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Indulgências por ocasião da pandemia de coronavírus
Igreja Católica

Indulgências
por ocasião da pandemia de coronavírus

Indulgências por ocasião da pandemia de coronavírus

Penitenciária Apostólica emite decreto concedendo “indulgências especiais aos fiéis afetados pela Covid-19”, “bem como aos profissionais de saúde, familiares e todos que, a qualquer título, mesmo que com a oração, prestam-lhes assistência”.

Santa SéTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Março de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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PENITENCIÁRIA APOSTÓLICA

DECRETO

Concede-se o dom de indulgências especiais aos fiéis afetados pela Covid-19, comumente conhecida como coronavírus, bem como aos profissionais de saúde, familiares e todos aqueles que, a qualquer título, mesmo que com a oração, prestam-lhes assistência.

“Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração” (Rm 12, 12). As palavras escritas por São Paulo à Igreja de Roma ressoam por toda a história da Igreja e orientam o juízo dos fiéis diante de todo sofrimento, doença e calamidade.

O presente momento em que se encontra toda a humanidade, ameaçada por uma doença invisível e insidiosa, que já há algum tempo começou forçosamente a fazer parte da vida de todos, é marcado dia após dia por medos angustiados, novas incertezas e, acima de tudo, um sofrimento físico e moral generalizado.

A Igreja, seguindo o exemplo de seu Divino Mestre, sempre tomou a peito a assistência aos enfermos. Como indicado por São João Paulo II, o valor do sofrimento humano é duplo: “é sobrenatural, porque se radica no mistério divino da Redenção do mundo; e é também profundamente humano, porque nele o homem se aceita a si mesmo, com a sua própria humanidade, com a própria dignidade e a própria missão” (Carta Apostólica Salvifici Doloris, 31).

Também o Papa Francisco, nesses últimos dias, expressou sua proximidade paterna e renovou o convite a que se rezasse incessantemente pelos contagiados com o coronavírus.

A fim de que todos os que sofrem por causa da Covid-19 possam redescobrir, precisamente no mistério deste sofrimento, “o próprio sofrimento redentor de Cristo” (ibid., 30), esta Penitenciária Apostólica, ex auctoritate Summi Pontificis, confiando na palavra de Cristo Senhor  e considerando com espírito de fé a epidemia atualmente em curso, a ser vivida como forma de conversão pessoal, concede o dom das indulgências nos seguintes termos.

Concede-se indulgência plenária aos fiéis afetados pelo coronavírus, submetidos ao regime de quarentena por ordem da autoridade sanitária em hospitais ou em suas próprias casas se, com ânimo desapegado de qualquer pecado, se unirem espiritualmente através dos meios de comunicação à celebração da Santa Missa, à récita do Santo Rosário, à piedosa prática da Via Crucis ou a outras formas de devoção; ou se ao menos recitarem o Credo, o Pai Nosso e uma invocação piedosa à bem-aventurada Virgem Maria, oferecendo essa provação com espírito de fé em Deus e de caridade para com os irmãos, com a vontade de cumprir as condições habituais (confissão sacramental, comunhão eucarística e oração pelas intenções do Santo Padre) assim que lhes seja possível.

Os profissionais de saúde, familiares e tantos outros que, a exemplo do bom samaritano, expondo-se ao risco de contágio, assistem os infectados pelo coronavírus de acordo com as palavras do divino Redentor: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13), lucram o mesmo dom da indulgência plenária, sob as mesmas condições.

Ainda por ocasião da atual epidemia mundial, esta Penitenciária Apostólica concede de bom grado indulgência plenária, nas mesmas condições, também àqueles fiéis que oferecerem uma visita ao Santíssimo Sacramento, ou a adoração eucarística, ou a leitura das Sagradas Escrituras por ao menos meia hora, ou a récita do Santo Rosário, ou o piedoso exercício da Via Crucis, ou a récita do Terço da Divina Misericórdia, para implorar a Deus todo-poderoso a cessação da epidemia, o alívio dos que estão aflitos e a salvação eterna de quantos o Senhor chamou à sua presença.

