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Seis lições dos mártires de Cunhaú e Uruaçu aos católicos do Brasil
Santos & Mártires

Seis lições dos mártires de
Cunhaú e Uruaçu aos católicos do Brasil

Seis lições dos mártires de Cunhaú e Uruaçu aos católicos do Brasil

Quem são os santos protomártires do Brasil, qual a história do martírio que sofreram e o que têm eles a nos ensinar nos dias de hoje?

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Outubro de 2018
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Nos povoados de Cunhaú e Uruaçu, no estado do Rio Grande do Norte, em 1645, aconteceu um massacre perpetrado por invasores holandeses protestantes. Nesse episódio, morreram mártires inúmeros católicos, dentre os quais a Igreja elevou à honra dos altares 30 nomes: os sacerdotes André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, e incontáveis leigos, como Mateus Moreira, Estêvão Machado de Miranda e outros.

A memória desses santos, homens e mulheres de fé, deve ser celebrada em todo o Brasil no dia 3 de outubro, mas, infelizmente, poucos conhecem a sua história e menos ainda as lições que ela tem a nos passar.

1. Em primeiro lugar, o martírio de Cunhaú nos recorda a ligação íntima que os católicos têm com a Santa Missa dominical, ligação conhecida inclusive pelos inimigos da Igreja.

O morticínio que lá aconteceu, no dia 16 de julho, um domingo, foi precedido de uma convocação no dia anterior. Um servidor dos holandeses chamado Jacó Rabe e “conhecido de todos pelas suas frequentes incursões por aquelas paragens”

convocou, através de editais fixados nas portas da Igreja, todos os habitantes para uma reunião após a missa, a fim de transmitir-lhes ordens emanadas pelo Alto e Secreto Conselho Holandês. A intenção era aparentemente pacífica. Por isso, os moradores não levaram armas consigo porque, além de ser proibido o porte de armas pelas autoridades holandesas, tratava-se do cumprimento do preceito da missa dominical [1].

Ainda hoje, em muitos lugares da África e do Oriente Médio, os cristãos são com muita frequência vitimados justamente no domingo, durante a Missa. Alvos de terroristas muçulmanos, igrejas são bombardeadas e inúmeras pessoas mortas de uma vez só, enquanto oferecem a Deus o seu domingo, recordando a ressurreição de Nosso Senhor.

Nos países mais secularizados, porém, essa identidade está cada vez mais sob ameaça. A tendência é o ateísmo ou, quando muito, a adoção de uma crença intimista, que de católica tem muito pouco ou quase nada. Como consequência, as pessoas não vão mais à igreja, abandonam o culto público a Deus e levam a vida mais ou menos do mesmo modo: como se Ele não existisse.

A esta nossa época que se esqueceu de Deus é preciso lembrar: participar da Missa aos domingos é não só um preceito para os católicos, que estão obrigados a fazê-lo sob pena de pecado grave (para os que ainda acreditam em pecado, é claro), mas também um sinal muito forte de nossa pertença a Cristo e à Santa Igreja Católica. No mundo inteiro, no mesmo dia, professando a mesma fé e unidos sob a autoridade dos mesmos pastores, os católicos rezam juntos por suas vidas, suas famílias e pela salvação do mundo.

2. Mas voltemos ao relato do dia 16 de julho. Os calvinistas holandeses, em conluio com os indígenas, nem esperaram a Missa terminar para começarem a matança dos católicos.

Após a consagração e a elevação da hóstia e do cálice, os fiéis foram tomados de grande espanto quando entraram no recinto da igreja Jacó Rabe à frente de um bando de soldados holandeses e índios tapuias e potiguares, todos bem armados.

As portas foram trancadas e a missa foi interrompida. Começou a grande chacina: foram trucidados e mortos o Padre André de Soveral e todos os que estavam na igreja, aproximadamente sessenta e nove pessoas.

Foram cenas de grande atrocidade: os fiéis em oração, tomados de surpresa e completamente indefesos, foram covardemente atacados e mortos pelos flamengos com a ajuda dos tapuias e dos potiguares [2].

Ao matarem deste modo os católicos potiguares, logo “após a consagração e a elevação da hóstia e do cálice”, os algozes protestantes nos apontam sem querer  para uma segunda lição, contida na doutrina católica sobre a Santa Missa: em toda celebração eucarística, atualiza-se sobre o altar o único sacrifício que Cristo ofereceu na cruz pela remissão dos pecados do mundo inteiro, e a esse sacrifício nós somos chamados a unir-nos, não só na oração da Missa, mas também com nossa vida.

Os mártires de Cunhaú tiveram essa oportunidade. Logo depois de ser oferecido de maneira incruenta pelo sacerdote “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, ofereceu-se na mesma igreja o sacrifício cruento dos fiéis, isto é, com derramamento de sangue. O Calvário se repetia novamente, agora no Brasil: antes havia sido a Cabeça, agora padecia o Corpo; naquele dia, as vítimas inocentes, ao invés de comungarem sacramentalmente, fizeram-no na carne, com seu sofrimento e sua morte.

