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Por que ficou tão difícil defender o óbvio?
Sociedade

Por que ficou tão difícil defender o óbvio?

Por que ficou tão difícil defender o óbvio?

É normal crer em Deus e que uma família é composta de pai, mãe e filhos. É normal proteger a vida. Mas, surpreendentemente, é difícil defender essas coisas hoje em dia, e afirmar o óbvio tornou-se algo desafiador...

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Continuamos a cambalear por conta dos golpes desferidos pela cultura da morte. O ataque à vida, e particularmente à família, instituição que gera e alimenta a vida, prossegue implacavelmente. Agora, nossos governos e tribunais deram o nome de “casamento” a um tipo de relacionamento antinatural e estéril, que noutra época não se poderia mencionar num ambiente respeitoso. Ser enxovalhado dessa maneira pode ser desorientador, e temos visto até pessoas boas começando a falar como se tivessem sido atingidas na cabeça muitas vezes.

Infelizmente, temos de admitir: nós aceitamos ser encurralados. Todavia, podemos mudar o ímpeto dessa luta, assumindo, em primeiro lugar, o controle da conversa, para que não sejamos controlados por chavões que servem apenas como distração; temos, por isso, de afastar o debate da palavra “casamento”, da qual tanto se abusa, e focar na palavra “matrimônio”, que pressupõe um vínculo que dá origem à maternidade. E não nos esqueçamos de acrescentar o adjetivo “santo”, que aponta para a sacralidade do ato diante de Deus.

Dessa maneira, levamos a discussão de volta ao princípio do que é uma família e qual é o seu papel na sociedade. Ao longo de toda a história humana, do mundo antigo ao moderno, a família sempre foi o “tijolo” fundamental da civilização. E é o que constrói, de fato, não apenas as quatro paredes do lar, mas também as paredes que protegem a cidade. Portanto, destruir a família equivale a destruir a sociedade, e redefinir a família é essencialmente o mesmo que destruí-la.

Se realmente quisermos ganhar essa batalha, deveríamos ler muito mais G. K. Chesterton, por exemplo. Na verdade, todos deveriam lê-lo. Chesterton é um defensor da fé, da família, da vida e — o que é especialmente necessário para os dias de hoje — ele é um defensor da normalidade. Afinal, é mesmo normal crer em Deus e que uma família é composta de pai, mãe e filhos. É mesmo normal proteger a vida. Mas, surpreendentemente, é difícil defender essas coisas hoje em dia, e afirmar o óbvio tornou-se algo desafiador. Por isso Chesterton pode ajudar bastante.

Fundamentalmente, protegemos o lar porque é um lugar de liberdade, ainda que às vezes seja difícil defini-la. A esse respeito, Chesterton argumenta que o mundo fora da casa — o escritório, a empresa, o banco, a loja — é mais regrado e restritivo, além de ser menos respeitoso com a dignidade humana e a liberdade do que o lar. Vejam que o comércio está sempre preocupado com a moda, assim como a chamada “vida social”. Ambos estão sempre em busca do prazer, o que é bem diferente da felicidade; trata-se de uma questão de gosto, o qual acaba conduzido justamente pela moda. Assim, as pessoas terminam mais presas ao pequeno, estranho e badalado mundo fora do lar do que ao vasto, belo e permanente mundo dentro do lar.

Chesterton diz: “Reclamo da tendência antidoméstica porque ela é tola. As pessoas não sabem o que estão fazendo, porque não sabem o que estão desfazendo”. Toda discussão, acrescenta ele, é “uma evasão ou fuga isolada” que não pretende enfrentar o seguinte: para que serve uma família e como ela está sendo destruída.

Mas como chegamos a este ponto? Chesterton viu há mais de um século que isso aconteceria. O colapso moderno da família, diz ele, deve-se à “emancipação sexual”. Essa expressão abrange muitas coisas que estão interligadas: a perda dos papéis distintos do homem e da mulher, do marido e da esposa, do pai e da mãe; a desonra às promessas matrimoniais, que levou ao divórcio, à segunda união e a crianças com um ou três pais; a relutância à própria realização dos votos, que gerou a epidemia de “coabitação”, a qual, por sua vez, perpetua a infidelidade, a ilegitimidade e o abuso violento; a praga da pornografia, que tenta fazer do sexo algo solitário; e, agora, a mais recente novidade, o escárnio chamado “casamento homossexual”. Tudo isso é parte da “emancipação sexual”, ou seja, “sexo sem sexo”, a vã tentativa de nos libertarmos não apenas do vínculo matrimonial, mas das consequências e responsabilidades da intimidade matrimonial. É também a completa negação do fato evidente de que o sexo gera bebês e o melhor lugar para eles é uma família.

