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Sacrifício, o grande apelo de Fátima e do Evangelho
Espiritualidade

Sacrifício,
o grande apelo de Fátima e do Evangelho

Sacrifício, o grande apelo de Fátima e do Evangelho

Se o próprio Senhor, Deus feito homem, viveu uma vida de oração e sacrifício, nós, que somos tão pobres e pecadores, não podemos escolher outro caminho. Eis o que a mensagem de Fátima veio nos reforçar.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Março de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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No seu livro Apelos da Mensagem de Fátima, a Irmã Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, uma das videntes de Fátima, apresenta o sacrifício como um dos apelos urgentes de Deus à humanidade. 

Em primeiro lugar, Lúcia esclarece que o sacrifício não é um apelo desvinculado das Sagradas Escrituras, dos Mandamentos de Deus e da Igreja. São Paulo já dizia que devemos completar em nossa carne o que falta aos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Cl 1, 24). Todos nós somos enfermos, temos muitos defeitos e pecamos. Por isso, em união com a Vítima inocente, que é Cristo, nós, católicos, devemos nos sacrificar pelos nossos pecados e pelos dos nossos irmãos, pois somos todos membros do mesmo Corpo místico.

A Irmã Lúcia, vidente da Virgem de Fátima.

Na mensagem de Fátima, o Anjo da Guarda de Portugal dá o seguinte mandato aos pastorinhos e a cada um de nós: “De tudo o que puderdes, oferecei um sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele (Deus) é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores” [1]. Segundo Lúcia, os sacrifícios podem ser de bens espirituais, intelectuais, morais, físicos e materiais. O que importa é aproveitar as ocasiões de oferecer algum sacrifício, principalmente quando se trata de uma exigência para o cumprimento de nossos deveres para com Deus, com o próximo ou com nós mesmos.

Em muitos casos, o sacrifício é uma obrigação, como a renúncia aos prazeres ilícitos: a luxúria, a fornicação e o adultério; o abuso no consumo de bebidas alcoólicas ou de alimentos. Tais renúncias, apesar de serem obrigações, podem ser oferecidas a Deus como ato de reparação e súplica. Quantas famílias tornam-se insensíveis e infelizes por causa do pecado da gula, do excesso na comida e na bebida! Ademais, os caprichos do orgulho, da vaidade, da cobiça, da avareza, das comodidades exageradas podem tornar-se faltas graves se nos levam a faltar com a caridade e a justiça para com o próximo. 

Mas, além de fazer o estritamente obrigatório, por que não ir além, com ânimo generoso? Quando Deus nos pede para fazer renúncias e sacrifícios, não se trata somente de não fazer o mal, mas também de exercitar as virtudes, de fazer o bem ao próximo. Por exemplo: com o que temos, devemos socorrer aquelas pessoas que não têm o necessário para viver, que estão morrendo de fome e de frio. No juízo final, seremos julgados não somente pelo mal que praticamos, mas também pelo bem que deixamos de fazer (cf. Mt 25, 41ss), pois todas as vezes que deixamos de praticar a caridade para com os mais necessitados, foi ao Senhor que o deixamos de fazer.

A vidente de Fátima indica uma série de pequenos sacrifícios que podemos oferecer. Por serem pequenos, não deixam de ser agradáveis a Deus e, além disso, muito meritórios e proveitosos espiritualmente. Com eles, provamos nossa fidelidade e amor a Deus e ao próximo. Essas práticas enriquecem-nos na graça, fortificam-nos na fé, na esperança e na caridade, dignificam-nos diante de Deus e do próximo e libertam-nos das tentações, do egoísmo, da cobiça, da inveja, do comodismo... Alguns dos pequenos sacrifícios indicados pela Irmã Lúcia são:

