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Quatro coisas que os casais podem aprender com a vida religiosa
Família

Quatro coisas que os casais
podem aprender com a vida religiosa

Quatro coisas que os casais podem aprender com a vida religiosa

O casamento e a vida consagrada são bem diferentes em muitos aspectos, mas existem várias práticas tipicamente religiosas que um casal pode incorporar ao seu convívio em família. Aqui estão algumas delas, que já se mostraram possíveis e que podem gerar muitos frutos!

Erin BuchmannTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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À medida que eu crescia, estava confiante de que minha vocação era para a vida religiosa. Quando adolescente e jovem adulta, visitei vários conventos e conversei com muitas, muitas irmãs religiosas. Com o tempo, Deus revelou meu chamado para o casamento, mas aqueles primeiros encontros com o estilo de vida monástico abriram meus olhos para sua riqueza, profundidade e beleza sublimes.

Embora o casamento e a vida religiosa sejam vocações bem diferentes em muitos aspectos, existem várias práticas amplamente características do monasticismo que um casal pode incorporar na vida familiar. Aqui estão algumas das práticas que se mostraram frutosas (e possíveis!) em meu casamento.

Defina um cronograma. — A vida monástica está alicerçada e centrada na Liturgia das Horas. Com seus dias dependendo das Laudes, pela manhã, e das Vésperas, à noite, todas as outras orações e trabalhos religiosos inserem-se em seus lugares apropriados.

“Três Religiosas em Oração”, de David Dalhoff Neal.

Ter uma programação compartilhada — com horários para oração, refeições em família, trabalho e recreação — pode dar uma ordem revigorante ao dia da família também. Certo grau de flexibilidade aqui, em nossa vocação leiga, é bom e até necessário. Mas ter uma programação pode nos ajudar a viver de modo consciente e a priorizar as coisas que são realmente importantes em nossos dias.

Meu marido e eu tentamos manter nossas rotinas em sincronia, levantando de manhã e indo para a cama à noite juntos. Uma pedra angular em nossos dias são os 30 minutos ou mais, todas as noites, nos quais fazemos as nossas leituras diárias e rezamos juntos o Rosário. Em muitos fins de semana, tentamos fazer algo ao ar livre e em família, como uma caminhada ou um passeio de bicicleta. Ter essa estrutura em comum oferece o benefício adicional de nos levar para o mesmo cômodo de nossa casa várias vezes ao dia. A conversa e a conexão são fáceis quando ambos estamos escovando os dentes, na expectativa da hora de dormir, ou pondo a mesa, antes de uma refeição em comum!

Rezem juntos e sozinhos. — Uma das coisas que mais me surpreendeu sobre a oração pós-casamento é o quanto ela, como tudo na minha vida, tornou-se uma atividade “nossa” em vez de uma atividade “minha”. Rezar juntos, como casal, é a chave para um casamento saudável. Entretanto, reservar um tempo para ficar a sós com Deus também é indispensável.

Mesmo nas comunidades religiosas, cujos membros passam tanto tempo em oração comunitária, muitas vezes ainda há certas devoções que são praticadas individualmente. Em algumas comunidades, esta devoção é o Rosário diário; em outras, é a Via-Sacra. Espera-se que os membros reservem um tempo para suas orações pessoais e se esforcem por praticar essa devoção de uma maneira e em uma hora do dia que considerem particularmente adequadas. Enquanto uma religiosa pode preferir rezar o Rosário durante uma caminhada pelo jardim, outra pode descobrir que rezar sozinha, em sua cela ou na capela, atrai sua mente e coração mais plenamente a Deus.

Da mesma forma, maridos e esposas não precisam ter medo de cultivar seu relacionamento pessoal com Deus da maneira que considerarem individualmente frutuosa. Tudo bem se essas maneiras forem diferentes entre os cônjuges!

Eu acho que rezar com os Salmos orienta meu coração mais apropriadamente a Deus, então me esforço por rezar as Laudes todas as manhãs. Meu marido gosta de refletir sobre a vida e o coração de seu santo padroeiro, São José, enquanto trabalha e se sacrifica para sustentar nossa família. Embora essas sejam devoções que buscamos individualmente, em geral podemos dizer quando o outro não tem rezado bem! Nossos relacionamentos pessoais com Deus realmente afetam todos os aspectos de nossa vida em comum.

