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Quando foi que deixamos de fazer amigos?
Sociedade

Quando foi que
deixamos de fazer amigos?

Quando foi que deixamos de fazer amigos?

Enquanto as pessoas passam a vida na tela dos aparelhos eletrônicos, as instituições culturais desmoronam. Há quem atribua esse fenômeno à expansão da tecnologia, da grande mídia e da má educação. Mas a verdadeira raiz de tudo é a perda dos laços de amizade.

Auguste MeyratTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 6 minutos
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É coisa óbvia hoje em dia que praticamente todas as instituições culturais estão desmoronando. É menor o número de pessoas que participam de organizações locais, clubes, igrejas, e maior o das que passam a maior parte do tempo conectadas. Entre as gerações mais jovens, esse fenômeno é ainda mais acentuado: é muito maior o número dos que buscam seus quinze minutos de fama no YouTube do que o de jovens que procuram fazer a diferença em sua comunidade. Alguns podem atribuir esse crescimento à expansão da tecnologia, da grande mídia e da má educação, mas a verdadeira raiz de tudo isso é a perda dos laços de amizade

De acordo com uma pesquisa recente da OnePoll, o americano médio tem feito menos amigos. Outras pesquisas revelam uma crescente “epidemia de solidão”, que faz com que as pessoas tenham menos contato umas com as outras e quase nenhum relacionamento relevante. Essas descobertas sugerem, em conjunto, que a maioria das pessoas prefere se isolar e que sua comunicação é essencialmente superficial e sem sentido

A típica resposta católica a esse fenômeno tem sido estimular tentativas de aproximação e a promoção do pastoralismo. No contexto paroquial, isso se traduz em mais refeições comunitárias, festas sazonais, estudos bíblicos, conferências para homens e mulheres, retiros para jovens e outros eventos sociais cujo objetivo é fomentar a interação entre os paroquianos e atrair visitantes. No contexto global, isso equivale à flexibilização de padrões, à suavização de definições doutrinais da Igreja e à realização de mais sínodos.

Como até os católicos otimistas podem confirmar, essas iniciativas tendem a ser insuficientes. Embora eventos sociais na paróquia sejam úteis a curto prazo, fazem pouca diferença a longo prazo. O mesmo pequeno grupo de pessoas organiza esses eventos e programas ano após ano, mas, como sempre, a grande maioria das pessoas não se compromete. As tentativas de lideranças eclesiais de “abrir” a Igreja e “caminhar” com as pessoas em sua jornada de fé podem angariar a simpatia da mídia secular e dos católicos liberais, mas, na realidade, têm afastado mais do que atraído os católicos.

Isso acontece porque afabilidade não é o mesmo que amizade, diferença ignorada e negligenciada por organizações que implementam soluções superficiais para problemas profundos.

A amizade é definida pela Sagrada Escritura e pela filosofia clássica como um relacionamento íntimo entre duas pessoas que desejam o bem uma da outra. O vínculo entre verdadeiros amigos transcende as circunstâncias, e os dois lados se envolvem ativa e igualmente. No Evangelho, Cristo chama seus discípulos de “amigos” em lugar de “servos”: são semelhantes (no contexto de seu relacionamento) que trabalham em prol do mesmo ideal e estariam dispostos a abrir mão de tudo pelo bem uns dos outros.

É importante observar que nada nessa amizade é imediatamente útil ou conveniente. Os discípulos não são colegas de classe, de trabalho ou membros da mesma tribo cujos caminhos simplesmente se entrecruzam em determinado momento. Na verdade, uma das condições para a existência dessa amizade é a superação desses rótulos. Se a amizade fosse fundamentada em qualquer coisa inferior a isso, como é o caso de muitas delas, seria antes um exemplo de coleguismo, isto é, algo dependente de uma situação externa. 

Algumas pessoas podem experimentar a verdadeira amizade, mas não é o caso da maioria. Ao contrário, elas fazem e desfazem ao longo da vida muitas supostas amizades. O contexto (escola, trabalho etc.) exigia tais “amizades” e, tão logo passavam por ele, os amigos desapareciam. Compreende-se que a perda de amigos e do círculo social é uma experiência comum para adultos que estão na casa dos vinte e estão saindo da faculdade ou de casa. 

