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Os pais ou os pares? A tradição ou a moda?
Sociedade

Os pais ou os pares?
A tradição ou a moda?

Os pais ou os pares? A tradição ou a moda?

Já foi ignorado por um grupo de crianças ou de adolescentes? Seu próprio filho já se transformou numa pessoa hostil e obcecada por passar tempo com os amigos? Entenda o fenômeno moderno da “orientação pelos pares”.

Vanessa P. LopezTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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À medida que nos aproximamos de uma temporada de feriados mais tranquila e simples em meio à pandemia de Covid-19, o Senhor nos dá a oportunidade de nos concentrarmos no que é essencial: nossa fé e nossa família. Além das dificuldades e temores, a pandemia deu a muitas famílias agitadas a oportunidade de frear agendas cheias de compromissos, passar mais tempo reunidas e fortalecer a crucial relação entre pais e filhos. Essa relação não é apenas de suma importância para a saúde e o bem-estar das crianças e, portanto, para todo o mundo: é também um enriquecedor campo de descobertas para a compreensão de nossa cultura e de nossa relação com Deus.    

Já passou por um grupo de adolescentes e percebeu que todos eles evitaram deliberadamente fazer contato visual com você? Já tentou ensinar um grupo de crianças que não demonstram absolutamente nenhum interesse no que você tem a dizer? Seu próprio filho já deixou de ser alguém solidário e se transformou numa pessoa hostil e obcecada por passar tempo com os amigos? Todas essas situações da vida normal, anterior à pandemia, são manifestações da orientação dos pares.  

“Orientação dos pares” (em oposição a “orientação dos pais”) é o termo cunhado pelo psicólogo canadense Gordon Neufeld para descrever o fenômeno psicológico de filhos que se afastam dos pais e outros adultos confiáveis e passam a considerar outros jovens como guias ao longo da vida. Neufeld sugere que a orientação dos pares surgiu logo após a II Guerra Mundial, pois o contexto tradicional que dava suporte à parentalidade havia se desgastado. Ele mostra que a cultura sempre serviu de meio para a transmissão de sabedoria e de experiência da geração mais velha para a mais nova. No entanto, após a II Guerra Mundial, teve início uma “cultura jovem”: música, linguagem, cortes de cabelo etc. criados por jovens e transmitidos diretamente a outros jovens. Hoje, o conceito de uma cultura jovem é tão banal que talvez nem percebamos qual é a relação dela com a saúde da nossa sociedade, mas Neufeld nos alerta: é um sinal de que algo muito grave aconteceu.

Os dois elementos essenciais da relação entre pais e filhos são o vínculo emocional e a orientação [dada pelos pais]. O vínculo emocional começa na infância, com práticas concretas como ninar e carregar o bebê. Se tudo vai bem, o vínculo dos filhos com os pais se desenvolve e vai além da dimensão física, tornando-se um vínculo emocional e psicológico que pode suportar a separação física temporária. O vínculo saudável não precisa limitar-se aos pais; pode ser ampliado e incluir os avós ou outros cuidadores e professores de confiança. Nesse contexto, os filhos naturalmente seguem o exemplo dos adultos e correspondem à disciplina.  

As crianças precisam entender o mundo e aprender a amadurecer, e esses processos são descritos pelo conceito conexo de orientação. No curso normal do desenvolvimento, a bússola interior das crianças aponta para os pais na busca de respostas a essas perguntas. No entanto, essa orientação adequada não está de modo algum garantida. Assim como o vínculo afetivo, a orientação deve ser sólida e preservada de forma ativa. A orientação dos filhos pode ser realizada por meio de coisas importantes como a comunicação sadia com o cônjuge, e por coisas menores como dizer aos filhos o que eles podem esperar de um novo local que será visitado pela família.

Quando pais e filhos passam boa parte do dia separados, quando eventos traumáticos ameaçam a família, quando aspectos da cultura desgastam o vínculo entre pais e filhos, e quando pais bem-intencionados encorajam seus filhos a passar muito tempo com amigos em detrimento da convivência familiar, as crianças correm o risco de perder o vínculo com os adultos e a orientação deles, e terminam recorrendo umas às outras. São cegos que guiam outros cegos, provocando danos nos que se preocupam com eles (cf. Lc 6, 39). As crianças ficam obcecadas com a ideia de permanecer juntas e conseguir a aceitação dos pares, custe o que custar. Assim, tornam-se hostis aos adultos que procuram orientá-las. Como os colegas jamais podem oferecer uns aos outros verdadeira sabedoria e amor incondicional, crianças que são orientadas por seus colegas jamais amadurecerão plenamente.  

Mais do que nunca, os pais devem reivindicar de forma consciente e ativa o papel de modelo e guia dos filhos, atraindo-os com paciência para um vínculo amoroso, até que se tornem verdadeiros adultos. Podemos e devemos insistir em que nossos filhos passem mais tempo com a família do que com os colegas. Devemos ter coragem suficiente para introduzir as mudanças necessárias em nosso estilo de vida para que passemos mais tempo com eles, ainda que, por causa disso, eles aparentemente nos odeiem. Nós sabemos mais do que os nossos filhos, e eles precisam desesperadamente que atuemos conforme essa verdade.

A orientação dos colegas contra a dos pais tem algumas ramificações fascinantes que vão além da relação individual entre pai e filho, objeto de discussão de Neufeld e Gabor Maté, coautor do livro Hold on to Your Kids [“Pais ocupados, filhos distantes”]. O primeiro fenômeno a ser considerado é o fato de muitos adultos hoje em dia serem eles mesmos orientados por colegas. As redes sociais são um dos locais onde se pode constatá-lo com mais facilidade. Esse tipo de mídia nos estimula a verificar constantemente o que está acontecendo agora — quais são as tendências entre os adultos — e a nos envolver com isso. O medo de ficar desatualizado e o desejo de ser aceito nas redes sociais são preocupações que resultam da orientação dos pares entre crianças e se tornam notórias entre adultos. Suspeito que esse tipo de orientação dos pares, tão presente em nossa cultura, possa explicar, ao menos em parte, como aceitamos de forma tão rápida uma redefinição do casamento e da identidade sexual que teria sido incompreensível para a maioria dos seres humanos que nos precederam na Terra. Como crianças que buscam a orientação dos pares, nós, adultos, temos medo de ser diferentes.   

