| Categorias: Educação, Doutrina

Apascentar é, antes de tudo, ensinar a doutrina

É urgente redescobrir a catequese, enquanto ainda existe a chama da fé nos corações, pois, quando ela se apagar, já não sobrará nenhum remédio

No Evangelho de São Mateus, lemos as palavras de Cristo que sintetizam a missão da Igreja: "Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28, 19). Evangelizar é o primeiro dever. A catequese, neste sentido, reveste-se de uma importância fundamental. Dela depende o florescimento de uma nova geração de cristãos, precisamente porque é no estudo do catecismo que se sobressai o esforço do fiel para compreender a doutrina, celebrar os sacramentos, obedecer a Deus e ter vida de oração. Esses quatro elementos, chamados tradicionalmente de lex credendi, lex celebrandi, lex vivendi e lex orandi, estão intimamente ligados. Um conduz ao outro: a fé leva-me a celebrar, a celebração leva-me a viver e a vivência leva-me a rezar. Ao contrário, quando uma só dessas colunas é danificada, todo o edifício ameaça ruir.

A Igreja, ao longo dos séculos, esforçou-se amiúde para apresentar os conteúdos da fé de maneira eficaz e frutífera. Seguindo o adágio de Santo Agostinho, "creio para compreender e compreendo para crer melhor", não faltaram iniciativas louváveis por parte dos pregadores, a fim de que o cristianismo encontrasse eco em meio a sociedade. Foram mormente nos tempos de grande crise que a Igreja se destacou na evangelização. Durante o período da Reforma, quando as teses de Lutero pareciam irresistíveis e bastante convincentes, a resposta inequívoca do Concílio de Trento, com o chamado Catecismo Romano, deu novo vigor a uma doutrina aparentemente fora de moda. A fé católica, escreve Daniel-Rops, foi ensinada "com uma nitidez, uma força e uma amplitude que nunca tinha conhecido até então" [1]. Dada a quantidade de falsas interpretações que pululavam à época, também os anos pós Concílio Vaticano II exigiram a formulação de um novo catecismo, no qual os fiéis pudessem encontrar um "instrumento fundamental para aquele ato com que a Igreja comunica o conteúdo inteiro da fé, 'tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita'" [2].

Eis a importância do Catecismo da Igreja Católica. Não foi por menos que Bento XVI insistiu tanto nesta questão em seu pontificado. "Sacrificai o vosso tempo por ele! Estudai-o no silêncio do vosso quarto, lede-o em dois, se sois amigos, formai grupos e redes de estudo, trocai ideias na internet. Permanecei de qualquer modo em diálogo sobre a vossa fé!", exortava o então Papa [3]. No Catecismo, os fiéis têm a segurança do Magistério da Igreja e a clareza dos ensinamentos dos Santos Padres e dos Concílios. Trata-se de um remédio salutar contra as dúvidas e as heresias. A rigor, o Catecismo é o escudo dos cristãos.

Não é para admirar, portanto, que uma das grandes lutas do diabo seja contra a catequese. Ele sabe que o povo de Deus se perde por falta de instrução. Diz o profeta: "Não há conhecimento de Deus nesta terra. A maldição, e a mentira, e o homicídio, e o furto, e o adultério inundaram tudo, e têm derramado sangue sobre sangue" (Os 4, 1). Nas palavras de São Pio X, "quando não está inteiramente apagada a chama da fé, ainda resta a esperança de que se elimine a corrupção dos costumes" [4]. Uma sociedade secundada pela cultura cristã dificilmente cairá em desgraça, mesmo que essa cultura subsista em uma pequena chama. O empenho de bons cristãos pode transformar a tímida fagulha em um forte incêndio. O mesmo não se pode dizer, todavia, de uma sociedade sem qualquer resquício de fé, porque onde "à depravação se junta a ignorância da fé, já não resta lugar a remédio, e permanece aberto o caminho da perdição" [5]. Palavras proféticas de um Papa que soube interpretar os sinais dos tempos. Acaso não é a situação em que nos encontramos hoje? Um mundo cada vez mais pervertido, porque deixou Deus de lado para entregar-se às suas paixões. Um mundo onde a chama do cristianismo tende a diminuir a cada dia.

Alguns apóstolos do bom mocismo, é verdade, preferem contemporizar. "Nada de catecismo! A Igreja precisa ser mais pastoral e menos doutrinária", ponderam. Ora, mas apascentar, responderia São Pio X, é, antes de mais nada, ensinar a doutrina: "Eu vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com a ciência e com a doutrina" (Jr 3, 15). É um absurdo contrapor pastoral e doutrina. Ambas só podem caminhar juntas. Foi ensinando o catecismo que São Pedro Canísio preservou a Igreja na Alemanha, em uma época cercada de contendas e incompreensões. Dele, aliás, recolhe-se um eloquente testemunho de verdadeiro método pastoral, pois soube apresentar os princípios cristãos de modo adequado a cada público. Não escondeu a verdade, mas ensinou-a com caridade:

"Eis uma característica de São Pedro Canísio: saber compor harmoniosamente a fidelidade aos princípios dogmáticos com o devido respeito por cada pessoa. São Canísio distinguiu entre a apostasia consciente, culpável, da fé, da perda da fé inculpável, nessas circunstâncias. E declarou, em relação a Roma, que a maior parte dos alemães que tinham passado para o Protestantismo não tinha culpa. Num momento histórico de fortes contrastes confessionais, evitava — é algo extraordinário — a aspereza e a retórica da ira — algo raro, como disse nessa época, nos debates entre os cristãos — e visava somente à apresentação das raízes espirituais e à revitalização da fé na Igreja. Para isto serviu o conhecimento vasto e incisivo que ele tinha da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja." [6]

O Catecismo nunca perderá a sua importância. E contra aqueles que dizem o contrário, fica-nos a resposta do Cardeal Joseph Ratzinger: "A atualidade do Catecismo é a atualidade da verdade novamente dita e pensada de novo. Esta atualidade permanecerá assim, muito para além das murmurações dos seus críticos" [7].

A urgência da redescoberta do Catecismo é a urgência de um mundo doente, que dá seus últimos suspiros. Entreguemo-nos, portanto, de todo coração, à evangelização, ao ensino, à catequese, enquanto ainda nos resta tempo, enquanto a última chama do cristianismo permanece acesa. Sejamos Catequistas do Novo Milênio.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. DANIEL-ROPS. A Igreja da Renascença e da Reforma. São Paulo: Quadrante
  2. Papa Francisco, Carta Encíclica Lumen Fidei, 29 de junho de 2013, n. 46
  3. Papa Bento XVI, Prefácio ao Catecismo Jovem
  4. São Pio X, Carta Encíclica Acerbo Nimis, 15 de abril de 1905, n. 5
  5. Idem
  6. Papa Bento XVI, Audiência Geral, 9 de fevereiro de 2011
  7. Discurso do Cardeal Joseph Ratzinger ao Congresso Catequético Internacional

| Categoria: Sociedade

O Big Brother e a preocupação com a vida alheia

Explorando o vício da curiosidade, o Big Brother Brasil tem seguido os mesmos passos das novelas globais para minar a família e destruir a juventude brasileira

O que é o Big Brother Brasil, por que fez tanto sucesso em nosso país e por que é tão explorado pelos portais de notícias da Internet?

O programa trata-se de um reality show – literalmente, "show de realidade". A ideia original desses espetáculos – cujo formato pode variar muito – é apresentar às pessoas a rotina e o dia a dia de outras pessoas reais. Ao contrário de filmes, novelas e seriados, nos quais os atores interpretam personagens, as pessoas chamadas a participar desses programas têm que interpretar tão somente a si mesmos – em um contexto todo fantasioso, no caso do Big Brother, repleto de comidas, bebidas, lazeres... e absolutamente nenhum trabalho.

