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Gênero no STF: seu filho em perigo!
Educação

Gênero no STF:
seu filho em perigo!

Gênero no STF: seu filho em perigo!

Este texto é um esclarecimento e um alerta aos pais, para que reajam à ADI 5.668, impetrada pelo PSOL no STF, que pretende impor a obrigatoriedade do ensino da Teoria de Gênero em todas as escolas do Brasil.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Este texto, de autor anônimo, deve ser amplamente disseminado. Trata-se de um apelo aos pais para que reajam à ADI 5.668, impetrada pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) no Supremo Tribunal Federal, que pretende reintroduzir sub-repticiamente, em todas as escolas do Brasil, a Teoria de Gênero, enquanto justificativa teórica para uma suposta “política” escolar de tolerância à diversidade de “identidades” e “tendências” sexuais das crianças. 

1. O que está acontecendo?

O STF marcou para o dia 11 de novembro de 2020 o julgamento da ADI 5.668, impetrada pelo PSOL. Esta ação pretende impor a obrigatoriedade do ensino da Teoria de Gênero em todas as escolas do Brasil.

A Teoria de Gênero já foi amplamente rejeitada pela população brasileira, através dos legisladores dos quase 5.600 municípios, das 27 unidades federativas, do Congresso Nacional, e dos pais do Brasil inteiro que se mobilizaram para que essa ideologia não fosse aprovada no Plano Nacional de Educação (2014), nos Planos Estaduais de Educação (2015), nos Planos Municipais de Educação (2015) e na BNCC, Base Nacional Comum Curricular (2017). A rejeição democrática da Teoria de Gênero é massiva!

2. Histórico do Gênero no Brasil

Em 2014, quando foi votado o Plano Nacional de Educação (PNE), tentou-se incluir a Teoria de Gênero como tema transversal em todo o currículo escolar. Quando os pais perceberam o que estava acontecendo, eles se dirigiram ao Congresso Nacional e explicaram para senadores e deputados que não queriam isso para seus filhos. Então o Gênero foi removido do PNE.

Na sequência, tentou-se inserir o ensino do Gênero nos Planos Estaduais de Educação das 27 unidades federativas do Brasil, com o pretexto de que, embora não houvesse sido incluído no Plano Nacional de Educação, tratava-se de uma meta do Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos e das Conferências Nacionais de Educação, e por isso os estados deveriam incluí-la nos Planos Estaduais de Educação (PEE). Novamente os pais dirigiram-se às assembleias estaduais e o Gênero foi retirado de todos os currículos estaduais.

Mesmo assim o Ministério da Educação tentou orientar os municípios de todo o Brasil para que a Teoria de Gênero fosse incluída, desta vez, nos Planos Municipais de Educação. Deu-se então o fato extraordinário de que os pais dos cerca de 5.600 municípios brasileiros dirigiram-se aos vereadores de suas cidades e a Ideologia de Gênero foi rejeitada em praticamente todas as casas legislativas.

Ainda assim, ao ser apresentada em 2017 e 2018 a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), houve uma nova tentativa de incluir-se a Teoria de Gênero no currículo das escolas nacionais. Os pais intervieram novamente e o MEC viu-se obrigado a retirar o Gênero da BNCC. Nas audiências públicas abertas em todas as regiões do Brasil, quase a terça parte das intervenções consistia em oradores que se pronunciavam para manifestar a rejeição de pais e mestres à inclusão da Ideologia de Gênero na BNCC.

Foi então que o PSOL, incorformado com essa situação, impetrou em 2017 a ADI 5.668 no Supremo Tribunal Federal para exigir a obrigatoriedade do ensino da Teoria de Gênero no currículo de todas as escolas do Brasil, ignorando as decisões dos legisladores dos quase 5.600 municípios, das 27 assembleias estaduais, da Câmara e do Senado federais e dos pais de todo o país, que haviam democraticamente rejeitado a Teoria de Gênero para seus filhos.

