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Não se deve desesperar da salvação de ninguém!
Espiritualidade

Não se deve desesperar
da salvação de ninguém!

Não se deve desesperar da salvação de ninguém!

Em certas mortes, nas quais o olhar humano não vê senão um golpe fulminante da justiça divina, existem mistérios de misericórdia. Deus às vezes se revela, no último instante de vida, àquelas almas cuja maior desgraça foi ignorá-lo.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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O Padre Ravignan, um santo e ilustre pregador jesuíta, nutria grande esperança pela salvação dos pecadores arrebatados por uma morte súbita, quando, em circunstância diversa, não teriam ódio no coração pelas coisas de Deus. Ele pregava com frequência sobre esse momento derradeiro, e considerava que muitos pecadores se convertiam nos últimos instantes de vida e reconciliavam-se com Deus, sem poder expressar isso com um sinal exterior. 

Em certas mortes, nas quais o olhar humano não vê nada além de um golpe fulminante da Justiça divina, existem mistérios da Misericórdia. Como último lampejo de luz, Deus às vezes se revela àquelas almas cuja maior desgraça foi ignorá-lo; e o último suspiro, compreendido por Aquele que penetra os corações, pode ser um gemido que clama por perdão, isto é, um ato de contrição perfeita

O general Exelmans, um parente desse saudoso sacerdote, faleceu de forma repentina em um acidente e, infelizmente, não havia sido fiel na vivência da fé. Ele prometeu que um dia faria sua confissão, mas não tivera a oportunidade de realizá-la. Quando soube da morte de Exelmans, Padre Ravignan — que, por um longo tempo, orou e pediu orações por ele — ficou profundamente consternado. No mesmo dia, uma pessoa habituada a receber mensagens sobrenaturais pensou ter ouvido uma voz interior que lhe disse: “Quem então conhece a extensão da misericórdia de Deus? Quem sabe quão profundo é o oceano, ou quanta água está contida nele? Muito será perdoado àqueles que pecaram por ignorância.”

O biógrafo de quem tomamos emprestado esse relato, Padre de Ponlevoy, continua dizendo: “Nós, cristãos, colocados sob a lei da esperança não menos do que sob a lei da fé e da caridade, devemos elevar-nos continuamente das profundezas de nossos sofrimentos à meditação sobre a bondade infinita de Deus. Neste mundo, não há nenhum limite para a graça de Deus; enquanto permanece uma centelha de vida, não há nada que não possa agir sobre a alma. Portanto, devemos sempre ter esperança e pedir a Deus com humilde persistência. Não sabemos até que ponto podemos ser ouvidos. Grandes santos e Doutores empenharam-se em exaltar a eficácia poderosa da oração pelos entes queridos que partiram, por mais infeliz que tenha sido seu fim. Um dia conheceremos as maravilhas indizíveis da divina Misericórdia. Nunca devemos deixar de suplicar com imensa confiança.”

Outro relato acerca desse tema foi publicado no Petit Messager du Coeur de Marie [1], em novembro de 1880. Um religioso, pregando uma missão para damas de Nancy, recordou-as em uma conferência de que nunca se deve desesperar da salvação de uma alma, e de que às vezes ações menos importantes aos olhos humanos são recompensadas por Deus na hora da morte. Quando ele estava prestes a deixar a igreja, uma senhora vestida de luto aproximou-se dele e disse:

Padre, você acabou de nos recomendar confiança e esperança; um fato ocorrido comigo justifica perfeitamente as suas palavras. Tive um marido que era muito gentil e carinhoso e que, apesar de ter levado uma vida irrepreensível, negligenciou completamente a vivência da fé. Minhas orações e exortações persistiam, mesmo sem surtir efeito. Durante o mês de maio que precedeu sua morte, eu havia montado no meu quarto — como estava acostumada a fazer — um pequeno altar para a Santíssima Virgem, e o decorei com flores, renovadas de tempos em tempos. Meu marido passou o domingo no campo e me deu algumas flores, que ele mesmo havia colhido, e com elas eu adornava o oratório. Ele percebeu isso? Ele fez isso para me dar prazer, ou foi através de um sentimento de piedade pela Virgem? Eu não sei, mas ele nunca deixou de me trazer as flores.