Movidas pela ânsia dos holofotes e pelo desejo da fama, são muitas as pessoas a imolar a própria privacidade no altar do reality show. Os eventuais prêmios com que os ganhadores desse programa são bonificados nem se comparam à possibilidade de todos serem vistos aos olhos da sociedade e poderem, quem sabe, ingressar em uma carreira pública – seja na própria televisão, seja no Congresso Nacional, por exemplo.

O mais intrigante, porém, é como tantos brasileiros podem perder o seu tempo sentados em um sofá, em frente a uma televisão e assistindo a algo desse tipo. Afinal, o Big Brother só está em sua 15º edição na rede nacional porque tem audiência suficiente para se manter. O argumento de que os entusiastas do programa se restringem a quem assiste a TV não cola. Os sítios da Internet, todos, trazem notícias sobre o que acontece na tal "casa mais vigiada do Brasil" e, impressionantemente, são essas as matérias mais lidas pelos internautas.

O que explica esse fenômeno? Por que isso acontece?

É que o Big Brother explora um vício muito característico da própria cultura brasileira, a curiosidade. (Não à toa os telespectadores são convidados pelo apresentador do programa a "dar uma espiadinha".) Este vício consiste, segundo o parecer de São Beda, "na assistência aos espetáculos e na investigação e crítica dos vícios alheios" [1]. Santo Tomás de Aquino, doutor da Igreja e profundo conhecedor do comportamento humano, ensina que, no que diz respeito aos sentidos, há dois modos de ser curioso: ou procurando por algo inútil ou mesmo por algo nocivo [2].

A olhar para o conteúdo do reality show em questão, é preciso dizer que dar-lhe audiência não se trata apenas de querer saber algo sem utilidade alguma – o que já é bastante óbvio. É que o próprio Big Brother Brasil é um espetáculo perigoso. Além de incentivar os mexericos e difamações à vida alheia – as pessoas se dividem em "panelinhas" de fofocas e as personagens consideradas impróprias são eliminadas em um "paredão" –, o programa global está repleto de cenas pornográficas, uma pior do que a outra. Desvinculando totalmente o sexo da realidade familiar, o Big Brother mina a base dos relacionamentos maduros e saudáveis e estimula os jovens a uma busca frenética e irresponsável por prazer sexual a qualquer custo [3]. Não é exagero dizer que os pais que gostam de dar uma "espiadinha" trazem a promiscuidade para dentro de sua própria casa.

Antes que alguém chame as considerações aqui expostas de "moralismos", importa apontar o quanto programas deste teor já destruíram a família brasileira nas últimas décadas. Só as novelas da Rede Globo – que são uma versão bem mais soft do que é o BBB – contribuíram significativamente para o aumento do número de divórcios e a queda no número de filhos no país. É que, de 115 novelas globais transmitidas entre 1965 e 1999 no horário nobre, 62% das principais personagens femininas não tinham filhos e 26% delas eram infiéis a seus parceiros. Um quadro que foi se tornando, pouco a pouco, um retrato da sociedade brasileira.

Por isso, deixar de assistir à programação permissiva e liberal da Rede Globo – com suas novelas, reality shows e "Esquentas" – não é nenhum "moralismo" de fundamentalistas cristãos. É apenas a medida mais sensata que os homens de bem desse país precisam tomar para salvar a própria família e preservar o amor dentro do Matrimônio. Caso contrário, também eles cairão, assim como "caiu a grande Babilônia" (Ap 18, 2).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Comentário à Primeira Epístola de São João, 2, 16: ML 93, 92D
  2. Cf. Suma Teológica, II-II, q. 167, a. 2
  3. Pornografia e violência nas comunicações sociais: uma resposta pastoral, n. 16

| Categoria: Testemunhos

Decapitados só porque eram cristãos

Irmão de dois mártires cristãos assassinados pelo Estado Islâmico, Beshir não está de luto: “Eles são meu orgulho e me fazem andar de cabeça erguida”.

Vinte e um. Foi o número de cristãos mortos pelo Estado Islâmico, em um vídeo divulgado pelo grupo terrorista, no dia 15 de fevereiro, há pouco mais de um mês.

A gravação – produzida com música de fundo e efeitos de edição – leva o título A message signed with blood to the nation of the cross ["Uma mensagem assinada com sangue para a nação da cruz"]. No vídeo, membros do Estado Islâmico, vestidos de preto, trazem consigo 21 cristãos coptas do Egito, com macacões alaranjados, e os conduzem ao longo da Costa de Wilayat Tarabulus, na Líbia, à beira do Mar Mediterrâneo. Eles enfileiram "os seguidores da hostil Igreja Egípcia", ajoelhados, e cortam as suas cabeças, deixando vermelhas de sangue as águas costeiras. É possível ver os lábios dos mártires se mexendo e invocando o nome de Jesus antes da morte.

No dia 17 de fevereiro, o Papa Francisco ofereceu a sua Missa matutina na Capela da Casa Santa Marta por esses "vinte e um irmãos coptas, decapitados só porque eram cristãos".

Muitas vezes, o Ocidente tende a olhar para os martírios do Império Romano – os cristãos crucificados, decapitados ou entregues aos leões nas arenas do Coliseu – como para um passado distante. As pessoas são quase tentadas a pensar que as atrocidades de outrora ficaram para trás, que as loucuras de um Nero ou de Diocleciano já não se repetem mais na era contemporânea, tão certas estão da civilidade e superioridade moral dos tempos modernos.

Ledo engano. Longe daqui, cabeças humanas são decepadas, apenas por crerem em Cristo; pelo simples fato de terem sido banhadas, um dia, pelas santas águas do Batismo. 15 de fevereiro – escolhido pelos terroristas muçulmanos para mandar a sua "mensagem de sangue" ao mundo – já era o dia dos mártires São Faustino e São Jovita. Os dois – um sacerdote e um diácono católicos, respectivamente – também foram decapitados, em Roma, no ano de 146. Agora, quase dois mil anos depois, no mesmo dia 15, a história recorda aos homens uma lição há muito esquecida: o Cristianismo ainda é, de fato, a religião mais perseguida do mundo.

A verdade é que as perseguições sempre estiveram presentes na história da Igreja. Foi o próprio Senhor quem alertou os Seus discípulos: "Sereis expulsos das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos matar, julgará estar prestando culto a Deus" (Jo 16, 2). Ao lado dessa previsão aparentemente terrível, todavia, o mesmo Jesus ajuntou uma promessa extraordinária: "Felizes aqueles que sofrem perseguição pelo amor da justiça, porque deles é o Reino dos céus" (Mt 5, 10).

Ora, como podem ser felizes estes homens que perderam as próprias cabeças? Como podem ser chamados bem-aventurados estes rapazes que, tendo família, mulher e filhos e "uma vida inteira pela frente", perderam tudo de uma só vez?

Poder-se-ia responder, com Nosso Senhor, que "quem ama pai ou mãe, filho ou filha, mais do que a mim, não é digno de mim" (Mt 10, 37). Ou recorrer a Santo Tomás de Aquino e explicar que as "realidades invísiveis" valem muito mais do que este mundo visível [1].