3. O argumento do PSOL

A ação impetrada pelo PSOL afirma que todos esses pais e legisladores que se opuseram à inclusão da Teoria de Gênero no currículo escolar são ideólogos. Segundo afirma o texto da ADI 5668, ideologia é a negação de uma realidade manifesta. Negar um fato evidente com base em ideias configura uma ideologia. Ora, segundo os autores, são fatos evidentes a existência de gays, lésbicas, transgêneros e travestis, e também que esses cidadãos sofrem discriminação por causa de suas orientações sexuais. Essas pessoas, ademais, frequentam as escolas. Desconsiderar essas realidades e não fazer caso para a discriminação daí decorrente, portanto, configuraria ideologia. Reconhecer, em vez disso, a pluralidade de gêneros e com base nisso combater a discriminação por gênero seria uma realidade científica. Portanto, devido ao preceito constitucional que veda todo tipo de discriminação e à Lei de Diretrizes e Bases da Educação que, seguindo a Constituição, propõe o combate à discriminação como um dos objetivos da educação nacional, o PSOL pede que os Ministros do STF imponham a obrigatoriedade da inclusão da Teoria de Gênero no currículo escolar.

O argumento da ADI, porém, está equivocado porque este não é o conteúdo da Teoria de Gênero. A teoria pretende desconstruir a heterossexualidade, a qual é denominada por ela de heteronormatividade, afirmando que nenhuma orientação sexual tem base biológica, mas é apenas uma construção arbitrariamente imposta sobre as pessoas. Com isto pretende-se descontruir a identidade sexual das pessoas e, a partir daí, destruir as próprias bases em que se sustenta a instituição familiar.

4. O que é a Teoria de Gênero

A Teoria de Gênero afirma que ninguém nasce homem ou mulher, mas deve aprender a construir sua própria identidade de gênero, em vez de recebê-la como algo arbitrariamente imposto a partir de seus órgãos sexuais. O gênero deveria ser uma construção pessoal, não um papel imposto pela sociedade, e ninguém deveria ser identificado a priori, já desde o nascimento, como “homem” ou “mulher”, mas, em vez disso, deveria ser auxiliado pela escola a construir cada qual a sua própria identidade.

Homem e mulher seriam apenas papéis sociais inventados dos quais a maioria das pessoas deveriam ser libertados. Se há quem se sinta bem no papel de homem ou mulher, isso deve-se ao fato de terem sido assim ensinados desde a mais tenra infância. Em vez deste modelo educacional, cada criança deveria ser progressivamente levada à experiência das mais variadas formas de expressão sexual, até adaptar-se por si mesma a algum gênero já existente ou construir outro gênero novo que seja mais próprio para si mesmo. Em um horizonte mais distante, a finalidade última seria a completa desconstrução da heterossexualidade ou, como a teoria prefere nomeá-la, da heteronormatividade, até reconstruir a sociedade em uma nova estrutura não mais baseada na família natural ou, como preferem chamá-la, na família patriarcal.

Portanto, a Teoria de Gênero que pretendem impor aos nossos filhos não diz respeito ao combate ao preconceito, mas à desconstrução da identidade sexual. Se nós, pais e mães, não nos mobilizarmos, a partir de fevereiro do próximo ano de 2021 nossos filhos serão progressivamente educados na Teoria de Gênero, com resultados desastrosos.

Será que pais e mães conseguem imaginar o que se passa na cabeça de seus filhos quando no colégio lhe dizem que ele não nasceu homem nem mulher, mas que eles podem transformar sua identidade sexual segundo o seu desejo? Quando a escola ensina a suas filhas que elas podem namorar com a sua melhor amiga, que isso é normal e que todas as crianças devem experimentar todas as formas de sexualidade possíveis até encontrarem um gênero para si mesmas?

Pois isto é a Teoria de Gênero, e sua entrada no sistema educacional começa pela introdução dos conceitos de gênero, identidade de gênero e orientação sexual.

Hoje, em que o Gênero ainda não é lei, já há várias creches no Brasil onde as prefeituras exigem dos que têm a concessão de funcionamento que não mais possuam banheiros masculino e feminino separados, mas que as crianças usem todas um mesmo banheiro comum. Exigem também que os meninos tenham de brincar de boneca e as meninas tenham de jogar bola, e posteriormente serão incentivadas a experimentarem o namoro de meninos com meninos e um variado leque de diversas experiências sexuais, até obter uma gradativa desconstrução de sua identidade sexual. Isso sim é ideologia, pois inúmeros estudos científicos mostram haver diferença de comportamento nas crianças segundo suas diferenças sexuais logo após o nascimento, antes que elas possam ter entrado em contato com a cultura.

