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Onde foram parar as novas religiões?
Doutrina

Onde foram parar as novas religiões?

Onde foram parar as novas religiões?

O que falta às novas religiões é uma teologia. Um dogma. É claro que seus integrantes acham isso bom, pois foi a ausência dele que os levou à nova religião. Porém, é essa atraente ausência de doutrina que garantirá a morte do culto a que aderiram.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Já faz algum tempo desde que alguém fundou uma nova religião. Não é algo tão fácil quanto parece. É necessário conseguir um número aceitável de pessoas que creem que o fundador teve algum insight especial a respeito das coisas fundamentais. Recentemente, passamos a chamar essas agremiações de “cultos” (embora o termo não seja apropriado, como costuma acontecer com o uso moderno da linguagem). Elas giram em torno de um indivíduo carismático (novamente, palavra inadequada) que manda em tudo. Em geral, não duram mais que uma geração. Quando o líder não sobrevive, seus seguidores também não sobrevivem.

De modo geral, uma nova religião não oferece nada de novo. Normalmente, ocorre uma destas duas coisas: ou uma nova seita protestante (“protestante” e “seita” são palavras precisas aqui; referem-se a algo que reagiu contra o cristianismo tradicional, isto é, a Igreja Católica, e separou-se de seu corpo principal, tornando-se uma “seção”), ou uma variante ocidental de uma religião oriental: vagamente panteísta, vagamente budista, vagamente interiorizada, vagamente vaga. Ela deriva de generalizações sobre o transcendente ou sobre o outro e, naturalmente, sobre a irmandade de toda a humanidade; ou antes, a unidade de todos os povos ou de todas as coisas.

O que falta às novas religiões é uma teologia. Um dogma. É claro que seus integrantes acham isso bom, pois foi a ausência dele que os levou à nova religião. Afastaram-se da antiga religião por causa da aversão a alguns de seus dogmas. Porém, é essa atraente ausência de doutrina que garantirá a morte da nova religião. As religiões que crescem têm dogmas sólidos; as que definham têm dogmas fracos. Nas palavras de G. K. Chesterton: “Quando os homens adoram o Todo, produzem o Nada.”       

Uma religião não pode se basear num estado de espírito. Em última instância, as pessoas desejam o que é definitivo. Querem a regra e o dogma. Querem definições e respostas aos seus questionamentos. Preferem uma resposta ruim a resposta nenhuma. As novas religiões podem, como um remédio, provocar algum alívio, mas não podem curar.

Prestemos atenção a esta maravilhosa observação de Chesterton, feita há quase cem anos:

As Novas Religiões alegam ser novas, mas nunca ousam ir além das máximas mais gerais e antigas sobre a unidade de Deus e a irmandade da espécie humana. Alegam ser ousadas e inovadoras, mas na verdade são muito tímidas para confiarem em qualquer coisa que vá além dos lugares-comuns de nossas avós. Alegam ser céticas e inquiridoras, mas na realidade jamais se atrevem a fazer perguntas controversas, qualquer um dos questionamentos sobre os quais os homens discordaram e podem discordar novamente: O suicídio pode ser nobre? O sexo pode ser anormal? A vontade é livre? A alma pode se perder? Adotam em toda parte a posição de menor resistência…

Porém, o caminho da menor resistência equivale ao que Jesus descreveu como a estrada larga que leva ao inferno. Dogmas têm de lidar com o que Chesterton chama de “assuntos discutíveis”: sexo e suicídio, livre-arbítrio e justiça. A religião deve estabelecer definições e decisões sobre essas coisas. Se não as define com clareza, apagam-se as linhas que as separam de todo o resto.

É claro que os “assuntos discutíveis” serão discutidos. Porém, evitá-los significa fugir de Deus. Qual é o legado das novas religiões? O que resultou da tentativa de eliminar as respostas às perguntas controversas? Enfrentamos hoje a normalização do suicídio, a aceitação cordial da perversão sexual, a renúncia à responsabilidade por causa das teorias que ignoram o livre-arbítrio e o desprezo pelo eterno, particularmente o destino eterno da alma. As coisas que as novas religiões não abordam são exatamente as mesmas das quais não podemos falar, e dizem respeito à responsabilidade moral em relação às questões essenciais da vida. Certamente, não falamos sobre Céu e Inferno.

