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Por que os pais precisam conduzir suas famílias na vida de oração?
Espiritualidade

Por que os pais precisam
conduzir suas famílias na vida de oração?

Por que os pais precisam conduzir suas famílias na vida de oração?

Nós, pais, estamos sendo desafiados agora mesmo a exercer liderança em nossas casas. Se não o fizermos, entregaremos nossas famílias ao mundo. E por onde começar, senão pela recuperação da prática da oração em comum?

Terry RumoreTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Conduza sua família na vida de oração”: partindo de uma experiência recente, posso dizer que essas palavras têm o poder de virar do avesso o mundo de um pai.

Esse desafio foi apresentado a um grupo do apostolado Fraternus, no ano passado. Como escutamos com frequência que o pai é o líder espiritual no lar, alguém poderia pensar que esse é um dos requisitos mais fáceis (jejum e penitências também eram exigidos); mas, a julgar pelas expressões de perplexidade e pelas contorções nas poltronas, a mesma pessoa poderia ter pensado que se havia pedido daqueles homens o sacrifício de seu primogênito. Perguntas do tipo: “Como faço isso?”, “Como funciona isso?” e “Como posso convencer minha família a me seguir?” circularam pelo ambiente. Foi atingido o coração de um problema com raízes profundas. Talvez muitos pais de família que estão lendo este artigo também tenham se contorcido um pouco. 

Depois de uma discussão e de uma reflexão detalhadas, creio que podemos assinalar alguns motivos por que esse desafio foi recebido com tanta hesitação, mesmo entre aquele grupo de homens espiritualmente maduros, e o que ele nos diz sobre a liderança dos pais no lar.

Em primeiro lugar, o ato de conduzir a oração em família exige vulnerabilidade.

Muitas vezes, os homens tratam a oração que é feita em comum como uma tarefa feminina: senhoras de idade piedosas que ficam o dia inteiro na igreja com seus rosários, bíblias com páginas amassadas e livros de oração gastos. Os homens não deveriam mostrar abertamente sua dependência do Pai celestial, demonstrar publicamente a necessidade de ser perdoados ou de pedir conselho e direcionamento. — Nós cuidamos do peixe frito e do transporte até a Missa, além de nos apresentarmos como voluntários para diversas obras de caridade. Que as mulheres cuidem da oração e que os homens façam as outras coisas! 

No entanto, a oração é para aqueles que dependem de Deus na fé, na esperança e na caridade. Deixamos de rezar porque dependemos de nós mesmos no orgulho, no egoísmo e na vaidade. Precisamos de Deus; sem Ele, estamos condenados e, no final das contas, tornamo-nos vazios. Podemos coordenar e organizar mil eventos para a Igreja e ignorar a verdade da fé o tempo todo. Precisamos da oração não porque seja algo que nos preenche de forma vaga ou porque simplesmente faça parte de nossas atividades corriqueiras, mas porque temos necessidade dela, no sentido mais verdadeiro da palavra. Deus não precisa de nossas orações; elas não acrescentam nada ao que Ele é. Nós precisamos de Deus, pois sem Ele nos falta algo. Nós precisamos da oração.       

E nós, pais, também precisamos rezar em público. Essas ações públicas mostram à nossa família como rezar; dizem a ela que nós, que muitas vezes somos a autoridade em muitos assuntos, submetemos nossa própria vida a Alguém que está acima de nós. Na verdade, conduzir nossa família na oração é uma das responsabilidades fundamentais da paternidade. Jesus Cristo nos ensinou como devemos rezar, dando-nos o Pai-Nosso como exemplo perfeito de oração. Observemos como o Pai-Nosso mostra a dependência em relação a Deus: “Pai nosso, que estais nos céus; santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia nos dai hoje” (essa parte expressa a nossa dependência do Pai celestial); “perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (essa parte demonstra publicamente a necessidade do perdão); “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal” (aqui pedimos conselho e direcionamento).

A oração exige, em segundo lugar, que um pai realmente lhe determine um período específico. Isso exige que ele dirija e lidere outras pessoas para que também determinem um período específico para a oração. Não é uma tarefa fácil num lar onde todos vivem juntos, mas fazem poucas coisas juntos. Requer-se uma mudança cultural. Dito de modo simples: a liderança exige trabalho. Quando todos estão em caminhos diferentes, quando raramente ocorre a simples atividade de uma oração em família e quando o tempo livre é gasto com algum dispositivo, a unidade familiar é bastante afetada. A oração impõe a reunificação no lar.  

