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A morte prematura de São José
Santos & Mártires

A morte prematura de São José

A morte prematura de São José

São José certamente não estava mais vivo quando Jesus começou seu ministério público. Esse dado não consta de modo claro nas Escrituras, mas é uma piedosa tradição, partilhada e transmitida por muitos que contemplaram a vida de Cristo com os olhos da fé.

Michael PakalukTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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São José certamente não estava vivo quando Jesus começou seu ministério público. Isso sempre foi sustentado pela tradição, e por quatro razões.

Primeiro, depois que o ministério público começa, José nunca mais é mencionado nos Evangelhos em conexão com Jesus ou Maria, ou mesmo com a família mais ampla dos “irmãos” (ou, mais propriamente, primos do Senhor). Há inclusive certa sugestão na maneira como as pessoas se referem a José de que ele não estaria mais vivo: “Não é este o filho do carpinteiro?” (Mt 13, 55).

Segundo, por que Jesus teria confiado os cuidados de Maria a João (cf. Jo 19, 27), se José ainda estivesse vivo?

Terceiro, a profecia de Simeão sobre um sofrimento futuro (Lc 2, 35: “E uma espada transpassará a tua alma”, diz respeito apenas a Maria (“Quanto a ti…”), não a José.

Quarto, era conveniente que José saísse de cena antes de começar o ministério público do Senhor, para que, quando Jesus ensinasse sobre seu Pai, ficasse sempre claro de quem ele estava falando.

“A morte de São José”, por Miguel Cabrera.

Considero essa lista de razões fascinante. Já fui protestante e, como tal, estava convencido de que o Evangelho poderia ter a clareza necessária para confrontar “o mundo” apenas se os cristãos baseassem suas crenças somente nas Escrituras, e não em “meras tradições humanas”.

E no entanto qual é o status desta verdade: que “José não estava vivo quando Jesus começou seu ministério público”? Não se baseia total e exclusivamente nas Escrituras, mas ainda assim tem fundamento nelas. Além disso, não é uma “mera tradição humana”. É, no mínimo e com certeza, uma tradição piedosa, isto é, algo partilhado e transmitido por quem contempla a vida do Senhor com os olhos da fé.

Quando protestante, tampouco tinha uma noção coerente de autoridade na Igreja. Assim, eu não podia fazer nenhuma distinção entre o que os cristãos são obrigados a crer como verdade de fé (de fide), e o que somos livres para crer por estar fundamentado e ser amplamente defendido por cristãos piedosos e criteriosos.

Agora, como católico, posso dizer que essa verdade — a de que José morreu antes do ministério público — não é de fide. Isso me dá liberdade para o afirmar com a seguinte força: posso defendê-la como verdadeira e afirmar que é bom crer nela, embora isso não implique que os outros estejam obrigados a acreditar, se não forem persuadidos por minhas razões.

Dessa lista de motivos, o quarto é para mim o mais fascinante. Teria José entendido isso? Saberia ele que lhe era melhor partir do mundo antes de Jesus começar seu ministério público? Pe. Gasnier, em seu grande livro de meditações José, o Silencioso, pensa assim: “[José] pressentia que sua presença ao lado de Jesus não só não era necessária como podia agora se tornar um estorvo. Não convinha que o mundo pensasse que ele era o verdadeiro pai desse jovem” [1].

Neste caso, a morte de José assume um significado interessante.

Escultura da morte de São José na Catedral de Nossa Senhora de Loreto, em Mendoza, Argentina.

Para entender por quê, consideremos outra pergunta: quantos anos tinha José quando morreu? Se ele era velho quando se casou, já estaria muito velho quando morreu. Algumas tradições antigas, enraizadas em escritos apócrifos, afirmam que José já era velho e fora casado antes por mais de quarenta anos quando desposou Maria. Santo Epifânio lhe atribui 90 anos! Mas essa opinião foi veementemente rejeitada por São Jerônimo, e é seguro dizer que uma reflexão mais completa na Igreja ao longo dos séculos ficou do lado de São Jerônimo.

