| Categoria: Espiritualidade

Onde está o céu de Deus?

Ao rezarmos o Pai-Nosso, elevamos o coração a Deus, que “está nos céus”. Mas o que, exatamente, queremos dizer com isso? Por acaso Deus se encontra mesmo acima das nuvens, em algum lugar físico que não conseguimos enxergar?

IV․ "… que estais nos céus…"

6․ O valor da confiança․ — Entre as disposições necessárias ao orante, a confiança desempenha um papel fundamental: "Peça com fé", escreve São Tiago, "sem nenhuma vacilação" (Tg 1, 6). Por isso, ao ensinar-nos a orar, o Senhor alude primeiro aos motivos que nos podem gerar confiança, a saber: (a) a bondade do Pai, e por isso diz "Pai nosso", conforme o que se lê no Evangelho segundo Lucas: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará o Espírito Santo aos que lho pedirem" (Lc 11, 13); e (b) a dimensão de seu poder, e por isso diz "que estais nos céus", como cantamos no Salmo: "Levanto os olhos para vós, que habitais nos céus" (Sl 122, 1).

7․ Os três fins desta expressão․ — Ora, as palavras "que estais nos céus" podem servir a três propósitos:

a) Antes de tudo, à preparação de quem irá rezar, <pois assim manda o Eclesiástico>: "Antes da oração, prepara a tua alma" (Eclo 18, 23). De modo que por "céus" entenda-se a glória celeste, como se lê em São Mateus: "Será grande a vossa recompensa nos céus" (Mt 5, 12). Ora, essa preparação deve consistir tanto na (i) imitação das coisas celestes, porquanto o filho tem o dever de imitar o pai, como escreve São Paulo: "Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do homem celestial" (1Cor 15, 49), quanto na (ii) contemplação das realidades do céu, pois os homens costumam pensar com mais frequência no que diz respeito a seu pai e às coisas que amam, de acordo com o Evangelho segundo Mateus: "Porque onde está o teu tesouro, lá também está o teu coração" (Mt 6, 21). Por isso dizia o Apóstolo: "Nós, porém, somos cidadãos dos céus" (Fl 3, 20). A preparação requer, ademais, (iii) que se dirija a atenção às coisas do alto, de modo que não peçamos àquele que está nos céus senão bens espirituais: "Buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado" (Cl 3, 1) [1].

b) A expressão "que estais nos céus", em segundo lugar, pode referir-se à facilidade que Deus tem de nos ouvir, uma vez que está próximo de nós. Nesse sentido, as palavras "que estais nos céus" significam "que estais nos santos", nos quais Deus habita [2], segundo o profeta Jeremias: "Mas vós, Senhor, estais entre nós" (Jr 14, 9). Os santos, com efeito, recebem <nas Escrituras> o nome de "céus", conforme o Salmo: "Narram os céus a glória de Deus" (Sl 18, 2). Ora, Deus habita nos santos pela (i) fé, como testemunha a Epístola aos Efésios: "Que Cristo habite pela fé em vossos corações" (Ef 3, 17) [3]; pela (ii) caridade: "Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele" (1Jo 4, 16); e pela (iii) observância dos Mandamentos: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos a nossa morada" (Jo 14, 23).

c) Finalmente, a expressão "que estais nos céus" pode dizer respeito à capacidade que tem Deus de nos ouvir, de modo que por "céus" entendamos o céu físico, não no sentido de estar Deus encerrado nos céus corpóreos, pois "o céu e os céus dos céus não vos podem conter" (1Rs 8, 27), mas a fim de conotar que ele é (i) penetrante em seu olhar, pois do alto tudo contempla, segundo o Salmo: "Porque o Senhor olhou do alto do seu santuário" (Sl 101, 20); (ii) sublime em seu poder: "No céu estabeleceu o Senhor o seu trono" (Sl 102, 19); e (iii) estável em sua eternidade: "Vós, porém, Senhor, sois eterno" (Sl 101, 13) e "vossos anos não têm fim" (v. 28), o que também é dito nos Salmos em referência a Cristo: "Seu trono terá a duração dos céus" (Sl 88, 30). E o Filósofo afirma em I Sobre o Céu que, devido à sua incorruptibilidade, todos consideram o céu morada de espíritos [4].

8․ Três motivos para confiar․ — As palavras "que estais nos céus", portanto, transmitem-nos um tríplice motivo para orarmos com confiança, a saber: quanto ao poder divino, à familiaridade daquele a quem se pede e à conveniência do pedido.

a) O poder daquele a quem se pede está aqui implicado, se por "céus" entendermos os céus corpóreos [5]. Ora, ainda que Deus não esteja contido em nenhum lugar físico, como está escrito: "Porventura não enche a minha presença o céu e a terra?" (Jr 23, 24), dizemos, em todo o caso, que ele está presente nos céus corpóreos a fim de expressar duas coisas: de um lado, a extensão de seu poder; de outro, a sublimidade de sua natureza. (i) Afirmamos, pois, a extensão do poder divino contra os que opinam que tudo ocorre por necessidade em virtude <do movimento> dos corpos celestes [6]. Ora, de acordo com essa opinião, seria inútil pedir a Deus o quer que fosse. Isso porém é absurdo, uma vez que ele está nos céus como Senhor do firmamento e das estrelas: "Nos céus estabeleceu o Senhor o seu trono" (Sl 102, 19), como diz o Salmo. (ii) Referimo-nos ainda à sublimidade de sua natureza contra aqueles que, em oração, imaginam a Deus sob figuras e imagens corpóreas. Dizemos, pois, que ele está nos céus, a mais elevada das coisas sensíveis, a fim de expressar que a transcendência divina tudo excede, inclusive o desejo e entendimento humanos. Por isso, tudo quanto que se possa pensar ou querer está abaixo da grandeza de Deus. Por isso, diz-se no Livro de Jó: "Deus é grande demais para que o possamos conceber" ( 36, 26), nos Salmos: "O Senhor é excelso sobre todos os povos" (Sl 112, 4) e em Isaías: "A quem poderíeis comparar Deus?" (Is 40, 18).

b) A familiaridade de Deus, por sua vez, aqui está compreendida, se a palavra "céus" for tomada no sentido de "santos". Com efeito, muitos disseram que, por ser altíssimo, Deus não se ocupa dos problemas humanos. No entanto, cumpre levar em consideração que ele não só está perto, mas intimamente próximo de nós [7], já que os céus em que ele habita são os santos, <no dizer das Escrituras>: "Narram os céus a glória de Deus" (Sl 18, 2); "Mas vós, Senhor, estais entre nós" (Jr 14, 9). Ora, isso inspira aos que rezam uma dupla confiança, baseada (i) na proximidade de Deus, como dizem os Salmos: "O Senhor se aproxima dos que o invocam" (Sl 144, 18) e o Evangelho: "Quando orares, entra no teu quarto" (Mt 6, 6), ou seja, no teu coração; e (ii) no patrocínio dos outros santos, por cuja intercessão podemos conseguir o que pedimos, conforme se lê em Jó: "Chama, pois, algum defensor" ( 5, 1) e em São Tiago: "Orai uns pelos outros para serdes curados" (Tg 5, 16).

c) A oração torna-se também conveniente e idônea em virtude da expressão "que estais nos céus", na medida em que o termo "céus" designa os bens espirituais e eternos em que consiste a bem-aventurança. E isso por duas razões. Em primeiro lugar, porque assim somos (i) estimulados a desejar as coisas celestes. Com efeito, o nosso desejo deve inclinar-se para onde o nosso Pai se encontra, pois é ali que está guardada a nossa herança: "Buscai as coisas lá do alto" (Cl 3, 1), <renascidos>, nas palavras de São Pedro, "para uma herança imarcescível, reservada nos céus" (1Pd 1, 4) [8]. Em segundo, porque assim (ii) somos instruídos a levar uma vida celeste, a fim de nos assemelharmos ao Pai, que está nos céus: "Qual o homem celestial, tais os homens celestiais" (1Cor 15, 48). E estas duas coisas, o desejo e a vida celestes, fazem-nos idôneos para pedir e tornam conveniente a nossa oração.