A missão do pai é cultivada no lar por meio da realização de coisas difíceis como o estabelecimento da ordem, da disciplina e de uma estrutura. Exige que nós nos envolvamos com a vida familiar em vez de sermos observadores casuais. A Sagrada Escritura diz: “Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente?” (Mt 7, 9s). Quando não interagimos em nosso lar e não exercemos liderança nele, permitimos que outra pessoa ou outra coisa guie nossa família, talvez dando àqueles que amamos pedras para comer ou serpentes para brincar.

Nós, pais, estamos sendo desafiados agora mesmo a exercer liderança — se não o fizermos, entregaremos nossa família ao mundo. Temos de começar pela recuperação da prática da oração em família. Deixe de lado os controles de videogame, desligue os smartphones, pare de ficar obcecado com esportes, renuncie à pornografia e pare de abdicar ao seu direito de liderar.

Permita-me reafirmar isso de uma forma mais positiva. Para começar, talvez tenhamos de nos tornar mais presentes antes de abraçar a causa da oração. Erga sua cabeça e olhe para sua bela esposa. Apaixone-se novamente. Interaja com seus filhos. Brinque com eles. Faça refeições em família e converse sobre seu dia. Conte histórias de sua juventude e ria alto de seu passado. Então, e só então, quando tiver reconquistado a confiança deles — quando tiver conquistado o direito a ser escutado e tiver demonstrado suas vulnerabilidades —, poderá pedir que o acompanhem na oração diária. Naquela ocasião, liderar sua família na vida de oração não lhe parecerá algo tão assustador ou estranho; será o próximo passo lógico nisto que chamamos de paternidade.  

É preciso começar, enfim, pelas coisas simples. Estabeleça um horário regular e se comprometa com ele. Talvez aquelas senhoras idosas saibam de algo importante! Se você for fiel ao plano que traçou, sua família gradualmente começará a mudar e seu lugar no lar se tornará mais claro, não por estar fazendo algo certo, mas porque Deus foi convidado para, como rezamos na Missa, “ordenar na sua paz os nossos dias” [1].  

Então, o que aconteceu com esse grupo de homens (contando comigo)? Desafiamos uns aos outros, responsabilizamo-nos uns pelos outros e amamos uns aos outros. Noite após noite, tornamo-nos cada vez mais conscientes da função paterna de conduzir a vida de oração. Nossas famílias começaram a confiar em nós, a nos escutar e acompanhar na oração

Sim, às vezes nós falhamos. A vida se interpõe e caímos nos maus hábitos. 

Mas podemos perseverar pela graça, e nossas famílias melhoraram graças a isso

Notas

  1. Diesque nostros in tua pace disponas: é um pedido que consta no Cânon Romano, mas que também aparece, ligeiramente diferente, no embolismo do Pai-Nosso (tanto no rito atual quanto no antigo): Da propitius pacem in diebus nostris. A tradução litúrgica brasileira diz, simplesmente: “Dai-nos sempre a vossa paz” (N.T.).

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Pais de família: os “grandes aventureiros do mundo moderno”
Família

Pais de família: os “grandes
aventureiros do mundo moderno”

Pais de família: os “grandes aventureiros do mundo moderno”

A vocação do pai é uma das formas do chamado à santidade, que se materializa principalmente em atos de amor. Pois a santidade não é uma abstração: significa ser fiel aos deveres, sacrificar-se, fazer florescer outras almas e ajudar quando necessário.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A função do pai está vinculada à vocação de Adão no plano da Criação: dar nome às criaturas de Deus por meio do conhecimento e cuidar do jardim do mundo por meio da arte. O conhecimento humano, porém, pode transformar-se em “soberba da vida” (1Jo 2, 16), e a tecnologia, quando utilizada como instrumento de exploração, pode transformar-se numa espécie de estupro da natureza. Ao combater cada uma dessas tentações primárias, o homem (vir, varão) deve confiar humildemente em Deus, buscar sua sabedoria e auxílio superiores, viver castamente e mortificar os instintos dominantes. Suas habilidades são usadas da melhor forma possível quando postas aos pés de outra pessoa. 