Se a nossa vida não for também um oferecimento a Deus, como o desses mártires, não seremos capazes de compreender a fundo o mistério da Eucaristia. Aqui vale um ensinamento do venerável arcebispo norte-americano Fulton Sheen:

A Comunhão não é apenas uma incorporação na vida de Cristo, mas também uma incorporação na sua morte. [...] Acaso poderíamos receber toda a vida de Cristo, sem lhe darmos nada em troca? Acaso poderíamos esgotar o cálice, sem contribuir com algo para enchê-lo? Devemos receber o pão, sem oferecer o grão que deve ser moído; receber o vinho, sem dar as uvas que devem ser esmagadas? Se durante a nossa vida fôssemos sempre à Comunhão para receber a vida divina, e a levássemos conosco sem deixar nada em troca, seríamos parasitas do Corpo Místico de Cristo [3].

Mas de que espécie de oferecimento estaríamos falando? Seria necessário nos tornarmos mártires pelo sangue? Fulton Sheen responde:

Devemos, pois, levar conosco, para a mesa da Eucaristia, o espírito de sacrifício, a mortificação da inferioridade do nosso ser, as cruzes suportadas com paciência, a crucificação do nosso egoísmo, a morte da nossa concupiscência e inclusive a nossa falta de méritos para receber a Comunhão. Só nestas circunstâncias a Comunhão será o que realmente sempre deve ser [4].

Assim, ainda que não venhamos a entregar a nossa vida como esses valorosos homens de Deus, nem por isso estamos dispensados do chamado “martírio branco”, morrendo para nós mesmos nas pequenas coisas do dia a dia.

3. Prosseguindo agora para o relato do martírio de Uruaçu, ocorrido no dia 3 de outubro, vejam todos se não é de uma crueldade estarrecedora o que se deu:

Logo chamaram aos brasilianos para os matar, o que se executou logo, fazendo nos corpos destes mártires tais anatomias que são incríveis; e não contentes com elas os ditos flamengos os ajudaram a matar, assim arrancando os olhos a uns, e tirando as línguas a outros, e cortando as partes vergonhosas, e metendo-lhas nas bocas [5].

Aqueles fiéis católicos, porém, mesmo padecendo todas essas torturas, como morriam? “Pedindo a Deus que tivesse deles misericórdia, e lhes perdoasse suas culpas e pecados, protestando que morriam firmes na santa fé católica crendo o que cria a Santa Madre Igreja de Roma” [6].

Com isso, aprendemos uma terceira lição: a de que, ao contrário do que prega um cristianismo “moderno”, não só não é verdade que todas as religiões são iguais, como dentro do próprio cristianismo não vale tudo. Dizer que tanto faz, por exemplo, ser católico ou protestante, é rir no túmulo dos mártires de Uruaçu, que preferiram morrer a abjurar da fé católica.

Mas por que não conseguimos entender mais a atitude dos mártires? Por que para nossos contemporâneos o massacre de Cunhaú e Uruaçu não passa de um episódio político ou de “intolerância religiosa”, sem nenhum significado maior? Porque, tragicamente, muitos deixaram de crer “na Santa Igreja Católica”, como professamos no Credo.

Quando não se acredita mais que a religião católica contém a verdade revelada por Deus para a nossa salvação, uma das primeiras coisas que se relativiza é o sangue dos mártires. Se todas as religiões são iguais, se tanto faz ir a uma igreja católica, a um templo protestante ou a um terreiro de umbanda, a verdade é que os mártires do Rio Grande do Norte morreram em vão e, com eles, toda uma multidão de homens e mulheres cultuados nos altares da Igreja.

Todos eles, no entanto, realmente acreditavam que era melhor morrer do que abandonar a fé católica e pecar contra Deus. Com isso, deram um testemunho eloquente da verdade que professavam. Por essa razão, o sangue deles é chamado “semente de novos cristãos”, porque as pessoas de fora da Igreja, vendo com que destemor os de dentro não hesitaram em dar a própria vida pelo que acreditavam, acabam convencidas da verdade e fazem-se católicos.

4. Entre as vítimas de Uruaçu, algumas receberam um tratamento especialmente cruel: os sacerdotes. Conforme os relatos da época, “o Pe. Ambrósio Francisco Ferro foi mais barbaramente atingido por causa de sua condição de sacerdote” [7]. Os outros 27 mártires canonizados eram leigos.

Disso se extrai uma quarta lição para nós, católicos: os sacerdotes são revestidos na Igreja de uma dignidade superior. O próprio inimigo o reconhece. Assim como foram eles os mais ferozmente atacados pelos hereges, quando Satanás procura destruir a Igreja, é contra os padres que ele investe de maneira especial.

O Santo Cura d’Ars explicava com muita simplicidade a importância do padre:

Sem o sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem há de prepará-la para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no Sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. […] Depois de Deus, o sacerdote é tudo! […] Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no Céu [8].

Grandioso é o sacerdócio católico e, no entanto, quem foi que o revestiu de tamanha dignidade? Teria sido porventura a Igreja, ao longo dos séculos, “desejosa de poder”, como muitos pintam? Não, foi o próprio Cristo, ao eleger os Apóstolos, instituiu a hierarquia na Igreja. Quem observar a sua vida e o seu ministério público verá que por três anos o Senhor passou ensinando o povo, sim, curando-lhes as enfermidades, também; mas poderes especiais e outros ensinamentos específicos, só aos Apóstolos Ele reservou; o poder de consagrar a Eucaristia e absolver os pecadores, só a seus sacerdotes Ele confiou.