A Igreja reza pelos que se encontram na impossibilidade de receber o sacramento da Unção dos Enfermos e do Viático, confiando à Divina Misericórdia todos e cada um deles, em virtude da comunhão dos santos; e concede aos fiéis a indulgência plenária no momento da morte, desde que se esteja devidamente disposto e se tenha recitado habitualmente durante a vida alguma oração (neste caso, a Igreja supre as três condições habituais necessárias). Para alcançar essa indulgência, recomenda-se o uso do crucifixo ou da cruz (cf. Enchiridion indulgentiarum, n. 12).

A bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus e da Igreja, saúde dos enfermos e auxílio dos cristãos, advogada nossa, deseja socorrer a humanidade sofredora, afastando de nós o mal desta pandemia e alcançando-nos todos os bens necessários à nossa salvação e santificação.

O presente decreto é válido não obstante qualquer disposição em contrário.

Dado em Roma, na sede da Penitenciária Apostólica, em 19 de março de 2020.

Cardeal Mauro Piacenza
Penitenciário-Mor

Krzysztof Nykiel
Regente


“Estou convosco todos os dias”
(Mt 28, 20)

NOTA

DA PENITENCIÁRIA APOSTÓLICA
SOBRE O SACRAMENTO DA RECONCILIAÇÃO
NA ATUAL SITUAÇÃO DE PANDEMIA

A gravidade das circunstâncias atuais exige uma reflexão sobre a urgência e centralidade do sacramento da Reconciliação, juntamente com alguns esclarecimentos necessários, tanto para os fiéis leigos quanto para os ministros chamados a celebrar o sacramento.

Mesmo no tempo da Covid-19, o sacramento da Reconciliação é administrado de acordo com a lei canônica universal e de acordo com as disposições do Ordo Paenitentiae.

A confissão individual representa o modo ordinário para a celebração deste sacramento (cf. cân. 960 CIC), enquanto a absolvição coletiva, sem prévia confissão individual, não pode ser comunicada, a menos que ocorra o perigo iminente de morte, não havendo tempo suficiente para ouvir as confissões individuais dos penitentes (cf. cân. 961, § 1 CIC), ou uma necessidade grave (cf. cân. 961, § 1, 2 ° CIC), cuja consideração pertence ao bispo diocesano, levando em consideração os critérios acordados com os demais membros da Conferência Episcopal (cf. cân. 455, § 2 CIC) e sem prejuízo da necessidade, para que haja absolvição válida, do votum sacramenti por parte do penitente, ou seja, do propósito de confessar no devido tempo os pecados graves individuais, que no momento não era possível confessar (cf. cân. 962, § 1 CIC).

Esta Penitenciária Apostólica considera apropriado que, sobretudo nos locais mais afetados pelo contágio da pandemia e até que o fenômeno termine, se recorra aos casos de grave necessidade mencionados no cânon 961, § 2 CIC.

Qualquer outra especificação é delegada pelo direito aos bispos diocesanos, sempre levando em consideração o bem supremo da salvação das almas (cf. cân. 1752, CIC).

No caso de apresentar-se súbita necessidade de conceder a absolvição sacramental a vários fiéis juntos, o padre é obrigado a avisar o bispo diocesano, na medida do possível, ou, se não puder, informá-lo o mais rápido possível (cf. Ordo Paenitentiae, n 32).

Na atual emergência pandêmica, portanto, cabe ao bispo diocesano indicar aos padres e penitentes as atenções prudentes a serem adotadas na celebração individual da reconciliação sacramental, como a celebração em um local ventilado fora do confessionário, a adoção de uma distância conveniente, o uso de máscaras protetoras, sem prejuízo da atenção absoluta prestada à salvaguarda do sigilo sacramental e à discrição necessária.

