Padre Paulo Ricardo
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Ladainha e outras orações aos Santos Anjos
Oração

Ladainha e outras
orações aos Santos Anjos

Ladainha e outras orações aos Santos Anjos

Estas orações, extraídas de uma antiga coletânea de preces e traduzidas diretamente do latim, vêm aqui publicadas como um reforço à devoção aos santos anjos, enviados por Deus em ministério para nos assistir em nossa luta pela santidade e a glória do céu.

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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A ladainha e as demais orações abaixo foram extraídas de uma antiga coletânea de preces devocionais chamada Cœleste Palmetum (4.ª ed., 1864, Malinas, H. Dessain [ed.], pp. 202–206) e traduzidas do latim por nossa equipe. São um reforço ao chamado do Padre Paulo Ricardo, feito especialmente no curso Anjos e Demônios, a que tenhamos mais devoção aos santos anjos, enviados por Deus em ministério para nos assistir em nossa luta pela santidade e a glória do céu.


Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Deus Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Santa Maria, rogai por nós.
Santa Mãe de Deus, rogai por nós.
Santa Virgem das virgens, rogai por nós.

São Miguel, que sempre fostes o defensor do povo de Deus, rogai por nós.
São Miguel, que precipitastes do céu a Lúcifer com seus cúmplices rebeldes, rogai por nós.
São Miguel, que lançastes no fundo do inferno o acusador de nossos irmãos, rogai por nós.

São Gabriel, que manifestastes a Daniel a visão divina, rogai por nós.
São Gabriel, que prenunciastes o nascimento e o ministério de João Batista, rogai por nós.
São Gabriel, que fostes o mensageiro da Encarnação do Verbo divino, rogai por nós.

São Rafael, que levastes e trouxestes Tobias a salvo, rogai por nós.
São Rafael, que expulsastes o demônio de Sara, rogai por nós.
São Rafael, que devolvestes a vista a Tobit, rogai por nós.

Santos anjos, rogai por nós.
Que estais sobre o sólio excelso e elevado de Deus, rogai por nós.
Que cantais continuamente a Deus Santo, Santo, Santo, rogai por nós.
Que, dissipadas as trevas, iluminais nossa mente, rogai por nós.
Que anunciais aos homens as coisas divinas, rogai por nós.
Que recebestes de Deus a guarda dos homens, rogai por nós.
Que sempre contemplais a face do Pai que está nos céus, rogai por nós.
Que vos alegrais com a penitência de um só pecador, rogai por nós.
Que fustigastes os sodomitas com a cegueira, rogai por nós.
Que tirastes a Ló do meio dos pecadores, rogai por nós.
Que subis e desceis pela escada de Jacó, rogai por nós.
Que no monte Sinai entregastes a Moisés a lei divina, rogai por nós.
Que, no nascimento de Cristo, anunciastes a alegria aos homens, rogai por nós.
Que servistes a Cristo no deserto, rogai por nós.
Que levastes Lázaro até o seio de Abraão, rogai por nós.
Ques vos sentastes com vestes brancas junto ao sepulcro de Cristo, rogai por nós.
Que, na Ascensão de Cristo ao céu, aparecestes aos seus discípulos, rogai por nós.
Que haveis de preceder a Cristo, quando vier julgar com o sinal da cruz, rogai por nós.
Que haveis de reunir os eleitos no fim dos tempos, rogai por nós.
Que haveis de separar os maus do meio dos justos, rogai por nós.
Que apresentais a Deus as preces dos que oram, rogai por nós.
Que assistis os moribundos, rogai por nós.
Que conduzis ao céu as almas dos justos purificadas de toda mancha, rogai por nós.
Que pela virtude de Deus realizais prodígios e milagres, rogai por nós.
Que sois enviados em ministério aos herdeiros da salvação, rogai por nós.
Que cuidais até da Babilônia, mas deixais, indo embora, quem não quer vosso cuidado, rogai por nós.
Que fostes constituídos sobre os reinos e as províncias, rogai por nós.
Que desbaratais muitas vezes os exércitos inimigos, rogai por nós.
Que libertais muitas vezes os servos de Deus dos cárceres e outros perigos de vida, rogai por nós.
Que viestes muitas vezes consolar os mártires em seus tormentos, rogai por nós.
Que costumais guardar com peculiar cuidado os prelados da Igreja, os príncipes e seus curadores, rogai por nós.
Todas as santas ordens dos espíritos bem-aventurados, rogai por nós.

De todos os perigos, por vossos santos anjos, livrai-nos, Senhor.
Das insídias do diabo, livrai-nos, Senhor.
De toda heresia e cisma, livrai-nos, Senhor.
Da peste, da fome e da guerra, livrai-nos, Senhor.
Da morte súbita e desprevenida, livrai-nos, Senhor.
Da morte eterna, livrai-nos, Senhor.