O que substituiu as novas religiões do século passado, que floresceram e murcharam rapidamente? As pessoas retornaram à fé tradicional? Algumas. Quando busca a verdade, a alma sincera a encontra. Mas em geral temos visto um movimento de completo distanciamento da religião. Abandonamos o “não importa qual é sua religião” para aderir ao “não importa se você tem uma religião”. Como as falsas religiões deram provas de ser falsas, as pessoas renunciaram à religião, em vez de procurar a verdadeira. Elas perceberam que não era genuína uma religião que aprovasse mais ou menos os seus pecados, mas viram também que era mais fácil abrir mão da religião do que renunciar aos próprios pecados.

Uma retomada genuína da religião começa com um chamado ao arrependimento. Isso explica a popularidade de João Batista. As pessoas se aglomeravam para escutar um homem notoriamente santo lhes dizer que deviam renunciar ao pecado. Ele preparou o caminho para Cristo, que lhes deu a redenção da qual se reconheciam necessitados. Isso explica por que começamos o caminho para a Páscoa e a renovação de promessa com uma longa Quaresma, tempo de penitência. A Igreja Católica é clara ao falar do pecado, das questões controversas e dos “assuntos discutíveis”. Foi por isso que ela sobreviveu a todas as novas religiões.

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Como ter certeza da própria salvação?
Espiritualidade

Como ter certeza da própria salvação?

Como ter certeza da própria salvação?

Como poderá o homem conhecer desde agora o lugar que há de ter no dia do Juízo, e se há de ficar à mão direita, ou à esquerda? Também disto quis a Providência divina que tivéssemos um sinal muito claro e muito certo...

Pe. António Vieira20 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Cristo, Senhor nosso, deu hoje sinais para se conhecer ao longe o dia do Juízo; bem será que saibamos nós também algum sinal, por onde possamos conhecer o lugar que nele havemos de ter, e que seja hoje, pois o nosso juízo está mais perto. Para esta demonstração temos um famoso texto da mesma Sabedoria divina, tantas vezes alegada neste ponto, porque em matéria tão grave e tão sólida, não convém nem se requer menor autoridade. No capítulo onze do Eclesiastes, diz assim: “Si ceciderit lignum ad Austrum, aut Aquilonem, in quocumque loco ceciderit, ibi erit — Se a árvore cair para a parte austral, ou para a parte aquilonar, no lugar onde cair, aí ficará para sempre” (Ecl 11, 3).

Esta árvore é cada um de nós: cai ou há de cair na hora da morte, e para onde cair naquele momento, aí há de ficar para sempre, porque daquele momento depende a eternidade. Sendo porém quatro as partes universais do mundo para onde pode cair uma árvore, o norte, que é o aquilão, o sul, que é o austro, o leste, que é o levante, o oeste, que é o poente, faz menção o texto somente da parte austral, que é a direita do mundo, e da parte aquilonar, que é a esquerda, porque o homem só pode cair para uma destas duas partes, ou para a mão direita, com os que se salvam, ou para a esquerda, com os que se condenam

Mas como poderá esse homem adivinhar este grande segredo? Como poderá conhecer desde agora o lugar que há de ter no dia do Juízo, e se há de ficar à mão direita, ou à esquerda? Também disto quis a Providência divina que tivéssemos um sinal muito claro e muito certo, e esse é o mistério com que o Espírito Santo o reduziu todo à semelhança da árvore quando cai: In quocumque loco ceciderit lignum. Uma árvore, antes de se cortar, não se conhece muito fácil e muito naturalmente para que parte há de cair? Pois assim o pode conhecer cada um de si dentro em si mesmo. 

