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Cinco lições de Sara e Tobias para os casais de hoje
Espiritualidade

Cinco lições
de Sara e Tobias para os casais de hoje

Cinco lições de Sara e Tobias para os casais de hoje

Não é preciso ser lá muito observador para se dar conta de que o mundo ao nosso redor está saturado de sexo. Mas estará também saturado de amor?

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Setembro de 2018
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Não é preciso ser lá muito observador para se dar conta de que o mundo que nos rodeia está saturado de sexo. Mas estará também saturado de amor?

Em certo sentido, parece até que as duas coisas são inversamente proporcionais: quanto mais desimpedido, livre e hiperativo se vive o sexo, menos espaço se encontra para o amor pessoal, ou seja, para a amizade entre duas pessoas, queridas em si mesmas, e não pelo prazer que podem oferecer. A castidade (ou seja, a virtude de contrariar os desejos sexuais com o fim de construir relações humanas maduras) é valiosa justamente por proteger e potencializar a capacidade de amar as pessoas como elas merecem.

No matrimônio, o poder de amar os outros que a castidade torna possível engloba não só o próprio esposo, mas os filhos que Deus quiser confiar ao casal, ou seja, as futuras pessoas que estão como que “escondidas”, à espera, no amor do presente.

No Livro de Tobias, do Antigo Testamento, encontramos um ícone da nobreza do amor matrimonial entre Tobias e Sara. Tobias assim reza no dia de seu casamento:

Somos filhos dos santos (patriarcas), e não nos devemos casar como os pagãos que não conhecem a Deus […]. Ora, vós sabeis, ó Senhor, que não é para satisfazer a minha paixão que recebo a minha irmã como esposa, mas unicamente com o desejo de suscitar uma posteridade, pela qual o vosso nome seja eternamente bendito (Tb 8, 5.9).

São cinco as lições que podemos aprender neste denso par de versículos:

Primeiro, os que pertencem ao Povo de Deus (para Tobias e Sara, a nação de Israel; para os cristãos de hoje, o novo Israel, o Corpo de Cristo) são “filhos dos santos” e devem viver guiados pela lei de Deus, a qual, como nos recorda João Paulo II na Veritatis Splendor, é promulgada sempre para o nosso maior bem, e nunca para o nosso mal. Nós, portanto, não devemos comportar-nos como os pagãos, que desconhecem por completo a própria dignidade aos olhos de Deus e o profundo respeito que se devem uns aos outros.

Segundo, rezar ao Senhor é condição sine qua non para crescer na amizade, especialmente dentro do matrimônio. Notemos que Tobias não está “obcecado” por Sara, por mais que a ame; ele se volta para Deus, de quem sabe que há de receber as graças necessárias para amá-la sem egoísmo. É um paradoxo: se queremos amar de verdade uma pessoa, não podemos ficar obcecados ou aficionados por ela, sob o risco de sufocarmos e destruirmos o amor. O relacionamento deve abrir-se à presença de Deus, que traz consigo eternidade e infinitude.

Terceiro, Tobias chama à esposa “minha irmã”. Ao falar nestes termos, ele mostra a natureza íntima do seu amor, como se fosse entre irmãos em concórdia. Seu amor não é absorvente, possessivo, que suga seu objeto e depois o cospe fora quando já está seco; antes, é um amor terno, cavalheiresco, que olha mais para o que ambos têm em comum e quer descobrir como cada um deles pode dar o melhor de si.

A expressão “minha irmã” também nos traz à mente as palavras do Esposo à esposa no Cântico dos Cânticos: “Tu me fazes delirar, minha irmã, minha esposa, tu me fazes delirar com um só dos teus olhares, com um só colar do teu pescoço” (Ct 4, 9). Este versículo revela um amor que, sem deixar de ser erótico, está permeado da reserva e do respeito próprio de um amor familiar.

Quarto, Tobias jura ao Senhor que não é “para satisfazer a paixão” que ele recebe Sara como esposa, “mas unicamente com o desejo de suscitar uma posteridade”. Isso parece quase inacreditável: ele ama mesmo Sara ou a quer apenas como meio de deixar descendentes? No entanto, o contraste que se percebe em suas palavras expressa o que ele, de fato, tem em mente.