Pecadores que somos, nós vos rogamos: ouvi-nos.
Por vossos santos anjos, nós vos rogamos: ouvi-nos.
Para que nos perdoeis, nós vos rogamos: ouvi-nos.
Para que nos favoreçais, nós vos rogamos: ouvi-nos.
Para que vos digneis governar e conservar vossa santa Igreja, nós vos rogamos: ouvi-nos.
Para que vos digneis proteger o Sumo Pontífice e todas as ordens eclesiásticas, nós vos rogamos: ouvi-nos.
Para que vos digneis conceder aos reis e príncipes cristãos a paz e a verdadeira concórdia, nós vos rogamos: ouvi-nos.
Para que vos digneis dar e conservar os frutos da terra, nós vos rogamos: ouvi-nos.
Para que vos digneis dar a todos os fiéis defuntos o descanso eterno, nós vos rogamos: ouvi-nos.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Pai nosso etc. (em silêncio).

Bendizei o Senhor, todos os seus anjos.
℟. Poderosos em força, executores de suas ordens, prontos para obedecer à sua palavra.

Bendizei ao Senhor, todos os seus exércitos
℟. E ministros, que fazeis a sua vontade.

Mandou aos seus anjos em teu favor,
℟. Para que te guardem em todos os teus caminhos.

O anjo do Senhor assenta seus arraiais em volta dos que o temem,
℟. E os há de libertar.

Em presença dos anjos vos cantarei salmos,
℟. Prostrar-me-ei no vosso santo templo e glorificarei o vosso nome, Senhor.

Senhor, ouvi a minha oração.
℟. E chegue até vós o meu clamor.

Oremos. — Deus, que com ordem admirável distribuís os ministérios dos anjos e dos homens: concedei, propício, que a nossa vida seja protegida pelos ministros que vos contemplam sempre no céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina e é Deus pelos séculos dos séculos. Amém.


“Retábulo dos Três Arcanjos”, de Marco d’Oggiono.

Oração a São Miguel. — Ó Príncipe da milícia celeste, São Miguel, que ao soberbo Lúcifer, com todos os seus asseclas, precipitastes nas profundezas da geena! Ó defensor e protetor da Igreja! Vós, que presidis às almas que partem desta vida, socorrei na hora da agonia a minha alma, que já agora confiadamente vos encomendo. Protegei-a contra todas as incursões inimigas, tomai-a, ao partir deste mundo, sob o vosso patrocínio e, defendida contra todas as insídias dos demônios, admiti-a às alegrias do paraíso, onde, junto de todos os santos, exaltarei a Deus com eternos louvores. Amém.

Oração a São Gabriel. — Ó Fortaleza de Deus, São Gabriel, que à Virgem Maria anunciastes a Encarnação do Filho de Deus e no Horto consolastes e confortastes a Cristo em suma tristeza e agonia! Louvo-te, venero-te, ó Espírito eleito, e suplicante vos peço que vos digneis ser meu advogado junto a Jesus Cristo, meu Salvador, e à sua bendita Mãe, a Virgem Maria, e a sempre me consolar e fortalecer em todas as angústias, para que eu nunca, vencido por qualquer tentação, venha a ofender a Deus, meu sumo bem. Assim seja.

Oração a São Rafael. — Ó Médico celeste e companheiro fidelíssimo, São Rafael, que a Tobias pai restituistes a vista e ao filho acompanhastes por todos os caminhos e incólume o conservastes! Sede o Médico de meu corpo e minha alma, dissipai as trevas da ignorância e assisti-me constantemente na perigosa peregrinação desta vida, até que me conduzais à pátria celeste, onde, feliz, contemplarei convosco eternamente a face divina. Amém. 

Ao anjo da guarda. — Ó fidelíssimo Companheiro, destinado por Deus à minha guarda, meu protetor e defensor, que nunca vos afastais do meu lado! Como vos hei de agradecer a fidelidade, o amor e os inúmeros benefícios de vós recebidos? Por mim velais no sono, na tristeza me consolais, no abatimento me ergueis; de mim afastais os perigos iminentes e me ensinais a precaver os futuros; dos pecados me desviais e ao bem me impelis; à penitência me chamais na queda e com Deus me reconciliais. Já há muito, quem sabe, eu me teria condenado ao inferno, se por vossas preces não houvésseis afastado de mim a ira divina! Peço-vos que nunca me abandoneis; consolai-me na adversidade, controlai-me na prosperidade, guardai-me nos perigos e ajudai-me nas tentações, para que a elas nunca sucumba. Apresentai à presença divina as minhas preces, gemidos e todas as minhas boas obras e fazei que, partindo em graça desta, eu entre um dia na vida eterna. Amém.

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Leve o silêncio da sua casa para a Missa
Liturgia

Leve o silêncio
da sua casa para a Missa

Leve o silêncio da sua casa para a Missa

O silêncio, a sacralidade, o estilo teocêntrico de viver, devem existir na Missa, mas não se limitam ao templo e ao culto público. Não adianta reclamar do barulho na igreja, se não fazemos recolhimento no coração e em nossa própria casa.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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Poucas coisas se podem deplorar tanto, no atual clima de dissipação em que nos encontramos, do que o desmonte da liturgia católica, tal como ela é celebrada, infelizmente, na maior parte das paróquias. 