No início do mês seguinte, ele morreu de forma súbita, sem conseguir receber os sacramentos. Eu estava inconsolável, principalmente porque vi desaparecerem todas as minhas esperanças do seu retorno a Deus. Devido a esse sofrimento, minha saúde ficou muito abalada e meus familiares pediram que eu fizesse um passeio ao sul da França. Como tive de passar por Lyon, desejei ver o Cura d’Ars. Por isso, escrevi-lhe solicitando atendimento e pedindo orações pelo meu marido, que havia morrido de forma súbita. Não lhe dei mais detalhes.
Cheguei a Ars, mal havia entrado na sala do venerável Cura e, para meu grande espanto, ele se dirigiu a mim com estas palavras: “Senhora, estás desconsolada; mas esqueceste aqueles buquês de flores que te foram trazidos todos os domingos do mês de maio?” É impossível expressar meu espanto ao ouvir o padre Vianney recordando-me de uma circunstância que eu não havia mencionado a ninguém, e que ele só poderia ter conhecido por revelação. Ele continuou: “Deus teve misericórdia daquele que honrou sua Santa Mãe. No momento de sua morte, teu marido se arrependeu; sua alma está no purgatório; nossas orações e boas obras alcançarão sua libertação”.

Lemos também na vida de uma religiosa consagrada, Irmã Catarina de Santo Agostinho, que no lugar onde ela morava havia uma mulher chamada Maria, que em sua juventude se entregara a uma vida muito desordenada e, mesmo com mais idade, não se converteu, senão que, pelo contrário, ficou ainda mais obstinada no vício, a ponto de os moradores, que não toleravam mais seus escândalos, a expulsarem da cidade. Ela não encontrou outro asilo além de uma gruta na floresta, onde, depois de alguns meses, morreu sem a assistência dos sacramentos. Seu corpo foi enterrado em um campo, como se fosse algo contagioso.

Irmã Catarina, que estava acostumada a recomendar a Deus as almas de todos aqueles de cuja morte tomava conhecimento, não pensou em orar pela alma daquela mulher, julgando, como todos os outros, que ela já estava condenada.

Quatro meses depois, a serva de Deus ouviu uma voz dizendo: “Infeliz de mim, Irmã Catarina! Tu recomendas a Deus as almas de todos; eu sou a única de quem não tiveste piedade”. “Quem és tu?” Respondeu a irmã. “Eu sou a pobre Maria, que morreu na gruta”. “Maria, estás salva?”, ao que ela respondeu: “Sim, estou, pela Misericórdia divina. No momento da morte, aterrorizada com a lembrança dos meus pecados, e ao ver-me abandonada por todos, invoquei a Santíssima Virgem. Em sua terna bondade, ela obteve para mim a graça da contrição perfeita, com o desejo de confessar-me, se estivesse ao meu alcance fazê-lo. Assim, recuperei a graça de Deus e escapei do Inferno. Mas fui obrigada a ir ao Purgatório, onde sofri muito. Meu tempo será encurtado e em breve serei libertada, se algumas Missas forem oferecidas por mim. Oh! querida irmã, ofereça-as por mim e sempre me lembrarei de ti diante de Jesus e Maria”.

Prontamente, a irmã Catarina buscou atender ao pedido e, depois de alguns dias, a referida alma voltou a revelar-se, agora brilhante como uma estrela, e agradeceu à religiosa por sua caridade.

Notas

  1. Periódico francês publicado mensalmente entre os anos de 1876 a 1949.

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O canto gregoriano ressurgirá!
Liturgia

O canto gregoriano ressurgirá!

O canto gregoriano ressurgirá!

