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A vida após a morte e o erro das Testemunhas de Jeová
Doutrina

A vida após a morte e o
erro das Testemunhas de Jeová

A vida após a morte e o erro das Testemunhas de Jeová

Devido a uma leitura equivocada das Sagradas Escrituras, as Testemunhas de Jeová não acreditam na vida após a morte tal como a entendemos. De acordo com eles, nossas almas simplesmente “dormem” no além-túmulo, perdendo toda a consciência que tinham.

J. P. NunezTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Gosto de escrever sobre as Testemunhas de Jeová. Eles são uma seita perigosa, que ataca a ignorância das pessoas sobre as Escrituras e a história da Igreja. Por isso, os católicos precisam saber como refutar suas crenças errôneas e argumentos sofísticos. Precisamos ser capazes de defender a nós mesmos e a nossos entes queridos de seu falso evangelho. Então, devemos ter, pelo menos, um pouco de familiaridade com sua teologia característica e as razões pelas quais eles estão erradas.

Normalmente, quando escrevo sobre as Testemunhas de Jeová, concentro-me em sua negação da divindade de Jesus, pois essa é a crença mais conhecida deles. Muitas vezes, é a primeira coisa sobre a qual falam quando batem à sua porta. No entanto, essa é a doutrina mais óbvia, mas não a única falsa que eles ensinam. Eles também defendem uma série de outras crenças errôneas, entre as quais a negação da vida após a morte. De acordo com eles, nossas almas perdem toda a consciência quando morremos, então não existe vida após a morte como normalmente a entendemos.

Céu ou ressurreição? — À primeira vista, isso pode parecer ridículo. O ponto principal do cristianismo não é que Jesus abriu as portas do céu para nós, para que possamos ir para lá quando morrermos? Bem, sim e não. Embora essa explicação não esteja errada, ela não capta a plenitude de nossa esperança como cristãos.

Sim, acreditamos que nossa alma continua viva após a morte, mas o que normalmente pensamos como vida após a morte não é realmente nosso objetivo final. Em vez disso, como professamos todos os domingos na Missa, nosso objetivo final é “a ressurreição dos mortos”. Quando Jesus voltar, no final da história humana, os mortos ressuscitarão como Ele, e desfrutaremos da bem-aventurança eterna com nossos corpos e almas reunidos.

Se lermos as Escrituras com atenção, descobriremos que, na maioria das vezes, quando se fala sobre nossa esperança futura, quase sempre se fala sobre a ressurreição, não uma vida sem corpo no céu (e.g., 1Cor 15, 20-23; 1Ts 4, 14-16). Na verdade, é muito difícil encontrar passagens que falem sobre o que chamamos de céu, então a crença das Testemunhas de Jeová nesse assunto não é tão ridícula quanto pode parecer à primeira vista. Compreende-se o porquê de eles pensarem que a Bíblia ensina a ressurreição ao invés da vida sem corpo, e não a ressurreição junto com a vida sem corpo (antes da ressurreição).

A morte como sono. — Na verdade, existem até algumas passagens que parecem negar qualquer tipo de vida após a morte antes da ressurreição. Por exemplo, a Bíblia muitas vezes descreve a morte como “sono” (At 7, 60; 1Ts 4, 14), e há até uma passagem do Antigo Testamento que diz explicitamente que os mortos não estão cônscios de nada:

Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos de nada sabem. Para eles não há mais recompensa, porque sua lembrança jaz no esquecimento [...] Tudo o que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria (Ecle 9, 5.10).

À primeira vista, essas passagens parecem bastante convincentes. Se a morte é como o sono, e se os mortos “nada sabem” e “não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria”, então devem estar inconscientes. Caso encerrado, certo?

Problemas com os argumentos. — Não exatamente. Embora esses argumentos possam parecer fortes no início, na verdade, eles são muito frágeis. Para começar, vejamos o texto do Eclesiastes. Se o interpretarmos literalmente, também teremos de negar que alguém se lembre dos mortos (“sua lembrança jaz no esquecimento”), mas isso obviamente não é verdade. Não nos esquecemos das pessoas imediatamente quando morrem. Leva gerações para que a memória de alguém se perca e, no caso de pessoas famosas, pode levar séculos ou até milênios.

O autor do Eclesiastes sabia disso, então ele claramente não pretendia que levássemos suas palavras ao pé da letra. Em vez disso, ele estava simplesmente falando hiperbolicamente, exagerando para captar a tragédia da morte. Se ele estava fazendo isso em uma parte da passagem, é lógico que fizesse o mesmo no restante dela também. Ele não quis dizer que os mortos literalmente deixam de existir ou que literalmente não têm consciência de nada. Ele estava simplesmente exagerando para enfatizar o quão ruim realmente é a morte.

Quando nos voltamos para as passagens que descrevem a morte como sono, descobrimos que a interpretação das Testemunhas de Jeová também é incerta. Como sabemos que “dormir” não é apenas um eufemismo, como nossa expressão moderna “falecer”? Usamos esse eufemismo para amenizar um pouco a dor da morte e é perfeitamente possível que os autores bíblicos tenham feito algo semelhante. Na verdade, as Escrituras usam linguagem metafórica com bastante frequência (por exemplo, Jesus não é literalmente uma porta, apesar do que diz em Jo 10, 9), então o mero fato de elas descreverem a morte como sono é inconclusivo; ele é consistente com qualquer um desses pontos de vista. Portanto, se realmente queremos descobrir o que acontece depois da morte, precisamos examinar alguns outros textos menos ambíguos.