A melhor opinião, que é a que eu aceito, afirma que ele seria jovem quando se casou com Maria. De fato, era costume que os homens pretendessem casar-se no final da adolescência. Sua devoção à virgindade, à sua e à de Maria, estava enraizada no idealismo dos jovens. Ninguém teria apoiado o casamento de um homem de 90 anos com uma adolescente. E é errado atribuir seu respeito pela virgindade de Maria à senilidade, ao invés da virtude.

Portanto, suponhamos que ele tinha 20 anos quando se casou com Maria: provavelmente tinha 40 quando morreu, quer dizer, São José teve uma “morte prematura”, mesmo para aquela época. Ele não morreu de velhice nem de fraqueza generalizada (excluímos uma morte violenta), mas de alguma debilidade particular que o levou embora.

Unamos agora os dois pensamentos: José percebeu que lhe era melhor sair de cena e morreu relativamente jovem, aceitando a morte, precisamente naquela época, como enviada por Deus.

Creio que chegamos assim a algumas conclusões interessantes. Em primeiro lugar, podemos entender a morte de José como, de maneira misteriosa, uma participação na Paixão do Senhor na forma de um prenúncio, como a morte de João Batista e o martírio dos Santos Inocentes.

Em segundo, ele ofereceu sua vida sem ainda ver consumada a vida de Jesus. Assim, sua morte foi marcada por uma fé tremenda. Ele não ouviu o Sermão da Montanha. Ele não viu Jesus transformar água em vinho, curar leprosos ou ressuscitar Lázaro. Ele não viu a Paixão ou a Ressurreição.

Em terceiro lugar, a nova vida em Cristo da qual ele, por eleição especial, deu testemunho foi precisamente uma vida de trabalho ao lado de Jesus como amigo, e de família com Maria. Não admira que, onde quer que tenha florescido com normalidade a vida familiar cristã, ali se tenha invocado a São José com fervor!

Por último, podemos entender por que os Papas nomearam São José patrono dos moribundos: porque ele é especialmente sensível ao fato de a morte muitas vezes nos assaltar desprevenidos. “De bom grado morrerei, Senhor, no momento, no lugar e do modo que Vós quiserdes” [2].

“Deixai-me morrer como o glorioso São José, acompanhado por Jesus e Maria, pronunciando aqueles nomes mais doces, que espero exaltar por toda a eternidade!”

Referências

  1. Michel Gasnier. José, o Silencioso. Quadrante: São Paulo, 1995, p. 140.
  2. Seleta de Orações. São Paulo: Cultor de Livros, 2011, p. 209.

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Deixar o beijo para o casamento: sim ou não?
Testemunhos

Deixar o beijo
para o casamento: sim ou não?

Deixar o beijo para o casamento: sim ou não?

Você provavelmente vai achar isso ridículo e absurdo. Foi a reação que tive quando me deparei com essa ideia pela primeira vez. Mas passei a pensar seriamente sobre o assunto quando soube de um casal que a punha em prática...

Anna HitchingsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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Nós, jovens cristãos, sabemos bem como são rigorosas, difíceis e muitas vezes claramente inconvenientes as exigências de uma vida de castidade. “Não passe a noite na casa dele sozinha”. “Discuta os limites desde o início”. “Procure fazer da oração uma parte ativa do relacionamento”.

Mas fazemos tudo isso porque cremos que o sexo possui uma realidade mais profunda do que a perspectiva reducionista e mundana que o enxerga como simples atividade recreativa. Sabemos que o sexo é uma união entre homem e mulher ordenada por Deus, singularmente unitiva e reprodutiva, projetada para ser praticada apenas no matrimônio.

