Padre Paulo Ricardo
CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
“Caos e trevas” da Idade Média
Educação

“Caos e trevas” da Idade Média

“Caos e trevas” da Idade Média

Pela Idade Média professamos sempre a maior veneração, nela saudando uma das mais férteis e gloriosas quadras do espírito humano. Se ela foi em algum momento um caos, confesse-se ao menos: sobre aquela escuridão pairava o espírito de Deus.

Carlos de Laet17 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
imprimir

A Idade Média! “Época de trevas, caos em que se imergiram as luzes da antiga civilização, pulverizada pelo formidável embate dos bárbaros…”. Com estas e outras declamações parece-nos estar ouvindo algum pedante que só tenha aprendido da história o que rezam os manuais franceses, e que da tomada da Bastilha faça datar a carta de alforria do gênero humano.

Pois muito em verdade vos dizemos que pela Idade Média professamos sempre a maior veneração, nela saudando uma das mais férteis e gloriosas quadras do espírito humano.

Se na Idade Média definitivamente se afundou o gênio antigo, foi para abrir lugar às civilizações oriundas do Evangelho e que tinham de alagar o mundo, não para destruí-lo qual novo dilúvio, mas para impregná-lo de futurosas colheitas, como no vale egípcio as inundações do rio benfazejo.

Se a Idade Média foi nalgum momento um caos, confessai ao menos que sobre aquela escuridão pairava o espírito de Deus, a cuja voz não tardou o abismo a estremecer banhado em luz...

Percorramos em brevíssima sinopse as diversas províncias do saber humano, e em todas elas veremos como brilhou o inculcado período das trevas.

“Santo Tomás de Aquino”, por José Risueño.

Na filosofia brevemente haveremos de aludir a Santo Agostinho, qualificado por Villemain como um dos gênios mais vastos e prontos de que se gloria a humanidade; Escoto Erígena, continuador do neoplatonismo eclético de Alexandria, preparador do realismo escolástico, engenho transviado nos devaneios do panteísmo, mas certamente poderoso engenho e talvez inspirador das atrevidas imaginações de Espinosa; Santo Anselmo, que antes de Bacon proclamou a aliança necessária entre a fé e a razão; Roscelino, seu adversário, e que até à heresia foi arrastado pelo calor na defesa das doutrinas nominalistas; Abelardo, mais célebre pelas suas românticas aventuras do que pelo valor dialético que dele fez um dos primeiros professores da Europa; S. Bernardo, seu infatigável antagonista e de Pedro de Bruys e de Arnaldo de Bréscia, campeão da tolerância em prol dos judeus perseguidos e que preencheu a vida impugnando cismas, reconciliando príncipes e consolando povos; S. Tomás de Aquino, o Anjo da Escola, cujas obras, no dizer de Cousin, são um dos maiores monumentos erguidos pela humana inteligência, e no Concílio de Trento figuraram entre os livros dignos de consulta logo após as Sagradas Escrituras... Para que mais nomes depois destes?

Olhai para as letras. Enquanto lá dentro dos mosteiros e casas pias zelosamente se guardam os primores da antiguidade que, a seu tempo divulgados, devem produzir os portentos da Renascença, cá por fora poeta o povo pela boca dos seus trovadores e minnesingers. Na Alemanha são os Niebelungen, na Espanha o Poema do Cid e o Romancero, em França a Canção de Rolando — pedindo meças todos eles às epopéias homéricas na opulência da invenção e na sublime simplicidade, verdadeiras Ilíadas sem Homero, como acertadamente lhes chamou alguém.

Mais tarde, porém ainda dentro do período medieval, vemos na Itália Dante precedido por seu mestre Brunetto Latini; e Petrarca, ainda medievo, posto que já tomado pelo movimento da Renascença: Dante e Petrarca, isto é, o poema épico e a composição lírica em suas mais arrojadas e formosas construções.

Que diremos então da poesia onde exclusivamente se fazia sentir a inspiração cristã? Dos cânticos de Giovani Mariconi, mais conhecido por S. Francisco de Assis, do Stabat Mater de Jacopone de Todi, ou do Dies Irae de Tomás Celano, obras primas entre as que mais o são, eternos acentos de piedade ou inextinguíveis gritos de dor, que vão atravessando os séculos e constantemente repetidos pela devoção?