O bom ladrão. — Então, o que a Bíblia realmente diz que podemos esperar entre a morte e a ressurreição? É certo que não diz muito, mas se a lermos com atenção, diz mais do que o suficiente para refutar as Testemunhas de Jeová. Vamos começar provavelmente com a história mais famosa de todas as Escrituras: a crucificação de Jesus. Os Evangelhos nos dizem que Jesus foi crucificado entre dois criminosos, e um deles pediu misericórdia a Ele enquanto pendiam em suas cruzes (cf. Lc 23, 42). Em resposta, Jesus prometeu a ele: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43).

“A Crucificação”, por Johannes Stradanus.

Esta é uma declaração muito simples, mas nos diz tudo o que precisamos saber. Se os mortos estão inconscientes e não podem sentir tristeza, felicidade ou qualquer outra coisa, então Jesus estava mentindo e esse homem não foi para o paraíso naquele dia. Em vez disso, ele foi dormir e, mesmo depois de 2 mil anos, Jesus ainda não cumpriu sua promessa.

Mas, sabemos que não é o caso. Jesus não era mentiroso; então, se Ele disse que aquele homem estaria com Ele no paraíso naquele mesmo dia, deve ter sido verdade. A alma desse homem deve ter ido para o que hoje chamamos de céu, e ele deve ter passado a experimentar desde então as alegrias de estar lá, com Deus.

“Com Cristo”. — Vejamos a seguir o ensino de São Paulo sobre o assunto. Como os outros autores do Novo Testamento, ele também diz muito pouco sobre o estado de nossas almas entre a morte e a ressurreição, mas há uma passagem de suas cartas que muito claramente toca nessa questão. No primeiro capítulo de Filipenses, ele diz que está dividido entre dois desejos. Por um lado, deseja permanecer vivo e ajudar as igrejas sob seus cuidados, mas, por outro, também deseja morrer “para estar com Cristo” (Fl 1, 21-24).

O significado desta passagem é difícil de entender, por isso precisamos lê-la com atenção. São Paulo não diz explicitamente que ficará consciente depois de morrer, mas essa é a única maneira de dar sentido ao que ele diz. Se não, por que ele teria um desejo intenso de morrer e estar “com Cristo”? Isso não soa como se ele esperasse ficar inconsciente até a ressurreição. Pelo contrário, ele parece acreditar em que iria para o céu e experimentaria a bem-aventurança de estar com Jesus.

A verdade sobre a vida após a morte. — Existem várias outras passagens que poderíamos examinar também, mas essas duas são o suficiente para encerrar o caso para nós [1]. O ensino claro das Escrituras é que nossa alma permanecerá desperta e consciente depois que morrermos. A Bíblia, é claro, descreve a morte como “sono”, mas isso é apenas um eufemismo, muito parecido com a nossa maneira de dizer que as pessoas “falecem”. Não se trata de uma descrição literal. 

Então, também neste ponto as Testemunhas de Jeová estão erradas. Isso mostra mais uma vez como elas simplesmente distorcem a Palavra de Deus a fim de que se adeque ao seu falso evangelho.

Notas

  1. Lembrando sempre que, diferentemente dos protestantes, nós, católicos, nos guiamos em matéria de fé e moral pelo Magistério da Igreja, e não por um livre exame dos textos das Escrituras. Os Apóstolos — a cujos sucessores estamos sujeitos — receberam autoridade de Cristo Jesus (cf. Lc 10, 16) muito antes que os livros do Novo Testamento fossem escritos e que o cânon definitivo deles fosse estabelecido (N.T.).

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A intercessão dos santos na Bíblia
Doutrina

A intercessão dos santos na Bíblia

A intercessão dos santos na Bíblia

Há diversos indícios bíblicos de que, no Céu, os santos estão bem conscientes do que ocorre na terra. Como morreram em Cristo, eles estão “mais vivos” e têm mais consciência das coisas do que nós. É tolice, pois, excluí-los de nossa vida de oração.

Dave ArmstrongTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Há diversos indícios bíblicos de que, no Céu, os santos estão bem conscientes do que ocorre na terra. Um dos mais claros é este: “Desse modo, cercados co­mo estamos de uma tal nuvem de testemunhas, desvencilhe­mo-nos das cadeias do pecado. Corramos com perseverança ao combate proposto” (Hb 12, 1).

Esse pareceria um bom argumento bíblico contra a negação de que os santos “conhecem nosso atual estado na terra” ou contra a ideia de que, para saberem o que acontece aqui, eles devem estar “próximos da onisciência”. Os santos sabem o que se passa conosco porque se encontram num estado de conhecimento superior ao nosso. Ser mais inteligente ou ter mais consciência não implica, logicamente, algo próximo à onisciência. A posse de muito conhecimento ainda pode estar a milhões de “quilômetros” da posse de todo o conhecimento, ou seja, da onisciência. Trata-se de um falso dilema ou da tentativa de estabelecer uma “falsa equivalência”. 

A Bíblia diz que “julgaremos os anjos” (1Cor 6, 3) e que, “quando isso se manifestar [i.e. o que havemos de ser], sere­mos semelhantes a Deus” (1Jo 3, 2). Jesus disse: “Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22, 30). É razoável supor que, na vida após a morte, teremos um conhecimento no mínimo semelhante ao dos anjos (algo que é, por si só, extraordinário). A Bíblia diz: “Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa” (Lc 15, 10). Quem tem alegria? Quem se regozija? As pessoas que estão no céu! 

