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Contracepção: uma lucrativa estrada para o aborto
Sociedade

Contracepção: uma lucrativa estrada para o aborto

Contracepção: uma lucrativa estrada para o aborto

A indústria de contraceptivos é um dos negócios mais rentáveis do mundo. Isso explica a campanha que existe contra a castidade.

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Dezembro de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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SIECUS. É a sigla em inglês para Conselho de Informação e Educação Sexual dos Estados Unidos, fundado em 1964 pela dra. Mary S. Calderone. A organização é uma das responsáveis pela implantação da chamada "educação sexual" nos currículos escolares. Dra. Calderone, que por vários anos havia exercido o cargo de diretora médica da Federação Internacional de Paternidade Planejada (IPPF), decidiu criar a instituição a partir de sua experiência com os programas de controle da natalidade. Na visão da médica, era preciso dar um passo além da mera prevenção da gravidez.

A "educação sexual" consiste basicamente na formação de adolescentes por meio de palestras sobre masturbação, relações sexuais, homossexualismo etc., como também na distribuição gratuita de preservativos e outros métodos contraceptivos artificiais. A apologia é clara. Na cartilha "Carderno das coisas importantes", idealizada pela Unicef, lê-se, entre outros absurdos, a seguinte nota para masturbação: "É normal e permite um maior conhecimento do corpo". 

A página oficial da SIECUS, por sua vez, empreende uma raivosa campanha contra o financiamento de programas voltados para a abstinência até o casamento. Ela protesta: "Defendemos o fim do financiamento federal desses projetos, e ajudamos educadores e pais a manter esses programas nocivos fora de suas escolas".

Não importa se Edward Green, diretor do projeto de pesquisa e prevenção da AIDS da Escola de Saúde Pública de Harvard, deu razão ao Papa Bento XVI no combate contra as doenças sexualmente transmissíveis [1]. Não importa se Uganda conseguiu diminuir consideravelmente o número de soropositivos no país graças ao incentivo à abstinência e à fidelidade conjugal [2]. Eles querem sexo.

Duas coisas explicam essa atitude. A indústria dos contraceptivos é altamente lucrativa. O laboratório farmacêutico Schering-Ploug, uma das maiores indústrias de contraceptivos do mundo, teve, em 2008, uma receita líquida de 291 milhões de dólares. O Método de Ovulação Billings não tem custo.

Ademais, a disseminação dos anticoncepcionais, sob a falsa ideia de "sexo seguro", faz com que o número de pessoas sexualmente ativas aumente, sobretudo entre os jovens. Dados do IBGE revelam que a porcentagem de adolescentes grávidas subiu ano após ano, na década de 1990, tendo uma leve queda recentemente [3]. Foi precisamente na década de 1990 que se iniciaram os programas de "educação sexual". Todo mundo sabe que a camisinha não é cem por cento segura. Todo mundo sabe que sexo tem a ver com gravidez. Todo mundo sabe que, para os paladinos da anticoncepção, gravidez tem a ver com aborto. Dra. Mary S. Calderone foi a diretora médica da IPPF, a multinacional do aborto, antes de fundar a SIECUS. O círculo é vicioso e bastante rentável.

Em 2009, durante o voo que o levaria para Camarões, o Papa Bento XVI teve de responder à espinhosa pergunta sobre o combate à aids na África [4]. Eis a resposta:

Penso que a realidade mais eficiente, mais presente em primeira linha na luta contra a SIDA é precisamente a Igreja Católica, com os seus movimentos, com as suas diversas realidades. Penso na Comunidade de Santo Egídio que faz tanto, de modo visível e invisível também, na luta contra a SIDA, nos Camilianos, em muitas outras realidades, em todas as irmãs que estão à disposição dos doentes...

Diria que não se pode superar este problema da SIDA só com dinheiro, mesmo se necessário; mas, se não há a alma, se os africanos não ajudam (assumindo a responsabilidade pessoal), não se pode superá-lo com a distribuição de preservativos: ao contrário, aumentam o problema. A solução pode vir apenas da conjugação de dois factores: o primeiro, uma humanização da sexualidade, isto é, uma renovação espiritual e humana que inclua um novo modo de comportar-se um com o outro; o segundo, uma verdadeira amizade também e sobretudo pelas pessoas que sofrem, a disponibilidade à custa até de sacrifícios, de renúncias pessoais, para estar ao lado dos doentes. E estes são os fatores que ajudam e proporcionam progressos visíveis. Diria, pois, que esta nossa dupla força de renovar o homem interiormente, de dar força espiritual e humana para um comportamento justo em relação ao próprio corpo e ao do outro, e esta capacidade de sofrer com os doentes, de permanecer presente nas situações de prova. Parece-me que esta é a resposta justa, e a Igreja faz isto e deste modo presta uma grandíssima e importante contribuição. Agradecemos a todos aqueles que o fazem.

