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Filhotes não são bebês, e “mães de pet” não são mães
Sociedade

Filhotes não são bebês,
e “mães de pet” não são mães

Filhotes não são bebês, e “mães de pet” não são mães

Numa época em que animais de estimação são tratados como “filhos” e bebês são considerados um “inconveniente”, este testemunho de um pai abre nossos olhos para uma realidade óbvia, mas por muitos esquecida: animais não são pessoas!

David DashiellTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Março de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Recentemente, minha esposa explicou a um amigo que ter um filho recém-nascido era como ter um cachorro — só que dez vezes mais difícil. A explicação dela me fez pensar. Parques para cães, cafés que aceitam animais de estimação e “mães de pet” são coisas que não faltam hoje em dia. Quando morávamos em Nashville, parecia que havia mais serviços para animais de estimação do que creches. É quase como se as pessoas preferissem ter um gato a uma criança.

A crueldade com os animais é execrada [e com razão], mas ao mesmo tempo o aborto é celebrado. Os animais de estimação são vistos como preciosos, já as crianças no útero são outra história. Como é ter um animal de estimação? Uma tarefa rotineira, mas divertida. Animais de estimação são fáceis: eles comem, dormem, brincam e imitam o dono. E ter um filho? Inconveniente e perigoso. Afinal de contas, como criar uma família neste mundo? É algo que envolve muita responsabilidade, e incerteza também. Minha filha recém-nascida tem apenas três meses e posso dizer com certeza que cuidar de um bebê é inconveniente. Criar um filho é como criar um cachorro, só que o cachorro às vezes é mais divertido! Por exemplo, quando você adquire seu primeiro cachorro, é necessário dedicar-se a cuidados de higiene e limpeza, mas não se perde muito sono por causa disso. Já quando você tem seu primeiro filho, precisa ficar sempre de plantão durante a noite.

É um pouco cínico pensar em crianças como um inconveniente. A maioria das pessoas não pensa assim quando vai ao pet-shop. Mas, se fizéssemos uma enquete, quantas pessoas diriam que praticamente não há diferença qualitativa entre cuidar de uma criança e cuidar de um cachorro?

E, no entanto, há uma diferença, e ela é crucial: seu filho é uma pessoa. Não havia como fugir desse fato quando segurei minha filha nos braços pela primeira vez. Esta é uma nova pessoa. Quem ela será? Como vamos educá-la? O que eu fiz para merecê-la? Ao vê-la crescer e fazer descobertas, sei que nunca poderia ter gerado minha filha sozinho e por minhas próprias forças. Ela era um dom. Eu não decidi seu sexo, aniversário ou características físicas.

Eu a chamo de minha filha, mas nunca poderei reivindicar propriedade sobre ela da mesma maneira que faço com um animal de estimação. Nos próximos dois anos, sua vontade e intelecto aparecerão com mais destaque. Ela passará a aprender, pensar e tomar decisões. Ela se tornará cada vez mais interessante, expressando algo que sempre esteve lá: sua personalidade, sua “pessoa-lidade”. Desde a sua concepção, isso já estava por vir.

Os animais são nossos de uma maneira que as pessoas não são. Eles são dados às crianças como uma recompensa, algo que se ganha por um bom comportamento. Os animais selvagens são independentes, mas podemos domesticá-los sem escrúpulos. Os animais simplesmente não são pessoas. Segurar um filhote nunca será o mesmo que segurar um bebê. Nós nunca pensamos: “Como meu cachorro mudará o mundo? Ele vai se tornar um cão de guarda ou o presidente?” Para animais de estimação, virtude, vício e contemplação são impossíveis. Eles não agem, só reagem. Sempre estarão bem, desde que sejam atendidas suas necessidades físicas básicas.

Criar um animal de estimação é simples. Nunca precisaremos nos preocupar com animais dominando o mundo. Não precisamos ensinar história ou regras de etiqueta aos nossos animais de estimação. Solte um gato de três anos em um campo e ele conseguirá sobreviver. Faça o mesmo com uma criança, ela não durará uma semana. Quando você considera a moralidade, as coisas ficam ainda mais complicadas. As crianças precisam aprender a distinguir o bem do mal, e a controlar suas emoções. Isso requer muito mais esforço do que ensinar novos truques a um cachorro.

