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Bento XVI escreve a um ateu
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Bento XVI escreve a um ateu

Bento XVI escreve a um ateu

Oito meses após sua renúncia, Bento XVI rompe o silêncio e lembra ao mundo que na base de todo o diálogo está a sinceridade, de ambos os lados.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Outubro de 2013
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Bento XVI voltou a surpreender o mundo recentemente, após um longo período de recolhimento, desde que apresentou sua renúncia, em fevereiro passado. Em uma carta de 11 páginas, o Papa Emérito respondeu às críticas do ateu italiano Piergiorgio Odifreddi, feitas no livro "Caro Papa, escrevo-te", a propósito da pesquisa teológica e dos escândalos envolvendo a Igreja.

No texto, o Papa Emérito demonstra uma incrível capacidade de diálogo, passeando, sem medo, por temas bastante espinhosos. Sem menosprezar o esforço de Odifreddi, Bento XVI elogia a busca por um diálogo aberto com a fé da Igreja Católica, ao mesmo tempo em que também o adverte de um juízo equivocado quanto à pessoa de Cristo, convidando-o "a tornar-se um pouco mais competente do ponto de vista histórico". "O que o senhor diz sobre a figura de Jesus não é digno do seu nível científico", reclama o teólogo.

A carta é de uma sabedoria espantosa. Para além dos julgamentos cínicos que ora circundam as redações de tantos jornais e cátedras universitárias, o Papa afasta com maestria a figura de "cardealpanzer" que durante anos tentaram imputar-lhe. Algo que talvez explique o silêncio sintomático das manchetes jornalísticas - que, obviamente, deram destaque apenas às palavras de Bento XVI sobre a pedofilia -, frente ao conteúdo denso da missiva do Santo Padre. Com uma mídia acostumada a fazer sonetos à lua, esperar que se faça um retrato honesto do que fala a Santa Igreja é flertar com o ridículo.

Refutando a tese de Odifreddi, com a qual o professor julga ser a teologia mera "ficção científica", Bento XVI recorda que a função dessa nobre ciência é, justamente, "manter a religião ligada à razão, e a razão, à religião". Com efeito, a carta do Papa Emérito lembra o conceito de Santo Agostinho sobre a "teologia física". Desde os seus primórdios, os pensadores cristãos procuraram afastar a fé em Jesus Cristo da origem comum de outras religiões, diga-se, os mitos e a política, dando ao conhecimento a primazia de seus estudos. Por isso, é falsa a acusação de que no cristianismo não se encontra nada de relevante ao pensamento filosófico, uma vez que foi precisamente nesta fé que "o racionalismo se tornou religião e não mais seu adversário" [1].

Do mesmo modo que uma fé radicada nos mitos pode ser perigosa, também a razão sem a fé pode causar grandes estragos. Não por acaso o século das luzes culminou nos estilhaços da II Guerra Mundial, já que "o que gera a insanidade é exatamente a razão", dizia G.K. Chesterton [2]. Por conseguinte, responde o Papa, "no meu diálogo com Habermas, mostrei que existem patologias da religião e – não menos perigosas – patologias da razão. Ambas precisam uma da outra, e mantê-las continuamente conectadas é uma importante tarefa da teologia".

A propósito dos crimes de pedofilia, Bento XVI responde que "se não é lícito calar sobre o mal na Igreja, também não se deve silenciar, porém, sobre o grande rastro luminoso de bondade e de pureza, que a fé cristã traçou ao longo dos séculos". Seria uma grande tolice medir a Igreja pela régua dos traidores. Assim como a história da arquitetura remete às grandes obras, a do povo de Deus remete aos grandes santos, e não o contrário.

Finalizando a carta, o Santo Padre diz ao seu interlocutor: "A minha crítica, em parte, é dura. Mas a franqueza faz parte do diálogo; só assim o conhecimento pode crescer". Grande Bento XVI. Com sua sabedoria simples - e ao mesmo tempo profunda - o Papa Emérito sai de seu retiro e recorda que na base de todo diálogo está a sinceridade.