Se o próprio Deus feito carne instituiu o sacerdócio e cercou-o de tais privilégios, com que respeito e veneração não deveríamos pensar nos padres! Diante dos escândalos que infelizmente acontecem no clero, nossa época corre o risco de não dar o devido valor a essa pedra preciosa com que Cristo ornou a Igreja. A grande tentação de Satanás é fazer-nos desacreditar dos padres, para que, perdendo a fé no que eles são, percâmo-la também no Cristo que eles consagram e no perdão que eles ministram.

5. Por falar do sacramento da Eucaristia, foi justamente com uma profissão de fé na presença real de Jesus neste Santíssimo que morreu o mais famoso leigo dos mártires de Uruaçu: São Mateus Moreira. A ele “abriram pelas costas, e lhe tiraram também o coração e as últimas palavras, estando neste martírio, que disse, foram louvar a Deus, dizendo: Louvado seja o Santíssimo Sacramento” [9].

Desse testemunho tiramos uma quinta lição: quem está presente nos sacrários de nossas igrejas não é ninguém mais, ninguém menos do que o próprio Filho de Deus, a quem nós confessamos “nascido do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, por quem todas as coisas foram feitas”.

O hábito de ir à Missa, especialmente para quem frequenta todos os dias este sacramento, pode criar uma “rotina” e fazer-nos esquecer da “sarça ardente” de que nos aproximamos quando subimos ao altar de Deus. Que o coração violentamente retirado do corpo de São Mateus Moreira nos faça lembrar com quanta violência também nós devemos sacar de nosso corpo a frieza, a mornidão e a indiferença na hora de receber a Sagrada Comunhão…!

6. Registremos, por fim, o martírio da família de Santo Estêvão Machado de Miranda, da qual podemos aprender uma sexta e derradeira lição para nossas vidas:

Casado com dona Bárbara, filha de Antônio Vilela Cid, [Estêvão] estava acompanhado da esposa, que foi poupada, e de quatro filhas, duas das quais foram sacrificadas juntas com o pai, e duas permaneceram vivas. Entre as que morreram, uma era criancinha de colo, com apenas dois meses, sendo a vítima mais jovem de todo o grupo de mártires. Da outra filha de Estêvão Machado, também martirizada, não se diz a idade. Quanto às duas que foram poupadas, conta-se que uma menina de sete anos abraçava-se ao pai, na hora da execução, e suplicava com grandes lamentações que não tirassem a vida de seu genitor.

Estêvão disse à menina: “Filha, diz a tua mãe que se fique embora, que no outro mundo nos veremos”. Depois do pai morto a menina cobriu-lhe o rosto com a saia, chorando e pedindo que também a matassem. Os algozes “trouxeram a menina à sua mãe, e ela, e os mais contaram o caso” [10].

As últimas palavras de Estêvão (também ele protomártir) ensinaram à filha e ensinam a nós que, para um católico, a existência mais importante não é esta que passamos neste mundo, mas sim a do Céu. “Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo”, diz o Apóstolo, “somos de todos os homens os mais dignos de lástima” (1Cor 15, 19).

É por isso que os cristãos devem lutar para educar bem e santamente os seus filhos; ou melhor, é por isso que eles devem tê-los em primeiro lugar. “Se Deus quis as gerações dos homens”, escreve o Papa Pio XI, “não foi somente para que eles existissem e enchessem a terra, mas para que honrassem a Deus, O conhecessem, O amassem e O gozassem eternamente no Céu”. Por isso, os pais católicos, iluminados pela graça, têm de compreender que

não são destinados só a propagar e conservar na terra o gênero humano e não só também a formar quaisquer adoradores do verdadeiro Deus, mas a dar filhos à Igreja, a procriar concidadãos dos santos e familiares de Deus (cf. Ef 2, 19), a fim de que o povo dedicado ao culto do nosso Deus e Salvador cresça cada vez mais, de dia para dia [11].

Que Santo Estêvão Machado, que entregou heroicamente a vida na frente da esposa e das filhas, interceda do Céu pelas famílias brasileiras, para que também nós sacrifiquemos nosso tempo, nosso conforto e nosso trabalho pela salvação de nossas casas. É a única forma de restaurarmos a fé nesta Terra de Santa Cruz. É a única forma de imitarmos verdadeiramente estes santos protomártires do Brasil.

Referências

  1. Francisco de Assis Pereira, Beato Mateus Pereira: patrono dos Ministros Extraordinários da Comunhão Eucarística e seus companheiros mártires, São Paulo: Paulinas, 2009, p. 43.
  2. Ibid., p. 44.
  3. Fulton Sheen, O Calvário e a Missa, Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 54.
  4. Ibid., p. 54-55.
  5. Lopo Curado Garro, “Breve, verdadeira, e autêntica relação das últimas tiranias e crueldades, que os pérfidos holandeses usaram com os moradores do Rio Grande”, p. 151, apud Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 58.
  6. Diego Lopes Santiago, “História da Guerra de Pernambuco”, p. 346, apud Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 59.
  7. Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 60.
  8. Abbé Bernard Nodet, Le Curé d’Ars, sa pensée, son cœur, Xavier Mappus, Foi Vivante, 1966, pp. 98-99.
  9. Lopo Curado Garro, “Breve…”, pp. 152-153, apud Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 66.
  10. Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 61.
  11. Papa Pio XI, Carta Encíclica Casti Connubii, 31 dez. 1930.