Porém, quanto maior o esforço, maior é a recompensa. Receber o dom de outra pessoa é algo extraordinário, e não há nada que se iguale a poder criar e formar um santo. Ser pai exige noites sem dormir, compromissos desfeitos e decisões angustiantes. Os pais não podem se eximir de atender às necessidades físicas básicas de seus filhos e ir embora. Os bons pais devem ser altruístas e dedicados; caso contrário, estarão lidando com uma criança desnutrida, infeliz e subdesenvolvida. O sacrifício é um requisito fundamental, não uma opção. Ser pai exige amor.

Por ser pai há pouco tempo, entendo a gravidade dessa afirmação. Quando descobri que minha esposa estava grávida, sabia que tinha uma escolha a fazer: sacrificar minhas próprias preferências e ser um bom pai e esposo, ou viver a vida como sempre vivi, negligenciando, assim, as necessidades da minha família. Querendo ou não, tive de tomar uma decisão. Dela dependia meu crescimento ou estagnação. Como novo pai, fui confrontado com uma escolha a ser feita: tornar-me o tipo de pessoa que pode criar um recém-nascido para ser um santo, ou não. Aqui, o que está em jogo é a eternidade.

Este é o ponto crítico: criar bem um filho exige santidade, e é por isso que se trata de algo tão inconveniente, apesar de recompensador. A santidade é árdua. Exige colocar-se por último. É essa árdua jornada que conduz à maior das alegrias. Esse caminho leva à felicidade, e chegar-lhe ao termo é alcançar o Céu. Sacrificar-se por sua família significa tornar-se mais virtuoso. Uma vez que abraçamos uma vida de amor sacrificial, começamos a agir como Deus age e a ver como Ele vê. Na paternidade bem vivida, amadurecemos e aprendemos mais sobre o que significa ser e o que significa amar uma pessoa.

Ter um animal de estimação é simples. Verifique se suas necessidades básicas foram atendidas, e tudo estará bem. Nada heroico é necessário. Você ainda poderá experimentar as “coisas boas” da vida: uma noite tranquila sozinho, uma noite na cidade ou umas férias extravagantes. Mas, quando você cria um filho, as coisas são diferentes. Você é obrigado a negar a si mesmo e a oferecer tudo pelo bem do seu filho. É uma tarefa cansativa, de fato; se bem feita, porém, permite a você formar um santo e, ao mesmo tempo, tornar-se um. E faz você se dar conta, ainda, de algo importante: as melhores “coisas” da vida não são coisas, e sim pessoas.

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O Tabor e o Altar
Espiritualidade

O Tabor e o Altar

O Tabor e o Altar

Lá foi a divindade, que se lhe irradiou através do seu corpo humano; aqui é essa mesma divindade e esse mesmo corpo que se lhe escondem sob as aparências místicas do pão transubstanciado.

Dom Francisco de Aquino Corrêa9 de Março de 2020Tempo de leitura: 2 minutos
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Et transfiguratus est (Mt 17, 2).
E transfigurou-se.

Nas alturas sublimes do Tabor, transfigurava-se Jesus aos esplendores da Glória: transfiguratus est; sobre a humilde pedra d’ara dos nossos altares, transfigurava-se nos véus misteriosos do sacramento.

Lá foi a divindade, que se lhe irradiou através do seu corpo humano; aqui é essa mesma divindade e esse mesmo corpo que se lhe escondem sob as aparências místicas do pão transubstanciado.  

Lá as suas vestes se tornaram brancas e resplandecentes como a neve: aqui toma ele a brancura pálida do trigo.

Lá uma visão solar de triunfo: sicut sol; aqui um mistério imenso de fé: mysterium fidei

Contudo, Senhor! Não invejamos a Pedro, que teve a dita de contemplar assim uma réstea gloriosa de vossa majestade: só vos pedimos aumenteis a nossa fé: adauge nobis fidem.

Dai-nos a fé ardente dos vossos santos e, veremos na treva sagrada de vossa Eucaristia, tão bem como outrora, aos fulgores do Tabor, o halo infinito da vossa divindade.

Dai-nos essa fé, e veremos a montarem guarda de honra, em torno aos vossos altares, melhor do que Moisés e Elias, no monte de transfiguração, a legião fulgurante dos coros angélicos.

Dai-nos essa fé, e ouviremos no sacro silêncio dos vossos tabernáculos, tal como de em meio à luminosa nuvem da narração evangélica, a eterna palavra do Pai: “Este é o meu Filho amado, em quem tenho posto toda a minha complacência: ouvi-o!”

Dai-nos, enfim, essa fé, e nossa alma em êxtase, ao pé dos sacrários desertos, exclamará com o discípulo arrebatado: “Como é bom estar aqui!” Bonum est nos hic esse!