Nem tudo, porém, são más notícias. É com grande alegria que temos visto nos últimos anos, graças a Deus, uma verdadeira recatequização do clero e, com isso, uma real melhora no modo de celebrar a Santa Missa. A redescoberta lenta e gradual das tradições litúrgicas da Igreja contribui muito para isso também [1]. 

De todo modo, ainda faz falta em nossas celebrações aquele espírito de recolhimento característico do rito e do sacerdócio antigos. (E não, não estamos falando dos levitas do Velho Testamento, mas da liturgia até a década de 1970 e do modo como se celebravam os sagrados mistérios da Nova Aliança.) Estudando, por exemplo, a história do surgimento das antigas “orações ao pé do altar” [2], é fascinante descobrir que elas só se tornaram normativas muito tempo depois (o atual Confiteor, por exemplo — “Confesso a Deus todo-poderoso…” —, data do séc. XIII), quando os fiéis já estavam acostumados a ver seus bispos e sacerdotes aproximar-se do altar e ficar algum tempo em silêncio… fazendo oração. Havia a consciência de que era algo sério e grandioso o que ali era feito, por isso não se podia proceder de qualquer maneira. Introibo ad altare Dei! Com que espírito e decoro não deve o sacerdote aproximar-se do próprio altar do sacrifício

Sim, vale dizer que também hoje existem orações prescritas para o sacerdote ao se paramentar e preparar para a Missa. Não só isso: a Missa ainda começa com um momento de purificação de toda a assembleia, seja com a aspersão de água benta sobre o povo, seja com o chamado ato penitencial, que no rito antigo se limitava à oração do Confiteor. E só esta oração, bem feita diante de Deus e dos santos, já nos ajuda muitíssimo a preparar-nos para o mistério que iremos celebrar. Nas palavras do Pe. Pius Parsche: 

O leigo que não foi iniciado nos segredos da oração litúrgica, ao ouvir pela primeira vez o Confiteor, dificilmente vai considerá-lo um ato de contrição apropriado. Os atos de contrição que ele aprendeu no catecismo contêm os motivos do arrependimento e formulam a contrição perfeita e imperfeita, mas nada disso se encontra no Confiteor. Apesar disso, no entanto, o Confiteor é altamente dramático. Pode-se dizer que ele representa uma cena judicial em duas partes. Quando eu recito o Confiteor, imagino-me transportado para a corte celeste, onde permaneço de pé diante da sede judicial de Deus. O Juiz eterno está entronizado em meio aos santos; entre esses santos eu vejo a Bem-aventurada Virgem Maria, Miguel, o capitão da hoste celeste, João Batista, o precursor do Senhor, e Pedro e Paulo, os príncipes dos Apóstolos. De pé deste modo diante dessa corte celeste, eu sei que eles estão me acusando por eu ter sido infiel à graça do meu batismo; eu começo a me dar conta de minha iniquidade; e meu desejo é desaparecer. “Por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”. Aqui está o clímax do Confiteor, ou melhor, o momento profundo em que eu desço àquela piscina para onde fluem lágrimas de contrição. Há então uma repentina reviravolta na cena: esses santos que, há um instante, eram meus acusadores, são agora meus defensores e intercessores, voltando-se para o todo-poderoso Juiz para rezar pelo meu perdão. Eis o drama do Confiteor [3]. 

Coisa extraordinária! No mesmo tribunal em que nos acusamos por um dever de justiça somos também favorecidos com a máxima misericórdia: os santos intercedem por nós a Deus. Não estamos sozinhos. Temos advogados, intercessores, defensores ao nosso lado.

Santa Missa no monte Parnaso, na Grécia.

Esse contato com a Igreja celeste muito nos ajuda com as distrações a que infelizmente estamos sujeitos na atual Missa versus populum, isto é, celebrada com o padre “de frente para o povo”. Muita tinta já foi gasta sobre o assunto. O próprio Cardeal Robert Sarah, quando era prefeito da Congregação para o Culto Divino, chegou a pedir aos sacerdotes que voltassem a celebrar como a Igreja sempre celebrou, isto é, versus Deum. O pedido, como se sabe, foi muitíssimo mal recebido e caiu em ouvidos moucos. 

A verdade histórica, porém, é que não era desejo nem dos Padres reunidos no Concílio Vaticano II nem do Papa Paulo VI que a Missa se tornasse o “jogral” em que se converteu. A ideia de uma comunidade autorreferencial, com quem a preside voltado para o povo, é típica do protestantismo, onde não há altar nem sacrifício.

O próprio Papa Bento XVI procurou remediar esse estado de coisas sugerindo que se colocasse no centro do altar, voltado para o sacerdote, um crucifixo, a fim de que ele não perdesse a Deus de vista por ter diante de si um punhado de homens. A tentativa foi acolhida por muitos, mas em muitos lugares a tragédia é que as Missas começam como programas de auditório. O padre é um animador responsável por captar a atenção do público. Sua “performance” é tudo: sem presença de palco, o pároco ou o vigário corre o risco de ser trocado pelo da paróquia mais próxima, ou pelo padre mais atrativo que aparecer no caminho. 