O acesso ao canto gregoriano nunca foi tão fácil para aqueles que o procuram. Por isso, o grande tesouro da música litúrgica não desaparecerá; ressurgirá novamente das cinzas à medida que a Igreja recuperar a sacralidade de seu culto.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 7 minutos
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Poucos documentos tiveram um impacto tão duradouro no cultivo da música sacra quanto o motu proprio de São Pio X Tra le Sollecitudini, promulgado em 22 de novembro de 1903, festa de Santa Cecília, padroeira dos músicos.

O Papa pretendia, com a escrita desse motu proprio, dar início a uma reforma geral da música sacra na vida da Igreja. Sua ideia de reforma não implicava rejeitar o passado e adotar novidades (parece que isso foi justamente o que muitos católicos pensaram ao longo dos últimos cinquenta anos), mas antes retornar de modo resoluto à fonte da Tradição e deixar que o fluxo veloz dessa água pura limpasse os resíduos acumulados em períodos decadentes. 

Ao falar em períodos decadentes, São Pio X não tinha em mente a Idade Média, a era gloriosa da Cristandade, que os liturgistas do pós-guerra consideraram, de modo geral, um distanciamento da simplicidade familiar dos primeiros cristãos. Como Pio XII viria a afirmar 44 anos depois na encíclica Mediator Dei, o Espírito Santo estimula desenvolvimentos litúrgicos em cada época como novos caminhos para santificar o povo de Deus. Tais desenvolvimentos formam uma linha contínua.

Assim, o que acontece num século posterior reforça e elabora o que já está presente in nucleo. Por exemplo, a mudança, em tempos remotos, de uma espécie de Comunhão na mão — não da maneira como é praticada hoje, como Dom Athanasius Schneider mostra cuidadosamente em seus livros Dominus Est e Christus Vincit — para a Comunhão na boca foi um desenvolvimento orgânico que surgiu da própria reverência e adoração à Eucaristia, as quais já estavam presentes e cresciam sob a influência do Espírito Santo. 

Corrupções também podem ocorrer quando uma nova característica ou prática contradiz a letra ou o espírito do que já está estabelecido. Assim, para usar o mesmo exemplo, a reintrodução da Comunhão na mão foi uma clara corrupção, não um desenvolvimento ou uma restauração. Mais importante para nosso tema: a introdução de estilos operísticos ornamentados na Missa, durante os períodos clássico e romântico, foi uma corrupção porque transformou a liturgia num concerto e a desviou de sua orientação sobrenatural.

Esta era a perspectiva de São Pio X: embora sem dúvida fosse um admirador da música de Haydn, Mozart e de compositores italianos em si mesma, considerava seu estilo inadequado para o templo de Deus e os santos mistérios representados nela. Como explica o documento Tra le Sollecitudini, Deus já havia estabelecido com generosidade uma música intensamente contemplativa para a liturgia do rito romano, a saber, o canto gregoriano, um tipo de música que cresceu de modo orgânico com esse rito, sempre o embelezou e dá o tom para toda a música sacra adequada para o templo de Deus.

Os ensinamentos de São Pio X moldaram decisivamente o magistério posterior, de seus sucessores Pio XI e Pio XII, passando pela Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, do Vaticano II, até a exortação apostólica Sacramentum Caritatis, de Bento XVI. Em todos esses documentos encontramos um reconhecimento irrestrito da primazia do canto gregoriano para o rito romano, embora composições de outros estilos sejam bem-vindas, contanto que estejam em harmonia com a ação litúrgica — algo que, infelizmente, não pode ser dito da maior parte daquilo que passa por “música de igreja” atualmente.

A nobre perspectiva de São Pio X não é irrealista ou inalcançável. Ao longo da primeira metade do século XX e durante boa parte da década de 1960, escolas de todo o mundo ensinavam canto gregoriano às crianças, sacerdotes cantavam a Missa solene (embora a Missa rezada fosse mais popular) e comunidades religiosas cantavam o Ofício Divino. O canto gregoriano era uma característica tão proeminente do catolicismo, que Hollywood criava “atmosferas católicas” instantaneamente com poucos segundos de canto. 