  1. Rezar com fé e atenção, evitando, o quanto for possível, as distrações; com respeito, dando-nos conta que falamos com Deus; com confiança e amor, porque tratamos com quem nos ama e quer o nosso bem; com humildade, pois somos débeis, fracos na prática da virtude, tropeçamos e caímos a cada instante, e precisamos do auxílio de Deus para trilhar o caminho da santidade. Muitas vezes, será necessário sacrificar um pouco do nosso descanso, levantar um pouco mais cedo ou dormir um pouco mais tarde; desligar o rádio e a televisão (hoje podemos acrescentar o celular e o computador), para participar da Santa Missa, fazer nossa oração pessoal ou rezar o Santo Rosário;
  2. Deixar de comer algo de que gostamos muito, de modo que não prejudiquemos a nossa saúde e não nos faltem as forças físicas necessárias para o trabalho. Podemos trocar uma fruta de que gostamos por outra da qual não nos agradamos; suportar a sede por algum espaço de tempo; tomar uma bebida que não nos é agradável ao paladar; abster-nos do álcool ou, pelo menos, não beber em excesso; à mesa, não escolher o melhor, mas deixá-lo aos outros;
  3. No vestuário, suportar um pouco de frio ou de calor, sem nos queixar; vestir com decência e modéstia, sem nos deixar levar pelas modas e recusá-las quando não estiverem de acordo com essas duas virtudes, lembrando-nos que somos responsáveis diante de Deus pelos pecados que outros cometem por nossa causa. Sendo assim, devemos nos vestir em conformidade com a moral cristã, a dignidade pessoal e a solidariedade com o próximo, oferecendo o sacrifício do exagero da vaidade. Neste ponto, podemos oferecer o sacrifício dos adornos, das jóias, relógios e acessórios caros e, com seu valor, socorrer as necessidades dos que vivem na pobreza ou até mesmo na miséria;
  4. Suportar com serenidade as contrariedades: uma palavra desagradável ou irritante, um sorriso irônico, um desprezo, uma falta de consideração, uma ingratidão, uma incompreensão, uma censura, uma falta de atenção, um esquecimento, uma rejeição… Suportar com paciência os sofrimentos da vida: um acidente, uma separação, uma doença ou até mesmo a perda de um ente querido. Todo sacrifício, grande ou pequeno, tem um imenso valor, desde que oferecido por amor a Deus e ao próximo. Suportar de boa vontade a companhia das pessoas com quem não simpatizamos, que nos desagradam, que nos contradizem, chateiam e fazem perguntas indiscretas ou até mal-intencionadas; responder-lhes com um sorriso, um serviço, um favor, perdoando e amando, com o nosso olhar voltado para Deus. Esta renúncia de nós mesmos é talvez o sacrifício mais difícil para a nossa pobre natureza humana, mas é também o mais agradável a Deus e o mais meritório;
  5. Fazer sacrifícios e penitências voluntários. Há sacrifícios que são obrigatórios, como a abstinência de carne, que devemos observar em toda sexta-feira, exceto nas solenidades. Mas o apelo de Deus ao sacrifício nos conscientiza da necessidade de sermos generosos, de não nos limitarmos aos sacrifícios obrigatórios e fazer também sacrifícios voluntários. Os instrumentos de penitência, usados por muitos santos que, com o uso das disciplinas e dos cilícios, uniam-se a Cristo flagelado, amarrado com cordas e coroado de espinhos, infelizmente caíram em desuso. Mas, em espírito de penitência, podemos rezar com os braços abertos em cruz, unindo-nos a Cristo crucificado, ajoelhados ou prostrados com o rosto em terra, humilhando-nos na presença de Deus, a quem nos atrevemos a ofender. Podemos ainda fazer muitos outros sacrifícios voluntários, como jejuns e abstinências; falar menos e ouvir mais; realizar obras de misericórdia, como visitar os idosos e os doentes; rezar mais, especialmente diante do Santíssimo Sacramento.