Se a obsessão com o que está na moda é um sinal da orientação pelos pares entre os adultos de hoje, qual seria a orientação “parental” correspondente para os adultos? Numa palavra: tradição. Peter Kreeft confirma meu ponto de vista com sua clareza característica em The Philosophy of Tolkien [“A filosofia de Tolkien”]: “Humildade implica aprender com outras pessoas. Aprender com outros implica respeito pela tradição, que não é nada mais do que aprender com os mortos. Como diz a célebre expressão de Chesterton: a tradição é a ‘democracia dos mortos’”. 

Para enfrentar os desafios do presente e delinear um trajeto inteligente para o futuro, temos de permanecer conectados ao que é bom e ao que permanece

Há na educação moderna um fenômeno correlato: menosprezar a sabedoria do passado e pressupor a superioridade moral e intelectual da atual geração. Grandes pensadores históricos são muitas vezes descartados por serem considerados racistas, misóginos ou odiosos, e assim nós somos privados de seus insights duradouros sobre como viver uma boa vida. Pensadores contemporâneos como C. S. Lewis, Anthony Esolen e Jordan Peterson já falaram e escreveram bastante a esse respeito, exortando-nos a não esquecer os “tesouros do passado”, como diz o Dr. Peterson. 

A desconfiança moderna em relação à tradição tem raízes na Reforma Protestante. O cristão católico vive uma fé “orientada pelos pais”: depositamos nossa confiança no Papa (o Santo Padre) e no Magistério instituído por Deus para interpretar a Sagrada Escritura; tomamos como modelo os santos, nossos irmãos mais velhos, e a Tradição como guia. O cristão protestante vive uma fé “orientada pelos pares”: começando por Lutero, Calvino, Zwinglio e outros, os protestantes rejeitaram a Tradição, considerando-a não fidedigna e corrupta. Em vez disso, tomaram o indivíduo como árbitro supremo da Bíblia, preparando assim o cenário para as inúmeras versões do cristianismo protestante que surgem e desaparecem, tendo pouca ou nenhuma relação com o cristianismo histórico.

Os cristãos protestantes são, portanto, suscetíveis à orientação dos pares em suas igrejas. Muitas vezes se fragmentam em grupos tão homogêneos que somente realizam seu culto e só escutam pessoas parecidas com eles em termos culturais e socioeconômicos. A globalidade e a universalidade da Igreja Católica ajudam os católicos a não cair nesse mesmo dilema. 

Nossa cultura perdeu outra importante “orientação parental”: a do vínculo respeitoso com a “mãe natureza” [1]. Embora o movimento ambientalista contemporâneo nos exorte a cuidar dos dons da natureza, não nos encoraja necessariamente a respeitar e a valorizar nossa própria natureza, manifesta em nosso corpo. De acordo com a sabedoria dos antigos, a tarefa de todo ser humano é descobrir a realidade e conformar-se a ela. Porém, a abordagem contemporânea procura definir a realidade para só então adequá-la à nossa opinião. Contracepção, aborto e “remédios” para a mudança de sexo são todos manifestações de uma atitude que diz: “Sabemos mais do que a ‘mãe natureza’”.

Em última análise, todas essas manifestações da orientação pelos pares em larga escala são consequências do primeiro ato de orientação pelos pares: a Queda. Nossos primeiros pais foram criados para viver numa relação de amor e confiança com Deus Pai: a verdadeira orientação parental. Quando, em vez disso, escutaram a voz do tentador e seguiram uma criatura (um “par”) em lugar do Criador, a relação filial foi dramaticamente prejudicada.

Qual é a resposta de Nosso Senhor a essa confusão gerada pela orientação dos pares? “Vendo a multidão, ficou tomado de compaixão, porque estava enfraquecida e abatida como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36). Nosso Salvador nos mostra que a relação que devemos ter com Deus deve ser de confiança absoluta e amorosa, e Ele faz isso vivendo-a com perfeição e convidando-nos a fazer o mesmo. Num paralelo preciso com as descrições de Neufeld e Maté sobre uma relação entre pais e filhos, Jesus estabeleceu os meios para o nosso vínculo e orientação salvífica em nossa relação com Deus

Os sacramentos são as ferramentas de Deus para estabelecer o vínculo afetivo. Primeiro, vinculamo-nos a Ele em nosso Batismo; em seguida, preservamos e fortalecemos esse vínculo por meio da Confirmação, da Confissão e da Eucaristia. Deus nos orienta no caminho da vida por meio da Bíblia e do Magistério da Igreja: “Vossa palavra é um facho que ilumina meus passos, uma luz em meu caminho” (Sl 118, 105). Quando permitimos que a mais importante das relações seja restaurada pela graça de Deus, também percebemos claramente o modo de restaurar a ordem em outros aspectos da vida.

Não deveríamos nos surpreender com o paralelo entre um bom livro sobre paternidade e a nossa fé. Algo verdadeiro na relação entre pais e filhos provavelmente será verdadeiro na relação entre Deus e o homem. Não foi por acaso que Deus determinou que nossa existência começasse, continuasse e terminasse no contexto familiar, pois ela é a melhor analogia material que podemos estabelecer com a vida interior dele: a Santíssima Trindade. Por isso, a defesa do matrimônio e da família é tão essencial. À medida que a pandemia de Covid-19 continua, em sua primeira temporada de festas de fim de ano, aproveitemos com coragem as oportunidades que a Providência nos tem dado para reconquistar os nossos filhos e permitir que Deus nos reconquiste

Notas

  1. Que o leitor entenda bem esta expressão, no contexto em que foi colocada. Não se trata de um termo mau em si mesmo, só porque é instrumentalizado pelo “movimento ambientalista contemporâneo” — do qual a própria autora fala no texto. Vale lembrar que o próprio S. Francisco de Assis refere-se à terra como “mãe”, sem que ela deixe de ser, ao mesmo tempo, “nossa irmã” (Cantico delle creature: Fonti Francescane, 263) (n.d.t.).

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São João Batista na arte e nas Escrituras
Espiritualidade

São João Batista
na arte e nas Escrituras

São João Batista na arte e nas Escrituras

Quando S. João Batista é retratado nas obras de arte, seu dedo quase sempre aponta para longe, pois ele veio não para indicar a si mesmo, mas para anunciar “o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo”.

John GrondelskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Entre os Evangelhos dos domingos do Advento há certo esquema: o primeiro domingo sempre se refere à segunda vinda de Cristo, ao passo que o quarto se concentra na Santíssima Virgem e em algum aspecto da Anunciação do anjo. Já o segundo e o terceiro domingos enfocam a pessoa e a missão de João Batista, o último dos profetas, Precursor de Cristo e pregador da conversão.

O enfoque de João na conversão, como meio de “preparar o caminho do Senhor” (Mc 1, 3), é, como Jean Danielou observou, o que o torna a figura central do Advento, e sua mensagem, o fio condutor desse tempo litúrgico. O chamado à conversão aparece pelo menos de cinco formas no breve Evangelho do segundo domingo do Advento, ano B (cf. Mc 1, 1-8):

  • Dois profetas são citados: Malaquias, um profeta pós-exílico que, para a purificação do povo de Israel, pregou contra a idolatria e a imoralidade (inclusive com críticas ao divórcio), em antecipação à vinda do Messias (cf. v. 2, aludindo a Ml 3, 1, embora sem nomeá-lo); e Isaías (cf. v. 3), cujo clamor se torna o lema de João Batista: “Preparai o caminho do Senhor, faça caminhos retos para Ele”;
  • João prega um “batismo de arrependimento” cujo propósito é “o perdão dos pecados” (v. 4);
  • Aqueles que o procuraram o fizeram “confessando seus pecados” ao serem batizados (v. 5);
  • João está vestido de roupas de penitência (pêlo de camelo não é muito confortável) e possui uma dieta penitencial (cf. v. 6);
  • João ressalta que sua missão está subordinada à daquele que é maior, “cujas sandálias não sou digno de abaixar e desamarrar” (v. 7).

O foco do início do Evangelho de Marcos é a conversão. Marcos não faz uma narrativa da infância (relato do nascimento de Jesus). O evangelista, depois de apresentar João Batista, diz que: a) Jesus vai até ele para ser batizado; b) que o Pai declara: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho a minha afeição” (v. 11); c) que Jesus é então tentado sem sucesso no deserto; d) e que Ele, enfim, começa sua missão. As primeiras palavras de Jesus registradas no Evangelho de Marcos ecoam as de João, exortando ao arrependimento: “Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede no Evangelho” (v. 15, grifo nosso, trecho também usado como fórmula para a imposição das cinzas na Quarta-feira de Cinzas).

O primeiro Advento — da queda de Adão até a vinda de Cristo — foi necessário por causa do pecado, pela necessidade do homem e sua incapacidade de se salvar e pela redenção oferecida por Cristo. Nosso Advento, hoje, é necessário para que se aplique a nós essa salvação e para que também nos convertamos, abandonando o pecado e voltando-nos constantemente para Deus, ações que são, na verdade, duas faces de uma mesma moeda. Eu não posso afastar-me de Deus sem me voltar para uma criatura, nem me afastar das criaturas sem me voltar para o Criador. É por isso que o aviso de João não é apenas um monumento histórico, destinado a multidões reunidas na margem do Jordão há cerca de 2 mil anos. Ele está sendo igualmente dirigido a mim hoje.

Detalhe de “São João Batista e Herodes Antipas”, de Pieter de Grebber.

Foi igualmente dirigido a Herodes Antipas, cujo encontro com João Batista é retratado nesta pintura do holandês Pieter de Grebber (1600–1652/53). O pecado nunca é genérico, e João não pregou o arrependimento de modo vago. Ele disse aos cobradores de impostos que não trapaceassem (cf. Lc 3, 13); disse aos soldados que não intimidassem nem dessem falso testemunho (cf. Lc  3, 14); e disse a Herodes Antipas especificamente que não dormisse com a esposa divorciada de seu irmão, além de apontar “todos os crimes que ele praticara” (Lc 3, 19). De Grebber retrata o momento dessa pregação e como ela foi recebida.

De Grebber pintou durante a idade áurea da pintura barroca flamenga. Ele era um contemporâneo mais jovem de Peter Paul Rubens e parece ter sido bastante ativo na pintura de temas católicos para uma Igreja um tanto escondida na Holanda, país que havia adotado o protestantismo calvinista (por exemplo, em Amsterdã em 1578). De Grebber passou a maior parte da carreira em Haarlem, a oeste de Amsterdã.

“São João Batista e Herodes Antipas” é uma pintura barroca sobre o chamado de João à conversão e a consideração de Herodes a esse respeito. Como é típico da pintura barroca, se você desenhar duas linhas diagonais cruzando a tela, identificará os dois protagonistas: João e Herodes. Os dois também estão mais ou menos antepostos e em contato visual, e o diálogo entre eles é indicado por seus dedos apontados um para o outro. O cetro de Herodes também aponta para o de João, cuja linha é captada pelo bastão cruzado que ele carrega.

Como é característico na pintura barroca flamenga, a figura-chave geralmente se destaca em cores brilhantes e atraentes, normalmente em contraste com um fundo mais monocromático. Faça um teste: coloque a mão sobre a figura de Herodes e sua comitiva, e a pintura ficará um tanto escura.

Então, João Batista não é a figura central da pintura? O cetro de Herodes aponta para ele e, como observado, a linha do cetro é captada pelo bastão cruzado que João carrega. Portanto, o instrumento de poder de César está subordinado ao de Deus (que é um cajado de arrependimento). João é um pouco mais alto do que Herodes, e o rei se põe a observá-lo.

Mas João dificilmente poderia estar vestido com os trajes coloridos da realeza quando: a) sua mensagem, simbolizada até mesmo em suas roupas, é de arrependimento, b) o Evangelho (cf. Mc 1, 6) detalha o estilo de vestuário de João e c) a pintura retrata claramente a resposta à pergunta de Jesus sobre o que as pessoas foram ver no deserto: “Um homem vestido com roupas luxuosas? Não, quem usa essas roupas está nos palácios dos reis” (cf. Mt 11, 8; Lc 7, 25).

Na verdade, como na própria vida, João Batista não é a figura central da pintura, mas sim a sua mensagem de conversão. Não por acaso, quando João é retratado artisticamente, seu dedo quase sempre aponta para longe dele. Pois ele não veio indicar a si mesmo. Geralmente, aponta para “o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo” (Jo 1, 29).