Também sabemos que o sexo cria entre o casal um profundo elo que pode durar anos, senão a vida inteira. Sabemos também que, com frequência, o sexo fora do casamento é diretamente (embora não exclusivamente) responsável por muitos males que vemos na sociedade: aborto, lares órfãos de pai, disseminação de doenças, decepções profundas e feridas emocionais duradouras. 

Embora a doutrina da Igreja sobre a intimidade sexual fora do casamento seja clara, as regras para outras formas de intimidade não são tão claras assim, particularmente quando se trata do beijo.   

Conversei com muitos casais católicos, e está claro que quase ninguém tem plena certeza do que é ou não apropriado. Embora todos aceitemos, creio eu, que beijos menos íntimos (por exemplo, no rosto ou na testa) sejam um tanto inócuos, qual seria o limite em relação ao beijo na boca

Bem, e se você escolhesse não beijar seu namorado ou namorada na boca ao invés de tentar encontrar esse limite?

Provavelmente você pensaria: “Isso é ridículo! Absurdo!” Foi minha reação quando me deparei com essa ideia pela primeira vez, mas passei a pensar seriamente sobre o assunto quando soube de um casal que a punha em prática.

A experiência de João e Catarina

João e Catarina eram um casal católico como outro qualquer, mas, depois de um ano e meio de namoro, eles tomaram a decisão de não se beijar mais nos lábios. Mantiveram a promessa até o dia do casamento, que aconteceu mais de dois anos depois. 

Quando lhes perguntei se estavam felizes por terem parado de trocar beijos apaixonados, eles disseram que foi a melhor decisão que tomaram em todo o seu relacionamento

“Os dois primeiros meses foram difíceis, mas, depois, com os sentimentos ordenados, ficamos livres para desenvolver uma verdadeira afeição mútua, bem como para servir um ao outro e nos sacrificarmos um pelo outro”, disse João. “Como tenho consciência — por ser católico — do que é necessário para ficar livre do pecado mortal e lutar pela mais elevada perfeição, sei que é meu dever fazer o mesmo pela mulher com quem tenho a intenção de me casar”. 

Catarina disse: “Como demos um passo atrás na intimidade física, avançamos muito na intimidade emocional. O relacionamento passou a ter um novo foco, porque um já não pensava apenas em fazer com que o outro se sentisse bem”. 

A tentação de avançar mais

Muito bem, isso pode funcionar para o João e a Catarina, mas isso não serve para todo o mundo. E se seus beijos fossem reduzidos a simples “selinhos”?

Seria possível fazer isso. Conheço muitos católicos que, antes de se casar, trocavam beijos sem comprometer a castidade no relacionamento. O problema com isso é que sempre haverá a tentação de avançar mais.

Veja que deixar o sexo para depois do casamento não é algo tão difícil. O difícil é ficar longe das ocasiões de pecado.

Você pode perguntar: “O que são ocasiões de pecado?” Bem, o Catecismo de Baltimore as define como “todas as pessoas, lugares ou coisas que podem facilmente nos levar a pecar” (n. 771).

Basicamente, já é pecado grave colocar-se numa situação em que você sabe que terá a tentação de cometer um pecado grave. Por exemplo, quando um alcoólatra em recuperação de seu vício vai a uma festa onde haverá bebedeira, sabendo que poderá ser tentado a ir além do que pode suportar, ou quando um viciado em pornografia passa um tempo ilimitado na internet.

É, de fato, apenas senso comum. Se você prevê que será fortemente tentado a pecar, a ponto de pôr a sua alma em risco, e puder evitar essa situação, faça isso! 

No entanto, como acontece com a maioria dos católicos de berço, sempre achei que não havia problema algum em trocar beijos no namoro, contanto que esse limite não fosse ultrapassado. Na verdade, beijos apaixonados ou “amassos” entre pessoas não casadas não são nada menos que pecado mortal.

Talvez isso pareça um exagero. Foi a minha impressão inicial, mas depois entendi o motivo: o beijo apaixonado é em si uma ocasião de pecado; ainda por cima, uma ocasião grave. Todos sabemos que esse tipo de intimidade excita as paixões. É algo previsível, pois trata-se da ação preliminar para o ato sexual e sua finalidade é deixar-nos preparados para isso.

