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Três lições da Divina Comédia
Espiritualidade

Três lições da Divina Comédia

Três lições da Divina Comédia

Neste ano em que recordamos o 700.º aniversário de conclusão do maior poema cristão já escrito, vale a pena lançar um olhar sobre algumas de suas páginas e extrair daí, para nossa vida de fé, algumas preciosas lições.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Neste ano celebramos o 700.º aniversário da conclusão do maior poema cristão já escrito: A Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Não conhecemos a data exata — “ele parou de escrever no dia 11 de março” —, mas de fato sabemos que o poeta florentino terminou a obra em 1320. Dante deu apenas o título de Comédia ao poema. “Divina” é um acréscimo do século XVI.

O sentido de “comédia” não é o do português moderno (algo que tira sarro ou faz rir alto — embora alguns momentos da leitura provoquem um largo sorriso ou façam perder o fôlego). O sentido de comédia da obra é o mesmo que vemos nas comédias de Shakespeare: as personagens sofrem provações, contratempos e sentem angústia antes de serem arrastadas para um final feliz que jamais poderiam ter arquitetado. Os personagens recebem suas recompensas e são tratados com generosa compaixão.  

A Comédia inicia com a famosa descrição:

No meio do caminho em nossa vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era perdida (Inferno I, 1-3) [1].

Talvez não exista nenhum adulto que não tenha se sentido assim, perdido numa selva escura em alguma época da vida. Essa “selva escura” é ampla o suficiente para nos recordar tantos aspectos diferentes da vida: diversas provações e confusões que afligem, seja em termos pessoais ou quando observamos a situação do mundo ou da Igreja. Notemos também que Dante usa tanto o singular como o plural: “nossa” e “me”. Ele sabe que é uma jornada comum a todos nós.

Em seguida, Dante mostra como a selva na qual estava perdido tinha características de um pesadelo:

Ah, só dizer o que era é cousa dura
esta selva selvagem, aspra e forte,
que de temor renova à mente a agrura!
Tão amarga é, que pouco mais é morte (Inferno I, 4-7).

Felizmente, ele recebeu auxílio de mais uma maneira e fez a jornada pelo inferno e pelo purgatório até o céu. Estas são algumas das coisas que ele descobriu em sua jornada e que podem nos ajudar, se nós também nos sentirmos perdidos numa selva escura e apavorante.

A história que permaneceu de modo mais vívido na memória da minha esposa após a primeira leitura da Comédia na faculdade foi a de Buonconte de Montefeltro [2], salvo da condenação eterna de última hora. Foi um católico que adiara o arrependimento, e recebeu uma facada na garganta numa batalha. Quem o salvou? Maria.  

cheguei com fundo golpe pela gola,
fugindo a pé e ensanguentando o plano.
Ali palavra e vista se me evola;
caí ao nome de Maria (Purgatório V, 97-101).

Quando leu essa história, ela não era católica; assim, considerou-a incrível (no sentido literal), tanto pelo poder que atribui à Santíssima Virgem como pelo fato de um único ato de arrependimento poder ser tão eficaz. O demônio, diz Dante, também foi incrédulo em relação a essa demonstração de misericórdia: 

É vero e diz aos vivos o que ouvi:
o anjo de Deus tomou-me e o do inferno
bradava: “Ó tu do céu, tiras-mo aqui?
Levas contigo deste o que é eterno
por uma lagrimeta que mo tolhe” (Purgatório V, 103–107)

“Diz aos vivos o que ouvi.” Talvez tenhamos de anunciá-lo primeiro a nós? Como nos recorda a oração Memorare: nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tenha recorrido à proteção de Maria tenha sido desamparado por ela. Mesmo nas situações mais extremas. Tal é poder de Maria, tal é o poder da misericórdia. “‘Uma lagrimeta tem por resposta um oceano de misericórdia” [3].

A segunda pessoa a ser destacada é Sápia, membro da nobreza de Siena. Ela está no terraço do purgatório para os invejosos, onde todos têm os olhos costurados.

A paz quis ter com Deus já sobre o extremo
de minha vida; e ainda não seria
menor dever que em penitência gemo,
se não fosse a memória em que me havia
Pier Pettinaio em santas orações
que por mim caridade então pedia (Purgatório XIII, 124-129).

Pier Pettinaio, que teria sido o “equivalente social de um imigrante camelô” [4], rezou por essa nobre rica e arrogante! E as orações dele a levaram a uma altura considerável da montanha do purgatório, reduzindo-lhe consideravelmente o tempo de purificação. Aqui vemos a unidade do Corpo Místico em ação — particularmente, a conexão entre a Igreja militante e a Igreja padecente

Ilustração das linhas iniciais da Divina Comédia, por Gustavo Doré.