Para Tobias, há uma diferença marcante entre, de um lado, desejar a mulher por luxúria, o que a reduz a um simples meio, e, de outro, amá-la inteiramente tal como ela é, o que abarca também o misterioso dom da fertilidade, isto é, a sua capacidade de tornar-se mãe. Quando um homem ama sua esposa tendo em vista os filhos que podem gerar, ele a ama ainda mais, porque ama nela algo a mais: ama-a na plenitude daquilo que ela pode e deseja oferecer.

Noutras palavras, Tobias testemunha aqui a verdade, ensinada pelas encíclicas Casti Connubii e Humanae Vitae, de que a finalidade procriativa do matrimônio é o que define e justifica a união dos esposos, tornando-o diferente de qualquer outra forma de relação humana. Sem essa abertura aos filhos, a existência mesma dos sexos masculino e feminino (para não falar da mútua ordenação de um ao outro) careceria totalmente de sentido.

Por fim, Tobias afirma que tanto ele como sua esposa desejam uma posteridade “pela qual o vosso nome seja eternamente bendito”. Aqui, em tons belíssimos, vemos que o fim último do matrimônio não é apenas trazer filhos ao mundo, mas trazê-los ao mundo para o Senhor, a fim de que eles possam amá-lo e glorificar o seu nome.

Para nós, cristãos, esta finalidade apresenta uma dimensão ainda mais profunda, na medida em que os trazemos ao mundo de forma natural a fim de, através do Batismo, os fazermos nascer para a vida sobrenatural, pela qual se tornam filhos adotivos do Pai, participantes da natureza de seu Filho unigênito, Jesus Cristo.

Eis a insondável fecundidade física e espiritual a que os cristãos têm acesso!

Mas que resposta os “discípulos” modernos têm às palavras do Mestre: “Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais” (Mt 19, 14)? Respondem: “Não, preferimos não ter filhos”.

Não é assim que pensavam os judeus; não é assim que deve agir um cristão. Quem quer que vá se casar ou já está recém-casado deve fazer seu coração palpitar no ritmo desta maravilhosa oração de Tobias, que tanto nos ensina com tão poucas palavras. É uma oração que não se resume apenas ao desejo de “ter muitos e numerosos filhos”. É uma oração sobre o amor aos filhos, sobre a abertura ao dom que eles representam e, acima de tudo, sobre aceitar humildemente a vontade do Senhor, que os envia quando e como lhe aprouver.

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Um Filho que vive para o Pai
Espiritualidade

Um Filho que vive para o Pai

Um Filho que vive para o Pai

A vida inteira de Jesus, em sua oração, em seu apostolado, em seu sacrifício diário e vicário, não se orienta a outra coisa senão à honra e ao amor de seu Pai eterno.

Francisco de VizmanosTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Setembro de 2018
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Toda a vida de Jesus, desde as suas primeiras palavras de jovem no Templo (cf. Lc 2, 49) até as últimas na cruz (cf. Lc 23, 46), orienta-se como fim exclusivo à honra de seu Pai eterno, de tal modo que, à véspera de sua paixão, Ele pôde resumi-la nesta frase que lhe dirige: “Glorifiquei-te sobre a terra; acabei a obra que me deste a fazer” (Jo 17, 4).

Para este fim, pôs em prática com máxima intensidade tudo quanto se refere:

  1. à inteligência, na oração;
  2. ao afeto, no amor; e
  3. às obras, na plena consagração de si mesmo ao Pai.

1. A oração de Jesus ao Pai

É uma oração contínua, íntima e elevadíssima. Já se disse com muito acerto que a vida de Jesus foi vida de oração, vida em oração, vida fruto da oração, vida que era oração vivente [1].

Jesus ora ao amanhecer (cf. Mc 1, 35), ao longo do dia, ao entardecer (cf. Mt 14, 23), durante toda a noite (cf. Lc 6, 12; 21, 37; 22, 39; Jo 8, 1; 18, 2 etc.). Ora no Templo (cf. Lc 2, 49), no deserto (cf. Mc 1, 35; Lc 5, 16), na montanha (cf. Mt 14, 23; Lc 6, 12; 9, 28), no horto das Oliveiras (cf. Lc 22, 39), no caminho junto aos discípulos (cf. Lc 9, 18).