No entanto, destruímos a família e o fizemos sem pensar no que a substituiria. Chesterton diz: “Ninguém jamais discutiu qual seria a alternativa à Família. A única opção óbvia é o Estado… A terrível punição para a emancipação sexual não é a anarquia, mas a burocracia.”

Temos de fazer com que as pessoas entendam isso. Quando uma sociedade está inflamada pela luxúria, deve encontrar uma maneira de manter a ordem enquanto gratifica a si mesma. Inicialmente, a medida é sutil, mas de repente passa a ser oficial. A emancipação sexual leva à escravidão. Embora a escravidão da luxúria seja um aprisionamento pessoal, a emancipação sexual em larga escala põe a sociedade num estado de servidão. O crescimento do governo implica a perda da liberdade, pois o Estado substitui o papel dos pais. 

E isso também leva a ataques contínuos contra aqueles que ainda vivem em família, pois o Estado obriga as empresas privadas a disponibilizar contracepção e aborto, a educação pública impõe mentiras para as crianças e as novas leis e camadas de burocracia implementam à força a redefinição do matrimônio e da família. As novas leis se intrometem em todos os aspectos de nossa vida, particularmente na dimensão mais sagrada e importante dela: nossa relação com Deus. A emancipação sexual é inimiga da liberdade e, particularmente, da liberdade religiosa.

É por isso que a Igreja defende a família. Ela é o tijolo fundamental da sociedade, mas a religião é o cimento que mantém os tijolos unidos. A Sagrada Família é o modelo de família humana e também foi atacada pelo Estado quase imediatamente. A Igreja ocupa a posição ingrata de ter de salvar almas numa sociedade ímpia que quer destruí-las. Diz Chesterton: “Quando Deus é suprimido, o governo torna-se Deus.” Mas este não é o Deus que adoramos. 

De qualquer modo, não devemos nos desesperar agora. Afinal, não apenas temos o Deus único e verdadeiro ao nosso lado, mas temos uns aos outros. Chesterton recorda que há mais pais do que policiais. Em outras palavras, a família ainda é maior que o Estado. É a hora da coragem, do sacrifício e da alegria da batalha.

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Os nossos direitos ou os de Deus primeiro?
Sociedade

Os nossos direitos
ou os de Deus primeiro?

Os nossos direitos ou os de Deus primeiro?

Por que a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, de manter no ar o “Especial de Natal” do grupo Porta dos Fundos, não nos deveria surpreender? É o que queremos explicar, neste texto, aos católicos do Brasil.

Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Por que a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, de manter no ar o “Especial de Natal” do grupo Porta dos Fundos, não nos deveria surpreender?

A quem ainda não está acompanhando toda a querela judicial em torno do filme blasfemo, remetemos nossos leitores às duas matérias que já produzimos a esse respeito: a primeira lançando um olhar mais espiritual sobre o caso e a segunda analisando o problema da “liberdade de expressão” (que discutiremos mais a fundo aqui). 

Um resumo do caso

Ministro Dias Toffoli.

Para resumir a história, desde o final do ano passado, prevaleceu a decisão de primeira instância que negara o pedido feito pelo Centro Dom Bosco de retirar da Netflix a referida produção cinematográfica. O caso sofreu, porém, uma reviravolta nesta semana: em segunda instância, o desembargador Benedicto Abicair, da 6.a Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio, acolheu o recurso dos católicos e, antes mesmo de analisar o mérito da questão, determinou que o serviço de streaming retirasse do ar, ao menos provisoriamente, o filme em questão. 

Mas a decisão teve curto prazo, pois na noite mesmo de ontem, 9 de janeiro, o ministro Toffoli voltou à decisão inicial da Justiça. O argumento do magistrado é de que o Supremo já firmara entendimento sobre “a plenitude do exercício da liberdade de expressão como decorrência imanente da dignidade da pessoa humana” e como “meio de reafirmação/potencialização de outras liberdades constitucionais”. Toffoli foi além e disse que, quanto ao respeito à fé cristã, “não é de se supor que uma sátira humorística tenha o condão de abalar valores da fé cristã, cuja existência retrocede há (sic) mais de 2 mil anos, estando insculpida na crença da maioria dos cidadãos brasileiros”.