Todavia, é melhor que os leitores que acompanham estas parcas linhas ouçam, eles mesmos, o testemunho de Beshir, que perdeu seus dois irmãos, Bishoy (25) e Samuel (23), nas mãos dos terroristas islâmicos. Trata-se de uma pessoa real, afetada diretamente pelas crueldades do Estado Islâmico. Perguntado sobre como se sente em relação à perda dos dois, Beshir não hesita em dizer: "São meu orgulho (...). Eles me fazem andar de cabeça erguida".

Eis a razão da bem-aventurança destes 21 mártires coptas do Egito: eles morreram por amor a Cristo. E "não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos" (Jo 15, 13).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. Suma Teológica, II-II, q. 124, a. 4

| Categoria: Igreja Católica

Católico e protestante debatem em avião

Em voo rumo ao Rio, um jovem católico se assenta ao lado de um senhor protestante. Não demora muito para que os dois, respeitosamente, entrem em choque.

Em um voo para o Rio de Janeiro, um jovem católico se assenta ao lado de um senhor protestante. Ambos estão vestidos simples e modestamente: camisa por dentro da calça social e sapatos pretos. Trocam breves cumprimentos, afivelam seus cintos, enquanto os demais passageiros se aconchegam em suas poltronas. O piloto inicia os procedimentos para decolagem, e as aeromoças dão as instruções para a segurança dos tripulantes. "Desliguem todos os seus equipamentos eletrônicos; coloquem suas poltronas na posição vertical", pede uma delas, falando ao microfone. Sentindo que a aeronave já estava no ar, o rapaz católico traça o sinal da cruz, sob o olhar surpreso do senhor protestante.

— Você é católico? — pergunta o senhor, dando início a um colóquio sobre imagens, santos, Maria, celibato etc.

— Sim, sou — responde o jovem.

— Como vocês, católicos, podem adorar imagens, se no livro de Êxodo, capítulo 20, Deus o proíbe?

— Deus não proíbe as imagens, mas a idolatria. Em Êxodo, 25, duas páginas à frente do capítulo que o senhor mencionou, Deus pede a Moisés que faça duas imagens de Querubins para a Arca da Aliança. — E o católico prossegue: — Ora, Deus não é esclerosado. Nós, católicos, temos imagens como um ícone, um sinal que nos remete para os céus. Num tempo de tanto ateísmo, as imagens são muito importantes para nos lembrar da existência de Deus.

— Não concordo com isso — rebate o protestante —, assim como não concordo com o celibato dos padres. Pedro se casou, você sabia?

— Sim, mas Pedro, como vocês, protestantes, costumam dizer, não é o caminho, a verdade e a vida. Esse caminho é Jesus. E Ele não se casou. Os padres seguem o exemplo de Cristo.

— Mas, quanto a Maria — insiste o senhor —, Jesus disse que todo aquele que faz a vontade do Pai é seu irmão e sua mãe.

Todos os anos, na festa da Apresentação de Nossa Senhora, a Igreja proclama justamente esse Evangelho, pois se trata de um elogio de Jesus a sua Mãe. Mais do que todos, Ela é a "bem-aventurada porque acreditou", a que realmente soube cumprir a vontade do Pai (cf. Lc 1, 45). Antes de ser Mãe de Jesus na carne, ela foi Mãe na fé. O Espírito Santo diz pela boca de Santa Isabel: "A que devo a honra de vir a mim a Mãe de meu Senhor?" (Lc 1, 43). Jesus não contradiz o Espírito Santo.

Ainda não satisfeito com as explicações do jovem, embora extremamente surpreendido com o conhecimento bíblico que ele demonstrara, o protestante acusa:

— Essa é a interpretação da sua Igreja. Infelizmente, a Bíblia pode ser interpretada de várias formas.

— Concordo com o senhor — torna a responder o católico, pronto para finalizar a disputatio —, mas a livre interpretação da Bíblia foi algo inventado por Martinho Lutero, o fundador da sua religião. Nós, católicos, seguimos a Tradição Apostólica. Cremos naquilo que os cristãos sempre acreditaram, não em fábulas de homens quaisquer.

A conversa estende-se por mais alguns minutos. Vendo a eloquência dos argumentos católicos, o protestante "baixa a guarda", por assim dizer, a fim de prestar atenção às palavras daquele jovem que demonstrava tanta convicção em sua fé, que falava com tanto amor da Virgem Maria, dos santos e, sobretudo, de Jesus Cristo. De repente, a Igreja Católica já não parecia o monstro pintado pelos pastores evangélicos. O debate agora era uma conversa entre aluno e catequista. O protestante queria conhecer aquela beleza escondida, o patrimônio cristão de séculos, amputado pela ruptura luterana.

De fato, no imaginário protestante comum, a Igreja Católica é, na melhor das hipóteses, uma Igreja como as demais, não a unica Christi Ecclesia, como reafirmou o Concílio Vaticano II [1]. Desde cedo, por causa de um proselitismo demasiado agressivo, muitos evangélicos são ensinados a considerar a religião católica uma seita, uma espécie de sincretismo pagão. Ademais, é-se criado um estereótipo. Por isso, certa feita, disse mui acertadamente o venerável Fulton Sheen: "Talvez não haja nos Estados Unidos uma centena de pessoas que odeiem a Igreja Católica; mas há milhões de pessoas que odeiam aquilo que erroneamente supõem ser a Igreja Católica." O senhor protestante odiava uma falsa Igreja Católica; odiava o espantalho, porque desconhecia o corpo verdadeiro. Posto, no entanto, diante da verdadeira fé cristã, não pôde senão exprimir sua perplexidade. O castelo de cartas havia ruído. Embaraçado com a descoberta, o senhor protestante questiona o jovem católico:

— Vejo que você é um rapaz que ama a Jesus Cristo, que dedica sua vida à Igreja. Você é diferente da maioria dos católicos que conheci. Gostaria de entender, então, por que grande parte dos católicos são relaxados. Digo, por que vão à missa mal vestidos, as mulheres com decotes e minissaias, os rapazes com bermudas ou as calças caídas, se lá está presente Jesus, como você me explicou? Nós, protestantes, sempre vamos ao culto com boas roupas, bem vestidos, pois queremos entregar nosso melhor para Deus. Por que essa diferença?

Silêncio na aeronave. Agora era a vez do jovem católico abaixar a cabeça em sinal de lamentação. Que poderia responder ele? Que poderia dizer em favor de seus irmãos católicos? Acaso não era verdade — para nossa vergonha — o que o senhor protestante observara?

— Os doze apóstolos — respondeu o jovem, depois de pensar um pouco — testemunharam por três anos a pregação, os milagres e, principalmente, o amor de Cristo pelo homem. Na cruz, no entanto, restaram umas poucas mulheres e apenas um apóstolo. Um discípulo o traiu, outro ainda o negou, e os nove demais se esconderam por medo… A Igreja de ontem se parece muito com a Igreja de hoje. É forçoso reconhecer, mas, mesmo nos maus exemplos, ela é apostólica.

O diálogo entre esses dois personagens elucida muito bem a situação em que muitos cristãos, sejam católicos, sejam protestantes, se encontram hoje. Já falamos, ao menos um pouco, das razões que levam os evangélicos a se afastarem do catolicismo. A propaganda hostil contra a Igreja, com base na famosa falácia do espantalho — isto é, a criação de uma caricatura para substituir o que é original —, é uma delas. Mas seria bastante desonesto culpar somente o proselitismo pela evasão de fiéis. Na história do cristianismo, o contra-testemunho sempre foi uma pedra de tropeço. É preciso, por isso, um mea culpa.