E se não entendeis ainda, e me perguntais o modo, ouvi-o da boca de São Bernardo, o qual com grande propriedade e clareza o ensina por estas palavras: “Quo vero casura sit arbor, si scire volueris, ramos ejus attende: unde maior est copia ramorum, et ponderosior, finde casuram ne dubitesSe quereis saber para onde há de cair a árvore quando for cortada, olhai para ela, e vede para onde inclina com o peso dos ramos”. Se inclina para a parte direita, para a parte direita há de cair, e pelo contrário, se o peso a tem dobrado para a parte esquerda, da mesma maneira há de cair para a parte esquerda, e uma e outra coisa é sem dúvida: Ne dubites.

Olhe agora cada um, e olhe bem para a sua alma, para a sua vida e para as suas obras, que estas são os ramos da árvore. Se vir que são de fé, de piedade, de temor de Deus, de obediência a seus preceitos, de religião, de oração, de mortificação das próprias paixões, de verdade, de justiça, de caridade, enfim, de pureza de consciência, de freqüência dos sacramentos, e das outras virtudes e obrigações do cristão, entenda que, perseverando, há de cair sem dúvida para a mão direita. Mas se as obras pelo contrário são de liberdade e soltura de vida, de ambição, de cobiça, de soberba, de inveja, de ódio, de vingança, de sensualidade, de esquecimento de Deus e da salvação, sem uma muito resoluta e verdadeira emenda e perseverança nela, entenda da mesma maneira que a árvore há de cair para a mão esquerda, e que tem certa a condenação. 

Dir-me-eis, ou dir-vos-á o diabo, que entre a árvore e o homem há uma grande diferença, porque a árvore, depois que está robusta e crescida, não se pode dobrar, mas o homem, que é árvore com alvedrio e uso de razão, ainda que agora esteja tão inclinada, com o peso dos vícios, para a mão esquerda, em qualquer hora que se quiser voltar para a direita, com o arrependimento dos pecados e emenda deles, o pode fazer. Assim é, ou assim poderá ser alguma vez, e assim o insinuou o mesmo S. Bernardo, acrescentando às palavras referidas: “Si tamen fuerit tunc excisa — Se contudo for então cortada”. Mas no dia do Juízo veremos que todos os católicos que estão no inferno, os levou lá esta mesma confiança ou esta mesma tentação [...].

O que resta é que cada um olhe atentamente e com a devida consideração para a árvore da sua vida, e que examine e veja sem engano do amor próprio, se os ramos das suas obras pesam para a mão direita ou para a esquerda: Ad Austrum, aut ad Aquilonem. E para que esta vista seja tão clara e certa, como quem vê de muito perto, e não de longe, só lembro por fim a todos, o que a todos pregava S. João Batista: Jam securis ad radicem arboris posita est (Lc 3, 9). Para qualquer parte que a árvore penda, e qualquer que ela seja, “já o machado está posto às raízes”. Cada dia e cada hora é um golpe que a morte está dando à vida. E reparem os que a fazem tão delicada, que para derrubar as árvores grossas são necessários muitos golpes; para as delgadas basta um.

Cristo, Senhor e Redentor nosso, que tanto deseja e tanto fez e padeceu por nossa salvação, nos desenganou hoje, que o nosso juízo não há de passar dos cem anos: “Non praeteribit generatio haec, donec omnia fiant — Não há de passar a presente geração, sem que tudo o que vos tenha dito se cumpra”. Mas advirtamos que não nos promete que havemos de chegar a esses cem anos, nem aos noventa, nem aos oitenta, nem a dez, nem a um, nem a meio, antes nos avisa que o dia pode ser este dia, e a hora esta hora. O mesmo Senhor, por sua misericórdia, no-la conceda a todos tão feliz, que todos naquele dia nos achemos à sua mão direita, e nos leve consigo a gozar daquela glória que se não alcança senão por boas obras, ajudadas da sua graça. Amém.

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As vantagens de ser católico
Espiritualidade

As vantagens de ser católico

As vantagens de ser católico

De modo geral, todos tendemos a aceitar “o amor que imaginamos merecer”. Mas, na manjedoura de Belém, Deus se fez um de nós para que recebêssemos o seu amor, e não nos contentássemos com as mixarias deste mundo.