Desse último argumento falaremos mais adiante. Por ora, voltemos à questão inicial. Por que essa postura, vinda do órgão mais importante do Poder Judiciário, era esperada? Por que é que, dados os pressupostos políticos e jurídicos sob os quais vivemos, infelizmente não se poderia esperar uma atitude diferente do Estado brasileiro? 

Católicos “liberais”

Por um motivo muito simples: vivemos em um Estado liberal. (Esqueçam neste texto a associação desse termo com a economia. Não é de liberdade econômica que queremos falar, mas de liberdade de expressão, no sentido mais amplo do termo.) A ideia por trás é esta exposta por Toffoli: se não pudermos nos expressar livremente, não podemos ser plenamente humanos, não somos “gente completa”. 

Mas é evidente que essa liberdade não é nem pode ser irrestrita, mesmo numa sociedade como a nossa. Assim (embora saibamos que as novelas globais já desceram bastante o nível nos últimos anos), ninguém defenderá (nem os ministros do Supremo) que exibir um filme pornográfico em horário nobre, na TV aberta, seja simples consequência da “plenitude do exercício da liberdade de expressão”. E ninguém o fará porque toda liberdade precisa de limites, sob o risco de ferirmos, por exemplo, a inocência da infância e da juventude (mais do que ela já está ferida, e justamente por conta de uma liberdade mal entendida). 

A pergunta é que limites a sociedade brasileira (e, representando-a, as autoridades civis) está disposta a colocar à tal liberdade de expressão. O que se deduz não só da fala do ministro Toffoli, mas da posição de muitíssimos cristãos católicos é que a ofensa ao cristianismo, o ultraje às verdades da fé, a blasfêmia, em suma, não seriam uma razão justa para tanto. A opinião preponderante é: “Não precisamos concordar com a ‘brincadeira’ do Porta dos Fundos, mas, também, quem não quiser assistir a ela, que não assista, não precisamos ‘censurar’ as pessoas só porque não concordam conosco etc. etc.” A filosofia de muitos católicos batizados, nesse sentido, é não a do Magistério da Igreja, mas a da Revolução Francesa: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las.”

Os que pensam assim terão de nos desculpar, mas esse não é o sentir da Igreja Católica, nunca foi e jamais poderá ser. (O autor da frase acima, a propósito, Voltaire, era inimigo declarado de Cristo e da sua Igreja.) Não é verdade que todos são livres para dizer o que bem entenderem e, de nossa parte, seria necessário tolerar o achincalhe à fé cristã, a zombaria de tudo o que temos por mais sagrado… e, ainda por cima, em silêncio e de braços cruzados. 

Muitas vezes, nós só aceitamos essa leniência e consequente mordaça porque já fomos seduzidos pelo grande erro de nossa época: o de que tanto faz a questão religiosa e, portanto, Deus é adorado igualmente tanto no terreiro de macumba quanto na paróquia da minha casa; o de que cada pessoa tem a “sua” verdade, então que cada um viva a sua, ninguém incomode ninguém e está tudo certo. Ou seja, o mal que precisa ser primeiro denunciado e extirpado de nossos corações e famílias chama-se relativismo. Se Jesus Cristo é Deus e nós, católicos, cremos nisso verdadeiramente, se nós gastamos tempo transmitindo essa verdade aos nossos filhos, como podemos ficar indiferentes a produções que o retratam como um beberrão dissoluto? Como pode a nossa fé na divindade de Cristo conviver com a negligência diante das ofensas a essa verdade?

Não, se Jesus Cristo é Deus, Ele tem o direito de ser respeitado.

Agora, se Ele é apenas mais um fundador de religião, como Maomé, como Buda, como Confúcio, então todas as religiões merecem o mesmo respeito (e, consequentemente, o mesmo desprezo). Chesterton dizia que “de um católico espera-se que respeite todas as religiões exceto a sua”. Muito bem, respeitar todas as religiões não dá problema para ninguém, se todas são falsas (falamos disso em nosso primeiro texto a respeito do pecado de blasfêmia). O problema é quando, na ânsia de ofender todos os deuses, você termina ofendendo o único que existe, o único que é verdadeiramente, o único que pode realmente reagir e nos punir por esse desprezo. O problema é quando a Verdade vem nos pedir contas... de como gastamos nossa liberdade.