Observe os conselhos evangélicos. — Pobreza, castidade e obediência têm seu lugar no casamento. Embora os casais não sejam obrigados, por profissão pública, a seguir esses conselhos em sua plenitude como fazem muitos religiosos, a observância dos conselhos evangélicos de maneira adequada à vocação matrimonial é, no entanto, um excelente meio pelo qual os cônjuges podem crescer e imitar mais plenamente a Cristo.

A maneira como um casal vive os conselhos evangélicos é muito diferente da maneira como um religioso o faz. No entanto, em seu esforço por amar com pureza, os esposos encontram um modelo na castidade de Cristo. Reconhecendo que tudo o que recebem vem de Deus e que não devemos ser apegados, mas dar com generosidade, eles imitam sua pobreza. Ao buscar seguir a vontade de Deus em todas as coisas, eles se recordam de sua obediência.

Mantenha o silêncio. — Muitas comunidades religiosas observam um “grande silêncio” após as Completas, a última oração comunitária do dia. O silêncio se estende até as Matinas, a primeira oração comunitária da manhã seguinte [N.T.: esta hora canônica antiga deu lugar ao atual Ofício das Leituras]. Como o próprio nome sugere, não é permitido falar na comunidade durante essas horas da noite — é um momento para o religioso descansar, a sós, com Deus.

Uma versão muito reduzida do grande silêncio também pode ser praticada no casamento. Meu marido e eu descobrimos que dedicar um tempo, cerca de uma hora, à noite, a uma interação livre de eletrônicos, é extremamente benéfico para nosso relacionamento. Durante esse tempo, podemos rezar ou ler juntos, resolver um quebra-cabeça ou jogar um jogo, ou apenas conversar e trocar afetos. O importante é que este é um momento para simplesmente estarmos juntos, sem distrações externas. É a hora de nos reconectar, um com o outro e com Deus, antes de dormir.

Os cônjuges, certamente, não são chamados a observar todos os rigores e devoções características de um mosteiro. Como disse Santa Francisca Romana, ela mesma esposa e mãe: “Uma mulher casada, muitas vezes, deve deixar Deus no altar para encontrá-lo nos cuidados de casa”. Visto que o objetivo final da vivência de qualquer vocação é a união com Deus, no entanto, os casais podem buscar inspiração e encorajamento no estilo de vida monástico, enquanto procuram cultivar uma vida doméstica que honre a Deus e o torne conhecido pelo mundo.

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As festas de São Lourenço
Liturgia

As festas de São Lourenço

As festas de São Lourenço

Desde os primeiros tempos, São Lourenço é venerado como padroeiro da cidade de Roma, junto com São Pedro e São Paulo, e sua festa sempre foi uma das mais importantes do ano eclesiástico. Conheça todas as celebrações ligadas a este santo mártir.

Gregory DipippoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 10 minutos
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Desde os primeiros tempos, São Lourenço é venerado como santo padroeiro da cidade de Roma, junto com São Pedro e São Paulo, e sua festa sempre foi uma das mais importantes do ano eclesiástico

Um número notável de igrejas romanas são dedicadas a ele; várias mais, na verdade, do que as dedicadas a qualquer um dos fundadores apostólicos da Igreja na Cidade Eterna. Entre elas estão a Basílica Patriarcal de São Lourenço Extramuros, onde ele está sepultado, e três das mais antigas paróquias do centro histórico da cidade: São Lourenço em Panisperna (o famoso local de seu martírio), São Lourenço em Lucina e São Lourenço em Dâmaso.

Essas quatro igrejas são frequentemente encontradas na lista de estações desde o Domingo da Septuagésima até a Oitava de Páscoa, próximas às observâncias em honra de São Pedro e São Paulo [1]. São Lourenço em Miranda foi uma das primeiras grandes igrejas a serem construídas no coração da vida política e religiosa da cidade antiga, o Fórum Romano; está situada no pórtico do templo do imperador Antonino Pio e sua esposa Faustina, em cujos degraus o grande mártir teria sido julgado e condenado. 

Duas capelas particulares dos papas também são dedicadas a ele: São Lourenço in Palatio, no Latrão, e a Capela Nicolina no Vaticano. A primeira foi construída em meados do século VIII e, após várias restaurações e adornos, tornou-se uma capela papal cerca de três séculos depois; reconstruída por Nicolau III (1277-80), ela agora sobrevive apenas em parte dentro de um edifício conhecido como Scala Sancta, em frente à catedral do papa, do outro lado da rua. O apelido da capela, Sancta Sanctorum (“Santo dos Santos”), não vem de sua condição de capela papal, mas da incrível coleção de relíquias anteriormente guardadas no interior: entre elas, um pedaço da grelha na qual São Lourenço foi assado vivo, e algumas partes de seu corpo. 