Existe uma tendência dentro da Igreja, hoje em dia, de se reduzir a espiritualidade a alguns chavões bonitos, mas vazios. Certa filosofia da calça jeans, por exemplo, tem feito muitos confundirem a Celebração da Santa Missa com a barraca de peixe da feira. Vai-se à Eucaristia como se se tratasse de algo qualquer, sem o devido decoro ou a mínima reverência. Jovens que rezam e zelam pela casa de Deus são achincalhados e segregados em suas comunidades. Performances de dança e peças de teatro encenadas na frente do Santíssimo, ao contrário, são consideradas expressões da universalidade. Um jovem de roupa social é "careta", outro, mostrando a roupa de baixo, é "descolado". A lista de contradições é comprida e cansativa. Sem mais delongas, recordemos o que São Paulo insistentemente ensinava: "Os que exercem bem o ministério, recebem uma posição de estima e muita liberdade para falar da fé em Cristo Jesus" (1 Tm 3, 13). Nada mais que o óbvio. Se os ateus, os agnósticos, os protestantes etc. não enxergarem a piedade e o zelo dos católicos pelo bem mais sublime da fé, como poderão crer?

Falta formação. Apascentar as ovelhas de Cristo com a ciência e a doutrina (cf. Jr 3, 15). Lembrar-se de que além de mãe, a Igreja é mestra. Mater et Magistra, como dizia São João XXIII. Os maus exemplos visíveis em tantas comunidades são, na sua maioria, decorrentes da falta de conhecimento. Seria simples farisaísmo responsabilizar o laicato por tais abusos, quando muitos deles são feitos com a reta intenção de agradar a Deus. Não, a responsabilidade é de outro departamento. É serviço do clero ensinar a fé e a moral, segundo a Tradição. É serviço dos padres abrir os tesouros da Igreja para todos. Quem tem acesso a esse conteúdo, por conseguinte, não só muda de vida, como também contribui para o crescimento espiritual dos demais. Cria-se um círculo virtuoso. E ainda que custe o descanso e o tempo, só assim se formam "pastores com o 'cheiro das ovelhas', pastores no meio do seu rebanho, e pescadores de homens" [2]. Vale recordar o que diz o Concílio Vaticano II, acerca da missão dos bispos:

"No exercício do seu múnus de ensinar, anunciem o Evangelho de Cristo aos homens, que é um dos principais deveres dos Bispos, chamando-os à fé com a fortaleza do Espírito ou confirmando-os na fé viva. Proponham-lhes na sua integridade o mistério de Cristo, isto é, aquelas verdades que não se podem ignorar sem ignorar o mesmo Cristo. E ensinem-lhes o caminho que Deus revelou para ser glorificado pelos homens e estes conseguirem a bem-aventurança eterna." [3]

Não se está exigindo — atentem-se — nem o uso de véus, nem de saias, nem a comunhão de joelhos, tampouco missas em latim. Essa não é a questão. Apenas se faz um chamado ao bom senso. Salta aos olhos a indiferença que dia sim, dia também, se faz presente em tantas paróquias. Em alguns casos, torna-se mesmo difícil distinguir entre uma matinée e uma Missa, dada a quantidade de pirotecnia, firulas e vestimentas, no mínimo, indecorosas presentes na celebração.

A Igreja Católica é a mais sublime de todas as instituições porque é a perpetuação da encarnação de Cristo na Terra. Mas, para um protestante acostumado a imaginar o espantalho construído por seu pregador, o mau exemplo de tantos católicos torna quase impossível o encontro dessa verdade. Para cada espantalho filosófico, há uma porção de espantalhos ambulantes.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 21 de novembro de 1964, n. 8
  2. Papa Francisco, Homilia da Quinta-Feira Santa, 28 de março de 2013
  3. Concílio Vaticano II, Decreto Christus Dominus, 28 de outubro de 1965, n. 12

| Categorias: Igreja Católica, Doutrina

Os seis eixos pastorais de João Paulo I

Em apenas 33 dias de pontificado, João Paulo I foi capaz de levar a mensagem pacificadora de Cristo, sobretudo através de seu sorriso - o sorriso de Deus.

São João Paulo II reinou gloriosamente no Trono de São Pedro por quase 27 anos. Foi o terceiro maior pontificado da história da Igreja. Perde apenas para São Pedro e Pio IX. Considerado conservador demais para uns, inovador demais para outros, o Pontífice polonês soube, como nenhum outro até então, deixar a sua marca: O Papa das multidões, o Papa da Teologia do Corpo, o Papa da família, o Papa do segredo de Fátima, o Papa que derrubou o comunismo, o Papa das Jornadas Mundiais da Juventude… O Papa do Terceiro Milênio. João Paulo II teve a missão de levar o catolicismo adiante, em uma época de ideologias que pareciam já não deixar espaço para a fé cristã. Após sua morte, em abril de 2005, é possível dizer que seus esforços não foram em vão.

Todos os Papas são chamados a uma missão especial: Confirmar seus irmãos na fé. É um dos deveres do Sucessor de Pedro vigiar e zelar para que o rebanho de Cristo não seja assaltado pelos lobos. João Paulo II fez de seu programa de governo uma autêntica cruzada. Na raiz disso, encontra-se outro programa de governo que, dadas as circunstâncias em que foi ceifado, não teve tempo de prosseguir. Ao menos não pelo seu idealizador. Falamos de João Paulo I. O imediato predecessor de Karol Wojtyla, por um desígnio divino, foi Papa por apenas 33 dias. "Ele que despertou na Igreja tão grande alegria e inspirou nos corações dos homens tanta esperança, em tão breve tempo consumou e levou a termo a sua missão", enfatizou João Paulo II, durante sua primeira Audiência Geral, na Sala Paulo VI. Recordando o Papa falecido, o Papa reinante esclareceu que era seu desejo "continuar os temas já iniciados por João Paulo I". Wojtyla falava das catequeses sobre as virtudes. Mas em seu coração, como havíamos de provar, vislumbrava-se o grande projeto de João Paulo I: Trazer a humanidade de volta para o seio da Igreja.

Albino Luciani, o Papa João Paulo I, possuía uma consciência muito clara do "caráter insubstituível da Igreja Católica". "Só nela se encontra a salvação: sem ela perece-se!", ensinava. Assim, logo na sua primeira mensagem apostólica, o Papa que se chamava "humilde e último 'servo dos Servos de Deus'" não hesitou em convocar uma nova evangelização. Para um mundo acostumado ao relativismo, tentado a substituir a Deus pela própria vontade, pensar em uma "nova evangelização" é flertar com o imperialismo. Não era assim que pensava João Paulo I. Sua humildade estava no devido lugar. Não sofria do mal do século, conforme explica G.K. Chesterton: "O mal de que sofremos hoje em dia é a humildade no lugar errado… O homem foi concebido para duvidar de si mesmo, mas não da verdade… O novo cético é tão humilde que duvida até de sua capacidade de aprender" [1]. Na contramão, enquanto o mundo todo duvidava da necessidade da Igreja, da necessidade de voltar-se uma vez mais para Cristo e seus ensinamentos, João Paulo I levantava-se sob esta mesma certeza: A Igreja Católica é garantia de paz e ordem. E essa certeza provinha não de teorias abstratas e sem fundamentos, mas do "encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo." [2]

Afamado já desde o tempo de Cardeal Patriarca de Veneza por sua simplicidade e pobreza, o único e urgente desejo de Albino Luciani era o de levar o patrimônio espiritual da fé a toda a humanidade. Por isso, recomendava ao Orbe Católico [3]:

"Superando as tensões internas, que aqui e além se puderam criar, vencendo as tentações de identificação com os gostos e costumes do mundo, e bem assim as atrações de um fácil aplauso, unidos no único vínculo do amor que deve informar a vida íntima da Igreja como também as formas externas da sua disciplina, os fiéis devem estar prontos a dar testemunho da própria fé diante do mundo: Sempre prontos a responder, para vossa defesa, a todo aquele que vos pergunte a razão da vossa esperança (1 Pd 3, 15)."