Se das letras nos trasladarmos ao domínio das ciências, a começar pela jurisprudência, haveramos de reconhecer, com Muratori e Savigny, a permanência do direito romano, que, à sombra das instituições eclesiásticas, subsistiu em toda a Europa Medieval de par com as bárbaras leis dos vencedores; e posteriormente assistiremos, na cultíssima Bolonha, e sob o influxo do letrado Irnério, à renovação dos estudos jurídicos e à formação daquela erudita escola que principiou por Acúrsio, o ídolo dos jurisconsultos, para terminar em Bartolo, hoje esquecido, mas que por muitos anos teve após si e suas glosas a longuíssima cauda dos Bartolistas. Em o nosso século das luzes muito pasma que por mulheres estejam sendo cultivados o direito ou a medicina; e todavia, durante a escuridão medieval, Novella, filha de Giovanni d’Andréa, professor bolonhês, substituía o pai na sua cátedra magistral da Universidade, e ali professava o direito, mal escondida por uma cortina que, di-lo ingênuo cronista, tinha por objeto impedir que a gentileza da preletora absorvesse a atenção dos estudantes.

Em Salerno um refugiado, o monge cartaginês Constantino, vertia os autores de medicina gregos e árabes, e assim preparava o florescimento da escola cuja popularidade ainda subsiste, perpetuada por célebre coleção de preceitos sanitários. E aí também com os homens emulavam as damas, de uma das quais guardou a memória Orderico Vital, assegurando que com ela dificilmente competiam os esculápios do seu tempo.

Nem somente na Itália. Na península irmã, a ibérica, que arraigado preconceito nos mostra civilizada pela invasão maometana, está hoje provado que muito ao contrário foram os invadidos que poliram os invasores. A cultura hispano-muçulmana, como pondera o douto catedrático granadense Eguilaz e Yanguas, baseando-se nos estudos de Xavier Simonet e outros, não foi obra dos árabes, mas dos renegados cristãos, judeus e mozarabes que foram primeiro os validos e logo os diretores intelectuais dos emires e califas, a quem forneceram a flor dos poetas, retóricos e historiadores [1]. E que copiosa e esplêndida florescência, essa desabrochada no generoso terreno de Espanha! No palácio de Hescham, o 2.o. Ommiada, incompleto catálogo mencionava quarenta e quatro mil volumes. O autor de um dicionário biográfico do XIII século cita mil e duzentos historiadores, cada qual em sua especialidade. Gramática, poesia, eloqüência, política, direito, teologia, ciências naturais — tudo figura nos mil e oitocentos manuscritos da época, ainda hoje conservados na biblioteca do Escorial e insignificantes restos da enorme coleção estragada pelo incêndio de 1672. Eis o obscurantismo da Idade Média na atrasadíssima península espanhola!

“São Domingos”, retratado por Fra Angelico.

Um lance de olhos às belas-artes. Na pintura é Fra Angélico ou Giovanni da Fiosole, rejeitando o arcebispado de Florença, para fazer da pintura uma suprema elevação a Deus, e realizando na miniatura como nas grandes composições o ideal da beleza cristã; são Huberto e sobretudo João Van Eick, criando a pintura a óleo, e cultivando com igual excelência o retrato, a história, a paisagem, os animais e as flores; é, finalmente, Masaccio, o sublime extravagante, em cujos quadros aprenderam Rafael e Miguel Ângelo.

Foi durante a Idade Média que se cobriu a Europa dessas magníficas igrejas, que ainda hoje são o orgulho de tantas cidades: Nossa Senhora de Paris, Santa Gudula de Bruxelas, as catedrais de Burgos, de Toledo, de Estrasburgo, onde em 1277 o arquiteto Erwin atirava a cento e quarenta e dois metros de altura a soberba flecha do edifício; e a Batalha, esse edifício de pedra entoado sobre a vitória de Aljubarrota...

Em 1378 Schwartz revoluciona a arte da guerra, ou inventando a pólvora, como querem alguns, ou ensinando aos venezianos a aumentar o cumprimento dos canhões; Flavio Gioja descobre ou divulga a bússola e assim depara seguro guia para longínquas viagens; Gutemberg, Faust e Schoeffer operam a transição da gravura de letras para a imprensa de caracteres móveis e espalham pelo mundo os conhecimentos arquivados nos pergaminhos dos eruditos... Que movimento e que luz no malsinado período das trevas!