No período de 330 anos entre 1048 a 1378, os papas passaram aproximadamente 250 anos fora de Roma; depois de um período tão longo de negligência e abandono parcial, seguido por dois grandes incêndios ainda no século XIV, a maior parte do vasto complexo de edifícios ao redor do Latrão definitivamente não era mais habitável. Por isso, os papas fixaram residência no Vaticano, e desde então se encontram no mesmo lugar. Em 1447, Nicolau V construiu uma nova capela no Vaticano e comissionou o pintor dominicano Fra Angelico para pintar as paredes com histórias dos dois diáconos mártires, Santo Estêvão e São Lourenço, aos quais a capela é dedicada em conjunto. 

A associação dos dois santos, naturalmente sugerida pelos paralelos entre suas vidas e mortes, figura de modo proeminente na arte e na liturgia em Roma. Ambos foram diáconos sob a autoridade do papa em suas respectivas cidades: Estêvão em Jerusalém, sob São Pedro, e Lourenço em Roma, sob São Sisto II, o mais venerado dos primeiros papas martirizados depois de Pedro. Ambos foram encarregados pelos papas a quem serviam das atividades de caridade da Igreja, e ambos eram pregadores eloquentes da fé cristã. Ambos ainda sofreram martírios terríveis: Estêvão por apedrejamento, como narrado nos Atos dos Apóstolos (c. 7), enquanto Lourenço foi assado vivo.

“O Martírio de São Lourenço”, por José de Ribera.

No ofício de Santo Estêvão, a terceira antífona das Laudes (citando parcialmente o Salmo 62, com o qual é cantada), diz: Adhaesit anima mea post te, quia caro mea lapidata est pro te, Deus meus, “Minha alma está presa a vós, pois minha carne foi lapidada por vós, ó meu Deus”. No ofício de São Lourenço, esta mesma antífona é alterada para: Adhaesit anima mea post te, quia caro mea igne cremata est pro te, Deus meus, “Minha alma está presa a vós, pois minha carne foi queimada no fogo por vós, ó meu Deus” [2]. A combinação artística dos dois, tão belamente feita por Fra Angelico, também se encontra duas vezes no Sancta Sanctorum que a Capela Nicolina substituiu, nos mosaicos sobre o altar e nos afrescos que lhe adornam as paredes. 

Em 3 de agosto, um ciclo de festas de duas semanas associado a São Lourenço começa com a Invenção de Santo Estêvão, uma festa do calendário universal do Rito Romano até 1960. O corpo de Santo Estêvão foi descoberto no ano 415, junto com os de Gamaliel, seu filho Abibas e Nicodemos, quando Gamaliel apareceu a Luciano, um sacerdote de Jerusalém, e revelou o local de seu sepultamento coletivo.

As relíquias de Estêvão foram levadas a muitos lugares do mundo; no último livro de A Cidade de Deus, Santo Agostinho descreve uma série de milagres que aconteceram quando uma parte deles veio para a África, incluindo a ressurreição de seis pessoas. Outra parte delas foi trazida para Roma no reinado do papa Pelágio II (579-90), que os colocou na basílica de São Lourenço Extramuros; a Legenda Áurea relata que, quando o papa foi colocá-los na tumba de Lourenço, o mártir romano se afastou para dar lugar a seu companheiro levita.

O pórtico do início do século XIII ainda possui extensos vestígios de afrescos originais desse período, ilustrando a história dos dois grandes diáconos mártires; infelizmente, eles já estavam em más condições quando a igreja foi atingida por uma bomba durante a II Guerra Mundial, danificando-os ainda mais. 