Referências

  1. Como se sabe, a prática eficaz e frutuosa da oração requer basicamente dois tipos de preparação: a) uma remota, que não é mais do que "o cuidado que se deve pôr em levar uma vida em conformidade com a oração" (A. Tanquerey, Compendio de Teología Ascética y Mística. Trad. esp. de Manuel M. Rubio. 4.ª ed., Madrid: Palabra, 2002, p. 369, n. 689), o que exige, entre outras coisas, silêncio, recolhimento habitual, fuga da vã curiosidade, guarda do coração e mortificação dos sentidos — externos e internos —, aprender a entregar-se ao que se está fazendo etc. (cf. A. Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. Madrid: BAC, 2012, p. 639, n. 482); b) outra próxima, referente tanto às circunstâncias (tempo, lugar) quanto às disposições (postura, estado de atenção ou dissipação) que precedem de modo mais ou menos imediato o início da oração.
  2. Abundam no Novo Testamento as referências ao fato de que Deus, uno e trino, habita nas almas que se encontram em estado de graça (cf., por exemplo, Jo 14, 23; 1Jo 4, 16; 1Cor 3, 16s; 6, 19; 2Cor 6, 16; 2Tm 1, 14). Esta presença recebe o nome de inabitação trinitária e consiste numa modalidade especial da chamada presença de imensidade, pela qual Deus está efetivamente em tudo e em todos, na medida em que a) dá o ser a todas as criaturas, b) vê sem cessar tudo o que criou e c) tem submetido ao seu poder tudo quanto existe. O que a inabitação acrescenta a essa forma de presença é que Deus passa a estar em uma alma justificada, não só como Autor e Criador, mas também a título de Pai, uma vez que a graça santificante, fazendo-nos participar da natureza divina (cf. 2Pd 1, 4), constitui-nos verdadeiramente filhos de Deus, e de Amigo, já que é impossível que tal graça subsista sem a caridade, que não é senão uma amizade entre Deus e o homem (cf. S. Th. II-II, q. 23, a. 1; A. Royo Marín, op. cit., p. 58s, n. 41).
  3. Em S. Th. III, q. 62, q. 5, ad 2, ao comentar esta passagem da Epístola aos Efésios, Santo Tomás afirma que é a virtude de Cristo (virtus Christi) que se une a nós pela fé. Com efeito, uma vez que a humanidade santíssima de Nosso Senhor, unida hipostaticamente à pessoa divina do Verbo, é o instrumento de que ele se serve para transmitir-nos a vida sobrenatural da graça, todas as vezes que dele nos aproximamos com fé, a exemplo da hemorroíssa de que nos fala o Evangelho (cf. Mt 9, 20ss; Mc 5, 25-34; Lc 8, 43-48), abrimo-nos ao influxo daquela força salutar (cf. Lc 6, 19) com que ele, ao menor toque, curava enfermidades e expulsava demônios. "Cada vez", portanto, "que nos dirigimos a ele pelo contato de nossa fé vivificada pela caridade, sai de Cristo uma virtude santificante que tem sobre nossas almas uma influência benéfica" (A. Royo Marín, op. cit., p. 81, n. 59).
  4. Cf. Aristóteles, De Cælo I․3, 270b5-10.
  5. Como explica o Aquinate em S. Th. I, q. 68, a. 4, co., as Escrituras empregam o termo "céus" em três acepções distintas. Num primeiro sentido, próprio e natural, designa qualquer corpo sublime, luminoso atual ou potencialmente, e incorruptível por natureza; divide-se em céu empíreo, aquoso ou cristalino e sidério, o que parece corresponder, em certa medida, ao que entendemos hoje por céu astronômico ou sideral. Pode significar ainda o que participa das propriedades do corpo celeste, ou seja, da sublimidade e luminosidade, e nesta acepção designa, por exemplo, o espaço compreendido entre as águas e a Lua. Num terceiro sentido, "céu" se diz em sentido metafórico para expressar ora a própria Trindade, ora o conjunto de bens espirituais em que consiste a bem-aventurança eterna (isto é, o gozo fruitivo e a visão de Deus face a face), como se mencionará pouco mais abaixo, no item c deste mesmo número (cf. A. Royo Marín, Teología de la Salvación. Madrid: BAC, 1956, pp. 473-478, nn. 323-326).
  6. O Aquinate se opõe a esta doutrina também em De iudiciis astrorum, uma pequena carta — endereçada possivelmente a Reginaldo de Piperno — na qual afirma que, embora se possa admitir que a virtude dos corpos celestes se estende a produzir certas modificações nos corpos inferiores, nem por isso se deve sustentar que a vontade humana está sujeita à necessidade dos astros. "Do contrário", escreve ele, "pereceria o livre-arbítrio, sem o qual não se atribuiria ao homem nem o mérito das boas obras nem a culpa das más. E por isso todo cristão deve sustentar com certeza que tudo quanto depende da vontade do homem, como é caso de todas as obras humanas, não está sujeito à necessidade dos astros; e por isso se diz em Jeremias: 'Nem temais os sinais celestes, como os temem os pagãos' (Jr 10, 2)".
  7. Cf. Agostinho de Hipona, Conf. 3․6․11 (PL 32, 688).
  8. A citação está incompleta também no original. Omitem-se as palavras iniciais "incorruptível" e "incontaminável".

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Tanto faz a Europa ser cristã ou muçulmana?

“Uma fé transcendente” qualquer seria o suficiente para salvar a Europa e, com ela, nossa civilização? Seriam por acaso todas as crenças religiosas iguais ou existem, pelo contrário, grandes diferenças entre elas?

Por William Kilpatrick — "Se você quer saber como será o rosto da Europa daqui a cem anos, a não ser por um milagre, olhe para o rosto dos jovens imigrantes muçulmanos." Assim se pronunciou o Arcebispo da Filadélfia, Dom Charles Chaput, em uma recente conferência no Instituto Napa.

"O Islã tem futuro porque acredita nos filhos", ele disse. "Sem uma fé transcendente que faça a vida valer a pena, não há nenhuma razão para ter filhos."

Vamos parar aqui para fazer uma breve análise. A primeira coisa que merece um escrutínio é a previsão do tempo. De agora a cem anos é 2117. Muitos de nós não estaremos vivos por essa época, de modo que, para muitos, o problema parecerá menos urgente do que Dom Chaput talvez quisesse que ele parecesse. Um bom número de observadores do cenário europeu — como Thilo Sarrazin, Douglas Murray, Bruce Bawer e Mark Steyn — fazem projeções de que grande parte da Europa será islâmica dentro de três ou quatro décadas. E, se você perambulasse por acidente dentro das "zonas proibidas" de que Paris está cercada, você pensaria que "o rosto dos jovens imigrantes muçulmanos" já é, na verdade, o rosto da Europa.