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Estes seis pecados ficaram “fora de moda”...
Doutrina

Estes seis pecados
ficaram “fora de moda”...

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…mas nem por isso deixaram de ser pecado. Pior: justamente por ninguém mais colocar o dedo nessas feridas, estes males “não são combatidos e persistem tranquilamente impunes em nossa época”.

Pe. José María Iraburu,  InfoCatolica.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Outubro de 2018
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“Um catálogo de pecados descatalogados”. Parece até um trava-língua; mas, lendo o que vem a seguir, você entenderá a expressão.

Declaratio terminorum, “esclarecimento dos termos”. Catálogo (do latim catalogus, e do grego katálogos): é uma relação ordenada de objetos (livros, documentos etc.) que estão relacionados entre si. Descatalogar: tirar objetos que faziam parte de um catálogo. Neste sentido, é possível falar, por exemplo, de um catálogo de pecados.

Já na doutrina de Cristo nós encontramos catálogos de pecados, e desses alguns podem ser leves e outros, mortais, ou seja, que separam o homem da união com Deus, fonte da vida, e que podem conduzir à condenação eterna. No Novo Testamento encontramos mais de vinte listas de pecados, algumas nos evangelhos sinóticos, ou seja, no próprio ensinamento de Cristo: “É do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez” (Mc 17, 21-22; em Mt 15, 19-20 mencionam-se sete). Na parábola do publicano citam-se três: “ladrões, injustos, adúlteros” (Lc 18, 11). E de outros pecados concretos falam as parábolas da cizânia, do rico epulão, do homem avaro, do servo infiel, do juízo final, do escândalo etc.

Também nos escritos dos Apóstolos se formulam catálogos de pecados, sobretudo em São Paulo. A lista mais completa e impressionante encontra-se na Carta aos Romanos (cf. 1, 24-32), onde achamos denunciado, de maneira muito especial, o nefando pecado da união homossexual entre homens ou entre mulheres (cf. 1, 26-28). Outra lista enumera: “Nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus” (1Cor 6, 9-10). “Com tais indivíduos nem sequer deveis comer… Tirai o perverso de vosso meio” (1Cor 5, 11.13).

Deve haver, portanto, na consciência dos discípulos de Jesus um sentido bem vivo do pecado, que nunca considere o mal como bem; que descubra inclusive os pecados internos, e não somente os que se manifestam em obras externas (“Todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração”, Mt 5, 28); e que leve em conta não somente os pecados de comissão, mas também os de omissão (as virgens néscias, cf. Mt 25, 11-13; o servo que não faz render os seus talentos, 25, 27-29; o juízo final, que indica as obras de caridade necessárias e não realizadas, 25, 41-46) etc.

Três observações prévias.

Primeiro, um pecado torna-se descatalogado, mais ou menos, quando se dão estes sinais:

  1. Quando a pregação deixa de falar de uma certa virtude e de assinalar os pecados que lhe são contrários.
  2. Quando o pecado se tornou de tal modo generalizado que chega a ser visto como algo “normal”, que não mais pesa na consciência.
  3. Quando já é um pecado que não costuma ser acusado no sacramento da Confissão, nem mesmo pelos poucos cristãos praticantes que continuam se confessando, ou porque não o consideram relevante ou porque ignoram na prática sua pecaminosidade, ainda que às vezes tenham dele algum conhecimento doutrinal.

A simonia pode ser um exemplo de pecado descatalogado em grande medida naquelas regiões e épocas em que se tornou quase que o modo normal através do qual os filhos dos nobres, mais instruídos e de presença mais forte no mundo, ascendiam aos altos cargos da Igreja. No século IX muitos senhores consideravam (erro crasso) que bispados, monastérios e paróquias faziam parte de seus domínios. Por isso, pensavam que cabia a eles dar a investidura de autoridade nessas entidades eclesiais. O tráfico dos postos eclesiásticos mais importantes era considerado geralmente como algo lícito e normal. Era um pecado descatalogado.

No entanto, no século XI e na primeira metade do XII, celebraram-se oito concílios regionais na Inglaterra, na França e na Itália para erradicar o erro e o pecado da simonia. A ação de papas como Nicolau II (1058-1061) e Gregório VII (1072-1085), a obra e pregação de grandes santos, como São Bruno (1030-1101) e São Bernardo (1090-1153), foram vencendo essa praga. Note-se, porém, que enquanto a epidemia espiritual da simonia estava com toda a sua força, podia haver bispos — como de fato houve —, abades e párocos bons, ortodoxos e pastoralmente zelosos, os quais, no entanto, de boa consciência, haviam ascendido a suas posições por meios simoníacos.

Segundo, não tratarei aqui da culpabilidade subjetiva dos que incorrem em pecados descatalogados. É possível que haja uma culpabilidade atenuada ou quase nula nas pessoas que incorrem em pecados descatalogados objetivamente graves. Esta é a doutrina moral — a ignorância invencível, por exemplo, e outras considerações — sempre comum na Igreja.

Terceiro, o catálogo que forneço aqui de pecados descatalogados é muito incompleto. Justamente por isso, prefiro apresentá-lo de modo desordenado. Exponho alguns somente a título de exemplo. Seria possível mencionar muitos outros, pois são muitos os que se dão sobretudo nas igrejas locais que estão em boa parte arruinadas e à beira da extinção.