É o fenômeno da antropologização da Missa: Deus deixa de ser o centro e, agora, o que conta é a música, é a fala do padre, é o apelo aos sentimentos — numa palavra, o show

Nada contra concertos musicais e belos discursos. Desde que sejam feitos, é claro, no lugar e no tempo devidos. A Santa Missa, definitivamente, não é o lugar para essas coisas.

O problema é que esse é o clima geral em que nos encontramos. É uma tragédia que o barulho do mundo esteja tão disseminado a ponto de perturbar os átrios do Senhor, impedindo que as pessoas rezem justamente nos lugares que foram consagrados, separados por Deus… para a oração!

Como solucionar este dilema? 

Os que têm responsabilidade direta sobre o santuário têm o grave dever de ensinar o povo a rezar. Para tanto, os primeiros que precisam cultivar esse gênero de vida são os próprios pastores, transformando seu modo de rezar a divina liturgia a partir de uma imersão pessoal e profunda no silêncio de Deus, na quietude do colóquio com Ele.

Aos leigos nos foi confiada uma missão mais simples, mas nem por isso menos grave: o santuário de que somos responsáveis não é a igreja nem a multidão de fiéis que a frequenta, mas nossas próprias casas e as almas que estão sob nosso cuidado, pois um dia teremos de prestar conta delas a Deus. 

Por isso, com o perdão da palavra, de nada adianta reclamar dos abusos litúrgicos, da falta de reverência para com os mistérios mais sagrados de nossa religião, se não fazemos o mínimo para custodiá-los dentro de nossos lares. De nada adianta (atenção, católicos de internet!) proclamar anátemas do alto de nossa soberba contra o clero e os ministros de Deus, cobrando deles santidade e ortodoxia, se nós mesmos, em nossa vida pessoal, não nos comportamos diferentemente do resto do mundo, à altura de nossa vocação cristã. De nada adianta protestar contra o barulho de fora, se não fazemos nada para combater os ruídos de dentro

Na prática, isso significa tomar a responsabilidade sobre aquilo que nos compete. O ministério de música de sua paróquia talvez seja difícil de mudar, sim, mas o controle remoto de sua TV está aí do seu lado. Por que ela fica ligada o dia inteiro, se às vezes nem há ninguém na sala para assistir a ela? Por que deixamos engenheiros sociais (que já se provaram suficientemente malignos a ponto de declarar abertamente guerra às nossas famílias) ditar, por assim dizer, a “trilha sonora” de nossas vidas, com músicas baixas, de ritmo sensual e letras indecentes? Por que ainda não substituímos a novela (ou as séries) em família pelo Terço, por uma leitura espiritual frutuosa, por uma meditação ou — para não falar que não temos lazer — pela audição de uma boa música e por brincadeiras sadias? 

O silêncio, a sacralidade, o estilo teocêntrico de viver devem existir na Missa, sim, mas não se esgotam nela.

Já que começamos falando da Missa, terminemos falando dela: no rito atual, antes de rezar o Confiteor, o padre diz ao povo as seguintes palavras: Fratres, agnoscamus peccata nostra ut apti simus ad sacra mysteria celebranda, “Irmãos, reconheçamos os nossos pecados para que sejamos dignos de celebrar os santos mistérios”. Para que sejamos aptos! Oxalá toda a nossa vida seja transformada com esta finalidade: ad sacra mysteria celebranda.

Pois a Missa de que tomamos parte aqui neste mundo — mesmo que muitas vezes seus aspectos externos não nos ajudem na devoção — é prelúdio da liturgia do Céu, e é para esta que fomos feitos. Lá, diferentemente do que tantas vezes presenciamos, o culto a Deus será puro, imaculado, sem mancha. “Quando o perfeito vier, o imperfeito desaparecerá” (1Cor 13, 10). Lá, a corte celeste perante a qual tantas vezes acusamos nossos pecados nesta vida, e da qual tantas vezes invocamos a intercessão, será nossa amiga e cantará junto conosco, por toda a eternidade, louvores sem fim a Deus, Nosso Senhor.