5. O que os pais devem fazer

A Constituição brasileira afirma que todo poder emana do povo, que é representado pelo Congresso eleito pelos cidadãos. Por este motivo, utilize as redes sociais para falar com os congressistas. Fale em nome do seu filho. O Congresso possui as prerrogativas constitucionais para defender-se da intromissão dos demais poderes nas prerrogativas exclusivas do Poder Legislativo.

Recomendamos gravar um vídeo dirigido aos deputados, curto mas objetivo, posicionando-nos contra a obrigatoriedade do ensino da Teoria de Gênero nas escolas e pedindo aos parlamentares que votem imediatamente o Projeto de Lei 4.754/2016, que caracteriza a usurpação de competência exclusiva do Poder Legislativo por parte dos Ministros do Supremo Tribunal Federal como crime de responsabilidade passível de impeachment. Nesta época de eleições em que o Congresso está parcialmente inativo, este vídeo poderia ser postado preferencialmente no Instagram.

Na sequência, conviria comentar o próprio vídeo e incluir o endereço do Instagram dos deputados federais (por exemplo, @FulanoDeTal). Aqui se encontra uma lista com as direções do Instagram dos deputados federais atualmente em exercício. Ao marcarmos um comentário no Instagram com os endereços de alguns deputados, o próprio Instagram irá encaminhar o vídeo e a mensagem ao Instagram do deputado marcado. Não deixe de incluir na postagem a hashtag: #aprovapl4754.

Devido à época de eleições e à proximidade do julgamento da ADI 5668, convém priorizar o contato com os parlamentares através de vídeo e mensagem de Instagram. Quem não possui uma conta de Instagram não terá dificuldade em abrir uma. Mas não deixe de manifestar-se também através do e-mail, telefone e das demais redes sociais!

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Indulgências “pro defunctis” prorrogadas devido à COVID-19
Igreja Católica

Indulgências “pro defunctis”
prorrogadas devido à COVID-19

Indulgências “pro defunctis” prorrogadas devido à COVID-19

Neste ano, devido à pandemia do novo coronavírus, as indulgências plenárias pelos fiéis defuntos, que normalmente se ganham nos oito primeiros dias de novembro, poderão lucrar-se ao longo de todo o mês das almas.

Santa SéTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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DECRETO

Neste ano, por causa da pandemia da doença de COVID-19,
as indulgências plenárias pelos fiéis defuntos
prorrogam-se por todo o mês de novembro,
comutadas as condições e obras pias, em vista da segurança do povo cristão

Chegaram há pouco a esta Penitenciaria Apostólica muitas súplicas da parte de sagrados pastores, pelas quais se pedia que neste ano, por causa da pandemia da doença de COVID-19, se comutassem as obras para lucrar as indulgências plenárias aplicáveis somente às almas do Purgatório, segundo a norma do Manual de Indulgências (conc. 29, §1). Por isso, a mesma Penitenciaria Apostólica, por especial mandado do SS. Padre, o Papa Francisco, de bom grado determinou e deliberou, para evitar aglomerações, proibidas ou ao menos desaconselhadas em algumas nações e territórios, que neste ano: 

a) A indulgência plenária para os que piedosamente visitarem cemitérios e, ainda que apenas mentalmente, rezarem pelos defuntos — limitada, segundo a norma, apenas aos oito primeiros dias de novembro —, possa, para comodidade dos fiéis, ser transferida dentro do mês de novembro para outro período de até oito dias, ainda que descontínuos, de livre escolha de cada fiel;

b) A indulgência plenária do dia 2 de novembro, na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, para os que piedosamente visitarem uma igreja ou oratório e ali recitarem um Pai-nosso e um Creio, possa ser transferida não somente para o domingo anterior ou posterior ou para o dia da solenidade de Todos os Santos, mas também para outro dia, dentro do mês de novembro, de livre escolha de cada fiel; 