Na verdade, amizades são ativas e requerem tempo e esforço. Entre outras coisas, amigos devem estar dispostos a falar, escutar, planejar, acolher, visitar, aprender, confiar e ser confiáveis. Uma pessoa vaidosa, egoísta, impaciente, temperamental ou desonesta jamais fará amigos. Em contrapartida, uma pessoa humilde, equilibrada, aberta, justa e honesta (para ter uma referência, leiam-se as bem-aventuranças) terá amizades sólidas e gratificantes.

Neste momento, vale a pena sublinhar a diferença entre ser popular e ter amigos. Não são expressões de modo algum sinônimas, mas na cultura de hoje recebem o mesmo tratamento. Uma pessoa popular tem “seguidores”: pessoas que podem gostar dela, mas não a conhecem realmente nem interagem com ela. O que mantém unidos esses seguidores é uma agenda comum ou uma preferência em comum. Como diz a escritora de comédias Keri Smith num artigo sobre a cultura do cancelamento, a pessoa popular “não tem amigos, tem aliados”. Quando alguém se desvia, o vínculo é prontamente dissolvido.

No entanto, uma pessoa com amigos é alguém entre iguais. Um grupo de amigos é necessariamente pequeno, já que conhecer verdadeiramente outra pessoa requer tempo e esforço, que são bens limitados. O que importa é a pessoa, não sua agenda política ou suas preferências. Fé e moralidade comuns podem aprimorar uma amizade, mas ela ainda é possível sem ambas. Com o passar do tempo, um verdadeiro amigo aprende a amar o pecador e a odiar o pecado; um aliado ou seguidor faz o oposto ou nenhuma dessas coisas.

A amizade é para a Igreja um bem indiscutível e algo que tanto o clero como o laicato devem fomentar juntos. Para sacerdotes e bispos, trata-se de pregar sobre o tema e mostrar o vínculo entre as exigências da amizade e as do discipulado cristão. Nenhum católico deveria se sentir confortável em rejeitar uma amizade por preguiça ou medo. Tampouco se deveria terceirizar para organizações seculares o convívio social relevante.

Para os leigos, fazer amizade significa primeiro remover as barreiras que a desestimulam. Para a maioria das pessoas, e eu me incluo nesse grupo, significa deixar de lado os aparelhos eletrônicos, pois eles não apenas tiram nosso tempo como também enfraquecem o desejo de fazer amigos. Muitas vezes a gratificação instantânea do entretenimento digital aniquila a gratificação tardia que vem do cultivo de uma amizade.

Tão logo haja tempo disponível, temos de nos esforçar para socializar. Como argumenta a escritora católica Leah Libresco em seu livro Building the Benedict Option [‘Construindo a Opção Beneditina’], esse passo é fundamental para a construção de uma comunidade católica autêntica. Em espírito de amizade, os católicos deveriam organizar noites de jogos, formar clubes de ensaios (uma alternativa mais fácil do que clubes de livros) e oferecer jantares. As primeiras tentativas serão um pouco forçadas e nem sempre correspondidas, mas de modo geral, com tempo e persistência, os relacionamentos se tornarão melhores.

Além disso, esses planos deveriam começar com as pessoas mais próximas: familiares, colegas de trabalho e escola e membros da paróquia. Embora proximidade e responsabilidades compartilhadas não sejam o único fundamento de uma amizade, podem e deveriam facilitá-la. A caridade telescópica (amor aos estranhos distantes mais do que aos familiares próximos) ficou mais popular depois da globalização, mas para os cristãos é tão hipócrita e prejudicial hoje quanto na época em que Charles Dickens escreveu sobre ela. 

Quando amizades sólidas são constituídas, sua bondade inevitavelmente se irradia para a comunidade. Muitos evangelizadores progressistas não compreendem que as pessoas que estão fora da Igreja são atraídas por amizades verdadeiras, não por uma lábia de vendedor ou por constantes afirmações feitas do alto do púlpito. As pessoas se sentem atraídas por famílias que comem juntas, homens que bebem juntos, mães que organizam dias para seus filhos brincarem juntos e crianças que brincam juntas. Por isso, em diversas ocasiões, Santo Agostinho exalta as bênçãos da amizade, reconhecendo-a como caminho para a santidade e fonte de rejuvenescimento para uma Igreja moribunda.