Na pintura, porém, de Pieter de Grebber, o dedo de João aponta propositalmente para Herodes, porque nele, que ouviu o chamado à conversão, está representado o drama da salvação de cada homem. Herodes ouviu; mas o que faz? Será como a semente entre os espinhos que, tendo ouvido a Palavra, permite que “as preocupações desta vida e o engano das riquezas” a tornem estéril e ineficaz (cf. Mt 13, 22)? Ou receberá a bem-aventurança do Senhor: “Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a observam” (Lc 11, 28)?

Ninguém pode fazer essa escolha por Herodes. A maioria das pessoas na pintura estão ocupadas conversando entre si. O que João se atreveu a dizer? O que o rei vai fazer?

Outra pintura de De Grebber: “Herodíades mutilando a cabeça decapitada de S. João Batista, a qual é segurada por Salomé”.

A única outra voz “ouvida” na pintura é a de Herodíades. A intimidade sexual deles é representada na pintura pela proximidade física: eles praticamente formam uma única figura que, mesmo para uma mulher e consorte real da Antiguidade, o está pressionando. Ela quer agora entrar em seu olhar (como antes), já que os olhos são a janela da alma, e seus ouvidos ela já os têm. Ela e aquilo que ela representa indicam a decisão moral que Herodes precisa tomar: ouço a Palavra de Deus por meio deste profeta, ou a palavra de Herodíades em meus ouvidos? Vemos aqui que não são novas as ideias de “gênero” na política e as implicações das diferentes ideias sobre sexo nas políticas públicas. Da mesma forma, não há novidade alguma no fato de que ideias de inspiração religiosa sobre a devida ordem da sexualidade podem ser um obstáculo à maneira como um governante quer dirigir o seu país, seja ele Herodes, Henrique ou Bill [1].

Nós sabemos como vai acabar a história: como Fitafuso nos diz na Carta 9 (das Cartas de um diabo a seu aprendiz), o sexo é geralmente um meio eficaz o bastante para tornar os pensamentos religiosos uma fase passageira, tese nascida de Mt 14, 3-11. E, não obstante os que minimizam e desprezam a “guerra cultural” sobre o papel da vida e do sexo na moralidade pública, a história nos mostra que muita política, economia e história é movida — para o bem ou para o mal — por essa tese.

Mas ainda não chegamos lá. A decisão está sendo ponderada. De Grebber capta o momento no qual entra em cena a consciência, à qual o Vaticano II se referiu como o sacrário mais íntimo do homem. Ninguém pode decidir por mim, assim como ninguém poderia decidir por Herodes. Mas a decisão dele não é sobre o ensinamento de João estar “de acordo com a sua consciência” (uma falácia peculiarmente moderna que trata a consciência mais como um tear moral que como um espelho); trata-se, antes, de uma escolha: ou ele segue João e se livra de Herodíades, ou ele segue Herodíades e se livra de João.

Cada ser humano está no lugar de Herodes. É o preço de ser homem. É o drama da salvação capturado na tela de De Grebber, na qual cada um de nós pode facilmente substituir o “homem vestido com roupas finas”.

Notas

  1. O autor certamente faz referência ao rei Henrique VIII, cujo desejo de divórcio levou-o a fundar a Igreja Anglicana, e ao presidente Bill Clinton, cujo escândalo extraconjugal quase o tirou prematuramente do governo dos Estados Unidos, na década de 1990. Logo a seguir, o autor acrescenta: or whether it involves sisters-in-law or Little Sisters, isto é, “esteja o caso envolvendo cunhadas ou Pequenas Irmãs”. O jogo de palavras do original é intraduzível, mas é uma alusão direta à batalha judicial Little Sisters of the Poor v. Pennsylvania, protagonizada por religiosas católicas que se recusavam a fornecer aborto e contraceptivos em seu trabalho na área da saúde, contra uma disposição injusta do governo do então presidente Barack Obama (n.d.t.).

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Ève Lavallière: uma Madalena moderna
Testemunhos

Ève Lavallière:
uma Madalena moderna

Ève Lavallière: uma Madalena moderna

Por que uma das atrizes mais célebres de sua época rejeitou tudo o que o mundo tinha a oferecer? Conheça a bela história de conversão e penitência trilhada pela artista francesa Ève Lavallière, no início do século XX.

K. V. TurleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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No dia 12 de julho de 1929, uma sexta-feira, foi publicada a seguinte reportagem no The Times de Londres: 

Nosso correspondente em Paris informa via telégrafo que faleceu em Thuilieres, no departamento de Vosgos, a srt.ª Ève Lavallière, outrora uma eminente atriz. Ela havia se aposentado há doze anos, após ter subitamente decidido, em 1917, levar uma vida de isolamento consagrada à religião. 

E por que uma das atrizes mais célebres do mundo rejeitou tudo o que ele tinha a oferecer? O mundo não sabia que essa atriz cômica, sagaz e contadora de histórias, sensação dos palcos de Paris e de outros lugares, amante e mãe, uma das mulheres mais ricas e belas de sua época, não vivia em paz. A mulher por trás da máscara de atriz fora atormentada por uma impenetrável tristeza, sendo vítima de depressões, do desespero e de pensamentos suicidas

Em 1916, no auge da fama, e para auxiliar o trabalho de guerra, Ève Lavallière realizou uma série de apresentações em Londres. Depois de uma dessas apresentações, ela deixou o palco enquanto o público, de pé, a aplaudia. Aonde ela teria ido? 

Nada menos que à margem do Rio Tâmisa, para afogar-se.  

Porém, enquanto observava o reflexo das luzes da cidade brincando no curso do rio escuro, que sempre segue adiante, ela desistiu (por pouco). Infelizmente, não foi a primeira vez que tais pensamentos a levaram à beira da aniquilação; no entanto, curiosamente, seria a última. Menos de um ano depois, ocorreu um episódio que viria a mudar a vida dela para sempre.

Ève Lavallière.

Eugénie Marie Pascaline Fenoglio nasceu em Toulon num Domingo de Páscoa, em 1.º de abril de 1866. Seu pai era mau humorado e depressivo. Ève, seu irmão mais velho e sua mãe viviam sob medo e tensão constantes. A situação atingiu seu ponto crítico no dia 6 de março de 1884, um domingo.