Mas esse é apenas um exemplo dessa unidade e do poder dos fiéis para fazer com que o Corpo Místico inteiro cresça em caridade. No Paraíso, Dante encontra algumas almas no segundo céu, que, resplandecendo em glória, o enxergam e dizem umas às outras com grande entusiasmo: “Eis quem fará crescer nossos amores” (Paraíso V, 105). Nosso amor mútuo e a Deus cresce à medida que ajudamos uns aos outros

Com que frequência refletimos sobre esse fato? Já refletimos sobre ele? Como ele mudaria nossa vida diária se nos lembrássemos dele! Nossos pequenos e grandes sacrifícios, nossos atos de amor, o “oferecimento” de nossos problemas e tarefas realmente fazem a diferença no mundo e na Igreja. Como Dante, não precisamos estar numa jornada no céu; isso também se aplica a nós porque estamos — assim se espera — numa jornada para o céu. “Ninguéns” e “nadas” também podem fazer a diferença.

No Paraíso, a história de Piccarda, aspirante a freira que está no céu da lua, é citada com frequência, ou antes sua conhecida fala, que talvez seja a mais citada do poema. Ao responder à pergunta de Dante sobre o motivo pelo qual os que estão nos céus inferiores não sentem inveja dos que possuem mais glória nos níveis superiores, Piccarda diz: “Na sua vontade é nossa paz” (Paraíso III, 85). Uma verdade profundamente consoladora. É necessário ter humildade, desapego adequado e confiança para alcançar essa paz. 

Minha esposa compartilhou comigo uma conversa que teve certa tarde com um monge beneditino de Núrsia (conversa da qual ela jamais se esqueceu). Ela lhe perguntara como conseguia permanecer tranquilo em meio ao movimento causado pela recepção de convidados e turistas em sua loja. Ele respondeu: “Paz… é a vontade de Deus neste exato momento.”

Como podemos associar essas três lições de Dante à situação atual?

Primeiro, voltemo-nos para Maria — sempre.

Segundo, rezemos pelos mortos e pelos moribundos. Uma simples oração pode fazer toda a diferença para alguém, e só saberemos isso quando (se Deus quiser) chegarmos ao céu e encontrarmos nosso irmão ou irmã, que nos agradecerá por toda a eternidade, assim como seremos gratos a tantas outras pessoas.

Terceiro, confiemos na vontade de Deus, que não se surpreende com o que está acontecendo. Ele tem ciência da situação e a deseja ou permite, porque dela advirá algum bem para aqueles que o amam. Como São Pio de Pietrelcina costumava dizer: “Não tenham medo de Deus, porque Ele não quer lhes fazer mal algum. Amem-no bastante, porque Ele deseja lhes fazer um bem enorme” [5].

Referências

  1. A tradução da Divina Comédia usada ao longo de todo o artigo é a de Vasco Graça Moura. Editora Quetzal, Lisboa, 2015. 
  2. Cf. Jason Baxter, A Beginner’s Guide to Dante’s Divine Comedy. Grand Rapids, Baker Academic, 2018, p. 91.
  3. Baxter, Beginner’s Guide, p. 91.
  4. Baxter, Beginner’s Guide, p. 93. Também é interessante observar que esse Pier, um joão-ninguém, tornou-se eremita franciscano e foi venerado em Siena como santo.
  5. John McClernon, Sermon in Sentence: St. Pio of Pietrelcina. London, Baronious Press, 2019, p. 97.

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A verdade sobre os apócrifos
Igreja Católica

A verdade sobre os apócrifos

A verdade sobre os apócrifos

Todo o mundo já ouviu falar dos “evangelhos apócrifos”, e basta falar no assunto para lançar uma sombra de suspeita sobre a Igreja. Mas o que são mesmo os livros apócrifos? Dirão eles algo de “inconveniente” sobre a “verdadeira” história de Jesus?

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Olá, padre Paulo e equipe Christo Nihil Præponere. Escuto muitos boatos e conversinhas sobre os evangelhos apócrifos. Seria muito bom um conteúdo explicando o que é e como tratar esse assunto. Obrigada”.

Resposta: Para a teologia católica, a palavra “apócrifo” tem um sentido técnico definido, estreitamente relacionado com a questão do cânon bíblico e da inspiração dos livros da Sagrada Escritura. Esclareçamos primeiro os termos do problema para considerarmos em seguida a origem e as classes de livros apócrifos e, por último, contrastarmos com a verdade dos fatos o tipo de informação (ou, antes, desinformação) que alguns meios costumam veicular sobre o assunto.