Talvez alguns se surpreendam com o fato de que Thomas Merton, que se tornou tão controverso no período mais tardio de sua vida, por causa de seu envolvimento com política e atividades inter-religiosas, tenha se oposto firmemente ao abandono do latim e do canto. Como disse em 1964 a Dom Inácio Gillet, Abade Geral dos Cistercienses de Estrita Observância:

Isto é o que penso sobre o latim e o canto gregoriano: são obras de arte que nos proporcionam uma experiência monástica e cristã insubstituível. Têm força, energia e profundidade sem precedentes. Todos os ofícios em inglês que foram propostos são muito pobres — além disso, não é de modo algum difícil tornar o latim e o canto compreensíveis e valorizados. De modo geral, no noviciado, sou bem-sucedido nesse quesito, naturalmente com algumas exceções, que não os compreendem bem. No entanto, tenho de acrescentar algo mais sério. Como se sabe, tenho muitos amigos artistas, poetas, autores, editores etc. Ora, eles são perfeitamente capazes de apreciar nosso canto e mesmo nosso latim. Mas todos, sem exceção, estão escandalizados e aflitos quando lhes digo que este Ofício e esta Missa provavelmente não estarão mais aqui em dez anos. Isso é péssimo. Os monges não compreendem o tesouro que possuem e o jogam fora a fim de buscar algo diferente. Os leigos, por sua vez, que na sua maioria sequer são cristãos, são capazes de amar essa arte inigualável.

A dificuldade veio, mais propriamente, de uma falsa noção de “atualização” ou modernização — perspectiva que ganhou influência lentamente e, ao fim e ao cabo, dominou a reforma litúrgica e sua implementação, segundo a qual as antigas formas de oração e modos de arte são estranhas ao homem moderno, alienantes, excessivamente rigorosas e uma tentação para o elitismo e o escapismo. Porém, esse juízo tão negativo não parece ter sido comum entre muitos católicos, que não pediram que sua herança cultural lhes fosse tirada, nem é a prática dos católicos hoje, que redescobrem essas coisas e admiram sua beleza e pertinência, como as criteriosas “pessoas do mundo” das quais Merton fala. 

A vida nos faz lembrar repetidas vezes da verdade contida neste ditado de Chesterton: “O ideal cristão não foi experimentado e considerado deficiente. Descobriram que ele era difícil e o deixaram de lado.” Peço licença ao grande homem para adaptar sua afirmação: O ideal gregoriano para a música litúrgica não foi experimentado e considerado deficiente. Descobriram que ele era difícil e o deixaram de lado. Porém, mesmo neste caso podemos questionar seu grau de dificuldade. 

Sim, os próprios (cantos variáveis para domingos específicos ou festas) são bastante desafiadores e requerem uma schola treinada. Porém, o Ordinário da Missa — Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus, Agnus Dei — e as respostas comuns podem e são frequentemente cantadas com gosto por todos, inclusive as crianças, que reproduzem intuitivamente o que escutam. Por trabalhar há 30 anos como diretor de coral juvenil e por ter ensinado canto e trabalhado com pessoas que o ensinaram a todo tipo de gente, conheço a realidade: descobriram que ele era indesejado e o deixaram de lado. Sempre que é desejado, o gregoriano prospera e beneficia a todos.

O acesso ao canto gregoriano nunca foi tão fácil para aqueles que o procuram. Todos os antigos livros de canto litúrgico foram reeditados; todos os livros da Abadia de Solesmes para a forma ordinária ainda estão disponíveis; com um clique é possível escutar online ou imprimir a maioria dos cânticos; tutoriais gratuitos podem orientar a auto-aprendizagem, e oficinas com grande assistência ocorrem anualmente. O grande tesouro da música litúrgica não desaparecerá; ressurgirá novamente das cinzas à medida que a Igreja recuperar a sacralidade de seu culto.