Vemos um exemplo de “oração imprecatória” no Céu, pedindo por justiça (cf. Ap 6, 9-11). Observamos homens no Céu (cf. Ap 5, 8) e também anjos (cf. Ap 8, 4) que possuem de algum modo as “orações dos santos”. Por quê? Alguém poderia nos dizer, por obséquio, o que estão fazendo com elas? Por que estão minimamente envolvidos com a oração? Trata-se, claramente, de intercessão.

Se se define “oração” simplesmente como falar com alguém e fazer-lhe um pedido, então sim, nós rezamos aos santos (e devemos fazê-lo!). No mesmo sentido, “rezamos” também aos nossos amigos na terra. Tanto num caso como noutro, porém, pedimos por sua intercessão junto a Deus; não os tratamos como se fossem Deus [1].

Mas se se define “oração” como falar com o único ser que tem, no fim das contas, o poder de dar respostas [efetivas] à oração (que é Deus), então propriamente falando ela é dirigida só a Deus, ainda que através de intermediários.

O problema dos argumentos protestantes contrários à comunhão dos santos é que eles confundem o recurso a intercessores intermediários na oração (isto é, os que já faleceram) com pedidos a eles como se tivessem a capacidade de atender à oração, embora apenas Deus tenha esta prerrogativa e poder.

As orações católicas dirigidas aos santos (entendidas corretamente, de acordo com o dogma católico) pressupõem isso; mas, por não ser algo afirmado com frequência, muitas vezes os protestantes supõe de forma equivocada que os católicos acham que os santos podem atender nossas orações por si mesmos, independentemente de Deus. Essa (um ponto muitíssimo importante) é a falácia ou o equívoco (ou ambos).

Os protestantes podem contestar por que determinados santos têm uma influência especial ou particular junto de Deus, além de orações mais eficazes em áreas específicas (é a nossa noção de santos padroeiros). Mas não há motivos para levantar objeções. A Bíblia ensina claramente que pessoas diferentes têm diferentes níveis de graça (cf. At 4, 33; 2Cor 8, 7; Ef 4, 7; 1Pd 1, 2; 2Pd 3, 18). Parece-me que, por essa razão, alguns deles podem se especializar em certas áreas mais do que outros, de acordo com diferentes partes do Corpo de Cristo (há muitos ensinamentos paulinos sobre isso).

Não vejo razões para considerar essa prática controversa ou questionável. Geralmente, essa doutrina é questionada por causa de excessos que se observam, mas raramente se apresenta contra ela um argumento robusto com base na Sagrada Escritura.  

Permanece ainda o fato de que “a oração do justo tem grande eficácia” (Tg 5, 16). No contexto mais amplo dessa passagem, Tiago afirma: “Elias era um homem pobre como nós e orou com fervor para que não chovesse sobre a terra, e por três anos e seis meses não choveu. Orou de novo, e o céu deu chuva, e a terra deu o seu fruto” (Tg 5, 17s).

“Elias alimentados pelos corvos”, de Guercino.

Não se segue, portanto, que Elias parecia ter uma influência particular sobre o tempo? Logo, por que não poderíamos pedir que ele (e não outra pessoa) rezasse a Deus para melhorar o tempo, uma vez que ele já pediu outras vezes que a chuva fosse interrompida, e isso de fato aconteceu durante três anos e meio? Com isso não se tornou ele, de alguma forma, o “santo padroeiro da meteorologia”?

Fazemos praticamente a mesma coisa nesta vida com nossos amigos, no nível da empatia. Se, por exemplo, uma mulher enfrenta dificuldades com abortos espontâneos, gravidezes ou partos difíceis, ela pode procurar uma mulher que tenha enfrentado as mesmas coisas e pedir-lhe orações por sua situação.

Não vejo aqui nenhuma dificuldade intrínseca. Os católicos nunca negam a ninguém a capacidade de “ir direto a Deus” [2]. Mas afirmamos com Tiago que certas pessoas têm mais poder (também quanto a certas especificidades); logo, é razoável tê-las como mediadoras. Assim, também, na mesma passagem nós vemos alguns “fatores de oração diferenciados”: “Está alguém enfermo? Chame os sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor” (Tg 5, 14).

A passagem não diz: “Vá diretamente a Deus e, se não o fizer, correrá o risco de cair em idolatria”. Não: a pessoa doente é aconselhada a buscar os anciãos para que eles possam rezar e ungir. 

Os mortos em Cristo estão mais vivos e têm mais consciência do que nós; portanto, é tolice excluí-los de nossa vida de oração.

Notas

  1. Fizemos algumas adaptações nesta parte específica do texto, que estava mais obscura, a fim de torná-la mais inteligível (N.T.).
  2. Note-se que, neste particular, os protestantes costumam ser incoerentes: ao mesmo tempo que negam a licitude da oração de intercessão dirigida aos santos, rezam aqui uns pelos outros, confiam a solução de seus problemas à oração e autoridade do “pastor” de sua igreja e, portanto, admitem ao menos tacitamente a licitude de contar com alguma forma de mediação (N.T.).

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Por anos a Eucaristia foi o único alimento deles!
Santos & Mártires

Por anos a Eucaristia
foi o único alimento deles!