— O afastamento crônico da Missa dominical tornou-se um pecado descatalogado. O terceiro mandamento da lei de Deus ordena que seja dado, em privado e em público, um culto de louvor, adoração e ação de graças a Deus. Esta obrigação é muito grave, porque a Igreja existe para a glória de Deus. Por isso, os cristãos não praticantes são pecadores públicos. Não há vida cristã se não há vida eucarística, já que, como em vários textos afirma o Concílio Vaticano II, a Eucaristia é a fonte e o ápice da vida cristã.

Pois bem, se a pastoral dos bispos, os párocos, os catequistas, os professores de seminários e faculdades de teologia, as publicações católicas em geral não inculcam com todo empenho e frequência a gravidade do grande preceito dominical, em questão de meio século serão muitas as igrejas locais em que a assistência à Missa no dia do Senhor passará de 80 a 10% dos batizados. Porque este grave pecado foi descatalogado.

Manda a lei da Igreja:

O domingo, em que se celebra o mistério pascal, por tradição apostólica, deve guardar-se como dia festivo de preceito em toda a Igreja (cân. 1246).

No domingo e nos outros dias festivos de preceito os fiéis têm obrigação de participar na Missa; abstenham-se ainda daqueles trabalhos e negócios que impeçam o culto a prestar a Deus, a alegria própria do dia do Senhor, ou o devido repouso do espírito e do corpo (cân. 1247).

O Catecismo da Igreja Católica diz que:

A Eucaristia do domingo fundamenta e sanciona toda a prática cristã. Por isso os fiéis são obrigados a participar da Eucaristia nos dias de preceito, a não ser por motivos muito sérios… ou se forem dispensados pelo próprio pastor. Aqueles que deliberadamente faltam a esta obrigação cometem pecado grave (n. 2181).

Ou seja, afastam-se da vida cristã.

Portanto, o cristão que se ausenta voluntariamente e durante um longo tempo da Eucaristia, podendo assistir a ela, por isso mesmo está em pecado mortal. É importante, sem dúvida, que ele o saiba. E o fato de esse pecado ter sido ilicitamente descatalogado em sua igreja local não muda a realidade das coisas. A participação na Missa dominical, antes de ser um preceito canônico, é uma necessidade ontológica: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 53-54).

— A passividade da autoridade apostólica para combater eficazmente heresias e sacrilégios é objetivamente um grave pecado que, já há vários decênios, está descatalogado em grande parte da Igreja. Como vários papas declararam em mais de uma ocasião, são inumeráveis as heresias atuais, e essas heresias e sacrilégios perduram com frequência durante muitos anos porque permanecem impunes.

As reprovações tardias de erros graves dão lugar à ampla difusão de heresias entre o povo cristão. No caso do Pe. Anthony de Mello (1931-1987), a enérgica reprovação da Congregação para a Doutrina da Fé se produziu em 1998, doze anos depois de sua morte. O próprio documento advertia tratar-se de um autor “muito conhecido pelas suas numerosas publicações, que, traduzidas para diversas línguas, tiveram uma notável difusão em muitos países”. Só depois de uns vinte ou trinta anos de seu reinado impune em livrarias religiosas, também diocesanas, foram reprovados os seus graves erros.

Paulo VI falou de uma Igreja em estado de “autodemolição” [1]. Efetivamente, por ser a fé o fundamento da Igreja, as heresias são as causas principais de sua destruição. João Paulo II atesta que “foram divulgadas prodigamente ideais contrastantes com a Verdade revelada e desde sempre ensinada; foram difundidas verdadeiras heresias, em campo dogmático e moral” [2]. O Cardeal Ratzinger, um mês antes de ser constituído papa, disse na Via Sacra no Coliseu: “Quanta soberba, quanta autossuficiência!… Senhor, muitas vezes a vossa Igreja parece-nos uma barca que está para afundar, uma barca que mete água por todos os lados. E mesmo no vosso campo de trigo, vemos mais cizânia que trigo” [3]…  

E como foi isso possível? A resposta Cristo no-la dá: “Na hora em que seus homens dormiam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e partiu” (Mt 13, 25). São os bispos, juntamente com o papa, constituídos como episcopoi (vigilantes), os principais guardiões da ortodoxia na Igreja.

Manda a Igreja:

Seja punido com pena justa: 1.°, quem ensinar uma doutrina condenada pelo Romano Pontífice ou pelo Concílio Ecumênico ou rejeitar com pertinácia a doutrina referida no cân. 752 (sobre o Magistério autêntico em fé e costumes), e, admoestado pela Sé Apostólica ou pelo Ordinário, não se retratar (Cân. 1371).

Pode-se dizer que esta norma grave — seja punido —, ao menos em uma parte importante da Igreja, tem sido sistemática e ilicitamente descumprida pelos pastores. O respeito liberal para com a liberdade de expressão tem prevalecido sobre o valor da ortodoxia e da ortopraxis. Grandes heresias são difundidas impunemente nas cátedras, nos seminários, nas paróquias, na catequese, nas livrarias religiosas, inclusive as diocesanas, por décadas. Grandes abusos litúrgicos acontecem reiteradamente em paróquias, conventos e reuniões, sem que ninguém os corrija eficazmente.