Em 6 de agosto ocorre a festa de São Sisto II, martirizado na catacumba de Calisto, junto com seis dos sete diáconos da igreja de Roma, o sétimo sendo Lourenço. Quando o édito de perseguição foi emitido pelo imperador Valeriano no ano 257, o santo papa ordenou a Lourenço que distribuísse toda a riqueza da igreja aos pobres da cidade. Tendo feito isso, Lourenço viu Sisto ser levado ao martírio e dirigiu-se a ele assim: 

Aonde vais sem teu filho, pai? Para onde corres, sacerdote santo, sem teu diácono? Nunca ofereceste o sacrifício sem ministro. O que, pois, te desagradou em mim, pai? Porventura me achaste indigno? Prova com certeza se é idôneo o ministro que escolheste. Ao que confiaste a consagração do sangue do Senhor e o consórcio na consumação dos sacramentos, a este negas o consórcio de teu sangue?... Abraão ofereceu o filho (cf. Gn 22, 9), Pedro mandou Estêvão à sua frente (cf. At 7, 57), e tu, pai, mostra no filho tua virtude, oferece a quem educaste, para que, seguro de teu juízo, ele alcance a coroa em tão nobre companhia.

Ao que Sisto respondeu: 

Não te deixo nem abandono, filho, mas te são devidas maiores batalhas. Nós, como velhos, recebemos o curso de uma luta mais leve; em ti, como jovem, brilha um triunfo mais glorioso sobre o tirano. Logo virás, deixa de chorar: após três dias me hás de seguir. Convém ao levita seguir o sacerdote.

Estas palavras da obra De Officiis, de Santo Ambrósio (I 41, nn. 204-205: PL 16, 84-85), formam a base de várias antífonas e responsórios no ofício de São Lourenço. Sisto e seus diáconos foram então decapitados por soldados romanos. 

Nossa Senhora segurando o Menino Jesus, junto com S. Sisto II e S. Bárbara. Pintura de Rafael.

São Sisto tem o nome mencionado no cânon tradicional da Missa [N.T.: a atual Oração Eucarística I], imediatamente após os três primeiros sucessores de São Pedro, seguido por dois bispos contemporâneos também martirizados sob Valeriano, o papa Cornélio e São Cipriano de Cartago; São Lourenço é então nomeado primeiro entre os não bispos.

Uma igreja romana de estação perto do Latrão recebeu o nome de Sisto; ela foi confiada a religiosas dominicanas durante a vida de São Domingos, que morreu no dia de sua festa. (A igreja ligada à Pontifícia Universidade de Santo Tomás, também chamada Angelicum, é dedicada a Sisto e a Domingos.) Depois que seu fundador foi canonizado em 1234, a Ordem dos Pregadores celebrou sua festa no dia 5 de agosto, ao invés do dia de sua morte, em deferência à festa muito mais antiga — costume que permaneceu até as reformas do final do século XVI, quando São Domingos voltou um dia para dar lugar à festa de Nossa Senhora das Neves.

Da mesma forma, quando o papa Calisto III instituiu a festa da Transfiguração em 1456, designando-a para o dia 6 de agosto, muitas igrejas simplesmente o ignoraram porque o dia já era ocupado por São Sisto [N.T.: no calendário litúrgico atual, sua festa se celebra no dia seguinte, 7 de agosto]. 

O dia 9 de agosto, vigília de São Lourenço, também era observado antigamente como a festa de São Romão, a qual foi reduzida a uma comemoração na reforma tridentina [3]. Ele foi um soldado convertido a Cristo pela pregação de Lourenço, que o batizou quando estava preso, aguardando a execução; Romão foi decapitado por ordem do imperador um dia antes de Lourenço ser morto. 

O dia 10 é a festa do próprio Lourenço, quando se consumou seu martírio sendo assado vivo em uma grelha; a tradição bizantina, que dedicou o dia 6 de agosto à Transfiguração séculos antes da Igreja latina, comemora Sisto, seus diáconos e Romão todos juntos, com o próprio Lourenço, neste único dia. A história de seu martírio é contada assim no Breviário Romano de 1529 (Valeriano aparece como um oficial sob o comando do imperador anterior, Décio):

Disse Décio ao bem-aventurado Lourenço: “Sacrifica aos deuses”. Ao que ele respondeu: “Ofereço a mim mesmo como um sacrifício a Deus, de suave odor, pois um espírito contrito é um sacrifício a Deus”. Mas os algozes foram em frente, ajuntando brasas e colocando-as debaixo da grelha [...]. Disse o bem-aventurado Lourenço: “Aprende, ó infeliz Valeriano, quão grande é o poder de meu Senhor, pois tuas brasas trazem-me refrigério, mas a ti acarretam tormento eterno; pois Ele sabe que não neguei o seu santo nome quando acusado, confessei a Cristo quando perguntado, dei graças enquanto era torrado” [...]. Todos os presentes começaram a se maravilhar, pois Décio havia ordenado que ele fosse assado vivo. Mas, com o mais gracioso dos semblantes, ele disse: “Dou-vos graças, Senhor Jesus Cristo, que vos dignastes fortalecer-me”. E levantando os olhos para Valeriano, disse: “Vê, infeliz, que assaste um lado; vira-me agora do outro, e come”. Dando graças, então, ele disse: “Dou-vos graças, Senhor Jesus Cristo, por haver merecido adentrar as vossas portas”. E, isto dizendo, entregou o espírito.