Ao abordar os temas do conhecimento e da técnica, o Papa João Paulo II manifestou o mesmo pensamento em Cruzando o Limiar da Esperança:

O homem é o sacerdote de toda a criação. Cristo concedeu-lhe essa dignidade e vocação. A criação completa seu opus gloriae [“obra da glória”] por ser o que é e por cumprir seu dever de tornar-se o que deveria ser. Em certo sentido, a ciência e a tecnologia também contribuem para a consecução desse objetivo. Mas ao mesmo tempo podem nos afastar desse objetivo, já que são obras humanas. Esse risco existe particularmente em nossa civilização, e isso faz com que seja mais difícil ela se tornar uma civilização da vida e do amor. Falta precisamente o opus gloriae, que é o destino fundamental de toda criatura e, acima de tudo, do homem, que foi criado para se tornar, em Cristo, sacerdote, profeta e rei de todas as criaturas terrenas.

O cavalheirismo, uma tradição inspirada na honra cristã, é caracterizado pela dedicação desinteressada ao bem do próximo, particularmente ao dos mais vulneráveis. É o que descreve Tracey Rowland em seu livro Portraits of Spiritual Nobility: Chivalry, Christendom, and Catholic Culture (Angelico Press, 2019, sem tradução portuguesa). A pessoa verdadeiramente cavalheiresca põe “as vidas e o amor” dos outros acima de sua própria vida e de seu amor-próprio

A vocação do pai é uma das formas do chamado universal à santidade, um chamado que se materializa principalmente nos atos de amor. A santidade não é uma abstração: significa ser fiel aos deveres na vida, fazer sacrifícios pelas pessoas amadas, proporcionar o florescimento de outras almas, ajudar quando necessário. Desta maneira, o pai se faz presente para sua esposa e seus filhos, assim como o santo se faz presente para o mundo — cada um representa Cristo para os outros. Numa família em que o amor cristão é a medida e a meta, a possibilidade de desespero é praticamente impensável. Ainda sofremos, pois a fé cristã não oferece nenhuma panaceia. Mas o nosso sofrimento é parte da vida que estamos dispostos a abraçar por amor a Deus, que transforma o sofrimento numa fonte de mérito e de glória.   

A paternidade é uma realidade salvadora na medida em que um homem cumpre seu papel como “salvador” do mundo mutável da vida cotidiana; unido a Cristo, ele redime a rotina e exalta os humildes. Se, pela graça de Deus, uma devoção firme como essa se tornar tão real e tangível quanto a união pela qual homem e mulher possuem um ao outro, tão real quanto a concepção e o nascimento do fruto dessa união, então a família escapará da pobreza interna para a qual ela se encontra perigosamente aberta, particularmente numa época em que a mentira usurpou o lugar da verdade e os compromissos mundanos macularam os corações humanos

Por fim, o que um homem deve lutar para salvar? Ele deve salvar ou restaurar a vida em comunidade, a vida como dom. Ele resgata a vida da passividade, protege-a da melhor forma possível da violência do infortúnio, confere-lhe uma direção, habitua a si e aos filhos à prática da religião. Gabriel Marcel explica que a paternidade

só existe como cumprimento de uma responsabilidade contínua e sustentada… Provavelmente a melhor forma de entendermos o que deveria ser o puro ato de paternidade é o contraste com a inércia e a cegueira. Com isso me refiro a uma dedicação que pode ser comparada com um dom, porque prepara e requer um comprometimento e porque, sem isso, ela se torna nula. 

Na raiz da paternidade encontramos o voto criativo — uma frase simples que captura todo o caráter dessa vocação. Marcel novamente:

Podemos ver com suficiente clareza que o vœu créateur implica a combinação de uma profunda humildade pessoal e uma confiança inabalável na vida, concebida não como uma força natural, mas como uma ordem insondável, divina em seu princípio. 

Quando a paternidade é assumida e sancionada com seriedade por meio da autodoação, torna Deus mais presente no mundo, por assim dizer, levando algo de sua justiça, misericórdia e amor para os âmbitos natural e social nos quais nos movemos. São Paulo instrui os cristãos a “redimirem o tempo” (Ef 5, 15-16). O que é a paternidade senão um caminho — talvez o principal — para um homem arraigar seu amor temporal na imortalidade, deixando um testamento de sacrifício e oferecendo um testemunho daquela riqueza interior que não tem preço? Generosidade e amor gratuito são o legado de Nosso Senhor para seus seguidores. Um homem que se dedica à família aprende — e ao mesmo tempo ensina — a sabedoria de Cristo.  