1) Noção. — A palavra “apócrifo” deriva do grego ἀπόκρυϕον e significa, etimologicamente, “coisa oculta”, “recôndita”, “secreta” ou “escondida”. Nesse sentido, os antigos costumavam chamar de apócrifos os escritos que continham doutrinas reservadas aos iniciados de alguma seita ou conhecidas apenas pelos membros de um determinado grupo. Nesta última acepção, um livro apócrifo é sinônimo de esotérico (por oposição a exotérico), ou seja, lido exclusivamente pelos integrantes de uma escola filosófica, em lições fechadas ao público.

Entre os Santos Padres e escritores eclesiásticos dos primeiros séculos, a palavra sofre algumas oscilações de sentido e passa a ser usada para designar três coisas: a) livros de autoria duvidosa ou desconhecida, às vezes atribuídos falsamente a um autor (chamados por isso de pseudepígrafos) [1]; b) livros heréticos ou que ensinavam coisas verdadeiras misturadas com falsas; c) e livros de leitura privada, ou seja, extralitúrgica, em contraposição aos livros que a Igreja costumava ler publicamente na Missa [2].

2) Definição. — E os apócrifos bíblicos? O que são? Trata-se de um conjunto de escritos de autoria incerta que, apesar de sua afinidade com as Sagradas Escrituras (quer por título ou conteúdo) e da grande autoridade que, não raro, se lhes atribuiu no passado, nunca foram reconhecidos pela Igreja como inspirados nem canônicos [3].

3) Origem. — Essa definição se aplica a todos os livros apócrifos, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Os apócrifos veterotestamentários, de acordo com alguns estudiosos, surgiram no período da chamada “literatura intertestamentária”, entre os séculos II a.C. e I d.C. Estes livros, bastante numerosos, podem ser classificados segundo a matéria de que tratam em três séries análogas à distribuição dos livros do Antigo Testamento: históricos, didáticos e proféticos [4]. Quanto à origem, estes apócrifos podem ter surgido em resposta a diferentes necessidades:

[…] em parte, ao propósito de acrescentar à Lei novas tradições, prescrições, explicações ou exortações morais; em parte, ao desejo de completar a história bíblica; em parte, enfim, à intenção de propor […] os vaticínios dos profetas referentes à era messiânica, para que os judeus, de ânimo abatido pelas calamidades, se reconfortassem com a esperança da iminente libertação [5].

Os apócrifos neotestamentários, por sua vez, são de origem mais recente: começam a difundir-se desde pelo menos o século II d.C e continuarão a ser escritos até o já tardio século IV. Também estes apócrifos podem ser agrupados de maneira análoga à distribuição dos livros canônicos do Novo Testamento. Por isso, é comum falar-se de evangelhos apócrifos, Atos apócrifos, epístolas apócrifas e Apocalipses apócrifos. Quanto à origem, é ponto pacífico que

[…] alguns foram escritos por hereges, com o fim de propagar os dogmas e erros da própria seita; outros, por fiéis piedosos, com a intenção de preencher as lacunas da história evangélica, ou para transmitir à memória das futuras gerações os feitos dos Apóstolos e outros varões apostólicos, conservados às vezes na tradição, mas frequentemente deturpados pela inclusão de falsas circunstâncias e portentos [6].

Em razão dessa dupla fonte (em uns casos, hereges; em outros, cristãos ortodoxos), o conjunto da literatura apócrifa não se reduz, sem mais, a livros heterodoxos. Alguns o são, e é por isso que as autoridades eclesiásticas resistiram desde o princípio à sua difusão e inclusão entre as leituras da Liturgia. Destacam-se nesta categoria os evangelhos gnósticos, que começaram a pulular logo nos primeiros séculos da era cristã, e não é improvável que antes da morte do Apóstolo S. João já estivessem circulando certas falsificações gnósticas (se não por escrito, ao menos por ensino oral) da vida de Jesus [7]. Outros, porém, não só estão livres de problemas doutrinais sérios como preservam tradições fidedignas (misturadas às vezes, é verdade, com exageros, imprecisões ou fábulas); daí que tenham gozado de autoridade e estima, chegando inclusive a ser considerados canônicos por autores antigos. “Apócrifo”, portanto, não é sinônimo de “herético”.

Os apócrifos do Novo Testamento são tão numerosos quanto os do Antigo, senão mais. E embora alguns deles, como dissemos, promovam heresias e outros contenham lendas fabulosas acerca de um Jesus demasiado “milagreiro” (lendas, aliás, que a Igreja nunca acolheu como verídicas), nenhum deles foi escrito com a intenção de contar “a história real” de Cristo, como se fosse falsa ou mentirosa a que lemos nos Evangelhos canônicos. Falsa é a afirmação, que parece inspirar certos documentários e matérias de revista, de que nos apócrifos se encontrariam “revelações inesperadas” sobre um Jesus em nada parecido com o que vemos na Bíblia de todos os dias.