Foi o fim do mundo! A tão alardeada defesa do diálogo e do pluralismo de ideias sumiu do mapa. A Organização das Nações Unidas reclamou: "O preservativo é essencial na prevenção" [5]. A este posicionamento somaram-se os governos da França, Espanha e Bélgica. A senhora Europa que, devido à aderência a essa política de controle da natalidade, padece a pior implosão demográfica do planeta. Mas o lucro vale mais que a verdade. Agora, colhem-se os frutos.

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Não é vergonhoso ser católico na universidade
Fé e Razão

Não é vergonhoso ser católico na universidade

Não é vergonhoso ser católico na universidade

Não há por que se envergonhar de Cristo. Estar ao lado de Deus é estar ao lado da verdadeira razão.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Dezembro de 2014Tempo de leitura: 5 minutos
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A vida acadêmica impõe sérios desafios aos jovens, mormente àqueles que desejam viver de acordo com os preceitos de sua fé. A estrutura universitária atual é montada para inibir a religião. Isso se mostra ainda mais flagrante quando se está a pensar no cristianismo. De fato, o posicionamento cristão — em especial o católico — dentro de uma universidade é quase como que um suicídio social. Os alunos religiosos são frequentemente intimidados — seja pelos colegas de classe, seja pelos professores — a esconderem suas opiniões, a fim de que possam sobreviver aos anos de estudo.

É suficiente pensar em dois casos particulares que aconteceram no Brasil há algumas semanas para se ter um panorama da situação: a arbitrária retirada de uma imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho da Faculdade de Direito do Recife e o aprisionamento das cartilhas "Chaves para bioética", a mando do Ministério Público, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Embora a academia seja um campo onde deve existir o livre debate e o pluralismo de ideias, a militância dita "progressista" impõe a todo o corpo universitário uma agenda ideológica e sem nenhum compromisso com a verdade. Assim, enquanto as imorais cartilhas de "educação sexual" da Unicef circulam livremente em escolas, colégios e faculdades, o Ministério Público acata o pedido de alguns professores contrários à castidade, recolhendo o material da Fundação Jérôme Lejeune, distribuído na UERJ. Reina, de fato, o que Bento XVI chamou de "ditadura do relativismo". Não existe diálogo, não existe ciência séria. Ao contrário, no mais da vezes, os cursos são verdadeiros laboratórios de doutrinação.

No discurso que proferiria à Universidade de Roma La Sapienza, em 2008, Bento XVI faz a seguinte consideração: "Diante duma razão não histórica que procura autoconstruir-se somente numa racionalidade não histórica, a sabedoria da humanidade como tal - a sabedoria das grandes tradições religiosas - deve ser valorizada como realidade que não se pode impunemente lançar para o cesto da história das ideias". Ora, não foi exatamente isso que fizeram o Ministério Público, recolhendo as cartilhas, a Faculdade de Direito do Recife, expurgando uma imagem histórica do prédio da instituição, e meia dúzia de professores e alunos intolerantes, ao impedir a participação do Santo Padre na abertura do ano letivo da Universidade de Roma? Jogaram na lata de lixo da história dois mil anos de sabedoria e progresso, cujo legado abarca inclusive a La Sapienza, fundada ainda no século XIII, pelo Papa Bonifácio VIII.

Os chamados padres da Igreja identificaram na filosofia em vigor à época — não nas religiões pagãs e míticas — as sementes do Evangelho, as quais o cristianismo teria a missão de desenvolver posteriormente. Ao início do pensamento cristão, a fé católica aparece como a continuação e o acabamento do pensamento filosófico, não como extensão da religiosidade popular. A famosa conversão de São Justino deve-se justamente a essa importância da razão dentro do cristianismo. No seu Diálogo com Trifão, ele narra como sua peregrinação em busca da verdade levou-o a Deus e à "verdadeira filosofia" [1]. Foi também o itinerário percorrido por muitos outros santos, mas sobretudo por Santo Agostinho. No cristianismo, o santo bispo de Hipona pôde perscrutar as raízes da verdade: "Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro de mim e eu estava fora, e aí te procurava… Estavas comigo e eu não estava contigo" [2].