Como o mundo contemporâneo é fascinado pela mágica da tecnologia, pelo ardil da conveniência, pelo alvoroço da gratificação e pelo repúdio do sagrado (o qual está na raiz dessas coisas), não deveríamos nos surpreender ao encontrar em nosso entorno os fenômenos da irresponsabilidade, do desânimo em relação à vida, do ceticismo profundo, da solidão e da traição. Quando conhecemos homens e mulheres que de algum modo se afastaram incólumes do caos, ficamos felizmente surpresos e gratos. “A vida do homem é uma luta”, diz Jó. De fato, hoje mais do que nunca, os pais católicos são chamados a ser soldados de Cristo, protegendo suas famílias e defendendo as verdades de nossa fé a tempo e a contratempo. 

Quando a observamos a partir de sua natureza e de sua suprema importância, percebemos que a paternidade é uma expressão de piedade em relação à Criação e sua santidade inviolável, além de uma exaltação da Santa Cruz. Segundo a expressão sugestiva de Marcel, é uma “santificação do real”. Santificar o mundo é ao mesmo tempo uma cruz (porque nossos corações e os das outras pessoas resistem ao amor de Deus) e uma ressurreição, porque a graça de Deus triunfa naqueles que perseveram.

Agora estamos em melhores condições de entender a frase de Charles Péguy: “Os pais de família, aqueles grandes aventureiros do mundo moderno”!

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A descoberta do corpo de Santo Estêvão
Santos & Mártires

A descoberta
do corpo de Santo Estêvão

A descoberta do corpo de Santo Estêvão

Mais de 300 anos após a morte de Santo Estêvão, Protomártir, uma revelação privada a um sacerdote indicaria o lugar exato de seu sepultamento… E por suas relíquias, depois, numerosos milagres seriam realizados. Conheça essa história.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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O Martirológio Romano antigo anota, no dia 3 de agosto, “em Jerusalém, a invenção [isto é, a descoberta] do corpo do beatíssimo Santo Estêvão Protomártir, e dos Santos Gamaliel, Nicodemos e Abibon, como fora revelado por Deus ao Presbítero Luciano, em tempo do Imperador Honório”.

Até pouco tempo atrás, esse evento era celebrado no Calendário Romano Geral [1], figurando como uma segunda festa em honra a Santo Estêvão, além da já conhecida festa do dia 26 de dezembro, quando se celebra o seu martírio. 

Apesar da distância que separa as duas festas, a verdade é que, segundo a tradição, tanto a descoberta do corpo Protomártir quanto a sua paixão teriam acontecido na mesma data. Mas, segundo a explicação contida na Legenda Áurea,

a Igreja mudou a data daquela festa por duas razões. A primeira é que, como Cristo nasceu na Terra a fim de que o homem nascesse no Céu, convinha que a festa da natividade de Cristo fosse seguida pela festa natalícia de Santo Estêvão, que foi o primeiro a suportar por Cristo o martírio, o que é nascer no céu, para que assim ficasse claro que esta natividade se segue daquela. Daí o canto: “Heri Christus natus est in terris, ut hodie Stephanus nasceretur in coelisOntem Cristo nasceu na Terra, para que hoje Estêvão nascesse no Céu”. A segunda razão é que a festa da invenção era celebrada mais solenemente que a festa de sua paixão, e isso por conta da reverência à natividade do Senhor e dos muitos milagres que na invenção dele o Senhor manifestou. Como, pois, a paixão dele é mais digna que sua invenção, também por isso deve ser mais solene, por esse motivo a Igreja transferiu a festa da paixão para aquele tempo em que seria tida em maior reverência [2].

O que mais nos deve interessar, no entanto, é a história de como essa descoberta se deu, e é também a Legenda Áurea que nos fornece esse belo relato, que destacamos abaixo. 


A descoberta do corpo do protomártir Estêvão ocorreu no ano do Senhor de 417, sétimo do reinado de Honório [...] e aconteceu da seguinte forma.

“Homens devotos carregando o corpo de S. Estêvão”, por Benjamin West.