Após dias de ofensas ininterruptas contra a mãe de Ève, ouviu-se um disparo de pistola. Então, as crianças viram a mãe deitada no chão: ela estava ferida mortalmente. Ève olhava, incrédula; mas, em seguida, viu que a mesma pistola estava apontada para ela. Um tiro foi disparado, mas ricocheteou na parede, porque o alvo abaixara para se proteger. Em seguida, disparou-se outro tiro. Dessa vez, ele atingiu o alvo, e o pai de Ève caiu morto. Então, as duas crianças fugiram de casa. Separaram-se e nunca mais se encontraram

Ève passou a sobreviver com uma série de trabalhos insignificantes em meio a uma obscuridade provincial. Essa situação alimentou uma ardente ambição: escapar. A partir daquele momento, ela passou a combinar um rosto atraente e uma vivacidade cada vez maior com uma vontade de ferro; assim, conseguiu escapar para os palcos de Paris, tomando no caminho o nome artístico de “Ève Lavallière”. Daí em diante, como num conto de fadas, todos os seus desejos tornaram-se realidade. Mas desejos não são orações, e a realização de seus sonhos gradualmente se transformaria num pesadelo vivo.

Ève atuava diante de grandes plateias que a adoravam e contavam inclusive com monarcas; o mundo parecia estar a seus pés. Ninguém sabia, no entanto, como as sombras que cercavam a atriz ficavam cada vez mais densas. Quando as luzes dos palcos se apagavam, a escuridão ficava povoada apenas por demônios que a atormentavam sem cessar.

Tudo isso acabaria em maio de 1917. Ève Lavallière, então com 51 anos de idade, assinou um contrato para fazer uma turnê pelos Estados Unidos, a qual era acompanhada por uma promessa de uma fama ainda maior. Antes de partir, ela sentiu a necessidade de descansar no campo. Retirou-se ao rústico remanso de Touraine.

Coincidentemente, o proprietário da casa que ela alugara era o pároco local. Pe. Chesteigner, um bom sacerdote, perguntou por que Ève não comparecera à Missa dominical. Daí em diante, ela passou a assistir à Missa todos os domingos, mais por respeito humano que por reverência. Não obstante, o sacerdote e sua nova paroquiana começaram a conversar. Ela lhe revelou, entre outras coisas, como se aventurara pelo oculto. O sacerdote, chocado, fez um alerta sobre o grave erro de tais flertes. Ela ficou perturbada com a reação do padre. Tanto, que naquela mesma noite, mais tarde, ela caiu em si como numa espécie de insight, que apareceu sob a forma de uma pergunta: se o demônio existe, por que não Deus? 

Naquela noite, essa pergunta a deixou perplexa e a levou a fazer outras sobre a vida que havia levado e o estilo de vida que ainda mantinha.

No dia seguinte, apresentou-se humilhada ao sacerdote e, para o espanto dele, sentou-se e disse que só tinha uma intenção: ser instruída na fé católica.

Ao longo das semanas seguintes, ela leu sobre a vida da santa com a qual mais se identificaria posteriormente: Maria Madalena. O sacerdote lhe emprestou um volume que narrava a vida da santa e sugeriu que o lesse. Ève estava desesperada. Ela o fez e, logo em seguida, vieram o arrependimento e a confissão.

A Madalena, de Murillo.

Até hoje podemos ver na matriz da paróquia de Chanceaux as seguintes palavras gravadas na pedra: “Nesta igreja, Ève Lavallière se converteu e recebeu a comunhão no dia 19 de junho de 1917, após ter se reaproximado de Deus por meio do Pe. Chesteigner”.

Depois de sua conversão, Ève se transformou numa alma penitente, recorrendo à oração e à mortificação para reparar os erros da vida passada. Ela tentou encontrar um lar espiritual (um convento ou um mosteiro), mas não foi bem-sucedida. Vagou de um lugar para outro antes de se recolher em Lourdes. Lá era possível avistá-la fazendo a Via Sacra, descalça mesmo em meio à chuva torrencial.  

Ela se sentia cada vez mais sozinha depois de ter-se retirado definitivamente a uma vida discreta. No final da vida, como no caso da santa que tomava por modelo, a única coisa que lhe restava era a cruz: seu único refúgio das tempestades que então começavam a assaltá-la.   

Durante aquele período, sua filha ilegítima se vangloriava do estilo de vida imoral que levava, algo que fazia Ève chorar bastante, talvez mais do que qualquer outra coisa. Sem demonstrar remorso algum, sua filha tinha um cruel prazer de tomar da mãe tudo o que podia, ao mesmo tempo que não lhe dava nada em troca, a não ser uma fria indiferença.

Em seus últimos dias de vida, a saúde de Ève (que já era frágil) entrou em colapso, pois ela trilhou seu caminho penitencial com a mesma intensidade com que trilhara o do mal. A doença e a enfermidade fizeram do corpo dela sua própria cruz. Finalmente, por razões médicas, suas pálpebras tiveram de ser costuradas. Nessa operação, realizada sem anestesia nem queixas, ela ofereceu uma dor quase insuportável em expiação, dizendo simplesmente que havia pecado com a visão.

Na madrugada de 10 de julho de 1929, chegou ao fim a longa vigília de Ève ao pé da cruz. Ela foi enterrada num túmulo simples em Thuillières, onde foram escritas as seguintes palavras:

DEIXEI TUDO POR DEUS. SÓ ELE ME BASTA.

A breve reportagem jornalística sobre sua morte diferia totalmente das colunas publicadas décadas antes, na época em que ela não tinha concorrente nos palcos europeus. Porém, poucos anos depois de sua morte, foram publicados livros sobre sua vida e conversão, e surgiu em torno de sua memória — com certa cautela — um culto diferente daquele que ela conhecera no ápice da fama. 

Despontando enfim num palco muito diferente, Ève Lavallière começou a desempenhar seu derradeiro e mais importante papel.

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Uma relíquia única: a Santa Casa de Loreto
Virgem Maria

Uma relíquia única:
a Santa Casa de Loreto

Uma relíquia única: a Santa Casa de Loreto

Por incrível que pareça, a mais santa das casas do mundo, onde viveram Jesus, Maria e José, não está na Terra Santa. Ela costumava ficar lá, sim, mas “mudou-se”, há mais de 700 anos, para a Itália. Conheça o milagre da Santa Casa de Loreto.