João Paulo I deteve-se sobre seis eixos principais na elaboração de seu projeto pastoral. O primeiro deles: "Queremos prosseguir, sem paragens, a herança do Concílio Vaticano II". Pode-se dizer que Luciani foi pioneiro na chamada hermenêutica da continuidade, muito antes que Ratzinger a comentasse naquele famoso discurso aos Cardeais, no natal de 2005. João Paulo I tinha olhos atentos para que certo ímpeto, "generoso talvez mas incauto", não deformasse o conteúdo do Concílio, como também para que "forças exageradamente moderadoras e tímidas" não atrasassem seu "magnífico impulso de renovação e de vida". Sobre a reforma litúrgica, exigia: "Desejaria também que Roma desse bom exemplo em matéria de Liturgia celebrada piedosamente e sem 'criatividades' destoantes… desejaria poder dar a certeza de que todas as irregularidades litúrgicas serão diligentemente evitadas." [4]

Dois outros desejos do Papa: "Queremos conservar intacta a grande disciplina da Igreja, na vida dos sacerdotes e dos fiéis" e "queremos recordar a toda a Igreja que o seu primeiro dever continua sendo o da evangelização". A relação entre esses dois "quereres" é evidente. Uma Igreja apostólica nasce precisamente de uma Igreja disciplinada, consciente de seu chamado à santidade. Quando se perde a dimensão espiritual, perde-se, ipso facto, o significado da missionariedade. A Igreja torna-se tão somente uma ONG piedosa, pois deixa de anunciar a Cristo. [5]

Quarta vontade de João Paulo I: "Queremos continuar o esforço ecumênico, que vemos como a última indicação dos nossos imediatos Predecessores, velando com fé intacta, com esperança invencível e com amor indeclinável pela realização do grande mandamento de Cristo: 'Que todos sejam um ( Jo 17, 21)'". Mas "sem cedências doutrinais", deixa claro. O esforço do Santo Padre vai na direção daquilo que Pio XI esclareceu na Mortalium Animos: "Não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela." [6] Também no mesmo sentido segue o desejo de "prosseguir com paciência e firmeza naquele diálogo sereno e construtivo, que o nunca suficientemente chorado Paulo VI pôs como fundamento e programa de sua ação pastoral".

And last, but not least, a intenção de "favorecer todas as iniciativas louváveis e valiosas, que possam defender e incrementar a paz no mundo conturbado". O Papa, como vigário de Cristo, é também um baluarte da paz. Mesmo com apenas 33 dias de pontificado, João Paulo I foi capaz de levar essa mensagem pacificadora, ora por seus escritos e radiomensagens, ora por seu imenso carisma. Sobretudo, pelo seu sorriso. O sorriso de Deus, como ficou conhecido. Quis a providência divina que seu ímpeto evangélico fosse breve no Trono de São Pedro. Ainda se pode ouvir sua frágil porém decidida voz defender o direito dos mais pobres naquele fatídico 28 de setembro de 1978. Em seu lugar, veio um polonês: João Paulo II. Essa história já conhecemos. Ela nos revela como a firmeza de um Papa por 33 dias é capaz de fortalecer a fé de um Papa por 27 anos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. CHESTERTON, Gilbert Keith. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, págs. 53-54
  2. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est, 25 de dezembro de 2005, n. 1
  3. Primeira Radiomensagem de João Paulo I, 27 de agosto de 1978
  4. Papa João Paulo I, Homilia da Missa de tomada de posse da Diocese de Roma, 23 de setembro de 1978, n. 3
  5. Papa Francisco, Homilia da Missa com os Cardeais, 14 de março de 2013
  6. Papa Pio XI, Carta Encíclica Mortalium Animos, 6 de janeiro de 1928, n. 16

| Categoria: Espiritualidade

O carpinteiro de Nazaré

Muitos são os “ventos doutrinários” que balançam “o pequeno barco da humanidade”, impedindo-o de enxergar o Deus escondido no pobre carpinteiro

Deus feito carne. Esse é Jesus, o filho do carpinteiro, a quem alguns fariseus lançam olhares de dúvida e de suspeita, como se estivessem a tratar com algum charlatão ou sujeito de índole perigosa (cf. Mt 13, 54-58). De fato, há de repetir-se inúmeras vezes, Cristo é o messias "inesperado", aquele que entra na cidade santa, montado em um pequeno jumento, despido de qualquer pompa ou ornamento cintilante. E, no entanto, é rei. Ele não vem com o chicote, pronto a levantar guerra contra o Estado, também não vem matar a fome, tampouco instaurar uma nova ordem política. Ele vem para nos mostrar a face de Deus. Tudo o mais — a paz, o amor, a libertação — é fruto desta realidade: o Deus que, fazendo-se carne de nossa carne, sangue de nosso sangue, vem habitar no meio de nós, a fim de dar cumprimento ao "o ano da misericórdia do Senhor, um dia de vingança para o nosso Deus" (Lc 4, 19).

Essa misericórdia de Deus — que também é vingança — não consiste na banalização do mal, "não é uma graça barata" [1], por assim dizer, em que tudo encontra a sua justificação sem arrependimento. Consiste, ao contrário, no Deus que vem sofrer na pele as dores da humanidade, mormente as chagas provenientes do pecado, que arrastam o homem para o campo de concentração do demônio: o inferno. Trata-se da paixão de Cristo. A vingança de Deus é, portanto, a sua morte e ressurreição, a vitória sobre o plano diabólico, trazendo à luz a beleza da verdade e o rosto destrutivo do príncipe das trevas. Deus vinga-se com a luz. Ele desmascara a mentira do demônio com Seu próprio sangue, lavando nossos olhos e libertando-nos da cegueira espiritual, tal qual fez com o cego Bartimeu: "Vai, a tua fé te salvou" ( Mc 10, 52).

Salvos pela graça de Deus, tornamo-nos propriedade d'Ele, posto que deixamos de ser escravos do demônio para habitarmos na casa do Senhor. No batismo, somos introduzidos no Corpo de Cristo, de sorte que, a partir deste momento, devemos "viver, trabalhar e morrer para produzir frutos para o homem-Deus, glorificá-Lo em nosso corpo e fazê-Lo reinar em nossa alma" [2]. Existe uma vocação específica e, a um só tempo, universal para todos os cristãos, que culmina, de um modo ou de outro — dependendo de cada chamado — para a santificação dos homens. Diz-nos São Luís Maria Grignon de Montfort:

"Jesus Cristo que receber alguns frutos de nossas mesquinhas pessoas: quer receber nossas boas obras, porque as boas obras lhe pertencem exclusivamente: ' Creati in operibus bonis in Christo Iesu – Criados em Jesus Cristo para as boas ações' (Ef 2, 10)." [3]

Contudo, numa época em que a ameaça do mal parece se enraizar no coração do homem de tal maneira, que se põe em perigo até mesmo a sobrevivência da espécie, torna-se cada vez mais difícil encontrar um coração solícito à graça de Deus e às suas responsabilidades. Recorda-nos São Josemaria Escrivá, as crises mundiais que enfrentamos não são outra coisa, senão crise de santos [4]. Como nos dias em que Cristo pisou neste chão, ainda em nossa época existem os fariseus que O cobrem com olhares de suspeita e receio: "Não é o filho do carpinteiro?" Assim, diz-nos as Sagradas Escrituras, "o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça" (Mt 8, 20), porque o coração do velho Adão se encontra ocupado pelas seduções dos ídolos: a tentação de substituir Jesus por algum conceito próprio, uma ideia original, com a qual me sinto realizado e bem-sucedido.