Essa sede de verdade impulsionada pela Igreja e seus pensadores ao longo dos séculos teve papel imprescindível para o surgimento das universidades. O historiador Thomas E. Woods, em seu famoso livro "Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental", desmitifica a ideia de que a Idade Média foi um período de ignorância e superstição. À Igreja, diferentemente do que se costuma ensinar nos cursos de história, coube o papel de salvaguardar e desenvolver o conhecimento da humanidade. Woods comenta [3]:

A Universidade foi um fenômeno completamente novo na história da Europa. Nada de parecido existiria na Grécia ou na Roma antigas. A instituição que conhecemos atualmente, com as suas Faculdades, cursos, exames e títulos, assim como a distinção entre estudos secundários e superiores, chegaram-nos diretamente do mundo medieval. A Igreja desenvolveu o sistema universitário porque, com as palavras do historiador Lowrie Daly, era "a única instituição na Europa que manifestava um interesse consistente pela preservação e cultivo do saber".

Com efeito, o rótulo de persona non grata imposto ao jovem católico dentro da academia — principalmente quando se manifesta contrário às opiniões dominantes no círculo universitário —, resume-se tão somente a um preconceito tacanho da parte daqueles que desejam colocar a religião entre parêntesis. A contribuição da Igreja Católica à ciência, em que pese as acusações contra a Inquisição e erros pontuais na avaliação de novas descobertas, supera a de qualquer outra instituição. Dão testemunho disso os 48 prêmios Nobel da Pontifícia Academia das Ciências. Entre os nomes notáveis que figuram nessa lista estão o brasileiro Miguel Nicolelis e o inglês Stephen Hawking. Sim, dois ateus. A Igreja, ao contrário dos dogmáticos militantes anticlericais, é capaz de reconhecer os progressos da humanidade, ainda que seus idealizadores não sejam crentes.

Bento XVI, ao encontrar-se com os jovens em Madrid, durante a 26ª Jornada Mundial da Juventude, não deixou de animá-los a perseguir o caminho de Cristo, mesmo diante dos desafios:

Há muitos que, por causa da sua fé em Cristo, são vítimas de discriminação, que gera o desprezo e a perseguição, aberta ou dissimulada, que sofrem em determinadas regiões e países. Molestam-lhes querendo afastá-los d'Ele, privando-os dos sinais da sua presença na vida pública e silenciando mesmo o seu santo Nome. Mas, eu volto a dizer aos jovens, com todas as forças do meu coração: Que nada e ninguém vos tire a paz; não vos envergonheis do Senhor. Ele fez questão de fazer-se igual a nós e experimentar as nossas angústias para levá-las a Deus, e assim nos salvou.

Dentro da universidade, o católico é chamado a dar testemunho da verdade, infundindo, por meio do apostolado pessoal e fecundo, as Palavras do Evangelho entre os demais. É chamado, sobretudo, a contribuir para o progresso e exercício da autêntica ciência: "a busca metódica, em todos os domínios do saber, se for conduzida de modo verdadeiramente científico e segundo as normas da moral, jamais estará em oposição à fé" [4]. Não há por que se envergonhar de Cristo. Estar ao lado de Deus é estar ao lado da verdadeira razão.

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O caminho para aproveitar as próprias faltas
Espiritualidade

O caminho para aproveitar
as próprias faltas

O caminho para aproveitar as próprias faltas

Para subir a escada da perfeição, é importante distinguir a boa e a má tristeza pelos pecados cometidos

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Dezembro de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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Há um chamado universal para o homem: o da santidade. Nenhuma pessoa humana está excluída dessa vocação cristã, seja judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos somos "um em Cristo" (cf. Gl 3, 28). O Verbo Divino encarnou-se para manifestar a perfeita humanidade, a qual todos podemos e devemos almejar: "Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra" (Cl 3, 2).

Ao longo da história da Igreja, muitos cristãos foram capazes de renunciar às riquezas temporais, a fim de ganhar uma morada no céu. Porque a santidade não é uma teoria abstrata, mas um dom de Deus àqueles que acolhem a sua graça e se esforçam para identificar-se totalmente com a pessoa de Cristo, também hoje é possível falar em perfeição cristã. A santidade é possível porque se trata da expressa vontade de Deus para o homem. Por isso, repetiu insistentemente o Concílio Vaticano II: "Todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: 'esta é a vontade de Deus, a vossa santificação' (1 Ts 4,3; cf. Ef 1,4)".

A santidade, todavia, não é uma graça barata. Exige esforço. Eis o conselho de São Paulo aos colossenses: "Mortificai, pois, os vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria" ( Cl 3, 5). Devido à chaga causada pelo pecado, o homem é constantemente levado a praticar o mal que não quer, pelo que deve recorrer a uma espécie de terapia das doenças espirituais [1]. Com efeito, é preciso, em primeiro lugar, que o homem se abra à graça de Deus, uma vez que não se sobe nenhum degrau da escada da perfeição sem a ajuda divina.