Se o Renascimento se inicia com as prodigiosas descobertas de Vasco da Gama e de Colombo, não esqueçamos que já em 1448 o sumo pontífice Nicolau V, pela bula Ex injuncto, que figurou na exposição histórico-européia de 1892, fitava os olhos de sua evangélica solicitude nas terras glaciais da Groelândia e aos bispos de Skalholt e de Hola assinalava a existência de povos pagãos e propínquos àquelas regiões. A América, pela Groelândia conhecida em 986, pela Terra Nova percorrida no ano 1000 e ainda pelo Vinland que provavelmente corresponde ao atual estado de Massachussets — a América, dizíamos, é também uma conquista da barbaria medieval.

Henrique, o Navegador, ínclito filho de D. João I de Portugal.

À Idade Média pertence ainda aquela pensativa e simpática figura de Henrique, o Navegador, sob cujas instruções, de 1419 a 1447, se foram descobrindo Madeira, os Açores, o Cabo Bojador e o Verde, e que em 1438 lançava na escola de Sagres os fundamentos do poderio marítimo português...

Isto pelo caminho do Oceano, pois que por terra e muito antes já Marco Polo atravessava toda a Ásia, desde a Armênia até ao Japão; Rubruquis, enviado por Luís IX para catequizar a Tartária, esclarecia a Europa sobre os costumes dos mongóis; e Plano Carpino atingia em suas pregações o coração da Tartária, passando além do Kithai ou Kashgar.

Quanto aos progressos da liberdade política, um só reparo e por satisfeitos os danos. Leia-se a Magna Carta, pedra angular do direito constitucional inglês: “Nenhum homem livre seja capturado ou metido na cadeia, ou desapossado, ou desterrado, ou de qualquer modo seja privado de qualquer propriedade sua, ou da sua liberdade ou de seus livres hábitos; nem contra ele iremos, nem o faremos prender, se não pelo julgamento legal dos seus pares, ou segundo a lei do país”. Acordava-se nisto em 1215; e preciso é que decorram quase cinco séculos para chegarmos à lei dos suspeitos da Revolução Francesa...

Eis o que foi a Idade Média, tão increpada de obscurantismo, como que para expiar perante o livre pensamento moderno o crime de sua fé cristã, sob cujo amparo realizou tantos e tais cometimentos...

Referências

  1. Leopoldo de Eguílaz y Yanguas. In: Glossario etimologico de las palabras españolas. Granada: La Lealtad, 1886, p. IX. E logo acrescenta: “Se os árabes, cuja incapacidade para o exercício das artes e das ciências reconhece o próprio Aben Jaldun, tivessem sido os realizadores daquela civilização, como se lastimar que a África, presa também a seu domínio, vegetasse na barbaria até que os espanhóis lhes transmitissem sua cultura?”

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A vida após a morte e o erro das Testemunhas de Jeová
Doutrina

A vida após a morte e o
erro das Testemunhas de Jeová

A vida após a morte e o erro das Testemunhas de Jeová

Devido a uma leitura equivocada das Sagradas Escrituras, as Testemunhas de Jeová não acreditam na vida após a morte tal como a entendemos. De acordo com eles, nossas almas simplesmente “dormem” no além-túmulo, perdendo toda a consciência que tinham.

J. P. NunezTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
imprimir

Gosto de escrever sobre as Testemunhas de Jeová. Eles são uma seita perigosa, que ataca a ignorância das pessoas sobre as Escrituras e a história da Igreja. Por isso, os católicos precisam saber como refutar suas crenças errôneas e argumentos sofísticos. Precisamos ser capazes de defender a nós mesmos e a nossos entes queridos de seu falso evangelho. Então, devemos ter, pelo menos, um pouco de familiaridade com sua teologia característica e as razões pelas quais eles estão erradas.

Normalmente, quando escrevo sobre as Testemunhas de Jeová, concentro-me em sua negação da divindade de Jesus, pois essa é a crença mais conhecida deles. Muitas vezes, é a primeira coisa sobre a qual falam quando batem à sua porta. No entanto, essa é a doutrina mais óbvia, mas não a única falsa que eles ensinam. Eles também defendem uma série de outras crenças errôneas, entre as quais a negação da vida após a morte. De acordo com eles, nossas almas perdem toda a consciência quando morremos, então não existe vida após a morte como normalmente a entendemos.

Céu ou ressurreição? — À primeira vista, isso pode parecer ridículo. O ponto principal do cristianismo não é que Jesus abriu as portas do céu para nós, para que possamos ir para lá quando morrermos? Bem, sim e não. Embora essa explicação não esteja errada, ela não capta a plenitude de nossa esperança como cristãos.