Por anos a Eucaristia foi o único alimento deles!

Por ação misteriosa da Providência divina, estes homens e mulheres foram capazes de passar vários anos de sua vida em jejum absoluto. O que os sustentava? Nada menos que o Corpo e Sangue de Jesus Cristo, a única comida que eles tomavam.

Joan Carroll CruzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A fim de preparar você para “A Divina Eucaristia e seus Milagres”, o mais novo curso de nosso site (cujas inscrições já estão abertas e cujo lançamento acontece dia 9 de novembro), deixamos a seguir dois breves relatos — retirados do excelente livro Eucharistic Miracles [1] — contando os extensos e milagrosos períodos de jejum eucarístico que experimentaram dois santos católicos: Catarina de Siena e Nicolau de Flüe.

Quando Nosso Senhor disse, no Evangelho de São João, que quem comesse de sua carne dada em alimento não mais sentiria fome, Ele estava se referindo à nutrição da alma, a um sustento espiritual. Mas para estes santos medievais, dos séculos XIV e XV respectivamente, o Santíssimo Sacramento foi muito mais. Por uma ação maravilhosa da graça de Deus, a própria vida natural deles era mantida pela Eucaristia. 

Diga-se de passagem que não foram eles os únicos a viver assim, se alimentando somente do pão eucarístico, por tão longo tempo. Mais próximas de nós — e ainda em processo de canonização —, passaram pela mesma experiência a Beata Ana Catarina Emmerich († 1824) e a mística Teresa Neumann († 1962), alemãs, bem como a portuguesa Beata Alexandrina de Balasar († 1955):

Em nosso Brasil, merece honrosa menção a Serva de Deus Floripes Dornelas de Jesus (ou, simplesmente, Lola, como era chamada), que morreu em 1999, na cidade de Rio Pomba (MG), e ficou famosa por viver cerca de 60 anos de sua vida alimentando-se apenas de Jesus sacramentado.

Olhando para esses homens e mulheres, verdadeiros milagres de carne e osso, aprendamos a reconhecer e valorizar o milagre que se dá todos os dias na Santa Missa.


O jejum de Santa Catarina de Siena

O jejum de Santa Catarina de Siena († 1380) foi registrado por ninguém menos que um de seus confessores, o Beato Raimundo de Cápua. Na biografia que escreveu de Santa Catarina, ele informa-nos que, após ter uma visão de Nosso Senhor, o alimento material não era mais necessário à santa:

Quando era obrigada a tomar comida, ela ficava tão incomodada que o alimento não permanecia em seu estômago e era impossível descrever suas dores atrozes em tais ocasiões.

No início do jejum, o confessor que na época a assistiu ordenou-lhe que comesse diariamente, mas depois de um tempo a santa lhe perguntou:

Se vês, pelas numerosas experiências de que tens sido testemunha, que estou me matando por tomar o alimento, por que não me proíbes, como me proibirias de jejuar, se o jejum produzisse um resultado semelhante?

Conta-nos o Beato Raimundo que o confessor não conseguiu responder a este argumento e disse a ela: “Doravante, age de acordo com as inspirações do Espírito Santo, pois percebo que Deus está realizando maravilhas em ti” .

Algum tempo depois, quando seu confessor perguntou se ela não tinha apetite, a santa respondeu: “Deus me satisfaz tanto na Santa Eucaristia que é impossível desejar qualquer espécie de sustento corporal”. Ao perguntar se ela não sentia fome nos dias em que não comungava, a santa respondeu: “Só a presença dele é capaz de me saciar, e reconheço que, para ser feliz, basta-me ver um padre que acaba de rezar a Missa”.

Quando o jejum de Santa Catarina se tornou conhecido, muitos a criticaram, e até pessoas religiosas se lhe opuseram. Alguns atribuíram o jejum a “um tipo de vaidade, [diziam] que ela não jejuava realmente, mas se alimentava bem às escondidas”. Outros diziam que ela desejava aparecer e que estava sendo enganada por um demônio. Escreve seu biógrafo:

Catarina estava disposta a apaziguar os murmúrios, e decidiu que todos os dias ela iria ao menos uma vez se sentar à mesa em comum e se esforçar para comer. Embora ela não comesse carne, nem vinho, nem bebida, nem ovos, e nem mesmo tocasse no pão, o que ela tomava — ou melhor, o que ela tentava tomar — causava-lhe tantos sofrimentos que os que a viam, por mais duros que fossem, compadeciam-se dela: seu estômago não conseguia digerir, e rejeitava qualquer coisa que ela ingeria; depois ela sofreu dores terríveis e todo o seu corpo parecia estar inchado; ela não engoliu as ervas que mascou, apenas bebeu de seu suco e rejeitou a sua substância. Ela então tomava água pura para refrescar a boca, mas todos dias era forçada a colocar para fora o que tinha ingerido, e com tanta dificuldade que era necessário ajudá-la de todas as formas possíveis.

O bem-aventurado Raimundo acrescenta: “Como eu testemunhava com frequência esses sofrimentos, senti uma compaixão extrema dela, e aconselhei-a a deixar as pessoas falarem, e a parar com aquela tortura...”

O jejum de São Nicolau de Flüe

O caso de São Nicolau de Flüe, na Suíça, em 1487, é interessante e bem documentado. Nicolau era filho de camponeses e, para uma criança, muito piedoso e progredido espiritualmente. Aos 21 anos ingressou no exército e participou de quatro grandes batalhas.