Referências

  1. RATZINGER, Joseph; D'ARCAIS, Paolo. Deus Existe. Planeta.
  2. CHESTERTON, Gilbert K. Ortodoxia. Mundo Cristão.

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A fé mariana dos Papas
Igreja Católica

A fé mariana dos Papas

A fé mariana dos Papas

A insistência da Igreja e dos Papas em indicar aos seus filhos o colo da Mãe brota da firme convicção de que, como ensina São Luís de Montfort, é por Nossa Senhora que Cristo deve reinar no mundo.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2013
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Embora o culto à bem-aventurada Virgem Maria esteja presente na Igreja desde os seus primórdios – afinal, como não honrar singularmente aquela mulher que o próprio Senhor escolheu para ser a Mãe de Seu único Filho? –, nos últimos anos, especialmente com as aparições extraordinárias de Nossa Senhora aos jovens Maximin Giraud e Mélanie Calvat, a Santa Bernadete Subirous, a Santa Catarina de Labouré, aos pastorinhos de Fátima e a tantas outras personagens verdadeiramente agraciadas por Deus, cresceu com mais força o amor do povo cristão a Maria Santíssima.

Os Papas dos últimos tempos são particularmente responsáveis por colocar no coração dos fiéis um respeito e devoção cada vez maiores à Virgem. Foi por iniciativa do bem-aventurado Pio IX, em 1854, que se passou a venerar publicamente Nossa Senhora sob o título da "Imaculada Conceição" e foi pela boca do venerável Papa Pio XII que se proclamou, em 1950, o dogma da Assunção de Maria aos céus. E isto só para citar os momentos marianos mais solenes dos últimos pontificados.

De fato, em não poucas ocasiões foi do Pontífice Romano que se ouviu o convite para a récita do Santo Rosário. Só da pena de Leão XIII saíram numerosas encíclicas, recordando ao povo cristão a importância da oração do Santo Terço para o combate contra o mal, a glorificação da Igreja e a santificação dos homens.

As cartas do Papa Pecci eram normalmente escritas dias antes do mês de outubro. Nelas, o Santo Padre lembrava que "o Rosário constitui a mais excelente forma de oração, e o meio mais eficaz para alcançar a vida eterna, visto como, além da excelência das suas orações, ele nos oferece uma sólida defesa da nossa fé e um sublime modelo de virtude, nos mistérios propostos à nossa contemplação" [1]. Aquela que parecia apenas mais uma prática piedosa era fervorosamente recomendada pelo próprio sucessor de São Pedro. Lia-se, nos documentos do vigário de Cristo na Terra, que, "entre as múltiplas formas de piedade para com Maria, a mais estimada e praticada é a, tão excelente, do santo Rosário" [2].

Pedindo aos cristãos que rezassem o Terço também pela volta dos dissidentes à única Igreja de Cristo, Leão XIII negava que o amor a Maria Santíssima pudesse ser ponto de divisão entre aqueles que creem em Jesus. Ele estava convencido de que a unidade da Igreja dependia particularmente da convergência de todos os olhares no olhar da Mãe. "Maria será, escrevia o Pontífice, o feliz laço que, com a sua força, unirá todos aqueles que amam a Cristo, onde quer que estejam, formando deles um só povo de irmãos, prontos a obedecer, como a um pai comum, ao Vigário de Cristo na terra, o Pontífice Romano."

É inútil calar o nome de Nossa Senhora em nome de um mal-entendido ecumenismo, quando é justamente por Sua intercessão que todos poderão, como orava Jesus, ser um só redil, debaixo da autoridade de um só pastor. Foi ela quem, com o seu "sim" à vontade do Altíssimo, gerou a Igreja, Corpo místico de Cristo, e é também por ela que os verdadeiros cristãos serão gerados, até o fim dos tempos.

Foi também ela quem preparou para conduzir a Igreja universal um Pastor segundo o Seu Imaculado Coração – o bem-aventurado João Paulo II. Consagrado totalmente a Ela pelo método de São Luís Maria Grignion de Montfort, Wöjtyla nunca escondeu sua grande devoção a Nossa Senhora, chegando a defendê-la inúmeras vezes, com carinho de filho, das acusações dos Seus inimigos, que menosprezam o Seu protagonismo na história da salvação. João Paulo II estava convencido de que "tudo (...) em Maria deriva de Cristo e para Ele está orientado" [3] e que "nunca se honra mais a Jesus Cristo do que quando se honra muito à Santíssima Virgem" [4].

Com o propósito de colocar todo o mundo debaixo de Seu manto virginal, o mesmo João Paulo II – seguindo os passos de seu predecessor, o Papa Pio XII – consagrou toda a humanidade ao Imaculado Coração de Maria, em 1984, durante o Ano Santo da Redenção. "A força desta consagração permanece por todos os tempos e abrange todos os homens, os povos e as nações", disse o Papa na ocasião [5].