Embora haja sinais promissores de que a música litúrgica católica, após décadas de secularização lucrativa e banalidade horizontal, esteja começando a passar por uma verdadeira renovação em continuidade com a Tradição da Igreja, a forma como a música é executada na maioria das paróquias indica que ainda estamos longe de uma implementação universal dos sólidos princípios de São Pio X. De acordo com muitos estudiosos, a principal característica da modernidade é seu “profundo pluralismo”, e essa mentalidade parece existir entre católicos no que diz respeito ao culto litúrgico: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, seguíamos cada qual nosso caminho” (Is 53, 6). 

Que as orações de Santa Cecília e São Pio X nos inspirem a venerar novamente “o ícone musical do catolicismo romano” (Joseph Swain), para a glória de Deus e a santificação das almas.

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Deus me vê, mas e eu?
Espiritualidade

Deus me vê, mas e eu?

Deus me vê, mas e eu?

Considerar a presença de Deus é um chamado constante à retidão de vida. Se Ele está sempre comigo, então devo ser sempre fiel, pronto para cumprir com sua vontade a todo momento… Sem “descanso”.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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E se tivéssemos permanente consciência de que Deus está a nos olhar o tempo todo, aonde quer que vamos? 

É com o coração exultante que o autor dos Salmos meditava sobre esse mistério. Todo o Salmo 138, por exemplo — “Senhor, vós me sondais e conheceis, sabeis quando me sento ou me levanto…” —, não passa de um grande louvor à onisciência e onipresença divinas. O porquê de louvá-las, é o próprio salmista quem no-lo apresenta, ao finalizar com estes versos: “Senhor, sondai-me, conhecei meu coração, examinai-me e provai meus pensamentos! Vede bem se não estou no mau caminho, e conduzi-me no caminho para a vida!” (v. 23-24). Noutro lugar o salmista dirá, já não em forma de súplica, mas em tom declaratório: “Tenho sempre o Senhor ante meus olhos, pois se o tenho ao meu lado não vacilo!” (Sl 15, 8). 

Ou seja, considerar a presença de Deus é um chamado constante à fidelidade, à retidão de vida, à vigilância. Se Ele está sempre comigo, se em lugar algum posso me ocultar de seu espírito, se não há lugar para onde fugir de sua face (cf. Sl 138, 7), então devo ser sempre fiel, preocupar-me em agir retamente o tempo todo, estar pronto para cumprir com sua vontade a todo momento… Sem “descanso”.

Mas entenda-se bem: qual o conceito que temos de descanso? É o de quem chega exausto a casa após um dia inteiro de trabalho e pode, até que enfim, meter-se uma bermuda, enfiar o chinelo de dedo e despejar-se tranquilo na poltrona. Durante todo o dia, o bom trabalhador foi solicitado, cobrado, exigido… À noite, porém, ele quer descansar, alheio a tudo e a todos, sem que lhe solicitem, cobrem ou exijam nada.

Agora, veja o pai de família se pode comportar-se assim, tendo em casa uma esposa, tão ou mais cansada do que ele, para ajudar e um punhado de filhos, repletos de energia, para educar, sem falar de tantas coisas da casa que inevitavelmente quebrarão e ele terá de consertar. Não, não há descanso para o pai de família, não pelo menos se ele quiser servir bem os de sua casa… Pois bem, se tantos agem dessa forma movidos por um amor meramente humano, por que deveriam ser menos generosos os cristãos, os servos do Deus vivo, que trazem dentro de si (ou deveriam trazer), ardente, intensa, inextinguível, cada vez maior, a chama da caridade divina?

E, no entanto, aonde têm ido os nossos corações? Por que (des)caminhos têm errado? Para onde vão dirigidos os nossos pensamentos? Com que estão sendo gastas nossas energias?

Comecemos pela tortura que pode representar para muitos a ideia de um Deus onisciente e onipresente, que observa todos os nossos passos. Diante dessa verdade, o que muitos gostariam de fazer? Cantar um salmo ou um hino de louvor? 