Senhor! Este apóstolo contemplou um frouxo raio da vossa divindade, e extasiou-se: era natural. Outro apóstolo, Tomé, viu o vosso corpo ressuscitado, e creu na vossa divindade: era também natural. E por isso vós lhe dissestes: “Creste, Tomé, porque me viste; bem-aventurados os que não viram e creram”.

Estes bem-aventurados somos nós, os vossos fiéis, que não vemos, mas cremos. Que digo? Vemos também nós, vemos a nossa Eucaristia, mas vemos exatamente o contrário do que devemos crer. Vemos as espécies vulgares do pão, e cremos no vosso corpo sacrossanto. Vemos a inércia da matéria inanimada, e cremos na vossa alma e na vossa vida divina, manancial eterno de todo o movimento e de toda a atividade universal. Vemos a pequenez sutilíssima da hóstia, e cremos na vossa imensidade, que transborda dos céus, da terra e dos mares.

Senhor! Se bem-aventurados são já os que não vêem e crêem, qual será a bem-aventurança de quem vê, mas apesar e ao revés do que vê, crê na vossa palavra, que disse: “Isto é o meu corpo” hoc est corpus meum?

Senhor! Amparai a incredulidade dos nossos corações e das nossas mentes: adjuva incredulitatem!

Referências

  • D. Francisco de Aquino Corrêa. Pétalas do Evangelho. Edição da Arquidiocese de Cuiabá, 1981, p. 39-40.

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Primeiro a verdade, depois o amor e a misericórdia
Doutrina

Primeiro a verdade,
depois o amor e a misericórdia

Primeiro a verdade, depois o amor e a misericórdia

O amor e a misericórdia são belos, mas devem ser precedidos pela verdade. Não podemos nos esquecer de que servimos um Senhor que foi morto pelo que disse, embora ninguém tenha amado seus inimigos mais do que Ele.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Março de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Um dos problemas da cultura ocidental moderna é a tendência a priorizar sentimentos e emoções em lugar da verdade e da razão. A Igreja também foi contaminada por isso: muitas vezes, prefere-se evitar que uma pessoa se sinta ofendida a ensinar de forma inequívoca a doutrina e as verdades da fé

Em seu mais novo livro, Christus Vincit, Dom Athanasius Schneider diz o seguinte:

A atual crise na Igreja tem como causa o descaso com a verdade e, especificamente, uma inversão na ordem da verdade e do amor. Atualmente, tem-se propagado na Igreja um novo princípio de vida pastoral que diz: amor e misericórdia são os critérios supremos, e a verdade deve se subordinar a eles. De acordo com essa nova teoria, se houver um conflito entre amor e verdade, a verdade deve ser sacrificada. Trata-se de uma inversão e uma perversão, no sentido literal da palavra.

Trata-se de um argumento importante sobre a ordem da verdade e do amor. Como nos recorda o bispo, a verdade precede o amor, e serve também como fundamento para o amor perfeito e verdadeiro.

Dom Athanasius mostra que esse insight está enraizado não apenas na natureza das coisas, mas na ação de Deus, que primeiro envia sua verdade na Lei por meio dos profetas e, de modo perfeito, por seu Filho, o Verbo feito carne. Então, após nos transmitir a verdade, Ele envia o Espírito Santo, a Pessoa da Santíssima Trindade associada ao amor. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 5). Portanto, a verdade precede o amor e molda suas bênçãos e exigências.

A precedência da verdade é importante por outra razão: hoje, muitas vezes, o amor é reduzido à afabilidade, que é um aspecto do amor, assim como a correção e a repreensão. Em nossa cultura, se não aprovarmos cordialmente qualquer coisa que outros querem fazer, corremos o risco de ser chamados de odiosos. Muitas vezes o amor é igualado à aprovação, à “camaradagem”.

Segundo essa atitude que contaminou a Igreja, frustrar as pessoas, magoá-las ou fazer com que se sintam “excluídas” é praticamente a pior coisa que podemos fazer. Não importa o fato de o Jesus bíblico frustrar mais do que um punhado de pessoas; Ele “excluiu” aqueles que “não podiam ser seus discípulos” porque não carregariam sua cruz e não o amariam acima de todas as coisas. Na Igreja de hoje, temos de pisar em ovos para não ofender os outros, e falamos incessantemente sobre ser uma “comunidade acolhedora”. Para conseguir, muitos membros do clero e líderes de todas as posições na Igreja parecem dispostos a deformar a veracidade de nossa doutrina por meio do ensino seletivo, do silêncio, ou mesmo de uma completa deturpação do que ensinam o Senhor e as Escrituras. Muitas vezes, a misericórdia é ensinada sem qualquer referência ao arrependimento, que, no entanto, é a própria chave que abre a porta para a misericórdia! O Senhor vincula o chamado ao arrependimento à boa-nova da salvação (cf. Mc 1, 5). 