Aprendendo o que a Igreja ensina

E, se você não acredita em mim, consulte o célebre Doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino: 

Beijos, abraços e toques não implicam, por sua razão, pecado mortal, pois podem ser praticados sem lascívia [...]. [Mas,] sendo os beijos, os abraços e outros atos parecidos praticados em vista do prazer sexual, constituem pecados mortais. E somente nesse sentido são libidinosos e, como tais, pecados graves (STh II-II 154 4c.).

“Mas, mas…”, você balbucia, “todo o mundo faz isso! Está nos filmes antigos e nos desenhos da Disney. Poxa vida, está na série When Calls the Heart!” 

Confie em mim, eu entendo você. Creio que esse tipo de debate muitas vezes gera resistência nos católicos porque temos a sensação de que o beijo é a única coisa que nos resta! Não realizamos atos pré-conjugais, e masturbação e pornografia estão fora de questão.

Quando ouvi pela primeira vez um sacerdote dizer que namorados ou noivos só podiam compartilhar carícias próprias de irmãos, como um beijo no rosto, achei aquilo ridículo e pensei: “Isso é um completo absurdo! Em que planeta esse sacerdote vive?” 

Porém, com o passar do tempo, comecei a mudar de opinião. Sempre senti certo desconforto com minha determinação particular de manter meu direito a um beijo (casto). Na prática, você descobrirá — como aconteceu com João e Catarina — que essa abordagem simplesmente não funciona.

Na verdade, foi mais fácil não beijar de forma alguma”, disse João. “Pode parecer algo de menor importância, mas o beijo pode se tornar uma porta de entrada para outros pequenos atos de impureza, como abraços muito longos ou toques muito íntimos. O beijo também faz com que você adquira uma propensão habitual a fazer concessões a respeito de Deus e suas leis, bem como a fazer o possível para eximir-se das consequências dos próprios atos”.

Pense bem a esse respeito

Tenho plena consciência de que este artigo não me tornará popular. Sei que aqueles que não querem abrir mão do beijo me chamarão de puritana e, provavelmente, de outras coisas pitorescas. Não vejo problema nisso, pois estou acostumada às críticas. Mas permita-me ser absolutamente clara: eu não estou dizendo que você não deve beijar a pessoa amada antes do casamento. Só estou dizendo que vocês deveriam pensar seriamente a respeito disso

Permita-me deixar outro ponto bastante claro: a comunicação é fundamental. João, que não conversou com Catarina antes de tomar a decisão de não beijá-la antes do casamento, me disse o seguinte: é importante que os rapazes compreendam que sua namorada ou noiva “não é inimiga deles”.  

“Percebi que tinha o dever de nos proteger daquilo que estava dentro de nós, e quando conversamos sobre isso, descobri que ela queria meu bem tanto quanto eu queria o dela; só precisei ser claro com ela”, disse.

Não posso mentir e dizer que é uma escolha fácil, particularmente se o beijo for um elemento habitual de seu relacionamento. Será difícil, mas todos os sinais mostram que essa decisão enriquece bastante o relacionamento. Ela também tornará o dia do seu casamento muito mais especial em razão do sacrifício feito. 

João disse que beijar sua esposa fora da igreja após o casamento foi um dos momentos mais felizes de sua vida.

“Ficamos cheios de alegria e paz por saber que havíamos lutado e nos sacrificado por mais de dois anos, e que aquele sacrifício estava dando frutos num gesto completamente puro e casto que glorificava a Deus”, disse ele.

Num mundo tão dominado pelo pecado, pode ser tentador fazer o mínimo absoluto, contanto que não cometamos algum pecado. Ainda assim, isso já seria melhor do que a média, não? Eu diria, porém, que esse tipo de decisão exige de nós ainda mais virtude. O pecado desmedido deve ser correspondido com a virtude num grau ainda maior, especialmente quando somos chamados a ter um padrão elevado de moralidade.    