Os idosos, os doentes e os que, por causa grave, não podem sair de casa (v.gr., por força de decretos que proíbam os fiéis de se reunirem nos lugares sagrados), poderão lucrar a indulgência plenária, desde que, unindo-se em ânimo e voto aos que fizerem as piedosas visitas de que se falou acima, tendo detestado os próprios pecados e feito a intenção de cumprir, assim que possível, as três condições de costume (confissão sacramental, comunhão eucarística e oração pelas intenções do sumo Pontífice), recitem diante de qualquer imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo ou da Bem-aventurada Virgem Maria piedosas preces pelos defuntos (v.gr., as Laudes e as Vésperas do Ofício dos defuntos, o Rosário mariano, a coroa da Divina Misericórdia, e outras preces pelos defuntos mais caras aos fiéis), ou leiam, a título de leitura espiritual, o Evangelho da Liturgia dos defuntos, ou realizem uma obra de misericórdia, entregando a Deus clemente suas dores ou os incômodos da própria vida.

A fim, pois, de tornar mais fácil, por caridade pastoral, o acesso ao perdão divino, alcançável pelas chaves da Igreja, esta Penitenciaria roga insistentemente que os sacerdotes legitimamente facultados, de ânimo pronto e generoso, celebrem a Penitência e administrem a sagrada comunhão aos doentes.

No entanto, no que diz respeito às condições espirituais para lucrar plenamente a indulgência, está sempre em vigor a Nota desta Penitenciaria Apostólica sobre a celebração do sacramento da Reconciliação em tempos de pandemia da doença de COVID-19.

Por último, uma vez que as almas do Purgatório são ajudadas pelos sufrágios dos fiéis, sobretudo pelo santo sacrifício do Altar (cf. Concílio de Trento, sess. 25.ª, Decreto sobre o Purgatório), roga-se insistentemente a todos os sacerdotes que, no dia da Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, celebrem a Missa três vezes, segundo a norma da Constituição Apostólica “Incruentum Altaris”, do Papa Bento XV, de venerável memória, do dia 10 ago. 1915.

Valerá o presente Decreto por todo o mês de novembro, não obstante quaisquer disposições em contrário.

Dado em Roma, nas dependências da Penitenciaria Apostólica, no dia 22 de outubro de 2020, na memória de S. João Paulo II.

Maurus Card. Piacenza
Penitenciário-Mor

Christophorus Nykiel
Regente

Notas

  • Esta tradução foi feita por nossa equipe a partir do original latino do decreto da Penitenciaria Apostólica, logo após a sua publicação no site do Boletim da Sala da Imprensa da Santa Sé; não se trata, portanto, da tradução oficial do documento. A versão oficial em português, feita pública somente entre os dias 3 e 4 de novembro, pode agora ser lida aqui.

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Teria Jesus permitido o divórcio?
Doutrina

Teria Jesus permitido o divórcio?

Teria Jesus permitido o divórcio?

O que quis dizer Nosso Senhor quando afirmou que “todo aquele que repudiar a sua mulher, a não ser por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério”? Seria essa difícil passagem do Evangelho uma exceção à regra de que o matrimônio é indissolúvel?

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Em Mt 19, 9, existem traduções protestantes, e a Vulgata (se não me engano) diz que o divórcio é permitido em caso de fornicação do cônjuge, mas as traduções católicas dizem que só em caso de casamento nulo. Os protestantes atuais se divorciam e casam-se novamente, já na Igreja Católica só se separa com casamento nulo ou morte. Qual a tradução correta? E por que essa suposta ‘brecha’ só aparece em Mateus?”

Resposta: Sua pergunta toca num ponto delicado e importante da doutrina cristã, razão por que merece uma resposta um pouco mais detalhada [1]. Esperamos que os pontos abaixo sejam suficientes para esclarecer a dúvida. A resposta traduz, quase literalmente, a lição de um biblista (cf. H. Simón, Prælectiones Biblicæ, vol. 1, n. 206) e a de um teólogo moral (D. Prümmer, Manuale Theologiæ Moralis, vol. 3, n. 662) a esse respeito.