À parte isso, Dom Chaput está basicamente correto a respeito da direção para a qual caminha a Europa. E ele está certo também em dizer que boa parte da culpa disso recai sobre todos aqueles europeus que relutam em ter filhos. A Europa está morrendo, diz ele, porque não há europeus o suficiente com os olhos voltados para o futuro.

Algumas observações que ele faz, no entanto, podem ser mal interpretadas. E, por conta do atual clima em que vive a Igreja, muitos católicos podem tirar conclusões erradas de suas afirmações. "O Islã tem futuro porque acredita nos filhos", ele diz. Além disso, "sem uma fé transcendente que faça a vida valer a pena, não há nenhuma razão para ter filhos."

O erro — fatal, na verdade — que muitos católicos cometem consiste numa dupla suposição: primeiro, que os muçulmanos acreditam nos filhos da mesma forma que os católicos fazem; e, segundo, que a "fé transcendente" dos muçulmanos é similar à fé transcendente dos católicos. Mas, se é assim — se os muçulmanos compartilham mais ou menos a mesma visão de educação e de transcendência que os católicos —, então não há por que se preocupar tanto com o futuro da Europa. Alguém poderia argumentar inclusive que a Europa estaria bem melhor nas mãos de pessoas tementes a Deus, cheias de fé e centradas na família, do que nas mãos dos secularistas pós-cristãos que agora detêm o poder no continente.

Eu não acredito que seja isso o que Dom Chaput tinha em mente. Em outro trecho de seu discurso, ele diz aos jovens "que se amem uns aos outros, que se casem, permaneçam fiéis, tenham muitos filhos e os eduquem para ser homens e mulheres de caráter cristão". No entanto, para um católico com certa mentalidade universalista, expressões como "caráter cristão" e "caráter islâmico" são praticamente intercambiáveis, assim como "valores da família cristã" e "valores da família muçulmana". Por isso, à guisa de esclarecimento, vamos olhar um pouco mais de perto para os valores da família islâmica e verificar a tese dos "pontos comuns" entre as duas religiões.

Um bom lugar para iniciarmos é o testemunho de Nonie Darwish — disponível em livro —, uma mulher que viveu por 30 anos no Egito, antes de se mudar para os Estados Unidos e se converter ao cristianismo. Ela confirma que "o Islã acredita nos filhos", mas não pela mesma razão que os cristãos. "No Islã, depois de acreditar em Alá, a prioridade número um para um crente muçulmano não é a família, mas o jihad", ela diz. "Em vários hadiths, Maomé sublinha que seus combatentes devem 'casar com mulheres prolíficas', a fim de que os muçulmanos superem em número seus inimigos."

Outros líderes muçulmanos já disseram coisas semelhantes. O presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, se gabava de "o ventre da mulher árabe" ser a sua "mais poderosa arma". O aiatolá Khomeini era da mesma ideia. "Um regime islâmico deve ser sério em todos os campos, inclusive o da reprodução", ele dizia. "Mais muçulmanos significam mais poder, mais muçulmanos significam mais soldados." Khomeini praticava o que ele pregava e, durante sua guerra com o Iraque, sacrificou as vidas de dezenas de milhares de crianças soldados, chegando a usá-las para desativar campos minados com seus corpos.

A visão cristã a respeito dos filhos é de que eles são preciosos aos olhos de Deus — importantes em si mesmos, e não apenas como forragem para canhões e minas inimigas. A visão islâmica, ao contrário, é utilitarista. Filhos são importantes porque eles servem ao jihad. Não estou dizendo, evidentemente, que todo muçulmano pensa dessa forma. O fato, porém, de muitos muçulmanos serem capazes de transcender essa visão limitada de sua prole não prova nada a respeito do Islã; simplesmente nos diz que eles são humanos.

O amor não está ausente em famílias muçulmanas, mas, de acordo com Darwish, a honra familiar é um valor muito mais importante que o amor. Uma filha muçulmana que não se veste apropriadamente, ou que anda com más companhias, corre o risco de ser agredida ou mesmo morta pelo pecado de trazer vergonha para a honra familiar. Uma mãe e esposa muçulmana está sob o mesmo risco. No filme O Apedrejamento de Soraya M., de 2008, baseado em uma história real, são o pai e os filhos que lhe atiram as primeiras pedras.

Por outro lado, um garoto ou garota que é muçulmano observante traz honra para sua família. Infelizmente, de acordo com Darwish, o único ato mais sagrado de adoração no Islã é o martírio pelo jihad. Como consequência, há um forte incentivo para uma família muçulmana educar um mártir, porque seu sacrifício redundará grandemente na honra familiar. Isso ajuda a explicar a propensão que têm os palestinos de treinar os seus filhos para aceitarem que o martírio (preferencialmente aquele que se alcança matando judeus) é o mais alto chamado da vida. "Meu filho, o homem-bomba" é o equivalente palestino para "meu filho, o doutor" [1].

Assim, talvez não seja muito prudente da parte dos católicos acharem conforto na afirmação de Dom Chaput de que "o Islã tem futuro porque acredita nos filhos". O Islã também acredita que uma das vias mais seguras de se alcançar o paraíso é abreviando as vidas dos infiéis. Quando a mãe do terrorista Omar al-Abed, de 19 anos, descobriu que seu filho tinha degolado até a morte três membros de uma família israelita e ferido um quarto, ela exclamou: "Alá seja louvado, estou orgulhosa de meu filho. Que Alá tenha se agradado de seu sacrifício."

Se você é tentado a pensar que isso é uma aberração, considere que a mãe de Omar tem uma razão a mais para estar orgulhosa de seu filho. Como um escritor coloca, "sob o programa do governo palestino de recompensar os que perpetram atos terroristas — por vezes chamado de programa pay-to-slay, isto é, 'pagar para matar' —, conta-se que a família de al-Abed recebia um salário mensal vitalício de mais de 3,1 mil dólares do governo palestino, como uma forma de 'agradecimento' pelos assassinatos" de Halamish.

Isso nos leva de volta ao comentário de Dom Chaput sobre a importância de "uma fé transcendente que faça a vida valer a pena". Seriam por acaso todas as crenças transcendentes iguais — ou existem grandes diferenças entre elas? Práticas como a violência para vingar a honra familiar ou o programa "pagar para matar" sugerem que o deus transcendente do Islã não é o mesmo Deus transcendente dos cristãos. A começar pelo fato de que aquele não é um pai — a ideia de um Deus que é pai, na verdade, é repugnante ao islamismo oficial, e aqueles que dizem que Deus tem um filho são tidos como amaldiçoados. O problema é que, se não existe nenhum Pai celestial, tampouco existe algum modelo eterno que devamos seguir, de misericórdia, amor e comprometimento para com nossos pais terrenos. Aparentemente, famílias desordenadas são o preço que os muçulmanos teriam de pagar por sua visão limitada do transcendente.

Por seu próprio bem e pelo bem de seus filhos, os católicos precisam superar a ideia de que o Islã e a religião católica compartilham os mesmos valores fundamentais. O Islã supostamente pertence à tradição da fé abraâmica, mas, de acordo com essa tradição, Deus impediu Abraão de sacrificar o seu filho. Na tradição islâmica, porém, os pais podem sacrificar suas filhas pela honra familiar, ou sacrificar seus filhos pelo jihad — tudo na esperança de que a vontade de Alá será satisfeita.