4) Os “apócrifos” da mídia. — Naturalmente, a palavra “apócrifo” faz despertar um não se sabe quê de curiosidade e suspeita, mas que, graças à TV e à internet, logo se desfaz para transformar-se em certeza, como um raciocínio que salta convicto para a conclusão sem antes examinar as premissas. “Se existem evangelhos apócrifos”, pensa-se, “é porque a Igreja Católica, por razões escusas, os terá escondido dos fiéis. Ora, que outra razão teria levado a Igreja a mantê-los longe do povo crédulo senão o fato de conterem a verdade sobre Jesus?”

Daí surgem as difundidíssimas “especulações” sobre o suposto conteúdo de tais escritos. O que diriam eles de tão grave para pôr a Igreja em maus lençóis, a ponto de obrigá-la a dar um “chá de sumiço” em desmentidos tão vergonhosos de sua doutrina, inventada para servir os “poderosos”? 

(Prateek Katyal/Unsplash.)

As versões variam segundo os gostos, sempre porém com uma suposição comum de fundo: Cristo não pode ter nada a ver com o que sempre creram os cristãos e ensinou a Igreja. Por isso, nos apócrifos Jesus nunca teria afirmado ser Deus nem querido fundar uma Igreja: Ele seria um hippie avant la lettre; jamais teria proibido o divórcio nem exortado à virgindade pelo Reino: Ele seria um defensor do “amor livre”; não viveu exclusivamente para cumprir a vontade do Pai e redimir a humanidade: Ele teria achado tempo para envolver-se com Maria Madalena e, quem sabe, ter filhos… 

5) Os apócrifos de verdade. — No entanto, quem se dispuser a ir às fontes e ler os apócrifos que, de fato, sobreviveram ao naufrágio do tempo, incluindo vários heterodoxos, não achará nada disso. Na verdade, achará justamente o contrário: um Jesus muito mais “ostensivo” em seus milagres, muito mais “duro” em sua doutrina, muito mais “esquisito” em seu modo de falar e agir. O que faz pôr em dúvida, desde logo, a estranha lógica pela qual a Igreja teria escondido testemunhos escritos que, mais do que contradizer, serviriam para reforçar sua pregação sobre a divindade de Cristo. Se, com efeito, a intenção das autoridades era manter o povo num estado de ignorância forçada, quase narcotizado por doutrinas absurdas, por que o teria impedido de consumir aquela “literatura fantástica”?

Além disso — como dissemos antes —, muitos apócrifos não heterodoxos, sobretudo os evangelhos lendários, apesar de não serem reconhecidos pela Igreja, contêm pequenos detalhes narrativos que ela, sim, acolheu e de alguma maneira oficializou por meio de sua Liturgia [8]. É o caso, por exemplo, dos nomes dos pais de Nossa Senhora, Joaquim e Ana (celebrados anualmente em 26 de julho), que só conhecemos graças ao chamado Protoevangelho de Tiago, também conhecido como Natividade de Maria. O texto parece ser da lavra de algum judeu converso e deve ter sido escrito, segundo algumas estimativas, em meados dos século II, no Egito ou na Ásia Menor [9].

A obra foi reelaborada mais tarde no Ocidente, entre os séculos IV e V, com base em elementos de um Evangelho de Tomé. Em versão latina, ela será conhecida como Livro do nascimento da bem-aventurada Maria e da infância do Salvador (ou Evangelho do Pseudo-Mateus). Nela encontramos episódios bastante curiosos, como o que se lê nos capítulos 20 e 21, sobre a fuga da Sagrada Família para o Egito. Como estivessem todos cansados da jornada, empreendida havia já três dias, a Santíssima Virgem sentou-se à sombra de uma palmeira para recobrar as forças:

Então, o menino Jesus, sentado de rosto alegre no colo de sua Mãe, disse à palmeira: “Dobra-te, árvore, e de teus frutos alimenta minha Mãe!” E logo em seguida, obediente a estas palavras, a palmeira inclinou-se até os pés de Maria, e eles colheram frutos, com o quais todos se alimentaram [10].

Depois disso, por ordem de Jesus, “a palmeira se ergueu, e começaram a sair pelas raízes dela fontes de água limpíssimas, fresquissimas e dulcíssimas” [11], para matar a sede do Família fugida de Belém. No dia seguinte, antes de retomar a viagem, Jesus concedeu à palmeira, em recompensa pela sua obediência, que um de seus ramos fosse levado ao Paraíso, e que a todos aqueles que, dali em diante, superassem algum desafio ou dificuldade se dissesse: “Alcançastes a palma da vitória” [12]. (Como se vê, alguns apócrifos também são fonte de “etimologias” populares!)