1) No Antigo Testamento. — A antiga Lei (cf. Dt 24, 1) permitia aos judeus despedir a esposa por “qualquer coisa inconveniente” (em latim, na Vulgata: propter aliquam fœditatem; em hebraico: ‘erwah = “nudez”, quer dizer, “indecência”), entregando-lhe um libelo de repúdio. No tempo de Cristo, a escola rabínica Shammai ensinava que apenas em caso de adultério seria lícito o repúdio; a escola Hillel, contudo, pervertendo o sentido e as palavras da Lei, opinava que a mulher poderia ser despedida por qualquer motivo.

“Casamento em Caná”, de Murillo.

2) No Novo Testamento. — Na Nova Lei, Cristo proíbe três coisas: a) despedir a esposa sem justa causa, isto é, por outro motivo que não seja adultério [2]; b) atentar um novo matrimônio enquanto ainda vive a primeira (e legítima) esposa; c) e tomar em casamento a esposa de outro, despedida pelo primeiro (e legítimo) marido. Portanto, a palavra que lemos no Evangelho (em latim, dimittere; em português: “despedir”, “rejeitar” etc.) não significa a dissolução do vínculo matrimonial, mas apenas a chamada separação “de cama e mesa” (tori et mensæ), também chamada separação de corpos, como se explicará melhor a seguir. O próprio direito da Igreja prevê e regula essa possibilidade, ao admitir certas causas legítimas de separação com permanência do vínculo (cf. Código de Direito Canônico, Cân. 1151-1155).

3) Uma exceção à regra? — No entanto, essa doutrina parece incompatível com o trecho de Mt 19, 9, onde se lê a seguinte cláusula, aparentemente restritiva: em grego, μὴ ἐπὶ πορνείᾳ; em latim, nisi ob fornicationem; em português, literalmente, “exceto no caso de fornicação”. Daqui, com efeito, parece seguir-se a conclusão contrária, a saber: “Quem despedir sua esposa em caso de fornicação e casar-se com outra não comete adultério”, o que contradiz a doutrina constante da Igreja Católica sobre a indissolubilidade do matrimônio. Como entendê-lo? Tratar-se-ia de uma exceção à proibição do divórcio?

4) Solução. — Muitos protestantes e cismáticos orientais pensam que sim e, por esse motivo, permitem o divórcio, com dissolução do vínculo, quando algum dos cônjuges comete adultério. E alguns deles, como é sabido, permitem às vezes até mais de um divórcio. Mas essa passagem, se bem entendida, não admite nenhuma interpretação “permissiva”.

a) A interpretação tradicional. — De todas as explicações do texto, a melhor, mais antiga e comum é a que refere S. Tomás de Aquino: “Aquela exceção (‘exceto no caso de…’), que está nas palavras do Senhor, se refere à demissão (dimissio, ou seja, ao ato de despedir ou afastar do convívio doméstico) da esposa” (In IV Sent. dist. 35, q. 1, a. 5 ad 4). O sentido das palavras do Senhor, por conseguinte, é este: não é lícito despedir o cônjuge, exceto no caso de ele cometer adultério; mas, mesmo nesta hipótese, não é lícito contrair novas núpcias. Se, portanto, alguém contrair outro matrimônio enquanto ainda vive a parte adúltera, também comete adultério.

b) Confirmação bíblica. — Isto é confirmado pelas passagens paralelas de S. Marcos e S. Lucas, nas quais Jesus se expressa em sentido absoluto, sem fazer nenhuma limitação: “Quem repudia sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudia o marido e se casa com outro, comete adultério” (Mc 10, 11s); “Todo o que abandonar sua mulher e casar com outra comete adultério; e quem se casar com a mulher rejeitada, comete adultério também” (Lc 16, 18). Ouça-se ainda o que S. Paulo, que com certeza entendia as palavras de Cristo, dizia aos casais cristãos: “Aos casados mando (não eu, mas o Senhor) que a mulher não se separe do marido. E, se ela estiver separada, que fique sem se casar, ou que se reconcilie com seu marido. Igualmente, o marido não repudie sua mulher” (1Cor 7, 10s) [3].