Um presbítero de Jerusalém, chamado Luciano — incluído por Genádio, autor deste relato, entre os homens ilustres que merecem ser celebrados —, estava numa sexta-feira deitado, quase dormindo, quando lhe apareceu um velho de grande estatura, belo rosto, longa barba, vestido com um manto branco incrustado de pequenas pedras preciosas e cruzes de ouro, calçado de sapatos dourados. Ele tinha na mão um cajado de ouro, com o qual o tocou dizendo: “Procure cuidadosamente nosso túmulo, pois fomos colocados em um local inconveniente, e vá dizer a João, bispo de Jerusalém, que nos coloque em um lugar honrado, pois, quando a seca e a tribulação abalarem o mundo, Deus decretou que lhes será propício através de nossos sufrágios”. 

O presbítero Luciano perguntou: “O senhor quem é?”. 

Eu sou”, respondeu ele, “Gamaliel, aquele que alimentou o Apóstolo Paulo e ensinou-lhe a lei. Junto comigo está enterrado o Santo Estêvão, que foi lapidado pelos judeus fora da cidade para que o seu corpo fosse devorado pelas feras e aves. Mas isso foi proibido por Aquele a quem o mártir serviu e por quem conservou sua fé intacta. Eu o recolhi com grande reverência e o enterrei em uma nova tumba. Outro que jaz comigo é Nicodemos, meu sobrinho, que certa noite encontrou Jesus e recebeu o batismo sagrado de Pedro e de João. Por causa disso, indignados, os príncipes dos sacerdotes resolveram matá-lo, e só não o fizeram devido à reverência que nos dedicavam. No entanto, eles confiscaram todos os seus bens, depuseram-no de seu cargo e bateram tanto nele que o deixaram meio morto. Então eu o levei para minha casa, onde ele sobreviveu alguns dias, e quando morreu eu o sepultei junto do bem-aventurado Estêvão. Há uma terceira pessoa comigo, Abibas, meu filho, que recebeu o batismo junto comigo, quando tinha a idade de vinte anos. Ele permaneceu virgem e dedicou-se à lei ao lado de Paulo, meu discípulo. Minha mulher, Aetéa, e meu filho Selêmias, que não quiseram aceitar a fé em Cristo, não foram dignos de receber nossa sepultura. Você encontrará suas tumbas vazias e inúteis, pois estão sepultados em outro lugar.”

Dito isto, São Gamaliel desapareceu. 

Ao acordar, Luciano orou ao Senhor para que, se aquela visão fosse verdadeira, aparecesse uma segunda e uma terceira vez. Na sexta-feira seguinte, Gamaliel apareceu-lhe como da primeira vez e perguntou por que ele havia negligenciado o que lhe dissera. Luciano disse: “Não, senhor, eu não negligenciei, mas pedi ao Senhor que, se essa visão fosse de Deus, que ela me aparecesse uma terceira vez”. Disse Gamaliel: “Como você refletiu sobre o modo de identificar os restos mortais de cada um, vou lhe dar os meios para conseguir fazê-lo”. E mostrou-lhe três recipientes de ouro e um quarto de prata, um cheio de rosas vermelhas e outros dois de rosas brancas. Gamaliel mostrou o quarto deles, o de prata, cheio de açafrão, dizendo: 

“Estes recipientes são os nossos ataúdes e estas rosas são os nossos restos. O recipiente cheio de rosas vermelhas é o ataúde de Santo Estêvão, pois foi o único de nós a receber a coroa do martírio. Os outros dois, cheios de rosas brancas, são meu ataúde e o de Nicodemos, pois perseveramos com coração sincero na aceitação de Cristo. O quarto, de prata, cheio de açafrão, é o ataúde de meu filho Abibas, que se destacou pelo brilho da virgindade e que deixou este mundo limpo. 

Dito isto, desapareceu. 

Na sexta-feira da semana seguinte, Gamaliel apareceu irado e repreendeu severamente a demora e a negligência de Luciano, que imediatamente foi a Jerusalém e contou tudo ao bispo João. Este e outros bispos foram até o lugar mencionado por Luciano, e logo que começaram a cavar a terra tremeu e sentiram um suavíssimo odor. Odor admirável, que pelos méritos dos santos curou setenta homens de diversas enfermidades. As relíquias dos santos foram honradamente transportadas para a igreja de Sião, em Jerusalém, onde Santo Estêvão tinha servido como arquidiácono. Nessa hora caiu uma grande chuva. Beda menciona a visão e a descoberta dos corpos em sua crônica [3].