Não deixa de chamar a atenção que, por via de regra, as mesmas pessoas que aceitam a autoridade histórica de apócrifos heréticos, quando estes contrariam qualquer ponto da fé e doutrina cristãs, tendem a negar qualquer valor a outros, quando atestam e confirmam (em que pesem certos exageros e invenções piedosas) essa mesma fé e doutrina, como o que lemos acima. Seria mais um caso de “dois pesos, duas medidas”?... 

6) Conclusão. — Se é verdade que, nos primeiros séculos, a Igreja teve de lutar com força para que os apócrifos (e, antes de tudo, os heterodoxos) não envenenassem a fé do povo cristão com doutrinas estranhas, tomadas de empréstimo a todo tipo de corrente filosófica, num sincretismo que só não perde para as religiosidades difusas da Nova Era, daí não se segue que a Igreja tenha agido assim para “ocultar” a verdade. Antes, pelo contrário, as proibições e condenações eclesiásticas contra estes escritos visavam preservar a verdade histórica sobre Cristo de erros, deturpações e acréscimos indevidos, mesmo que tivessem surgido da imaginação de almas de boa-fé.

Notas

  1. Escreve a esse respeito S. Jerônimo: “Tenha-se cuidado com todos os apócrifos (apocrypha). […] saiba que não são daqueles cujos nomes levam no título” (Ep. 107, ad Lætam: PL 22, 877), e S. Agostinho fala de certas escrituras que “são chamadas apócrifas (apocryphæ) pelo fato de a sua origem, oculta, não ter sido identificada pelos Padres” (De Civ. Dei. XV 23, 3: PL 41, 470).
  2. Nesse sentido, eram chamados de apócrifos todos os livros cristãos extracanônicos (v.gr., escritos dos padres apostólicos, dos primeiros apologistas e dos próprios Santos Padres e autores eclesiásticos), como testemunha Rufino: “[Os Padres] chamaram apócrifas (apocryphas) às demais escrituras, que não quiseram fossem lidas na Igreja” (Rufino, Expos. symb. apost. 38: PL 21, 374), e S. Jerônimo opinava (cf. Præf. in Sam. et Malachim: PL 28, 600-603), seguido nisto por grande parte dos protestantes, que os livros deuterocanônicos, isto é, que não estavam no cânon dos judeus, deveriam ser postos entre os apócrifos (inter apocrypha).
  3. Traduzimos de forma simplificada a definição proposta por Stephanus Székely, Bibliotheca Apocrypha. Friburgo, Herder, 1913, vol. 1, p. 1: “Scripta incertorum auctorum, titulo vel argumento Sacris Scripturis cognata, iisque similem auctoritatem olim apud aliquos nacta, sed ab Ecclesia in canonem non admissa”. Cf. a que propõe Miguel A. Tábet, Introducción general a la Biblia. 4.ª ed., Madrid: Palabra, 2015, p. 180.
  4. Há autores que preferem agrupá-los em quatro séries: históricos, sapienciais, proféticos e apocalípticos (cf. Miguel A. Tábet, op. cit., loc. cit.).
  5. Pe. J. Prado, CSSR, Prælectiones Biblicæ. Propædeutica Biblica. 6.ª ed., Turim: Marietti, 1954, p. 108, n. 105.
  6. Id., ibid.
  7. Cf. S. Irineu de Lião, Adversus hæreses I 21 (para um resumo da doutrina de Cerinto) e III 11, 7 (para a luta de S. João contra os erros já disseminados em sua época por Cerinto e, muito antes dele, pelos nicolaítas).
  8. Diga-se de passagem que na Liturgia tradicional (isto é, no Vetus Ordo) a Igreja se serve de muitos apócrifos do Antigo Testamento. Assim, v.gr., o intróito da Missa de Réquiem é tirado de 4Esdr 2, 34s: “Esperai o vosso pastor, ele vos dará o descanso da eternidade […]. Estai preparados para os prêmios do reino, porque a luz perpétua luzirá para vós pela eternidade” (Expectate pastorem vestrum, requiem æternitatis dabit vobis […]. Parati estote ad præmia regni, quia lux perpetua lucebit vobis per æternitatem temporis). Também o intróito da Missa na terça-feira depois do Domingo de Pentecostes é tirado de 4Esdr 2, 36s: “Fugi da sombra deste século: recebei a alegria da vossa glória […]. Recebei o dom prometido e alegrai-vos, em ação de graças àquele que vos chamou ao reino celeste” (Fugite umbram sæculi huius: accipite iucunditatem gloriæ vestræ […]. Commendatum donum accipite et iucundamini, gratias agentes ei qui vos ad cælestia regna vocavit). Igualmente, o Verso que se lê com frequência na Vigília do Natal do Senhor: “Porque, só mais um pouco, e se retirará a iniquidade da Terra, e a justiça reinará em vós” (Quoniam adhuc pusillum, et tolletur iniquitas a terra, et iustitia regnabit in vos) (4Esdr 16, 53), e o Responsório II após a leitura da Escritura nos Domingos IV-XI depois de Pentecostes, tirado do Sl 151, 4: “Ele enviou o seu anjo e levou-me às ovelhas de meu pai: E ungiu-me com o óleo de sua unção” (Ipse misit Angelum suum, et tulit me ovibus patris mei: Et unxit me oleo unctionis suæ). Cf. Pe. J. Prado, CSSR, op. cit., p. 109, n. 106.
  9. Cf. H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 4.ª ed., iterum recognita a J. Prado. Marietti, 1930, vol. 1, p. 184, n. 119. Para saber mais, v. Claudio Moreschini e Enrico Norelli, História da literatura cristã antiga grega e latina. São Paulo: Loyola, vol. 1, 1996, pp. 217-220.
  10. Constantinus de Tischendorf (ed.), Evangelia Apocrypha. 2.ª ed., Leipzig, Hermann Mendelssohn, 1876, p. 88: “Tunc infantulus Iesus læto vultu in sinu matris suæ residens ait ad palmam: Flectere, arbor et de fructibus tuis refice matrem meam. Et confestim ad hanc vocem inclinavit palma cacumen suum usque ad plantas Mariæ, et collegerunt ex ea fructus quibus omnes refecti sunt”.
  11. Id., ibid: “[…] statim erecta est palma, et coeperunt per radices eius egredi fontes aquarum limpidissimi et frigidi et dulcissimi nimis”.
  12. Cf. Id., p. 89.