c) Conclusão. — Em suma, a cláusula μὴ ἐπὶ πορνείᾳ (“exceto no caso de fornicação”) se refere apenas ao primeiro membro da oração (isto é, ao ato de despedir ou rejeitar), mas não ao segundo (isto é, ao ato de desposar), de maneira que o sentido é: “Todo aquele que rejeita sua mulher (posto a salvo o vínculo matrimonial), o que porém não é lícito a menos que ela cometa adultério, e desposa uma outra, comete adultério. E aquele que desposa uma mulher rejeitada, comete também adultério”. Aqui, pouco importa que se interprete o termo πορνεία como “adultério” ou “fornicação”, já que a palavra significa, em sentido amplo, qualquer imoralidade sexual e, neste contexto, qualquer ato contra a fidelidade conjugal: de fato, não é possível a uma pessoa legitimamente casada cometer um pecado de fornicação que não seja, eo ipso, adultério.

5) Observações. a) Qualquer tradução católica (e, portanto, fiel à ortodoxia cristã) da Bíblia há de preservar esse sentido. É o que fazem, v.gr., as versões da Ave-Maria [4], que utilizamos ao longo desta resposta, e do Pe. Matos Soares, que a verte assim: “Eu, pois, digo-vos que todo aquele que repudiar sua mulher, a não ser por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que se casar com uma repudiada, comete adultério”.

b) Lembramos por fim que, segundo alguns autores, constitui verdade de fé divina e católica definida (portanto, um dogma em sentido estrito) a doutrina segundo a qual o vínculo matrimonial é intrinsecamente indissolúvel, mesmo em caso de adultério (cf. Pe. Antonio Royo Marín, Teología moral para seglares, vol. 2, n. 491). Daí a Igreja ter sempre ensinado que nenhum matrimônio válido, rato e consumado pode ser dissolvido quanto ao vínculo (que, fora dos casos em que cabe a aplicação do chamado “privilégio paulino”, só se desfaz com a morte de um dos cônjuges) por qualquer poder ou autoridade humana, nem mesmo pelo Sumo Pontífice.

Notas

  1. Recomendamos também a leitura da resposta de D. Estêvão Bettencourt, OSB, a pergunta semelhante. Está disponível em: Pergunte e Responderemos, Rio de Janeiro, nov. de 1957 (VII), p. 14ss.
  2. O que não exclui — como o demonstra a prática da Igreja — outras razões proporcionalmente graves que põem em sério risco a paz doméstica e a integridade (física, moral e espiritual) do cônjuge ou dos filhos (cf. CDC, Cân. 1153, §1).
  3. O Apóstolo S. Paulo referenda a indissolubilidade do matrimônio cristão não só com sua própria autoridade apostólica, mas também com o mandamento expresso de Cristo: “Mando, não eu, mas o Senhor” (cf. Mt 5, 32). Logo, essas palavras têm força de lei, e não de simples conselho, como poderia fazer crer a alguns a tradução em português, que não preserva de todo o caráter preceptivo da frase: “que fique sem se casar”, como se também fosse possível se casar. Na verdade, o Apóstolo estabelece somente duas alternativas ao cônjuge despedido: ou manere innuptus (isto é, não contrair mais núpcias), ou alteri reconciliari (isto é, fazer as pazes com o outro). — Tampouco se pode objetar que, nos vv. 12-13, S. Paulo abre a possibilidade do divórcio por simplesmente recomendar, pelo uso do subjuntivo exortativo (em latim: non dimittat; em grego: μὴ ἀφιέτω; em português: “não repudie”), que o marido não despeça a mulher, uma vez que, nos vv. 12-13, o Apóstolo se dirige aos “demais” (em latim: ceteris; em grego: τοῖς λοιποῖς), ou seja, aos casais em que uma parte ainda é infiel (não batizada), ao passo que, nos vv. 10-11, ele se havia dirigido aos casais cristãos. Ora, um matrimônio contraído na infidelidade torna-se rato quando ao menos uma das partes abraça a fé cristã, e a parte infiel aceita coabitar com a outra sem contumélia do Criador. Nestes casos, e é deles que fala o Apóstolo, já não é possível despedir licitamente a parte infiel.
  4. Mas com a seguinte ressalva: πορνεία, ao contrário do que se lê na Ave-Maria, não significa aqui “matrimônio falso”, isto é, ilegítimo, mas “fornicação” ou “imoralidade sexual”. É evidente, por outra parte, que, se um matrimônio é falso, não há propriamente vínculo nem, portanto, uma relação conjugal per si indissolúvel. Quando se constata a ilegitimidade de um matrimônio, constata-se com isto a inexistência de verdadeiro vínculo marital. É o que faz a Igreja nos processos de reconhecimento de nulidade (e não de “anulação”).