Quanto aos filhos e às filhas dos "infiéis", não espere que um futuro brilhante esteja reservado para eles, caso "o rosto dos jovens imigrantes muçulmanos" venha realmente a tornar-se o rosto da Europa. Tampouco espere que tenhamos um século ainda a fim de nos prepararmos para "mudança de rosto".

Fonte: Crisis Magazine | Tradução e adaptação: Equipe CNP

Notas

  1. Mas não são também os mártires cristãos cultuados com grandes honras pela Igreja Católica? Sim, é verdade, mas o mártir cristão, que deve escolher, numa situação a qual ele não procurou, entre manter a sua vida natural e renegar a fé, perdendo a vida sobrenatural, difere completamente do "mártir" muçulmano, que procura diretamente a sua morte (suicídio) e ainda a de outros (homicídio). São conceitos de martírio completamente avessos um ao outro.

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O jejum e a oração que dão frutos

Ouçamos a sabedoria de São Pedro Crisólogo e aprendamos com ele as três coisas “que mantêm a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude”: oração, misericórdia e jejum.

Embora haja na Igreja tempos mais fortes para os fiéis fazerem penitência, como são os tempos litúrgicos da Quaresma e do Advento, ao longo de todo o ano somos chamados a fazer mortificações, colocando em prática aquilo que Nosso Senhor ensinava nos Evangelhos: "Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me" ( Lc 9, 23). É atendendo a essa vontade do Salvador, por exemplo, que os católicos de antes jejuavam durante as Quatro Têmporas; que nós, hoje, fazemos abstinência de carne todas as sextas-feiras do ano; e que muitas pessoas vivem a piedosa devoção, durante esses dias, de oferecer uma Quaresma em honra de São Miguel Arcanjo.

A fim, porém, de que as orações e penitências obtenham frutos, requerem-se de quem reza e jejua boas disposições. Nesta breve meditação, extraída da Liturgia das Horas, São Pedro Crisólogo fala justamente disso. "Muito mal suplica", ele diz, "quem nega aos outros aquilo que pede para si". "O jejum só dá frutos", ele continua, "se for regado pela misericórdia". Ouçamos a sabedoria deste Padre da Igreja e aprendamos com ele as três coisas "que mantêm a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude": oração, misericórdia e jejum.

Dos Sermões de São Pedro Crisólogo, bispo
(Sermo 43: PL 52, 320.322)

O que a oração pede, o jejum o alcança
e a misericórdia o recebe

Há três coisas, meus irmãos, três coisas que mantêm a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude. São elas a oração, o jejum e a misericórdia. O que a oração pede, o jejum alcança e a misericórdia recebe. Oração, misericórdia, jejum: três coisas que são uma só e se vivificam reciprocamente.

O jejum é a alma da oração e a misericórdia dá vida ao jejum. Ninguém queira separar estas três coisas, pois são inseparáveis. Quem pratica somente uma delas ou não pratica todas simultaneamente, é como se nada fizesse. Por conseguinte, quem ora também jejue; e quem jejua, pratique a misericórdia. Quem deseja ser atendido nas suas orações, atenda as súplicas de quem lhe pede; pois aquele que não fecha seus ouvidos às súplicas alheias, abre os ouvidos de Deus às suas próprias súplicas.

Quem jejua, pense no sentido do jejum; seja sensível à fome dos outros quem deseja que Deus seja sensível à sua; seja misericordioso quem espera alcançar misericórdia; quem pede compaixão, também se compadeça; quem quer ser ajudado, ajude os outros. Muito mal suplica quem nega aos outros aquilo que pede para si.

Homem, sê para ti mesmo a medida da misericórdia; deste modo alcançarás misericórdia como quiseres, quanto quiseres e com a rapidez que quiseres; basta que te compadeças dos outros com generosidade e presteza.

Peçamos, portanto, destas três virtudes — oração, jejum, misericórdia — uma única força mediadora junto de Deus em nosso favor; sejam para nós uma única defesa, uma única oração sob três formas distintas.

Reconquistemos pelo jejum o que perdemos por não saber apreciá-lo; imolemos nossas almas pelo jejum, pois nada melhor podemos oferecer a Deus, como ensina o Profeta: "Sacrifício agradável a Deus é um espírito penitente; Deus não despreza um coração arrependido e humilhado" (cf. Sl 50, 19).

Homem, oferece a Deus a tua alma, oferece a oblação do jejum, para que seja uma oferenda pura, um sacrifício santo, uma vítima viva que ao mesmo tempo permanece em ti e é oferecida a Deus. Quem não dá isto a Deus não tem desculpa, porque todos podem se oferecer a si mesmos.

Mas, para que esta oferta seja aceita por Deus, a misericórdia deve acompanhá-la; o jejum só dá frutos se for regado pela misericórdia, pois a aridez da misericórdia faz secar o jejum. O que a chuva é para a terra, é a misericórdia para o jejum. Por mais que cultive o coração, purifique o corpo, extirpe os maus costumes e semeie as virtudes, o que jejua não colherá frutos se não abrir as torrentes da misericórdia.

Tu que jejuas, não esqueças que fica em jejum o teu campo se jejua a tua misericórdia; pelo contrário, a liberalidade da tua misericórdia encherá de bens os teus celeiros. Portanto, ó homem, para que não venhas a perder por ter guardado para ti, distribui aos outros para que venhas a recolher; dá a ti mesmo, dando aos pobres, porque o que deixares de dar aos outros, também tu não o possuirás.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Cinco fatos que você precisa conhecer sobre “disforia de gênero” em crianças

Uma pessoa pode nascer “no corpo errado”? Crianças confusas a respeito do próprio gênero estão fadadas a ser “transgêneras” na vida adulta? Qual a melhor forma de tratamento para a chamada “disforia de gênero”?

"Disforia de gênero" é um distúrbio em que a pessoa pode se sentir infeliz com seu sexo biológico, expressar um desejo de pertencer ao sexo oposto ou até mesmo insistir em que ele ou ela pertence de fato ao sexo oposto do que indicam seus genes e sua anatomia. Pessoas que escolhem adotar uma "identidade de gênero" diferente de seu sexo biológico são conhecidas como "transgêneros".

Essa condição está sendo detectada cada vez mais não apenas em adultos, mas também em crianças pré-púberes, de tenra idade. A associação American College of Pediatricians, nos Estados Unidos — uma organização formada como alternativa à American Academy of Pediatrics, maior e mais liberal —, divulgou recentemente um importante estudo sobre disforia de gênero em crianças, o qual proporciona um significativo contrapeso médico e científico à ideologia em ascensão, que exige a aceitação das identidades "transgêneras" — mesmo que seja em crianças.

Encorajamos todos os interessados a lerem, no site da associação, tanto o comunicado de imprensa a respeito do estudo, quanto o próprio estudo, disponível na íntegra aqui. Para aqueles que desejam um breve sumário, no entanto, eis aqui cinco pontos chave retirados desse estudo.

1. Não existe evidência científica de que pessoas com disforia de gênero tenham "nascido no corpo errado".

Aqueles que se identificam como transgêneros alegam frequentemente que são "mulheres nascidas com o corpo de homem" ou "homens nascidos com o corpo de mulher". Contudo, a evidência científica apresentada como suporte a essa teoria é fraca. De fato, estudos de gêmeos têm mostrado que, quando um deles se identifica como transgênero, apenas 20% das vezes o outro também o faz. Essa descoberta, por si só, contesta a ideia de que a disforia de gênero resulta principalmente de influências genéticas pré-natais ou hormonais.

