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“Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal”
Espiritualidade

“Eu sou o Anjo
da sua guarda, o Anjo de Portugal”

“Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal”

Há pouco mais de um século, em 1916, um anjo visitou três pastorinhos em Portugal, preparando seus corações para as aparições de Nossa Senhora de Fátima. Quem registrou esses acontecimentos em detalhes foi a própria Irmã Lúcia, uma das videntes.

Irmã Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado10 de Junho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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“A treze de maio, na Cova da Iria, no céu aparece a Virgem Maria”, é o que cantamos em honra a Nossa Senhora, que apareceu em Fátima no ano de 1917. Um ano antes, no entanto, os três pastorinhos Lúcia, Jacinta e Francisco foram visitados pelo Anjo custódio de Portugal e tiveram os seus corações preparados para esse grande acontecimento sobrenatural. Sendo hoje, 10 de junho, festa desse Santo Anjo da Guarda (ainda que ela não conste no calendário litúrgico do Brasil), recordemos essas aparições celestes, tal como registradas pela vidente Irmã Lúcia em suas “Memórias”:


Pelo que posso mais ou menos calcular, parece-me que foi em 1915 que se deu essa primeira aparição do que julgo ser o Anjo, que não ousou, por então, manifestar-se de todo. Pelo aspecto do tempo, penso que se deveram dar nos meses de Abril até Outubro.

Na encosta do cabeço que fica voltada para o Sul, ao tempo de rezar o terço na companhia de três companheiras, de nome Teresa Matias, Maria Rosa Matias, sua irmã e Maria Justino, do lugar da Casa Velha, vi que sobre o arvoredo do vale que se estendia a nossos pés pairava uma como que nuvem, mais branca que neve, algo transparente, com forma humana. As minhas companheiras perguntaram-me o que era. Respondi que não sabia. Em dias diferentes, repetiu-se mais duas vezes.

Esta aparição deixou-me no espírito uma certa impressão que não sei explicar. Pouco e pouco, essa impressão ia-se desvanecendo; e creio que, se não são os factos que se lhe seguiram, com o tempo a viria a esquecer por completo.

As datas não posso precisá-las com certeza, porque, nesse tempo, eu não sabia ainda contar os anos, nem os meses, nem mesmo os dias da semana. Parece-me, no entanto, que deveu ser na Primavera de 1916 que o Anjo nos apareceu a primeira vez na nossa Loca do Cabeço.

Já disse, no escrito sobre a Jacinta, como subimos a encosta em procura dum abrigo e como foi, depois de aí merendar e rezar, que começámos a ver, a alguma distância, sobre as árvores que se estendiam em direcção ao Nascente, uma luz mais branca que a neve, com a forma dum jovem, transparente, mais brilhante que um cristal atravessado pelos raios do Sol. À medida que se aproximava, íamos-lhe distinguindo as feições. Estávamos surpreendidos e meios absortos. Não dizíamos palavra.

Ao chegar junto de nós, disse:

Não temais. Sou o Anjo da Paz. Orai comigo.

E ajoelhando em terra, curvou a fronte até ao chão. Levados por um movimento sobrenatural, imitámo-lo e repetimos as palavras que lhe ouvimos pronunciar:

— Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.

Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse:

— Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas.

E desapareceu.

A atmosfera do sobrenatural que nos envolveu era tão intensa, que quase não nos dávamos conta da própria existência, por um grande espaço de tempo, permanecendo na posição em que nos tinha deixado, repetindo sempre a mesma oração. A presença de Deus sentia-se tão intensa e íntima que nem mesmo entre nós nos atrevíamos a falar. No dia seguinte, sentíamos o espírito ainda envolvido por essa atmosfera que só muito lentamente foi desaparecendo.

Nesta aparição, nenhum pensou em falar nem em recomendar o segredo. Ela de si o impôs. Era tão íntima que não era fácil pronunciar sobre ela a menor palavra. Fez-nos, talvez, também, maior impressão, por ser a primeira assim manifesta.

A segunda deveu ser no pino do Verão, nesses dias de maior calor, em que íamos com (os) rebanhos para casa, no meio da manhã, para os tornar a abrir só à tardinha.

Fomos, pois passar as horas da sesta à sombra das árvores que cercavam o poço já várias vezes mencionado. De repente, vimos o mesmo Anjo junto de nós.

— Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.

— Como nos havemos de sacrificar? — perguntei.

— De tudo que puderdes, oferecei um sacrifício em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores. Atraí, assim, sobre a vossa Pátria, a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar.

Estas palavras do Anjo gravaram-se em nosso espírito, como uma luz que nos fazia compreender quem era Deus, como nos amava e queria ser amado, o valor do sacrifício e como ele Lhe era agradável, como, por atenção a ele, convertia os pecadores. Por isso, desde esse momento, começamos a oferecer ao Senhor tudo que nos mortificava, mas sem discorrermos a procurar outras mortificações ou penitências, excepto a de passarmos horas seguidas prostrados por terra, repetindo a oração que o Anjo nos tinha ensinado.

A terceira aparição parece-me que deveu ser em Outubro ou fins de Setembro, porque já não íamos passar as horas da sesta a casa.

Como já disse no escrito sobre a Jacinta, passámos da Prégueira (é um pequeno olival pertencente a meus pais) para a Lapa, dando a volta à encosta do monte pelo lado de Aljustrel e Casa Velha. Rezámos aí o terço e (a) oração que na primeira aparição nos tinha ensinado. Estando, pois, aí, apareceu-nos pela terceira vez, trazendo na mão um cálix e sobre ele uma Hóstia, da qual caíam, dentro do cálix, algumas gotas de sangue. Deixando o cálix e a Hóstia suspensos no ar, prostrou-se em terra e repetiu três vezes a oração:

— Santíssima Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.

Depois, levantando-se, tomou de novo na mão o cálix e a Hóstia e deu-me a Hóstia a mim e o que continha o cálix deu-o a beber à Jacinta e ao Francisco, dizendo, ao mesmo tempo:

Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus.

De novo se prostrou em terra e repetiu connosco a mais três vezes a mesma oração:

— Santíssima Trindade... etc.