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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Hoje está na moda falar de empatia. Num mundo tão tecnicista e cheio de distrações, as pessoas têm sentido falta de relações humanas verdadeiras, de olho no olho, de aperto de mãos, abraços, enfim, coisas que só um ser humano concreto pode oferecer. Chegamos a um ponto que não dá mais para esconder o profundo vazio e distanciamento que nossa sociedade está vivendo. Nas ruas, encontramos moças e rapazes oferecendo “abraços grátis”. Ora, empatia tem a ver com essa necessidade de conexão, com a atitude profundamente humana de colocar-se no lugar do outro e compartilhar dos mesmos sentimentos.

O ser humano não foi feito para ficar só. Está na sua natureza pessoal a busca por relações, nas quais ele possa reconhecer-se numa família; a descoberta do outro é, como salientava Gustavo Corção, uma das coisas mais fascinantes e admiráveis da existência, porque, estando “face a face com o outro, o homem está como diante de um espelho: inebriado, fascinado, enamorado numa espécie de narcisismo positivo que se abre para o louvor” [1]. O outro nos interroga e, ao mesmo tempo, nos consola, nos revela a nossa própria identidade pelo simples fato de nos estender a mão e, com isso, mostrar que somos feitos do mesmo barro.

Porém, quando essas relações não acontecem, o homem adoece e perde o elã da vida. Se falta empatia — ou seja, se falta amizade, compaixão, amor, companheirismo etc. —, nossas histórias acabam perdidas como cartas no baú, porque não temos com quem compartilhá-las; não há quem as escute, mesmo que seja para rir de nossas estrepolias. Tornamo-nos, de fato, uma mônada, uma bolha fechada em nossas próprias depressões. E aí surgem as máscaras de relações artificiais, de busca de alguma coisa que possa substituir os relacionamentos ausentes; as pessoas vão atrás de morfina para amenizarem a dor do tumor que lhes corrói a alma, submetendo-se a qualquer tipo de coisa para deixarem de ser invisíveis.

É isso o que notamos no romance As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky, por exemplo. A história gira em torno do adolescente Charlie, um jovem bastante tímido, que, após algumas experiências traumáticas na infância, acaba bastante debilitado emocionalmente, sofrendo de fortes alucinações. Para aliviar seus sentimentos, ele escreve cartas em uma espécie de diário, no qual despeja todos os seus pensamentos sem qualquer medo de censura ou depreciação. Mas tudo começa a mudar na vida dele, quando Charlie ingressa no ensino médio e passa a ser “percebido” pela turma de “descolados” do colégio.

Nesse novo ambiente, Charlie tem a oportunidade de mostrar como ele se sente, porque encontra um ambiente de cumplicidade. Assim como ele, os seus amigos têm sede de viver algo em profundidade, não temendo os riscos do que suas atitudes podem acarretar. É emblemática a cena em que a jovem Sam, paixão secreta de Charlie, sobe na carroceria do carro de seu irmão, e abre os braços para experimentar o vento correndo sobre seu corpo e, desse modo, “sentir-se como o infinito”. De fato, eles têm desejo de um amor para além deste mundo, que os faça sair da bolha na qual estiveram aprisionados por tanto tempo.

Aos poucos, porém, Charlie vai descobrindo as feridas e os segredos de cada um de seus amigos, e como ainda estão vazios, mesmo com todas as suas festas, transgressões e rebeldias. Ele mesmo tem um encontro com suas “chagas” depois de ser privado da presença de seus companheiros, que o distraíam da sua interioridade bagunçada. Certo dia, vendo sua irmã ser agredida pelo próprio namorado, ele se intriga com aquilo e pergunta ao seu professor de inglês, com quem mantinha certa confiança: “Por que pessoas legais escolhem pessoas erradas para namorar?” E o seu professor responde: “Aceitamos o amor que imaginamos merecer”.