Sim, acreditamos que nossa alma continua viva após a morte, mas o que normalmente pensamos como vida após a morte não é realmente nosso objetivo final. Em vez disso, como professamos todos os domingos na Missa, nosso objetivo final é “a ressurreição dos mortos”. Quando Jesus voltar, no final da história humana, os mortos ressuscitarão como Ele, e desfrutaremos da bem-aventurança eterna com nossos corpos e almas reunidos.

Se lermos as Escrituras com atenção, descobriremos que, na maioria das vezes, quando se fala sobre nossa esperança futura, quase sempre se fala sobre a ressurreição, não uma vida sem corpo no céu (e.g., 1Cor 15, 20-23; 1Ts 4, 14-16). Na verdade, é muito difícil encontrar passagens que falem sobre o que chamamos de céu, então a crença das Testemunhas de Jeová nesse assunto não é tão ridícula quanto pode parecer à primeira vista. Compreende-se o porquê de eles pensarem que a Bíblia ensina a ressurreição ao invés da vida sem corpo, e não a ressurreição junto com a vida sem corpo (antes da ressurreição).

A morte como sono. — Na verdade, existem até algumas passagens que parecem negar qualquer tipo de vida após a morte antes da ressurreição. Por exemplo, a Bíblia muitas vezes descreve a morte como “sono” (At 7, 60; 1Ts 4, 14), e há até uma passagem do Antigo Testamento que diz explicitamente que os mortos não estão cônscios de nada:

Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos de nada sabem. Para eles não há mais recompensa, porque sua lembrança jaz no esquecimento [...] Tudo o que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria (Ecle 9, 5.10).

À primeira vista, essas passagens parecem bastante convincentes. Se a morte é como o sono, e se os mortos “nada sabem” e “não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria”, então devem estar inconscientes. Caso encerrado, certo?

Problemas com os argumentos. — Não exatamente. Embora esses argumentos possam parecer fortes no início, na verdade, eles são muito frágeis. Para começar, vejamos o texto do Eclesiastes. Se o interpretarmos literalmente, também teremos de negar que alguém se lembre dos mortos (“sua lembrança jaz no esquecimento”), mas isso obviamente não é verdade. Não nos esquecemos das pessoas imediatamente quando morrem. Leva gerações para que a memória de alguém se perca e, no caso de pessoas famosas, pode levar séculos ou até milênios.

O autor do Eclesiastes sabia disso, então ele claramente não pretendia que levássemos suas palavras ao pé da letra. Em vez disso, ele estava simplesmente falando hiperbolicamente, exagerando para captar a tragédia da morte. Se ele estava fazendo isso em uma parte da passagem, é lógico que fizesse o mesmo no restante dela também. Ele não quis dizer que os mortos literalmente deixam de existir ou que literalmente não têm consciência de nada. Ele estava simplesmente exagerando para enfatizar o quão ruim realmente é a morte.

Quando nos voltamos para as passagens que descrevem a morte como sono, descobrimos que a interpretação das Testemunhas de Jeová também é incerta. Como sabemos que “dormir” não é apenas um eufemismo, como nossa expressão moderna “falecer”? Usamos esse eufemismo para amenizar um pouco a dor da morte e é perfeitamente possível que os autores bíblicos tenham feito algo semelhante. Na verdade, as Escrituras usam linguagem metafórica com bastante frequência (por exemplo, Jesus não é literalmente uma porta, apesar do que diz em Jo 10, 9), então o mero fato de elas descreverem a morte como sono é inconclusivo; ele é consistente com qualquer um desses pontos de vista. Portanto, se realmente queremos descobrir o que acontece depois da morte, precisamos examinar alguns outros textos menos ambíguos.

O bom ladrão. — Então, o que a Bíblia realmente diz que podemos esperar entre a morte e a ressurreição? É certo que não diz muito, mas se a lermos com atenção, diz mais do que o suficiente para refutar as Testemunhas de Jeová. Vamos começar provavelmente com a história mais famosa de todas as Escrituras: a crucificação de Jesus. Os Evangelhos nos dizem que Jesus foi crucificado entre dois criminosos, e um deles pediu misericórdia a Ele enquanto pendiam em suas cruzes (cf. Lc 23, 42). Em resposta, Jesus prometeu a ele: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43).

“A Crucificação”, por Johannes Stradanus.