Ora por ocasião de qualquer uma de suas ações: no batismo, antes da eleição dos Apóstolos, da promessa do primado, da transfiguração, do anúncio da Eucaristia, de sua instituição, depois da Última Ceia, nas angústias do horto, no suplício da cruz e no momento de morrer [2].

Ora por todos: pelas crianças (cf. Mt 19, 13-15), pelos doentes (cf. Mt 7, 34), por Pedro (cf. Lc 22, 31s), pelos discípulos presentes e futuros (cf. Jo 17), pelos verdugos (cf. Lc 23, 34) etc. Encarnou em si mesmo o conselho que havia de dar aos demais: “Importa orar sempre e não cessar de o fazer” (Lc 18, 1).

Na oração de Jesus palpita um sentimento muito íntimo de reverência a seu Pai, que se transfunde em votos pela glória do Pai (cf. Jo 12, 27; 17, 1-26), em bênçãos a Deus (cf. Lc 10, 21; Mt 11, 25-30), em ação de graças (cf. Jo 11, 41; Mt 15, 36 etc.), em entrega de si mesmo a Deus (cf. Lc 23, 46). De toda a sua oração transborda juntamente um afeto simples e filial.

Nos Evangelhos nos estão conservadas oito orações de Jesus, todas as quais, à exceção de uma, que é a mera recitação de um salmo (cf. Mc 15, 34; Sl 21, 2), começam com a afetuosa palavra Pai. Assim Ele ensinaria a orar também os seus discípulos na oração dominical por excelência (cf. Mt 6, 9).

2. O afeto de amor ao Pai

Basta dizer que todas as manifestações de sua vida ressumam um amor ardente por seu Pai, tanto quando contempla a Deus como quando contempla os outros homens ou o mundo inanimado.

“A Santíssima Trindade”, de um artista anônimo.

a) Quando contempla a Deus, reduz tudo a uma só frase: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e todo o teu espírito” (Mt 22, 27), e dificilmente se encontrará em toda a literatura religiosa uma oração mais ternamente amorosa do que a oração sacerdotal com que se dirige a seu eterno Pai, saboreando aquela união íntima de amor com a qual Ele está no Pai e seu Pai nele, como exemplo para a união de todos os que o seguirem (cf. Jo 17, 21).

b) Quando contempla os homens, vê neles o rosto de Deus, de quem são filhos, aos quais o Pai ama de verdade (cf. Jo 16, 27); sobre os quais exerce uma providência solícita (cf. Mt 6, 26.32; 10; 29, 31); cujas orações escuta, mesmo no mais escondido (cf. Mt 6, 6; 7, 11); cujas boas obras recompensa (cf. Mt 6, 18), cujas mentes, mesmo as dos mais humildes, ilumina (cf. Mt 11, 23); e em favor dos quais entregou seu próprio Filho unigênito (cf. Jo 3, 16) e enviará o Espírito Santo (cf. Jo 14, 16).

O amor de Jesus aos homens nasce do amor a Deus, transforma-se em amor a Deus e em cada um deles ama a seu Pai. Por isso, para Jesus, o preceito de amar a Deus e ao próximo é o mesmo, e todos os mandamentos do Pai se identificam com este mandamento de amor aos nossos semelhantes. Os próprios racionalistas não deixam de admirar como algo extraordinário este espírito de Jesus [3].

c) Quando contempla o mundo inanimado, Jesus se aproxima dele com ternura de amor a seu Pai. Os menores detalhes da natureza fomentam nele este amor a Deus. Observa as aves do céu, às quais o Pai dá alimento; os lírios do campo, cujos vestidos urde; a erva do vale, que Ele veste esplendidamente; a luz do sol, que envia sobre justos e pecadores; a chuva, com a qual fecunda as plantações; o grão de trigo, que Ele transforma em espiga (cf. Mt 6, 26.34; Jo 12, 24).