O dia 13 de agosto é a festa de Santo Hipólito, um oficial dos guardas na prisão onde São Lourenço estava detido, e também por ele convertido ao cristianismo. No Breviário de 1529, conta-se que ele teria levado o corpo de Lourenço para ser sepultado; reprovado por isso pelo imperador,e ameaçado de tortura e morte, ele respondeu: “Que eu seja digno de assemelhar-me ao bendito mártir Lourenço, a quem tu ousaste nomear com tua boca imunda”. Após a tortura, ele foi morto dilacerado por cavalos selvagens. 

Detalhe do “Tríptico de Santo Hipólito”, por Dirck Bouts.

A história é normalmente descartada como uma invenção por estudiosos modernos, sob a alegação de que essa forma de morte, relatada pelo poeta Prudêncio, é a mesma do personagem mitológico grego Hipólito, o filho de Teseu que foi arrastado até a morte pelos cavalos de sua carruagem. Parece não ter ocorrido a nenhum dos céticos modernos que os perseguidores pudessem ter sido inspirados por seu nome a escolher essa maneira de matá-lo, imitando a história mitológica. 

É certamente verdade que há muita confusão sobre a história de Hipólito; quando o papa São Dâmaso I (366-84) colocou um epitáfio sobre seu túmulo relatando seu martírio, ele afirmou que ele mesmo “confiava na tradição puramente oral, que ele não garante: ‘Dâmaso conta essas coisas que ouviu; é Cristo quem as prova’” [4]. 

Prudêncio também atesta ter sido pessoalmente curado de várias doenças, mais de uma vez, enquanto rezava na tumba de Hipólito. No Communicantes do cânon ambrosiano tradicional, Sisto, Lourenço e Hipólito são nomeados (nessa ordem) imediatamente após os doze Apóstolos, indicando quão grande era a devoção a eles na sé de Milão na antiguidade. 

Como todas as festas mais importantes, a de São Lourenço era tradicionalmente celebrada com uma oitava [N.T.: até 1911, com a reforma do Breviário de São Pio X]; o dia da oitava, 17 de agosto, tinha uma Missa própria, como a oitava de São Pedro e São Paulo, pegando emprestada do dia da festa apenas a Epístola e o Evangelho.

O intróito desta Missa é tirado do Salmo 16, que também é rezado nas Matinas de São Lourenço: Probásti cor meum, et visitásti nocte: igne me examinásti, et non est invénta in me iníquitas, “Provaste o meu coração, e o visitaste de noite; no fogo me acrisolaste, e não foi encontrada em mim a iniquidade.” As palavras “visitaste de noite (meu coração)” referem-se à ameaça do imperador de torturar Lourenço durante toda a noite, ao que o grande levita respondeu: Mea nox obscúrum non habet, sed ómnia in luce claréscunt, “Minha noite não tem escuridão, mas nela todas as coisas brilham sob a luz.”

Notas

  1. Chamavam-se “estações” (stationes) as igrejas de um determinado lugar onde os fiéis católicos paravam (e permaneciam em pé, stantes), durante procissões, para assistir à celebração da liturgia em dias penitenciais. O termo foi perdendo seu sentido ao longo do tempo, mas Roma preservou praticamente todos os registros de suas igrejas “estacionárias” — embora essas celebrações acontecessem também, como se sabe, em Jerusalém e Constantinopla. É por isso que, nos Missais da forma antiga do Rito Romano, os ofícios dos dias quaresmais vêm sempre acompanhados da “estação” em alguma igreja romana (N.T.).
  2. O autor está falando da forma antiga do Rito Romano. Mesmo a reforma de Paulo VI, no entanto, preservou estas antífonas: a primeira das Laudes de 26 de dezembro e a primeira das Laudes de 10 de agosto têm a mesma forma, mantendo a ligação entre esses dois santos mártires. Infelizmente, a tradução litúrgica brasileira modifica um pouco a ordem das orações, mas a ideia se mantém: “O meu corpo é por vós lapidado, e minh’alma se abraça convosco”; “Minha alma se agarra em vós, ó meu Deus, pois por vós foi queimado o meu corpo no fogo” (N.T.).
  3. As chamadas “comemorações” foram gradualmente desaparecendo da liturgia romana, até a sua completa extinção na reforma de Paulo VI. Consistiam em singelos lembretes, normalmente de santos mais antigos, que não podiam ser esquecidos, mas cuja importância também vinha diminuindo visivelmente ao longo dos anos. Graças a esse recurso, era possível fazer orações a vários santos num mesmo ofício ou Missa (N.T.).
  4. Loeb Classical Library, The Poems of Prudentius, p. 304, nota de rodapé.