Na mosca. A maior parte dos personagens de As vantagens de ser invisível vive esse terrível drama de contentar-se com qualquer aparência de amor que sirva para retirá-los da fossa, por assim dizer. Eles sentem, sim, desejo do amor infinito (desiderium naturale videndi Deum, diriam os escolásticos), mas, por se julgarem tão antiquados e fora dos padrões, vão se entregando às aventuras da vida, porque, no fim das contas, acreditam ser a única coisa que lhes resta. E é assim que Charlie aparece, uma hora, na fila da Comunhão, junto com seus pais, para receber a Santíssima Eucaristia e, depois, na casa de seus amigos, para consumir drogas. Ele também aceita o amor que julga merecer.

Na realidade, nós todos experimentamos essa sensação terrível de querer algo infinitamente superior às nossas próprias forças e capacidades, e, ao mesmo tempo, julgarmo-nos dignos apenas das mixarias que a história nos oferece, porque não encontramos quem possa se conectar a nós mesmos, de maneira tão profunda como gostaríamos. Temos sede de absoluta empatia, mas nós não nos amamos o suficiente para renunciar àquilo que nos destrói a alma. Esse é um daqueles muitos paradoxos da humanidade, sobre os quais tanto escrevia G. K. Chesterton.

Chesterton também precisou passar pelo fio da navalha, até finalmente encontrar-se com a resposta que tanto procurava para seus dilemas. No seu livro Ortodoxia, ele afirma que sua vida pode ser definida como a viagem de um homem que sai à procura do infinito, da verdade mais profunda de seu ser, e a acaba encontrando no lugar mais improvável: a sua própria casa, de onde saíra

Durante toda a sua juventude, ele viveu tormentos profundos e grandes dúvidas espirituais, que o fizeram passar do ateísmo ao agnosticismo, de modo que ele chegou a pensar no suicídio. Mas ao abrir-se ao mistério do cristianismo, que ele havia ignorado por tanto tempo, Chesterton descobriu novamente a alegria da religião verdadeira, que nos conecta com o amor infinito que tanto procuramos. E as coisas que estavam invisíveis ao seus olhos tornaram-se claras, sobretudo o Homem Deus que veio se colocar no lugar da humanidade, num admirável intercâmbio.

Em sua obra mais vigorosa, O Homem Eterno, Chesterton observa como Jesus realiza, com sua misteriosa Encarnação, o mais perfeito gesto de empatia que homem algum jamais imaginou. Esse gesto, diz Chesterton, começa justamente onde tudo começou para o ser humano: na caverna. Ele escreve assim:

A segunda metade da história humana, que foi como uma nova criação do mundo, também começa numa caverna. Até se constata um detalhe dessa fantasia no fato de animais estarem mais uma vez presentes pois se deu numa caverna usada pelos montanheses das regiões altas de Belém, que ainda hoje conduzem seu gado para essas grutas e cavernas para o pernoite. Foi num lugar assim que um casal sem teto se refugiou junto com o gado quando as portas da apinhada estalagem haviam sido fechadas na cara deles; e foi num lugar assim, exatamente debaixo dos pés dos passantes, num subterrâneo sobre o próprio chão do mundo, que Jesus Cristo nasceu. Mas nessa segunda criação houve algo realmente simbólico nas raízes da rocha primeva ou nos chifres da pré-histórica manada. Deus era também um homem das cavernas e também havia desenhado estranhas formas de criaturas, curiosamente coloridas, sobre a parede do mundo; mas as pinturas do mundo feitas por ele ganharam vida [2].

No mais humilde dos berços, e na mais discreta de todas as maternidades, repousava o menino Jesus, em quem Chesterton descobriu não apenas outra pessoa, mas o Totalmente Outro que não se contentou em ser consubstancial ao Pai, e quis também ser consubstancial ao homem, para dar-lhe uma nova filiação. E, assim, Chesterton pôde experimentar a mesma alegria dos pastores de Belém, porque também lhe nascera na Cidade de Davi um Salvador. E ele poderia encontrar esse menino sempre que quisesse, poderia debruçar-se sobre o seu peito e confessar-lhe todos os tormentos, poderia comungar na sua mesma mesa eucarística, poderia alegrar-se com suas parábolas e também chorar suas feridas; poderia, afinal, ser um e todos ao mesmo tempo, numa autêntica família, porque, de fato, a Igreja, Corpo Místico do menino Deus, “não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo”.