Para o homem justo do Antigo Testamento, até que sim; para o homem redimido por Cristo, curado e libertado no Sangue de Nosso Senhor, pode até ser. Para Adão, porém, e para a maior parte da humanidade que ainda ignora o Evangelho, a atitude mais provável seria esconder-se atrás de um arbusto ou, pior, rebelar-se abertamente contra o Criador. Em sua malícia, em seu desejo de pecar, o que muitos gostariam de fazer mesmo (e tantos outros efetivamente fazem) é proclamar que Deus não existe, só para viverem a seu modo e “sem consequências”.

A esse respeito, o Pe. Reginald Garrigou-Lagrange dá-nos conta de que 

Uma serva de Deus ouviu um dia estas palavras: “Eu vos dei uma religião de vida, e vós a fizestes uma religião de fórmulas. Eu sou um criador de felicidade e vós fizestes de mim um tirano, não vendo nos meus preceitos senão aquilo que vos desagrada” [1]. 

Ou seja, o que acontece a muitos de nós é nos servirmos do parâmetro errado. Ao invés de pedirmos com o salmista: “Examinai-me, Senhor, provai-me os pensamentos! Vede se não estou no mau caminho!”, voltamos o olhar primeiro à nossa vontade e, a partir disso, julgamos todo o resto. Ao invés de nos voltarmos humildemente para Deus, conformando-nos a Ele, esperamos o contrário: que Ele mude os seus decretos para nos agradar. Não estamos buscando a Deus, em suma, mas a nós mesmos

Poderíamos entrar aqui em considerações intermináveis a respeito de como não estamos dispostos a renunciar a nossos gostos ou opiniões para aceitarmos o ensinamento moral da Igreja em tantos temas… Mas aproveitemos o mês de novembro para falar dos novíssimos e resumir toda a questão. Quando formos julgados, no último dia, a quem prestaremos contas, afinal: a Deus ou a nós mesmos? O juízo será com base nas leis de Deus ou nas regras que nós mesmos criamos para nos livrar dele e da difícil tarefa de nossa santificação? 

Ora, se o tribunal é de Deus, se é Ele o parâmetro com que seremos julgados na eternidade, por que não começar já agora a se colocar debaixo desse olhar e clamar: “Examinai-me, Senhor! Julgai meus pensamentos! Vede se não estou no mau caminho hoje, porque naquele dia, Senhor, no dia de minha morte, pode ser tarde demais”?

Aqui podemos compreender melhor o que significa estar na presença de Deus. Trata-se de reproduzir, a todo instante, nosso julgamento particular, pedindo a Ele perdão pelas falhas em que caímos cotidianamente e, ao mesmo tempo, luz para que sejamos preservados dos pecados futuros. Significa abaixar constantemente a cabeça e reconhecer: não sou eu quem faz as leis, não sou eu quem determina o que é certo e o que é errado, não sou eu quem define o bem e o mal, não serei eu a julgar-me no último dia. Há um Outro a quem eu devo prestar contas. 

Se tivermos sempre o Senhor deste modo ante os nossos olhos, não só nos mostrando o caminho correto, mas dando-nos a graça para percorrê-lo, como havemos de vacilar? Se nos lembrarmos constantemente do Rei de tremenda majestade, Rex tremendae majestatis, que nos julgará, como não havemos de excitar em nós o temor de Deus, que é o princípio da sabedoria (cf. Pr 9, 10)? 

E se é verdade, ainda, que “no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido” (Mt 12, 34), como não havemos de pensar que o menor de nossos atos, mesmo o mais insignificante deles, carrega consigo todo o peso da eternidade?

Referências

  1. Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, O homem e a eternidade: a vida eterna e a profundidade da alma. Trad. port. de José Eduardo Câmara de Barros Carneiro. Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 13.

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Quando uma alma do Purgatório vem nos visitar...
Espiritualidade

Quando uma alma
do Purgatório vem nos visitar...