Naturalmente, nosso objetivo não é ofender, mas o Evangelho possui uma estranha capacidade de afligir os acomodados e confortar os aflitos, e cada um de nós é um pouco das duas coisas. Não podemos nos esquecer de que servimos um Senhor que foi morto pelo que disse, embora ninguém tenha amado seus inimigos mais do que Ele.

Precisamos mobilizar o clero, os pais e todos os líderes na Igreja para ficarem atentos ao problema descrito com tanta precisão por Dom Athanasius Schneider. Não podemos ignorar a ordem correta: a verdade precede o amor e é fundamento dele. As coisas na Igreja muitas vezes estão desordenadas, pois, quando invertemos a ordem, as coisas se tornam — por definição — desordenadas.

Todos nós temos de ser mais corajosos ao falar a verdade. Quando faço uma pregação sobre um assunto difícil ou controverso, muitas vezes preparo meus ouvintes dizendo: “Amo-vos demasiado para mentir para vós”. Em seguida, digo a verdade sobre os ensinamentos de Deus, mesmo que estejam “fora de moda”. Faço isso não apenas para prepará-los, mas para ilustrar que a verdade do Evangelho precede e molda meu amor por eles. Não posso simplesmente dizer que os amo sem considerar a veracidade do Evangelho. Mentir ou silenciar enquanto o lobo do engano os devora não é amor; é ódio, ou até pior, indiferença. Privar as pessoas da verdade que pode libertá-las não é uma atitude amorosa nem misericordiosa.

O amor e a misericórdia são belos, mas devem ser precedidos pela verdade. Sou grato a Dom Athanasius por nos lembrar disso.

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Nada pode agradar a Deus mais do que a Santa Missa
Espiritualidade

Nada pode agradar a Deus
mais do que a Santa Missa

Nada pode agradar a Deus mais do que a Santa Missa

Assistir à Missa é um exercício da mais excelente de todas as virtudes morais: a virtude da religião. Por isso, tomar parte nela é sempre a melhor coisa que um católico pode fazer. E isso independentemente de ele comungar ou não.

Peter KwasniewskiTradução: e adaptação da Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Março de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Se alguém lhe perguntasse por que Nosso Senhor instituiu a Missa, o que você diria? Você seria capaz de explicar a essa pessoa por que a Missa é necessária para que tenhamos um relacionamento apropriado com Deus [1]?

Depois da tragédia cósmica de Adão e Eva, a espécie humana mergulhou nas trevas, na miséria e na culpa. Cada um de nós sofre dessa tragédia; porém, não podemos salvar a nós mesmos. É por isso que precisamos de um salvador. Jesus Cristo nos libertou do abismo do pecado e da morte por meio dos mistérios de sua vida e, acima de tudo, de sua morte na Cruz, quando se ofereceu ao Pai num ato de amor infinitamente agradável. Ele nos liberta do mal e nos dá acesso à eternidade nos sacramentos da Igreja.

Como Deus é nosso criador, redentor e santificador, nós devemos tudo a Ele. Temos uma dívida de justiça e amor para com Ele que jamais poderemos pagar de um modo que seja digno de sua imensa bondade e dos dons que Ele nos dá. Nós nunca poderemos adorá-lo ou agradecer-lhe o bastante. Acima de tudo, precisamos estar unidos a nosso Redentor em seu sacrifício na Cruz, de modo que a vitória obtida para a humanidade em geral possa ser aplicada a cada um de nós em particular. A vitória de Cristo sobre o pecado e a morte se torna nossa quando nos tornamos um com Ele.

Por isso a Missa é uma obra-prima da sabedoria e da misericórdia de Deus. Nela, Nosso Senhor torna presente seu sacrifício na Cruz pela oferta do mesmo Corpo e Sangue que foram oferecidos ao Pai pela nossa salvação. Ele anula os dois mil anos que nos separam do Calvário e nos leva até a sua Cruz, suas chagas sagradas, seu Sangue precioso, seu Coração trespassado.

