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O amor que animou José de Anchieta

Os apóstolos acendem diante dos homens a luz de Cristo porque querem alegrar o coração de Deus. Foi o que fez o beato José de Anchieta em solo brasileiro.

Será canonizado pelo Papa Francisco, este mês, o bem-aventurado José de Anchieta, “apóstolo do Brasil". Por seus corajosos esforços, muitíssimas almas foram conquistadas para Cristo e o que podia não passar de mais um reinado mundano pôde, por graça de Deus, tornar-se Terra de Santa Cruz.

José de Anchieta, de nacionalidade espanhola, nasceu nas Ilhas Canárias, no ano de 1534. Foi sua mãe, então recém-convertida ao cristianismo, quem lhe deu a dádiva da fé. Mandado a Portugal muito cedo para estudar, destacou-se como uma mente brilhante, chegando à trabalhosa obra de compor poemas na língua latina.

Com apenas 19 anos, o seminarista José de Anchieta é chamado a integrar as comitivas que partiam Atlântico adentro em busca de terras (e almas). Ao sair da Europa, despede-se de seus parentes, certo de não voltar mais. “Nos vemos no céu!", diz à sua família. Em solo brasileiro, catequiza os índios em língua tupi-guarani e produz uma gramática nesse idioma, a fim de facilitar a comunicação entre os evangelizadores e os povos nativos.

Como São Paulo, Anchieta atravessa várias porções de terra para fazer resplandecer a luz de Cristo. Em uma de suas viagens – que descreveu em longa carta ao superior-geral da Companhia de Jesus, Diego Lainez [1] –, ele testemunha as “grandes opressões" que infligiam aos portugueses os índios tamoios, “levando continuamente os escravos, mulheres e filhos dos Cristãos, matando-os e comendo-os". Mesmo conscientes de antemão do mal que lhes podia fazer essa tribo, ele e o padre Manuel da Nóbrega não hesitam ir ao seu encontro, para firmar com ela um acordo de paz ou, se possível, trazê-los à fé cristã e “ganhar algumas almas de seus filhos inocentes com a água do santíssimo batismo".

Após ver os tamoios matarem e comerem o escravo de um companheiro de viagem e confessar, aturdido, “que muito me afligia a carne com contínuos temores" [2], Anchieta recorre à intercessão de Nossa Senhora e promete compor um poema sobre sua vida, pedindo – grande sinal de amor a Deus – não que fosse preservado do ataque dos índios, mas que fosse livre de todo o perigo de pecado. Dessa bela promessa nasceu o famoso poema De Beata Virgine Dei Matre Maria, cujos 4172 versos Anchieta escreveu na areia do mar, antes de passar ao papel.

Das visitas às aldeias indígenas, que eram sempre precedidas pela celebração da Santa Missa, muitos frutos eram colhidos, mas, sempre à custa de muitas dificuldades. Além do canibalismo, era muito comum entre as tribos a prática do infanticídio. Em uma passagem impressionante, Anchieta conta como batizou e salvou da morte uma criança que acabara de ser cruelmente enterrada:

Sem nenhuma confiança na vida dele, por haver já tanto tempo que estava debaixo da terra, deixei as matinas e fui correndo molhar um pano em água e cavando a terra vi que ainda bolia e batizei-o, fazendo tenção de o deixar, parecendo que já expirava, mas dizendo-me umas mulheres que podia ainda viver, porque, às vezes, estavam tais como estes todo um dia enterrados, e viviam, determinei retirá-lo e fazê-lo criar. A este espetáculo tão novo, concorreram muitas mulheres da aldeia e com elas um índio com uma espada de pau para quebrar-lhe a cabeça, ao qual disse que o deixasse que eu o queria tomar por meu filho e com isto se foi; desenterrei-o e nenhuma daquelas mulheres lhe quis pôr mão, para lavá-lo, por mais que lhes rogasse, antes se estavam rindo e, passado tempo, dizendo que já o Padre tinha filho, e lhes ficou isto depois por gracejo, e a todos os índios [3].