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Devoção: o que ajuda e o que atrapalha?
Espiritualidade

Devoção:
o que ajuda e o que atrapalha?

Devoção: o que ajuda e o que atrapalha?

A devoção é quase o mesmo que o fervor da caridade: ela dá ao homem prontidão e alento para agir bem, tornando-o apto para toda virtude, e muitas são as coisas que a ajudam. Mas, também, são muitas as coisas que a impedem...

São Pedro de AlcântaraTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Nove coisas que ajudam a alcançar a devoção. — Muitas são, pois, as coisas que ajudam a devoção; porque primeiramente vem muito ao caso tomar estes santos exercícios muito à vera e muito a peito, com um coração muito determinado e oferecido a tudo o que for necessário para conseguir esta pérola preciosa, por árduo e dificultoso que seja, porque é certo nenhuma coisa grande haver que não seja dificultosa, e assim também o é esta, ao menos a princípio.

Ajuda também a guarda do coração, de todo gênero de pensamentos ociosos e vãos, de todos os afetos e amores peregrinos, e de todas as perturbações e movimentos apaixonados, pois está claro que todas estas coisas impedem a devoção, e que convém ter o coração afinado para orar e meditar mais do que a viola para tanger.

Ajuda também a guarda dos sentidos, especialmente dos olhos, e dos ouvidos, e da língua, porque pela língua se derrama o coração, e pelos olhos e ouvidos se enche de diversas imaginações, de coisas com que se perturba a paz e sossego da alma. Por onde com razão se diz que o contemplativo há de ser surdo, cego e mudo, porque quanto menos se derramar por fora, tanto mais recolhido estará por dentro

Ajuda a isto mesmo a solidão, porque não só tira aos sentidos as ocasiões de distração e ao coração as ocasiões dos pecados, como também convida o homem a que more dentro de si mesmo e trate com Deus e consigo, movido pela oportunidade do lugar, que não admite outra companhia senão esta.

Ajuda, outrossim, a leitura dos livros espirituais e devotos, porque dão matéria de consideração, e recolhem o coração, e despertam a devoção, e fazem que o homem pense com gosto naquilo que docemente passou a saber; mas antes sempre se representa à memória o que abunda no coração. 

Ajuda a lembrança contínua de Deus, e o andar sempre em sua presença, e o uso daquelas breves orações a que Santo Agostinho chama jaculatórias, porque estas guardam a casa do coração e conservam o calor da devoção, como acima se disse. E assim se acha o homem, a cada instante, pronto para se achegar à oração. Este é um dos principais documentos da vida espiritual, e um dos maiores remédios para aqueles que não têm tempo nem lugar para se dar à oração, e o que tiver sempre este cuidado, em pouco tempo muito aproveitará.