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Carlo Acutis e o mistério da iniquidade
Sociedade

Carlo Acutis e o mistério da iniquidade

Carlo Acutis e o mistério da iniquidade

Há alguns dias, o Vaticano confirmou como verdadeiro um milagre atribuído à intercessão do jovem Carlo Acutis. Mas e nós, será que ainda acreditamos em milagres e na onipotência divina? Ou já sucumbimos ao espírito iníquo dos tempos modernos?

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 6 minutos
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“As coisas misteriosas”, dizia René Chateaubriand, “são o que há de mais belo, grandioso, e doce na existência” [1]. Para provar seu pensamento, o autor de O Gênio do Cristianismo demonstrava como é grata a vida das crianças, que, tudo ignorando, são capazes de espantar-se com a mínima flor no jardim de casa, enquanto os adultos — que tudo sabem — lamentam a própria velhice e só voltam a admirar-se quando “principiam os mistérios da morte”.

Felizmente, as almas religiosas têm a graça da “infância espiritual” que as mantém abertas ao mistério. Diferentemente dos incrédulos, elas não exigem explicações “meticulosas” e “científicas” para tudo e qualquer coisa, mas se dão por satisfeitas quando a razão humana encontra o próprio limite. Porque, de fato, existe algo para além da sabedoria dos homens, e é esse algo que torna a nossa vida mais interessante e digna de ser vivida.

Vejamos um exemplo. No último dia 14 de novembro, a Comissão Médica do Vaticano, formada por profissionais altamente especializados, reconheceu o presumido milagre atribuído à intercessão do jovem italiano Carlo Acutis. Segundo o parecer da comissão, não há explicações médicas para a cura do menino Matheus Viana, que sofria de uma grave doença neonatal. Com dois anos de idade, ele havia sido diagnosticado com pâncreas anular, e, por conta disso, precisaria passar por uma cirurgia. A doença o fazia vomitar frequentemente, de modo que o seu organismo foi enfraquecendo e, com efeito, a cirurgia seria um procedimento demasiado arriscado. Sendo assim, a família resolveu recorrer à intercessão de Carlo Acutis.

Em 12 de outubro de 2010, Matheus e sua família foram à Missa de Nossa Senhora Aparecida, na Paróquia São Sebastião, em Campo Grande (MS), onde residem. Durante a celebração, o pároco, Pe. Marcelo Tenório, abençoou a todos com a relíquia de Carlo Acutis, e Matheus pediu a graça de não mais vomitar. Certo de que já estava curado, o menino voltou para casa pedindo aos avós um jantar com bife e batatas fritas. E a cura realmente aconteceu, como confirmaram os laudos médicos, pedidos posteriormente pela família. Hoje Matheus está saudável e é um fervoroso devoto de Carlo Acutis.

A página oficial do apostolado brasileiro de Carlo Acutis ainda relata outros milagres. Para uma alma verdadeiramente católica, esses prodígios são, como recordávamos no início deste artigo, belos, grandiosos e doces, ou seja, são motivo de ação de graças à Providência divina, que se dispôs a agir contra o curso natural da natureza para misteriosamente revelar a sua misericórdia e soberania. Esgotadas as possibilidades de explicações pelas causas segundas, o católico não hesita em prestar o obséquio da fé, diante dos argumentos externos dAquele que é a causa primeira de todo o ser.

Sem dúvida, um católico não deve ser ingênuo ao ponto de sair acreditando em qualquer fato aparentemente extraordinário, e é por isso que, desde a Idade Média, a Igreja tem recorrido a médicos especialistas para certificar a existência ou não de um milagre. Se a fé pede a razão, nada mais prudente que submeter os efeitos às causas. Mas a partir do momento em que a razão se encontra diante do mistério, então é ela que deve pedir a fé para crer nas palavras inequívocas de Nosso Senhor: “Aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai” (Jo 14, 12).

A Igreja precisa, pois, anunciar a vitalidade do Corpo de Cristo, mostrar o seu poder e celebrar alegremente o mistério de um Deus que se fez homem para acostumar o homem a ser de Deus. Porque, no fim das contas, se esse Deus se deu ao trabalho de realizar tais milagres, o mínimo que podemos fazer, dizia Carlo Acutis, é divulgá-los para que outros, vendo esses mesmos sinais, também creiam e encontrem a vida eterna.