Mas nós realmente cremos? Cremos de fato que a blasfêmia, a irreverência, a exposição ao ridículo de Deus (como fizeram os algozes de Cristo e como fizeram os “porteiros dos fundos”) são uma ofensa à Verdade e, como tal, não têm o direito de existir, nem de ser veiculadas e exibidas ao público? Cremos, em suma, que os direitos de Deus estão acima dos nossos?

Não, nós não cremos. Porque somos relativistas liberais, preferimos a liberdade à verdade. E é por isso que nossas crianças estão sendo corrompidas tão cedo; é por isso que nossos jovens não conseguem mais discernir o que é bom e o que é mau; é por isso que nossos adultos sofrem com uma “crise de sentido” tremenda e avassaladora. Porque fomos ensinados a ser livres, mas sem conhecer antes a linha que separa o solo firme do precipício

Somos “campeões em liberdade”, ninguém pode negar, fazemos o que bem entendemos e dane-se o que pensam ou deixam de pensar os outros. Mas também somos prostitutos e beberrões, drogados e desbocados, cruéis e mentirosos… Com a diferença de que, nisso, somos escravos, terrivelmente escravos. Escravos porque estamos presos nesse modo de vida, não sabemos (nem fomos ensinados) a levar a vida de outro modo, a vida inteira fomos vítimas da “liberdade de expressão” desta geração perversa e da falta de vigilância dos pobres dos nossos pais.

Por isso, será mesmo verdade que um vídeo besta não tem poder de influência sobre uma geração? O ministro Dias Toffoli diz que “não é de se supor que uma sátira humorística tenha o condão de abalar os valores da fé cristã”. A premissa do jurista está certa, de fato, mas a conclusão está errada. Está certa a premissa porque, com base na promessa de Nosso Senhor, se as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja (cf. Mt 16, 18), muito menos a Porta dos Fundos! Mas a conclusão está errada porque, se o filme em questão não pode “abalar os valores da fé cristã” em absoluto, ele pode, sim, abalá-los nas crianças, nos jovens, enfim, em todas as pessoas que lhe deram, dão e darão audiência. Não é só Deus que se ofende com a blasfêmia que lhe fazem (como se fosse pouco); também os homens, criados à sua imagem e semelhança, sofrem terrivelmente, nesta e na outra vida, com o pecado com que colaboram.

Alguma sugestão sobre o que fazer? 

Mas o que fazer quando é a própria Constituição que parece dar aval à liberdade sem limites dos zombadores? 

Bom, comece-se pelo fato de que, seja qual for o culto que os juristas brasileiros têm prestado à Constituição Federal, eles mesmos são os primeiros a torcê-la e retorcê-la para os seus próprios propósitos, tão logo surja a primeira oportunidade. Foi assim que, por obra dos mesmos ministros do STF, a família natural foi transformada no arranjo que se lhe queira dar (por unanimidade) e as crianças com anencefalia foram consideradas indignas de viver (por maioria de votos). Para os que estão no poder, formados num modo marxista e, portanto, liberal de pensar, a verdade não existe; tudo não passa de um jogo de interesses. Quem tem a toga dita as regras do jogo.

Portanto, se tivéssemos bons juristas, com um bom Direito na mente, trabalhando nos órgãos máximos da Justiça, facilmente teríamos uma solução muito melhor e mais adequada ao problema em questão. No fundo, com uma concepção jurídica verdadeira, que levasse em conta o Direito Natural, muitíssima coisa que pensamos ser inevitável poderia tranquilamente ser revertida.

Mas, enquanto isso não acontece, o que nos resta é, primeiro, confiar nossa causa à Justiça divina (a única que não falha); e, segundo, fomentar um verdadeiro movimento cultural a fim de que as pessoas recebam uma formação jurídica íntegra e os católicos que exercem esse mister honrem de fato a tradição religiosa a que pertencem (um estudo das encíclicas sociais do Papa Leão XIII, especialmente a Libertas, seria um ótimo começo): afinal, será preciso muito mais do que uma ação judicial para vencer a cultura da morte e a difusão da blasfêmia. Sim, porque, no “maior país católico do mundo”, certamente há advogados, promotores e juízes católicos… Mas, se eles existem, por que é que não fazem nada ou, pior, até reagem negativamente aos que fazem alguma coisa?