Seguindo o conselho de seus pais, casou-se aos 25 anos e tornou-se pai de dez crianças. Depois de 25 anos de casados, obteve o consentimento de sua esposa para deixar sua família e viver como eremita. Estabeleceu-se em um vale a apenas uma hora de caminhada de sua casa. Conhecido por lá como Irmão Klaus, viveu na região por 20 anos, até a hora de sua morte, sem ingerir qualquer alimento corporal ou bebida.

Um ano depois da morte de São Nicolau, o padre Oswald Isner, cura de Kerns, revelou que, quando o santo começou sua vida de abstinência total e atingiu o 11.º dia:

Mandou me chamar e perguntou-me privadamente se devia comer algo ou continuar a abster-se. Ele queria viver totalmente sem comida para afastar-se do mundo. Eu toquei seus membros e encontrei apenas pele e osso; toda a carne tinha morrido, suas bochechas estavam ocas, e seus lábios espantosamente magros. Eu disse a ele para perseverar enquanto pudesse, sem colocar sua vida em risco. Porque se Deus o tinha sustentado por 11 dias, Ele poderia sustentá-lo por 11 anos. Nicolau seguiu meu conselho; e daquele momento até o dia da sua morte, por um período de 20 anos e meio, ele não tomou nenhum tipo de comida ou bebida. Como estava mais familiarizado comigo do que com qualquer outra pessoa, eu sempre falava com ele sobre o assunto. Ele me dizia que recebia o sacramento uma vez por mês e sentia que o Corpo e o Sangue de Cristo comunicavam as forças vitais que lhe serviam de comida e bebida; caso contrário, ele não poderia sobreviver sem alimento.

Para testar a autenticidade do completo jejum do santo, o bispo de Ascalon fixou residência numa cela adjacente para observá-lo. Após muitos dias, o bispo mandou Nicolau comer um pãozinho e beber um pouco de vinho. Mas a agonia do santo, após obedecer à ordem, foi tão grande que o bispo não o pressionou mais, e declarou que a obediência de Nicolau provava que ele era um “filho da graça”.

O Arquiduque Sigismundo da Áustria enviou o médico real, Burchard von Horneck, para examinar o caso. Até o Imperador Frederico III enviou delegados para investigar a matéria. Ambos comprovaram ser autêntico o jejum do santo.

Referências

  1. Joan Carroll Cruz, Eucharistic Miracles and Eucharistic Phenomena in the Lives of the Saints. Charlotte: TAN Books, 2010, pp. 234-237.

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Um grande desafio: a catequese sobre o Purgatório
Doutrina

Um grande desafio:
a catequese sobre o Purgatório

Um grande desafio: a catequese sobre o Purgatório

Há um grupo especial de pessoas que os catequistas encontrarão com frequência e para os quais o Purgatório é um assunto particularmente sensível: são os convertidos do protestantismo à fé católica. Como falar a eles dessa doutrina da Igreja?

James AkinTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 13 minutos
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O que é Purgatório? Esta pergunta surge em praticamente todo tipo de catequese — seja oferecida aos que já estão na Igreja ou aos que estão em processo de adesão. Em sala de aula, um catequizando poderia ganhar pontos fáceis com seus colegas (embora provavelmente não com os professores) respondendo que a própria catequese é um purgatório. Com certeza foi assim que me senti no curso de iniciação cristã para adultos que fiz ao entrar na Igreja, e muitos outros também.

Uma metáfora.Há até um certo sentido em que a metáfora da catequese pode funcionar. A catequese muitas vezes envolve preparar-nos para um novo estado na vida — o estado de um comungante, o estado de um crismado, o estado de pertença à Igreja. O propósito do Purgatório é nos preparar para o Céu.

Em ambos os casos, há um processo para nos ajudar a superar coisas que nos impediriam de entrar no novo estado. A catequese está focada diretamente em ensinar a fé (a ignorância dela ou a descrença são incompatíveis com o novo estado da pessoa). Com isso, também somos encorajados a abandonar padrões de comportamento pecaminosos (que são incompatíveis com a fé). O Purgatório se concentra diretamente na remoção das consequências que ficam dos pecados que cometemos em vida (sendo estes incompatíveis com o estado do Céu). Pelo que sabemos, também pode desempenhar um papel de corrigir ideias errôneas sobre a fé que alguém inocentemente sustentou em vida (sendo também estas inconsistentes com o estado do Céu).

Em ambos os casos, o processo de preparação para o novo estado nem sempre é agradável. Embora tanto a catequese quanto o Purgatório possam envolver alegria (respectivamente, a alegria de descobrir a fé e a de saber com certeza que se estará no Céu), o abandono de crenças nocivas e maus hábitos não é prazeroso. Por esta razão, convém rezar pelos que estão se preparando para seu novo estadoseja na sala de aula ou no Purgatório.

Limites da metáfora. — Mas nenhuma metáfora deve ser sustentada além de seus limites, e há limites definidos para esta. Dois em particular vêm à mente: primeiro, porque Deus está diretamente no controle do Purgatório, ele sempre funciona. Todos que vão ao Purgatório acabam indo para o Céu e ficando totalmente preparados para isso. Com a catequese, essa garantia não existe. Os que estão na catequese podem não entrar no estado para o qual estão sendo preparados (podem abandonar o caminho) ou podem não ficar devidamente preparados para o estado, mesmo que nele entrem (por causa de uma catequese deficiente).