Temos de ser faróis luminosos que levam a luz e a alegria de Cristo para o mundo, e não podemos fazer isso sendo simplesmente melhores do que a média. Só podemos fazer isso quando nos tornamos excepcionais.

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Homem e mulher Ele os criou, e por uma boa razão
Fé e Razão

Homem e mulher
Ele os criou, e por uma boa razão

Homem e mulher Ele os criou, e por uma boa razão

A relação entre homem e mulher não é como a amizade entre duas pessoas quaisquer. Ela não é uma relação de boa vizinhança, de associação num negócio, ou de interesses comuns em um clube. Homem e mulher são capazes de gerar vida nova. E só eles podem fazê-lo.

Anthony EsolenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Faz apenas seis anos [1] que escrevi Defending Marriage: Twelve Arguments for Sanity [“Defendendo o Matrimônio: Doze Argumentos pela Sanidade”, sem tradução brasileira], para lançar um alerta contrário à fantasia de que dois membros do mesmo sexo podem contrair casamento, pois eles não conseguem ter relações sexuais, podendo apenas realizar um arremedo delas. Meus argumentos não tiveram como fundamento a Escritura ou a doutrina da Igreja — na verdade, não fiz nenhuma menção a elas —, mas a observação geral [da realidade], precedentes históricos e culturais, bem como a biologia masculina e a feminina. 

O principal adversário que eu tinha em mente não era a pessoa já comprometida com a fantasia, mas a indecisa, a “moderada”, que pode ser encontrada em todos nós e muitas vezes não por mérito nosso. O subsolo da terra se agita, mas ficamos indiferentes porque as nossas casas não estão tremendo, ao menos não muito. Não devemos nos preocupar com tudo. Ninguém tem energia para isso. Portanto, numa época de mudanças rápidas e de decadência das nossas instituições fundamentais, apoiamo-nos naquilo que, por enquanto, parece saudável o suficiente para os nossos propósitos. “As escolas públicas são terríveis, mas a nossa não é tão ruim”, dizemos. “Ao menos os nossos filhos terão um pai e uma mãe”. O céu não está desabando.  

Previsões de desastre costumam falhar. Isso ocorre seja porque elas extrapolam tendências, que são temporárias, ou o índice de mudança de uma tendência, que é ainda mais provisório; seja porque imaginam um fator vindouro que confirma e acelera a mudança. Mas as previsões se cumprem às vezes, e isso não se dá por acaso. Quando a previsão é baseada na aplicação de princípios, quando se apóia em precedentes históricos e numa sólida compreensão da natureza humana, é bem provável que ela se torne verdadeira, sobretudo porque não se trata tanto de uma previsão quanto de uma análise fria e incisiva do que já é realidade. Foi esse o caso quando o Papa Paulo VI previu que o uso generalizado da contracepção levaria a mais abortos e mais bebês nascidos fora do casamento, e o mundo riu-se, desatento e irresponsável. Mas o mundo estava errado e o Papa, certo.

Parece que o mundo hoje parou de afirmar: “Conceder o direito ao matrimônio a duplas do mesmo sexo não afetará mais ninguém”; agora, ele começa a dizer que não importa o efeito que isso terá, porque direito é direito, e isso basta. É bastante claro o paralelo com o que aconteceu em relação à contracepção e ao aborto. No caso norte-americano Griswold vs. Connecticut, que revogou a lei que proibia a venda de pílulas anticoncepcionais, o juiz William Douglas, da Suprema Corte, fundamentou seu raciocínio na sagrada privacidade do leito conjugal, ignorando qualquer argumento de que a pílula transformaria a santidade deste leito em algo do passado. E aquela foi a última vez que escutamos da Suprema Corte algo sobre esse assunto. Disseram-nos que a legalização do aborto resultaria não em mais abortos, mas na mesma quantia de abortos “seguros”; e nenhum terceiro, nem mesmo o pai, deveria ter permissão para entrar no ambiente sagrado da relação entre a mulher e o seu médico. Aparentemente, a santidade é substituível.