Além disso, cabe sempre ao bispo diocesano determinar, no território de sua circunscrição eclesiástica e em relação ao nível de contágio pandêmico, os casos de séria necessidade em que é permitido dar absolvição coletiva: por exemplo, na entrada das enfermarias hospitalares, onde se encontram hospitalizados os fiéis infectados em perigo de morte, utilizando os meios de amplificação da voz o máximo possível e com as devidas precauções, para que a absolvição possa ser ouvida.

Considerem-se a necessidade e a oportunidade de estabelecer, quando necessário, de acordo com as autoridades de saúde, grupos de “capelães extraordinários de hospital”, também de forma voluntária e em conformidade com as regras de proteção contra o contágio, para garantir a assistência espiritual necessária para os doentes e moribundos.

Onde os fiéis se encontrarem na dolorosa impossibilidade de receber a absolvição sacramental, recorda-se que a contrição perfeita, provinda do amor a Deus sobre todas as coisas, expressa por um sincero pedido de perdão (aquele que, no momento, o penitente está em condições de exprimir) e acompanhada pelo votum confessionis, ou seja, pela firme resolução de recorrer à confissão sacramental o mais rápido possível, obtém o perdão dos pecados, até os mortais (cf. CCC, n. 1452).

Neste tempo, muito mais do que em outros, a Igreja experimenta o poder da comunhão dos santos, eleva votos e orações a seu Senhor Crucificado e Ressuscitado, em particular o Sacrifício da Santa Missa, celebrado diariamente, ainda que sem o povo, pelos sacerdotes.

Como boa mãe, a Igreja implora ao Senhor que a humanidade se liberte desse flagelo, invocando a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, mãe de misericórdia e saúde dos enfermos, e de seu esposo São José, sob cuja proteção a Igreja sempre caminha pelo mundo.

Que Maria Santíssima e São José nos obtenham abundantes graças de reconciliação e salvação, em atenta escuta da Palavra do Senhor, que repete hoje à humanidade: “Sabei que eu sou Deus” (Sl 46, 11); “Estou convosco todos os dias” (Mt 28, 20).

Dado em Roma, na sede da Penitenciária Apostólica, em 19 de março de 2020,
Solenidade de São José, Esposo da B. V. Maria, Patrono da Igreja Universal.

Cardeal Mauro Piacenza
Penitenciário-Mor

Krzysztof Nykiel
Regente

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O olhar de São Miguel sobre nós
Espiritualidade

O olhar de São Miguel sobre nós

O olhar de São Miguel sobre nós

Acredito do fundo do coração que São Miguel olhava para o grande Leão XIII, enquanto ele lhe redigia aquela oração, e que este mesmo olhar está ao alcance de qualquer paróquia ou fiel que trouxer de volta à vida essa devoção.

Jeffrey JohnsonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Março de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Numa fria manhã de domingo, em outubro de 2018, assisti à Missa com minha esposa na igreja de Santa Edwiges, em Holdingford. Jamais esquecerei o final da celebração, quando o padre Gregory Mastey, sem alarde nem aviso prévio, de repente começou a recitar a oração a São Miguel Arcanjo. O padre Gregory tem terminado dessa forma a Missa desde então, como era costume fazer em todas as Missas do mundo de 1884 a 1965. A sutil interrupção da prece ao final da Missa foi um dos muitos frutos questionáveis do Concílio Vaticano II. Sempre que o acompanhamos nesta oração ao Arcanjo que nos protege de um mundo pós-cristão quase em ruínas, sinto de verdade o olhar de São Miguel voltado para as nossas paróquias.