A teologia modernista, por outro lado, não acredita em milagres nem se submete ao mistério. Orgulhosa de seu método “científico”, ela declara soberbamente: “Não se pode utilizar luz elétrica e aparelho de rádio, em casos de doença empregar modernos meios médicos e clínicos e, simultaneamente, acreditar no mundo dos espíritos e dos milagres do Novo Testamento” [2]. Para os teólogos dessa estirpe, a Igreja precisaria abandonar a hermenêutica “mitológica” e “mágica” dos primeiros cristãos para assumir, em seu lugar, uma visão histórico-crítica. E assim eles negam a multiplicação dos pães, negam a cura dos cegos e leprosos, negam a transformação da água em vinho e, como era de esperar, negam até a Ressurreição.

Ora, não podemos deixar de constatar como essa mentalidade incrédula tem privado os católicos da beleza dos mistérios divinos, tornando tudo feio, medíocre e amargo — sobretudo a liturgia, que passa a ser apenas um momento de pantomimas e esquisitices arbitrárias. Chesterton estava certo quando disse que o louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão. A teologia moderna produziu frutos loucos porque, julgando-se muito racional, quis sepultar o mistério e qualquer forma de ação sobrenatural na vida dos homens. Ela jogou fora a “infância espiritual” que crê nos milagres — crê, por exemplo, na misteriosa presença de Cristo na Eucaristia —, para amargar com carolices comunitárias e celebrações autorreferenciais que, no fundo, não dizem nada com nada.

É por isso que ninguém deve se espantar quando uma pesquisa revela que a maioria dos católicos americanos já não crê na transubstanciação da Eucaristia. Uma coisa como essa é apenas consequência lógica da forma como temos ensinado e vivido o cristianismo. Uma teologia menos misteriosa, porque supostamente mais crítica, só pode dar nisso. E assim os católicos vão, pouco a pouco, debandando para as seitas e outros cultos onde acreditam que encontrarão, ao menos, algum resquício de mistério, de milagre, de profecia, de um Deus capaz de intervir na história e realizar a sua soberana vontade.

Uma teologia que não acredita em milagres nem celebra a profundidade dos mistérios cristãos não passa de uma teologia velha, que perdeu de vista o próprio Senhor. A ela bem cabem as palavras do profeta Jeremias: “Abandonou-me, a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água” (2, 13). Foi para preservar a Igreja dessa apostasia, desse horrível mistério da iniquidade, que São Pio X forçou muitos teólogos a reconhecerem e admitirem “como sinais certíssimos da origem divina da religião cristã os argumentos externos à Revelação, isto é, os feitos divinos, e em primeiro lugar os milagres e profecias” [3]. Com isso, ele apenas repetia a mesma reprimenda de Cristo aos fariseus que, sabendo interpretar os aspectos do céu e da terra, recusavam-se, todavia, a acreditar nos sinais do tempo presente (cf. Lc 12, 56).

Ainda no limiar deste terceiro milênio, os homens continuam a ter sede de respostas para os mistérios mais profundos de sua existência; eles continuam a desejar um poder transcendente que seja capaz de sanar suas dores e angústias; eles continuam, enfim, a maravilhar-se com as belezas inexplicáveis, com o impossível e o extraordinário. Fujamos de uma teologia racionalista, que só consegue produzir mais crise nos corações. Tenhamos nós, católicos deste século, a coragem de devolver aos homens as misteriosas verdades do cristianismo, que devem tornar a existência mais bela, grande e doce.

Referências

  1. René Chateaubriand, O gênio do cristianismo, Trad. de Camilo Castelo Branco. São Paulo: Editora W. M. Jackson, p. 15.
  2. Rudolf Bultmann, Crer e Compreender. São Leopoldo: Sinodal, 1987, p. 16.
  3. “Juramento antimodernista” de São Pio X, em: Motu proprio Sacrorum Antistitum (1.º de setembro de 1910).

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A Presença Real e a traição de Judas
Liturgia

A Presença Real e a traição de Judas

A Presença Real e a traição de Judas

A liturgia foi feita para nos alimentar de modo abrangente e integral e, na medida em que impede ou compromete esse propósito, trai a si mesma e se torna um Judas para a Presença Real de Jesus na Eucaristia.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Em meu último artigo, expliquei que temos o direito e o dever de almejar um digno culto a Deus e que buscá-lo em outro local que não seja nossa própria paróquia não significa “pular de paróquia em paróquia”, não é “nomadismo paroquial”, mas sim resultado de um legítimo desejo de dar ao Senhor a glória ao seu nome e obter para nossas almas o alimento de que precisam

Mas o contra-argumento sempre é apresentado com rapidez e veemência: “Jesus está verdadeiramente presente na Eucaristia, por pior que seja a liturgia, desde que as palavras da consagração sejam pronunciadas. Está em busca de algo melhor que Jesus? Não encontrará. Isso é tudo o que importa.”