Com o mistério do Natal, Jesus veio merecer para todos os homens o amor que tanto desejamos, mas que, por nossos próprios méritos, não somos dignos de receber. Em suas andanças e pregações, Ele olhou nos olhos de muitos, deu abraços, chorou e compadeceu-se, acolheu doentes, ladrões e prostitutas, e todos paravam para ouvir as suas Palavras de Vida Eterna, “porque o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10). Mais ainda: Cristo não só se recusou a condenar a adúltera, que aceitava qualquer amor por imaginar-se indigna de coisa melhor; Ele a fez enxergar um horizonte maior, para além da vida medíocre que ela levava. Jesus a redimiu e ajudou a buscar um novo sentido para sua existência.

Todos nós, seja Charlie, seja Chesterton, temos dentro de nossas almas uma mulher adúltera, que precisa ser urgentemente redimida. Por medo, podemos nos esconder do apedrejamento do mundo, buscando uma vida invisível, escondida na escuridão, onde talvez nos sintamos aparentemente mais seguros. Mas os fantasmas permanecem lá, no mesmo lugar, apenas esperando a oportunidade para nos atormentarem outra vez. E é então que deve nascer o Menino Deus, para nos trazer alegria e exorcizar de nossos corpos todos os falsos ídolos e reis, todo e qualquer fantasma de uma existência sombria e amarga. Porque Ele, diz o salmista, “não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos castiga em proporção de nossas faltas”; “porque tanto os céus distam da terra quanto sua misericórdia é grande para os que o temem” (Sl 102, 10-11).

Que belo é esse amor, que belo é esse Deus que vem ao nosso encontro, e coloca-se no nosso lugar, como dizia São Gregório Nazianzeno, aceitando a pobreza de nossa condição humana para que nós recebamos os tesouros de sua divindade. No desfecho do diálogo de Charlie com seu professor, o jovem pergunta-lhe se é possível mostrar às pessoas que elas merecem um amor maior. “Nós podemos tentar”, responde-lhe o mestre. Mas Jesus não só tentou; ao contrário, aquele que possuía tudo em plenitude, aniquilou-se a si mesmo, despojou-se de sua glória por algum tempo, para que nós participássemos de sua plenitude. 

Para recebermos esses dons, basta que façamos como Chesterton e abramos os nossos olhos ao pequenino na manjedoura, que está ali quase invisível, enquanto nos distraímos com o mundo… Assim descobriremos as vantagens de ser católico.

Referências

  1. Gustavo Corção. Dois amores, duas cidades. Rio de Janeiro: Agir, 1967, v. 1, p. 33.
  2. G. K. Chesterton. O homem eterno. Cajamar: Mundo Cristão, 2010, p. 220.

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Quando será o dia do Juízo?
Espiritualidade

Quando será o dia do Juízo?

Quando será o dia do Juízo?

O conceito que ordinariamente fazemos do dia do Juízo é muito enganoso e muito errado. Consideramos o dia do Juízo como uma coisa medonha e espantosa, mas que está lá muito longe, e por isso nos não faz medo. Não é assim…

Pe. António Vieira17 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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Cristo, Senhor nosso, disse a seus discípulos que o segredo daquele dia é reservado só ao Padre, e que nem os anjos do céu o sabem, nem ele o sabia em foro que o pudesse revelar: “De die autem illa et hora nemo scit, neque angeli in caelo, neque Filius, nisi Pater — Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas só o Pai” (Mt 24, 36). Contudo, eu me não arrependo, nem me desdigo do que prometi. Prometi de vos dizer com certeza quando há de ser o dia do Juízo. E quando cuidais que há de ser? 