Notas

  1. Redescoberta que se deve, em grande parte, ao impulso dos últimos Papas de conceder amplo acesso à Missa Tridentina. O Papa Bento XVI chegou a pedir um “mútuo enriquecimento” de ambas as formas do Rito Romano (agora que elas convivem lado a lado). Esse cenário não mudou, diga-se de passagem, nem mesmo com a publicação do documento Traditionis Custodes, do Papa Francisco, o qual restringiu o uso do Missal de 1962, sem no entanto aboli-lo.
  2. As orações preparatórias diante do altar “chamam-se confissão geral devido à sua parte principal, o Confiteor com os versículos subsequentes. Em todas as Liturgias há alguma confissão geral, como a que faziam, por deprecações e sacrifícios (por exemplo, peccavimus, iniquitatem fecimus), os sacerdotes e profetas do Antigo Testamento. Antigamente, na Liturgia romana, não se prescrevia para isso uma fórmula certa; dizia-se inclusive na sacristia… É de fato muito conveniente que o sacerdote, antes de oferecer o tremendo sacrifício, se reconheça indigno e, com prece humilde e pela confissão de seus pecados, detenha-se no degrau mais baixo para implorar o auxílio e a misericórdia de Deus onipotente. Nessa confissão geral, o rito externo exprime adequadamente um sentido penitencial, como se, pelos gestos, o sacerdote estivesse dizendo: Oro supllex [de mãos juntas] et acclinis [e profundamente inclinado], cor contritum quasi cinis [bate três vezes no peito]. Como introdução a esta confissão geral e também para o sacrifício da Missa como um todo, reza-se o Sl 42, Judica, com a antífona Introibo ad altare Dei. Com este salmo, carregado de desejo e confiança, implora-se a graça (Emitte lucem tuam… in tabernacula tua); é recitado, ao que parece, desde o séc. XI. Subindo os degraus, o sacerdote pede ainda uma vez o perdão de seus pecados, para merecer subir de mente pura ao Santo dos Santos, isto é, ao altar: ad Sancta sanctorum puris mereatur mentibus introire. (No Antigo Testamento, o sumo sacerdote entrava somente uma vez por ano no Santo dos Santos, onde estava o propiciatório.) Renova o mesmo pedido, de pé e inclinado diante do altar, pela intercessão dos santos cujas relíquias ali se encontram” (I. Wapelhorst, Compendium Sacræ Liturgiæ juxta Ritum Romanum. 11.ª ed., Nova Iorque: Benzinger Brothers (ed.), 1931, p. 416s, n. 287).
  3. Pius Parsch, The Liturgy of the Mass, London: B. Herder Book Co., 1940, p. 70s.

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Uma carta do Padre Pio sobre os nossos anjos da guarda
Espiritualidade

Uma carta do Padre Pio
sobre os nossos anjos da guarda

Uma carta do Padre Pio sobre os nossos anjos da guarda

“Nunca digas que estás sozinha na batalha contra os teus inimigos. Nunca digas que não tens ninguém com quem te possas abrir e confiar. Isso seria uma grande ofensa que se faria a este mensageiro celestial”, o teu anjo da guarda.

Padre Pio de Pietrelcina29 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Esta carta, escrita pelo Padre Pio a Annita Rodote, sua dirigida espiritual, contém preciosas orientações aos católicos, para que cultivem um relacionamento de devoção com seus anjos da guarda. Data do dia 15 de julho de 1915 e foi comentada pelo Pe. Paulo Ricardo no curso Anjos e Demônios, mais especificamente na aula 13, “Como me relacionar com o meu anjo da guarda?”

Este documento encontra-se amplamente à disposição na internet, mas para esta publicação foi devida e cuidadosamente corrigida, adequando-se à língua portuguesa a fim de facilitar a compreensão dos leitores.


Querida filha de Jesus:

Que o teu coração sempre seja o templo da Santíssima Trindade, que Jesus aumente em teu espírito o ardor do seu amor e que Ele sempre te sorria como a todas as almas a quem Ele ama. Que Maria Santíssima te sorria durante todos os acontecimentos da tua vida, e abundantemente substitua a mãe terrena que te falta.

Que teu bom anjo da guarda vele sempre sobre ti, que possa ser teu guia no áspero caminho da vida. Que sempre te mantenha na graça de Jesus e te sustente com suas mãos, para que tu não tropeces em nenhuma pedra. Que te proteja sob suas asas de todas as armadilhas do mundo, do demônio e da carne.

Esforça-te, Annita, por ter uma grande devoção a esse anjo tão benéfico. Que consolador é saber que perto de nós há um espírito que, do berço ao túmulo, nunca nos abandona, nem mesmo quando nos atrevemos a pecar! E este espírito celestial nos guia e protege como um amigo, um irmão.

É mais consolador ainda saber que esse anjo ora sem cessar por nós, oferece a Deus todas as nossas boas ações, nossos pensamentos, nossos desejos, se são puros.

Por caridade, não te esqueças desse companheiro invisível, sempre presente, sempre pronto a nos escutar e mais ainda a nos consolar. Ó deliciosa intimidade! Ó feliz companhia! Se soubéssemos pelo menos compreendê-la…!

São Pio de Pietrelcina, autor destas linhas.

Mantém sempre [teu anjo] diante dos olhos da alma, recorda-te com frequência da presença desse anjo. Agradece, ora, nutre sempre para com ele uma boa companhia. Abre-te e confia a ele teus sofrimentos. Toma sempre cuidado para não ofenderes a pureza do seu olhar: toma conhecimento e fixa bem esta verdade em tua alma. Ele é muito delicado, muito sensível. Dirige-te a ele em momentos de suprema angústia e experimentarás os seus benéficos efeitos.

Nunca digas que estás sozinha na batalha contra os teus inimigos. Nunca digas que não tens ninguém com quem te possas abrir e confiar. Isso seria uma grande ofensa que se faria a este mensageiro celestial.