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São João Paulo II conhecia os perigos de uma antropologia ruim
Sociedade

São João Paulo II conhecia
os perigos de uma antropologia ruim

São João Paulo II conhecia os perigos de uma antropologia ruim

O marxismo e o socialismo são falhos não porque seus ideais sejam muito elevados, mas porque eles se baseiam numa visão de pessoa humana que é deficiente, inadequada e, sobretudo, perigosa. São João Paulo II sabia muito bem disso.

Steve GreeneTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Pesquisas mostrando que a maioria dos jovens americanos da geração do milênio (millennials) é simpática ao socialismo têm gerado preocupações ou esperanças, a depender de quem é o alvo da pergunta. Mas, independentemente do que o mundo secular pensa, os católicos não podem afirmar esse erro. Marxismo e socialismo são essencialmente falhos não porque seus ideais são muito elevados, mas porque se baseiam numa antropologia (ou visão da pessoa humana) deficiente.     

Talvez nenhuma pessoa tenha compreendido tão bem as consequências terríveis da antropologia marxista quanto São João Paulo II. O jovem Karol cresceu numa Polônia governada sucessivamente pelas tiranias da Alemanha nazista e do império comunista russo. Portanto, viu de perto o poder destrutivo de ideias terríveis. Ele perdeu amigos de infância judeus sob a ocupação nazista, e quando era um jovem seminarista, ajudou a liderar uma resistência pacífica contra os soviéticos ao preservar as tradições polonesas por meio do estudo e de um grupo de artistas clandestino.

Talentoso filósofo e sacerdote católico, Wojtyla trouxe uma dimensão única à contemplação dos horrores do século XX, que causaram a morte de dezenas de milhões de pessoas. E quando se tornou Papa João Paulo II, sua dolorosa experiência e seus estudos iluminaram seja a sua contemplação diuturna do mistério do amor e da personalidade humanas, seja o ensino magisterial que surgiu dessa contemplação. 

Em outras palavras, a experiência de João Paulo II o tornou imune às alegações de que o socialismo é o caminho para a justiça e a paz. O que no papel parece um paraíso é na prática terreno fértil para monstros

São João Paulo II, que estudou filosofia por toda a vida, concentrou seu trabalho acadêmico no desenvolvimento de um sólido personalismo — a visão de que a pessoa humana é a chave para destravar e compreender os mistérios mais profundos da realidade. Criada homem e mulher à imagem e semelhança de Deus e dotada de intelecto e vontade para conhecer a verdade e escolher o bem, a pessoa humana é, na visão de João Paulo II, a porta pela qual podemos entrar tanto na contemplação da Santíssima Trindade quanto na reta ordenação de todas as sociedades humanas.

Em contrapartida, Marx via a pessoa humana como mero acidente material — um resultado aleatório e involuntário de forças físicas cegas que operam num universo desprovido do divino. Para Marx e seu parceiro de conspiração, Friedrich Engels, a revolução socialista se baseia na crença de que o homem é um produto das forças socioeconômicas que o circundam, e que ele se desenvolve de forma mais adequada como peça produtiva de um coletivo mais amplo. Não se trata de um indivíduo, mas de uma matéria a ser transformada em algo que possa ser útil ao Estado e garantir a igualdade econômica e a utopia imaginada pelos fundadores do socialismo.

Chega a ser um eufemismo grosseiro considerar essa ideia de humanidade deficiente, inadequada e (já que ideias têm consequências) perigosa.

Tendo vivido e sofrido em dois sucessivos regimes socialistas, São João Paulo II não encontrou dificuldades para identificar os erros e mentiras delas. Sua experiência o levou a pensar de modo mais profundo e claro sobre a verdade da pessoa humana, e então ensiná-la e pregá-la com eloquência e poder singulares.