Ainda assim, o Papa Francisco, demonstrando sua ligação filial a Nossa Senhora, decidiu renovar-lhe a consagração de toda a humanidade. Ela acontecerá durante este fim de semana, em Roma, por ocasião de uma Jornada Mariana. No domingo, dia 13 de outubro, o Sumo Pontífice depositará, aos pés da imagem da Virgem de Fátima, "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem" [6], a fim de serem purificadas pelo sangue de Cristo e pela mãos de Maria Santíssima.

A insistência da Igreja e dos Papas em indicar aos seus filhos o colo da Mãe brota da firme convicção de que, como ensina São Luís de Montfort, Deus "não mudará de procedimento em todos os séculos": "Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por Ela que deve reinar no mundo" [7].

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Carlo Acutis, o anjo da juventude
EspiritualidadeSociedade

Carlo Acutis, o anjo da juventude

Carlo Acutis, o anjo da juventude

Algumas pessoas saem da vida para entrar na história; outras, para entrar no céu. Conheça a comovente história deste menino que, no leito de morte, ofereceu sua vida pela Igreja e pelo Santo Padre.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Outubro de 2013
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Algumas pessoas saem da vida para entrar na história; outras, para entrar no céu. Em 12 de outubro de 2006, falecia o jovem Carlo Acutis, vítima de uma grave leucemia. No leito de morte, desejou ardentemente que seus sofrimentos fossem oferecidos a Deus pela Santa Igreja e pelo Papa. O testemunho do rapaz, de apenas 15 anos, comoveu toda a Itália, tornando-o modelo de santidade, sobretudo para a juventude. No momento, a Diocese de Milão, à qual Acutis pertencia, trabalha na sua causa de beatificação.

Carlo Acutis nasceu em Londres, na Inglaterra, em 3 de maio de 1991. Os primeiros dias de vida foram também os primeiros de sua jornada para Deus. Com uma fé católica profundamente arraigada, os pais, André e Antônia, não tardaram a lhe providenciar o batismo, preparando para a ocasião um pequeno bolo em formato de cordeiro, como forma de agradecimento ao Senhor pela entrada do filho na comunidade cristã. Um simbolismo profético. A exemplo do Cordeiro de Deus, o pequeno Acutis também se faria tudo para todos, a fim de completar na própria carne — como diz o Apóstolo ao explicar o valor salvífico do dor — o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja.

Crescendo em Milão, o pequeno Carlo demonstrou as virtudes cristãs desde a infância. Era uma criança alegre, de comportamento suave, que cativava a todos — principalmente as babás — com o seu entusiasmo contagiante. E se algum amiguinho aprontava-lhe uma maldade, sabia colocar a caridade acima do instinto: "O Senhor não seria feliz se eu reagisse violentamente". Aos 12 anos de idade, a Santa Missa já lhe era o bem mais precioso. Comungava diariamente, haurindo da Eucaristia a graça para uma vida santa.

Tamanha espiritualidade chamava a atenção dos mais próximos. Certa vez, preferiu participar de uma peregrinação a Assis, Itália, a visitar outros lugares para diversão. O comportamento do garoto levava os parentes a considerarem-no uma "vítima dos pais". Mas não era nada disso. Como confidenciaria a seu diretor espiritual, poucos dias antes de sua derradeira páscoa, Assis era o lugar onde mais se sentia feliz. Juntamente com Nossa Senhora de Fátima, São Francisco era-lhe o grande santo de devoção, principalmente por sua pequenez e humildade.

Vibrante, apaixonado pela vida, tinha no apostolado o fim último de toda a sua ação. Entendera cedo o "chamado universal à santidade". Daí a disponibilidade para todos, fazendo-se amigo de qualquer um, mesmo dos mais tímidos. "Ele acreditava no diálogo íntimo com o Senhor — conta um dos colegas — e rezava o Rosário todos os dias. Após a morte de Carlo voltei para a Igreja e acho que isso pode ser mérito de sua intercessão".

No Instituto Liceo Classico Leão XIII, onde iniciou o ensino médio, desenvolveu sua paixão por computadores. Carlo criou um site dedicado aos milagres eucarísticos e à vida dos santos. "Decidi ajudá-los — dizia o jovem na página da internet — compartilhando alguns dos meus segredos mais especiais para aqueles que desejam rapidamente alcançar a meta da santidade". Carlo Acutis insistia na Missa diária, na récita do Rosário, na lectio divina, na Confissão e no apego aos santos. "Peça ao seu Anjo da Guarda para ajudá-lo continuamente, de modo que ele se torne seu melhor amigo", recomendava.