Não digo que o céu desabará sobre nós. Já desabou. Já passávamos por períodos muito ruins. Somente um pequeno número de pessoas que estão na flor da idade são casadas. Então, argumentei que não deveríamos aprofundar ainda mais a discórdia entre homem e mulher. Como a falsa união entre pessoas do mesmo sexo poderia fazer isso? Bem, um princípio, ou a anulação dele, entra no sistema social como alimento genérico ou veneno. O veneno aqui é o seguinte: a negação de que homem e mulher são feitos um para o outro. Falo do Gênesis. O argumento é tanto biológico quanto antropológico. Antes de abordarmos a questão política de como as pessoas podem se unir por meio de salários, profissões, divisões geográficas, credos e níveis de educação, devemos uni-las por meio do primeiro e tremendo abismo na humanidade: aquele que separa homem e mulher; caso contrário, tudo o que dissermos sobre unidade será em vão. Não é possível construir uma cidade com entulho. 

Há seis anos, eu não imaginava que as relações entre os sexos nas nações desenvolvidas do Ocidente — os países onde a doença do individualismo sexual está mais avançada — poderiam deteriorar-se de modo tão ruim e veloz. Quando as pessoas homenageiam a inocência, podem expressar a masculinidade e a feminilidade de várias maneiras saudáveis. Os terrenos são abertos e seguros. Mas o mal pressiona o inocente. Um homem pode perder seu emprego se disser a uma mulher que é bonito o vestido que ela está usando. Ele será igualado aos canalhas que o colapso da moral sexual de fato produz. Ela, por sua vez, estará sempre insatisfeita com o seu destino e porá a culpa das suas desilusões no “patriarcado” — na sociedade menos patriarcal que já existiu sobre a terra. Os rapazes estão enfadados em seu isolamento sexual, o qual está para a castidade como a prostituição está para o casamento. As moças dizem ter orgulho dos abortos que realizam. Ficam nuas em público para protestar contra qualquer coisa, pois a histeria sempre encontrará uma causa.

Deus nos fez homem e mulher, e eu tendo a aceitar a sugestão de que a imagem de Deus estava incompleta em Adão sem Eva. Mas a sugestão não faz sentido algum para o feminismo ou a sua forma mais recente, seja no arremedo de sexo, seja no arremedo de matrimônio. Creio que seja esse o pecado original do feminismo, dele surgindo a fonte e a origem (fons et origo) do caos sexual e social com uma inevitabilidade triste, mas repentina. Uma pessoa sensata observa a relação entre homem e mulher e percebe que ela é única. Não é como a amizade entre homem e mulher. Não é como a amizade entre duas mulheres. Não é uma relação de boa vizinhança, ou de obediência numa criança, ou a ajuda mútua num negócio, ou os interesses comuns que existem num clube. A relação entre o homem e a mulher, e só ela, pode gerar vida nova: das crianças que tão negligentemente matamos, cuja inocência tão negligentemente corrompemos e cuja segurança no lar tão negligentemente abandonamos. Uma mulher precisa de um homem como um peixe precisa de uma bicicleta, disseram as feministas, sem parar para refletir que, não fosse pelos homens, elas não teriam nem peixe, nem bicicletas, nem ciclovias onde colocá-las.