E desapareceu.

Levados pela força do sobrenatural que nos envolvia, imitávamos o Anjo em tudo, isto é, prostrando-nos como Ele e repetindo as orações que Ele dizia. A força da presença de Deus era tão intensa que nos absorvia e aniquilava quase por completo. Parecia privar-nos até do uso dos sentidos corporais por um grande espaço de tempo. Nesses dias, fazíamos as acções materiais como que levados por esse mesmo ser sobrenatural que a isso nos impelia. A paz e felicidade que sentíamos era grande, mas só íntima, completamente concentrada a alma em Deus. O abatimento físico, que nos prostrava, também era grande.

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“Empoderamento” ou manipulação?
Sociedade

“Empoderamento” ou manipulação?

“Empoderamento” ou manipulação?

Estamos mesmo na “era do empoderamento feminino”? Até que ponto as bandeiras feministas realmente redimem e dão poder às mulheres? Como discernir o que de fato as liberta do que não passa, ao contrário, de uma amarga ilusão?

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Junho de 2020Tempo de leitura: 13 minutos
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Esta é a era do empoderamento feminino”, disse a advogada feminista Gloria Allred, em resposta ao movimento #MeToo (“Eu também”), que ganhou o mundo em 2017 depois que a atriz Alyssa Milano fez o primeiro tuíte com a hashtag, denunciando a gravidade do assédio sexual e convidando outras mulheres a revelarem suas histórias. Em pouco tempo, milhares de respostas vieram de toda parte, engrossando o coro feminino contra a “cultura do estupro”.

O estopim foi a denúncia de que o diretor Harvey Weinstein há anos assediava atrizes, modelos e funcionárias de seu estúdio em Hollywood, incluindo nomes como Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie. Logo outras histórias vieram à tona, culminando na condenação não só de Weinstein, mas de uma série de personalidades do show business americano. No fim das contas, a celeuma serviu para, além de expor um problema gravíssimo, também questionar o status da mulher e o que se considera como seu “lugar de fala” dentro da sociedade.

Assim como o #MeToo, outras reivindicações femininas ao longo da história confrontaram a visão da mulher como o “sexo frágil”, condenando o comportamento vil de muitos homens que, movidos por uma falsa virilidade, tendem a tratá-las apenas como “objetos de prazer” e nada mais. Foi a sensação de desprezo, abuso e irrelevância que, em boa parte, levou 90% das islandesas à rua, em 24 de outubro de 1975, para participarem do “Dia de Folga das Mulheres”. De lá para cá, outras tantas bandeiras foram levantadas, sendo o #MeToo apenas mais uma delas.

Mas, como toda revolução, o perigo de jogar o bebê fora com a água do banho também é perceptível nesse contexto, e as bandeiras hoje ditas “feministas” nos levam a debater até que ponto esse suposto “empoderamento” é realmente uma redenção da mulher e se muita coisa não passa, na verdade, de uma amarga ilusão.

Uma narrativa em contradição

A pergunta é justa diante dos modelos de “mulheres poderosas” que nos são apresentados. É “poderosa” a mulher que não preza por qualquer pudor ou modéstia e dá de ombros aos padrões ditos “convencionais”. Recentemente, a apresentação de duas cantoras num evento esportivo foi celebrada pela imprensa como uma demonstração do “girl power”, por conta das suas coreografias eróticas e figurinos sensuais. Ali, no palco, elas estariam exercendo livremente a própria sensualidade, sem qualquer submissão ou tabu.

No fundo, a questão não parece ser o modo como a mulher é tratada sexualmente pelo homem, mas se ela aceita ou não ser tratada assim. Tudo depende do consentimento. O que se busca, portanto, é a emancipação da vontade feminina, de modo que a mulher possa fazer o que quiser, acima de qualquer juízo moral. E, consequentemente, o corpo dela acaba se convertendo num instrumento de protesto, numa bandeira com a qual ela afronta papéis, instituições e a sua própria sexualidade. Trocando em miúdos, a mulher deveria ser livre para, inclusive, não ser mulher.

Simone de Beauvoir, filósofa e ativista francesa do século XX.

O sucesso de visuais andróginos é muito representativo desse pensamento, porque desconstrói qualquer estereótipo de feminilidade. Como disse Simone de Beauvoir certa vez, “não se nasce mulher; fazem-na mulher” — on ne naît pas femme, on le devient. Desse modo, considera-se que, no ser da mulher, não há uma natureza, mas apenas uma construção social, um ideal feminino, que agora deve ser desfeito para dar vez à vontade de todo aquele ou aquela que se identifica como mulher, tendo ou não uma genitália feminina...

Nem todas as mulheres, porém, comungam desse ideal feminino, sobretudo no que diz respeito a temas como vida, sexualidade e família. E aqui a narrativa do “empoderamento” parece entrar em contradição. Quando uma mulher se recusa, por exemplo, a aceitar a ideologia de gênero, ela não só é criticada, chamada de “fascista”, “machista” e “transfóbica”, como também acaba sendo excluída do seu (chamado) “lugar de fala”. Não lhe é dado o direito de divergir, restando-lhe apenas o desprezo e a zombaria, ao passo que à mulher-trans, seja lá o que esse termo signifique, são reservadas todas as deferências. Isso é particularmente sensível na área dos esportes, uma vez que o Comitê Olímpico Internacional não exige sequer a cirurgia de mudança física para que um homem possa jogar contra mulheres numa competição. Basta ao atleta declarar que “sua identidade de gênero é feminina”, e pronto, ele já pode sair distribuindo porradas em ringues femininos.

Testemunho revelador

Acontece que nada vem do nada, sobretudo ideias. O “empoderamento” feminino, nos moldes descritos anteriormente, não surgiu da cabeça de uma mulher que, de repente, tomou consciência de si e de suas colegas. Na verdade, foi da cabeça de um homem, Kingsley Davis, que, por meio de sua aluna, Adrienne Germain, convenceu as fundações Rockefeller, Ford, MacArthur etc. a investirem em engenharia social, a fim de mudarem o comportamento e a mentalidade das mulheres, especialmente sobre maternidade e família. Obviamente, não é possível reduzir a complexidade do tema à intervenção de uma ou duas pessoas, mas o financiamento de ONGs feministas por fundações internacionais é coisa amplamente documentada e admitida publicamente pelas próprias feministas.