Porque, assim como a separação moderna e laicista entre Estado e Igreja, nossos católicos separam sua vida privada e suas funções públicas, sua fé e seu trabalho, seus direitos e os de Deus, sua liberdade e a verdade na qual dizem crer.

Enquanto isso acontecer, enquanto continuarmos na ilusão de que podemos servir ao mesmo tempo a Jesus Cristo e à Revolução Francesa, ao Deus uno e trino e à “deusa liberdade”, a blasfêmia, a indecência e tudo o que advém de uma liberdade desenfreada se tornará, pouco a pouco, o pão que comemos todas as manhãs. E então, por não termos defendido os direitos de Deus, os católicos terminaremos confinados às sacristias e sem direitos, exceto um: o de ficarmos calados.

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Lutero contra Santo Tomás
Doutrina

Lutero contra Santo Tomás

Lutero contra Santo Tomás

Martinho Lutero não se rebelou contra um Papa corrupto, nem contra um clero imoral. Sua verdadeira revolta foi contra um discreto frade dominicano, falecido havia mais de duzentos anos: Santo Tomás de Aquino.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Recebi algumas críticas por um texto meu sobre a Reforma Protestante, porque sugeri que ela foi iniciada por protestantes. Aparentemente, não passei muito tempo atacando a Igreja Católica, que, como todos sabem, teria sido responsável pelo surgimento de Martinho Lutero e companhia limitada. 

Portanto, sejamos claros: há quinhentos anos, havia muita corrupção na Igreja Católica. Bispos e abades acumulavam dinheiro e tinham amantes abertamente, e usavam seu privilégio eclesiástico para ganhar poder político. A venda de indulgências havia saído do controle e causou incontáveis danos não apenas à verdadeira piedade, mas ao entendimento correto do Purgatório e das orações pelos defuntos. Foi um escândalo que abrangeu toda a cristandade.

No entanto, não foi apenas Lutero que falou claramente contra essa situação. Santa Catarina de Siena, Santa Brígida da Suécia e outros confrontaram a hierarquia corajosamente e, em alguns casos, com muita eficácia. Três séculos e meio antes, um pequeno frade chamado Francisco de Assis fez uma reviravolta numa Igreja mundana simplesmente ao escolher viver sua própria vida de acordo com o que Jesus pregou nos Evangelhos. O resultado? Uma reforma genuína.

Lutero teve a oportunidade de se tornar um dos maiores santos da história da Igreja. Porém, ele não acreditava estar reformando a Igreja apenas por necessidade de uma limpeza interna. Ele disse explicitamente que não devemos condenar uma doutrina porque o homem que a prega leva uma vida pecaminosa. Ao contrário: “O Espírito Santo… é paciente com os que são fracos na fé, como é ensinado em Rm 14, 15… Eu teria pouquíssimas coisas contra os papistas se eles ensinassem a verdadeira doutrina. Sua vida perversa não causaria nenhum mal significativo.” 

São palavras ditas pelo próprio reformador. Ele não se separou da Igreja Católica por causa de sacerdotes e bispos que se portavam de forma inadequada. Ele pensava e ensinava que a doutrina católica era falsa. Rejeitava o Magistério, a autoridade doutrinal da Igreja. 

Se os bispos tivessem rasgado suas batinas e se coberto com sacos e cinzas, isso poderia ter feito um bem enorme para a Igreja e o mundo, mas não há nenhuma evidência de que teria feito Lutero mudar de ideia, porque o que ele tinha em mente era uma nova teologia

Hipócritas que afastaram potenciais seguidores de Cristo ao longo da história da Igreja. Isso ainda acontece. Mas o argumento para por aí. Se o incrédulo quer culpar bispos corruptos por suas próprias dúvidas a respeito da veracidade da fé católica, por que não é atraído novamente para a Igreja pelo testemunho dos santos? Por que São Francisco de Assis, Santa Catarina de Siena ou, mais recentemente, Santa Teresa de Calcutá não são suficientes para fazer com que ele supere suas dúvidas sobre a Igreja? Santos inspiram santidade porque são santos. Rebeldes inspiram rebelião, até contra si. A santidade é sempre uma opção melhor do que a ruptura com a Igreja fundada por Jesus Cristo e levada adiante pelos Apóstolos escolhidos por Ele. Foi essa Igreja que construiu a cristandade.