Essa impressionante história recolhe as aparições de um santo e vários milagres extraordinários. Mas não são os únicos registros a respeito das relíquias de Santo Estêvão. Santo Agostinho, que foi contemporâneo do evento, também atestou o poder miraculoso dos restos mortais do Protomártir, narrando vários milagres atribuídos a eles em sua Cidade de Deus (l. XXII, 8).

Por essa razão, é muito salutar aproveitar este dia para invocar o patrocínio de Santo Estêvão. E também para lembrar, contra a rejeição protestante do culto aos santos, o valor que desde o alvorecer da Igreja tiveram as relíquias dos santos mártires. Os primeiros seguidores de Nosso Senhor já eram católicos, como atestam as atas do martírio de São Policarpo e numerosos escritos dos Santos Padres [4]. 

É por isso que, como dizia por experiência própria São John Henry Newman, “aprofundar-se na História é deixar de ser protestante” [5]. 

Notas

  1. A festa da Invenção de Santo Estêvão foi retirada do calendário litúrgico em 1960, por João XXIII — antes, portanto, da reforma pós-conciliar de Paulo VI. Cf. a esse respeito Gregory DiPippo, Compendium of the Reforms of the Roman Breviary: The Reform of 1960. New Liturgical Movement, 3 nov. 2010; The Finding of St. Stephen the First Martyr. New Liturgical Movement, 3 ago. 2019.
  2. Retirado e adaptado de Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 611.
  3. Ibid., pp. 609-611.
  4. A esse respeito, cf. Ario Borges Nunes Jr., Relíquia: o destino do corpo na tradição cristã. São Paulo: Paulus, 2013; Joan Carroll Cruz, Relics: what they are and why they matter. Charlotte: TAN, 2015.
  5. Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã. Trad. de Fábio A. Vitta. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, p. 32.

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Jesus Cristo não poderia ter sido mais claro!
Doutrina

Jesus Cristo
não poderia ter sido mais claro!

Jesus Cristo não poderia ter sido mais claro!

Se você ler o capítulo 6 de João, usar uma ferramenta tão básica como o “Google Tradutor” e estudar qualquer escrito dos primeiros cristãos, perceberá que a doutrina da presença real de Cristo na Eucaristia é inegável. E vem diretamente das Escrituras.

Jacob TateTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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O capítulo 6 do Evangelho de São João é, geralmente, a principal fonte citada para sustentar o ensinamento católico sobre a Eucaristia: no sacrifício da Missa, pão e vinho são transubstanciados e se tornam o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade reais de Jesus Cristo, a fim de serem consumidos pelos fiéis. Esta é a fonte e o ápice de nossa fé e, sem dúvida, a principal coisa que nos separa de quase todas as outras religiões do planeta. Por isso, é extremamente importante entender essa passagem (bem como outras referências bíblicas à Eucaristia).

Os 15 primeiros versículos de Jo 6 detalham o milagre da multiplicação dos cinco pães e dois peixes, para alimentar a multidão. Este é um pano de fundo importante para o que está prestes a acontecer, pois Jesus usa este milagre recém realizado no dia seguinte, quando diz à multidão: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois nela Deus Pai imprimiu o seu sinal” (v. 27).

A multidão então pede a Jesus um sinal para crer nele: “Perguntaram-lhe: ‘Que faremos para praticar as obras de Deus?’ Respondeu-lhes Jesus: ‘A obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou’. Perguntaram eles: ‘Que milagre fazes tu, para que o vejamos e creiamos em ti? Qual é a tua obra?’” (v. 28-30).

O povo pede um sinal, e Cristo responde fazendo um paralelo com o maná que os judeus receberam no deserto, afirmando que Deus dará um pão ainda melhor do que o dado por Moisés. Ele dará o pão do céu, o qual dará vida ao mundo — será este o sinal: “Jesus respondeu-lhes: ‘Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo’” (v. 32-33). 

Vida para o mundo? A multidão diz: “É claro que queremos este pão!” Disseram-lhe: “Senhor, dá-nos sempre deste pão!” (v. 34).

Jesus responde com o que chamarei de o primeiro Eu sou: “E Jesus disse-lhes: ‘Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome; e aquele que crê em mim jamais terá sede’” (v. 35).