Frances Kissling, fundadora do grupo Catholics for Choice.

O testemunho de Frances Kissling, fundadora das Catholics for Choice [no Brasil, CDD: “Católicas pelo Direito de Decidir”], é revelador nesse sentido. Numa entrevista a Rebecca Sharpless, em 2002, ela contou como “o fato de ter recebido uma doação da Fundação Ford” representava, para sua organização recém-criada, “um ponto de virada”, porque aquilo “significava que tínhamos sido finalmente admitidas naquele [outro] mundo”, ou seja, na militância abortista. Dentre as fundações listadas por Kissling estavam, além da Ford, outras como a Sunnen e a Playboy, todas interessadas na propaganda dos “direitos reprodutivos” como meio para o controle populacional. Em 2007, o jornal The New York Times divulgou que o orçamento anual das CDD chegava a três milhões de dólares, por meio do financiamento dessas fundações, especialmente da Ford.

O papel das ONGs é importantíssimo para a propaganda cultural, dada a representatividade delas na imprensa e na política. Na audiência pública sobre a legalização do aborto no Brasil, em 2018, essas entidades se apresentaram ao STF como legítimas porta-vozes das mulheres, ainda que a maioria dos brasileiros seja contrária a qualquer mudança na legislação sobre o tema.

No caso das “Católicas pelo Direito de Decidir”, elas têm a missão específica de minar a imagem da Igreja perante a opinião pública, impingindo-lhe a pecha de “machista”, “misógina”, e “intolerante”, porque, como explicou Frances Kissling na mesma entrevista, “a moral católica é a mais desenvolvida”, de modo que, concluiu ela, “se você puder derrubá-la, derrubará por conseqüência todas as outras”. Daí todo o investimento das fundações, a fim de criar um espantalho da Igreja e seduzir as mulheres para sua suposta agenda de “empoderamento”.

A Igreja oprimia as mulheres?

É frequente a acusação de que a Igreja Católica oprime as mulheres por não as admitir ao sacerdócio ou por conta da sua moral sexual [1]. Mas, no fundo, o que se pretende com tal ataque é, segundo Judith Butler, “a luta por aceitar o desejo como princípio de deslocamento metafísico e dissonância psíquica e o esforço orientado por deslocar o desejo com o fim de derrotar a metafísica da identidade” [2]. Traduzindo: trata-se de desmoralizar a única instituição no mundo que, no contexto atual, ousa proclamar que existe uma natureza humana — donde derivam os direitos e deveres da pessoa —, natureza que homens e mulheres devem respeitar e não podem manipular como lhes apetece [3].

Judith Butler, filósofa pós-estruturalista norte-americana.

A verdade é que, longe de oprimir as mulheres, a consciência da Igreja sobre a natureza humana foi justamente o que as libertou, numa época em que o direito romano e a cultura pagã as consideravam inferiores aos homens. Estes tinham direito de propriedade sobre esposas e filhos, podendo dispor de suas vidas como bem quisessem. O cristianismo, por sua vez, com sua noção de natureza humana, elevou o status da mulher à mesma dignidade do homem, considerando-a também “imagem e semelhança de Deus”, conforme ensinou São Paulo: “Não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus” (Gl 3, 28). Essa novidade do cristianismo foi decisiva para o fenômeno das conversões entre as mulheres na Igreja primitiva.

O sociólogo Rodney Stark afirma taxativamente que “a mulher cristã desfrutava de segurança e igualdade conjugal bem maiores do que as de suas congêneres pagãs” [4]. E a razão disso, conforme avalia Stark, é que, com o advento da moral cristã, o feminicídio foi proibido e a castidade passou a valer também aos homens. Ademais, as viúvas cristãs tinham o privilégio de não precisar casar de novo, o que lhes permitia desfrutar livremente da herança de seus maridos. E se, por um lado, as moças romanas eram obrigadas a casar antes mesmo da puberdade, tendo o casamento consumado logo após a cerimônia, as mulheres cristãs, por outro, não só podiam se casar mais velhas como tinham o direito de escolher seus maridos.

A virgindade, nesse contexto, era tanto uma virtude como um grito de independência da mulher. As donzelas cristãs tiveram apoio da Igreja para escapar de casamentos forçados, impostos pelos pais, tendo muitas delas optado pelo martírio, como foi o caso de Santa Bárbara. E “negar a autoridade do pai de família, o único cidadão total, proprietário, chefe militar e sacerdote, no seu lar e na sua cidade era abalar o fundamento de toda uma sociedade”, explica a historiadora Régine Pernoud [5]. Por isso, o culto das santas mulheres foi algo bem notável no início do cristianismo, como consequência do “papel ativo que as mulheres tiveram no domínio da evangelização, numa época em que o Ocidente hesita entre paganismo, arianismo e fé cristã” [6].

Idade Média, apogeu da redenção feminina

Régine Pernoud, historiadora medievalista do século XX.

Mas se enganaria quem pensasse que essa redenção feminina, por assim dizer, foi algo particular da Igreja nascente. Na verdade, como Régine Pernoud afirma, “o apogeu corresponderia à idade feudal: do século X ao fim do século XIII”, período em que, segundo ela, “as mulheres exercem então, incontestavelmente, uma influência que não obtiveram nem as bonitas mulheres da Fronda do século XVII, nem as severas anarquistas do século XIX” [7]. De fato, Pernoud apresenta um conjunto de referências bem convincentes em seu livro A mulher no tempo das catedrais, leitura indispensável para quem acredita que a Igreja jamais concedeu “lugar de fala” às mulheres e lhes deve alguma desculpa por isso.