Quando nos unimos livremente a essa oferta pelas mãos do sacerdote, rendemos a Deus a glória e a honra que Ele merece, o culto que lhe é devido e que jamais poderíamos oferecer por conta própria. O Pai olha para nós e diz: “Vós me destes aquilo que me agrada — meu único Filho, em quem ponho minha afeição”. É por isso que a Missa é a oração mais perfeita e a coisa mais excelente que nós podemos oferecer a Deus.

Assim sendo, é possível entender por que foi muito conveniente que surgisse na Igreja Católica a celebração diária da Missa por cada sacerdote: tais ofertas multiplicam e distribuem os efeitos dessa única e sagrada oblação continuamente, no tempo e no espaço, a todos nós que dela tão avidamente necessitamos.

Por que assistimos à Missa?

Ao abordar a questão a partir dessa perspectiva, podemos entender melhor uma característica das vidas dos santos que pareceria estranha aos católicos modernos — a saber, que muitos santos assistiam à Missa duas ou até mais vezes por dia, ainda que muitas vezes não recebessem a Comunhão (fossem leigos ou religiosos). O rei São Luís IX “ouvia Missa” (como se costumava dizer) duas vezes por dia. Até sacerdotes iam à Missa mais de uma vez ao dia: sabemos pelos relatos da vida de Santo Tomás de Aquino que ele celebrava sua Missa diária com seu secretário Reginaldo de acólito; em seguida, trocavam de lugar e Tomás acolitava para Reginaldo.  

Essa postura se torna perfeitamente compreensível quando a analisamos através das lentes do dogma católico. Já que a Missa é em si um sacrifício verdadeiro e conveniente, infinitamente agradável a Deus, assistir a ela, unindo nosso preito interior ao serviço do sacerdote, é um exercício perfeito da mais excelente de todas as virtudes morais: a virtude da religião, que honra a Deus tal como nos obriga o Primeiro Mandamento — e como o Senhor Jesus Cristo está real, verdadeira e substancialmente presente sob as formas do pão e do vinho, também somos levados até a sala do trono do Rei dos Reis e Senhor dos Senhores, para prestar-lhe o culto de adoração que Ele merece (e recompensa).

Contra o reducionismo sacramental

Sem o espírito de oração exemplificado pelos santos [2], a recepção da Comunhão pode se tornar um ritual quase sem sentido, algo que uma pessoa “faz” porque todas as outras o fazem. Na verdade, a Comunhão pode ser tornar uma ocasião para atrair sobre si a culpa do desprezo pela mais sagrada de todas as coisas sagradas

Hoje, se alguém procura na internet pela expressão “assistir à Missa duas vezes num dia”, os únicos resultados que aparecem dizem respeito à recepção da Comunhão duas vezes no mesmo dia. Tudo foi reduzido a essa questão apenas. É simplesmente inconcebível a ideia de que alguém possa assistir à Missa duas vezes e talvez não comungar em nenhuma delas. Na minha opinião, isso reflete uma falta de compreensão a respeito do que é a Missa, que caminha paralelamente com a falta de compreensão sobre a Presença Real. 

Nosso Senhor se faz presente na Santíssima Eucaristia por diversas razões: primeiro, para que possamos fazer uma oferta digna à Majestade divina; segundo, para que não sejamos privados da força e da consolação de sua amizade entre nós; terceiro, para que possamos tomar parte nele pelo bem de nossas almas. Sem subestimar ou denegrir a Comunhão frequente, ainda vale a pena nos perguntarmos até que ponto entendemos que a Missa é um ato de adoração necessário, valioso e frutífero em si mesmo.  

Bastam essas duas razões — que possamos exercer a virtude da religião e adorar Nosso Senhor com uma intimidade privilegiada — para mostrar que assistir à Missa é o melhor que um católico pode fazer, mesmo sem considerar a questão de se ele deve ou não receber a Comunhão [3]. São Pedro Julião Eymard (1811–1868) disse: “Sabe, ó cristão, que a Missa é o ato mais sagrado da religião. Não há nada mais agradável a Deus, nem mais benéfico para tua alma do que assistir à Missa com devoção e sempre que possível.”   

Estamos preparados para mais? 

É verdade que temos de equilibrar nossas obrigações religiosas com os outros deveres da vida, mas se Santo Tomás de Aquino, que escreveu 50 volumes in-fólio da mais refinada teologia escolástica, e São Luís IX, que governou um reino e lutou nas Cruzadas, puderam dispor de tempo para duas Missas por dia, será difícil encontrar uma boa desculpa para não assistir à Missa sempre que pudermos — naturalmente, desde que uma Missa celebrada de forma piedosa e reverente esteja disponível em nossa vizinhança.