É absolutamente verdadeiro que o Senhor estará presente sob as espécies do pão e do vinho sempre que as palavras da consagração forem pronunciadas por um sacerdote validamente ordenado que tenha a intenção de realizar o sacramento. Porém, essa objeção ignora algo muito importante. Nosso Senhor, por meio de sua Igreja, deu-nos a liturgia para nosso proveito, para que cresçamos em santidade, não para seu próprio proveito (Ele já é infinitamente bom, e nada que façamos pode aprimorá-lo), e Ele se torna presente em nosso meio a fim de realizar essa transformação em nós in statu viae, na condição de viandantes, pois nos cidadãos da Jerusalém celeste ela já aconteceu.

A forma externa da liturgia em todos os seus detalhes deve preparar a alma dos fiéis para a ação do Espírito Santo e deixar sempre transparecer essa obra de salvação. Se não conseguimos passar pelos compassos de abertura tocados num violão ou pelas saudações estilo Hallmark [1] sem demonstrar desânimo ou ter um surto de raiva, como seria possível prepararmo-nos bem para receber o Senhor quando Ele vier? 

É um ascetismo completamente falso imaginar que deveríamos tomar coragem e suportar tudoinclusive a distorção ou a degradação do culto devido a Deus! A Igreja tem o dever de levar as almas à perfeição, e não de impor obstáculos a ela; seus sacerdotes têm grandes poderes, mas causar dano em seu próprio rebanho não é um deles. Uma paróquia não serve a uma nobre vocação penitencial ao punir seus membros com uma combinação de mau gosto e rubricas ignoradas. Por mais que Deus esteja presente em todos os lugares, inclusive em covis de leões babilônios, não somos obrigados a nos lançar neles a cada domingo

(A alusão talvez não tenha ficado clara para alguns porque o novo lecionário excluiu a história de Daniel na cova dos leões [cf. Dn 14, 27-42]. Ela é lida todos os anos no usus antiquor na Terça-Feira da Semana Santa. Por mais de um milênio, foi lida como uma parábola da condenação do Cristo inocente, seu abandono aos poderes da morte e sua ressurreição e triunfo sobre seus inimigos.)

Discursando em 1988 para os bispos do Chile, o Cardeal Joseph Ratzinger proferiu estas palavras, que não perderam nada de sua relevância:

Devemos recuperar a dimensão do sagrado na liturgia. A liturgia não é uma festa, não é uma reunião que tem por objetivo nos proporcionar um momento agradável. Não tem importância, nem de longe, que o pároco consiga levar a cabo ideias sugestivas ou elucubrações imaginativas. A liturgia é o que faz o Deus três vezes santo presente entre nós, é a sarça ardente, e é a Aliança de Deus com o homem em Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou. A grandeza da liturgia não se fundamenta no fato de oferecer um entretenimento interessante, mas no fato de tornar tangível o Totalmente Outro, a quem não poderíamos invocar. Ele vem porque quer. Dito de outro modo, o essencial na liturgia é o mistério, que se realiza no rito comum da Igreja; tudo o mais a rebaixa. Os homens fazem experimentos animados nela e descobrem que foram enganados quando o mistério é transformado em diversão, quando o ator principal na liturgia já não é mais o Deus vivo, mas o sacerdote ou o diretor de liturgia.

Portanto, não temos de nos dissuadir de um saudável propósito de emenda — para dizer de modo mais claro: sair de nossa paróquia precária a fim de procurar uma melhor — por causa do argumento segundo o qual “a Eucaristia é, no final das contas, a Eucaristia”. Há uma boa razão para jamais ter existido na história da Igreja uma liturgia com cinco minutos de duração que tivesse apenas a consagração e o rito da comunhão. Se fôssemos intelectos incorpóreos capazes de fixar nossa atenção de modo imediato e impassível apenas numa única coisa, então nada além da Presença Real faria qualquer diferença. Assim, poderíamos instituir essa liturgia de cinco minutos — ou, no que diz respeito ao assunto, uma liturgia sintética, com música, psicologia pop e 55 minutos de duração —, porque de qualquer modo não faria diferença. Ainda assim “receberíamos Jesus”. 