Exemplo contundente é o da santa religiosa Hildegarda de Bingen. Ela exerceu tal influência sobre o seu mundo que recebeu do próprio Papa Eugênio III a autorização para sair do claustro e pregar publicamente a vida mística e a doutrina cristã. Mosteiros masculinos e femininos acorriam a ela para pedir conselhos espirituais ou de outra natureza, dada a familiaridade da santa em assuntos de medicina, ciências naturais e inclusive música. O Papa Bento XVI, que a colocou no seleto rol dos Doutores da Igreja, disse que, em seus escritos, Hildegarda “manifesta a versatilidade de interesses e a vivacidade cultural dos mosteiros femininos da Idade Média, contrariamente aos preconceitos que ainda pesam sobre aquela época” [8].

Podemos aludir ainda a uma Santa Catarina de Sena — analfabeta, pobre, humilde, mas de grande sabedoria, a quem o Papa Gregório XI confiou missões diplomáticas num tempo de severa crise social e eclesiástica — ou à querela entre Henrique VIII e a Santa Sé  — quando esta se colocou ao lado de Catarina de Aragão, não do infeliz monarca —, como provas inconcussas de que a fé católica jamais teve qualquer inclinação misógina. O declínio social da mulher só aconteceu na modernidade, quando esta mesma Igreja foi posta de escanteio para dar lugar à revolução protestante, com a abolição do culto à Virgem Maria, e ao paganismo renascentista, com o culto ao corpo:

Tão-logo foi suprimida a autoridade da Igreja, a postura do marido em relação à mulher tendeu a retornar ao ideal pagão do mestre e do dono em lugar de um afetuoso amigo, companheiro e protetor. Evidências claras da triste deterioração do prestígio da mulher podem ser vistas na literatura inglesa dos séculos XVII e XVIII, quando os efeitos destrutivos do protestantismo na vida social já podiam ser percebidos plenamente. A estima e o respeito cortês pelas mulheres [...], reflexo da inigualável glória da Rainha do Céu, desapareceu da literatura inglesa [...]. A mulher voltou a ser valorizada apenas por seu sexo; e aquela que não exercia atração sexual (ou deixara de fazê-lo) muitas vezes era alvo de piadas grosseiras demasiado repulsivas à mentalidade verdadeiramente cristã [9].

O silêncio quase absoluto sobre esses fatos é simplesmente ideológico, porque nenhuma dessas mulheres católicas serve à causa dos “direitos reprodutivos”, por mais “empoderadas” que tenham sido. Para combater a “masculinidade tóxica”, elas não reivindicaram uma “feminilidade tóxica”, não condenaram o matrimônio, não queimaram sutiãs, não se despiram em cima dum palco, nem defenderam a legalização do aborto ou qualquer coisa do gênero. Pelo contrário, elas empunharam as armas da oração e da virtude, com as quais domesticaram os bárbaros, convertendo-os a Nosso Senhor. Não custa lembrar que, nas sagradas páginas do Evangelho, é a voz de Maria Santíssima que escutamos repetidas vezes, nunca a de São José. Mas nem a Mãe de Deus nem as demais santas mulheres têm “lugar de fala” dentro do feminismo.

Fundações empoderadas, não mulheres

Entretanto, as mulheres já começam a colher os frutos desse empoderamento artificial. Os homens podem continuar a tratá-las impudicamente, desde que elas consintam. E assim temos as “poderosas” canções de funk, sertanejo, pop etc., com letras do tipo que não ousamos citar aqui, ou os filmes feministas, que não temem explorar o fetiche masculino por lésbicas para conquistar uma boa bilheteria. Com tamanho estímulo, só poderia dar nisto: “Casos de feminicídio crescem 22% em 12 estados durante a pandemia” [10].

“Santa Catarina de Sena”, de Giovanni Battista Tiepolo.

É hora de as mulheres entenderem que a luta por “direitos reprodutivos” não é nada libertadora. Na mesma entrevista a Rebecca Sharpless, Frances Kissling dizia que sempre se perguntou o porquê de as fundações investirem tanto nos “direitos reprodutivos” e se elas continuariam a luta por esses direitos se ficasse provado que tal investimento não resulta num menor número de bebês. “Eu perguntei isto para um mundo de pessoas, e a maioria não quis responder a estas perguntas quando eu as fiz”. Kissling mesmo concluiu que seu trabalho servia apenas para empoderar as fundações, não as mulheres.

Desde o seu “lugar de fala”, Santa Catarina de Sena notava sabiamente que o mal da sociedade de seu tempo não era a Igreja ou a família, mas justamente a ausência de virtudes nos membros dessas instituições, que as rebaixavam e humilhavam com seus vícios e prevaricações. Uma coisa é a Igreja (ou a família) em si mesma, outra é quem dela abusa em benefício próprio. Por isso, não faltou à santa a bravura para dizer ao Papa, a quem considerava o “doce Cristo na terra”, estas palavras de encorajamento: “Seja homem”. Foi assim que Catarina, sempre piedosa, sempre contemplativa, pôs o clero e os demais homens de seu tempo no caminho da reta razão, levando o Papa Urbano VI a declarar: “Vede, meus irmãos, como nos tornamos desprezíveis aos olhos de Deus, deixando-nos tomar pelo medo. Esta pobre mulher nos envergonha” [11].

Para um texto que já vai longe demais, ainda teríamos exemplos mais recentes, como o de Madre Angélica, fundadora da TV católica EWTN, cujos protestos sobre a polêmica tradução inglesa do Catecismo foram acolhidos pelo então Cardeal Ratzinger, em oposição a muitos bispos; ou o de Madre Pasqualina Lehnert, que exerceu grande influência no Vaticano de Pio XII. A lista, no entanto, já é suficiente para desfazer qualquer desconfiança sobre as damas católicas. Diz um ditado antigo que, por detrás de todo grande homem, há sempre uma grande mulher. Oxalá não faltem mulheres com essa envergadura nos dias de hoje.