As causas desta nova espiritualidade sem Deus são muitas: vêm desde um egocentrismo desmedido — em que somos reduzidos a meros objetos de consumo — a um projeto político, que nos torna massa de manobra para fins ideológicos — iguais aos que varreram o planeta nos dois últimos séculos. Jesus não tem onde repousar a cabeça, pois muitos são os "ventos doutrinários" que chacoalham "o pequeno barco do pensamento de muitos cristãos", jogando-o de um extremo ao outro [5].

Por outro lado, Jesus não deixa de estender-nos a sua mão: "Aí onde estão nossos irmãos, os homens, aí onde estão as nossas aspirações, nosso trabalho, nossos amores — aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo" [6]. E é isto que nos torna Seus discípulos: a fé no Deus que é vivo e apresenta-se a nós com vestes de um pobre e humilde carpinteiro de Nazaré.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cardeal Joseph Ratzinger, Homilia na Santa Missa "Pro Eligendo Romano Pontifice", 18 de abril de 2005
  2. São Luís Maria Grignon de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Virgem Santíssima, n. 75
  3. Idem
  4. São Josemaria Escrivá, Caminho, n. 301
  5. Cardeal Joseph Ratzinger, Homilia na Santa Missa "Pro Eligendo Romano Pontifice", 18 de abril de 2005
  6. São Josemaria Escrivá, Homilia pronunciada no campus da Universidade de Navarra, 8 de outubro de 1967

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O ultrassom que mudou a minha vida

Ex-diretora de clínica de abortos conta como abandonou a cultura da morte para se tornar ativista pró-vida

O texto que segue é o primeiro capítulo do livro Unplanned (sem tradução para o português), da ativista pró-vida Abby Johnson. Conta como um simples ultrassom mudou totalmente a sua história e revelou a ela a terrível verdade sobre o aborto. A sua experiência é muito parecida com a do dr. Bernard Nathanson, produtor do filme "O Grito Silencioso". Se ainda não assistiu ao vídeo, clique aqui. Nessa produção, é possível acompanhar, com detalhes de um ultrassom, como é feito um aborto.

Sem mais delongas, eis o testemunho de Abby:

A cabeça de Cheryl apareceu em meu escritório. "Abby, precisam de mais uma pessoa na sala de exames. Você está disponível?"

Eu levantei os olhos de minha papelada, surpresa. "Claro."

Embora estivesse com a Planned Parenthood por oito anos, nunca tinha sido chamada para a sala de exames para ajudar a equipe médica durante um aborto, e não fazia ideia por que precisavam de mim agora. Eram as enfermeiras instrumentistas quem ajudavam nos abortos, não as outras equipes da clínica. Como diretora dessa clínica em Bryan, Texas, eu podia ocupar qualquer posição, se fosse necessário, exceto, é claro, a dos médicos e enfermeiras realizando procedimentos médicos. Em algumas ocasiões, atendi ao pedido de uma paciente de ficar com ela e até segurar a sua mão durante o processo, mas apenas quando era eu a assistente a acompanhá-la durante a entrada e o aconselhamento. Não era o caso de hoje. Então, por que precisavam de mim?

O aborteiro visitante de hoje só esteve aqui, na clínica de Bryan, duas ou três vezes antes. Ele praticava abortos privadamente a cerca de 160 quilômetros de distância. Assim que conversei com ele sobre o trabalho, algumas semanas antes, ele me explicou que, para ficar mais fácil, só fazia abortos por ultrassom – o procedimento abortivo com o menor risco de complicações para a mulher. Porque esse método permite ao médico ver exatamente o que está acontecendo dentro do útero, há menos chances de perfurar a parede do útero, um dos riscos do aborto. Eu respeitava isso da parte dele. Quanto mais pudesse ser feito para manter as mulheres seguras e saudáveis, melhor, eu pensava. No entanto, expliquei a ele que essa prática não era o protocolo comum em nossa clínica. Ele entendeu e disse que seguiria nossos procedimentos usuais, embora concordássemos que ele estaria livre para usar o ultrassom, se a situação assim o exigisse.

Pelo que sabia, nunca tínhamos feito abortos por ultrassom em nossas instalações. Fazíamos abortos apenas em sábados alternados, e a meta estipulada por nossa filial era realizar de 25 a 35 procedimentos naqueles dias. Gostávamos de terminar tudo por volta das 14h. Nosso procedimento costumava durar em torno de 10 minutos, mas um ultrassom atrasava mais 5 minutos – e quando você está agendando 35 abortos para um dia, esses minutos a mais fazem a diferença.

Relutei por um momento do lado de fora da sala de exames. Nunca gostei de entrar nessa sala durante um procedimento de aborto – nunca aceitei bem o que acontecia por trás daquela porta. Mas, como todos nós devíamos estar prontos para colaborar e fazer o serviço, eu abri a porta e entrei.

A paciente já estava sedada – ainda consciente, mas grogue –, com o médico lançando a luz sobre ela. Ela estava em posição, os instrumentos arrumados na bandeja próxima à porta e a enfermeira posicionava a máquina de ultrassom perto da mesa de operações.

"Eu vou realizar um aborto por ultrassom nessa paciente. Preciso que você segure a sonda", explicou o médico.

Assim que coloquei a sonda de ultrassom nas mãos e ajustei as configurações na máquina, argumentei comigo mesma: Eu não quero estar aqui. Eu não quero participar de um aborto. Não, atitude errada – eu precisava me concentrar para essa tarefa. Respirei fundo e tentei prestar atenção à música de rádio que tocava suavemente ao fundo. É uma boa experiência de aprendizado – nunca vi um aborto por ultrassom antes, disse a mim mesma. Talvez isso me ajude na hora de aconselhar as mulheres. Vou aprender em primeira mão sobre esse processo mais seguro. Além disso, vai acabar em apenas alguns minutos.

Eu não podia imaginar como os próximos 10 minutos iriam abalar as fundações dos meus valores e mudar o curso da minha vida.

Eu havia ocasionalmente diagnosticado clientes por ultrassom antes. Era um dos serviços que oferecíamos para confirmar uma gravidez e estimar a sua duração. A familiaridade de preparar um ultrassom aliviou a minha inquietação por estar nessa sala. Apliquei o lubrificante na barriga da paciente e, então, arrumei a sonda até que o seu útero aparecesse na tela e ajustei a posição da sonda para capturar a imagem do feto.

Esperava ver o que já tinha visto em ultrassons passados. Normalmente, dependendo de quanto tempo era a gestação e de como o feto estava virado, eu via primeiro a perna, ou a cabeça, ou alguma imagem parcial do tronco, e precisava mexer um pouco para conseguir a melhor imagem possível. Mas, dessa vez, a imagem estava completa. Eu podia ver a silhueta inteira e perfeita de um bebê.

Parece-se com Grace quando tinha 12 semanas, eu pensei, surpresa, lembrando da primeira vez em que espreitei minha própria filha, três anos antes, protegida no aconchego de meu ventre. A imagem agora diante de mim parecia a mesma, apenas mais clara e mais nítida. Esse detalhe me assustou. Eu podia ver claramente o contorno da sua cabeça, dos seus braços e pernas, até mesmo dos seus pequenos dedinhos. Perfeitamente.