Não é que Jesus desconhecesse as forças naturais que produzem todos estes fenômenos, mas prescinde delas para ver somente o amor providente de seu Pai. Ele vê na semente lançada pelo lavrador a palavra de Deus depositada nas almas para a sua frutificação; no grão de mostarda que germina, a extensão do reino de Deus; na rede do pescador, as almas escolhidas para a vida eterna. Tudo nele provoca o amor a seu Pai.

3. Consagração de si mesmo ao Pai

É um consagração absoluta. Todas as suas forças, físicas ou espirituais, sua vida inteira, estão ordenadas a cumprir o encargo que o Pai lhe confiou: a instauração do reino de Deus. Nada terreno lhe interessa. Daí que a razão única de sua ação é a vontade de seu Pai.

Um afeto de obediência foi o seu primeiro ato ao entrar neste mundo; toda a sua vida resumiu-se àquela frase sua: “Eu faço sempre aquilo que é do agrado de meu Pai” (Jo 8, 29); submeteu-se à paixão com aquela fórmula: “Não se faça como eu quero, mas, sim, como tu queres” (Mt 26, 39); e assim pôde ressoar seu último alento naquele “Tudo está consumado” (Jo 19, 30).

Na realização de seu ideal, teve de despender uma força de vontade admirável para superar as dificuldades que se lhe opuseram na fundação do reino de Deus pela incompreensão dos Apóstolos, as concepções políticas do povo e a oposição dos escribas, fariseus e sacerdotes, o que culminou nos horrores de sua paixão e morte. A esta precedera uma vida de extenuação por suas longas horas de oração, sobretudo noturnas, e seus contínuos trabalhos apostólicos.

Referências

  • O presente artigo é um tradução de F. de Vizmanos; I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 385-387, nn. 642-646. A tradução portuguesa dos versículos bíblicos aqui citados foi extraída da versão do Pe. Matos Soares.

Notas

  1. Cf. H. Felder, Jesus Christus. Apologie seiner Messianität und Gottheit. Paderborn, 1924, vol. 2, p. 262.
  2. Recordem-se, por exemplo, as passagens Lc 3, 21; 6, 12; 9, 18; 9, 29; Mt 14, 23, junto com Jo 6, 16; Mt 26, 26.30.39-44; 27, 46; Lc 23, 46; 24, 30.50 etc.
  3. Por exemplo, F. Nietzsche diz que quem propôs pela primeira vez este amor ao homem por amor a Deus é o “o homem que voou mais alto que todos os outros até agora e errou no mais delicioso dos mundos” (Além do Bem e do Mal, trad. port. de M. Pugliesi, n. 60).

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Muitas as comunhões, poucos os comungantes!
Doutrina

Muitas as comunhões,
poucos os comungantes!

Muitas as comunhões, poucos os comungantes!

Comungar pouco ou muito não é a questão. Comungar bem, eis o que verdadeiramente importa, seja para acabar com as comunhões sacrílegas, seja para crescer na intimidade com Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Setembro de 2018
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Nem sempre se viu, na história da Igreja, tantas pessoas entrando na fila da Comunhão como hoje. Fazendo uma retrospectiva histórica da recepção deste sacramento, Santo Tomás explica em sua Suma Teológica que:

As leis da Igreja variaram nesse ponto, segundo as diversas situações. Com efeito, na Igreja primitiva, quando vigorava uma maior devoção da fé cristã, o costume era a comunhão diária dos fiéis. Por isso, o Papa Anacleto diz: “Terminada a consagração, todos comunguem, se não quiserem pôr-se fora dos limites da Igreja, pois assim prescreveram os Apóstolos e a Santa Igreja romana mantém como uso”.

Em momento ulterior, o fervor da fé arrefeceu, e o Papa Fabiano concedeu que “se todos não comungam frequentemente, que o façam pelo menos três vezes no ano”, a saber, “na Páscoa, Pentecostes e Natal do Senhor”. O Papa Sotero disse que também se devia comungar na Quinta-feira Santa, como consta nos decretos.