Não é difícil imaginar a reação de Lúcifer ao contemplar o olhar de São Miguel naquela triste manhã, quando proclamou o seu Non serviam, sendo expulso do céu junto com outros incontáveis anjos rebeldes. Mais de um demônio já admitiu em sessões de exorcismo que parte de sua surpresa ao ser castigado tinha um motivo bastante simples: antes da queda, Miguel era, de todos os anjos, o menor e mais discreto. Mas como é fina a ironia do nosso Pai!

É bem provável que Abraão tenha visto esse olhar manso no Antigo Testamento, quando São Miguel o levou em viagem pelo mundo antes de sua morte; mas Satanás, provavelmente, viu um semblante muito mais sério quando discutiu com ele sobre o que fariam com o corpo de Moisés. Essa é a única passagem da Bíblia em que ouvimos a voz de São Miguel: “Que o próprio Senhor te repreenda!” (Jd 9).

Voltemo-nos agora entristecidos para o horto do Getsêmani, segundo a narração do Evangelho de Lucas. Começa a Paixão de Nosso Senhor; enquanto Jesus pensa em seus amigos adormecidos, nas estrelas e no cheiro de sua oficina de carpinteiro, aparece um anjo num raio de luz para consolá-lo. Não sabemos o nome dele, mas creio que naquele instante viu Jesus a face de seu querido amigo São Miguel, que — imagino — o terá encorajado, enquanto ouviam aproximar-se Judas, à frente da turba naquela escaramuça noturna.

Podemos imaginar que, alguns anos mais tarde, o olhar de São Miguel foi uma das muitas coisas que viu São João quando esteve na ilha de Patmos escrevendo o livro do Apocalipse, nos terríveis dias do imperador Nero. O livro nos conta que uma grande guerra foi travada no céu: Satanás e seus sequazes contra-atacaram, mas foram completamente derrotados. Em seguida, Satanás “foi fazer guerra […] aos que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12, 17). Essa é a última referência bíblica ao protetor da Igreja Católica; seu trabalho, porém, estava apenas começando.

São muitos os santuários dedicados a São Miguel. Em 493, ele apareceu a um bispo italiano, que lhe consagrou uma caverna, conhecida até hoje como Santuário do Monte Sant’Angelo. Mil anos depois, ele apareceu no mesmo local e disse a outro bispo: “Sou o Arcanjo São Miguel. Qualquer um que use as pedras desta caverna será libertado”. Essas pedras estão disponíveis a todos, e é reconfortante olhar para as minhas, que estão bem guardadas na minha estante de livros. 

Nossa Senhora de Fátima acenou para São Miguel em 1917, dando-lhe sinal verde para participar do evento sobrenatural mais extraordinário já visto desde a Ressurreição. No dia 13 de outubro, enquanto cem mil pessoas contemplavam fascinadas o milagre do Sol, São Miguel se encontrava entre as dramáticas imagens finais representadas aos pequenos Francisco, Jacinta e Lúcia. Embora não o mencionem, é possível que os pastorinhos tenham encontrado São Miguel no ano anterior, quando, numa pequena pradeira, receberam de um anjo com um cálice flutuante sua primeira comunhão e o Sangue de Cristo [1].

Exatamente trinta e três anos antes daquele dia fabuloso, o Papa Leão XIII experimentou uma locução em que ouviu a Satanás gabar-se perante Deus de que poderia destruir a Igreja, se tivesse tempo e poder suficientes. Essa é, obviamente, a história de Jó em grandes traços. Sabendo que sua misericórdia superaria o pior que pudesse fazer Satanás, Deus aceitou o desafio, dando-lhe um prazo de cem anos. Como muitos já sabem, antes de fazer qualquer coisa, o Papa Leão XIII foi às pressas ao escritório e, inspirado, pôs no papel a conhecida oração a São Miguel Arcanjo.

Acredito do fundo do coração que São Miguel olhava para aquele grande Papa, enquanto redigia a oração, e que este mesmo olhar está ao alcance de qualquer paróquia ou fiel que, a exemplo do meu pastor, trouxer de volta à vida essa devoção.