Tudo isso indica que a autoridade apostólica se debilitou muito na doutrina e na disciplina. E essa é uma das causas principais de não poucos bispos, em trinta anos, terem perdido a metade ou dois terços do rebanho cristão que o Senhor lhes havia confiado… A omissão do exercício da autoridade apostólica tornou-se em muitos lugares da Igreja um pecado descatalogado.

— A falta de pudor é um pecado descatalogado para a maior parte dos católicos. Levando-se em conta unicamente os leigos, é possível dizer que o senso de pudor subsiste apenas em um punhado de “sobreviventes”. Digo isso principalmente com relação ao modo de se vestir.

A Escritura ensina que Adão e Eva, depois de seu primeiro pecado, ficaram com vergonha de sua nudez, e que o próprio Deus fez para eles “umas vestes de peles, e os vestiu” (Gn 3, 21). Deus quer vestimentas para o homem ferido pelo pecado. Em Israel e na Igreja, fiéis à vontade divina, sempre foi pregado aos fiéis o pudor no modo de se vestir e nos costumes, ainda que às vezes essa virtude tivesse de ser vivida e guardada no meio de um mundo totalmente impudico.

Jesus ensinou que “todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração” (Mt 5, 28). Por isso, ainda que no mundo da Igreja dos primeiros séculos a nudez fosse frequente em fontes termais, teatros, academias e festas, os Santos Padres e as leis da Igreja sempre fomentaram o pudor e reprovaram tanto os banhos termais e a imodéstia quanto os espetáculos obscenos, que — como muitas praias, piscinas e espetáculos de hoje — eram ocasiões próximas de pecado.

Registre-se que a modéstia das mulheres cristãs era para não poucos pagãos antigos uma revelação, que colaborou decisivamente para a evangelização do mundo greco-romano. A apostasia moderna conduziu a uma restauração da falta de pudor pagã, ao ponto de em grande parte da Igreja ter-se tornado um pecado descatalogado. As mulheres e os homens podem exibir-se quase nus nas praias, piscinas e academias, prosseguindo com o despudor em suas vidas ordinárias, sem que os pastores e teólogos morais digam qualquer coisa contra. Alguns deles inclusive consideram a nudez como um progresso na história cristã, como uma irrenunciável evangelização do corpo humano.

— A contracepção tornou-se um pecado descatalogado para uma grande parte da Igreja. Incorre nela de modo sistemático a maioria dos matrimônios cristãos, situação muito compreensível se se leva em conta o silêncio quase absoluto sobre essa questão, ou o mau ensinamento que se deu e que se dá sobre ela em pregações, catequeses, publicações, cursos pré-matrimoniais, confissões.

O aborto elimina uma vida humana na qual Deus já infundiu uma alma, e a contracepção é um horror semelhante, pois sobrepõe a vontade do matrimônio à possível vontade de Deus, eliminando cronicamente a concepção dos filhos. O aborto é mais ou menos combatido na Igreja, mas a contracepção tem de fato sido admitida pelo silêncio de muitas igrejas locais. A contracepção resiste a Deus, baixa enormemente o índice de natalidade, deixa-nos sem filhos, leva ao suicídio demográfico, corrói profundamente a união conjugal e é uma das causas principais do grande número de separações, divórcios e adultérios. Não seria gravemente urgente combatê-la?

Uma praga assim tão terrível só pode ser vencida pela reafirmação da verdade de Cristo e de sua Igreja: “Qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida” [4]. São João Paulo II ensina que, “ao qualificar o ato contraceptivo como intrinsecamente ilícito, Paulo VI quis ensinar que a norma moral não admite exceções: nenhuma circunstância pessoal ou social jamais pôde, pode e poderá converter tal ato em algo por si mesmo ordenado” [5].

— O adultério não foi descatalogado em toda a Igreja, mas em algumas igrejas locais está a caminho de sê-lo, não obstante as palavras claríssimas de Cristo a esse respeito: “Quem repudia sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudia o marido e se casa com outro, comete adultério” (Mc 10, 11-12).

O Salvador dos homens, Jesus Cristo, é o restaurador do matrimônio em sua verdade original, monogâmico e indissolúvel. “Não cometerás adultério” (Rm 13, 9). “Não vos enganeis… os adúlteros não herdarão o Reino de Deus” (1Cor 6, 9-10). O pecado de adultério, com os de heresia e homicídio, sempre foi incluído pela Igreja nos antigos catálogos de pecados mais graves, entre os que são objeto de uma disciplina penitencial mais severa.

— A prática da homossexualidade — não a tendência, é claro — também está a caminho de ser um pecado descatalogado, ao menos na prática, em certas igrejas locais. Há algumas que, de maneira informal e sub-reptícia, já até dispõem de rituais para a bênção de pares homossexuais em templos católicos.

Ao contrário, tanto em Israel como na Igreja, os atos homossexuais sempre foram considerados com especial horror, como o nefando vício da sodomia. “Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a tradição sempre declarou que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados. São contrários à lei natural” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2357).

É significativo que, no Antigo Testamento, “por causa da dureza dos corações”, de algum modo se chegou a tolerar o divórcio, as chamadas segundas “núpcias”, e até a poligamia; mas jamais se aceitou o vício sodomita, que atrai inevitavelmente o castigo de Deus (como se deu em Sodoma e Gomorra).