De tantas histórias colhidas da vida do bem-aventurado José de Anchieta, sobressai sempre a sua preocupação pelas almas: ordenado sacerdote em 1565, o padre configurou-se de tal modo a Cristo que copiou com fidelidade o Seu grande amor pelos homens, o sacrifício contínuo e perseverante por sua salvação.

Consciente de que os índios eram pessoas humanas, não peças de museu, Anchieta trabalhava verdadeiramente para transformar a cultura indígena. Ele sabia que era preciso evangelizar, “não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e isto até às suas raízes, a civilização e as culturas do homem" [4]. Afinal, como ensinava o beato João Paulo II:

“Se, de fato, é verdade que a fé não se identifica com alguma cultura e é independente em relação a todas as culturas, não é menos verdadeiro que, precisamente por isto, a fé é chamada a inspirar e impregnar todas as culturas. É o homem todo, na realidade da sua existência quotidiana, que é salvo em Cristo e é, por isso, o homem todo que se deve realizar em Cristo. Uma fé que não se torna cultura é uma fé não plenamente acolhida, não inteiramente pensada e nem com fidelidade vivida." [5]

Se hoje o Brasil pode cantar com alegria ter nascido sob as bênçãos de Deus e sob o sinal da Cruz, é porque homens infatigáveis como José de Anchieta se esqueceram totalmente de si mesmos para servirem a Cristo nos povos nativos da América. Suas vidas lembram a nós, homens do século XXI, a essência missionária de todo cristão. Ao lado do chamado a seguir Jesus, está sempre o apelo do anúncio. Por isso o Papa Francisco diz que “cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus" [6].

Acender diante dos homens a luz de Cristo é um serviço de caridade. Foi isso que santificou São Paulo, São Cirilo e São Metódio, São Francisco Xavier e – agora, com a confirmação do Sumo Pontífice – o grande José de Anchieta. Conscientes de que converter os corações a Cristo, como fez o beato José de Anchieta, é dar alegria a Deus, evangelizemos também nós, por amor a Ele e às almas que conquistou com o Seu sangue.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Ao Geral Diogo Lainez, de São Vicente, Janeiro de 1565. In: Padre Joseph de Anchieta. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. p. 196
  2. Ibidem, p. 217
  3. Ibidem, p. 218
  4. Papa Paulo VI, Exortação apostólica Evangelii nuntiandi, 8 de dezembro de 1975, n. 20
  5. Aos participantes no I Congresso Nacional do Movimento Eclesial de Empenho Cultural, 16 de janeiro de 1982, n. 2
  6. Exortação apostólica Evangelii gaudium, 24 de novembro de 2013, n. 120

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O último desejo de São João Paulo II

Em um dos últimos documentos de seu pontificado, João Paulo II exortou a Igreja a celebrar corretamente o sacrifício eucarístico.

Há exatos 10 anos, a Congregação para o Culto Divino, seguindo as disposições do então papa João Paulo II, publicava a Instrução Redemptionis Sacramentum[1]. O documento tinha por objetivo esclarecer alguns aspectos sobre a correta celebração da Eucaristia, e pôr termo à maré de abusos litúrgicos que se insurgia dentro da Igreja. Sendo a Santíssima Eucaristia o depósito "no qual está contido todo o bem espiritual da Igreja"[2], a preocupação do Santo Padre, exposta solenemente nessa instrução e na sua última encíclica, Ecclesia de Eucharistia, era nada mais que salvaguardar a fé dos fiéis, tornando a celebração dos sacramentos um ambiente livre de rixas e brigas fratricidas, advindas de falsas interpretações do Santo Sacrifício de Cristo.

O zelo pelo augusto sacramento eucarístico faz parte da história dos cristãos. Desde a sua origem, os católicos procuraram render glórias ao Criador por meio do culto à Eucaristia, chegando, em alguns casos, até mesmo às vias do martírio. " Sine dominico non possumus" – sem o domingo, não podemos viver. Era o que diziam os mártires de Abinitas, região do norte da África, ao desafiarem a lei do império, que os proibia de prestar culto a Deus. Desse eloquente testemunho do início do século IV, podemos haurir a íntima relação que existe entre a vida ordinária dos cristãos e a sua fé eucarística. O homem só consegue viver de acordo com sua reta natureza quando põe em primeiro plano o seu dever para com Deus. É que sem a verdadeira religião, todo ser humano acaba abeirando-se de outros altares; queimando incensos para novidades muitas vezes desumanas. A lei moral depende diretamente do reconhecimento de Deus. Trata-se de um dever natural dos homens; e, por isso, dizia o Papa Pio XII, "Deus os elevou à ordem sobrenatural"[3].