Ajudam também a continuidade e perseverança nos bons exercícios em seus tempos e lugares ordenados, principalmente à noite ou de madrugada, que são os tempos mais convenientes para a oração, como toda a Escritura nos ensina.

Ajudam as asperezas e abstinências corporais: a mesa pobre, a cama dura, o cilício, a disciplina e outras coisas semelhantes, porque todas estas coisas, assim como nascem da devoção, assim também despertam, conservam e aumentam a raiz de onde nascem. 

Ajudam, finalmente, as obras de misericórdia, porque nos dão confiança para padecer diante de Deus, acompanham nossas orações com serviços — para que não se lhes chamem súplicas de todo secas — e fazem merecer que a oração seja misericordiosamente recebida, porque procedente de um coração misericordioso.

Dez coisas que impedem a devoção. — E, assim como há coisas que ajudam a devoção, assim também há coisas que a impedem, entre as quais a primeira são os pecados, não só os mortais, mas também os veniais, porque estes, ainda que não tirem a caridade, tiram o fervor da caridade, que é quase o mesmo que a devoção; por onde convém evitá-los com todo cuidado, já que, não fosse pelo mal que nos fazem, ao menos um grande bem nos impedem.

São Pedro de Alcântara, retratado por Luis Tristán.

Impede também o remorso da consciência, que procede dos mesmos pecados (quando é demasiado), porque deixa a alma inquieta, caída, desfalecida e fraca para todo bom exercício. 

Impedem também os escrúpulos, pela mesma causa, porque são como espinhos, e não deixam a consciência repousar e sossegar em Deus e gozar da verdadeira paz.

Impede também qualquer amargura e desgosto do coração e tristeza desordenada, porque com isto muito mal se pode compadecer o gosto e suavidade da boa consciência e da alegria espiritual.

Impedem, outrossim, os cuidados demasiados, os quais são aqueles mosquitos do Egito que inquietam a alma e não a deixam dormir esse sono espiritual que se dorme na oração; antes, ali mais do que alhures, a inquietam e divertem com seu exercício.

Impedem também as ocupações excessivas, porque ocupam o tempo e afogam o espírito, e assim deixam o homem sem tempo e sem coração para se dedicar a Deus.

Impedem os prazeres e consolações sensuais (quando o homem é excessivo nelas), porque quem muito se dá às consolações do mundo não merece as do Espírito Santo, como diz São Bernardo.

Impede o prazer no excessivo comer e beber, principalmente as ceias longas, porque estas fazem muito má cama aos exercícios espirituais e às vigílias sagradas, porque, com o corpo pesado e farto de alimento, muito mal aparelhada está a alma para voar às alturas.

Impede o vício da curiosidade, tanto dos sentidos como do entendimento, que é querer ouvir e ver e saber muitas coisas, e desejar coisas polidas, curiosas e bem trabalhadas, porque tudo isso ocupa o tempo, embaraça os sentidos, inquieta a alma e a derrama em muitas partes, e assim impede a devoção.

Impede, finalmente, a interrupção de todos estes santos exercícios — a menos que sejam deixados por causa de alguma necessidade piedosa ou justa —, porque (como diz um doutor) é muito delicado o espírito da devoção, de modo que, havendo ido embora, ou não volta, ou o faz com muita dificuldade. E por isso, assim como as árvores e os corpos humanos querem suas regaduras e alimentos ordinários, e faltando isso logo desfalecem e murcham, assim também o faz a devoção quando lhe falta a água e o alimento da consideração. 

Tudo isso foi dito assim sumariamente, para que melhor se pudesse ter na memória, e a sua confirmação poderá ver quem quiser, com o exercício e longa experiência.

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Um profeta em nossa época
Sociedade

Um profeta em nossa época

Um profeta em nossa época

Haveria algum profeta mais recente, que nos preceda não por séculos, mas por alguns anos? Alguém que tenha previsto com exatidão nosso atual estado de anarquia e seu caos moral e sexual, racial e social? Bem, houve Chesterton…

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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O mundo nunca se esforçou muito para escutar profetas.

Os profetas do Antigo Testamento não foram muito bem-sucedidos ao longo da história de Israel. Eles apareciam com regularidade e alertavam as pessoas para que se arrependessem. Muitos deles foram mortos por apedrejamento por causa dos problemas que causavam, e muitos foram tratados com rispidez. Mas o povo de Israel só se lembrou daquilo que os profetas tentaram lhe contar quando viu seu reino ser destruído e teve de fugir nu, escravizado e completamente humilhado. Os poderosos foram derrubados. Foi um contraste absoluto com a vida que tinham conhecido quando se acomodaram pelo luxo, negligenciaram os pobres e se envolveram em divisões políticas. Eles ficaram orgulhosos e se deixaram consumir por distrações e mentiras. Perderam tudo quando deixaram de dar ouvidos a Deus, fizeram pouco caso das coisas divinas e ignoraram suas palavras enviadas por seus mensageiros, os profetas.