No que diz respeito às locuções interiores, não te preocupes, fica tranquila. O que sim deves evitar é prender o teu coração a estas locuções. Não dês muita importância a elas, mostra-te indiferente. Não a desprezes; porém não ames nem desejes tais coisas. Deves sempre responder a estas vozes assim: “Jesus, se sois vós quem me falais, fazei-me ver concretamente os efeitos da tua palavra, ou seja, as santas virtudes em mim.”

Humilha-te diante do Senhor e confia nele. Gasta tuas melhores energias com a graça divina praticando as virtudes, e deixa então que a graça opere em ti conforme a vontade de Deus. São as virtudes que santificam a alma, e não os fenômenos sobrenaturais.

Não te perturbes procurando saber entender quais locuções vêm de Deus. Um dos principais sinais de que estas locuções vêm de Deus é que, tão logo ouvimos estas vozes, nossa alma se enche de temor e perturbação, mas logo em seguida deixam a alma numa paz divina. Por outro lado, quando as locuções interiores provêm do inimigo, no início provocam uma falsa segurança, mas logo em seguida vêm uma perturbação e um mal-estar indescritíveis.

Não duvido em absoluto de que Deus seja o autor de tais locuções; mas é preciso que sejas cautelosa, porque muitas vezes o inimigo pode misturar ali coisas que são dele.

Mas isso não te deve assustar: esta é uma provação à qual foram também submetidos os maiores santos e as almas mais iluminadas que, não obstante tudo isso, foram agradáveis ao olhar de Deus.

Deves somente prestar atenção a nunca crer facilmente nestas locuções, e de forma especial quando se trata daquelas que exigem que faças algo ou indicam o modo de agir. E cuida de, ao recebê-las, submeter tudo ao juízo de quem te dirige espiritualmente, obedecendo às suas decisões.

Recebe, portanto, tais locuções com muita cautela e com humilde e constante indiferença. Comporta-te dessa maneira e tudo fará crescer teus méritos diante do Senhor. Põe teu espírito em paz: Jesus te ama e muito. Quanto a ti, procura corresponder a este amor, sempre progredindo em santidade diante de Deus e dos homens.

Faze também orações vocais, pois ainda não chegou a hora de deixá-las e suporta com humildade e paciência as dificuldades que experimentas ao fazer isto. Prontifica-te também a sofrer as distrações e a aridez, mas nunca abandones a oração e a meditação. É obra do Senhor que assim deseja tratar-te para teu proveito espiritual.

Perdoa-me se termino por aqui. Só Deus sabe o muito que me custou escrever esta carta. Estou muito doente; reza bastante para que o Senhor queira logo me livrar deste corpo.

Eu te abençoo, e também à querida Francisca. Desejo que vivais e morrais nos braços de Jesus.

Frei Pio

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Santa Hildegarda: uma visionária para todas as eras
Santos & Mártires

Santa Hildegarda:
uma visionária para todas as eras

Santa Hildegarda: uma visionária para todas as eras

A vida e os escritos de Santa Hildegarda de Bingen colocam-nos uma dura pergunta: teria Deus falado por meio dessa mulher, não apenas para os contemporâneos dela, mas a toda a humanidade, em todas as épocas, ou ela não passou de uma mulher muito doente?

Brennan PurselTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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Santa Hildegarda de Bingen (1098–1179) é uma maravilha do passado, um fenômeno histórico por direito próprio, e um questionamento direto a todos que se preocupam em aprender sobre ela e com ela hoje, no século XXI. Em suma, a vida e os escritos dela colocam uma dura pergunta: teria Deus falado por meio dessa mulher, não apenas para os contemporâneos dela, mas a toda a humanidade, em todas as épocas, ou ela não passou de uma mulher muito doente?

Hildegarda passou quase toda a vida no vale do Reno, perto de onde o rio Meno nele deságua. O vale central da Renânia é uma das regiões mais férteis da Alemanha; possui um clima suave e temperado, onde pessoas viveram em comunidades por milênios. Desde suas origens, o Reno forma uma via rápida natural nas terras alpinas até sua foz no Canal da Mancha e no Mar do Norte. O paradoxo da vida de Hildegarda é que ela foi uma alma solitária e contemplativa que viveu numa importante via, por assim dizer, onde ela se tornou o centro das atenções.  

Hildegarda, talvez um dos dez filhos de um casal da nobreza local, provavelmente teve uma primeira infância bastante privilegiada e normal, exceto por sofrer de uma doença que a deixava acamada. Durante esses períodos de fraqueza e dor, ela começou a ver imagens incomuns, talvez a partir dos cinco anos de idade. Quando falou com as pessoas sobre suas visões, mandaram-na ficar calada. Quando tinha sete anos, seus pais decidiram que ela deveria entrar para vida religiosa, e assim a entregaram aos cuidados de Juta (Judite), uma anacoreta, enclausurada numa cela de pedra adjacente a um mosteiro beneditino. Lá Hildegarda viveu, estudou, trabalhou e rezou por trinta anos. Um número cada vez maior de moças foi viver com elas, até que Juta se tornou a superiora de um pequeno convento beneditino. Quando Juta morreu em 1136 (Hildegarda tinha 38 anos), a comunidade de mulheres religiosas a escolheu por unanimidade para liderá-las. Pouco se sabe dessas três décadas da vida de Hildegarda, com a exceção de que seus ataques de enfermidade e as visões continuaram. Ela só falou com Juta sobre as visões, mas esta informou a um monge, Volmar, cuja posição era supervisionar as religiosas e ministrar-lhes os sacramentos.