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As únicas tábuas que nos podem salvar do Inferno
Doutrina

As únicas tábuas
que nos podem salvar do Inferno

As únicas tábuas que nos podem salvar do Inferno

Os Mandamentos são o único caminho para que deixemos de conformar-nos com o mundo e passemos a imitar Jesus Cristo. Nenhum outro sistema moral, porque humano e falível, será capaz de suprir essa lacuna.

Pedro Penitente17 de Março de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Antigamente, uma boa catequese vinha sempre acompanhada do esforço por decorar os Mandamentos. Minha avó era catequista e não deixava que as crianças sob sua responsabilidade recebessem os sacramentos, fosse o da Comunhão, fosse o do Crisma, sem terem decorado o Decálogo inteiro. Ela cobrava os meninos, recebia-os em casa e, se eles não demonstrassem ter memorizado os benditos dos preceitos, todos os dez, sem exceção e na ordem, não tinha jeito: eles ficavam “de recuperação” e no ano seguinte tinham de ter aulas de novo com ela. (Ela também exigia que os meninos decorassem todos os mistérios do Rosário, porque, dizia, “se um dia alguém pedir para eles puxarem o Terço, eles sabem”. Mas isso é uma outra história…)

Quando ela me contava o modo como procedia, eu, pequeno, via nisso um grande exagero. Hoje, crescido e com um pouco mais de juízo, vejo que ela estava muito certa em fazer tudo aquilo. 

Agora os tempos estão mudados, e com eles a catequese. Não há mais “repetentes” nas salinhas de nossas paróquias. Em compensação, abunda a ignorância religiosa nos bancos dessas mesmas igrejas. Se fizéssemos uma pesquisa sobre Mandamentos com as pessoas que frequentam a Missa de domingo, as respostas dadas certamente nos surpreenderiam. “Não matar” e “não roubar” certamente estaria na boca de todos, mas cobrar em que lugar os dois preceitos estão seria pedir demais. O amor a Deus e ao próximo como resumo das duas tábuas da Lei também com certeza seriam citados por outros tantos, mas só. Mais informações a respeito talvez com o padre? Não sem uma rápida pesquisa no Google primeiro…

Por que isso deveria nos preocupar? Porque ninguém pode viver aquilo que não conhece. E isso significa que hoje, sinceramente, só colocar as crianças para decorar os Mandamentos seria muito pouco e superficial. Pois ao lado das velhas tábuas mosaicas, hoje a internet tem uma porção de “mandamentos” a prescrever para os nossos filhos: o lugar antes ocupado pelas emissoras de TV agora é preenchido pelo YouTube, pela Netflix e por um punhado de outros canais de comunicação que de cristãos não têm nada. E, infelizmente, devido à negligência com que os pais têm vigiado o acesso de seus filhos aos smartphones e similares, tudo está a um clique de disposição.

Quando o Apóstolo disse: “Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2), ele se dirigia à comunidade de Roma, é certo. Mas o Espírito Santo, inspirando aquelas palavras, tinha uma mensagem bem especial também para os cristãos da nossa época. Pois vivemos num tempo em que é muito fácil conformar-se com este mundo. Com a internet, o acesso ao mundo, às coisas que estão nele, nunca foi tão fácil e imediato. Quando eu frequentava a escola, fazer um trabalho de pesquisa em casa era algo que realmente dava trabalho. Não havia Wikipédia e poucas pessoas tinham a enciclopédia Barsa. Agora, basta digitar algumas coisas no Google e você tem uma biblioteca inteira à sua disposição. 