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Nenhuma catequese paroquial poderá fazer isto por seus filhos!
Educação

Nenhuma catequese paroquial
poderá fazer isto por seus filhos!

Nenhuma catequese paroquial poderá fazer isto por seus filhos!

Para formar os filhos na fé, não basta deixá-los numa turma de catequese da paróquia. Mais do que receber uma instrução semanal, o que eles precisam é incorporar, dia após dia, o estilo de vida cristão. E esta é uma coisa que só os pais, dentro de casa, podem oferecer.

R. Jared StaudtTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Tenho trabalhado com catequese por quase vinte anos. Qualquer pessoa envolvida com educação religiosa pode afirmar que passamos por um período de crise. Os nossos  programas de catequese não produzem adultos católicos ou discípulos permanentes. Aulas sobre Deus não são suficientes para atrair os nossos filhos para uma vida cristã, para o seguimento de Jesus e o anúncio de sua missão ao mundo. Sabemos qual é o ingrediente ausente em nossa formação catequética: o papel dos pais. A razão disso é que somente os pais podem traduzir a fé na vida cotidiana no lar, tornando a catequese mais do que uma simples instrução, mas a formação numa cultura — um estilo de vida cristão. Isso transforma a nossa fé em algo real e vivo para os nossos filhos, algo que molda tudo o que eles fazem e que assume uma presença tangível em suas vidas.  

Os pais, em particular, exercem mais influência sobre a vida de fé dos filhos do que qualquer outra pessoa (mães, avós, professores e párocos). Estudos revelam que, se os pais não praticam a fé, é muito improvável que os filhos a pratiquem na vida adulta. Se os pais a praticam, é mais provável que os filhos frequentem a igreja no futuro. Os pais são chamados a liderar suas famílias na fé e a propiciar um modelo de vida cristã para os filhos. Como pais, somos chamados a ser professores dos nossos filhos, principalmente servindo de exemplo para eles. Pais e mães são os principais educadores dos filhos, e isso inclui a educação na fé. Os pais têm de assumir um papel central nesta educação, porque são cruciais na formação religiosa dos filhos. Porém, para formá-los na fé não basta apenas deixá-los numa turma de catequese da paróquia [1]. Eles precisam passar por um processo de aprendizagem e de iniciação à vida cristã para que abracem não apenas a fé, mas todas as outras coisas vinculadas a ela.

Portanto, nosso objetivo deve ser ensinar nossos filhos a viver como cristãos no mundo. Para isso, temos de nos tornar catequistas da vida cristã, mostrando como fazer da fé o centro das nossas vidas. São João Paulo II deixou isso claro: “A catequese, portanto, há-de tender a desenvolver a inteligência do mistério de Cristo à luz da Palavra, a fim de que o homem todo seja por ele impregnado” (Catechesi Tradendae, §20). Conhecemos Cristo a fim de que Ele possa moldar o modo como vivemos concretamente e como um todo. Bento XVI disse o mesmo a respeito da educação católica de modo mais amplo, afirmando que ela deveria “procurar promover aquela unidade entre a fé, a cultura e a vida, que constitui a finalidade fundamental da educação cristã” (Bento XVI, Discurso na Abertura dos Trabalhos do Congresso da Diocese de Roma, 11 de junho de 2007).     