As reflexões de João Paulo sobre a “antropologia adequada” da Igreja — uma verdadeira e completa compreensão da origem, natureza e destino da pessoa humana — perpassam boa parte de sua obra, mas talvez sejam apresentadas de modo mais completo e convincente em sua obra magna sobre o amor e a personalidade humana: a Teologia do Corpo. Esse trabalho é composto por suas catequeses profundamente contemplativas sobre a verdade da pessoa humana, partindo do coração e da mente da Igreja, e talvez forneça o antídoto mais forte ao socialismo e às diversas outras antropologias deletérias disponíveis em nossa cultura, cada vez mais pós-cristã.  

Para São João Paulo II, uma pessoa humana jamais poderia ser — como Marx propôs — apenas um produto aleatório e involuntário de forças cegas da física e da evolução, o qual só serviria para ser transformado numa engrenagem útil no maquinário de um Estado coletivista. Cada pessoa é um dom, uma expressão singular e irrepetível do amor vivificador do Deus trinitário. Cada vida humana é uma aventura permeada de sentido, propósito e dignidade, uma história de amor única com origem e destino divinos.

O socialismo sempre propôs que o cidadão existe para o Estado; um ser humano é uma coisa a ser usada para o bem do Estado e como extensão de seu poder e prosperidade. Mas Karol Wojtyla viveu sob os efeitos desumanizadores dessa infame visão da pessoa humana; ele conheceu suas consequências destruidoras. Em vez disso, São João Paulo II propôs novamente a profunda e transformadora verdade de que toda pessoa humana é literalmente amada desde a eternidade em sua existência, e que cada um de nós é infinitamente precioso para Deus. Somos criados em comunhão e solidariedade com outros, e ao Estado cabe manter e defender a identidade e a dignidade de cada pessoa (ambas são dons divinos), em vez de determiná-las. O socialismo afirma que a pessoa existe para o Estado, e o catolicismo afirma que o Estado existe para a pessoa.

Na ideologia socialista, o valor de um ser humano só é determinado pelo que ele tem a oferecer ao Estado. Para João Paulo II, cada pessoa humana é insubstituível, indispensável e tem valor infinito, independentemente de suas capacidades, de sua produtividade ou contribuição material. Ele sabia por fé, razão e experiência que toda vez que o cálculo do valor de uma pessoa é feito por outros seres humanos, os direitos fundamentais dela são ameaçados. Se é o Estado que concede dignidade e direitos às pessoas, ele também pode negá-los ou retirá-los.

Também é interessante observar as razões que sempre levaram os regimes socialistas e comunistas a promover o ateísmo e a supressão da fé cristã. O socialismo é, de fato, a deificação do Estado; essa ideologia o põe acima de todos os outros compromissos e comunidades, exigindo adesão absoluta a suas ordens e prioridades. Para Marx e seus protegidos, todas as outras comunidades e compromissos humanos — com Deus, com o cônjuge, com a família e com a Igreja — devem ser eliminados da sociedade para dar prioridade ao Estado todo-poderoso. Para os socialistas, cada homem é propriedade do Estado coletivista. 

Aqui novamente São João Paulo II enxergou com uma clareza aguda a ameaça que a verdadeira antropologia cristã representava para o projeto marxista. Na tradição católica, a pessoa, a família e a fé são todas comunidades e compromissos que existem antes do Estado, tanto em termos cronológicos como segundo a ordem natural das coisas. Deus criou pessoas, o matrimônio e a família como meios naturais por meio dos quais novas pessoas passam a existir, são amadas e formadas. O Estado, por outro lado, é um construto humano, uma realidade temporária pela qual as pessoas passam em sua estrada rumo à vida que virá.

A ênfase na alternativa católica à antropologia socialista é apenas uma parcela do legado vivo de São João Paulo II. Ao longo de seu ministério como sacerdote, bispo e Papa, ele proclamou e defendeu a dignidade e o valor únicos e irrepetíveis de cada pessoa humana, e jamais se esqueceu dos horrores perpetrados pelos socialistas da Alemanha nazista e da Rússia soviética. Quando garoto, Karol Wojtyla sobreviveu ao terror da ocupação socialista. Como Papa, o grande São João Paulo combateu o erro da antropologia socialista com a verdade, a bondade e a beleza da fé católica.   

Papa São João Paulo II,
rogai por nós!

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