Mais tarde, “devido à crescente iniquidade, tendo arrefecido o amor na maioria”, o Papa Inocêncio III decidiu que os fiéis comungassem “ao menos uma vez por ano”, a saber, “por ocasião da Páscoa”. [1]

A relação que se verifica no comentário do Aquinate é bem clara: quanto mais devotos forem os cristãos, mais frequentes serão as suas comunhões. Para medir, portanto, se é bom ou ruim que haja tantas pessoas comungando, o que importa analisar não é tanto o tamanho das procissões que se formam nas igrejas, mas sim o estado de alma em que se comunga.

Nessa matéria, nunca insistiremos o suficiente no grande mal que são as comunhões sacrílegas. Se é verdade que, nas palavras de Santo Ambrósio, a Hóstia consagrada é verdadeira “medicina espiritual” [2] e vigor para os fracos, igualmente verdadeiro é que “quem come e bebe indignamente o Corpo e o Sangue do Senhor, come e bebe a própria condenação” (1Cor 11, 29). Santo Tomás explica que “nem todas as medicinas são boas para todas as enfermidades” [3]. Assim como um paciente na UTI não tem condições de comer um prato de feijoada, não são todas as pessoas que devem tomar o remédio eucarístico.

Expliquemos melhor: não se trata de “impor barreiras” à ação da graça de Deus, ou de excluir arbitrariamente as pessoas do contato com Ele. A Comunhão foi instituída por Nosso Senhor para todos; em seu discurso sobre o pão da vida, não resta dúvida de que era à totalidade dos discípulos que se dirigiam os seus desejos de união.

Não pode participar do banquete de núpcias, no entanto, quem não está em trajes de festa (cf. Mt 22, 1-14). A união que acontece em toda Comunhão, entre Cristo e a nossa alma, pressupõe uma comunhão anterior, a que a Igreja sempre chamou “estado de graça”. Sem essa realidade — infundida em nós pelo sacramento do Batismo e devolvida a nós, quando pecamos mortalmente, pelo sacramento da Penitência —, não importa quantas vezes toquemos e comunguemos o Corpo do Senhor, nossa união com Deus jamais acontecerá efetivamente. Ao contrário, só tornaremos pior a nossa situação, assim como uma pessoa que come todo tipo de alimentos sem que esteja, no entanto, com o organismo preparado para isso.

Essas considerações, é claro, estão longe de abarcar a totalidade do mistério de nossa comunhão com Deus. Assim como não se ama alguém simplesmente evitando esta ou aquela conduta específica, o principal em nosso relacionamento com Deus é pensar no que devemos fazer para amá-lO, comungando cada vez melhor.

Para tanto, muito pode nos ajudar o famoso episódio da mulher hemorroíssa (cf. Mc 5, 25-34), a qual, no meio duma multidão que acotovelava Jesus e O movia de lá para cá, foi a única a receber do contato com Ele força divina para curar a sua enfermidade. O segredo daquela mulher simples era sobretudo a sua e, também hoje, para que nossas comunhões sejam verdadeira união com Deus, é essa fé que devemos pedir a Ele.

Do contrário, apesar das muitas comunhões em nossas igrejas, poucos serão os verdadeiros “comungantes”; apesar das muitas pessoas que se acotovelam para receber Jesus na Eucaristia, poucos serão os verdadeiramente beneficiados por esse sacramento. Mais do que comungar muito ou pouco, portanto, o que importa de fato é comungar bem: comungar estando na graça de Deus, comungar com fé, comungar consciente da grandeza do Criador e da baixeza da criatura, comungar temendo ofendê-lO e, ao mesmo tempo, querendo amá-lO.

Peçamos, pois, a Jesus sacramentado, antes de toda Comunhão, que o seu Corpo e o seu Sangue non proveniant in iudicium et condemnationem, “não se tornem causa de juízo e condenação”, sed prosint ad tutamentum mentis et corporis, et ad medelam percipiendam, mas “sejam sustento e remédio” para nossa vida.

Não nos esqueçamos, também, de uma última coisa: sempre seremos indignos de receber Deus presente no Santíssimo Sacramento. Por isso mesmo rezamos em todas as Missas: Domine, non sum dignus ut intres sub tectum meum, sed tantum dic verbo et sanabitur anima mea, “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e minh’alma será salva”. Sempre que nos aproximarmos dEle, não será por mérito nosso, mas por pura gratuidade e misericórdia da parte de Deus.