Essa facilidade não é em si uma coisa ruim, mas, desvinculada de uma vida verdadeiramente cristã — isto é, onde se luta para viver na graça de Deus e onde há oração e recolhimento —, ela se converte em um verdadeiro desastre. O resultado é que, dia após dia, ouvindo tudo quanto é tipo de música, assistindo a tudo quanto é série e filme, acessando todo e qualquer conteúdo que nos aparece na internet, pouco a pouco nós vamos assumindo as formas, os traços e os contornos do mundo. E se “o mundo jaz no Maligno” (1Jo 5, 19), você pode imaginar a que figuras muitos temos nos assemelhado…

Sim, estamos sendo arrastados pelo pecado, pelos demônios, rumo ao fogo do Inferno. Assimilando aquilo que atravessa indiscriminadamente as portas de nossos sentidos, temos trazido o lixo que está lá fora para dentro de nossas almas. Talvez até estejamos cegos e não consigamos ver o estado de podridão em que nos encontramos, mas a verdade é que estamos nos tornando pessoas piores… (E o fato de não nos darmos conta só torna a coisa ainda pior.)

O primeiro remédio contra esse processo avançado de desfiguração em que tantos nos encontramos é justamente a volta aos Mandamentos. Os dez preceitos, ausentes das homilias, esquecidos pelos adultos e mal aprendidos pelas crianças, são o único caminho para que deixemos de conformar-nos com o mundo e passemos a imitar Jesus Cristo. Nenhum outro sistema moral será capaz de suprir essa lacuna. Porque, sejam quais forem as tábuas que talharmos, elas terão sempre a mesma origem humana e falível, sendo por isso incapazes de nos salvar de nossa desorientação e baixeza. 

Mas, também, tampouco nos será suficiente uma leitura ou um conhecimento raso do Decálogo. Para nós, isso sempre será muito pouco porque, se no pecado fomos tão fundo, é preciso que lutemos com ainda mais afinco para subir.

Exame de consciência, portanto! Corramos ao confessionário! Mas nada de “não roubei”, “não matei” e “não traí minha esposa ou meu esposo”. Precisamos ir às minúcias do que Deus nos manda, aos detalhes de cada um dos Mandamentos. Porque Nosso Senhor mesmo lembrou que não é o bastante “não cometer adultério”: é preciso ser puro até a delicadeza de consciência, evitando o mínimo olhar ou pensamento de luxúria; igualmente, não é o suficiente “não matar”: é preciso ser paciente com o outro de maneira radical, indo das palavras à mente, do semblante ao coração (cf. Mt 5, 21-32).

A catequese ideal nesse sentido seria uma capaz de gravar as letras do Decálogo não só em nossa memória, mas em nossa vontade. Só que isso catequista nenhum pode fazer, se não houver da parte de quem é formado humildade para reconhecer nossa ignorância religiosa e para aceitar o que Deus revelou, primeiro a Moisés e depois aos Apóstolos. Precisamos nos despir de nossas opiniões pessoais contrárias ao Magistério da Igreja, abaixar a nossa cabeça e reconhecer que Deus sabe as coisas e eu não, eu não sei nada, eu sou o meu pior inimigo e, entregue a mim mesmo, eu só irei me destruir cada vez mais.

A partir dessa humilhação inicial, desse arrependimento básico (que já é cooperação com a graça de Deus), Ele irá infundir em nós mais e mais graças… E, se formos fiéis, quem sabe um dia não poderemos cantar, de coração sincero, com o salmista: “Com meus lábios, ó Senhor, eu enumero/ os decretos que ditou a vossa boca. Seguindo vossa lei me rejubilo/ muito mais do que em todas as riquezas. Eu quero meditar as vossas ordens,/ eu quero contemplar vossos caminhos! Minha alegria é fazer vossa vontade;/ eu não posso esquecer vossa palavra” (Sl 118, 13-16).

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O grande erro de Stephen Hawking
Sociedade

O grande erro de Stephen Hawking

O grande erro de Stephen Hawking

Stephen Hawking achava que acreditar no céu é um produto da vontade, uma consolação inventada. Mas ele se esqueceu que aqueles que acreditam no céu muito frequentemente também acreditam no inferno.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Março de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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O proeminente cosmólogo Stephen Hawking sugeriu certa vez que “o céu é um conto de fadas para pessoas com medo do escuro”. 