Por causa de uma má compreensão sobre este ponto, muitos têm se perdido no caminho da santidade, deixando-se levar por um neopelagianismo, isto é, a vontade de alcançar o céu pelos próprios esforços [2]. Trata-se de uma artimanha do demônio para minar nossa esperança. Ele nos faz acreditar que já alcançamos grande avanço espiritual e que, por isso, somos irrepreensíveis aos olhos de Deus. Por conseguinte, ao sermos pegos em falta, surpreendemo-nos, pois "pensávamos ser pessoas firmes, decididas e sólidas e, ao ver que não somos nada disso e que demos com o nariz em terra, sentimo-nos perturbados, magoados e descontentes com nossa fragilidade" [3].

Quando a alma se encontra em uma situação como essa, deve saber distinguir entre a boa e a má tristeza causada pela falta cometida. Conforme diz São Paulo à comunidade de Corinto, "a tristeza que é segundo Deus produz uma penitência estável para a salvação; a tristeza do mundo produz a morte" ( 2 Cor 7, 10). Na mesma linha, São Francisco de Sales alerta [4]:

A tristeza pode, pois, ser boa ou má, conforme os efeitos que produza em nós. Mas, em geral, produz mais efeitos maus que bons, porque os bons são apenas dois: a misericórdia — o pesar pelo mal dos outros — e a penitência — a dor de ter ofendido a Deus —, ao passo que os maus são seis: medo, preguiça, indignação, ciúme, inveja e impaciência.

Na jornada pela santidade, portanto, o peregrino deve sempre ter em mente a sua profunda dependência de Deus. É exatamente o que exorta São Josemaría Escrivá: "Deixa que o teu coração transborde em efusões de Amor e de agradecimento ao considerar como a graça de Deus te liberta todos os dias dos laços que te arma o inimigo" [5]. De fato, a consciência de que não somos nada sem o auxílio de Deus e que, longe d'Ele, estaríamos invejando a comida dos porcos, tal qual o filho pródigo, liberta-nos de toda presunção demoníaca e faz-nos enxergar nossos pecados com serenidade e paz de espírito. Essa é a arte de aproveitar as próprias faltas para a edificação de nossa humildade.

O amor próprio, comenta o escritor cristão Joseph Tissot, é o principal impedimento para o progresso na vida cristã. O autor diz [6]:

Essa excessiva ansiedade da pessoa não tanto por curar-se como por saber que está curada, para ficar satisfeita consigo mesma; esses secretos despeitos que a impedem de fazer as pazes com sua consciência, porque é mais cômodo abandoná-la como incorrígivel; essas melancolias em que mergulha; essa incessante e obsessiva contemplação das faltas cometidas e de si própria; essa necessidade de lamentar-se mais diante dos homens do que diante de Deus, com o imperceptível desejo de despertar compaixão… 'todas essas penas se devem a um mesmo pai espiritual que se chama amor-próprio'.

Ora, o caminho da perfeição cristã é como aquele descrito por um monge a um jovem curioso, que desejava saber o que os religiosos faziam dentro do mosteiro: Aqui dentro se cai e se levanta, cai e se levanta, cai e se levanta, até o dia em que seremos definitivamente levantados por Nosso Senhor. Esperamos em Cristo o dia em que Ele nos limpará de toda impureza: "Dar-vos-ei um coração novo e em vos porei um espírito novo; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne" ( Ez 36, 26). Essa é a virtude da esperança cristã; a esperança da santidade eterna.

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Ou Jesus é Deus ou não é nada
Teologia

Ou Jesus é Deus ou não é nada

Ou Jesus é Deus ou não é nada

Jesus não foi um homem que "pretendeu" ser Deus, mas o Verbo que se fez carne e veio morar entre nós

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Dezembro de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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Os cristãos confessam, desde sempre, que Jesus Cristo é Deus. São João escreve que a Palavra, que "estava junto de Deus" e "era Deus" ( Jo 1, 1), "se fez carne e veio morar entre nós" (Jo 1, 14). São numerosos os discursos de Cristo em que Ele deixa claro ser muito mais que um simples homem – todo o Evangelho de São João está permeado de declarações desse teor –, sendo este o motivo alegado pelos judeus para condená-Lo à morte: "Não queremos te apedrejar por causa de uma obra boa, mas por causa da blasfêmia. Tu, sendo apenas um homem, pretendes ser Deus" (Jo 10, 33).