Mas, como apontou um observador, Martinho Lutero não se rebelou contra um Papa corrupto, mas contra um discreto frade dominicano, falecido havia mais de duzentos anos: Santo Tomás de Aquino.

Chesterton diz: “A essência da doutrina tomista era a confiabilidade da Razão; a essência da doutrina luterana é a completa inconfiabilidade dela.”

Santo Agostinho, verdadeiro santo e gigante entre os convertidos, era limitado sob certo aspecto. Ele só conhecia a filosofia de Platão. Santo Tomás introduziu Aristóteles na filosofia cristã, mas os agostinianos platonistas nunca aceitaram isso. Abordavam a realidade objetiva de um modo diferente. Um desses agostinianos era um monge chamado Martinho Lutero. Chesterton argumenta que a Reforma foi na verdade a revanche dos platonistas. Poderíamos dizer que ela começou com uma diferença de ênfase, ou que teve início como uma discussão entre monges, mas a ênfase de Lutero na emoção em lugar da razão, na verdade subjetiva em lugar da objetiva e, infelizmente, no determinismo em lugar do livre-arbítrio, abriu as portas para um ataque não apenas à escolástica, mas à filosofia como um todo.

O luteranismo, diz Chesterton, 

tinha uma teoria que era a destruição de todas as teorias; na verdade, tinha sua própria teologia que era, ela própria, a morte da teologia. O homem não podia dizer nada a Deus, de Deus ou sobre Deus, a não ser proferir uma súplica inarticulada por misericórdia e pela ajuda sobrenatural de Cristo, num mundo em que todas as coisas naturais são inúteis. A razão era inútil; a vontade também. O homem não podia mover-se alguns centímetros, assim como uma pedra não pode fazê-lo. O homem não podia confiar no que estava em sua mente, assim como um nabo não pode fazê-lo. Não sobrava nada na terra ou no céu, exceto o nome de Cristo elevado naquela imprecação solitária; terrível como o grito de um animal em agonia.

Santo Tomás e Lutero são “as dobradiças da história”, e Lutero conseguiu se tornar um problema grande o suficiente para ofuscar a imensa figura de Santo Tomás. “Lutero de fato inaugurou o espírito moderno de dependência de coisas que não são simplesmente intelectuais.” Tinha uma personalidade forte. Era um brigão. Alegava ter autoridade sobre a Sagrada Escritura e a alterou por conta própria, acrescentando uma palavra aqui e outra ali em sua própria tradução a fim de acomodar sua própria teologia. Quando confrontado com o ato, “contentou-se em gritar para os questionadores: ‘Digam a eles que o Dr. Martinho Lutero assim o deseja!’ É o que chamamos hoje de Personalidade… Ele destruiu a Razão e substituiu a Sugestão.”

Lutero e todos os outros reformadores não podem culpar a Igreja pelas consequências de seus próprios atos. É normal falar da corrupção de certos bispos na Alemanha, mas parece que ninguém quer discutir a verdadeira heresia de Lutero e tudo o que aconteceu na sua esteira, desde a fragmentação do cristianismo em milhares de denominações à desintegração da filosofia em uma especulação independente, limitada e bizarra após a outra, porque perdemos o simples bom senso, a razão e a realidade que outrora foram articulados de forma tão clara por Santo Tomás.

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O pecado é popular, falar sobre ele nem tanto
Doutrina

O pecado é popular,
falar sobre ele nem tanto

O pecado é popular, falar sobre ele nem tanto

Quando deixamos de falar do pecado em nossa doutrina, criamos uma quimera incontrolável. Se não entendemos o que é o pecado, certamente não compreenderemos o perdão. E isso é problemático.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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O pecado é problemático. Há alguns anos, dei uma conferência numa universidade que, apesar de não ser católica, tinha uma clara identidade cristã e reputação de ser fiel aos ensinamentos e tradições de sua denominação. Numa aula de teologia, falei sobre o meu escritor favorito e citei o trecho de Ortodoxia no qual Chesterton diz que o pecado original é a única doutrina que podemos provar. Basta olharmos ao nosso redor, pois a evidência está por todos os lados.