Esta é uma declaração muito simples, mas nos diz tudo o que precisamos saber. Se os mortos estão inconscientes e não podem sentir tristeza, felicidade ou qualquer outra coisa, então Jesus estava mentindo e esse homem não foi para o paraíso naquele dia. Em vez disso, ele foi dormir e, mesmo depois de 2 mil anos, Jesus ainda não cumpriu sua promessa.

Mas, sabemos que não é o caso. Jesus não era mentiroso; então, se Ele disse que aquele homem estaria com Ele no paraíso naquele mesmo dia, deve ter sido verdade. A alma desse homem deve ter ido para o que hoje chamamos de céu, e ele deve ter passado a experimentar desde então as alegrias de estar lá, com Deus.

“Com Cristo”. — Vejamos a seguir o ensino de São Paulo sobre o assunto. Como os outros autores do Novo Testamento, ele também diz muito pouco sobre o estado de nossas almas entre a morte e a ressurreição, mas há uma passagem de suas cartas que muito claramente toca nessa questão. No primeiro capítulo de Filipenses, ele diz que está dividido entre dois desejos. Por um lado, deseja permanecer vivo e ajudar as igrejas sob seus cuidados, mas, por outro, também deseja morrer “para estar com Cristo” (Fl 1, 21-24).

O significado desta passagem é difícil de entender, por isso precisamos lê-la com atenção. São Paulo não diz explicitamente que ficará consciente depois de morrer, mas essa é a única maneira de dar sentido ao que ele diz. Se não, por que ele teria um desejo intenso de morrer e estar “com Cristo”? Isso não soa como se ele esperasse ficar inconsciente até a ressurreição. Pelo contrário, ele parece acreditar em que iria para o céu e experimentaria a bem-aventurança de estar com Jesus.

A verdade sobre a vida após a morte. — Existem várias outras passagens que poderíamos examinar também, mas essas duas são o suficiente para encerrar o caso para nós [1]. O ensino claro das Escrituras é que nossa alma permanecerá desperta e consciente depois que morrermos. A Bíblia, é claro, descreve a morte como “sono”, mas isso é apenas um eufemismo, muito parecido com a nossa maneira de dizer que as pessoas “falecem”. Não se trata de uma descrição literal. 

Então, também neste ponto as Testemunhas de Jeová estão erradas. Isso mostra mais uma vez como elas simplesmente distorcem a Palavra de Deus a fim de que se adeque ao seu falso evangelho.

Notas

  1. Lembrando sempre que, diferentemente dos protestantes, nós, católicos, nos guiamos em matéria de fé e moral pelo Magistério da Igreja, e não por um livre exame dos textos das Escrituras. Os Apóstolos — a cujos sucessores estamos sujeitos — receberam autoridade de Cristo Jesus (cf. Lc 10, 16) muito antes que os livros do Novo Testamento fossem escritos e que o cânon definitivo deles fosse estabelecido (N.T.).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A intercessão dos santos na Bíblia
Doutrina

A intercessão dos santos na Bíblia

A intercessão dos santos na Bíblia

Há diversos indícios bíblicos de que, no Céu, os santos estão bem conscientes do que ocorre na terra. Como morreram em Cristo, eles estão “mais vivos” e têm mais consciência das coisas do que nós. É tolice, pois, excluí-los de nossa vida de oração.

Dave ArmstrongTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

Há diversos indícios bíblicos de que, no Céu, os santos estão bem conscientes do que ocorre na terra. Um dos mais claros é este: “Desse modo, cercados co­mo estamos de uma tal nuvem de testemunhas, desvencilhe­mo-nos das cadeias do pecado. Corramos com perseverança ao combate proposto” (Hb 12, 1).

Esse pareceria um bom argumento bíblico contra a negação de que os santos “conhecem nosso atual estado na terra” ou contra a ideia de que, para saberem o que acontece aqui, eles devem estar “próximos da onisciência”. Os santos sabem o que se passa conosco porque se encontram num estado de conhecimento superior ao nosso. Ser mais inteligente ou ter mais consciência não implica, logicamente, algo próximo à onisciência. A posse de muito conhecimento ainda pode estar a milhões de “quilômetros” da posse de todo o conhecimento, ou seja, da onisciência. Trata-se de um falso dilema ou da tentativa de estabelecer uma “falsa equivalência”. 

A Bíblia diz que “julgaremos os anjos” (1Cor 6, 3) e que, “quando isso se manifestar [i.e. o que havemos de ser], sere­mos semelhantes a Deus” (1Jo 3, 2). Jesus disse: “Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22, 30). É razoável supor que, na vida após a morte, teremos um conhecimento no mínimo semelhante ao dos anjos (algo que é, por si só, extraordinário). A Bíblia diz: “Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa” (Lc 15, 10). Quem tem alegria? Quem se regozija? As pessoas que estão no céu! 