Mas, se antes nós negávamos que o mais recente ímpeto da decadência sexual causaria dano ao matrimônio, agora nós passamos a não nos importar mais se isso acontecerá. Não preciso dizer que essa negligência é incompatível com a doutrina social da Igreja, que se baseia na realidade criada do matrimônio e da família, e que prescinde não de desejos individuais, mas dos deveres que temos uns para com os outros como membros de um corpo. O corpo social mais próximo da mão criadora de Deus é a união entre homem e mulher, que foi feita para gerar filhos ou, em caso de infertilidade, para ser um exemplo radiante dessa união, uma causa que sirva de modelo. Em relação a toda proposta que diga respeito a homens e mulheres, meninos e meninas, moral sexual e criação e educação dos filhos, devemos nos perguntar se ela afirma ou nega a realidade do matrimônio; se promove ou frustra a compreensão e a cooperação entre os sexos; se ela surge da gratidão ou do ressentimento, da esperança ou desespero, do materialismo individual deste ou daquele tipo, ou da alegria de filiação a uma sociedade integrada.  

Houve uma época em que os católicos, tanto à esquerda quanto à direita econômicas, concordavam quanto à finalidade para a qual tínhamos quaisquer economias; eles discordavam quanto aos meios. Já é hora de nos lembrarmos daquela finalidade.

Notas

  1. O autor Anthony Esolen publicou esse texto, originalmente, em 19 de março de 2020. Já faz sete anos, portanto, desde a publicação de seu livro.

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Quatro coisas que os casais podem aprender com a vida religiosa
Família

Quatro coisas que os casais
podem aprender com a vida religiosa

Quatro coisas que os casais podem aprender com a vida religiosa

O casamento e a vida consagrada são bem diferentes em muitos aspectos, mas existem várias práticas tipicamente religiosas que um casal pode incorporar ao seu convívio em família. Aqui estão algumas delas, que já se mostraram possíveis e que podem gerar muitos frutos!

Erin BuchmannTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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À medida que eu crescia, estava confiante de que minha vocação era para a vida religiosa. Quando adolescente e jovem adulta, visitei vários conventos e conversei com muitas, muitas irmãs religiosas. Com o tempo, Deus revelou meu chamado para o casamento, mas aqueles primeiros encontros com o estilo de vida monástico abriram meus olhos para sua riqueza, profundidade e beleza sublimes.

Embora o casamento e a vida religiosa sejam vocações bem diferentes em muitos aspectos, existem várias práticas amplamente características do monasticismo que um casal pode incorporar na vida familiar. Aqui estão algumas das práticas que se mostraram frutosas (e possíveis!) em meu casamento.

Defina um cronograma. — A vida monástica está alicerçada e centrada na Liturgia das Horas. Com seus dias dependendo das Laudes, pela manhã, e das Vésperas, à noite, todas as outras orações e trabalhos religiosos inserem-se em seus lugares apropriados.

“Três Religiosas em Oração”, de David Dalhoff Neal.

Ter uma programação compartilhada — com horários para oração, refeições em família, trabalho e recreação — pode dar uma ordem revigorante ao dia da família também. Certo grau de flexibilidade aqui, em nossa vocação leiga, é bom e até necessário. Mas ter uma programação pode nos ajudar a viver de modo consciente e a priorizar as coisas que são realmente importantes em nossos dias.

Meu marido e eu tentamos manter nossas rotinas em sincronia, levantando de manhã e indo para a cama à noite juntos. Uma pedra angular em nossos dias são os 30 minutos ou mais, todas as noites, nos quais fazemos as nossas leituras diárias e rezamos juntos o Rosário. Em muitos fins de semana, tentamos fazer algo ao ar livre e em família, como uma caminhada ou um passeio de bicicleta. Ter essa estrutura em comum oferece o benefício adicional de nos levar para o mesmo cômodo de nossa casa várias vezes ao dia. A conversa e a conexão são fáceis quando ambos estamos escovando os dentes, na expectativa da hora de dormir, ou pondo a mesa, antes de uma refeição em comum!

Rezem juntos e sozinhos. — Uma das coisas que mais me surpreendeu sobre a oração pós-casamento é o quanto ela, como tudo na minha vida, tornou-se uma atividade “nossa” em vez de uma atividade “minha”. Rezar juntos, como casal, é a chave para um casamento saudável. Entretanto, reservar um tempo para ficar a sós com Deus também é indispensável.