“Nossa Senhora com o Menino Jesus, São Nicolau de Tolentino e as Almas do Purgatório”, de Bartolomeo Guidobono.

Em segundo lugar, mais uma vez, porque Deus está diretamente no controle do Purgatório, qualquer desconforto sentido pelos que nele estão é resultado de suas próprias escolhas erradas. Com a catequese, essa garantia não existe. Os catequistas podem aumentar o desconforto de seus alunos de várias formas — deixando de explicar com precisão a fé católica; explicando-a com precisão, mas de maneira confusa; ou deixando de adaptar a apresentação que fazem da fé às necessidades e preocupações de seus alunos.

(Um exemplo particularmente imperdoável deste último é a prática, em muitas paróquias, de “nivelar” todos os alunos por meio de um programa completo de iniciação para adultos, independentemente de sua origem. Uma pessoa que viveu por anos como membro ativo, devoto e catequizado de outra comunidade cristã tem necessidades catequéticas bem diferentes das de uma pessoa que nunca viveu como cristã.)

Ao cumprir sua tarefa, os catequistas devem ter em mente a advertência de São Tiago: quem se dá ao ofício de ensinar será julgado mais severamente (cf. Tg 3, 1). Os catequistas devem transmitir a fé católica de maneira precisa, clara e adequada às necessidades de seus alunos.

Purgatório e protestantismo. — Para este fim, existe um grupo especial de pessoas que os catequistas encontrarão com frequência e para os quais o Purgatório é um assunto particularmente sensível: são os convertidos do protestantismo à fé católica [1].

Embora a seção sobre o Purgatório no Catecismo da Igreja Católica tenha apenas três parágrafos (§ 1030-1032), a doutrina se apresenta como algo bem maior na mente de muitos protestantes. Isso porque o assunto do Purgatório foi uma das doutrinas a que os reformadores protestantes mais se opuseram. Ela até encontrou lugar nas 95 Teses de Martinho Lutero, ao contrário de outros conceitos, como o da justificação. À medida que as igrejas estatais protestantes foram estabelecidas e iniciadas, a reeducação forçada da população católica assumiu um lugar de destaque na pregação popular.

Esse é o caso até hoje. Sempre que a Igreja Católica é criticada em círculos protestantes — especialmente nos conservadores —, a doutrina do Purgatório está quase invariavelmente entre as dez principais “doutrinas antibíblicas” das quais a Igreja Católica é acusada. Isso significa que, para muitos candidatos à recepção na Igreja Católica, o assunto do Purgatório será particularmente sensível — um assunto sobre o qual eles poderão ter ouvido muitas críticas.

Por isso, os catequistas devem ter um cuidado especial ao apresentar a doutrina do Purgatório. Pois é muito fácil, por não compreender as preocupações especiais que os ex-protestantes têm sobre o Purgatório, o catequista confirmar alguns de seus piores temores com relação à Igreja, por meio de uma apresentação descuidada do ensinamento católico. Ao falar do Purgatório, é preciso proceder com cuidado.

Alguns falsos princípios. — Claro, uma tentação à qual os catequistas não devem ceder — sabendo que os ex-protestantes podem ser resistentes à doutrina — é minimizá-la. Desejando que a doutrina não seja uma pedra de tropeço para seus alunos, os catequistas podem facilmente dizer: “Dos quase 3 mil parágrafos do Catecismo, apenas três são dedicados ao Purgatório. Esta é uma doutrina muito sem importância”. Alguns catequistas podem ser tentados a retratá-la como uma crença opcional ou (pior ainda) como “algo em que não acreditamos mais”. Ambas as abordagens estão erradas porque se baseiam em uma premissa falsa: que o Purgatório não faz parte da doutrina em que os católicos devem acreditar.

A seção no Catecismo sobre o Purgatório é suficiente para demonstrar falsa a alegação de que “não acreditamos mais nisso”. E, embora seja verdade que a doutrina do Purgatório não está nem perto do topo da “hierarquia das verdades”, ela é todavia uma verdade — e uma que o Magisterium propôs infalivelmente à fé dos católicos. Os Concílios de Florença e Trento definiram infalivelmente a existência do Purgatório como um artigo de fé, então esta não é uma crença opcional. E ela tem consequências práticas, pois os que estão cientes da realidade do Purgatório provavelmente tomarão medidas para evitá-lo ou diminuí-lo, tanto para si quanto para os outros.

Ensino versus especulação. — Outro erro ao discutir a doutrina do Purgatório é confundir o que a Igreja ensina a esse respeito com a forma através da qual esse ensino tem sido comumente elaborado. Existem muitos elementos nas explicações comuns do Purgatório que são, de fato, especulação teológica ou metáfora, e não ensino da Igreja [2].

O que a Igreja ensina é que há uma purificação que ocorre após a morte para todos os que morrem na amizade de Deus, mas que não foram suficientemente purificados para a glória do Céu. Essa purificação pode envolver algum tipo de dor ou desconforto. E os fiéis na terra podem ajudar os que estão sendo purificados — através de suas orações, por exemplo, e da Missa.

A maioria das coisas adicionais que se ouve sobre o Purgatório são especulações teológicas ou metáforas. Por exemplo, a ideia de que o Purgatório ocorre em um “lugar” especial na vida após a morte é uma matéria de especulação. Nós não sabemos disso. E, por falar nisso, não sabemos como os conceitos de “lugar” ou “espaço” funcionam na vida após a morte.