Vemos um exemplo de “oração imprecatória” no Céu, pedindo por justiça (cf. Ap 6, 9-11). Observamos homens no Céu (cf. Ap 5, 8) e também anjos (cf. Ap 8, 4) que possuem de algum modo as “orações dos santos”. Por quê? Alguém poderia nos dizer, por obséquio, o que estão fazendo com elas? Por que estão minimamente envolvidos com a oração? Trata-se, claramente, de intercessão.

Se se define “oração” simplesmente como falar com alguém e fazer-lhe um pedido, então sim, nós rezamos aos santos (e devemos fazê-lo!). No mesmo sentido, “rezamos” também aos nossos amigos na terra. Tanto num caso como noutro, porém, pedimos por sua intercessão junto a Deus; não os tratamos como se fossem Deus [1].

Mas se se define “oração” como falar com o único ser que tem, no fim das contas, o poder de dar respostas [efetivas] à oração (que é Deus), então propriamente falando ela é dirigida só a Deus, ainda que através de intermediários.

O problema dos argumentos protestantes contrários à comunhão dos santos é que eles confundem o recurso a intercessores intermediários na oração (isto é, os que já faleceram) com pedidos a eles como se tivessem a capacidade de atender à oração, embora apenas Deus tenha esta prerrogativa e poder.

As orações católicas dirigidas aos santos (entendidas corretamente, de acordo com o dogma católico) pressupõem isso; mas, por não ser algo afirmado com frequência, muitas vezes os protestantes supõe de forma equivocada que os católicos acham que os santos podem atender nossas orações por si mesmos, independentemente de Deus. Essa (um ponto muitíssimo importante) é a falácia ou o equívoco (ou ambos).

Os protestantes podem contestar por que determinados santos têm uma influência especial ou particular junto de Deus, além de orações mais eficazes em áreas específicas (é a nossa noção de santos padroeiros). Mas não há motivos para levantar objeções. A Bíblia ensina claramente que pessoas diferentes têm diferentes níveis de graça (cf. At 4, 33; 2Cor 8, 7; Ef 4, 7; 1Pd 1, 2; 2Pd 3, 18). Parece-me que, por essa razão, alguns deles podem se especializar em certas áreas mais do que outros, de acordo com diferentes partes do Corpo de Cristo (há muitos ensinamentos paulinos sobre isso).

Não vejo razões para considerar essa prática controversa ou questionável. Geralmente, essa doutrina é questionada por causa de excessos que se observam, mas raramente se apresenta contra ela um argumento robusto com base na Sagrada Escritura.  

Permanece ainda o fato de que “a oração do justo tem grande eficácia” (Tg 5, 16). No contexto mais amplo dessa passagem, Tiago afirma: “Elias era um homem pobre como nós e orou com fervor para que não chovesse sobre a terra, e por três anos e seis meses não choveu. Orou de novo, e o céu deu chuva, e a terra deu o seu fruto” (Tg 5, 17s).

“Elias alimentados pelos corvos”, de Guercino.

Não se segue, portanto, que Elias parecia ter uma influência particular sobre o tempo? Logo, por que não poderíamos pedir que ele (e não outra pessoa) rezasse a Deus para melhorar o tempo, uma vez que ele já pediu outras vezes que a chuva fosse interrompida, e isso de fato aconteceu durante três anos e meio? Com isso não se tornou ele, de alguma forma, o “santo padroeiro da meteorologia”?

Fazemos praticamente a mesma coisa nesta vida com nossos amigos, no nível da empatia. Se, por exemplo, uma mulher enfrenta dificuldades com abortos espontâneos, gravidezes ou partos difíceis, ela pode procurar uma mulher que tenha enfrentado as mesmas coisas e pedir-lhe orações por sua situação.

Não vejo aqui nenhuma dificuldade intrínseca. Os católicos nunca negam a ninguém a capacidade de “ir direto a Deus” [2]. Mas afirmamos com Tiago que certas pessoas têm mais poder (também quanto a certas especificidades); logo, é razoável tê-las como mediadoras. Assim, também, na mesma passagem nós vemos alguns “fatores de oração diferenciados”: “Está alguém enfermo? Chame os sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor” (Tg 5, 14).