A vida de Hildegarda mudou radicalmente aos 42 anos. A essa altura, ela já tivera a sua visão mais poderosa, não apenas uma visão de luzes e imagens, mas de inspiração, de compreensão, uma infusão de conhecimento sobre o significado da Escritura e de todo o conteúdo da fé. Também recebeu a ordem de escrever o que havia aprendido. Sentindo-se aquém da tarefa, Hildegarda ficou gravemente doente. Volmar mandou que ela escrevesse, e o abade do mosteiro adjacente concordou. Sua doença arrefeceu, e ela começou a escrever o que vira em latim (que não aprendera muito bem), trabalhando com Volmar, que a ajudou durante os trinta anos seguintes. Sua primeira e maior obra, Scivias, discorre em três livros sobre Deus e toda a Criação, a Redenção, a Igreja, o demônio e, finalmente, sobre toda a história da salvação. O primeiro a ler trechos da obra foi o abade; depois, o arcebispo de Mainz; depois, São Bernardo de Claraval e o próprio Papa, Eugênio (1145–1153), que leu os escritos dela em voz alta aos participantes de um sínodo na cidade de Trier, na Alemanha. A notícia se espalhara. Uma verdadeira profetisa vivia no Reno. Ainda que limitada, chegara ao fim a solidão de Hildegarda.

Novas vocações afluíram ao convento dela. Talvez para separar as ovelhas dos bodes, ela transferiu sua comunidade para um vale inabitado e arborizado às margens do Reno, e começou a construir o novo convento. Mas o movimento não parou por aí. Em poucos anos, ela teve de fundar outro convento, desta vez na margem oposta do rio. Como abadessa, ela visitava aquele mosteiro uma ou duas vezes por semana. As pessoas afluíam para ouvi-la falar, para receber sua bênção e para obter tratamentos para suas enfermidades. Tempos depois, ela publicou um grande tratado sobre muitas doenças e o modo de curá-las com o uso de plantas, ervas, partes de animais e pedras preciosas. Trocou muitas correspondências com o mais alto escalão da sociedade medieval: imperadores, papas, reis, bispos e arcebispos, príncipes, abades e abadessas, além de muitos sacerdotes, religiosas e membros da nobreza. Existem hoje mais de trezentas cartas dela, e sem dúvida muitas outras foram escritas durante sua longeva vida.

Recorreram a ela para pedir conselhos, para saber o estado de alma das pessoas, para pedir explicações da Escritura, explicações teológicas dos mistérios divinos e conhecimento sobre o futuro. Ela foi convocada para se reunir com o sacro imperador romano e fazer previsões para ele, que depois as confirmou. Ela falava e escrevia sobre o que lhe chegava, fossem notícias boas ou ruins. Sua voz interior lhe disse muitas coisas de que se queixar. Ela não guardava nada para si quando se tratava de dilacerar clérigos e prelados corruptos por causa de seus abusos da Igreja, da venda de ofícios e por levarem vidas de pompa, luxo e repletas de prazeres sexuais. Quando um prior escreveu para ela, pedindo que rezasse por ele porque estava fazendo o mesmo por ela e porque queria um bom desfecho para seus negócios, ela o repreendeu sem rodeios por seu egoísmo e sua visão pagã de oração. Não temos como saber o número de pessoas que ficavam perplexas com ela.

“A visão da Igreja de Santa Hildegarda de Bingen”, por Giovani Gasparro.

Além das centenas de cartas, ela escreveu outro livro sobre a vida moral e seus méritos, uma obra visionária como Scivias, sobre como temos de viver para participar da paz e da glória celestes. Outro livro é dedicado à descrição das obras divinas. Além do tratado médico, ela escreveu livros para explicar como a natureza funciona de acordo com os preceitos misteriosos de Deus. Ela recebeu a revelação da ordem divina em todas as coisas e se esforçou por transmitir essa ordem a outras pessoas. Também compôs setenta canções e uma peça musical de moralidade sobre as virtudes. Seu estilo, em prosa e em verso, é sempre vívido, persuasivo e repleto de imagens proféticas; é o oposto da escrita acadêmica árida e técnica. Contudo, não é fácil diferenciar precisamente entre o que ela recebeu numa visão, o que aprendeu em outros livros e na tradição local e oral, e o que ela observava e pensava por si.           