Note-se que "disforia de gênero" não é o mesmo que os "distúrbios de desenvolvimento sexual" (DSDs) ou que a chamada "intersexualidade", ambos de natureza biológica. A vasta maioria das pessoas que se identificam como transgêneras são homens e mulheres perfeitamente normais, tanto genética quanto biologicamente.

2. A maior parte das pessoas com disforia de gênero na infância não se identificam como transgêneros quando crescem e entram na vida adulta.

Pesquisas mostram que, deixadas a si mesmas, por assim dizer — ou seja, se não recebem tratamentos hormonais especiais e não "transitam" para uma vida social como pessoa do sexo oposto —, a maioria das crianças com sintomas de "disforia de gênero" resolvem essas questões antes de entrarem na vida adulta e vivem normalmente como homens e mulheres, com uma "identidade de gênero" que corresponde (em vez de se opor) ao sexo biológico com que elas nasceram. Historicamente, isso tem se demonstrado verdadeiro em 80 a 95% das crianças com disforia de gênero.

3. Apesar disso, muitas crianças com disforia de gênero agora estão sendo submetidas a um protocolo de tratamentos hormonais precoces e contínuos.

Já é radical o suficiente para alguém que nasceu como menino receber a permissão para começar a viver como uma menina, ou vice-versa (o que se chama de "transição social"). No entanto, algumas crianças (com 11 anos de idade) estão recebendo hormônios para bloquear os efeitos naturais da puberdade antes mesmo que ela comece. As diferenças físicas entre crianças do sexo masculino e do sexo feminino são relativamente pequenas e facilmente se escondem com roupas. Essas diferenças tornam-se maiores após a puberdade, quando se torna mais difícil, então, para um jovem que se identifica como transgênero, a "admissão", por assim dizer, como membro do sexo biológico oposto. Os bloqueadores da puberdade existem para resolver esse "problema".

Quando eles ficam mais velhos, então — ainda que estejamos falando de jovens de 16 anos —, eles podem começar a receber hormônios sexuais cruzados (por exemplo, estrogênio para garotos que se identificam como meninas, ou testosterona para garotas que se identificam como meninos). Esse tratamento dá continuidade à supressão das características de seu sexo biológico, ao mesmo tempo em que desencadeia algumas características do sexo para o qual a pessoa pretende "transitar" (crescimento dos seios, para homens, e desenvolvimento de pelos faciais, para mulheres, por exemplo).

4. Esses tratamentos hormonais podem trazer consequências negativas sérias à saúde, sejam conhecidas ou não.

Os defensores de hormônios bloqueadores da puberdade argumentam que seus efeitos são reversíveis, dando à criança a oportunidade de mudar sua mente sobre a "transição" de gênero quando ela chegar à vida adulta. Estudos de caso mostram, porém, que tal intervenção coloca a criança, na realidade, em um caminho praticamente sem volta rumo a uma identidade transgênera — em claro contraste com a maioria das crianças com disforia de gênero que não são tratadas dessa forma. A conclusão do protocolo inteiro, tanto do bloqueio da puberdade quanto dos hormônios sexuais cruzados (especialmente quando seguido por uma cirurgia de mudança de sexo), resulta em esterilidade permanente — a incapacidade de ter filhos biológicos, mesmo se servindo de tecnologia reprodutiva artificial. A American College of Pediatricians argumenta que "o tratamento hormonal de disforia de gênero na infância equivale a experimentação em massa e esterilização, realizadas em uma juventude cognitivamente incapaz de manifestar um consentimento esclarecido".

Também para os hormônios sexuais cruzados, uma revisão abrangente da literatura científica descobriu que, "a longo prazo, existem potenciais riscos à saúde associados à terapia hormonal, mas nenhum deles foi comprovado ou descartado de modo conclusivo". Por exemplo, dar estrogênio a quem é biologicamente homem comporta riscos de doenças cardiovasculares, pressão alta, doenças na vesícula biliar e câncer de mama, ao passo que dar testosterona a quem é biologicamente mulher pode estar associado a triglicerídeos altos, apneia do sono e resistência a insulina — sem falar dos riscos associados a uma operação dupla de mastectomia (para a retirada dos seios), que nos Estados Unidos algumas pessoas podem fazer tendo apenas 16 anos de idade.

5. Pesquisas mostram que o surgimento de disforia de gênero normalmente vem precedido de "psicopatologia severa e dificuldades relacionadas ao próprio desenvolvimento".

Uma abordagem mais compassiva para tratar crianças com disforia de gênero envolveria o que era considerada antes a "abordagem padrão": ou uma "espera atenciosa", ou psicoterapia "para lidar com uma patologia familiar, se ela estivesse presente, tratar quaisquer morbidades psicossociais na criança e ajudá-la a adequar sua identidade de gênero a seu sexo biológico". Crianças não estão em condições de dar um "consentimento esclarecido" significativo para procedimentos mais sérios e potencialmente arriscados, como é o caso de terapia hormonal.

Fonte: Family Research Council | Tradução: Equipe CNP

| Categoria: Sociedade

Por que as novelas fazem tanto sucesso?

Como explicar que, por causa de uma telenovela, uma questão como a ideologia de gênero se torne, de uma hora para outra, a nova modinha entre os brasileiros?

Não se fala em outra coisa. Desde que a Rede Globo resolveu aderir ao discurso da ideologia de gênero, colocando uma personagem "trans-homem-gay" na sua principal telenovela, A Força do Querer, o assunto voltou a causar sensação na opinião pública, que, levada pelos sofisticados mecanismos de sedução midiática, se mostra mais uma vez suscetível às campanhas de "conscientização ética" promovidas pela emissora carioca. Só no Twitter, a novela das 9 já foi comentada 2,5 milhões de vezes.

Mas o que explica que uma questão como a ideologia de gênero, repudiada em todo o Brasil nas várias audiências públicas sobre os Planos de Educação, se torne, de uma hora para outra, a nova modinha entre os brasileiros? Por que, afinal de contas, as novelas fazem tanto sucesso?

Na história das civilizações, os homens sempre criaram fábulas para narrar acontecimentos importantes ou transmitir alguma lição de moral às novas gerações. Mitos como o Labirinto de Creta ou a lendária figura do Rei Arthur não tinham apenas a tarefa de entreter uma sociedade fatigada pela rotina do cotidiano, mas também a de oferecer respostas concretas aos dramas existenciais, de sorte que, olhando para o desfecho dessas histórias, o homem pudesse superar seus desafios e crescer como pessoa, conforme explica o mitologista Joseph Campbell: "A função primária da mitologia e dos ritos sempre foi a de fornecer os símbolos que levam o espírito humano a avançar, opondo-se àquelas outras fantasias humanas constantes que tendem a levá-lo para trás" [1].

Baseado nos estudos de psicanálise, Campbell concluiu que as figuras míticas seriam, na verdade, produtos da própria espontaneidade humana, que procura nessas histórias a razão de sua existência, bem como as respostas éticas e políticas necessárias ao seu sadio desenvolvimento. Isso explicaria por que os mitos, por mais diferentes que sejam, contam sempre uma única e mesma história: a jornada do herói — chamado à aventura, iniciação, auxílio de algum sábio ou amigo, batalhas preparatórias, desafio final, morte e ressurreição — até o seu retorno à normalidade da vida; porque seriam projeções da vida real que, como retratam os mitos, também precisa passar por várias transições de morte e ressurreição. Daí que Joseph Campbell tenha dado ao seu mais importante livro o sugestivo título de O herói de mil faces.