A passagem não diz: “Vá diretamente a Deus e, se não o fizer, correrá o risco de cair em idolatria”. Não: a pessoa doente é aconselhada a buscar os anciãos para que eles possam rezar e ungir. 

Os mortos em Cristo estão mais vivos e têm mais consciência do que nós; portanto, é tolice excluí-los de nossa vida de oração.

Notas

  1. Fizemos algumas adaptações nesta parte específica do texto, que estava mais obscura, a fim de torná-la mais inteligível (N.T.).
  2. Note-se que, neste particular, os protestantes costumam ser incoerentes: ao mesmo tempo que negam a licitude da oração de intercessão dirigida aos santos, rezam aqui uns pelos outros, confiam a solução de seus problemas à oração e autoridade do “pastor” de sua igreja e, portanto, admitem ao menos tacitamente a licitude de contar com alguma forma de mediação (N.T.).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Por anos a Eucaristia foi o único alimento deles!
Santos & Mártires

Por anos a Eucaristia
foi o único alimento deles!

Por anos a Eucaristia foi o único alimento deles!

Por ação misteriosa da Providência divina, estes homens e mulheres foram capazes de passar vários anos de sua vida em jejum absoluto. O que os sustentava? Nada menos que o Corpo e Sangue de Jesus Cristo, a única comida que eles tomavam.

Joan Carroll CruzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

A fim de preparar você para “A Divina Eucaristia e seus Milagres”, o mais novo curso de nosso site (cujas inscrições já estão abertas e cujo lançamento acontece dia 9 de novembro), deixamos a seguir dois breves relatos — retirados do excelente livro Eucharistic Miracles [1] — contando os extensos e milagrosos períodos de jejum eucarístico que experimentaram dois santos católicos: Catarina de Siena e Nicolau de Flüe.

Quando Nosso Senhor disse, no Evangelho de São João, que quem comesse de sua carne dada em alimento não mais sentiria fome, Ele estava se referindo à nutrição da alma, a um sustento espiritual. Mas para estes santos medievais, dos séculos XIV e XV respectivamente, o Santíssimo Sacramento foi muito mais. Por uma ação maravilhosa da graça de Deus, a própria vida natural deles era mantida pela Eucaristia. 

Diga-se de passagem que não foram eles os únicos a viver assim, se alimentando somente do pão eucarístico, por tão longo tempo. Mais próximas de nós — e ainda em processo de canonização —, passaram pela mesma experiência a Beata Ana Catarina Emmerich († 1824) e a mística Teresa Neumann († 1962), alemãs, bem como a portuguesa Beata Alexandrina de Balasar († 1955):

Em nosso Brasil, merece honrosa menção a Serva de Deus Floripes Dornelas de Jesus (ou, simplesmente, Lola, como era chamada), que morreu em 1999, na cidade de Rio Pomba (MG), e ficou famosa por viver cerca de 60 anos de sua vida alimentando-se apenas de Jesus sacramentado.

Olhando para esses homens e mulheres, verdadeiros milagres de carne e osso, aprendamos a reconhecer e valorizar o milagre que se dá todos os dias na Santa Missa.


O jejum de Santa Catarina de Siena

O jejum de Santa Catarina de Siena († 1380) foi registrado por ninguém menos que um de seus confessores, o Beato Raimundo de Cápua. Na biografia que escreveu de Santa Catarina, ele informa-nos que, após ter uma visão de Nosso Senhor, o alimento material não era mais necessário à santa:

Quando era obrigada a tomar comida, ela ficava tão incomodada que o alimento não permanecia em seu estômago e era impossível descrever suas dores atrozes em tais ocasiões.

No início do jejum, o confessor que na época a assistiu ordenou-lhe que comesse diariamente, mas depois de um tempo a santa lhe perguntou:

Se vês, pelas numerosas experiências de que tens sido testemunha, que estou me matando por tomar o alimento, por que não me proíbes, como me proibirias de jejuar, se o jejum produzisse um resultado semelhante?

Conta-nos o Beato Raimundo que o confessor não conseguiu responder a este argumento e disse a ela: “Doravante, age de acordo com as inspirações do Espírito Santo, pois percebo que Deus está realizando maravilhas em ti” .

Algum tempo depois, quando seu confessor perguntou se ela não tinha apetite, a santa respondeu: “Deus me satisfaz tanto na Santa Eucaristia que é impossível desejar qualquer espécie de sustento corporal”. Ao perguntar se ela não sentia fome nos dias em que não comungava, a santa respondeu: “Só a presença dele é capaz de me saciar, e reconheço que, para ser feliz, basta-me ver um padre que acaba de rezar a Missa”.