Mesmo nas comunidades religiosas, cujos membros passam tanto tempo em oração comunitária, muitas vezes ainda há certas devoções que são praticadas individualmente. Em algumas comunidades, esta devoção é o Rosário diário; em outras, é a Via-Sacra. Espera-se que os membros reservem um tempo para suas orações pessoais e se esforcem por praticar essa devoção de uma maneira e em uma hora do dia que considerem particularmente adequadas. Enquanto uma religiosa pode preferir rezar o Rosário durante uma caminhada pelo jardim, outra pode descobrir que rezar sozinha, em sua cela ou na capela, atrai sua mente e coração mais plenamente a Deus.

Da mesma forma, maridos e esposas não precisam ter medo de cultivar seu relacionamento pessoal com Deus da maneira que considerarem individualmente frutuosa. Tudo bem se essas maneiras forem diferentes entre os cônjuges!

Eu acho que rezar com os Salmos orienta meu coração mais apropriadamente a Deus, então me esforço por rezar as Laudes todas as manhãs. Meu marido gosta de refletir sobre a vida e o coração de seu santo padroeiro, São José, enquanto trabalha e se sacrifica para sustentar nossa família. Embora essas sejam devoções que buscamos individualmente, em geral podemos dizer quando o outro não tem rezado bem! Nossos relacionamentos pessoais com Deus realmente afetam todos os aspectos de nossa vida em comum.

Observe os conselhos evangélicos. — Pobreza, castidade e obediência têm seu lugar no casamento. Embora os casais não sejam obrigados, por profissão pública, a seguir esses conselhos em sua plenitude como fazem muitos religiosos, a observância dos conselhos evangélicos de maneira adequada à vocação matrimonial é, no entanto, um excelente meio pelo qual os cônjuges podem crescer e imitar mais plenamente a Cristo.

A maneira como um casal vive os conselhos evangélicos é muito diferente da maneira como um religioso o faz. No entanto, em seu esforço por amar com pureza, os esposos encontram um modelo na castidade de Cristo. Reconhecendo que tudo o que recebem vem de Deus e que não devemos ser apegados, mas dar com generosidade, eles imitam sua pobreza. Ao buscar seguir a vontade de Deus em todas as coisas, eles se recordam de sua obediência.

Mantenha o silêncio. — Muitas comunidades religiosas observam um “grande silêncio” após as Completas, a última oração comunitária do dia. O silêncio se estende até as Matinas, a primeira oração comunitária da manhã seguinte [N.T.: esta hora canônica antiga deu lugar ao atual Ofício das Leituras]. Como o próprio nome sugere, não é permitido falar na comunidade durante essas horas da noite — é um momento para o religioso descansar, a sós, com Deus.

Uma versão muito reduzida do grande silêncio também pode ser praticada no casamento. Meu marido e eu descobrimos que dedicar um tempo, cerca de uma hora, à noite, a uma interação livre de eletrônicos, é extremamente benéfico para nosso relacionamento. Durante esse tempo, podemos rezar ou ler juntos, resolver um quebra-cabeça ou jogar um jogo, ou apenas conversar e trocar afetos. O importante é que este é um momento para simplesmente estarmos juntos, sem distrações externas. É a hora de nos reconectar, um com o outro e com Deus, antes de dormir.

Os cônjuges, certamente, não são chamados a observar todos os rigores e devoções características de um mosteiro. Como disse Santa Francisca Romana, ela mesma esposa e mãe: “Uma mulher casada, muitas vezes, deve deixar Deus no altar para encontrá-lo nos cuidados de casa”. Visto que o objetivo final da vivência de qualquer vocação é a união com Deus, no entanto, os casais podem buscar inspiração e encorajamento no estilo de vida monástico, enquanto procuram cultivar uma vida doméstica que honre a Deus e o torne conhecido pelo mundo.

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