Se não ensinarmos nossos filhos a viver a fé de forma integral, eles seguirão o caminho do mundo. Nossa cultura familiar irá se conformar ou à nossa fé ou a uma cosmovisão secular. A catequese transmite não apenas o conteúdo da fé, mas um modo cristão de vida. Christopher Dawson ensinou isso de forma contundente em seu livro Understanding Europe (“Compreendendo a Europa”), descrevendo como tivemos um colapso na comunicação de nossa identidade cristã no Ocidente: 

Desde o início, a educação cristã foi concebida não tanto como o aprendizado de uma lição, mas como uma introdução a uma nova vida, ou, ainda mais, como iniciação a um mistério (...). A educação cristã era algo que não podia ser transmitido apenas por meio de palavras, mas algo que exigia uma disciplina do homem inteiro.

Se os nossos filhos se conformarem mais à cultura secular do que à fé, haverá um colapso na educação dos homens e mulheres cristãos.

A arte da vida inclui a oração, o trabalho, a formação do caráter e o aprendizado de como ser forte perante as dificuldades. Atualmente, um dos principais desafios que enfrentamos na família é a tecnologia. Neste campo, também devemos liderar pelo exemplo. Como podemos ser moderados no uso da tecnologia, impedindo que ela nos domine e tratando-a como uma ferramenta útil? A ênfase na oração e nos momentos com a família, e não no uso da tecnologia, constitui uma mensagem importante a respeito de prioridades. A limitação da tecnologia é uma tarefa importante para os pais hoje e um aspecto crucial de nosso papel como professores. Temos de substituir a influência da tecnologia com a formação da mente e da imaginação dos nossos filhos por meio de leitura em voz alta, do canto, das brincadeiras e do tempo gasto ao ar livre.

No geral, nossos filhos esperam que nós ensinemos a eles como viver. Nossas ações os ensinam e os guiam na fé, além de os prepararem para a aventura da fé. Nunca se enfatizará o bastante a urgência da construção de uma cultura cristã em nossas famílias, como oásis de sanidade e santidade num mundo sem Deus. A iniciação dos nossos filhos numa cultura cristã é a nossa tarefa primordial como pais e é a coisa mais importante que podemos fazer como pais pela formação e pela felicidade deles.

Notas

  1. O título que escolhemos para esta matéria não tem a finalidade de desabonar, em momento algum, o trabalho dos catequistas nas comunidades paroquiais. (Vale lembrar que o próprio Papa Francisco elevou essa função à dignidade de “ministério” na Igreja.) A ideia é simplesmente chamar a atenção para o papel insubstituível dos pais na educação católica de seus filhos (N.T.).

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Como os pais constroem o lar nas vidas de suas esposas e filhos
Família

Como os pais constroem o lar
nas vidas de suas esposas e filhos

Como os pais constroem o lar nas vidas de suas esposas e filhos

“A paternidade apresenta o traço de uma conquista mais ou menos perigosa, que é alcançada aos poucos num território repleto de emboscadas”. Até por isso, o pai desempenha um papel crucial e intransferível na fundação e conservação do lar.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Como os laços emocionais e psicológicos que unem o pai de família aos filhos não são iguais aos da mãe, ele ocupa uma posição um tanto precária. Ele pode fugir de suas responsabilidades como guia e professor de seus filhos ou, tanto melhor, pode cumpri-las por causa de sua inerente autoridade viril. Sua posição é perigosa e promissora. Alguém poderia dizer: as próprias qualidades que tornam o homem apto a ser um bom guia e professor — como seu distanciamento natural em relação ao que constitui em grande medida o ato de dar à luz e criar filhos, sua capacidade de olhar para os próprios filhos como “outros”, que não se confundem com ele e se fazem mais presentes a ele por meio da mãe, entre outras coisas — são justamente os aspectos da psicologia masculina que possibilitam o fracasso e até a deslealdade.

O filósofo francês Gabriel Marcel (1889-1973), um autor que escreveu sobre esse tema de forma criteriosa, diz: “A paternidade quase sempre apresenta o traço de uma conquista mais ou menos perigosa, a qual é alcançada aos poucos num território repleto de emboscadas.”

O pai desempenha um papel crucial e intransferível na fundação e na conservação do lar. Quando vivida corretamente, a paternidade pressupõe uma presença constante para os outros, viver para eles, estar “de plantão” 24 horas por dia. Viver à altura desse compromisso não é tão natural para os homens como para as mulheres, e isso faz com que ele seja ainda mais essencial para a estabilidade da comunidade familiar. Quando um homem não corresponde à sua vocação de fundar uma família, uma comunidade de amor permanente, — assim como o lendário Eneias teria fundado Roma ao fincar sua espada no solo onde a cidade se ergueria —, a mulher não pode recorrer a ninguém como pilar e fundamento. 