Quando uma alma do Purgatório vem nos visitar...

Para que não se esfrie o nosso zelo em socorrer as benditas almas do Purgatório, principalmente com a Missa, Deus não se cansa de multiplicar prodígios. Eis aqui dois deles, relatados por sacerdotes de confiança do século XIX.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Nada se conforma mais ao espírito cristão do que oferecer o Santo Sacrifício para o alívio das almas dos defuntos, e seria um grande infortúnio se o zelo dos fiéis esfriasse nesse campo. Deus parece multiplicar prodígios a fim de impedir que cedamos a um relaxamento tão catastrófico [1]. O seguinte incidente é confirmado por um sacerdote da diocese de Bruges, na Bélgica, digno de confiança, que o recebeu de sua fonte primária, e em cujo depoimento se pode ver a certeza plena de uma testemunha ocular do fato.

Em 13 de outubro de 1849, faleceu com 52 anos na paróquia de Ardoye, em Flandres, uma senhora chamada Eugenie Van de Kerckove, cujo marido, John Wybo, era fazendeiro. Era uma mulher piedosa e caridosa, pois dava esmolas com uma generosidade proporcional aos seus recursos. Até o final da vida, nutriu uma intensa devoção à Santíssima Virgem e semanalmente, às sextas e sábados, praticava a abstinência de carne para honrá-la. Embora sua conduta não tenha sido livre de certas falhas domésticas, noutros aspectos ela levou uma vida exemplar e edificante.

Uma criada chamada Bárbara Vennecke, de 28 anos, moça virtuosa e devota que assistira a patroa em sua última doença, continuou a servir seu mestre, John Wybo, viúvo de Eugenie.

Cerca de três semanas depois de seu falecimento, a defunta apareceu para sua criada sob as seguintes circunstâncias: era tarde da noite; Bárbara dormia tranquilamente quando escutou claramente alguém lhe chamar três vezes pelo nome. Acordou de um salto e viu sua senhora diante de si, sentada no lado da cama, usando um uniforme de trabalho composto por uma saia e um paletó curto. Diante dessa visão, embora tomada de perplexidade, Bárbara não ficou nada assustada, por estranho que pareça, e manteve sua presença de espírito. A aparição se dirigiu a ela: “Bárbara”, disse, apenas pronunciando seu nome. “O que deseja, Eugenie?”, replicou a criada. A senhora disse: “Pegue aquele pequeno rastelo que eu lhe pedia para guardar e mexa o monte de areia no quartinho — você sabe a qual me refiro. Lá você encontrará uma quantia em dinheiro. Use-a para oferecer Missas em minha intenção (dois francos para cada uma), pois ainda estou sofrendo.” “Farei isso, Eugenie”, respondeu Bárbara, e no mesmo instante a aparição sumiu. A criada, ainda muito calma, dormiu outra vez e repousou tranquilamente até a manhã.

Ao despertar, Bárbara achou que fora enganada por um sonho, mas tinha ficado tão impressionada, estava tão desperta, tinha visto sua antiga senhora numa forma tão distinta, tão cheia de vida, tinha recebido dos lábios dela orientações tão precisas, que não podia deixar de mencionar [o fato]. “Nossos sonhos não são assim. Vi minha senhora pessoalmente; ela apareceu diante de mim e falou comigo. Não é um sonho, mas algo real.”         

Portanto, tal como fora orientada, pegou o rastelo, revirou a areia e retirou uma bolsa que continha o total de quinhentos francos. 

Diante de tais circunstâncias estranhas e extraordinárias, a boa garota viu-se na obrigação de buscar aconselhamento com seu pastor e foi até ele para contar tudo o que tinha acontecido. O venerável Abbe R., então pároco de Ardoye, respondeu que as Missas solicitadas pela alma da defunta deveriam ser celebradas, mas para que o dinheiro fosse usado era necessário obter o consentimento do fazendeiro, John Wybo, que prontamente aceitou que a quantia fosse usada para um propósito tão sagrado. Então, as Missas foram celebradas e por cada uma foi dada a quantia de dois francos. 

