irmão Pascoal Bailão é incorrupto, e que a forma de sua preservação é sobrenatural e milagrosa.'" [5]

Aos prodígios e milagres mencionados acima deve ser acrescentado outro: o dos curiosos "golpes" que procediam de seu túmulo e de suas imagens. As batidas eram interpretadas instintivamente de acordo com a sua intensidade e frequência, e eram normalmente aceitas como um aviso amigável. É desnecessário dizer que os barulhos incomuns instilavam nos corações dos agraciados uma intensa alegria religiosa e uma grande consciência da presença do santo.

Os estranhos barulhos foram escutados pela primeira vez quando um filho espiritual do santo, Antônio Pascal, começou a usar em seu pescoço um relicário contendo um pequeno fragmento de osso tirado de um dos seus pés. Primeiro, o menino sentia leves toques em seu peito, como se as relíquias estivessem vivas, e essas vibrações foram se tornando habituais. A quem quer que desconfiasse do milagre, era só o menino tirar o relicário e dizer devotamente: "Adorado seja o Santíssimo Sacramento do altar", e as batidas imediatamente se faziam ouvir.

A devoção ao Santíssimo Sacramento que Pascoal Bailão exibia tão devotamente durante a sua vida refletiu nos fenômenos e milagres realizados por ele depois de sua morte, os quais contribuíram em grande medida para um avivamento da fé e um aumento da devoção nos corações de muitos. Portanto, nada seria mais apropriado que Pascoal Bailão, canonizado em 1690, fosse declarado pelo Papa Leão XIII em 1897 padroeiro dos Congressos Eucarísticos e de todas as organizações dedicadas ao aumento do amor e da devoção à Santa Eucaristia.

Por Joan Carroll Cruz | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
CRUZ, Joan Carroll. The Incorruptibles. Charlotte: TAN Books, 2012, pp. 180-186.

Sugestões

Referências

  1. PORRENTRUY, Louis-Antoine de. The Saint of the Eucharist (trad. de Oswald Staniforth). Londres, 1908, p. 161.
  2. Ibid., p. 168.
  3. Ibid, p. 172.
  4. Ibid., p. 183.
  5. Ibid., p. 187.