Esse pensamento, longe de nos afastar da Eucaristia, só deve fazer crescer ainda mais a nossa confiança, porque é através deste alimento que seremos elevados mais rapidamente à santidade que Deus tanto espera de nós. “Por isso, a Pedro que diz a Jesus: ‘Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador’, o Senhor responde: ‘Não temas’” [4].

Referências

  1. Suma Teológica, III, q. 80, a. 10, ad 5.
  2. “Devo recebê-lo sempre, para que sempre perdoe os meus pecados. Se peco continuamente, devo ter sempre um remédio” (Santo Ambrósio, De Sacramentis, IV, 6, 28: PL 16, 464). “Aquele que comeu o maná, morreu; aquele que come deste corpo, obterá o perdão dos seus pecados” (Ibid., IV, 5, 24: op. cit., 463).
  3. Suma Teológica, III, q. 80, a. 4, ad 2.
  4. Suma Teológica, III, q. 80, a. 10, ad 3.

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A santa que escreveu um tratado sobre o Purgatório
Espiritualidade

A santa que escreveu
um tratado sobre o Purgatório

A santa que escreveu um tratado sobre o Purgatório

Para narrar os tormentos do Purgatório, Santa Catarina de Gênova partiu não de uma revelação particular, mas de sua própria experiência de conversão. Conheça nesta catequese um pouco de sua vida e obra.

Papa Bento XVI25 de Setembro de 2018
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Prezados irmãos e irmãs!

Hoje gostaria de vos falar de Catarina de Gênova, conhecida sobretudo pela sua visão sobre o Purgatório. O texto que descreve a sua vida e o seu pensamento foi publicado na região italiana da Ligúria, em 1551, e é dividido em três partes: a Vida propriamente dita, a Demonstração e declaração do Purgatório — mais conhecida como Tratado — e o Diálogo entre a alma e o corpo [1]. O redator final foi o confessor de Catarina, o sacerdote Cattaneo Marabotto.

Catarina nasceu em Gênova, em 1447; última de cinco filhos, ficou órfã do pai, Giacomo Fieschi, ainda em tenra idade. A mãe, Francesca di Negro, dispensou uma válida educação cristã, a tal ponto que a maior das duas filhas se tornou religiosa. Com 16 anos, Catarina foi concedida como esposa a Giuliano Adorno, um homem que, depois de várias experiências comerciais e militares no Oriente Médio, tinha regressado a Gênova para casar.

Primeira conversão

A vida matrimonial não foi fácil, também devido à índole do marido, apaixonado pelo jogo de azar. Inicialmente, a própria Catarina foi induzida a levar um tipo de vida mundana em que, contudo, não conseguia encontrar a serenidade. Depois de dez anos, no seu coração havia um profundo sentido de vazio e de amargura.

Gravura retratando Santa Catarina de Gênova.

A conversão teve início em 20 de março de 1473, graças a uma experiência singular. Tendo ido à igreja de São Bento e ao mosteiro de Nossa Senhora das Graças para se confessar, ajoelhou-se diante do sacerdote e “recebeu — como ela mesma escreve — uma chaga no coração, de um imenso amor de Deus”, com uma visão tão clarividente das suas misérias e dos seus defeitos e, ao mesmo tempo, da bondade de Deus, que quase desmaiou. Foi tocada no coração por este conhecimento de si mesma, da vida vazia que ela levava e da bondade de Deus. Desta experiência derivou a decisão que orientou toda a sua vida, expressa com estas palavras: “Basta com o mundo e com os pecados” [2].

Então Catarina fugiu, suspendendo a Confissão. Voltou para casa, entrou no quarto mais escondido e chorou prolongadamente. Naquele momento, foi instruída interiormente sobre a oração e adquiriu a consciência do imenso amor de Deus por ela, pecadora, uma experiência espiritual que não conseguia expressar com palavras [3]. Foi nessa ocasião que lhe apareceu Jesus sofredor que carregava a cruz, como é frequentemente representado na iconografia da santa. Poucos dias depois, foi ter com o sacerdote para finalmente realizar uma boa Confissão. Aqui teve início aquela “vida de purificação” que, durante muito tempo, lhe fez sentir uma dor constante pelos pecados cometidos e que a impeliu a impor-se penitências e sacrifícios para demonstrar o seu amor a Deus.