Referências

  1. Sobre a ordenação de mulheres, o Cardeal Ratzinger recorda em sua entrevista ao jornalista Peter Seewald, no livro O Sal da Terra, uma afirmação bastante simbólica da exegeta feminista Elizabeth Schussler: “A experiência feita com mulheres ordenadas na Igreja Anglicana levou-a a reconhecer: ordination is not a solution (‘a ordenação não é uma solução’), não é o que queríamos. E também explica por quê. Diz: ordination is subordination, portanto, a ordenação é subordinação — significa inserir-se numa ordem estabelecida e subordinar-se, e é exatamente o que não queremos” (Rio de Janeiro: Imago, 2005, p. 167).
  2. Judith Butler. Subjects of desire. Columbia University Press, 2012, p. 15.
  3. Cf. Papa Bento XVI, Discurso ao Parlamento Alemão, 22 set. 2011: “Também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece. O homem não é apenas uma liberdade que se cria por si própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza, e a sua vontade é justa quando respeita a natureza e a escuta e quando se aceita a si mesmo por aquilo que é e que não se criou por si mesmo. Assim mesmo, e só assim, é que se realiza a verdadeira liberdade humana.”
  4. Rodney Stark. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 120.
  5. Régine Pernoud. A mulher no tempo das catedrais. Lisboa: Gradiva, 1984, p. 22.
  6. Ibidem, p. 17.
  7. Ibidem, p. 8.
  8. Papa Bento XVI, Audiência Geral, 8 set. 2010.
  9. Rev. E. Cahill, S.J., The Framework of a Christian State, Roman Catholic Books, reimpressão de 1932, p. 432.
  10. O feminicídio é um crime injustificável e nenhum homem deveria se sentir estimulado a praticá-lo. Mas, numa cultura viciada, que está o tempo todo reforçando a imagem da mulher como objeto, seja por representações artísticas, seja por discursos midiáticos, homens machistas acabam tendo seus vícios ainda mais alimentados, o que muitas vezes acaba no extremo de um homicídio. A catequese cristã, por outro lado, insiste que os homens devem amar suas mulheres “como Cristo amou a Igreja”, ou seja, sacrificando-se por elas.
  11. Santa Catarina de Sena. O Diálogo. São Paulo: Paulus, 1984, p. 10.

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Se não houve latim em Pentecostes, por que agora?
Liturgia

Se não houve latim
em Pentecostes, por que agora?

Se não houve latim em Pentecostes, por que agora?

Em Pentecostes, os Apóstolos “ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas”, mas não consta que eles tivessem usado o latim. Por que, então, recorrer a ele? Que diferença faz ter uma língua “separada” para o culto a Deus?

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Junho de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Ainda na esteira da grande festa de Pentecostes — uma festa tão grande aos olhos da Igreja Católica, que era celebrada por oito dias (ou seja, como uma Oitava) no rito latino desde o final do século VI, um costume até hoje existente onde quer que se celebre a forma antiga do rito romano —, faríamos bem em examinar o que significa e o que não significa o dom de línguas.

Certa vez um amigo me disse que manifestara o seu amor à Missa tradicional em latim a um diácono, que lhe respondeu enfurecido: “O Pentecostes mostra que os Apóstolos falaram com todos em sua própria língua — não em latim”. Essa interpretação equivocada do Pentecostes, que às vezes escutamos sob diferentes formas, merece uma resposta.

1. O livro dos Atos dos Apóstolos mostra que os Apóstolos pregaram para as pessoas em muitas línguas. Não há nada no relato de Pentecostes sobre o culto no Templo ou na sinagoga, ou sobre a liturgia eucarística e o Ofício Divino, que se desenvolveram a partir deles e os substituíram. E até onde sei, sempre foi costume pregar em vernáculo nas Missas em latim, salvo em contextos acadêmicos muito especializados. O dom de línguas existe para a evangelização, a apologética e a catequese — não especificamente para o culto litúrgico.

2. O Pentecostes é apresentado na Escritura como uma inversão da torre de Babel. A maldição original do homem ambicioso era dividir a sua prole em mil línguas. Os ricos frutos poéticos da multiplicidade de línguas podem ser considerados bênçãos queridas por Deus, mas a dificuldade e a frequente impossibilidade de um discurso comum entre animais racionais é uma maldição, a qual sempre se renova quando deparamos com uma liturgia celebrada numa língua que nos é estranha, como se nos estivera dizendo: “Isto não é para você; é apenas para eles, para aquele grupo de pessoas”. 

Quando tradições litúrgicas desenvolvem uma linguagem comum de culto público, temos um retorno simbólico à condição anterior à Queda no Jardim do Éden, quando os seres humanos só falavam uma língua. Na liturgia latina, não somos confrontados com uma forma vernacular estranha que nos exclui; pelo contrário, escutamos o som de uma única voz, que pertence à Igreja em oração, acolhendo todas as nações e povos numa única celebração.

Sim, o latim litúrgico é “estranho” no sentido de ser algo que não está à nossa disposição todos os dias; não é algo familiar e fácil, nem está em nosso nível. Ele evoca a transcendência e a majestade de Deus, a universalidade de seu Reino, as antigas profundezas da fé. Mas ao longo do tempo identificamos essa linguagem distante como sinal de honra, enxergâmo-la como promotora da reverência e encontramos nela um convite à oração. Quando mergulhamos numa piscina, tão-logo atingimos a água sabemos — não apenas de modo racional, mas também de modo instintivo — que estamos num novo ambiente e que devemos nadar. O mesmo acontece quando escutamos um canto ou orações recitadas em latim: sabemos que estamos em um novo ambiente e que devemos rezar.

3. O dr. Joseph Shaw mostra que o costume de empregar uma linguagem sagrada tem lastro na própria história da Salvação:

A tradição do canto gregoriano remonta ao Templo em Jerusalém, onde trabalhavam cantores profissionais (cf. 2Cr 5, 15); o uso do latim recorda o uso do hebraico como língua sagrada depois que os judeus passaram a falar aramaico; a ênfase da liturgia tradicional no sacerdote, no altar e no sacrifício está impregnado da atmosfera do antigo culto judaico, algo que às vezes é observado por judeus conversos.