Mas o Senhor que instituiu o Santo Sacrifício da Missa — o Senhor que conhece tudo o que está no coração do homem (cf. Jo 2, 24-25), suas necessidades espirituais, anseios e limitações — quis dar um alimento para o homem inteiro, em todos os níveis de seu ser: sentidos e intelecto, mente e coração. Ele diz: “Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer” (Lc 22, 15). Ele nos insuflou o mesmo santo desejo: também nós desejamos ardentemente compartilhar com Ele os mistérios sagrados. A liturgia foi feita para nos alimentar de modo abrangente e integral e, na medida em que impede ou compromete esse propósito, trai a si mesma e se torna um Judas para a Presença Real de Cristo.

Notas

  1. Hallmark é uma empresa americana de cartões comemorativos e enfeites.

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Não se deve desesperar da salvação de ninguém!
Espiritualidade

Não se deve desesperar
da salvação de ninguém!

Não se deve desesperar da salvação de ninguém!

Em certas mortes, nas quais o olhar humano não vê senão um golpe fulminante da justiça divina, existem mistérios de misericórdia. Deus às vezes se revela, no último instante de vida, àquelas almas cuja maior desgraça foi ignorá-lo.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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O Padre Ravignan, um santo e ilustre pregador jesuíta, nutria grande esperança pela salvação dos pecadores arrebatados por uma morte súbita, quando, em circunstância diversa, não teriam ódio no coração pelas coisas de Deus. Ele pregava com frequência sobre esse momento derradeiro, e considerava que muitos pecadores se convertiam nos últimos instantes de vida e reconciliavam-se com Deus, sem poder expressar isso com um sinal exterior. 

Em certas mortes, nas quais o olhar humano não vê nada além de um golpe fulminante da Justiça divina, existem mistérios da Misericórdia. Como último lampejo de luz, Deus às vezes se revela àquelas almas cuja maior desgraça foi ignorá-lo; e o último suspiro, compreendido por Aquele que penetra os corações, pode ser um gemido que clama por perdão, isto é, um ato de contrição perfeita

O general Exelmans, um parente desse saudoso sacerdote, faleceu de forma repentina em um acidente e, infelizmente, não havia sido fiel na vivência da fé. Ele prometeu que um dia faria sua confissão, mas não tivera a oportunidade de realizá-la. Quando soube da morte de Exelmans, Padre Ravignan — que, por um longo tempo, orou e pediu orações por ele — ficou profundamente consternado. No mesmo dia, uma pessoa habituada a receber mensagens sobrenaturais pensou ter ouvido uma voz interior que lhe disse: “Quem então conhece a extensão da misericórdia de Deus? Quem sabe quão profundo é o oceano, ou quanta água está contida nele? Muito será perdoado àqueles que pecaram por ignorância.”

O biógrafo de quem tomamos emprestado esse relato, Padre de Ponlevoy, continua dizendo: “Nós, cristãos, colocados sob a lei da esperança não menos do que sob a lei da fé e da caridade, devemos elevar-nos continuamente das profundezas de nossos sofrimentos à meditação sobre a bondade infinita de Deus. Neste mundo, não há nenhum limite para a graça de Deus; enquanto permanece uma centelha de vida, não há nada que não possa agir sobre a alma. Portanto, devemos sempre ter esperança e pedir a Deus com humilde persistência. Não sabemos até que ponto podemos ser ouvidos. Grandes santos e Doutores empenharam-se em exaltar a eficácia poderosa da oração pelos entes queridos que partiram, por mais infeliz que tenha sido seu fim. Um dia conheceremos as maravilhas indizíveis da divina Misericórdia. Nunca devemos deixar de suplicar com imensa confiança.”