A liturgia cristã, por sua vez, não é uma invenção humana. Não se trata de uma busca de Deus às apalpadelas, como se se estivesse a construir outra Torre de Babel. Deus é quem nos ensina a forma correta de adorá-Lo. É Ele, e somente Ele, o verdadeiro protagonista de toda ação litúrgica. Com efeito, dada a missão da Igreja de guardar e ensinar a fé apostólica, cabe a ela, por direito divino, o dever de esclarecer e coibir os equívocos contra a doutrina de Deus, sobretudo no que tange à matéria sagrada do Santíssimo Sacramento – uma vez que não são poucos os que inserem princípios errôneos na celebração eucarística que, "em teoria ou na prática, comprometem esta santíssima causa, e frequentemente até a contaminam de erros que atingem a fé católica e a doutrina ascética"[4].

Quando pensamos em exemplos como o de Madre Teresa de Calcutá – que passava horas diante do altar, rogando a Deus pelo bom êxito de seus trabalhos –, ou na imagem de São Padre Pio de Pietrelcina – que muitas vezes ardia em febre pela Santíssima Eucaristia –, conseguimos compreender o que significa viver eucaristicamente. A comunhão do Corpo de Cristo provoca uma mudança em todo nosso ser. " Não é o alimento eucarístico que se transforma em nós, mas somos nós que acabamos misteriosamente mudados por Ele"[4], até o momento em que cada um possa repetir as palavras do Apóstolo das gentes: "já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Cfr. Gl 2, 22). No altar, mediante a oferta do sacerdote, unimo-nos ao sacrifício de Cristo na cruz. Dessa íntima comunhão, nasce a necessidade de uma presença iluminadora no meio da sociedade, a fim de que Deus possa ser tudo em todos. Dizia o Papa Pio XII:

Assistindo, pois, ao altar, devemos transformar a nossa alma de modo que se apague radicalmente todo o pecado que está nela, e com toda diligência se restaure e reforce tudo aquilo que, mediante Cristo, dá a vida sobrenatural: e assim nos tornemos, junto com a hóstia imaculada, uma vítima agradável a Deus Pai. [5]

Nesse sentido, o respeito às normas litúrgicas não deve ser encarado como uma prisão, mas como autêntica liberdade. As extremidades de um quadro não cerceiam a criatividade de um pintor; pelo contrário, são elas que garantem a existência e aplicabilidade de sua arte. Mutatis mutandis, as rubricas do missal nada mais são do que as extremidades do quadro litúrgico de Deus, a fim de que o homem possa adorá-Lo "em espírito e em verdade" (Cfr. Jo 4, 23). A missa não consiste "em criar um pequeno mundo alternativo por conta própria"[6]. Isso significaria "o abandono do Deus verdadeiro, disfarçado debaixo de um tampo sacro"[7]. A Missa é o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. "E, a fim de que esta memória não tivesse nenhuma narrativa confusa por parte dos homens" – recorda-nos o venerável Fulton Sheen –, "Ele mesmo instituiu a maneira correta de recordá-la"[8].

Resumidamente, como disserta a instrução do Papa João Paulo II, trata-se do sacramento de nossa redenção.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum (25 de março de 2004)
  2. Ibidem, n. 1
  3. Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 13
  4. Ibidem, n. 7
  5. Bento XVI, Exort. Apost. pós-sinodal Sacramentum Caritatis (22 de fevereiro de 2007), n. 70
  6. Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 90
  7. RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia. São Paulo: Paulinas, 2012, p. 16
  8. Ibidem
  9. Fulton Sheen, O calvário e a Missa