Como eram judeus, eles [Apóstolos] aprenderam a rezar e a cantar os Salmos em hebraico e em sua língua materna. Não há na Escritura nenhuma crítica a línguas sagradas, e as liturgias mais antigas não eram de forma alguma compostas na linguagem comum. Nas regiões em que se falava grego, a Igreja conseguiu empregar o registro sagrado criado pela Septuaginta: uma forma distinta do grego que já tinha dois séculos de existência e era repleta de hebraísmos. A liturgia em latim só surgiu quando traduções latinas da Bíblia criaram algo equivalente. Depois disso, encontramos uma liturgia com um latim sagrado e um vocabulário especializado, repleto de arcaísmos, estrangeirismos e outras particularidades; de modo semelhante, o copta litúrgico é uma língua arcaica enriquecida com termos gregos e escrita em caracteres gregos. Quanto à Igreja eslava e à linguagem do missal glagolítico, suas origens e sua história não são redutíveis à simples ideia da “língua em uso na época” e, em todo o caso, elas rapidamente se tornam línguas litúrgicas para pessoas que não são capazes de compreendê-las. Permanecem, sim, vinculadas culturalmente aos povos a que servem, mas não são facilmente compreensíveis por eles.  

De fato, vemos que toda a igreja cristã antiga desenvolveu línguas e expressões sagradas para o culto: a Igreja Ortodoxa grega ainda usa o grego koiné, os russos usam o eslavo eclesiástico, os etíopes usam o ge’ez, os coptas usam o copta literário etc. Não se trata de um fenômeno ocidental ou romano

4. Nossa língua nativa, ou “língua materna”, vem de nossa própria mãe: a voz dela é a primeira que ouvimos quando estamos em seu ventre, e quando nascemos e somos carregados por ela no colo escutamos a mesma voz. Em certo sentido, somos equipados por natureza com o nosso vernáculo cotidiano por causa de uma imersão sem esforço na cultura familiar. Essa linguagem representa a ordem natural na qual vivemos, nos movemos e temos o nosso ser natural.

Ora, assim como o cristão recebe do exterior o renascimento espiritual do Batismo (pois, como afirma Joseph Ratzinger, “ninguém nasce cristão, nem mesmo tendo nascido num mundo cristão ou de pais cristãos. Só é possível tornar-se cristão por meio de um novo nascimento. A vida cristã começa com o Batismo, que é morte e ressurreição, e não com o nascimento biológico”), assim também a língua sacra com a qual prestamos culto vem do exterior, da Santa Madre Igreja, que nos ensina uma nova língua cristã — uma “língua materna” espiritual — que representa a ordem sobrenatural na qual vivemos, nos movemos e temos o nosso ser sobrenatural. Os católicos do rito latino têm uma língua sacra que recebem “do exterior”, assim como o renascimento batismal.

De algum modo, a liturgia cristã nos diz que, ao entrarmos no templo do Senhor, não falamos meramente com um discurso natural, mas sobrenatural, uma língua de santos, de anjos, de Deus. Obviamente, essa língua não precisa ser o latim — como foi dito acima, muitas línguas sacras são usadas nos ritos tradicionais apostólicos —, mas não deveria ser o vernáculo cotidiano do círculo familiar ou do mercado, ou mesmo a linguagem técnica das disciplinas acadêmicas. Ela deveria ser separada por séculos de uso consagrado ao culto divino; desta forma, ela ajuda os fiéis a deixar de lado as preocupações terrenas e a consagrar partes simbólicas do seu tempo somente a Deus. 

Uma língua litúrgica tradicional é um lembrete de que a nossa adoção sobrenatural como membros da família de Deus é mais fundamental e definitiva do que qualquer família, cidadania, nação ou raça terrena.

5. Acima de tudo, algo que a Igreja Católica no Ocidente tem praticado por mais de 1600 anos — algo que quase todos os nossos santos canonizados praticaram — não pode ser condenado sem que se negue que o Espírito Santo guia a Igreja na direção da plenitude da verdade (cf. Jo 16, 13).

O Espírito Santo, que muniu os Apóstolos de expressão linguística enquanto pregavam para todas as nações, também deu à Igreja ocidental o latim litúrgico como herança transmitida século após século com uma veneração cada vez maior. O que foi estabelecido por escolha foi confirmado pelo costume e preservado pela piedade. As formas de culto se desenvolveram ao longo dos séculos com uma riqueza de conteúdo e estrutura tal, que foi se tornando cada vez mais difícil sua tradução ou adaptação para outro idioma; isso a tornou ainda mais preciosa e digna de cultivo. Contra o panorama de experimentos na vernaculização a partir da metade do século XX — experimentos que mais propriamente poderiam ser chamados de babelização —, um número cada vez maior de pessoas tem percebido que a herança latina continua sendo preciosa e digna de cultivo hoje em dia.

Por fim, os tipos corretos de unidade e diversidade são todos dons do Espírito Santo, cuja vinda singular com plena força sobre a Igreja é celebrada pelo rito romano durante oito dias de alegria e por diversos meses de “domingos após o Pentecostes”. Em meio à diversidade cultural, a Igreja Católica teve a sabedoria de reconhecer o poder espiritual de elementos centrais de unidade que nos mantêm unidos na confissão da verdadeira fé. Só podemos esperar e rezar para que, com o passar do tempo, as lideranças da Igreja recuperem algo do que imprudentemente foi desperdiçado [1].

Notas

  1. Recorde-se, a esse propósito, que a própria constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II, nunca falou em abolir o latim na liturgia. Se os Padres conciliares defenderam, por um lado, que se concedesse à língua vernácula um espaço mais amplo, por outro, também ficou determinado: “Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos” (n. 36, § 1); e ainda: “Tomem-se providências para que os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da missa que lhes competem” (n. 54) (Nota da Equipe CNP).

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Os cinco símbolos do Espírito Santo
Espiritualidade

Os cinco símbolos do Espírito Santo

Os cinco símbolos do Espírito Santo

O Espírito Santo é descrito na Bíblia como vento, fogo e água, mas ao mesmo tempo Ele é muito maior do que todas essas coisas. Os símbolos são importantes, no entanto, porque ensinam como a Terceira Pessoa da Trindade age em nossas almas.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Junho de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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Com a chegada de Pentecostes, queremos considerar hoje alguns dos símbolos bíblicos do Espírito Santo e, com isso, aprender o que Ele realiza em nós. As seguintes descrições não o reduzem, sem mais, a fogo, água ou línguas. Pelo contrário, o Espírito Santo é descrito na Bíblia como se fosse essas coisas e, ao mesmo tempo, como algo maior do que elas. 