E, então, rapidamente, o sentimento da ardente memória de Grace foi substituído por um surto de aflição. O que eu estou prestes a ver? Meu estômago se remexeu. Eu não quero assistir o que está prestes a acontecer.

Suponho que isso soa estranho vindo de uma profissional que gerenciava uma clínica da Planned Parenthood por dois anos, aconselhando mulheres em crise, agendando abortos, revisando os orçamentos mensais da clínica, contratando e treinando equipes. Mas, estranho ou não, o simples fato é que eu nunca estive interessada em promover abortos. Eu viria para a Planned Parenthood oito anos antes, acreditando que o seu propósito principal era prevenir gestações indesejadas, reduzindo, desse modo, o número de abortos. Essa era certamente a minha meta. E eu acreditava que a Planned Parenthood salvava vidas – a vida de mulheres que, sem os serviços providos por essa organização, poderiam acabar nas mãos de algum açougueiro de fundo de beco. Tudo isso correu pela minha mente enquanto eu mantinha cuidadosamente a sonda em seu lugar.

"Treze semanas", ouvi dizer a enfermeira, depois de tirar as medidas para determinar a idade do feto.

"Ok", disse o médico, olhando para mim, "apenas mantenha a sonda no lugar durante o procedimento, para que eu veja o que estou fazendo."

O ar frio da sala de exames me fazia congelar. Com meus olhos ainda colados na imagem desse bebê perfeitamente formado, eu assistia ao vídeo, quando uma nova imagem surgiu na tela. A cânula – um instrumento em forma de canudo atado ao final do tubo de sucção – foi introduzida no útero e se aproximava do lado do bebê. Parecia como um invasor na tela, um intruso. Errado. Aquilo parecia errado.

Meu coração acelerou. O tempo parou. Não queria olhar, mas também não queria parar de olhar. Eu não podia não assistir. Estava aterrorizada, mas fascinada ao mesmo tempo, como um desses curiosos que desacelera o carro quando passa diante de algum acidente horrível – não querendo ver um corpo destroçado, mas olhando tudo, mesmo assim.

Meu olhar voou para o rosto da paciente. Corriam lágrimas dos cantos dos seus olhos. Eu podia ver que ela estava sofrendo. A enfermeira limpou o seu rosto com um lenço.

"Apenas respire", a enfermeira gentilmente a instruía. "Respire".

"Está quase acabando", eu sussurrei. Queria ficar focada nela, mas meus olhos voltaram rápido para a imagem na tela.

A princípio, o bebê não parecia se importar com a cânula. Ela tocou suavemente o seu lado e, por um segundo, eu me senti aliviada. É claro, eu pensei. O feto não sente dor. Tinha assegurado isso a inúmeras mulheres, como fora ensinada pela Planned Parenthood. O tecido fetal não sente nada ao ser retirado. Controle-se, Abby. Este é um procedimento médico simples e corriqueiro. Minha cabeça estava trabalhando pesado para controlar minhas reações – não podia esboçar nenhuma inquietação que se parecesse minimamente com terror, enquanto observava a tela.

O movimento seguinte foi o arranco súbito de um pezinho. O bebê começou a chutar, como se tentasse fugir daquele intruso ameaçador. Assim que a cânula apertou o seu lado, o bebê começou a lutar para virar e se mexer. Parecia claro para mim que ele podia sentir a cânula – e não gostava nada do que estava sentindo. Então, a voz do médico interrompeu, me assustando.

" Beam me up, Scotty" [*], ele disse tranquilamente à enfermeira. Estava pedindo a ela que iniciasse a sucção – em um aborto, a sucção só começa quando o médico sente que tem a cânula exatamente no lugar certo.

Eu tive um impulso súbito de gritar: "Pare!", de sacudir aquela mulher e dizer: "Olhe o que está acontecendo com o seu bebê! Acorde! Depressa! Impeça-os!"

Mas assim que concebia essas palavras, eu olhava para minha própria mão segurando a sonda. Eu era uma deles fazendo aquilo. Meus olhos voltaram para a tela de novo. A cânula já estava sendo girada pelo médico e, agora, eu podia ver o seu pequenino corpo ser violentamente retorcido. Por um brevíssimo momento, parecia que o bebê era espremido como um pano de prato, torcido e apertado. Então, ele ficou enrugado e começou a desaparecer para dentro da cânula, diante dos meus olhos. A última coisa que vi foi a sua coluna minúscula e perfeitamente formada ser sugada pelo tubo, e então já era. O útero estava vazio. Completamente vazio.

Eu estava imóvel e incrédula. Sem perceber, soltei a sonda. Ela escorregou da barriga da paciente e deslizou para a sua perna. Eu podia sentir meu coração batendo forte – tão forte que meu pescoço latejava. Tentei puxar fundo a respiração, mas não conseguia inspirar nem expirar. Ainda olhei espantada para a tela, mas ela estava preta agora, porque eu tinha perdido a imagem. Não conseguia assimilar nada. Estava muito chocada e abalada para me mexer. Estava consciente de que o médico e a enfermeira casualmente conversavam enquanto trabalhavam, mas aquilo soava distante, como um vago barulho de fundo, difícil de escutar, tendo o pulsar do meu próprio sangue nos ouvidos.

A imagem do corpo pequenino, destroçado e sugado fora, ainda se repetia em minha mente, e, com ela, a imagem do primeiro ultrassom de Grace – como ela tinha quase o mesmo tamanho. E podia ouvir em minha memória uma das muitas discussões que tive com meu marido, Doug, sobre aborto.

"Quando você estava grávida da Grace, não era um feto; era um bebê", ele dizia. Agora, aquilo me atingia como um raio: Ele estava certo! O que estava no ventre dessa mulher há alguns momentos estava vivo. Não era apenas tecido, células. Era um bebê humano. E estava lutando por sua vida! Uma batalha que ele perdeu num piscar de olhos. O que tenho dito às pessoas por anos, aquilo em que tenho acreditado, o que tenho ensinado e defendido, não passa de uma mentira.

De repente, senti os olhos do médico e da enfermeira em minha direção.

"Abby, você está bem?", perguntou o doutor. Os olhos da enfermeira procuravam o meu rosto com preocupação.

"Sim, estou bem." A sonda ainda não estava corretamente posicionada e, agora, estava preocupada, porque o doutor não conseguia mais ver o interior do útero. Minha mão direita segurou a sonda e a minha esquerda repousou cuidadosamente na barriga quente da mulher. Olhei de relance para o seu rosto. Mais lágrimas e uma expressão de dor. Mexi a sonda até recuperar a imagem do seu útero agora vazio. Meus olhos viajaram de volta para minhas mãos. Olhei-as como se sequer fossem as minhas próprias mãos.

Quantos estragos fizeram estas mãos durante os últimos oito anos? Quantas vidas foram ceifadas por causa delas? Não apenas pelas minhas mãos, mas pelas minhas palavras. E se eu soubesse a verdade, e se a contasse para todas aquelas mulheres?

E se...

Eu tivesse acreditado em uma mentira? Eu tinha promovido cegamente a "linha da empresa" por todo esse tempo. Por quê? Por que não havia procurado pela verdade por conta própria? Por que havia fechado meus ouvidos aos argumentos que escutava? Meu Deus, o que eu tinha feito?

Minha mão estava ainda na barriga da paciente e eu sentia que havia simplesmente tirado algo dela com aquela mão. Eu a tinha roubado. E minha mão começou a doer – sentia uma dor física, de verdade. E bem ali, de pé, ao lado da mesa, com minha mão na barriga daquela mulher em lágrimas, este pensamento emergiu do mais profundo do meu ser:

Nunca mais! Nunca mais.