Não vos quero ter suspensos. É hoje, foi ontem, há de ser amanhã, e não amanhece nem anoitece dia, que não seja certamente o dia do Juízo. Que coisa é o dia do Juízo? É um dia em que se há de acabar o mundo, é um dia em que Cristo nos há de vir julgar, é um dia em que havemos de dar conta de toda a nossa vida, e em que os bons hão de ir para o céu e os maus para o inferno. Não é esta a essência e substância do dia do Juízo? Sim. Pois isto é o que se faz hoje, o que se fez ontem, o que se há de fazer amanhã e todos os dias. Acaba-se o mundo todos os dias, porque para quem morreu acabou-se o mundo. Vem Cristo a julgar todos os dias, porque no ponto em que cada um expira, logo o vem julgar, e julga, não outrem, senão o mesmo Cristo. Toma-se conta, e estreitíssima conta de toda a vida, todos os dias, porque no dia da morte, e no mesmo instante dela, se toma e se dá esta conta. Finalmente, vão os bons para o céu e os maus para o inferno todos os dias, porque todos os dias os que morrem, ou são absoltos e vão para o céu, ou condenados, e vão para o inferno. Vamos agora ao Evangelho, e vejamos como este mesmo Juízo, e na mesma forma em que o tenho declarado, é o que hoje nos prega Cristo.

Tinha Cristo, Senhor nosso, pregado o mesmo Evangelho que ouvistes, tinha anunciado a seus discípulos os sinais tremendos que hão de preceder ao Juízo, e o poder e majestade com que o mesmo Senhor há de vir em pessoa a julgar o mundo, e conclui com as palavras que tomei por tema: “Amen dico vobis, quia non praeteribit generatio haec, donec omnia fiant — De verdade vos prometo e afirmo que não há de passar a presente geração, sem que tudo o que vos tenha dito se cumpra”. Este é um dos dificultosos lugares de toda a história evangélica. Uma geração, em frase da Escritura, quer dizer uma idade ou um século, porque o mais que chega a durar a vida humana são cem anos [...]. 

Aqui está a dificuldade. Daquele tempo para cá, tem passado mais de mil e seiscentos anos, e já temos contado dezesseis séculos, e estamos no século dezessete, e o dia do Juízo ainda não chegou. Além desta demonstração, segundo as opiniões que acima referimos, o mundo provavelmente ainda há de durar, ou muitos ou alguns séculos, antes do dia do Juízo, pois, como diz o Senhor, e com tão particular asseveração, que tudo se havia de cumprir dentro do mesmo século que então corria, e que se não havia de acabar aquele século sem que viesse o dia do Juízo: Non praeteribit generatio haec donec omnia fiant

Assim o disse e afirmou a verdade eterna, e assim se cumpriu naquele século, e cumprirá nos seguintes, porque nenhum homem houve naquele século, que dentro do mesmo século não tivesse o seu dia do Juízo. Como as vidas e as idades geralmente não passam de cem anos, nenhum homem há que não acabe a vida dentro do mesmo século a que pertence, e nenhum há que não seja julgado no tribunal de Cristo, e tenha o seu dia do Juízo no mesmo século. Os que morrem hoje têm o seu dia do Juízo hoje; os que morreram ontem, tiveram o seu dia do Juízo ontem; os que morrerem amanhã, e daqui a vinte anos, amanhã e daqui a vinte anos terão o seu dia do Juízo, mas sempre dentro do mesmo século e da mesma idade ou geração: Non praeteribit generation haec, donec, omnia fiant [...].

Aqui vereis qual é o tudo do dia do Juízo, e que é o que Cristo chama tudo. O tudo do dia do Juízo é a conta da vida que o mesmo Cristo há de tomar; é a sentença que há de dar, segundo os merecimentos dela; é o céu ou inferno para sempre, a que cada um há de ser julgado; o demais são acidentes e aparatos do Juízo universal, e não a substância do mesmo Juízo, a qual se não distingue dos juízos particulares. Desta substância e deste tudo do Juízo universal é que falou o Senhor na sua conclusão, e porque esta substância e este tudo se não distingue dos juízos particulares que se fazem na morte, por isso disse que tudo se havia de cumprir dentro daquele século, como verdadeiramente se cumpriu. 