São Paulo, no elenco de pecados que descreve nos pagãos, menciona a prática homossexual em termos muito duros, como pecado contra naturam (cf. Rm 1, 24-27). Mas o mesmo não costuma ser mencionado nos catálogos de pecados da Igreja antiga, em parte por ser já um pecado em grande medida desaparecido, e também como se se aplicasse a esse pecado a norma paulina: nec nominetur in vobis, “nem se mencione entre em vós” (Ef 5, 3-4).

A descatalogação dos pecados graves constitui hoje a principal causa da ruína de não poucas igrejas locais. É a causa e é o principal efeito. Diferentemente dos outros pecados, esses que são “tirados de catálogo” não são combatidos e persistem tranquilamente impunes em nossa época. Como os espinheiros da parábola, que sufocam a virtude evangélica semeada por Cristo Salvador, eles acabam com a vida cristã dos povos.

Que São João Batista, mártir, interceda por nós, a fim de que, seguindo sua missão e a de Jesus Cristo, também nós hoje vivamos no mundo “para dar testemunho da verdade” (Jo 18, 37), da verdade de Cristo, que vence o pecado, a carne, o mundo e o diabo, pai da mentira.

Notas

  • Este texto, de autoria do Pe. José María Iraburu e presente em seu blogReforma o apostasía”, foi traduzido por nossa equipe e ligeiramente adaptado para esta publicação.

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Os hipócritas que vão à Missa
Igreja Católica

Os hipócritas que vão à Missa

Os hipócritas que vão à Missa

É comum ouvir, de católicos ditos “não praticantes”, que não vão à igreja “porque está cheia de hipócritas”. Mas o que realmente se esconde por trás dessa desculpa?

Pe. Gonçalo Portocarrero,  Senza Pagare1 de Outubro de 2018
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Foi há já algum tempo que uma pessoa, algo impertinente, disparou contra mim, à queima-roupa, a razão da sua não prática religiosa:

— Eu não vou à Missa porque está cheia de hipócritas!

Apesar de não ser um argumento propriamente original — na realidade, nem sequer é um argumento — o tópico deu-me que pensar, sobretudo porque é esgrimido, com frequência, pelos fervorosos “católicos não praticantes” que, como é sabido, abundam. São, em geral, fiéis descomprometidos, ou seja, pessoas batizadas que dispensam a prática religiosa coletiva, com a desculpa de que nem todos os praticantes são cristãos exemplares.

Alguns praticantes são, no sumário entendimento dos que não o são, pessoas duplas, porque aparentam uma fé que, na realidade, não vivem, enquanto outros há, como os ditos não praticantes, que mesmo não cumprindo esses preceitos cultuais, são mais coerentes com a doutrina cristã. A objeção faz algum sentido, na medida em que a vida cristã não se reduz, com efeito, a uns quantos exercícios piedosos.

Mas o cristianismo é doutrina e vida: é fé em ação, esperança viva e caridade operativa. Portanto, a prática comunitária é essencial à vida cristã e a praxe litúrgica, embora não seja suficiente, é-lhe necessária. Assim sendo, mesmo que os praticantes não vivam cabalmente todas as virtudes cristãs, pelo menos não descuram a comunhão eclesial, nem a prática sacramental e a vida de oração. Deste modo, cumprem uma das mais importantes exigências do seu compromisso batismal, ao contrário dos não praticantes, não obstante a sua autoproclamada superioridade moral.

Os fiéis que não frequentam a igreja, à conta dos fariseus que por lá há, deveriam também abster-se de frequentar qualquer local público, porque provavelmente está mais pejado de hipócritas do que o espaço eclesial. Estes novos puritanos deveriam também abster-se de ir aos hospitais que, por regra, estão cheios de doentes, e às escolas, onde pululam os ignorantes. É de supor que o único local digno da sua excelsa presença seja tão só o Céu, onde não consta qualquer duplicidade, pecado, fraqueza, doença, ignorância ou erro. Mas também não, ao que parece, nenhum católico não praticante…

Segundo a antropologia cristã, todos os homens, sem exceção, são bons, mas nem todos praticam essa bondade. Um mentiroso não é uma pessoa que não acredita na verdade, mas que não é sincero, ou seja, não pratica a veracidade. Os ladrões são, em princípio, defensores da propriedade privada, mas não a respeitam em relação aos bens alheios. Um corrupto não o é porque descrê da honestidade, mas porque não a pratica. Aliás, as prisões estão repletas de boa gente, cidadãos que crêem nos mais altos e nobres valores éticos, mas que não os praticam.

Mas, não são farisaicos os cristãos que são assíduos nas rezas e nas celebrações litúrgicas, mas depois não dão, na sua vida pessoal, familiar e social, um bom testemunho da sua fé? Talvez. Só Deus sabe! Mas, mesmo que o sejam, convenhamos que são uns ótimos hipócritas. Os hipócritas são bons quando sabem que o são e procuram emendar-se, e são maus quando pensam que não o são, justificam-se a si próprios, julgam e condenam os outros. Os crentes que participam assiduamente na eucaristia dominical, sempre que o fazem recebem inúmeras graças e reconhecem, publicamente, a sua condição de pecadores, de que se penitenciam, com propósito de emenda. Mesmo que não logrem de imediato a total conversão, esse seu bom desejo e a participação sincera na celebração eucarística é já um grande passo no caminho da perfeição.