Em 2006, com apenas 15 anos, Carlo Acutis descobriria uma grave doença: a leucemia. Confundida inicialmente com uma inofensiva "caxumba", o mal acabou se alastrando rapidamente, mesmo com os vários tratamentos, causando-lhe a morte em apenas um mês. Às 6h45min de 12 de outubro de 2006, o Senhor o levava para a vida eterna. Perto de falecer, confidenciou aos pais: "Ofereço todos os sofrimentos desta minha partida ao Senhor, ao Papa e à Igreja, para não fazer o Purgatório e ir direto para o Paraíso."

A postuladora para a causa dos Santos da Arquidiocese de Milão, Francesca Consolini, afirma que a fé de Carlo Acutis era "singular": "Levava-o a ser sempre sincero consigo mesmo e com os outros (...), era sensível aos problemas e às situações de seus amigos, os companheiros, as pessoas que viviam perto dele e quem o encontrava no dia a dia". O testemunho do rapaz pode ser encontrado na sua biografia, "Eucaristia, minha rodovia para o céu", escrita por Nicola Gori, articulista do L'Osservatore Romano.

O corpo de Carlo Acutis foi sepultado em Assis, cidade de São Francisco, por sua especial devoção ao santo.

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Não, Pio XII não se calou
Igreja Católica

Não, Pio XII não se calou

Não, Pio XII não se calou

Passados 55 anos da morte do venerável Papa Pio XII, é momento de voltar alguns anos e honrar a sua grandiosa memória

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Outubro de 2013
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Há uma lenda negra em curso: a de que o Papa Pio XII teria sido conivente com os crimes perpetrados pelos nazistas em meados do século XX.

Essa mentira nasceu de uma peça teatral, produzida por Rolf Hochhuth, no ano de 1963, de nome "O Vigário" (Der Stellvertreter, em alemão). Nela, Eugenio Pacelli é retratado como um homem pusilânime e covarde diante da deportação de judeus para campos de concentração. A obra de Hochhuth inspirou o filme Amen (Costa-Gavras, 2002). No decorrer da trama, um padre jesuíta tem pressa para falar com o Papa, para pedir a ele que se manifeste com mais veemência a favor dos judeus e contra o Holocausto. O clérigo é recebido com frieza pela personagem de Pacelli, que se limita a dizer que o coração do Pontífice sangra pelas vítimas do Holocausto... e nada mais.

O auge da difamação acontece em 1999, com a publicação de "O Papa de Hitler" (The Hitler's Pope). Mesmo que o seu autor, John Cornwell, tenha admitido que, ao escrever a dita biografia, "faltou equilíbrio" de sua parte[1], o mito permanece e não são poucos os acadêmicos que recorrem a todas estas obras mentirosas para acusar a Igreja de conluio com Hitler.

Os fatos, porém, são outros. Hoje, sabe-se que tanto barulho em torno da figura de Pacelli não passou de um plano arquitetado pela KGB para desacreditar a Igreja Católica[2]. Além disso, ainda que Pio XII tenha preferido a estratégia de ações concretas para poupar a vida de milhares de judeus, não é correto falar que o Pontífice tenha se "silenciado" diante da iniquidade que se passava na Alemanha.

A ação de Eugenio Pacelli contra o nazismo começa ainda no pontificado de Pio XI, quando ele era secretário do Estado do Vaticano. Em 1937, foi ele quem escreveu grande parte da famosa encíclica Mit Brennender Sorge ("Com ardente preocupação"), condenando os erros do nazismo. "Naquele tempo, Pio XI estava gravemente doente e lembro-me de [que] ele reteve o texto de Pacelli durante dois dias, corrigindo-o só levemente e assinando-o, depois. Portanto, esta encíclica que mostrava o verdadeiro rosto do nazismo, foi obra do cardeal Pacelli", conta o padre Roberto Leibier, colaborador de Pio XII[3].

A carta foi lida integralmente, durante a Missa, em mais de 11 mil igrejas da Alemanha. Suas palavras eram duras: "Só espírito superficiais podem cair no erro de falar de um Deus nacional, de uma religião nacional, e empreender a louca tentativa de encerrar Deus, criador do mundo, nos limites de um só povo e na estreiteza étnica de uma única raça". E ainda: "As leis humanas que estão em contraste insolúvel com o direito natural, estão feridas de vício original, não sanável nem com coações nem com desdobramento de força externa"[4].