Jesus Cristo, sendo Deus, não podia pecar. No entanto, deu-nos o exemplo de vida de oração, penitência e sacrifício. Antes de começar sua vida pública, passou quarenta dias em jejum e foi tentado pelo demônio. Na sua vida pública, a austeridade do Mestre era extrema, tanto que disse não ter onde reclinar a cabeça (cf. Lc 9, 58). Por vezes, Jesus e seus discípulos não tinham tempo nem para comer (cf. Mc 6, 31). Ainda assim, Jesus procurava retirar-se em lugares desertos para rezar (passagens nesse sentido abundam nos Evangelhos) e, pouco antes de sua Paixão, conforme o seu costume, Cristo dirigiu-se para o monte das Oliveiras para rezar (cf. Lc 22, 39). Se o próprio Senhor, Deus feito homem, viveu uma vida de oração e sacrifício, nós, que somos tão pobres e pecadores, não podemos escolher outro caminho

Quando Jesus Cristo nos pede para entrar pela porta estreita (cf. Mt 7, 13s), indica-nos a grande necessidade que temos de nos sacrificar. Pois sem sacrificar a nossa vida por amor a Cristo e ao seu Evangelho, não nos santificaremos nem alcançaremos a salvação (cf. Mc 8, 35). 

Ouçamos, pois, o premente apelo da mensagem de Fátima e façamos sacrifícios, em reparação dos pecados com que Deus é ofendido e pela conversão dos pobres pecadores.

Referências

  1. Irmã Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado. Apelos da Mensagem de Fátima. 4.ª ed., Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2007, p. 101.

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Filhotes não são bebês, e “mães de pet” não são mães
Sociedade

Filhotes não são bebês,
e “mães de pet” não são mães

Filhotes não são bebês, e “mães de pet” não são mães

Numa época em que animais de estimação são tratados como “filhos” e bebês são considerados um “inconveniente”, este testemunho de um pai abre nossos olhos para uma realidade óbvia, mas por muitos esquecida: animais não são pessoas!

David DashiellTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Março de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Recentemente, minha esposa explicou a um amigo que ter um filho recém-nascido era como ter um cachorro — só que dez vezes mais difícil. A explicação dela me fez pensar. Parques para cães, cafés que aceitam animais de estimação e “mães de pet” são coisas que não faltam hoje em dia. Quando morávamos em Nashville, parecia que havia mais serviços para animais de estimação do que creches. É quase como se as pessoas preferissem ter um gato a uma criança.

A crueldade com os animais é execrada [e com razão], mas ao mesmo tempo o aborto é celebrado. Os animais de estimação são vistos como preciosos, já as crianças no útero são outra história. Como é ter um animal de estimação? Uma tarefa rotineira, mas divertida. Animais de estimação são fáceis: eles comem, dormem, brincam e imitam o dono. E ter um filho? Inconveniente e perigoso. Afinal de contas, como criar uma família neste mundo? É algo que envolve muita responsabilidade, e incerteza também. Minha filha recém-nascida tem apenas três meses e posso dizer com certeza que cuidar de um bebê é inconveniente. Criar um filho é como criar um cachorro, só que o cachorro às vezes é mais divertido! Por exemplo, quando você adquire seu primeiro cachorro, é necessário dedicar-se a cuidados de higiene e limpeza, mas não se perde muito sono por causa disso. Já quando você tem seu primeiro filho, precisa ficar sempre de plantão durante a noite.

É um pouco cínico pensar em crianças como um inconveniente. A maioria das pessoas não pensa assim quando vai ao pet-shop. Mas, se fizéssemos uma enquete, quantas pessoas diriam que praticamente não há diferença qualitativa entre cuidar de uma criança e cuidar de um cachorro?

E, no entanto, há uma diferença, e ela é crucial: seu filho é uma pessoa. Não havia como fugir desse fato quando segurei minha filha nos braços pela primeira vez. Esta é uma nova pessoa. Quem ela será? Como vamos educá-la? O que eu fiz para merecê-la? Ao vê-la crescer e fazer descobertas, sei que nunca poderia ter gerado minha filha sozinho e por minhas próprias forças. Ela era um dom. Eu não decidi seu sexo, aniversário ou características físicas.

Eu a chamo de minha filha, mas nunca poderei reivindicar propriedade sobre ela da mesma maneira que faço com um animal de estimação. Nos próximos dois anos, sua vontade e intelecto aparecerão com mais destaque. Ela passará a aprender, pensar e tomar decisões. Ela se tornará cada vez mais interessante, expressando algo que sempre esteve lá: sua personalidade, sua “pessoa-lidade”. Desde a sua concepção, isso já estava por vir.