O único caso famoso de um povo que prestou atenção às palavras de um profeta e se arrependeu é o da história de Jonas e da cidade de Nínive. Mas essa história é mais conhecida por causa do profeta relutante do que pelo povo arrependido. É ainda mais interessante o fato de a história não ter um final feliz. Não estou falando de Jonas, que reclama com Deus. Falo de Nínive. Se você conhecesse o Antigo Testamento (mas não o conhece), e se conhecesse a história do profeta Naum (mas não a conhece), saberia que alguns anos depois de Jonas ter conseguido levar Nínive ao arrependimento e voltar ao caminho correto, a cidade retomou a vida pecaminosa e sem Deus; saberia que o profeta Naum foi enviado para alertar a cidade sobre sua iminente destruição e que ela não lhe deu ouvidos. A cidade de mercadores foi destruída: “Cadáveres sem-número, nos quais se tropeça” (Na 3, 3).

Acontece que o arrependimento é algo que você talvez tenha de fazer mais de uma vez. Eu sei: é difícil imaginar. 

A razão que as pessoas mais apresentam para não ler os profetas é que não os compreendem. É claro que a verdadeira razão é justamente o contrário disso. Não os lemos porque sabemos exatamente do que eles estão falando. As descrições são terrivelmente claras e familiares, e percebemos que somos nós os destinatários da mensagem que pede arrependimento. Nossa resposta é uma “análise crítica” do texto antigo, à luz de questões que tratam da integridade da transmissão dos manuscritos originais e sua “evidente corrupção” por meio de “constructos patriarcais opressores” e “interpolações de monges”.

Mas sobre os profetas antigos já falamos o bastante. Haveria algum mais recente, que nos preceda não por vinte ou trinta séculos, mas apenas por um? Alguém que tenha previsto com exatidão nosso atual estado de anarquia e seu caos moral, sexual, racial e social?

Bem, houve G. K. Chesterton.

Em sua novela O homem que era Quinta-feira, publicada em 1908, um grupo de anarquistas, inspirado por uma filosofia que odeia a propriedade, o matrimônio e a própria vida, tenta solapar energicamente tudo o que é normal na civilização.

Ele previu que a “marcha do progresso humano” seria a contracepção seguida do aborto e do infanticídio.

Ele disse que o resultado do divórcio leviano seria o matrimônio leviano.

Ele disse que o sexo exagerado levaria à assexualidade, e que um dos problemas do mundo moderno é que cada sexo está tentando ser os dois sexos ao mesmo tempo.

Ele disse que o controle de natalidade, que foi promulgado pela primeira vez sob o manto da eugenia, era racista: uma tentativa de impedir os “indesejáveis” de ter filhos. 

Ele disse que a América sempre pagaria um alto preço pela importação e escravização de africanos, e que a escravidão sempre seria o “crime e a catástrofe da história americana”. Ele ainda alertou: “As pessoas estão sempre prontas para falar bobagens sobre raça”.

Ele alertou sobre um culto à natureza que nos tornaria artificiais, um culto à saúde que nos tornaria doentios e um culto ao homem que nos tornaria desumanos.

Ele alertou que o mundo moderno corria o risco de viver sob uma tirania do Estado forte e dos grandes negócios, e que o homem comum perderia cada uma de suas liberdades. Alertou que seríamos escravos de nossas máquinas, do prazer, da agitação e da ciência. Alertou que a educação pública ampliaria o poder do Estado e reduziria a autoridade dos pais e da Igreja. Disse ele: “Elimine Deus, e o governo se tornará deus”.

Ele disse que nós perdemos nossa ideia de arrependimento.

Embora os profetas não sejam muito populares (especialmente em nível local e porque só se comprova que eles estão certos mais tarde), ainda há quem os siga enquanto estão vivos, que obedeça à Palavra de Deus, que mantenha os santos sacrifícios de Deus e se importe com os párias porque eles mesmos são uns párias. Elias pensou que estivesse sozinho, mas não estava. Chesterton é ignorado pelo mundo, mas há uns poucos que se lembram do que ele disse e sabem que ele estava — e ainda está — certo. Os poucos fiéis podem crescer em número, inclusive de forma rápida e discreta. O mundo não é feito apenas de ervas daninhas; o trigo cresce em meio ao joio.

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