Como eu, ao mesmo tempo, amo contos de fadas e acredito no céu, não estou muito certo se vejo isso como um insulto ou como um elogio. Embora eu não creia que o céu seja um conto de fadas, é o meu amor por essas histórias que me faz ter fé no céu. Como G. K. Chesterton, eu acredito que os contos de fadas são (ao seu modo) mais verdadeiros do que as inutilidades dos jornais; e é por causa das sólidas verdades contidas nos contos de fadas que eu creio na sólida verdade do céu

Uso a palavra “sólida” porque suspeito que o que Stephen Hawking realmente queria dizer é que o céu seria, de alguma forma, irreal e sem substância. Ele gostaria de nos convencer de que se trata de algo da nossa imaginação — um produto da vontade daqueles que temem a escuridão da morte e a aniquilação final.

Mas o que torna os contos de fadas tão reais e concretos é o fato de eles estarem enraizados em um mundo justo. O lobo que devora a vovozinha, em Chapeuzinho Vermelho, é retalhado e a velhinha, libertada. Cinderela se une a seu príncipe. Em João e Maria, a bruxa má é empurrada para dentro do forno, e nos Três Porquinhos o grande lobo mau se queima todo depois de deslizar pela chaminé. Contos de fadas podem até ser histórias inventadas, mas as verdades que elas revelam não o são. Elas nos fazem acreditar em justiça e, com isso, propõe-nos a fé não somente em um céu, mas também em um inferno.

Os contos de fadas nos ensinam que, um dia, o bem, a verdade e a beleza hão de ser recompensados, e o mal, a mentira e a brutalidade, punidos. Nesta vida, raramente se cumpre a justiça, e nós somos testemunhas disso. Entretanto, porque ela existe, nossas mentes e corações exigem um lugar onde ela seja plenamente satisfeita. Isso não é um produto ilusório da nossa vontade, mas algo claro, sólido, racional e perfeitamente realista. Esperar que a justiça se cumpra no final de tudo faz parte de nossa natureza — o bem, afinal, conduz à vida, e o mal à destruição. Trata-se de algo tão lógico e sensato quanto esperar que a água desça correnteza abaixo. 

Stephen Hawking achava que acreditar no céu é um produto da vontade, uma consolação inventada. Mas ele se esqueceu que aqueles que acreditam no céu muito frequentemente também acreditam no inferno; acreditam que cada alma prestará contas diante de Deus, o derradeiro e mais temível dos juízes. Definitivamente, não é o tipo de consolação que eu gostaria de inventar. Para ser honesto, eu preferiria não ter de dar conta de mim mesmo a ninguém que declarasse ter contados todos os fios de cabelo da minha cabeça, ou que não deixasse nenhum pardal cair no chão sem o seu consentimento (cf. Mt 10, 29-30). Olhando deste modo, a perspectiva da vida após a morte não parece assim tão agradável, e é quem diz a si mesmo que não existe nada após esta vida, nem juízo final, que acaba se apoiando em uma consolação inventada.

Se não há inferno onde pagar, então podemos viver como quisermos. Podemos viver como demônios sem nunca precisarmos nos defrontar com o diabo. Ao contrário, após uma vida de crimes, podemos escapar para um pacífico oblívio final sem nunca termos de pagar o preço de nossas ações. Isso sim me parece produto da vontade e consolação inventada por aqueles que realmente têm medo da escuridão. A pessoas assim, sejam elas eminentes cosmólogos ou criminosos errantes, é preciso lembrar a sabedoria sem papas na língua de São Padre Pio, o qual, perguntado certa vez sobre o que pensava das pessoas modernas que não acreditavam no inferno, respondeu: “Elas acreditarão no inferno quando chegarem lá”.

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