Chamamos a atenção para a circunstância da taxa, porque ela correspondia ao piedoso costume da falecida. A taxa para o oferecimento de uma Missa determinada pelo tarifário diocesano era cerca de um franco e meio, mas a esposa de Wybo, por consideração com o clero, obrigado naquele período de escassez a ajudar muitos pobres, oferecia dois francos por cada Missa que mandava celebrar, segundo seu costume.

Dois meses depois da aparição, Bárbara foi novamente despertada durante a noite. Desta vez, seu quarto estava iluminado por uma luz intensa, e sua senhora, bela e revigorada como nos tempos de juventude, vestida com um manto de resplandecente alvura, apareceu diante dela, olhando-a com um sorriso amável. “Bárbara”, disse ela com uma voz clara e audível, “muito obrigada; estou livre”. Desapareceu depois de dizer essas palavras, e o quarto ficou escuro como antes. A criada, impressionada com o que testemunhara, foi tomada de alegria. A aparição deixou uma viva impressão na mente dela, e até hoje ela preserva uma lembrança consoladora do episódio. Esses detalhes foram contados por ela, com a aprovação do venerável Abbe L., que era vigário em Ardoye quando os fatos ocorreram.

No início de suas conferências sobre a imortalidade da alma, proferidas alguns anos antes de sua morte para os alunos de Soreze, o célebre Padre Lacordaire relatou o incidente a seguir.

O príncipe polonês de X., incrédulo e materialista confesso, havia acabado de escrever uma obra contra a imortalidade da alma. Estava prestes a enviá-la para a gráfica, quando um dia, caminhando por seu parque, uma mulher com o rosto banhado em lágrimas jogou-se aos pés dele e lhe disse num tom de profunda tristeza: “Meu bom príncipe, meu marido faleceu há pouco. Neste momento, a alma dele talvez esteja sofrendo no Purgatório. Sou tão pobre, que não tenho sequer a pequena quantia necessária para mandar celebrar uma Missa por ele. Por caridade, peço seu auxílio em nome de meu pobre marido.”

Embora o cavalheiro estivesse convencido de que a mulher fora enganada por sua credulidade, não teve coragem de lhe negar ajuda. Depositou na mão dela uma moeda de ouro. Tomada de alegria, a mulher foi correndo para a igreja e implorou ao sacerdote que oferecesse algumas Missas pelo repouso da alma de seu marido. Cinco dias depois, no início da noite, o príncipe, isolado em seu escritório, revisava o manuscrito do livro e retocava alguns detalhes quando, ao levantar os olhos, viu perto de si um homem usando um traje de camponês. “Príncipe”, disse o visitante desconhecido, “vim para lhe agradecer. Sou marido daquela pobre mulher que outro dia lhe implorou por esmola, a fim de que pudesse mandar oferecer o Santo Sacrifício da Missa pelo repouso de minha alma. Sua caridade foi agradável a Deus: foi Ele quem me permitiu vir para lhe agradecer.” 

Ditas essas palavras, o camponês desapareceu como uma sombra. A emoção do príncipe foi indescritível. Por isso, atirou sua obra ao fogo e aderiu de forma tão plena à verdade, que sua conversão foi perfeita. Ele perseverou até a morte.  

Notas

  1. Já dissemos isto aqui em outra ocasião, mas não custa repetir. Uma coisa são as visões e aparições do além que, por permissão divina, acontecem aos homens; outra bem diferente são as evocações, provocadas pelos homens, em sessões espíritas: aquelas, além de serem raras, lembram-nos a importância de sufragarmos as santas almas do Purgatório com nossas orações; estas, pelo contrário, brotam quase sempre de uma curiosidade malsã e, além disso, constituem uma grave desobediência à lei de Deus (Nota da Equipe CNP).

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