Num mundo repleto de lares divididos ou inexistentes, a força vital do amor e das promessas mantidas, que deveria permear a família como um segredo implícito compartilhado, é substituída por uma promiscuidade psicológica, uma mudança desordenada de lealdade que se manifesta como fragmentação e dissipação. A procriação, a criação dos filhos e os inúmeros cuidados que transformam a casa num lar parecerão cada vez mais à mulher fardos insuportáveis e afrontas à sua liberdade, e não expressões de um compromisso amoroso.    

Portanto, a paternidade é uma dupla prova do paradoxo apresentado por Cristo: “Aquele que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, irá recobrá-la” (Mt 16, 25). Para dar vida, ou seja, propósito e alegria interior, à sua família, um homem deve aprender a morrer para si, contrariando sua tendência decaída de sobrevalorizar suas próprias conquistas e avanços. Essa é uma forma diferente de dizer que responsabilidade e sofrimento são inseparáveis na correspondência a qualquer amor digno do nome. Nas palavras de Marcel, “convém ao homem colocar-se à disposição da vida, e não dispor dela para realizar seus próprios objetivos”.

Quando o homem renuncia à sua própria vida pelo bem de sua esposa e de seus filhos, ganha em troca (ao longo do tempo e não sem uma luta contínua) um ego purificado do egoísmo e da falsa liberdade. Dessa maneira, o princípio divino da Criação — o amor de Deus garantido por sua promessa de amor — é implantado na família ou, melhor ainda, torna-se sua força vital. Marcel novamente:

Podemos afirmar sem hesitação que as limitações e as deformações às quais está sujeito o sentimento paterno tendem a desaparecer em famílias grandes, e alguém poderia dizer que isso se assemelha a uma recompensa (ou aprovação imanente) do ato de prodigalidade por meio do qual um homem planta generosamente as sementes da vida [...]. A multiplicidade e a variedade imprevisível de relacionamentos que existem na família numerosa fazem com que ela realmente apresente o caráter de uma criação; há uma relação direta entre o esforço perseverante (e muitas vezes heroico) por meio do qual ela é construída e a nova riqueza (a riqueza da vida) que ela recebe.  

A relação entre a identidade de um homem como pai de seus filhos e a identidade de Deus como Pai de seu povo não é uma coincidência. Desde o princípio o Criador revelou-se por meio da imagem da aliança nupcial. O Todo-poderoso é simultaneamente Noivo e Pai. Escolhe a Igreja para ser sua noiva e com ela gera filhos espirituais. A relação à qual damos o nome de paternidade tem profundas raízes na essência do homem e inclui esposa, filhos e lar. Nessa correlação dinâmica entre a essência de uma pessoa e a efusão de amor por outra, temos um vislumbre do Pai celestial gerando o Filho por toda a eternidade, e do Espírito Santo, que procede dos dois como um sopro ou chama de amor.

Sempre que um homem tem êxito em “fundar a igreja” no interior de seu lar, promove de modo definitivo a implantação contínua da Igreja de Cristo, orientada para a consumação do Reino de Deus. Portanto, é da essência da paternidade promover a obra de Deus, o esforço árduo e contínuo de “renovar todas as coisas” (2Cor 5, 17) em Jesus Cristo, que declarou: “E quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim” (Jo 12, 32). A Encarnação do Verbo revela o propósito final da intervenção de Deus na história humana: a recuperação de todo o universo caído, a recriação de todas as coisas à Imagem do Pai.      

Essas verdades profundas não deixam de afetar a paternidade humana. O homem que dirige e serve sua família deveria se empenhar particularmente em imitar o amor providencial e gratuito do Pai celestial por sua Criação e o povo desposado por Ele. Desse modo, o pai protege a si mesmo do perigo da indiferença e da frouxidão; à esposa, da solidão e da monotonia de suas obrigações; e aos filhos, da tentação da revolta e da ingratidão. Graças ao ensinamento, ao exemplo e aos dons da graça de Nosso Senhor, o marido e pai aprende a perceber o distante, mas importantíssimo, objetivo em função do qual ele suporta a nova vida no seio de sua família: tornar presente mais uma vez o supremo mistério do Amor, o Amor do Deus que é. Assim, o marido e pai amplia o domínio da Paternidade de Deus, o império de Cristo Rei e Esposo.

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