Essa missão de oferecer os arquétipos adequados ao comportamento social foi, em nossa época, assumida pelo cinema e pela novela, como produtos da cultura de massa, isto é, aquilo que é artificialmente fabricado para o consumo da população. De acordo com o sociólogo Edgar Morin, "todo um setor das trocas entre o real e o imaginário, nas sociedades modernas, se efetua no modo estético, através das artes, dos espetáculos, dos romances, das obras ditas de imaginação" [2]. Eis o motivo de as novelas fazerem tanto sucesso. Em tese, elas deveriam ser como que um espelho em que cada pessoa poderia encontrar refletida a própria identidade.

A cultura de massa, explica Morin, "constitui um corpo de símbolos, mitos e imagens concernentes à vida prática e à vida imaginária", cuja tarefa essencial é a de alimentar "o ser semi-real, semi-imaginário, que cada um secreta no interior de si (sua alma)" [3]. Desse modo, os filmes e as novelas repetem as fórmulas típicas das narrativas mitológicas, apresentando, com leves alterações, sempre uma única estrutura de roteiro, com o objetivo de prender a atenção do público por meio de um sistema de "projeção e identificação". Morin afirma:

Assim, feita de modo estético, a troca entre o real e o imaginário é, se bem que degradada (ou ainda que sublimada ou demasiado sutil), a mesma troca que entre o homem e o além, o homem e os espíritos ou os deuses que se fazia por intermédio do feiticeiro ou do culto. A degradação — ou o supremo requinte — é precisamente essa passagem do mágico (ou do religioso) para a estética [4].

Com efeito, os produtos da cultura de massa transformam-se em um perigoso instrumento de subversão, quando decidem alterar o sentido da mitologia tradicional para oferecer, em seu lugar, as fantasias que levam o ser humano para trás. Esses produtos corrompem o coração do homem que está à procura de arquétipos viris como um Heitor ou um Aquiles e, em vez disso, encontra o duvidoso "trans-homem-gay", uma figura absolutamente instável e sem identidade clara. O efeito desse esquema de manipulação sobre uma determinada sociedade é devastador, como denuncia Campbell: "Pode ser que a incidência tão grande de neuroses em nosso meio decorra do declínio, entre nós, desse auxílio espiritual efetivo (os mitos)", coisa que nos mantém "ligados às imagens não exorcizadas da nossa infância, razão pela qual não nos inclinamos a fazer as passagens da nossa vida adulta" [5].

O "trans-homem-gay" , longe de oferecer as condições para que um rapaz se torne um homem maduro, prende-o, ao contrário, às suas rebeldias de adolescente, época em que seu maior "inimigo" era a própria família. Por meio de um tratamento super apelativo, os telespectadores são induzidos a considerá-lo um herói, ao passo que seus pais se tornam objeto de repúdio, porque não aceitam a mudança do filho. A ideia que fica é esta: a mudança de sexo é uma coisa absolutamente "tranquila" e "necessária" para a realização pessoal da personagem, cuja única ameaça ao horizonte de sua felicidade seria, como sugere a novela, a "homofobia" dos familiares. Acontece exatamente o que Edgar Morin denuncia como um dos efeitos malignos da cultura de massa: ela "destituiu parcialmente a família, a escola, a pátria, de seu papel formador, na medida em que os 'modelos' do pai, do educador, dos grandes homens foram vencidos pelos novos modelos de cultura que lhes fazem concorrência" [6].

Em qualquer sociedade mentalmente sadia e consciente do alto número de suicídios entre "transgêneros" — causados, atenção, pela angústia que o processo de mudança de sexo gera na intimidade da pessoa, não por uma suposta homofobia —, a novela A Força do Querer seria ridicularizada. Mas estamos no Brasil e "a novela", como declarou a escritora Glória Perez à revista Veja, "é a crônica do nosso cotidiano" [7]. Ou, ao menos, busca sê-lo.

A influência das produções globais sobre o comportamento dos brasileiros está para além do mero entretenimento. Folhetins como Roque Santeiro, Verão Vermelho e, mais recentemente, Amor à Vida tiveram a missão de introduzir na sociedade debates a respeito do celibato, do divórcio e do homossexualismo, temas antes considerados "tabus" para a maioria da população. Não por acaso, uma pesquisa realizada em 2008 pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento revelou que as novelas da Rede Globo estão intimamente relacionadas com a redução da natalidade e com o aumento no número de separações no país. Agora é a vez da ideologia de gênero.

"Se no futuro alguém pesquisar como se vivia no Brasil", enfatizou Glória Perez à revista Veja, "será ela (a novela) que vai ensinar isso" [8]. Que as próximas gerações tenham pena de nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Joseph Campbell, O herói de mil faces. (Trad. de Adail Ubirajara Sobral). São Paulo: Pensamento, 2007, p. 21.
  2. Edgar Morin, Cultura de Massas no Século XX: Neurose. (Trad. de Maura Ribeiro Sardinha). 9.ª ed., Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009, p. 79.
  3. Id., p. 15.
  4. Id., p. 78.
  5. Joseph Campbell, op. cit., p. 21.
  6. Edgar Morin, op. cit., p. 168.
  7. Marcelo Marthe, "O país recupera seu espelho", in: Veja, São Paulo, n. 35, pp. 91-99, ago. de 2017.
  8. Ibidem.

| Categoria: Testemunhos

Por que eu escolhi ficar em casa?

Mãe e esposa católica explica por que escolheu ficar em casa, mesmo com pessoas lhe dizendo que os trabalhos do lar a tornariam desinteressante ou infeliz.

Por Rayhanne S. D. Zago — Um dia, quando eu ainda era noiva, disseram-me que, se eu escolhesse ser dona de casa, me tornaria uma pessoa desinteressante com o passar dos anos. Na época simplesmente ignorei, mas acabei relembrando este dito no dia 8 de março deste ano, quando vi tantas pessoas considerando suas mães, tias, avós e amigas pessoas desinteressantes e, no fundo, indignas de comemorarem o suposto Dia da Mulher.

De acordo com o que vi, esse dia é reservado para as mulheres que conquistam coisas como dinheiro, sucesso, carreira, independência. Não é reservado às "pobres" mulheres que a cada dia labutam e conquistam virtudes nas crianças indóceis, avanços nos filhos problemáticos, repouso para os pais idosos e cansados, bodas longínquas em seu casamento, comida fresca num dia difícil, roupa cheirosa em semana chuvosa, casa limpa com bebê novinho.

Não há lógica nesse pensamento feminista que levanta sua bandeira em favor das mulheres que são oprimidas por um suposto sistema patriarcal, quando na verdade os patriarcas são aqueles que elogiam, agradecem e ajudam suas esposas todos os dias enquanto as feministas são essas que no Dia Internacional da Mulher deixam essas mulheres esquecidas, ignoradas e humilhadas com seu discurso político e materialista.

Por isso eu escrevo: para ressaltar como nós, donas de casa, somos pessoas interessantíssimas, felizes e repletas de conquistas grandes e diárias!

Há um grande mito que ronda as mulheres hoje em dia: o de que ser dona de casa é uma condição infortuna imposta pela vida. De fato, conheço alguns casos assim. Mas não é esse o único lado da moeda. Há muito mais histórias felizes do que tristes! Algumas pessoas já me perguntaram o porquê de deixar o meu diploma de lado e escolher ficar em casa. Outras já me perguntaram se sou feliz assim ou se é meu marido que não quer que eu trabalhe fora.