Outro relato acerca desse tema foi publicado no Petit Messager du Coeur de Marie [1], em novembro de 1880. Um religioso, pregando uma missão para damas de Nancy, recordou-as em uma conferência de que nunca se deve desesperar da salvação de uma alma, e de que às vezes ações menos importantes aos olhos humanos são recompensadas por Deus na hora da morte. Quando ele estava prestes a deixar a igreja, uma senhora vestida de luto aproximou-se dele e disse:

Padre, você acabou de nos recomendar confiança e esperança; um fato ocorrido comigo justifica perfeitamente as suas palavras. Tive um marido que era muito gentil e carinhoso e que, apesar de ter levado uma vida irrepreensível, negligenciou completamente a vivência da fé. Minhas orações e exortações persistiam, mesmo sem surtir efeito. Durante o mês de maio que precedeu sua morte, eu havia montado no meu quarto — como estava acostumada a fazer — um pequeno altar para a Santíssima Virgem, e o decorei com flores, renovadas de tempos em tempos. Meu marido passou o domingo no campo e me deu algumas flores, que ele mesmo havia colhido, e com elas eu adornava o oratório. Ele percebeu isso? Ele fez isso para me dar prazer, ou foi através de um sentimento de piedade pela Virgem? Eu não sei, mas ele nunca deixou de me trazer as flores.

No início do mês seguinte, ele morreu de forma súbita, sem conseguir receber os sacramentos. Eu estava inconsolável, principalmente porque vi desaparecerem todas as minhas esperanças do seu retorno a Deus. Devido a esse sofrimento, minha saúde ficou muito abalada e meus familiares pediram que eu fizesse um passeio ao sul da França. Como tive de passar por Lyon, desejei ver o Cura d’Ars. Por isso, escrevi-lhe solicitando atendimento e pedindo orações pelo meu marido, que havia morrido de forma súbita. Não lhe dei mais detalhes.
Cheguei a Ars, mal havia entrado na sala do venerável Cura e, para meu grande espanto, ele se dirigiu a mim com estas palavras: “Senhora, estás desconsolada; mas esqueceste aqueles buquês de flores que te foram trazidos todos os domingos do mês de maio?” É impossível expressar meu espanto ao ouvir o padre Vianney recordando-me de uma circunstância que eu não havia mencionado a ninguém, e que ele só poderia ter conhecido por revelação. Ele continuou: “Deus teve misericórdia daquele que honrou sua Santa Mãe. No momento de sua morte, teu marido se arrependeu; sua alma está no purgatório; nossas orações e boas obras alcançarão sua libertação”.

Lemos também na vida de uma religiosa consagrada, Irmã Catarina de Santo Agostinho, que no lugar onde ela morava havia uma mulher chamada Maria, que em sua juventude se entregara a uma vida muito desordenada e, mesmo com mais idade, não se converteu, senão que, pelo contrário, ficou ainda mais obstinada no vício, a ponto de os moradores, que não toleravam mais seus escândalos, a expulsarem da cidade. Ela não encontrou outro asilo além de uma gruta na floresta, onde, depois de alguns meses, morreu sem a assistência dos sacramentos. Seu corpo foi enterrado em um campo, como se fosse algo contagioso.

Irmã Catarina, que estava acostumada a recomendar a Deus as almas de todos aqueles de cuja morte tomava conhecimento, não pensou em orar pela alma daquela mulher, julgando, como todos os outros, que ela já estava condenada.

Quatro meses depois, a serva de Deus ouviu uma voz dizendo: “Infeliz de mim, Irmã Catarina! Tu recomendas a Deus as almas de todos; eu sou a única de quem não tiveste piedade”. “Quem és tu?” Respondeu a irmã. “Eu sou a pobre Maria, que morreu na gruta”. “Maria, estás salva?”, ao que ela respondeu: “Sim, estou, pela Misericórdia divina. No momento da morte, aterrorizada com a lembrança dos meus pecados, e ao ver-me abandonada por todos, invoquei a Santíssima Virgem. Em sua terna bondade, ela obteve para mim a graça da contrição perfeita, com o desejo de confessar-me, se estivesse ao meu alcance fazê-lo. Assim, recuperei a graça de Deus e escapei do Inferno. Mas fui obrigada a ir ao Purgatório, onde sofri muito. Meu tempo será encurtado e em breve serei libertada, se algumas Missas forem oferecidas por mim. Oh! querida irmã, ofereça-as por mim e sempre me lembrarei de ti diante de Jesus e Maria”.

Prontamente, a irmã Catarina buscou atender ao pedido e, depois de alguns dias, a referida alma voltou a revelar-se, agora brilhante como uma estrela, e agradeceu à religiosa por sua caridade.

Notas

  1. Periódico francês publicado mensalmente entre os anos de 1876 a 1949.

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