Foi por isso que, com alguma ironia e um sorriso de verdadeira amizade, não pude deixar de responder àquele simpático “católico não praticante”:

Não se preocupe por a Missa estar cheia de hipócritas: há sempre lugar para mais um!

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Por que os dias da semana são diferentes em português?
Liturgia

Por que os dias da semana
são diferentes em português?

Por que os dias da semana são diferentes em português?

Ao redor do mundo, os dias da semana são normalmente emprestados da mitologia pagã. Nos países de língua portuguesa, porém, nós temos as “feiras”. Tudo graças à liturgia católica e a um santo da Idade Média.

Rui Ferreira,  Braga Maior1 de Outubro de 2018
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Em tempos de desânimo e crise, é salutar recorrer a exemplos que alimentem a autoestima e nos ensinem a apreciar os frutos da nossa originalidade e criatividade. Assim é com uma das designações que mais usamos no quotidiano — os dias da semana — e que tornam Portugal a mais original nação da Europa.

Certamente que nunca nos perguntamos por que é que chamamos quinta-feira à quinta-feira. Depois será a sexta-feira e o seguinte sábado. Sabemos que noutros países, onde as raízes culturais são semelhantes à nossa, os nomes atribuídos aos dias da semana nada têm de similar — exceto o sábado e o domingo — à denominação que o nosso país utiliza. Já se perguntaram por quê?

Aqui ao lado, na vizinha Espanha, a segunda-feira denomina-se lunes, dia da lua; a terça-feira é martes, dia de Marte; a quarta-feira miercoles, dia de Mercúrio; a quinta-feira chama-se jueves, em alusão a Júpiter; e a sexta-feira viernes, Vênus, um dos deuses pagãos da civilização romana. Da mesma forma o francês, inglês ou alemão utilizam os nomes da raiz pagã. Em algumas nações, fortemente marcadas pelo cristianismo, escaparam os dias de descanso que tomam os nomes ligados ao preceito religioso: o sábado, que recorda o “Sabat” judaico (Deus descansou ao sétimo dia) e o domingo, do latim dominus, que quer dizer dia do Senhor, em alusão à ressurreição de Jesus Cristo. Apesar disso, nos países anglossaxônicos, o domingo denomina-se sunday, que quer dizer dia do sol.

O grande responsável pelo fato de Portugal se demarcar do paganismo semanal foi São Martinho de Dume. Martinho era natural da Panônia, província romana situada no território da atual Hungria, tendo nascido presumivelmente no ano de 520. Este santo foi bispo da cidade portuguesa de Braga, de 562 a 579, numa época conturbada em termos religiosos, na qual exerceu um papel fundamental em termos diplomáticos e religiosos.

S. Martinho de Dume, na Galeria dos Arcebispos de Braga.

Em tempos de heresias, Martinho conseguiu converter ao cristianismo o rei suevo, cuja corte se situava em Braga, e, desta forma, conseguiu converter todo o reino. Era um homem de uma eloquência e sabedoria elevada e por isso proferia discursos e pregações excepcionais. Legou-nos alguns livros de enorme valia no campo moral e ético, documentos que utilizou para purificar a fé do seu supersticioso rebanho. Os mitos, medos e superstições no imaginário do povo conduziam a uma fé pouco depurada de influências pagãs e incoerente com a fé em Jesus Cristo. Dentro desta “limpeza” se inclui a dos dias da semana.

Assim, o dia da lua passou a ser a feria secunda, o dia de Marte a feria tertia e o dia de Mercúrio a feria quartaadotando-se a designação da liturgia eclesiástica (a liturgia ferial é a designação usada para os dias úteis). O primeiro dia da semana é o domingo, no qual se recorda a ressurreição de Cristo. Por isso, a segunda-feira é o segundo dia semanal, ficando bem vincada a marca cristã nas denominações quotidianas.

Dentre as obras de São Martinho de Dume, saliente-se o De correctione rusticorum, que significa “Correção dos rústicos”. Os rústicos eram aqueles povos rurais que permaneciam apegados às velhas superstições do paganismo. Esta obra é uma epístola moralizante que tenta fornecer critérios de ação à luz da fé que professam pelo batismo. S. Martinho apela à coerência de vida destes povos. Os ídolos, os demônios, o culto das forças da natureza, o hábito de dar aos dias da semana o nome de deuses da mitologia greco-latina, as práticas divinatórias, as superstições como o celebrar o dia do rato e das traças, são criticados por não serem consentâneos com o estatuto de um verdadeiro cristão. Por isso mesmo, urgia a modificação do nome dos dias da semana.

Nos primeiros séculos, foi tarefa primordial do cristianismo a purificação das inúmeras superstições e costumes pagãos que continuavam a vigorar nos povos já convertidos à fé em Cristo. A tentativa de conjugar estes ritos com a nova fé era muito frequente. Martinho, na sua missão de bispo metropolita, cujo domínio superava largamente o da sua diocese, enfrentou como principal desafio depurar esta fé vivida debaixo de influências pagãs. O cristianismo tentava, então, apagar os vestígios de rituais e superstições herdadas da ocupação romana.

Dado que a influência de Braga se estendia, à época, até a Galícia, hoje em dia também os galegos nos acompanham na denominação dos dias da semana. São Martinho de Dume é o padroeiro principal da arquidiocese bracarense e sua memória é celebrada pela Igreja do mundo inteiro no dia 20 de março.

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