Quando o jejum de Santa Catarina se tornou conhecido, muitos a criticaram, e até pessoas religiosas se lhe opuseram. Alguns atribuíram o jejum a “um tipo de vaidade, [diziam] que ela não jejuava realmente, mas se alimentava bem às escondidas”. Outros diziam que ela desejava aparecer e que estava sendo enganada por um demônio. Escreve seu biógrafo:

Catarina estava disposta a apaziguar os murmúrios, e decidiu que todos os dias ela iria ao menos uma vez se sentar à mesa em comum e se esforçar para comer. Embora ela não comesse carne, nem vinho, nem bebida, nem ovos, e nem mesmo tocasse no pão, o que ela tomava — ou melhor, o que ela tentava tomar — causava-lhe tantos sofrimentos que os que a viam, por mais duros que fossem, compadeciam-se dela: seu estômago não conseguia digerir, e rejeitava qualquer coisa que ela ingeria; depois ela sofreu dores terríveis e todo o seu corpo parecia estar inchado; ela não engoliu as ervas que mascou, apenas bebeu de seu suco e rejeitou a sua substância. Ela então tomava água pura para refrescar a boca, mas todos dias era forçada a colocar para fora o que tinha ingerido, e com tanta dificuldade que era necessário ajudá-la de todas as formas possíveis.

O bem-aventurado Raimundo acrescenta: “Como eu testemunhava com frequência esses sofrimentos, senti uma compaixão extrema dela, e aconselhei-a a deixar as pessoas falarem, e a parar com aquela tortura...”

O jejum de São Nicolau de Flüe

O caso de São Nicolau de Flüe, na Suíça, em 1487, é interessante e bem documentado. Nicolau era filho de camponeses e, para uma criança, muito piedoso e progredido espiritualmente. Aos 21 anos ingressou no exército e participou de quatro grandes batalhas.

Seguindo o conselho de seus pais, casou-se aos 25 anos e tornou-se pai de dez crianças. Depois de 25 anos de casados, obteve o consentimento de sua esposa para deixar sua família e viver como eremita. Estabeleceu-se em um vale a apenas uma hora de caminhada de sua casa. Conhecido por lá como Irmão Klaus, viveu na região por 20 anos, até a hora de sua morte, sem ingerir qualquer alimento corporal ou bebida.

Um ano depois da morte de São Nicolau, o padre Oswald Isner, cura de Kerns, revelou que, quando o santo começou sua vida de abstinência total e atingiu o 11.º dia:

Mandou me chamar e perguntou-me privadamente se devia comer algo ou continuar a abster-se. Ele queria viver totalmente sem comida para afastar-se do mundo. Eu toquei seus membros e encontrei apenas pele e osso; toda a carne tinha morrido, suas bochechas estavam ocas, e seus lábios espantosamente magros. Eu disse a ele para perseverar enquanto pudesse, sem colocar sua vida em risco. Porque se Deus o tinha sustentado por 11 dias, Ele poderia sustentá-lo por 11 anos. Nicolau seguiu meu conselho; e daquele momento até o dia da sua morte, por um período de 20 anos e meio, ele não tomou nenhum tipo de comida ou bebida. Como estava mais familiarizado comigo do que com qualquer outra pessoa, eu sempre falava com ele sobre o assunto. Ele me dizia que recebia o sacramento uma vez por mês e sentia que o Corpo e o Sangue de Cristo comunicavam as forças vitais que lhe serviam de comida e bebida; caso contrário, ele não poderia sobreviver sem alimento.

Para testar a autenticidade do completo jejum do santo, o bispo de Ascalon fixou residência numa cela adjacente para observá-lo. Após muitos dias, o bispo mandou Nicolau comer um pãozinho e beber um pouco de vinho. Mas a agonia do santo, após obedecer à ordem, foi tão grande que o bispo não o pressionou mais, e declarou que a obediência de Nicolau provava que ele era um “filho da graça”.

O Arquiduque Sigismundo da Áustria enviou o médico real, Burchard von Horneck, para examinar o caso. Até o Imperador Frederico III enviou delegados para investigar a matéria. Ambos comprovaram ser autêntico o jejum do santo.

Referências

  1. Joan Carroll Cruz, Eucharistic Miracles and Eucharistic Phenomena in the Lives of the Saints. Charlotte: TAN Books, 2010, pp. 234-237.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.