Aqui, Cristo se compara diretamente ao pão; mais importante ainda, com o pão que dá a vida, que foi dado por Moisés e comido pelos judeus. Mas isso ainda pode ser visto como uma metáfora: acreditar em Jesus seria o modo como se obtém o pão que dá a verdadeira vida. Você não necessariamente está comendo pão de verdade.

Mas, mesmo nesta comparação inicial, a multidão começa a murmurar sobre este ensinamento: “Murmuravam então dele os judeus, porque dissera: ‘Eu sou o pão que desceu do céu’. E perguntavam: ‘Porventura não é ele Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como, pois, diz ele: Desci do céu?’” (v. 41-42).

Eles parecem não gostar de que Ele se chame de “pão vivo”, ou que diga que desceu do céu. No versículo 43, Jesus manda a eles que parem de murmurar. Depois, Ele reitera o que acabou de dizer: “Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer” (v. 48-50). Eis aqui, então, o segundo Eu sou.

Cristo usa a comparação do maná no deserto ao longo de todo este discurso, e é importante lembrar que as prefigurações do Antigo Testamento nunca são tão grandes quanto seus cumprimentos no Novo Testamento. Maria é maior do que Eva; o sacrifício de Cristo é maior que o de Abraão com Isaac; e o maná a ser dado por Cristo será maior que o maná recebido por Moisés no deserto. Não será simplesmente o mesmo maná.

É a partir do versículo 51 que a coisa começa a ficar realmente interessante, e é preciso tomá-lo palavra por palavra. Cristo reafirma imediatamente o que Ele acabou de dizer, e nos vemos diante do terceiro Eu sou: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.”

Desta vez, Jesus é muito mais explícito: Ele diz a eles diretamente que sua carne é o pão do céu, o novo maná que dá vida ao mundo. Ainda acha que se trata apenas de uma analogia? A multidão certamente não pensava assim: “A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: ‘Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?’” (v. 52).

Se era apenas uma analogia, por que a multidão achou difícil entender? Por que existe esse salto de “Dê-nos o pão!” para “O quê? Comer a sua carne?”? E por que Ele repetiria três vezes que Ele é o pão? A resposta a essas perguntas está nas palavras que Cristo usou e em como Ele foi direto.

De fato, há lugares em que Cristo usa hipérboles nos Evangelhos. Pense em Mt 5, 29, quando Ele diz ao povo que seria melhor arrancar o próprio olho do que permitir que ele nos faça pecar. Ninguém interpretou mal suas palavras, como se significassem que era necessário se mutilar. Ninguém saiu dizendo: “Este ensinamento é muito difícil; não posso seguir um homem que me pede isso”. Em Jo 6, porém, a linguagem usada e a reação da multidão mostram claramente que Cristo estava sendo literal, não hiperbólico ou metafórico.

Ao longo de todo esse capítulo, o verbo “comer” é usado 12 vezes para descrever o ato de comer maná no deserto, comer o pão da vida e comer a carne de Cristo. No texto grego original do Evangelho, até o versículo 54, o verbo era o mesmo: φάγω (phago), que significa “comer”: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia”. Mas, no versículo 55, quando a multidão já está confusa e murmurando, Cristo muda o verbo usado para τρώγω (trógó), que significa “roer, mascar ou triturar” — e que também é traduzido como “mastigar”.

Pense na sequência de eventos. Cristo diz à multidão, no versículo 51, que eles precisam “comer” sua carne. A multidão questiona isso diretamente no versículo 52 e, então, o que Jesus faz para responder à sua pergunta no versículo 54? Ele não diz: “Não, foi apenas uma analogia, você não vai realmente consumir minha carne”. Em vez disso, Ele desce o nível, muda o verbo e diz que, sim, você realmente precisa “roer” ou “mastigar” a carne dele. Aqui, Jesus vai além para garantir que sua mensagem não se perca na assembleia.

A outra palavra direta e provocativa que Cristo usa sete vezes neste capítulo é a palavra “carne”. Algumas traduções da Bíblia traduzem essa palavra como “corpo”, mas, se você ler, no grego, trata-se de σάρκα (sárka ou sarx), que se traduz literalmente como “carne” e que é a raiz da palavra grega para “carnívoro”: σαρκοβόρος (sarkovóros), enquanto a palavra grega genérica para “corpo” é σώμα (sóma).