Se, naquela época, até quem não seguia Nosso Senhor tinha clara consciência da grandeza do que Ele anunciava, hoje, muitos – atribuindo a si o apelido de "cristãos" – têm advogado, covardemente, uma "terceira opção": ao invés de rejeitar ou aceitar de vez a mensagem do Evangelho, recorrem a uma leitura distorcida das Escrituras, reduzindo a figura de Jesus à de "um grande profeta, um mestre de sabedoria, um modelo de justiça" [1], cujas máximas valeriam, no máximo, como "guias motivacionais". Para essas pessoas, a Bíblia não é o livro que traz a revelação de Deus, mas tão somente um "manual de autoajuda"; e a Igreja não é um edifício espiritual, mas uma construção puramente material, voltada apenas aos cuidados e necessidades deste mundo.

Antes de mais nada, importa denunciar o grave equívoco desse ponto de vista, que não pode ser aceito sem se cometer um grande e grave atentado à razão. Se Jesus não é "o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" ( Jo 1, 29), nem "o pão que desceu do céu" e que dá a vida eterna (Jo 6, 41), nem "a porta das ovelhas" (Jo 10, 7) – realidades que ninguém usaria senão para se referir à divindade –, então, ou é um mentiroso, que queria enganar os outros, ou um louco, que não sabia sequer quem ele mesmo era. Ora, que grandeza pode haver na mentira e na loucura? Ou Jesus é Deus, ou não é nada. Et tertium non datur [2].

É preciso reconhecer, porém, como é cômodo relegar Nosso Senhor à posição de "apenas um homem". Se é assim, as suas palavras realmente não vinculam, nem obrigam ninguém a nada; são apenas reflexões morais e sociais, como as de qualquer pensador antigo. Daria no mesmo, então, citar Confúcio, Dalai Lama, Buda, Chico Xavier ou Jesus Cristo. Afinal, se são todos homens, com igual tratamento deveriam ser acolhidas suas mensagens: como palavras humanas.

A prática da Igreja primitiva, no entanto, atesta: os discípulos sempre creram que pregavam uma doutrina autenticamente divina. Em carta a Tessalônica, por exemplo, o Apóstolo agradece a Deus "sem cessar, porque, ao receberdes a palavra de Deus que ouvistes de nós, vós a recebestes não como palavra humana, mas como o que ela de fato é: palavra de Deus, que age em vós que acreditais" (1 Ts 2, 13). Tanto ontem, como hoje, a fé católica não mudou. Diante das vozes enganadoras que pretendem reduzir a imagem de Cristo à de um chefe religioso qualquer, urge dizer "não": a boa-nova do Evangelho não é "palavra humana", mas, verdadeiramente, "palavra de Deus".

Foi o que disse o Cardeal Joseph Ratzinger – depois, Papa Bento XVI –, na virada do novo milênio, quando publicou a declaração Dominus Iesus, "sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja". Em 2000 – ou, "em pleno século XXI", diriam os mais escandalizados –, a Igreja recordava que "os homens (...) só poderão entrar em comunhão com Deus através de Cristo" [3]. À época, os meios de comunicação "rasgaram as vestes", acusando São João Paulo II e o Vaticano de arrogância e intolerância religiosa. É que, com a Dominus Iesus, a Igreja denunciava taxativamente as opiniões mundanas a respeito de Jesus, das quais a mídia moderna se faz porta-voz tão ardorosa:

"Na reflexão teológica contemporânea é frequente fazer-se uma aproximação de Jesus de Nazaré, considerando-o uma figura histórica especial, finita e reveladora do divino de modo não exclusivo, mas complementar a outras presenças reveladoras e salvíficas. O Infinito, o Absoluto, o Mistério último de Deus manifestar-se-ia assim à humanidade de muitas formas e em muitas figuras históricas: Jesus de Nazaré seria uma delas." [4]

Nesse sentido, a fé católica é profundamente intolerante, sobretudo, porque é fiel à palavra de Cristo, que não temeu apontar a si mesmo como "o caminho, a verdade e a vida", fora do qual ninguém pode ir ao Pai ( Jo 14, 6). Essa expressão - dita pelo mesmo Jesus que perdoou os pecadores arrependidos, curou os doentes e saciou os pobres - mostra como a misericórdia divina está profundamente unida à verdade da Sua mensagem, que repele todo erro, toda mentira… e toda falsa religião.

Ao argumento dos judeus de que Jesus, sendo apenas um homem, se fazia Deus, a Igreja responde, em consonância com dois mil anos de Tradição e Magistério: Jesus não foi um homem que pretendeu ser Deus. Ao contrário, Ele foi Deus, que, não se apegando ciosamente à natureza divina, "despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano" (Fl 2, 7). Eis o que creem os cristãos.

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