Obviamente, tal proeminência (destituída de quaisquer credenciais formais ou poder bruto que lhe servisse de apoio) fez com que ela se metesse em alguns problemas. Foi necessário muito esforço para convencer o abade (sob cuja autoridade ela vivera com Juta) a permitir que ela transferisse suas monjas e seus dotes para a nova localidade no Reno. Suas exortações aos clérigos e leigos poderosos e pecaminosos aumentaram a sua lista de potenciais detratores e inimigos. Algumas pessoas disseram que ela era uma impostora egoísta, ou simplesmente louca. O conflito com seu bispo para impedir que sua protegida, a irmã Richardis, fosse liderar outro convento foi uma causa perdida, já que afinal o Papa interveio para a apoiar o bispo. O caso não fez com que ninguém mostrasse suas melhores qualidades. Por volta do fim de sua vida, Hildegarda permitiu que um homem excomungado fosse enterrado no solo sagrado de seu convento; ela disse que ele se havia reconciliado verdadeiramente com Deus logo antes de morrer. O bispo discordou e pôs seu convento sob interdito, negando a Hildegarda e suas freiras o acesso aos sacramentos, mas ela o cansou com orações e súplicas. Em poucos meses, o interdito foi suspenso, e o túmulo permaneceu intacto. Porém, esses conflitos foram antes a exceção do que a regra.

O fato de ela ter sido uma mulher vivendo no século XII não representou um obstáculo sério à sua missão de disseminar a palavra da revelação de Deus até o fim de sua vida. Começando com cerca de sessenta anos, ela realizou quatro longas viagens pela área rural local, pregando tanto para o clero como para os leigos, com a aprovação de ninguém menos que o Papa. Suas canções eram cantadas em locais tão distantes quanto Paris, e a palavra de sua sabedoria se espalhou por toda a cristandade. Depois de sua morte na idade venerável de 81 anos, iniciou-se imediatamente um culto dedicado a ela. Embora não haja nenhum registro de sua canonização oficial nos séculos XII e XIII, ela foi listada entre os santos do Martirológio Romano ainda no século XVI. Foi só recentemente que o Papa Bento XVI a inscreveu no catálogo dos santos (uma ação chamada de “canonização equivalente”), no dia 10 de maio de 2012; e em 7 de outubro do mesmo ano deu a ela o título de Doutor da Igreja, um reconhecimento concedido a somente 33 pessoas até então, três delas mulheres [1].

Mas, por estarmos no século XXI, muitas pessoas simplesmente não aceitam que Deus tenha comunicado nada, muito menos a verdade, por meio de Hildegarda. Alguns historiadores diagnosticaram seus sofrimentos contínuos como enxaquecas, mas todos falharam completamente em explicar a origem de suas visões em termos médicos. Não podemos negar que alguns de seus sintomas se assemelham aos da enxaqueca, mas o poder e a riqueza de suas visões, bem como a profundidade da compreensão que ela mesma tinha delas, têm uma fonte muito diferente.

Ela não é uma desconhecida na Alemanha contemporânea, mas a maioria das pessoas conhece seu nome pelo motivo errado. Há uma linha de produtos e um site de internet que levam seu nome e vendem elixires feitos de plantas, poções, cremes, pós, rochas e corantes, todos comercializados para a felicidade, o sentimento de liberdade e a independência das pessoas. Porém, a prioridade de Hildegarda era a santificação e a salvação dos outros. Alega-se que os produtos são baseados nos escritos dela, mas eles estão mais alinhados com o comercialismo da Nova Era. Mais séria e mais digna é a associação (Bund der Freunde Hildegards) que publica um periódico trimestral e possui uma rede de médicos, quiropráticos e pesquisadores da área médica, os quais realizam um verdadeiro esforço para aplicar seus remédios e metodologias aos problemas que as pessoas enfrentam hoje. Mas esse grupo quase não entende a mensagem religiosa de Hildegarda. Num nível mais popular, cineastas alemães lançaram um longa-metragem sobre ela em 2009: Vision: From the Life of Hildegard von Bingen (“Visão: Da Vida de Hildegarda de Bingen”). O filme a apresenta como religiosa, abadessa, escritora, compositora e médica, terminando com seus preparativos para uma viagem de pregação. Infelizmente, porém, a produção se concentra nos esforços dela para ser reconhecida pelos homens da Igreja, bem como para conseguir a independência em relação ao controle deles. O roteiro conta a história da luta de uma mulher pobre e oprimida do século XII para se tornar plenamente ela mesma diante de uma hierarquia eclesiástica medíocre, invejosa, sexista e masculina.       

Hildegard foi e é muito mais que isso. Dizendo de modo bem simples, ela foi uma grande santa. Sofreu e lutou terrivelmente. Amou a Deus acima de todas as coisas e sacrificou tudo para agradá-lo. Perseverou até o fim. Inspirou inúmeras pessoas. Disse a elas que deveriam parar de pecar e abraçar a santidade. Para chegar a conhecê-la, leia os seus escritos. Algumas imagens lhe parecerão exóticas ou bizarras, mas a sabedoria de seus preceitos morais e insights religiosos merece um sério exame e um grande respeito.

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