Da mesma forma, a discussão sobre indivíduos que passam algum tempo no Purgatório também deve ser entendida com nuances. Assim como não sabemos como o espaço funciona no estado intermediário entre a morte e a ressurreição, também não sabemos como o tempo funciona. A doutrina comum entre teólogos medievais, como Santo Tomás de Aquino, é que os mortos existem num estado em que compartilham algumas das propriedades do tempo e algumas das propriedades da eternidade, sem que seja idêntico, porém, tanto a uma quanto a outra. De nossa perspectiva neste mundo, limitada pelo tempo, o Purgatório pode ser instantâneo, tendo uma “duração” existencial ao invés de temporal.

A Igreja também não diz ser literalmente verdadeira a imagem do Purgatório como um fogo purificador. O Catecismo observa apenas que, “fazendo referência a certos textos da Escritura, a tradição da Igreja fala de um fogo purificador” e enfatiza que essa purificação é “completamente distinta do castigo dos condenados” (§ 1031). Isso sugere uma reserva considerável em relação à imagem do fogo no Purgatório [3].

“Onde está isso na Bíblia?” — Uma das questões mais urgentes que um convertido do protestantismo provavelmente terá sobre o Purgatório é onde ele pode ser fundamentado na Bíblia. Há várias passagens que merecem ser mencionadas.

Uma das mais famosas está no Segundo Livro dos Macabeus (12, 32-45), onde lemos que Judas Macabeu rezou e fez com que fosse oferecido um sacrifício por alguns de seus homens, que foram mortos lutando pelo Senhor. Era o equivalente, hoje, a rezar pelos mortos e mandar que se celebre uma Missa por eles.

O texto é explícito ao dizer que Judas Macabeu rezou e ofereceu sacrifícios “para implorar-lhe o perdão completo do pecado cometido” (v. 42) e para que os soldados “mortos fossem livres de suas faltas” (v. 46). O pecado em questão era o de usar amuletos pagãos, embora eles estivessem lutando pela causa do Senhor — como um soldado católico na batalha usando supersticiosamente um ankh egípcio, um yin-yang taoísta ou outro símbolo não-cristão como amuleto da sorte. O texto observa que os homens caídos de Judá “morrem piedosamente” (v. 45), pois estavam lutando pelo Senhor; eles simplesmente o fizeram com uma mistura de superstição. Cometeram um pecado venial, embora fundamentalmente estivessem do lado certo.

O texto prevê, portanto, que alguém pode morrer em estado de graça, mas ainda assim carregar as consequências temporais (temporárias, não eternas) dos pecados. Também prevê que as ações dos vivos (oração e sacrifício) podem ajudar os que se encontram nessa condição. Por essa razão, a passagem traz uma demonstração particularmente útil dos princípios envolvidos nos ensinamentos e na prática da Igreja com relação ao Purgatório.

Tão útil, de fato, que os reformadores protestantes julgaram necessário excluir este livro da Bíblia como uma forma de minar o ensino e a prática da Igreja. Isso significa que alguns convertidos do protestantismo vão hesitar em apelar para essa passagem, pois ela não está nas Bíblias que eles estão acostumados a usar. Para isso, existem três respostas.

A primeira seria esclarecer que este livro foi incluído nas Escrituras desde o início da história cristã. O Segundo Livro dos Macabeus faz parte da Septuaginta (o Antigo Testamento grego), que é a versão da Escritura que os Apóstolos e outros autores do Novo Testamento citaram mais de 80% das vezes. Além disso, algumas passagens do Novo Testamento aludem especificamente a este livro (Hb 11, 35b, por exemplo, refere-se a 2Mc 7). Quando se reuniram os primeiros concílios, que determinaram o cânon das Escrituras (como o concílio de Roma em 382 d.C., o primeiro a tratar do assunto), II Macabeus foi incluído na lista de livros junto com todos os outros. Foi para evitar essa doutrina que os reformadores protestantes acharam necessário remover das Escrituras um livro que antes fôra quase universalmente homenageado.

O segundo ponto é que II Macabeus é um livro pré-cristão, judaico. Portanto, não é nenhuma surpresa descobrir que os judeus, hoje, rezam por seus entes queridos que partiram. Por quase um ano após a morte de um falecido, os judeus devotos rezam uma oração conhecida como o Kadish dos Enlutados (a “Bênção do Enlutado”), pela purificação de seus entes queridos. A crença no Purgatório — uma purificação póstuma — faz parte da verdadeira religião desde antes da época de Cristo! Os judeus a aceitam, os católicos a aceitam, os ortodoxos orientais a aceitam, as outras Igrejas orientais a aceitam. Apenas as comunidades protestantes, que surgiram nos últimos 500 anos, a questionam.

A terceira resposta é mostrar que existem várias passagens do Novo Testamento, além de II Macabeus, que apoiam a doutrina do Purgatório. Esses textos refletem o fato de que, mesmo que o pecado seja perdoado, consequências dolorosas ainda precisam ser enfrentadas após a morte, antes que o indivíduo entre definitivamente na glória do Céu. Incluem-se as passagens em que Jesus alude ao pecado que não será perdoado nem nesta vida nem na próxima (cf. Mt 12, 32), sugerindo que alguns podem ser perdoados na próxima vida; e o aviso de que, depois de enfrentar o julgamento de Deus, uma pessoa pode ser punida até ter “pago o último centavo” (Mt 5, 26), sugerindo que, depois de pagar o último centavo, ela não mais será mais punida.