1. Vento. — As Escrituras dizem: “Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reu­nidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados” (At 2, 1s). 

Note-se que o texto fala do Espírito Santo “como se soprasse um vento impetuoso”, mas não diz que o Espírito Santo seja um vento impetuoso, já que Ele não pode ser reduzido a objetos físicos, ainda que se possa atribuir-lhe alguma semelhança com eles.

Esse texto nos leva à raiz mesma da palavra “espírito”. O espírito alude ao ato de inspirar ou respirar, como se vê pela etimologia da palavra “respiração”. Por isso, o Espírito de Deus é o sopro ou hálito de Deus, a Ruah Adonai

  • “O Espírito [ruah] de Deus pairava sobre as água” (Gn 1, 2).
  • “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro [ruah] da vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2, 7).

O próprio Espírito de Deus foi infundido em Adão! Como sabemos, porém, Adão perdeu esse dom e morreu espiritualmente quando pecou. Em consequência, também nós perdemos o Espírito de Deus e morremos espiritualmente. São Paulo diz sem meias palavras que todos estávamos mortos por nossos pecados (cf. Col 2, 13).

Vemos nesse trecho de Atos uma ressurreição maravilhosa da pessoa humana, pois os primeiros cristãos experimentaram o vento impetuoso do Espírito de Deus infundir-lhes novamente a vida espiritual. É como uma “reanimação respiratória”: Deus traz de volta à vida a humanidade morta pelo pecado. O Espírito Santo vem habitar em nós outra vez como em seu templo (cf. 1Cor 3, 16).

Essa imagem do vento impetuoso é um lembrete de que o Espírito Santo nos devolve e sustenta a vida. Se o Natal é a festa de Deus conosco e a Sexta-feira, a de Deus para nós, Pentecostes é a festa de Deus em nós. O Espírito Santo é, pois, como um vento impetuoso, que nos inspira outra vez a vida divina.

2. Fogo. — As Escrituras continuam: “Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo, que se repartiram e pousaram sobre cada um deles” (At 2, 3).

A Bíblia costuma falar de Deus como um fogo ou em termos parecidos:

  • Moisés viu a Deus na sarça ardente. Deus tirou seu povo do Egito através do deserto entre colunas de fogo. Moisés foi ao topo fulgurante do Monte Sinai, onde Deus se encontrava.
  • “O Senhor reina! Que a terra exulte de alegria, que se rejubile a multidão das ilhas. Está envolvido em escura nuvem, seu trono tem por fundamento a justiça e o direito. Ele é precedido por um fogo que devora em redor os inimigos. Seus relâmpagos iluminam o mundo, a terra estremece ao vê-los. Na presença do Senhor, fundem-se as montanhas como a cera, em presença do Senhor de toda a terra. Os céus anunciam a sua justiça e todos os povos contemplam a sua glória” (Sl 96 [97], 1-6).
  • As Escrituras chamam a Deus “fogo santo”, “fogo que consome” (cf. Hb 12, 29) e “fogo purificador” (cf. Is 48, 10; Zc 13, 9; Ml 3, 3).

Portanto, o nosso Deus, que é um fogo sagrado, vem habitar em nós por meio do seu Espírito Santo. Como fogo santo, Ele nos acrisola ao queimar nossos pecados e purificar-nos. Como disse Jó: “Ele conhece o meu caminho; se me põe à prova, dela sairei puro como o ouro” ( 23, 10).

O fogo transforma tudo o que encontra. Nada passa incólume por ele: pode ser consumido, convertido, purificado, aquecido, derretido ou endurecido; nada, porém, passa incólume pelo fogo.

Por isso, Deus Espírito Santo está em nós como um fogo sagrado, mudando-nos e transformando-nos, queimando os nossos pecados, purificando-nos e iluminando-nos, ateando em nós a chama do amor divino e, desta forma, elevando-nos à temperatura da glória de Deus. Ele é como um fogo que dá luz e calor em nossos momentos mais frios e sombrios. Pouco a pouco, vamos nos tornando uma fornalha ardente de caridade, capaz de transmitir calor aos que estão ao nosso redor.

Como fogo, Deus também nos está preparando para o Juízo. Se Ele, afinal, é fogo sagrado, quem poderá subsistir quando chegar o seu dia? Quem pode suportar a presença do próprio Fogo em si? Somente o que também é fogo. É por isso que nos devemos abrasar de amor divino.

Em outras palavras, com o envio do Espírito Santo, Deus nos ateia fogo para nos converter em fogo. Com isso, Ele nos purifica e prepara para nos encontrarmos consigo um dia, para conhecermos Aquele que é fogo sagrado.

3. Línguas. — Ele também é descrito como línguas de fogo, o que nos ensina que um dos principais frutos do Espírito é ajudar-nos a dar testemunho às outras outras. Mas o que significa testemunhar? É falar do que se viu, ouviu e experimentou.

A respeito da necessidade de dar testemunho, disse Nosso Senhor:

  • “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo” (At 1, 18).
  • “Vós sois as testemunhas de tudo isso. Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai; entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto” (Lc 24, 48s).
  • “Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim. Também vós dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio” (Jo 15, 26s).

O Espírito vem em forma de línguas a fim de nos fortalecer para a nossa missão, para o nosso testemunho. E como é necessário esse testemunho nos dias de hoje! O mal tem triunfado porque os bons se mantêm em silêncio; os púlpitos estão mudos; os pais foram calados. As línguas de fogo nos recordam que Deus quer santos fortes e animados, que têm coragem de dar testemunho em um mundo cético, mentiroso e zombeteiro.

Muitos mártires morreram valorosamente no decorrer da história, e no entanto muitos hoje têm medo só de pensar que alguém os olhará torto… Peçamos línguas corajosas e coragem para usar a língua!