Razões para ser dona de casa

Eu escolhi ficar em casa porque não conheci nenhum chefe que tenha me tratado tão bem quanto meu esposo. Nem conheci trabalho tão gratificante quanto o de ser mãe. São as horas mais bem empregadas da minha vida! Não encontrei futuro tão promissor e que ofereça tanto crescimento espiritual e humano quanto o de estar em casa. Não encontrei escola, babá ou familiar que vá educar e amar meus filhos tão bem como eu. Nem casa que fique tão ordenada quanto pelas minhas mãos. Não encontrei nada que me desse tanta satisfação! Eu sou feliz pela vida que escolhi e a escolheria mil vezes! Não sou infortunada e nem caí de paraquedas nessa condição "pobre". Sou consciente da minha missão, da minha vocação e sei que em nenhum outro lugar serei tão digna, amada, eficiente e cheia de valor quanto na minha casa, com a minha família. Isso quer dizer que eu me considero melhor do que alguém? Não. Apenas que sou feliz com minha escolha.

Nunca me considerei tão interessante e vitoriosa como quando me tornei esposa, e mais ainda, quando fui mãe. Se antes, eu, por ser formada em biologia, era conhecedora das leis da vida e além disso tinha meu tempo para estudar idiomas, doutrina e dedicar-me a literatura, agora o meu campo de conhecimento se ampliou em um horizonte tão vasto como jamais havia pensado ou sequer reparado nessa graça reservada em grande parte à condição feminina.

Se uma mulher se casa e vive conforme os planos de Deus, ela encontra um amplo campo de estudo. Engana-se quem pensa que as mulheres do lar são pessoas emburrecidas pelo tempo: ao contrário, elas se tornam sábias com o tempo.

A sabedoria do lar

Nós, donas de casa, somos experts em nutrição. Conhecemos os benefícios de cada alimento e o que cada chá cura. Sabemos sobre cozimento, fermentação, corte, tempero, temperatura. Sabemos preparos simples, como papinhas de bebê, até grandes banquetes, como ceias de Natal. Sabemos sobre cultivo. Sobre sementes, raízes, podas e mudas. Sobre estações, pragas, terras e adubos. Sobre flores! Sabemos sobre doenças, remédios farmacológicos e naturais.

Sabemos sobre bebês, crianças, adultos e idosos. Sabemos sobre psicologia infantil, do homem e da mulher, do desenvolvimento natural e da morte. Sabemos sobre educação dos filhos, temperamentos, tolerar os aborrecentes. Sabemos conselhos valiosos, temos experiências duras, vivências felizes e também dias tristes. Entendemos de química: usamos um trilhão de produtos e muitas misturinhas milagrosas que garantem roupas mais brancas do que a neve, macias como algodão e perfumadas como as flores primaveris!

Entendemos de histórias infantis, atuação, brincadeiras de carrinhos e casinhas de bonecas. Sabemos impor limites e dar aconchego a quem precise. Sabemos de viagens e finanças. Economizar, reaproveitar, reciclar! Entendemos de orações, preces, serviço comunitário. De rotina, planejamento, criatividade! Entendemos de beleza, ordem e conforto! Enfim, de tanto!

Todos os dias precisamos de uma gama de conhecimento para realizar nossas nem tão simples atividades diárias: cuidar de um bebê, de um filho crescido, do pai, da mãe, do esposo, de alguém doente, lavar e passar roupas, limpar a casa, cozinhar, educar, catequizar, e por aí vai. E todos os dias conquistamos tantas vitórias principalmente sobre nós mesmas e a respeito daqueles que amamos. Nós fazemos o mundo melhor. O futuro da sociedade passa pelas nossas mãos.

Como diz a dra. Alice von Hildebrand em seu livro O Privilégio de Ser Mulher:

Quando chegar a hora, nada que tiver sido produzido pelo homem subsistirá. Um dia, todas as realizações humanas serão reduzidas a um monte de cinzas. Por outro lado, todas as crianças nascidas de mulher viverão eternamente, pois a elas foi concedida uma alma imortal, feita à imagem e semelhança de Deus. Sob essa luz, a afirmação de Simone de Beauvoir de que 'as mulheres não produzem nada', mostra-se especialmente ridícula.

E o Pe. Pedro Félix:

Mulher cristã, tu não nasceste para fazer obras mestras. As grandes obras da política, da guerra, da ciência, da literatura, da arte, não brotaram das tuas mãos, nem do teu engenho. Tudo isso é obra dos homens. Todavia, tu fizeste o que mais vale, formaste esses homens. Não só porque o geraste com o teu sangue, mas também porque o modelaste com tua paciência e com teus encantos.

Senhoras e Rainhas

Esta é a nossa coroa de glória: a família. Coroa que tantas vezes floresce, mas na maior parte das vezes é de espinhos. As pequenas recompensas recebemos todos os dias, mas a grande recompensa está guardada para o entardecer da vida. Só quem tem os olhos voltados para o Alto consegue entender e enxergar coisas que passam tão despercebidas para aqueles "que têm olhos mas não veem" (cf. Sl 113, 13). Verdadeiramente, a Cruz para o mundo é loucura, mas para nós que cremos, é salvação.

Talvez nunca tenhamos parado para pensar o quanto somos interessantes e o quanto temos para compartilhar. Que a chatice do mundo não recaia sobre nossos ombros! Não é interessante só quem ganha promoções em sua carreira ou quem tem a liberdade que o mundo prega. Para o mundo parecemos escravas sem opinião formada. Mas somos inteligentes e livres: na nossa família, no nosso cotidiano, nas nossas amizades. E mais do que isso, somos senhoras de nossos lares: somos rainhas.

Fonte: Lírio entre espinhos | Adaptação: Equipe CNP

| Categoria: Espiritualidade

Como fazer um exame de consciência dos pecados veniais?

Não basta desejar firmemente antes sofrer a morte do que cometer um pecado grave. É necessário ter uma resolução semelhante em relação ao pecado venial. Quem não encontrar em si esta vontade, não pode sentir-se seguro.

Normalmente, as pessoas não têm muita dificuldade para reconhecer um pecado mortal. Quando o assunto são os pecados veniais, no entanto, nem sempre somos capazes de identificá-los de modo apropriado.

Este breve exame de consciência dos pecados veniais, atribuído a ninguém menos que Santo Antônio Maria Claret, pretende ser um auxílio aos fiéis, especialmente àqueles que têm o hábito de se confessar regularmente. Embora não tenhamos encontrado a sua fonte, o conteúdo deste exame vale por si mesmo, independentemente de sua autoria. Não possui um caráter sistemático, mas enumera muitos pecados comuns, que constituem um grande entrave para o progresso na vida espiritual.

A alma deve evitar todos os pecados veniais, especialmente os que abrem caminho ao pecado grave.

Ó minha alma, não basta desejar firmemente antes sofrer a morte do que cometer um pecado grave. É necessário ter uma resolução semelhante em relação ao pecado venial. Quem não encontrar em si esta vontade, não pode sentir-se seguro. Não há nada que nos possa dar uma tal certeza de salvação eterna do que uma preocupação constante em evitar o pecado venial, por insignificante que seja, e um zelo definido e geral, que alcance todas as práticas da vida espiritual — zelo na oração e nas relações com Deus; zelo na mortificação e na negação dos apetites; zelo em obedecer e em renunciar à vontade própria; zelo no amor de Deus e do próximo.