Pe. Donald CallowayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 13 minutos
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Há quem tenha visitado Loreto e não tenha visto com os próprios olhos e ouvido com os próprios ouvidos os feitos poderosos de Deus, e não os tenha sentido em sua alma [1]?

A mais santa das casas do mundo está na Itália. 

Você leu certo. Ela costumava ficar na Terra Santa, mas “mudou-se”.

A casa de Jesus, Maria e José encontra-se na cidade de Loreto, Itália. Como ela chegou lá? Bem, o que você está prestes a ler é a história real de como a casa da Sagrada Família em Nazaré foi transportada para a Itália por anjos. A história é tão fascinante que, muito provavelmente, você vai ficar com vontade de ir a Loreto depois de lê-la.

De acordo com os historiadores, o lar da Sagrada Família permaneceu em Nazaré por treze séculos. Então, no dia 10 de maio de 1291, de repente, ele desapareceu! Tudo o que permaneceu dela foi a fundação. A desaparição repentina da casa foi notada por todos em Nazaré, deixando a comunidade absolutamente perplexa. Que uma pessoa, ou um grupo de pessoas, a removesse tão rápido, sem que ninguém notasse, era algo impossível de acontecer.

De acordo com a tradição, a Santa Casa foi transportada de Nazaré por anjos. Nos relatos de suas experiências místicas, a Beata Ana Catarina Emmerich falou da transladação da casa pelos anjos. Ela afirma:

Tenho testemunhado com frequência, em visão, o translado da Santa Casa de Loreto. Por muito tempo não pude acreditar no que via, mas continuei a ter visões do fato. Vi a Santa Casa ser transportada sobre o mar por sete anjos. Ela não tinha fundação, mas havia sob ela uma superfície brilhante de luz. Em cada um dos lados, havia uma espécie de alça. Três anjos a carregavam de um lado e três do outro; o sétimo ia à frente, tendo atrás de si um extenso cortejo de luz [2].

Fascinante relato! O que a Beata Ana Catarina não viu, no entanto, foi que os anjos levaram a Santa Casa de Nazaré primeiro para a cidade de Trsat, região onde hoje se localiza a Croácia. Por que a levaram aí? Qual era o sentido de transportá-la, afinal de contas?

A Santa Casa foi transportada em 1291. A razão para seu translado por anjos, saindo de Nazaré, tornou-se clara três anos depois. Em 1294, toda a cidade de Nazaré foi saqueada por invasores muçulmanos. Se a Santa Casa houvesse permanecido em Nazaré, os muçulmanos a teriam destruído por completo. Deus anteviu o ato de sacrilégio e enviou seus santos anjos para levar a casa a outro lugar.

Ao longo dos séculos, Deus usou pessoas como S. Helena para retirar relíquias (objetos associados a Jesus, Maria e os santos) da Terra Santa e colocá-las em locais mais seguros. S. John Henry Newman visitou uma vez a Santa Casa e fez uma declaração muito perspicaz sobre sua mudança de lugar. Ele escreveu:

Aquele que fez a Arca [de Noé] flutuar nas ondas de um imenso mar e nela juntou todos os seres vivos; que ocultou o paraíso terrestre; que disse que a fé pode mover montanhas; que sustentou milhares por quarenta anos em um deserto estéril; que arrebatou Elias e o mantém inacessível até o fim dos tempos, poderia fazer esta maravilha também. E, de fato, vemos todas as outras recordações sobre Nosso Senhor e seus santos reunidas no coração da cristandade desde os confins da Terra, porquanto o paganismo tenta usurpá-las (isto é, suas relíquias). S. Agostinho saiu de Hipona; o profeta Samuel e S. Estêvão saíram de Jerusalém; o presépio em que Nosso Senhor jazia saiu de Belém com S. Jerônimo; a cruz foi desenterrada; S. Atanásio foi para Veneza. Em suma, não sinto dificuldade alguma em acreditar nisso [3].

Mas, então, por que foi primeiro para a Croácia? Por que os anjos não a levaram diretamente para a Itália? Ninguém sabe realmente a resposta. Talvez Deus quisesse abençoar a terra da Croácia com a presença da Santa Casa antes de levá-la ao seu local definitivo. Outrora, Jesus havia curado um surdo também em etapas e não imediatamente. A mudança da Santa Casa, pelos anjos, para vários lugares antes de chegar a Loreto fez com que houvesse uma multidão de testemunhas do milagroso desaparecimento e reaparecimento da casa. Em outras palavras, ao permitir Deus que a casa fosse movida várias vezes antes de colocá-la em Loreto, evidencia-se que ela não estava sendo movida pelo homem, mas pelos santos anjos de Deus.

Vejamos todos os translados milagrosos associados à Santa Casa.

Em 10 de maio de 1291, dia em que a Santa Casa desapareceu de Nazaré, as pessoas da aldeia de Trsat, na Croácia, testemunharam o súbito aparecimento de uma nova casa na aldeia. Ninguém ali sabia como isso tinha acontecido. Curiosamente, os moradores observaram que as quatro paredes da casa estavam apoiadas na terra. Ou seja, a casa não tinha fundação.

Depois de estar na Croácia por três anos, a casa desapareceu milagrosamente em 10 de dezembro de 1294. Ninguém na aldeia viu a casa sair. A única coisa que restou no local onde ela ficava foi o seu contorno na terra. Até hoje, um monumento marca o local exato em Trsat, Croácia, onde a Santa Casa esteve localizada por três anos.

Para onde foi a casa depois da Croácia? Foi levada por anjos para o outro lado do Mar Adriático até a cidade de Piceno, na Itália. Por incrível que pareça, a mesma coisa aconteceu nesta cidade: ninguém viu a casa chegar nem sabia de onde ela tinha vindo. A casa permaneceu ali por oito meses. Provavelmente, ficou em Piceno apenas oito meses porque ladrões começaram a roubar os peregrinos (muitos da Croácia) que estavam indo visitar a Santa Casa. Em agosto de 1295, a casa desapareceu novamente e reapareceu em uma colina não muito longe de Piceno. No entanto, a colina onde a casa foi colocada pertencia a dois irmãos, que passaram a brigar pela propriedade da casa. Incapazes de resolver a disputa, os irmãos começaram a explorar os peregrinos para obter lucro. A Santa Casa só permaneceu na propriedade deles por alguns meses antes de desaparecer novamente, de forma milagrosa!