É verdade que monges, religiosas e frades possuem algumas vantagens claras: por serem celibatários e consagrados a Deus, sua vida inteira pode ser estruturada em torno da liturgia da Igreja — o Ofício Divino e o Santo Sacrifício da Missa. Eles não têm nenhuma desculpa para não mergulhar na adoração litúrgica a Deus. Do mesmo modo, santos monarcas têm servos para cuidar de suas necessidades básicas, e eles não têm de se preocupar com o próprio ganha-pão. Também possuem muito tempo à sua disposição. 

Mesmo assim, ainda é verdade que nós — que, não por mérito próprio, recebemos o dom da fé, e que pela fé reconhecemos a santidade e a justiça transcendentes de Deus, bem como suas legítimas exigências em relação a toda a Criação — exercemos um papel especial na restauração e renovação dessa Criação quando pela oração nos unimos à oblação do Mediador entre o Céu e a terra. Quando assistimos à Missa com devoção, promovemos o Reino de Deus: somos agentes da cura e da elevação do mundo

Tudo isso já era verdade antes mesmo de considerarmos o mais admirável de todos os dons do Senhor, por meio do qual Ele permite — aliás, convida-nos, quando estamos bem preparados — que nos aproximemos com temor e tremor do altar do “sacrifício pleno e definitivo” e participemos dos mistérios sagrados e vivificantes de Cristo.  

Qual o seu plano para a Quaresma?

No Rito Romano tradicional, o único período do ano que possui uma Missa especial para cada dia, com antífonas, leituras e orações próprias é a Quaresma, que foi considerada um “tempo de salvação” e nos convida a observar com muito mais seriedade nossas orações (públicas e privadas), jejum e abstinência, esmola e obras de misericórdia espirituais e corporais. 

Sempre que possível, deveríamos fazer da Missa diária o eixo em torno do qual gira nossa Quaresma. Trata-se de uma forma muito prática de dar a Nosso Senhor uma renovada primazia em nossas vidas.

Na Quaresma, aqueles que já assistem à Missa diária poderiam tentar chegar alguns minutos antes do usual, permanecer mais alguns minutos depois ou acrescentar — seja nessa ocasião ou em outro momento do dia — um trecho do Ofício Divino, que prepara e prolonga os frutos da Missa.    

A regra de vida do católico é simples, mas profunda: viver da Missa e para a Missa.

Notas

  1. Essa necessidade remonta ao início da história e ao período da antiga Lei de Moisés: toda a humanidade já estava ordenada à adoração ao Pai no e pelo Filho, mesmo antes da revelação plena desse mistério. O pecado original introduziu uma nova dimensão: o rompimento do vínculo de amizade exigia cura e aplacamento. Podemos dizer, sem exagero, que em última instância o homem foi criado para assistir à Santa Missa e entrar no santuário celeste por meio dela. Aqueles que, como Noé, Abraão, Moisés e Davi, não tiveram acesso a ela, não obstante desejaram-na implicitamente com a mesma fé com a qual desejaram a intervenção do Salvador de Israel, o Cristo (n.d.a.).
  2. Omitimos nesta tradução um trecho em que o autor fala de sua experiência pessoal com os monges beneditinos de Nórcia, que rezam a Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano. Já falamos sobre esses religiosos aqui no site; só omitimos a menção a eles por causa do tom mais íntimo do relato e por entendermos que o excerto era prescindível para o desenvolvimento da ideia que o autor pretendia transmitir. Aqui, em “Sem o espírito de oração exemplificado pelos santos”, a fim de apresentar aos leitores um texto contínuo, tomamos a liberdade de substituir “monges” (do original) por “santos”, pois, no fundo, a prática de assistir à Missa sem necessariamente comungar é comum a ambos os grupos (n.d.t.).
  3. Se as normas de jejum fossem mais exigentes, por exemplo, haveria dezenas de vezes em que, mesmo não nos encontrando em estado de pecado mortal, ainda assim estaríamos impedidos de aproximar-nos do altar. E isso é bom para nos humilharmos e considerarmos a grandeza do que estamos fazendo. Se soubéssemos que as pessoas permanecem em seus bancos por outras razões que não o pecado grave, o sentimento de pressão social para ir à Comunhão seria muito menor (n.d.a.).

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