Neste caminho, Catarina foi-se aproximando cada vez mais do Senhor, até entrar naquela que é denominada “vida unitiva”, ou seja, uma relação de profunda união com Deus. Na Vida está escrito que a sua alma era orientada e ensinada interiormente só pelo dócil amor de Deus, que lhe concedia tudo aquilo que ela precisava. Catarina abandonou-se de modo tão total nas mãos do Senhor que chegou a viver, durante cerca de vinte e cinco anos — como ela escreve — “sem o intermédio de qualquer criatura, instruída e governada unicamente por Deus” [4], alimentada sobretudo pela oração constante e pela Sagrada Comunhão recebida todos os dias, o que não era comum na sua época. Só muitos anos mais tarde o Senhor lhe concedeu um sacerdote que cuidasse da sua alma.

Uma vida de apostolado

Catarina hesitava sempre em confiar e manifestar a sua experiência de comunhão mística com Deus, sobretudo pela profunda humildade que sentia diante das graças do Senhor. Foi só a perspectiva de dar glória a Ele e de poder favorecer o caminho espiritual de outros que a levou a narrar aquilo que se verificava nela, a partir do momento da sua conversão, que é a sua experiência originária e fundamental.

O lugar da sua ascensão aos vértices místicos foi o hospital de Pammatone, a maior estrutura hospitalar genovesa, da qual foi diretora e animadora. Portanto, não obstante esta profundidade da sua vida interior, Catarina vive uma existência totalmente ativa. Em Pammatone foi-se formando ao seu redor um grupo de seguidores, discípulos e colaboradores, fascinados pela sua vida de fé e pela sua caridade. O próprio marido, Giuliano Adorno, foi conquistado por ela, a ponto de abandonar a sua vida desregrada, de se tornar terciário franciscano e de se transferir para o hospital, para oferecer a sua ajuda à esposa. O compromisso de Catarina no cuidado dos doentes continuou até ao fim do seu caminho terreno, em 15 de setembro de 1510.

Desde a conversão até à morte, não houve acontecimentos extraordinários, mas dois elementos caracterizaram toda a sua existência: por um lado a experiência mística, ou seja, a profunda união com Deus, sentida como uma união esponsal e, por outro, a assistência aos enfermos, a organização do hospital e o serviço ao próximo, especialmente aos mais necessitados e abandonados. Estes dois pólos — Deus e o próximo — preencheram totalmente a sua vida, transcorrida praticamente entre as paredes do hospital.

Estimados amigos, nunca devemos esquecer que quanto mais amarmos a Deus e formos constantes na oração, tanto mais conseguiremos amar verdadeiramente quantos estão ao nosso redor, quem está perto de nós, porque seremos capazes de ver em cada pessoa o Rosto do Senhor, que ama sem limites nem distinções. A mística não cria distâncias em relação ao outro, não cria uma vida abstrata, mas sobretudo aproxima do outro, porque se começa a ver e a agir com os olhos, com o Coração de Deus.

Seu pensamento sobre o Purgatório

O pensamento de Catarina sobre o Purgatório, pelo qual ela é particularmente conhecida, está condensado nas últimas duas partes do livro citado no início: o Tratado sobre o Purgatório e o Diálogo entre a alma e o corpo.

É importante observar que, na sua experiência mística, Catarina jamais tem revelações específicas sobre o Purgatório ou sobre as almas que ali estão a purificar-se. Todavia, nos escritos inspirados pela nossa santa, é um elemento central, e o modo de o descrever tem características originais em relação à sua época.

O primeiro traço original diz respeito ao “lugar” da purificação das almas. No seu tempo, ele era representado principalmente com o recurso a imagens ligadas ao espaço: pensava-se num certo espaço, onde se encontraria o Purgatório. Em Catarina, ao contrário, o Purgatório não é apresentado como um elemento da paisagem das vísceras da terra: é um fogo não exterior, mas interior. Este é o Purgatório, um fogo interior.