Perto do fim de dezembro de 1295, a Santa Casa foi levada por anjos a poucos passos de distância do local anterior, longe o suficiente para não ser mais propriedade daqueles irmãos. Este local, conhecido como Loreto, é a localidade onde hoje se encontra a casa. (O milagre da Santa Casa transportada por anjos quatro vezes é a razão pela qual a Igreja Católica declarou Nossa Senhora de Loreto a padroeira da aviação). 

Como sabemos que tudo isso é verdade? Pois bem, em 1296, um ano após a chegada da Santa Casa a Loreto, a Igreja Católica designou 16 emissários para investigar tudo. Eles visitaram Loreto, a Croácia e Nazaré, e realizaram extensos estudos para verificar a autenticidade dos acontecimentos. Os emissários foram primeiro a Loreto. 

Exterior do Santuário da Santa Casa de Loreto.

No terreno em Loreto, fizeram medições precisas da casa, observando cada detalhe. Então viajaram para Trsat, na Croácia, para o local onde a casa havia descansado, e tiraram as medidas das marcas deixadas na terra pela casa. Em seguida, viajaram a Nazaré a fim de comparar as medidas de Loreto e Trsat com a fundação original. Incrivelmente, em todos os três lugares (Loreto, Croácia e Nazaré) as medidas eram exatamente as mesmas! Não houve nenhuma discrepância. Tudo combinou perfeitamente.

Séculos depois, cientistas realizaram uma análise química das pedras das paredes da Santa Casa de Loreto. Também foram feitos estudos químicos sobre a madeira utilizada no teto da casa. O que eles descobriram? Que as paredes da Santa Casa são feitas de pedras exclusivas da região de Nazaré, e a madeira do teto vem da mesma região! Até a argamassa usada para a casa foi identificada como material originário da Terra Santa. 

Devido ao resultado dos estudos, uma igreja maior começou a ser construída ao redor da casa para acomodar os muitos peregrinos que iam a Loreto. Além de atestar a veracidade desses eventos milagrosos, os peregrinos continuaram a viajar para Loreto, vindos de Trsat, na Croácia, todos os anos, pedindo aos céus que trouxessem a Santa Casa de volta àquele país.

Após a chegada da Santa Casa a Loreto, na Itália, em 1295, cerca de 50 papas afirmaram seu milagroso transporte por anjos, às vezes se referindo ao transporte como a “transladação” da Santa Casa. No século XV, dois papas foram milagrosamente curados na Santa Casa. No século XVI, concluiu-se uma basílica fortificada ao redor da Santa Casa para protegê-la de ataques muçulmanos. Posteriormente, para fortalecer ainda mais a estrutura, a Santa Casa foi revestida com mármore de Carrara. 

Quase todos os papas depois de Pio II (um dos papas do século XIII que foi milagrosamente curado) falaram de sua transladação milagrosa [4].

Por que Deus e a Igreja tomaram tais medidas para preservar a casa? Porque ela é o local da Encarnação! A tradição diz que Maria nasceu e foi criada na Santa Casa, e que justamente nessa casa o Arcanjo Gabriel apareceu à Virgem e o Verbo divino se fez carne. É uma casa de maravilhas sobrenaturais!

Diz-se que ela (Maria) nasceu na própria cidade de Nazaré e, de fato, no mesmo quarto em que, sob ação do Espírito Santo, ela concebeu após a anunciação do Anjo [5].

Esta é, na realidade, a Casa de Nazaré que é venerada em Loreto, aquela Casa querida por Deus com tantas reivindicações, construída originalmente na Galileia, separada de seus alicerces e transportada pelo poder divino através dos mares, primeiro para a Dalmácia, e daí para a Itália — a abençoada Casa onde a Santíssima Virgem, predestinada desde a eternidade e perfeitamente isenta do pecado original, foi concebida, nasceu e foi educada; onde o mensageiro do céu a saudou como “cheia de graça”; onde se tornou a Mãe do Filho unigênito de Deus [6].

Na Santa Casa também viveu a Sagrada Família em Nazaré. A casa costuma ser chamada “Santa Casa de Maria”, mas também merece ser chamada “Santa Casa de José”. Quando e como S. José tomou posse da casa não é certo, mas isso provavelmente ocorreu ao se casar com Maria. Na verdade, as escavações recentes perto da Basílica da Anunciação oferecem pistas de como a casa da infância de Maria se tornou o lar da Sagrada Família. 

Quando os peregrinos viajam para a Terra Santa, eles costumam ir a Nazaré para ver a Basílica da Anunciação (onde ficava a Casa Santa e onde permanece a fundação do quarto da Encarnação). O que muitos peregrinos desconhecem completamente é que muito perto da Basílica fica a oficina de S. José

A tradição relata que, quando José e Maria estavam noivos, mas antes de viverem juntos, José morava e trabalhava em sua própria casa naquelas proximidades. Uma vez casados, quando começaram a viver juntos, escolheram morar na casa da infância de Maria, e José passou a usar a outra casa como oficina. Isso nos ajuda a entender por que S. José não estava presente quando o anjo visitou Maria na Anunciação: ele, na época, ainda não morava com ela. 