Para alcançar este zelo e conservá-lo, devemos querer firmemente evitar sempre os pecados veniais, especialmente os seguintes:

  1. O pecado de dar entrada no coração de qualquer suspeita não razoável ou de opinião injusta a respeito do próximo.
  2. O pecado de iniciar uma conversa sobre os defeitos de outrem, ou de faltar à caridade de qualquer outra maneira, mesmo levemente.
  3. O pecado de omitir, por preguiça, as nossas práticas espirituais, ou de as cumprir com negligência voluntária.
  4. O pecado de manter um afeto desregrado por alguém.
  5. O pecado de ter demasiada estima por si próprio, ou de mostrar satisfação vã por coisas que nos dizem respeito.
  6. O pecado de receber os Santos Sacramentos de forma descuidada, com distrações e outras irreverências, e sem preparação séria.
  7. Impaciência, ressentimento, recusa em aceitar desapontamentos como vindo da Mão de Deus; porque isto coloca obstáculos no caminho dos decretos e disposições da Divina Providência quanto a nós.
  8. O pecado de nos proporcionarmos uma ocasião que possa, mesmo remotamente, manchar uma situação imaculada de santa pureza.
  9. O pecado de esconder propositadamente as nossas más inclinações, fraquezas e mortificações de quem devia saber delas, querendo seguir o caminho da virtude de acordo com os caprichos individuais e não segundo a direção da obediência. (Nota: Fala-se aqui de situações em que encontraremos aconselhamento digno se o procurarmos, mas nós, apesar disso, preferimos seguir as nossas próprias luzes, embora frouxas.)

Retirado do "Exame de consciência para adultos",
da Cruzada Internacional do Rosário de Fátima.

| Categoria: Doutrina

Quatro virtudes fundamentais para lidar com pessoas enfermas

Com que virtudes devemos sair em socorro de nossos irmãos doentes? É o que explica nesta matéria o Padre Antonio Royo Marín, grande tomista espanhol.

Visitar as pessoas enfermas diz respeito a uma verdadeira obra de misericórdia com autêntico espírito cristão, contanto que haja, em primeiro lugar, intenção sobrenatural de agradar a Deus, servindo-Lhe na pessoa dos membros enfermos de Cristo.

Eis aqui, portanto, as principais virtudes cristãs que há de praticar aquele que visita ou cuida dos enfermos, a fim de que sua ação caritativa seja verdadeiramente proveitosa para o enfermo e altamente meritória para si mesmo.

1.º Fé. — Antes de tudo, é necessário o exercício da fé, de modo que o fiel veja no enfermo o próprio Cristo, que sofre em um dos membros de seu Corpo místico. De fato, somente assim o Senhor nos dirá no dia do juízo final: "Vinde, benditos de meu Pai…, porque estive enfermo e me visitastes" (Mt 25, 34-40). Quando somos movidos por qualquer outra razão que não seja esta, desvirtuamos completamente o sentido desta grande obra de misericórdia e a destituímos quase inteiramente de seu imenso valor diante de Deus; pois Cristo não recompensará uma obra na qual em nenhum momento se pensou nEle.

A fé, assim, é o modo de ver fundamental no qual é preciso colocar-se a pessoa que pratica esta ou qualquer outra obra de misericórdia. Isso não quer dizer, porém, que não se possa pretender também finalidades humanas com essa visita, como: curar o enfermo, aliviá-lo, consolá-lo, distraí-lo, confortar a família, etc.; mas tudo isso deve estar subordinado à finalidade última e suprema que é atender ao doente como membro enfermo de Cristo, como se se tratasse do próprio Salvador em pessoa.

Por não se ter em conta esse detalhe tão primário e fundamental, quanta moeda falsa, do ponto de vista sobrenatural, e quanta caridade aparente na visita e no cuidado dos enfermos! Por isso, nunca se insistirá o bastante na necessidade de retificar a intenção, ao exercermos qualquer obra de misericórdia corporal ou espiritual. Se não o fazemos, expomo-nos a agir no plano puramente humano e natural, que, embora não seja pecaminoso, carece absolutamente de valor na ordem e plano sobrenatural. Porque não basta, para o mérito sobrenatural, estar na graça e possuir a caridade habitual; é preciso que a caridade influencie ao menos virtualmente o que estamos fazendo.

2.º Caridade. — Compreende-se sem esforço, portanto, que é precisamente a caridade que nos move e impulsiona ao exercício das obras de misericórdia. Mas não nos esqueçamos que a caridade se funda na participação da eterna bem-aventurança, e, por conseguinte, em última análise, a visita e o cuidado do enfermo deve também a ela encaminhar-se. É bom que nos preocupemos pela sua saúde corporal e que empreguemos para consegui-la todos os meios legítimos ao nosso alcance; mas, acima de tudo, devemos procurar sua saúde espiritual, animando-o a aceitar santamente sua enfermidade, vendo nela a expressão da vontade misericordiosa de Deus, e — se o caso o exigir — preparando-o para a digna recepção dos santos sacramentos.

É incrível, a esse respeito, a cegueira de tantas famílias que se chamam cristãs e que, na hora de manifestar o máximo amor e prestar o maior serviço aos entes queridos, salvando-lhes a alma, apodera-se deles com tal veemência o temor de "assustá-los", que não vacilam em deixá-los morrer sem receber os santos sacramentos, que talvez lhes eram absolutamente necessários para sua salvação eterna. Trata-se de um crime monstruoso que não ficará sem grande castigo da parte de Deus, neste mundo ou no outro; crime ao qual não servirá de desculpa o carinho mal-entendido que se sentia por aquele familiar, a quem não se vacilou em sepultar para sempre no inferno, ao invés de dar-lhe um pequeno susto que lhe teria aberto as portas do céu por toda a eternidade.

3.º Paciência e abnegação. — Os enfermos costumam pensar muito em si mesmos e ser bem exigentes, não se dando conta, muitas vezes, das grandes dificuldades que ocasionam aos que lhes rodeiam. É preciso armar-se, por isso, de paciência e de uma abnegação a toda prova, a fim de atender-lhes com sorriso nos lábios, sem dar a entender o sofrimento que nos causam. O trabalho da enfermeira ou da irmã de caridade desempenhado com suavidade e doçura, sem se impacientar jamais pelas mil impertinências e caprichos dos enfermos, supõe um domínio completo de si mesmo e uma abnegação heroica, que Deus saberá premiar com largueza na hora das recompensas eternas.

4.º Prudência e delicadeza. — Além disso, no trato com os enfermos, prudência e delicadeza são requeridas em grau superlativo. Na ordem material, deve-se procurar, por um lado, cumprir exatamente as prescrições médicas — algumas das quais são incômodas e penosas para o enfermo, que, por isso mesmo, quererá recusá-las —, sem que, por outro lado, se agite ou turbe o ânimo do paciente. Na ordem espiritual e religiosa, deve-se evitar com todo cuidado dar ao enfermo notícias que possam desgostá-lo ou afligi-lo — exceto, naturalmente, quando se-lhe deve falar dos últimos sacramentos — ou que despertem em sua alma sentimentos de rancor, inveja, impaciência e outras coisas semelhantes. Deve-se, por isso, criar para ele um clima de paz, serenidade, otimismo, confiança em Deus e plena aceitação, gozosa e alegre, de sua Divina Vontade, que nunca permite o mal senão para tirar maiores bens.


Do livro Teologia de la Caridad, do Pe. Antonio Royo Marín,
Madrid: BAC, 1960, p. 426s.