E se quisermos reparar na propriedade das palavras donec omnia fiant, ainda acharemos nelas mais particular energia, porque no dia do Juízo final, não se há de fazer coisa alguma de novo, senão declarar-se somente o que já está feito. Os juízos particulares, que se fizeram na morte, esses mesmos são os que se hão de publicar no Juízo universal, e o juízo não se faz quando se publica a sentença, senão quando se dá: logo no dia da morte é que propriamente se faz o Juízo, e tudo isto, que faz agora, e não depois, é o que o Senhor disse que se havia de fazer dentro daquele século: Non praeteribit generatio haec, donec omnia fiant

Para tirar toda a dúvida, ouçamos ao mesmo Cristo em caso muito mais apertado, e que a podia fazer maior. No capítulo quinto de S. João, fala o Senhor do dia do Juízo final com maiores e mais intrínsecas circunstâncias, porque faz menção da ressurreição universal dos mortos, e da sentença, também universal, dos bons e dos maus, segundo o merecimento de suas obras: “Omnes qui in monumentis sunt, audient vocem Filii Dei: et procedent qui bona fecerunt, in resurrectionem vitae; qui vero mala egerunt, in resurrectionem judicii — Todos os que repousam nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus e sairão: os que tiverem feito o bem, para uma ressurreição de vida; os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de julgamento” (Jo 5, 29-30). E declarando o mesmo Senhor quando há de ser este tempo, diz que há de vir, e que agora é: Venit hora, et nunc est (Jo 5, 25). 

Pode haver proposição mais encontrada? Há de vir o dia do Juízo, e já agora é? Se o dia do Juízo estava tão longe, se há mil e seiscentos anos que ainda não veio, e se ainda não sabemos quando há de ser aquele dia ou aquela hora, como diz o oráculo de Cristo que já é: Venit hora, et nunc est? Admirável e literalmente S. Jerônimo, e se eu lhe pedira o comento, não o pudera escrever com mais ajustadas palavras: “Quia quod in die judicii futurum est omnibus, singulis in die mortis completur — Aquilo que a todos acontecerá no dia do juízo cumpre-se em cada um no dia da sua morte”.

Diz o Senhor que o dia do Juízo há de vir, e que já é, porque, ainda que o dia do Juízo há de ser depois, e muito depois, o dia da morte é já agora; e o que se há de cumprir em todos no dia do Juízo, cumpre-se em cada um no dia da morte: Singulis in die mortis completur. Notai o completur. As outras profecias cumprem-se a seu tempo, esta do dia do Juízo tem o seu cumprimento antes de tempo, porque aquilo mesmo que se faz agora, é o que se diz que há de ser então. Então hão-se de examinar as obras, então há-se de pronunciar a sentença, então hão de sair uns absoltos, outros condenados, e tudo isto que então se há de fazer no dia do Juízo é o que se faz ou está já feito agora no dia da morte. Por isso diz o Senhor que aquele dia está por vir e já é: Venit hora, et nunc est. Nunc: agora. Estes dois advérbios de tempo, então e agora, sempre são opostos; mas no dia do Juízo, comparado com o da morte, ainda que a morte seja dois mil anos antes que o Juízo, não tem oposição. O agora é então, e o então é agora. No nosso Evangelho diz o mesmo Senhor: Tunc videbunt: então verão, e aquele então é agora, aquele tunc é nunc: Tunc videbut, et nunc est [...]. 

De maneira, senhores, que o conceito que ordinariamente fazemos do dia do Juízo é muito enganoso e muito errado. Consideramos o dia do Juízo como uma coisa medonha e espantosa, mas que está lá muito longe, como as serpes nas areias da Líbia, ou os crocodilos no Nilo, e por isso nos não faz medo. Não é assim; o dia do Juízo não está longe; está tão perto como o dia de amanhã, e como o dia de hoje, e como esta mesma hora em que estamos: Venit hora, et nunc est. O vale de Josafá não está só em Jerusalém, nem entre o Monte Sião e o Olivete; está em Lisboa, está neste mesmo lugar, e em todos os do mundo. Se vos tomar a morte no mar, ou na campanha, ou na vossa cama, o mar, a campanha, a vossa cama é o vale de Josafá, e esse dia, qualquer que for, é o vosso dia do Juízo, ou mais cedo, ou mais tarde, mas dentro deste mesmo século em que nascemos: Non praeteribit generatio haec, donec omnia fiant.

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