A Santa Casa é uma relíquia única que centenas, senão milhares, de santos visitaram. Antes de ser transportada para Loreto, S. Francisco de Assis e S. Helena visitaram-na em Nazaré. Desde o seu transporte místico para Loreto, inúmeros santos fizeram peregrinação a Loreto para vê-la, incluindo: 

  • S. Inácio de Loyola;
  • S. Francisco Xavier (ele fez uma peregrinação a Loreto antes de partir em sua jornada missionária para a Índia);
  • S. Francisco Borja;
  • S. Carlos Borromeu;
  • S. Pedro Canísio (ele defendeu a verdade da Santa Casa contra os protestantes que a chamavam de lenda);
  • S. Luiz Gonzaga;
  • S. Tiago da Marca;
  • S. Estanislau Kostka;
  • S. Francisco de Sales;
  • S. Luís Guanella;
  • S. Lourenço de Brindisi;
  • S. Bento José Labre, que é chamado “Santo de Loreto” porque costumava visitar com frequência a Santa Casa;
  • S. Francisco Caracciolo;
  • Beato Antônio Grassi, que cresceu perto da Santa Casa. Certa feita, enquanto se ajoelhava em oração na casa, foi atingido por um raio. O raio curou milagrosamente sua dor aguda de indigestão, que perdurara a vida toda. Devido à cura, ele prometeu visitar a Santa Casa uma vez por ano em peregrinação;
  • S. Afonso de Ligório, que chegou a afirmar que “deixou o coração” em Loreto;
  • S. Maximiliano Maria Kolbe;
  • S. Josemaría Escrivá, que visitou a Santa Casa sete vezes e consagrou o Opus Dei a Maria em Loreto;
  • Papa S. João XXIII;
  • Papa S. João Paulo II.

S. Teresa de Lisieux visitou a Santa Casa em 1887, quando se dirigia a Roma com o pai. Ela escreveu sobre sua visita na História de uma alma

Estava contente em tomar a estrada de Loreto. Não me admiro de que a Santíssima Virgem tenha escolhido este lugar para transportar sua casa bendita. A paz, a alegria, a pobreza reinam aí, como soberanas. Tudo é simples e primitivo, as mulheres conservaram seu gracioso traje italiano e não adotaram, como as outras cidades, a moda de Paris. Enfim, Loreto me fascinou! Que direi da santa casa?... Ah! Minha emoção foi profunda, achando-me sob o mesmo teto que a Sagrada Família, contemplando as paredes sobre as quais Jesus fixara seus olhares divinos, pisando a terra que São José regara de suores, onde Maria carregara Jesus em seus braços, após o ter trazido em seu seio virginal… Vi o pequeno quarto onde o Anjo descera junto da Santíssima Virgem… Coloquei meu terço na tigelinha do Menino Jesus… Que lembranças encantadoras!... [7]
“Transladação da Santa Casa”, de Francesco Foschi.

A Santa Casa é uma relíquia poderosa. Nela, Jesus, Maria e José viveram, dormiram, comeram e oraram. É tão poderosa que o diabo não quer ter nada a ver com ela. O Beato Batista Spagnoli de Mântua (1447-1516), chefe da Ordem Carmelita de 1513 a 1516 e sacerdote muito dedicado à Santa Casa, deixou-nos o seguinte relato, de uma testemunha ocular, sobre um exorcismo realizado numa mulher na Santa Casa de Loreto, em 16 de julho de 1489:

Não posso ignorar o que vi com meus próprios olhos e ouvi com meus próprios ouvidos. Aconteceu que uma senhora francesa de poucos recursos e de nobre ascendência chamada Antônia, que há muito estava possuída por espíritos malignos, foi levada ao lugar sagrado por seu marido para que pudesse ser liberta. Enquanto um padre chamado Estêvão, homem exemplar, lia sobre ela os exorcismos habituais, um dos demônios que se gabava de ter sido o instigador do massacre dos Santos Inocentes, ao ser questionado, para sua confusão, se aquele tinha sido o quarto da Virgem Imaculada, respondeu que sim, mas o reconhecia [confessava] contra sua vontade, compelido por Maria a admitir a verdade. Além disso, o demônio apontou para os lugares da Santa Casa onde estavam Gabriel e Maria [8].

A Santa Casa possui até seu próprio dia de festa litúrgica. Em 12 de abril de 1916, o Papa Bento XV emitiu um decreto estabelecendo o dia 10 de dezembro como festa litúrgica anual da Transladação da Santa Casa. Até hoje, a festa é celebrada em Loreto com grande solenidade todos os anos.

Naquela bendita Casa teve lugar o início da salvação do homem pelo grande e admirável mistério de Deus feito homem. Em meio à pobreza, nesta casa retirada viviam aqueles modelos de vida doméstica e de harmonia [9].

Não é por um milagre sem paralelo que esta Santa Casa foi trazida por terra e mar da Galileia para a Itália? Por um supremo ato de benevolência da parte do Deus de toda misericórdia, foi colocada em nosso domínio pontifício, onde por tantos séculos tornou-se objeto de veneração de todas as nações do mundo e resplandece com incessantes milagres [10].

A Santa Casa de Loreto é a morada na qual o Verbo divino assumiu a carne humana, e foi transladada pelo ministério dos anjos. Sua autenticidade é comprovada por monumentos antigos e tradição ininterrupta, pelo testemunho de Sumos Pontífices, pelo consentimento dos fiéis e pelos contínuos milagres que são realizados até hoje [11].

Referências

  • Texto extraído de: Pe. Donald H. Calloway. Consecration to St. Joseph: The Wonders of Our Spiritual Father. Stockbridge: Marian Press, 2020, pp. 180-187.

Notas

  1. S. Pedro Canísio apud Godfrey E. Phillips, The House of the Virgin Mary. Manchester: Sophia Institute Press, 2017, p. 155.
  2. Beata Ana Catarina Emmerich, The Complete Visons of Anne Catherine Emmerich. San Bernardino: Catholic Book Club, 2018, p. 76.
  3. S. John Henry Newman apud E. Phillips, The House of the Virgin Mary, p. 3-4.
  4. S. Afonso Maria de Ligório, The Glories of Mary. Brooklyn, Redemptorist Fathers, 1931, p. 696.
  5. S. Jerônimo apud E. Phillips, The House of the Virgin Mary, p. 26.
  6. Beato Papa Pio IX apud E. Phillips, The House of the Virgin Mary, p. 142.
  7. S. Teresa do Menino Jesus. Manuscrito A, 59v. In: Obras completas: escritos e últimos colóquios. S. Paulo: Paulus, 2002, pp. 128-129.
  8. Beato Batista Spagnoli de Mântua apud E. Phillips, The House of the Virgin Mary, p. 108.
  9. Papa Leão XIII apud E. Phillips, The House of the Virgin Mary, p. 142.
  10. Beato Papa Pio IX apud E. Phillips, The House of the Virgin Mary, p. 141.
  11. Papa Bento XIV apud The Glories of Mary. Brooklyn, Redemptorist Fathers, 1931, p. 696.

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