Entrei no piloto automático. Enquanto a enfermeira limpava a mulher, coloquei de lado a máquina de ultrassom, levantei gentilmente a paciente, que estava mole e grogue. Ajudei-a a sentar-se, coloquei-a em uma cadeira de rodas e a levei à sala de recuperação. Arrumei um cobertor em volta dela. Como muitas pacientes que tinha visto antes, ela continuava a chorar, visivelmente condoída, emocional e fisicamente. Fiz o meu melhor para fazê-la sentir-se mais confortável.

Dez minutos – talvez quinze, no máximo – se passaram, desde que Cheryl me pediu para ajudá-la na sala de exames. E naqueles poucos minutos, tudo mudou. Drasticamente. A imagem daquele bebê sendo torcido e se debatendo ainda se repetia em minha mente… E a paciente? Eu me senti muito culpada. Tinha tirado algo precioso daquela mulher e ela sequer sabia disso.

Como as coisas chegaram a isso? Como deixei que acontecesse? Tinha investido meu ser, meu coração e minha carreira na Planned Parenthood porque me preocupava com as mulheres em crise. E agora era eu mesma quem enfrentava uma crise.

Olhando para trás, para aquele 30 de setembro de 2009, percebo como Deus é sábio não nos revelando o nosso futuro. Se soubesse a tempestade que estava para suportar, não teria tido a coragem de mover adiante. Como eu não sabia, não estava procurando ainda por coragem. Estava, todavia, tentando entender como eu fui terminar naquele lugar – vivendo uma mentira, espalhando uma mentira e machucando toda mulher que eu então queria ajudar.

Eu desesperadamente precisava saber o que fazer depois.

Essa é a minha história.

Por Abby Johnson | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

* A expressão " Beam me up, Scotty!" é um bordão nos Estados Unidos, retirado da série de ficção científica Star Trek ["Jornada nas Estrelas"]. Trata-se de um comando dado pelo Capitão Kirk ao engenheiro-chefe da nave estelar, Scotty, quando ele precisa ser transportado de volta à nave estelar Enterprise. No contexto do procedimento do aborto, significa, como Abby mesmo explica, um comando para "transportar" a criança do útero materno pelo tubo de sucção. Uma tentativa patética por parte do aborteiro de "brincar" com a situação.

| Categoria: Espiritualidade

O apostolado exige a vida de oração

O homem não pode abandonar o próximo, como também não pode, a pretexto de uma vida ativa, esquecer-se de Deus

Jesus é nosso modelo de serviço e humildade. Despojando-se de sua condição divina, o Filho de Deus desce até o abismo em que se encontra o ser humano para resgatá-lo do pecado. Nesta atitude, revela-se toda a dinâmica do agir de Deus: Ele vem sofrer conosco, faz-se presente no meio de nós, a fim de que o imitemos no trato com nossos irmãos, sobretudo com os mais necessitados.

Criado à imagem e semelhança de Deus, o homem possui uma natural inclinação a fazer o bem. Não se aquieta diante de uma situação de evidente injustiça. Assim como diz Jesus "Eu vim para servir" (Mc 10, 45) —, quer também servir a um propósito importante, tornar-se útil à sociedade. Esse desejo de serviço, por sua vez, exprime-se melhor na vida dos santos, os maiores imitadores de Cristo. Como não se recordar, por exemplo, do testemunho de Madre Teresa de Calcutá, que passou a vida cuidando dos mais pobres e doentes?, do zelo de São João Bosco pela juventude?, da caridade de São Francisco de Assis e das obras de misericórdia de Irmã Dulce? Todos esses santos foram homens e mulheres inflamados pelo primeiro mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

O mundo exige a presença de cristãos capazes de santificar as realidades mais marginalizadas do cotidiano. O homem não pode, a pretexto de uma vida ascética, esquecer-se da necessidade dos outros. Todavia, uma má interpretação desse último preceito pode conduzir à negação de outro igualmente importante: o homem não pode, a pretexto de uma vida ativa, esquecer-se de Deus. Isso significa que somente almas de vida interior, isto é, pessoas de profundo espírito de oração e contemplação, podem, de fato, santificar as realidades mais marginalizadas do cotidiano. Os santos que mencionamos anteriormente foram heroicos em suas atividades apostólicas não muito pela ousadia, mas porque souberam solidificar seus projetos na rocha da oração. Quando perguntavam a Madre Teresa qual era seu segredo para conseguir cuidar dos leprosos, ela respondia: "Eu rezo".

Há um materialismo nos dias de hoje, que, no plano dos projetos pastorais e caritativos, tende a relativizar a importância da ascese, considerando-a algo secundário ou, muitas vezes, irrelevante. Com efeito, para tornar-se servidor da humanidade, o homem deixa de servir a Deus. Isso revela como também os projetos pastorais podem ser bezerros de ouro. Cristo, antes de iniciar seu ministério público, antes de curar e alimentar os pobres, foi ao deserto jejuar e fazer penitência. Mais ainda: passou 30 anos escondido no silêncio da casa de sua Mãe. E ninguém, em são juízo, diria que Ele deixou de salvar almas durante esse tempo de escondimento e oração. Ao contrário, "Jesus Cristo deu mais glória a Deus Pai pela sua submissão a Maria durante trinta anos do que lhe teria dado se convertesse toda a Terra operando os maiores prodígios." [1] Um verdadeiro serviço aos homens exige um verdadeiro serviço a Deus.

João Paulo I, meditando sobre a aplicação do Concílio Vaticano II, ponderava assim:

"Falar, propor coisas belíssimas, desenhar programas é demasiado fácil; o difícil é fazer, cumprir. Não tendes a impressão de que hoje estamos supermultiplicando reuniões, congressos, comissões para discutir e programar? Não será caso de reduzir um pouco tanta pesquisa, investigação e debate, para dedicar um pouco mais de tempo a rezar, a refletir um pouco mais, em silêncio, e depois arregaçar as mangas e pôr mãos à obra? Não será esta, porventura, a melhor maneira de vivermos o 'pós-Concílio' e de nos situarmos equilibradamente entre tradições e renovação?" [2]

O cristão procura preocupar-se com o homem em sua integridade: espírito, alma e corpo. Não faz parte do cristianismo aquela teologia já várias vezes condenada que, "diante da urgência dos problemas", acentua "unilateralmente a libertação das escravidões de ordem terrena e temporal, dando a impressão de relegar ao segundo plano a libertação do pecado e portanto de não atribuir-lhe praticamente a importância primordial que lhe compete" [3].

A eficácia pastoral depende dessa consciência sobre o pecado e, sobretudo, do auxílio da graça. O homem é apenas um instrumento da providência divina. É a graça de Deus que realiza todos os prodígios manifestados na vida dos santos. É a graça de Deus que liberta a humanidade tanto das mazelas espirituais quanto das materiais. Santa Teresinha não foi menos caridosa, rezando pela conversão de um ladrão condenado à morte, do que São Francisco de Assis, alimentando alguns mendigos. A maior obra de caridade que um padre pode fazer por alguém é ouvir a sua confissão. Esta é a humildade de Cristo: Ele veio para servir ao homem integralmente. Veio para conduzi-lo a Jerusalém Celeste, à morada dos santos e dos anjos, à casa de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. São Luis Maria Grignon de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 18
  2. Andrea Tornielli e Alessandro Zangrado, João Paulo I - O Papa do sorriso. São Paulo: Quadrante, 2000, p. 69
  3. Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação, n. 1