A santa fala do caminho de purificação da alma, rumo à plena comunhão com Deus, a partir da própria experiência de profunda dor pelos pecados cometidos, em relação ao amor infinito de Deus [5]. Ouvimos sobre o momento da conversão, quando Catarina sente repentinamente a bondade de Deus, a distância infinita da própria vida desta bondade e um fogo ardente no interior de si mesma. E este é o fogo que purifica, é o fogo interior do Purgatório.

Também aqui há um traço original em relação ao pensamento do tempo. Com efeito, não se começa a partir do além para narrar os tormentos do Purgatório — como era habitual naquela época e talvez ainda hoje — e depois indicar o caminho para a purificação ou a conversão, mas a nossa santa começa a partir da própria experiência interior da sua vida a caminho da eternidade. A alma — diz Catarina — apresenta-se a Deus ainda vinculada aos desejos e à pena que derivam do pecado, e isto torna-lhe impossível regozijar com a visão beatífica de Deus.

Catarina afirma que Deus é tão puro e santo que a alma com as manchas do pecado não pode encontrar-se na presença da majestade divina [6]. E também nós sentimos como estamos distantes, como estamos repletos de tantas coisas, a ponto de não podermos ver Deus. A alma está consciente do imenso amor e da justiça perfeita de Deus e, por conseguinte, sofre por não ter correspondido de modo correto e perfeito a tal amor, e precisamente o amor a Deus torna-se chama, é o próprio amor que a purifica das suas escórias de pecado.

Em Catarina entrevê-se a presença de fontes teológicas e místicas das quais era normal haurir na sua época. Em particular, encontra-se uma imagem típica de Dionísio, o Areopagita, ou seja, aquela do fio de ouro que liga o coração humano ao próprio Deus. Quando Deus purifica o homem, liga-o com um fio de ouro extremamente fino, que é o seu amor, e atrai-o a si com um afeto tão forte, que o homem permanece como que “superado, vencido e totalmente fora de si”. Assim, o coração do homem é invadido pelo amor de Deus, que se torna o único guia, o único motor da sua existência [7]. Esta situação de elevação a Deus e de abandono à sua vontade, expressa na imagem do fio, é utilizada por Catarina para manifestar a obra da luz divina nas almas do Purgatório, luz que as purifica e eleva aos esplendores dos raios fúlgidos de Deus [8].

Queridos amigos, na sua experiência de união com Deus os santos alcançam um “saber” tão profundo dos mistérios divinos, no qual o amor e o conhecimento se compenetram, a ponto de ajudarem os próprios teólogos no seu compromisso de estudo, de intelligentia fidei, de intelligentia dos mistérios da fé, de aprofundamento real dos mistérios, por exemplo daquilo que é o Purgatório.

Com a sua vida, Santa Catarina ensina-nos que quanto mais amamos a Deus e entramos em intimidade com Ele na oração, tanto mais Ele se faz conhecer e acende o nosso coração com o seu amor. Escrevendo acerca do Purgatório, a santa recorda-nos uma verdade fundamental da fé, que se torna para nós um convite a rezar pelos defuntos, a fim de que eles possam chegar à visão beatífica de Deus na comunhão dos santos [9].

Além disso, o serviço humilde, fiel e generoso, que a santa prestou durante toda a sua vida no hospital de Pammatone, é um exemplo luminoso de caridade para todos e um encorajamento especialmente para as mulheres que oferecem uma contribuição fundamental para a sociedade e a Igreja com a sua obra preciosa, enriquecida pela sua sensibilidade e pela atenção aos mais pobres e necessitados. Obrigado!

Notas

  • Audiência Geral do Papa Bento XVI, de 12 de janeiro de 2011, extraída e levemente adaptada do site da Santa Sé.

Recomendações

  1. Cf. Livro da Vida admirável e da doutrina santa, da beata Catarina de Gênova, que contém uma útil e católica demonstração e declaração do purgatório, Gênova, 1551.
  2. Cf. Vida admirável, 3rv.
  3. Cf. Vida admirável, 4r.
  4. Vida, 117r-118r.
  5. Cf. Vida admirável, 171v.
  6. Cf. Vida admirável, 177r.
  7. Cf. Vida admirável, 246rv.
  8. Cf. Vida admirável, 179r.
  9. Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1032.

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