Os animais são nossos de uma maneira que as pessoas não são. Eles são dados às crianças como uma recompensa, algo que se ganha por um bom comportamento. Os animais selvagens são independentes, mas podemos domesticá-los sem escrúpulos. Os animais simplesmente não são pessoas. Segurar um filhote nunca será o mesmo que segurar um bebê. Nós nunca pensamos: “Como meu cachorro mudará o mundo? Ele vai se tornar um cão de guarda ou o presidente?” Para animais de estimação, virtude, vício e contemplação são impossíveis. Eles não agem, só reagem. Sempre estarão bem, desde que sejam atendidas suas necessidades físicas básicas.

Criar um animal de estimação é simples. Nunca precisaremos nos preocupar com animais dominando o mundo. Não precisamos ensinar história ou regras de etiqueta aos nossos animais de estimação. Solte um gato de três anos em um campo e ele conseguirá sobreviver. Faça o mesmo com uma criança, ela não durará uma semana. Quando você considera a moralidade, as coisas ficam ainda mais complicadas. As crianças precisam aprender a distinguir o bem do mal, e a controlar suas emoções. Isso requer muito mais esforço do que ensinar novos truques a um cachorro.

Porém, quanto maior o esforço, maior é a recompensa. Receber o dom de outra pessoa é algo extraordinário, e não há nada que se iguale a poder criar e formar um santo. Ser pai exige noites sem dormir, compromissos desfeitos e decisões angustiantes. Os pais não podem se eximir de atender às necessidades físicas básicas de seus filhos e ir embora. Os bons pais devem ser altruístas e dedicados; caso contrário, estarão lidando com uma criança desnutrida, infeliz e subdesenvolvida. O sacrifício é um requisito fundamental, não uma opção. Ser pai exige amor.

Por ser pai há pouco tempo, entendo a gravidade dessa afirmação. Quando descobri que minha esposa estava grávida, sabia que tinha uma escolha a fazer: sacrificar minhas próprias preferências e ser um bom pai e esposo, ou viver a vida como sempre vivi, negligenciando, assim, as necessidades da minha família. Querendo ou não, tive de tomar uma decisão. Dela dependia meu crescimento ou estagnação. Como novo pai, fui confrontado com uma escolha a ser feita: tornar-me o tipo de pessoa que pode criar um recém-nascido para ser um santo, ou não. Aqui, o que está em jogo é a eternidade.

Este é o ponto crítico: criar bem um filho exige santidade, e é por isso que se trata de algo tão inconveniente, apesar de recompensador. A santidade é árdua. Exige colocar-se por último. É essa árdua jornada que conduz à maior das alegrias. Esse caminho leva à felicidade, e chegar-lhe ao termo é alcançar o Céu. Sacrificar-se por sua família significa tornar-se mais virtuoso. Uma vez que abraçamos uma vida de amor sacrificial, começamos a agir como Deus age e a ver como Ele vê. Na paternidade bem vivida, amadurecemos e aprendemos mais sobre o que significa ser e o que significa amar uma pessoa.

Ter um animal de estimação é simples. Verifique se suas necessidades básicas foram atendidas, e tudo estará bem. Nada heroico é necessário. Você ainda poderá experimentar as “coisas boas” da vida: uma noite tranquila sozinho, uma noite na cidade ou umas férias extravagantes. Mas, quando você cria um filho, as coisas são diferentes. Você é obrigado a negar a si mesmo e a oferecer tudo pelo bem do seu filho. É uma tarefa cansativa, de fato; se bem feita, porém, permite a você formar um santo e, ao mesmo tempo, tornar-se um. E faz você se dar conta, ainda, de algo importante: as melhores “coisas” da vida não são coisas, e sim pessoas.

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O Tabor e o Altar
Espiritualidade

O Tabor e o Altar

O Tabor e o Altar

Lá foi a divindade, que se lhe irradiou através do seu corpo humano; aqui é essa mesma divindade e esse mesmo corpo que se lhe escondem sob as aparências místicas do pão transubstanciado.

Dom Francisco de Aquino Corrêa9 de Março de 2020Tempo de leitura: 2 minutos
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Et transfiguratus est (Mt 17, 2).
E transfigurou-se.