Os nazistas tinham entendido a mensagem de Roma. Ainda que a carta de Pio XI em nenhum momento usasse as palavras "nazismo" ou "judeus", o órgão oficial da SS – a organização paramilitar ligada ao Partido Nazista – qualificara a encíclica como "um insulto à nova Alemanha". Também Hitler reagiu à ousadia da Igreja, no 1º de maio daquele mesmo ano: "Não podemos suportar que esta autoridade, que é a autoridade do povo alemão, seja atacada por quem quer que seja. Isto vale para todas as Igrejas. Enquanto elas se ocupam dos seus problemas religiosos, o Estado não se preocupa com elas. Mas, quando elas tentam, através de medidas de todo o gênero, com escritos, encíclicas, etc., atribuir a si mesmas direitos que competem exclusivamente ao Estado, nós reprimi-las-emos (...). Da moralidade do Estado e do povo alemão tratarão os dirigentes do Estado alemão".

A represália dos dirigentes do Partido Nazista foi grande. A imprensa católica foi suprimida e processos contra clérigos católicos ressuscitaram das cinzas. Quando o Papa Ratti faleceu e Pacelli foi eleito, ele sabia da responsabilidade que tinha diante de si, do perigo que corriam não só os judeus, mas os próprios católicos alemães. Se uma mensagem com expressões indiretas causara tamanho rebuliço, uma condenação mais direta poderia causar uma verdadeira tragédia.

Mesmo consciente disto, Pio XII não se calou. Mal assumira o trono de Pedro, Pio XII condenou "a premeditada agressão a um povo pequeno, trabalhador e pacífico, com o pretexto de uma ameaça que nem existe nem é querida e nem sequer é possível" e pediu o respeito "às verdadeiras necessidades e às justas exigências das nações e dos povos, como também das minorias étnicas", fazendo clara alusão ao povo judeu[5].

Quando o exército alemão invadiu os países baixos, novamente o Pastor Angelicus levantou a sua voz. Enviou telegramas aos soberanos da Holanda, da Bélgica e de Luxemburgo, deplorando as ações bélicas nazistas perpetradas "contra a sua vontade e o seu direito". De novo, as atitudes do Papa não agradaram nada às potências do Eixo. O texto das mensagens diplomáticas foi publicado por L'Osservatore Romano e "os ardinas do jornal vaticano foram maltratados tal como foram agredidos todos os que foram vistos com um exemplar do diário"[6].

Em dezembro de 1940, Pio XII oferece socorro aos refugiados da guerra e decide nominar diretamente os judeus. "Nem menor conforto é para nós ter tido condições de consolar, com a assistência moral e espiritual dos nossos representantes e com o óbolo dos nossos subsídios, um número enormíssimo de refugiados, de expatriados e de emigrantes, também entre os de estirpe semita..."[7].

As manifestações do Santo Padre não param aí. Nas grandes radiomensagens natalícias de 1941 e 1942, o Papa Pacelli não poupou tinta para condenar a totaler Krieg ("guerra total") de Hitler e "o conceito que reivindica para certas nações, raças ou classes o instinto jurídico, como último imperativo e norma sem apelação"[8]. Era uma denúncia direta do ódio pregado pelos orgulhosos advogados da "raça ariana", os nazistas.

Um fato particularmente curioso da vida de Pacelli ilustra sua inconformidade visceral com os projetos de Adolf Hitler. De acordo com a sua fiel serviçal, a irmã Paschalina Lehnert, Pio XII estava convencido, ainda nos tempos de nunciatura em Berlim, de que Hitler "estava completamente possesso"[9]. Tudo leva a crer que estas palavras devem ser lidas em seu sentido literal. Um de seus sobrinhos conta que "Pio XII teria até o hábito de rezar, durante a guerra, orações de exorcismo para tentar expulsar o diabo da alma de Hitler"[10].

Papa de Hitler? Pode-se até questionar a ação diplomática de Pio XII em tempos de guerra: se poderia ter sido mais prudente ou mais enfático, se poderia ter se pronunciado mais ou dito menos... Porém, falar de "silêncio" ou pior, de pacto com Hitler, é aderir à tática suja de quem usa qualquer pedaço de pau para bater na Igreja Católica. O Pastor Angelicus manifestou-se várias vezes em favor da vida dos inocentes e contra as arbitrariedades ideológicas dos partidários nazistas.

Isto não é apologia de católico papista; é apenas história.

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