4. Água. — É uma imagem que Jesus utiliza com frequência para falar do Espírito Santo. No último dia da grande festa dos Tabernáculos, Jesus se pôs de pé e disse em alto e bom som: “‘Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura: Do seu interior manarão rios de água viva’. Dizia isso, referindo-se ao Espírito que haviam de receber os que cressem nele, pois ainda não fora dado o Espírito, visto que Jesus ainda não tinha sido glorificado” (Jo 7, 37ss).

No Evangelho segundo S. João, o dom do Espírito Santo é descrito em termos bastante vivos, no momento da crucificação:

“Havendo Jesus tomado do vinagre, disse: ‘Tudo está consumado’. Inclinou a cabeça e entregou o espírito. Os judeus temeram que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque já era a Preparação e esse sábado era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. Vieram os soldados e quebraram as pernas do primeiro e do outro, que com ele foram crucificados. Chegando, porém, a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água. O que foi testemunha desse fato o atesta (e o seu testemunho é digno de fé, e ele sabe que diz a verdade), a fim de que vós creiais” (Jo 18, 30-35).

Nessa água que jorra do peito de Cristo, o Espírito Santo aparece como numa espécie de “Pentecostes joanino”. De fato, é um jogo de palavras característico de S. João o uso de “entregar o espírito”, que pode significar tanto que Jesus morreu como que nos deu o seu Espírito Santo. 

Os Padres da Igreja também veem na água um símbolo adequado do Espírito:

  • Santo Irineu diz: “Assim como a farinha seca não pode aglutinar-se em uma só massa de pão sem mistura de água, tampouco nós, sendo muitos, podemos ser um só em Jesus Cristo sem a água que desce dos céus. E assim como a terra seca não dá fruto sem água, tampouco nós, que éramos como uma figueira ressequida, poderíamos viver e frutificar sem essa abundante torrente do alto […]. Se não quisermos, pois, ser queimados como palha estéril, precisamos do orvalho de Deus” (Adversus haereses III 17, 1-3).
  • São Cirilo de Jerusalém diz: “Por que chama Cristo água à graça do Espírito Santo? Porque todas as coisas dependem da água, como as plantas e os animais. A água desce dos céus como chuva e, embora seja sempre a mesma, produz diferentes efeitos: um na palma, outro na vinha, e assim em toda a criação. Ela não desce ora como uma coisa, ora como outra, senão que, permanecendo essencialmente a mesma, se adapta às necessidades de cada criatura que a recebe. Do mesmo modo, o Espírito Santo, cuja natureza é sempre a mesma, simples e indivisível, reparte entre os homens a graça como bem entende. Como uma árvore seca dá brotos quando regada, a alma dá o fruto da santidade quando a penitência a fez digna de receber o Espírito Santo. Ainda que o Espírito não sofra mudanças, os efeitos de sua ação, por vontade de Deus e em nome de Cristo, são vários e admiráveis. A um faz ser doutor da verdade divina, a outro inspira o dom da profecia, a este dá o poder de expulsar demônios, àquele o de interpretar as Escrituras; em um fortalece o domínio de si, a outro indicia como socorrer ao pobre, àquele ensina a jejuar e a mortificar-se, a esse torna insensível às necessidade do corpo, a outro prepara para o martírio. A ação do Espírito é distinta em distintas pessoas, embora o Espírito seja, em si, sempre o mesmo. Em cada homem, dizem as Escrituras, revela o Espírito sua presença de um modo particular em ordem ao bem comum” (Cat. 16, De Spiritu Sancto I, 11-12.16: PG 33, 931-935. 939-942).

A água, por conseguinte, é outro símbolo fundamental do Espírito Santo, na medida em que todas as coisas dependem da água para manter-se vivas e fazer uso de suas próprias capacidades. Não tenho como falar com maior profundidade que a desses dois santos e Padres. Bastem-nos as palavras deles.

5. Pomba. — Sabemos que o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma de pomba. As Escrituras dizem: “O Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e veio do céu uma voz: ‘Tu és o meu Filho bem-amado; em ti ponho minha afeição’” (Lc 3, 22). 

Note-se, mais uma vez, o uso de um símile e analogia. O Espírito Santo não é um pássaro nem em um corpo de qualquer tipo; Ele é visto em forma corpórea como se fosse uma pomba. O Espírito Santo é Deus, é a Terceira Pessoa da SS. Trindade, e não um objeto físico

A imagem do Espírito Santo como uma pomba faz alusão à história de Noé. 

“No fim de quarenta dias, abriu Noé a janela que tinha feito na arca e deixou sair um corvo, o qual, saindo, voava de um lado para outro, até que aparecesse a terra seca. Soltou também uma pomba, para ver se as águas teriam já diminuído na face da terra. A pomba, porém, não encon­trando onde pousar, voltou para junto dele na arca, porque havia ainda água na face da terra. Noé esten­deu a mão, e tendo-a tomado, recolheu-a na arca. Esperou mais sete dias, e soltou de novo a pomba fora da arca. E eis que pela tarde ela voltou, trazendo no bico uma folha verde de oliveira. Assim Noé compreendeu que as águas tinham baixado sobre a terra” (Gn 8, 6-11).

A pomba foi para Noé um anúncio de que a destruição e a morte causadas pelo pecado tinham finalmente chegado ao fim. Ela trouxe a ele um sinal de paz e de que fora cumprida a promessa de Deus de purificar a terra. Noé, tendo sobrevivido ao dilúvio na segurança da arca de Deus, poderia andar em um mundo novo.

Assim também acontece conosco. O Espírito é paz: shalom. O longo reinado do pecado acabou, e a graça está agora ao alcance de todos. Nós, tendo passado pelas águas do Batismo, podemos viver uma vida nova. O Espírito Santo desce sobre nós como uma pomba, trazendo paz, esperança e todos os dons da graça.

Aqui temos cinco símbolos que nos podem ajudar a refletir sobre a ação do Espírito Santo em nós. Com certeza, há outros símbolos e maneiras de descrever a obra do Espírito Santo, mas estes cinco nos falam bem ao coração.

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