Um dos textos mais claros relativos ao Purgatório é 1Cor 3, 12-15, onde São Paulo adverte que “o fogo provará o que vale o trabalho de cada um” (v. 13). Quando se realizar esta prova de fogo, “se a construção resistir, o cons­trutor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo” (vv. 14-15). Escapar através das chamas não é uma coisa prazerosa. Assim, o Apóstolo indica que é possível chegar ao Céu, mesmo não seja a leve a provação por que se passe após a morte.

Pode-se salientar também que estaremos totalmente livres do pecado quando estivermos com Deus no Céu. De fato, as Escrituras dizem, a respeito de Deus: “Vossos olhos são por demais puros para verem o mal, não podeis contemplar o sofrimento” (Hab 1, 13); e a respeito da cidade celestial: “Nela não entrará nada de profano” (Ap 21, 27). Visto que muitos (a maioria!) de nós ainda nos encontramos bastante impuros na hora da morte, isso significa que, entre a morte e a glória, deve haver uma purificação.

Santificação. — Esse reconhecimento abre uma via importante para tornar inteligível, à mente protestante, o conceito de Purgatório. Embora a teologia católica use com frequência os termos justificação e santificação de uma maneira ampla e parcialmente coincidente, a teologia evangélica costuma traçar uma linha nítida entre as duas. Quando isso é feito, afirma-se muitas vezes que a justificação se refere ao perdão dos pecados, enquanto a santificação se refere à purificação de nosso comportamento, para que não cometamos mais pecados. (Isso não está totalmente de acordo com o uso desses termos na Bíblia, mas isso é outro assunto.)

Devido a esse uso, é possível explicar o Purgatório em categorias familiares aos protestantes. Mesmo depois de termos sido perdoados, ainda existem tendências e consequências pecaminosas que precisam ser enfrentadas. Mesmo após a justificação, haverá santificação.

Visto que seremos totalmente santificados (santos) no Céu, se morrermos imperfeitamente santificados, devemos ter nossa santificação consumada antes de entrarmos na glória do Céu. Se essa mudança tem alguma duração ou se é instantânea (como será para os cristãos que estiverem vivos no último dia; cf. 1Cor 15, 51-53; 1Jo 3, 2), a Igreja não diz [4]. Diz apenas que a transformação ocorre e que seremos completamente santificados.

O Purgatório, então, pode ser visto como o último estágio da santificação, quer aconteça ao longo do “tempo” ou todo de uma vez. E isso responde a outra dificuldade protestante comum a respeito do Purgatório: a questão de saber se ele “prejudica” a obra de Cristo. Os próprios protestantes reconhecem que, enquanto o perdão é uma coisa instantânea, a santificação é um processo. Isso não diminui todavia a obra de Cristo, que é, de fato, fortalecida e possibilitada por essa obra. Embora os protestantes geralmente vejam a santificação como um processo e a obra de Cristo como instantânea, a morte de Jesus na cruz é a causa de nossa santificação.

A linha de fundo é esta: tudo é graça de Deus. Toda ela nos vem por causa da morte de Cristo. Sem Ele, estaríamos condenados, mas, por causa de seu amor por nós, podemos ser perdoados e santificados, seja de uma vez ou não.

Uma coisa permanece verdadeira: quando estivermos unidos a Deus no Céu, estaremos totalmente perdoados e santificados, ambas as coisas. Se morrermos com o primeiro, mas sem o segundo, Deus garantirá que recebamos o dom da santidade completa antes de estarmos com Ele na glória.

Notas

  1. O autor fala a partir dos Estados Unidos, de colonização protestante. Mas, considerando a expansão cada vez maior das seitas anticatólicas em nosso país, não se pode ignorar, também aqui, o impacto que podem ter as doutrinas mantidas exclusivamente pela Igreja Católica — como o Purgatório (N.T., bem como as próximas).
  2. Cf., v.g., Ludwig Ott, Manual de teología dogmática. 7.ª ed. Barcelona: Herder, 1969, pp. 707ss.
  3. “À pena de dano [no purgatório] se acrescenta — segundo doutrina geral dos teólogos — a pena de sentido. Tendo em conta a passagem de 1Cor 3, 15, os Padres latinos, os escolásticos e muitos teólogos modernos supõem a existência de um fogo físico como instrumento externo de castigo. Mas notemos que as provas bíblicas aduzidas em favor desta sentença são insuficientes. Os concílios, em suas declarações oficiais, somente falam das penas do purgatório, não do fogo do purgatório. Fazem-no assim por consideração aos gregos separados, que rechaçam a existência do fogo purificador” (Ludwig Ott, op. cit., p. 710).
  4. Sobre “como serão purificados os justos que estejam vivos quando sobrevier o fim do mundo”, cf. Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la salvación. Madrid: BAC, 1961, p. 442. Santo Tomás ensina a esse respeito que “poderão ser instantaneamente purificados os que estiverem vivos por ocasião da conflagração universal”. Entre outras razões, porque “pouco precisarão de ser purificados, depois de já o terem sido pelos terrores e perseguições precedentes” e porque “o calor desse fogo [da conflagração final] ganhará em intensidade o que perder pela abreviação do tempo” (Suppl. 74 8, ad 5).

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