Nas alturas sublimes do Tabor, transfigurava-se Jesus aos esplendores da Glória: transfiguratus est; sobre a humilde pedra d’ara dos nossos altares, transfigurava-se nos véus misteriosos do sacramento.

Lá foi a divindade, que se lhe irradiou através do seu corpo humano; aqui é essa mesma divindade e esse mesmo corpo que se lhe escondem sob as aparências místicas do pão transubstanciado.  

Lá as suas vestes se tornaram brancas e resplandecentes como a neve: aqui toma ele a brancura pálida do trigo.

Lá uma visão solar de triunfo: sicut sol; aqui um mistério imenso de fé: mysterium fidei

Contudo, Senhor! Não invejamos a Pedro, que teve a dita de contemplar assim uma réstea gloriosa de vossa majestade: só vos pedimos aumenteis a nossa fé: adauge nobis fidem.

Dai-nos a fé ardente dos vossos santos e, veremos na treva sagrada de vossa Eucaristia, tão bem como outrora, aos fulgores do Tabor, o halo infinito da vossa divindade.

Dai-nos essa fé, e veremos a montarem guarda de honra, em torno aos vossos altares, melhor do que Moisés e Elias, no monte de transfiguração, a legião fulgurante dos coros angélicos.

Dai-nos essa fé, e ouviremos no sacro silêncio dos vossos tabernáculos, tal como de em meio à luminosa nuvem da narração evangélica, a eterna palavra do Pai: “Este é o meu Filho amado, em quem tenho posto toda a minha complacência: ouvi-o!”

Dai-nos, enfim, essa fé, e nossa alma em êxtase, ao pé dos sacrários desertos, exclamará com o discípulo arrebatado: “Como é bom estar aqui!” Bonum est nos hic esse!

Senhor! Este apóstolo contemplou um frouxo raio da vossa divindade, e extasiou-se: era natural. Outro apóstolo, Tomé, viu o vosso corpo ressuscitado, e creu na vossa divindade: era também natural. E por isso vós lhe dissestes: “Creste, Tomé, porque me viste; bem-aventurados os que não viram e creram”.

Estes bem-aventurados somos nós, os vossos fiéis, que não vemos, mas cremos. Que digo? Vemos também nós, vemos a nossa Eucaristia, mas vemos exatamente o contrário do que devemos crer. Vemos as espécies vulgares do pão, e cremos no vosso corpo sacrossanto. Vemos a inércia da matéria inanimada, e cremos na vossa alma e na vossa vida divina, manancial eterno de todo o movimento e de toda a atividade universal. Vemos a pequenez sutilíssima da hóstia, e cremos na vossa imensidade, que transborda dos céus, da terra e dos mares.

Senhor! Se bem-aventurados são já os que não vêem e crêem, qual será a bem-aventurança de quem vê, mas apesar e ao revés do que vê, crê na vossa palavra, que disse: “Isto é o meu corpo” hoc est corpus meum?

Senhor! Amparai a incredulidade dos nossos corações e das nossas mentes: adjuva incredulitatem!

Referências

  • D. Francisco de Aquino Corrêa. Pétalas do Evangelho. Edição da Arquidiocese de Cuiabá, 1981, p. 39-40.

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Primeiro a verdade, depois o amor e a misericórdia
Doutrina

Primeiro a verdade,
depois o amor e a misericórdia

Primeiro a verdade, depois o amor e a misericórdia

O amor e a misericórdia são belos, mas devem ser precedidos pela verdade. Não podemos nos esquecer de que servimos um Senhor que foi morto pelo que disse, embora ninguém tenha amado seus inimigos mais do que Ele.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Março de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Um dos problemas da cultura ocidental moderna é a tendência a priorizar sentimentos e emoções em lugar da verdade e da razão. A Igreja também foi contaminada por isso: muitas vezes, prefere-se evitar que uma pessoa se sinta ofendida a ensinar de forma inequívoca a doutrina e as verdades da fé

Em seu mais novo livro, Christus Vincit, Dom Athanasius Schneider diz o seguinte:

A atual crise na Igreja tem como causa o descaso com a verdade e, especificamente, uma inversão na ordem da verdade e do amor. Atualmente, tem-se propagado na Igreja um novo princípio de vida pastoral que diz: amor e misericórdia são os critérios supremos, e a verdade deve se subordinar a eles. De acordo com essa nova teoria, se houver um conflito entre amor e verdade, a verdade deve ser sacrificada. Trata-se de uma inversão e uma perversão, no sentido literal da palavra.