Cristo diz, portanto, que sua “carne” deve ser “mastigada”, e a multidão acha isso difícil de aceitar: “Muitos dos seus discípulos, ouvindo-o, disseram: ‘Isto é muito duro! Quem o pode admitir?’” (v. 60).

E aqui eles realmente deixam de seguir a Cristo: “Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele” (v. 66).

Ao ler Jo 6, portanto, fica claro que a multidão, que ouviu pessoalmente o discurso do pão da vida, entendeu o que Cristo estava dizendo: Ele havia dito que é preciso consumir sua verdadeira carne. Por qual outro motivo eles teriam ido embora? E, se eles entenderam mal, por que Jesus não tentou esclarecê-los e impedi-los de ir embora por causa de um mal-entendido? Eles sabiam exatamente o que Ele queria dizer, assim como todos os primeiros cristãos que escreveram sobre esse assunto.

Os escritos dos primeiros Padres da Igreja apoiam fortemente a interpretação católica. Irineu, Justino Mártir, Inácio de Antioquia e Clemente de Alexandria, todos eles escreveram sobre isso no séc. II; Orígenes, Hipólito e Tertuliano escreveram sobre isso no III; e a lista dos primeiros cristãos que acreditavam no ensinamento de Cristo sobre consumir a sua carne continua indefinidamente. Afora os Apóstolos, esses homens eram os que sabiam melhor o que Jesus queria dizer em Jo 6, e eles teriam agido rápido para corrigir quaisquer mal-entendidos ou heresias decorrentes de uma interpretação errada. Aqui estão apenas algumas citações dos primeiros Padres cristãos: 

Como podia o Senhor, se fosse Filho de outro pai, confessar com justiça, ao tomar um pão desta condição, que é conforme a nós, que ele é o seu corpo, e confirmar que a mistura do cálice era o seu sangue? (Irineu, Contra as Heresias IV, 33, 2: PG 7, 1073 [189 d.C.]).

Considerai porém os que opinam de outro modo sobre a graça de Jesus Cristo, aquela que veio até vós: como são contrários aos pensamentos de Deus… Eles se abstêm da Eucaristia e da oração porque não confessam que a Eucaristia é a carne do nosso Salvador Jesus Cristo, a qual padeceu por nossos pecados e que o Pai, por sua benignidade, ressuscitou. Aqueles pois que contradizem este dom de Deus morrem altercando (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirniotas VI, 2–VII, 1: PG 5, 711-714 [110 d.C.]).

Assim pois como o pão e o vinho da Eucaristia, antes da invocação santa da adorável Trindade, eram puro pão e vinho, feita porém a invocação, o pão torna-se o corpo de Cristo, e o vinho, o sangue de Cristo (Cirilo de Jerusalém, Catequeses Mistagógicas XIX, 7: PG 33, 1071 [350 d.C.]).

Tinha-vos prometido aos que fostes batizados um sermão em que explicasse o sacramento da mesa do Senhor… Aquele pão que vedes no altar, santificado pela palavra de Deus, é o corpo de Cristo. Aquele cálice, antes, o que contém o cálice, santificado pela palavra de Deus, é o sangue de Cristo (Santo Agostinho, Serm. 227 [411 d.C.]).

Muitos dirão que grande parte deste artigo é irrelevante porque Cristo provavelmente não falou grego; logo, seria inútil analisar um texto nessa língua. Mas, se tivermos fé em que os escritores dos Evangelhos foram inspirados pelo Espírito Santo, podemos olhar para as nuances e especificidades da língua em que eles escreveram e saber, com confiança, que o seu texto representa as palavras que Cristo usou em aramaico ou hebraico. 

Além disso, o texto em grego não constitui a argumentação inteira, nem tampouco são distinções insignificantes o que ele apresenta, como expus várias vezes através do argumento Eu sou, da crença dos primeiros cristãos, e do fato de as pessoas, nos dias de Jesus, terem se afastado por acharem o seu ensinamento difícil — o que não teria acontecido se ele tivesse empregado apenas uma linguagem simbólica.

Se você ler o capítulo 6 de João, usar uma ferramenta tão básica como o Google Tradutor e estudar qualquer escrito dos primeiros cristãos sobre o assunto, perceberá que o ensinamento católico quanto à presença real de Cristo na Eucaristia é inegável e vem diretamente das Escrituras.

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