Trata-se de um argumento importante sobre a ordem da verdade e do amor. Como nos recorda o bispo, a verdade precede o amor, e serve também como fundamento para o amor perfeito e verdadeiro.

Dom Athanasius mostra que esse insight está enraizado não apenas na natureza das coisas, mas na ação de Deus, que primeiro envia sua verdade na Lei por meio dos profetas e, de modo perfeito, por seu Filho, o Verbo feito carne. Então, após nos transmitir a verdade, Ele envia o Espírito Santo, a Pessoa da Santíssima Trindade associada ao amor. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 5). Portanto, a verdade precede o amor e molda suas bênçãos e exigências.

A precedência da verdade é importante por outra razão: hoje, muitas vezes, o amor é reduzido à afabilidade, que é um aspecto do amor, assim como a correção e a repreensão. Em nossa cultura, se não aprovarmos cordialmente qualquer coisa que outros querem fazer, corremos o risco de ser chamados de odiosos. Muitas vezes o amor é igualado à aprovação, à “camaradagem”.

Segundo essa atitude que contaminou a Igreja, frustrar as pessoas, magoá-las ou fazer com que se sintam “excluídas” é praticamente a pior coisa que podemos fazer. Não importa o fato de o Jesus bíblico frustrar mais do que um punhado de pessoas; Ele “excluiu” aqueles que “não podiam ser seus discípulos” porque não carregariam sua cruz e não o amariam acima de todas as coisas. Na Igreja de hoje, temos de pisar em ovos para não ofender os outros, e falamos incessantemente sobre ser uma “comunidade acolhedora”. Para conseguir, muitos membros do clero e líderes de todas as posições na Igreja parecem dispostos a deformar a veracidade de nossa doutrina por meio do ensino seletivo, do silêncio, ou mesmo de uma completa deturpação do que ensinam o Senhor e as Escrituras. Muitas vezes, a misericórdia é ensinada sem qualquer referência ao arrependimento, que, no entanto, é a própria chave que abre a porta para a misericórdia! O Senhor vincula o chamado ao arrependimento à boa-nova da salvação (cf. Mc 1, 5). 

Naturalmente, nosso objetivo não é ofender, mas o Evangelho possui uma estranha capacidade de afligir os acomodados e confortar os aflitos, e cada um de nós é um pouco das duas coisas. Não podemos nos esquecer de que servimos um Senhor que foi morto pelo que disse, embora ninguém tenha amado seus inimigos mais do que Ele.

Precisamos mobilizar o clero, os pais e todos os líderes na Igreja para ficarem atentos ao problema descrito com tanta precisão por Dom Athanasius Schneider. Não podemos ignorar a ordem correta: a verdade precede o amor e é fundamento dele. As coisas na Igreja muitas vezes estão desordenadas, pois, quando invertemos a ordem, as coisas se tornam — por definição — desordenadas.

Todos nós temos de ser mais corajosos ao falar a verdade. Quando faço uma pregação sobre um assunto difícil ou controverso, muitas vezes preparo meus ouvintes dizendo: “Amo-vos demasiado para mentir para vós”. Em seguida, digo a verdade sobre os ensinamentos de Deus, mesmo que estejam “fora de moda”. Faço isso não apenas para prepará-los, mas para ilustrar que a verdade do Evangelho precede e molda meu amor por eles. Não posso simplesmente dizer que os amo sem considerar a veracidade do Evangelho. Mentir ou silenciar enquanto o lobo do engano os devora não é amor; é ódio, ou até pior, indiferença. Privar as pessoas da verdade que pode libertá-las não é uma atitude amorosa nem misericordiosa.

O amor e a misericórdia são belos, mas devem ser precedidos pela verdade. Sou grato a Dom Athanasius por nos lembrar disso.

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