Expliquei que o pecado é uma separação. É a ruptura do relacionamento entre o Homem e Deus, e a obra de Cristo é restaurar essa relação para que possamos entrar em comunhão com Deus novamente. Chesterton diz que, quando defendemos a fé cristã, o ponto de partida óbvio é falar sobre o pecado. O mundo pode tentar negar que Deus e Cristo são reais, mas não pode negar a realidade do pecado. Mas ele também diz que a nova teologia faz exatamente isto: nega de forma astuciosa a existência do pecado. Ele dá o exemplo de um homem que está esfolando um gato vivo. Uma pessoa normal que testemunhasse tal atitude chegaria a uma destas duas conclusões: ou que Deus não existe ou que a união entre Deus e o Homem não existe. Em outras palavras: o pecado existe.

Porém, o novo teólogo contorna esse dilema. Ele não se importa em negar a existência de Deus ou do pecado. Ele nega a existência do gato. Chamei a atenção para o fato de que o exemplo de Chesterton, embora seja a um só tempo horripilante e engraçado, é também profético. Se um médico pode despedaçar um bebê no ventre materno, de duas uma: ou não há Deus algum, ou a união entre Deus e o Homem está rompida. No entanto, o mundo moderno evita essas duas conclusões e simplesmente nega a existência do bebê

O que me deixou assustado quando disse isso aos estudantes foi o fato de eles não terem ficado perplexos. Pareciam ter entrado num estado de completa confusão, letargia e paralisia catatônica. Depois da palestra, o professor me disse em tom de desculpa: “Ninguém fala mais sobre pecado.” Creio que ele não seja popular.

Naturalmente, em quase todas as outras universidades, o pecado é a coisa mais popular do campusmas apenas como atividade, não como tema de debate teológico. Porém, quando o cometem ou o debatem, as pessoas não o chamam pelo nome. Ora, se não falam sobre pecado numa escola cristã — e menos ainda numa aula de teologia —, elas conversam sobre o quê? E se não falam do pecado, elas também não mencionam a confissão — algo compreensível numa escola protestante —, mas, se não abordam o pecado ou a confissão, elas tampouco podem falar sobre perdão. Realmente, Cristo não tem nada a ver com isso.

Quando deixamos de falar do pecado em nossa doutrina, criamos uma quimera incontrolável. Se não entendemos o que é o pecado, certamente não compreenderemos o perdão. E isso é problemático. É um problema bem narrado por Chesterton numa das melhores histórias do Padre Brown. Ao investigar um velho crime, o humilde sacerdote-detetive descobre que as pessoas estavam se ofendendo com suas indagações, pois, embora tivesse sido algo realmente grave, o crime fora praticado há muito tempo. Padre Brown é instado a ficar longe do suspeito e deixá-lo em paz. Claro, ele provavelmente é culpado, mas o sacerdote não poderia mostrar um pouco de compaixão e simplesmente deixar aquilo de lado? O suspeito já não tinha sofrido o bastante?

Porém, o padre não desiste. Quer saber a verdade. Afinal de contas, é uma história de suspense. Então, ele resolve o crime descobrindo um delito pior ainda. Quando revela às pessoas o verdadeiro crime, todos ficam aterrorizados. De repente, voltam-se contra o criminoso que estavam protegendo. Ficam aborrecidos e decidem se afastar dele. Mas o Padre Brown os choca novamente quando explica que terá de ouvir a confissão do homem. “Como o sr. pode perdoá-lo depois do que fez?” O sacerdote explica que esse é o seu ofício e que os assim chamados simpatizantes compassivos só querem perdoar pecados que pensam não ser pecados.

É uma reviravolta que descreve a atitude contemporânea em relação ao pecado. Primeiro: ele não existe, e os católicos que o mencionam gostam de julgar o próximo. Segundo: algumas coisas são absolutamente inaceitáveis, e os católicos seriam ingênuos se achassem que elas podem ser perdoadas. O pecado só pode ser negado até o ponto em que se revela inegável. Mas, se para algumas pessoas esse é um ponto de desespero, para outras, todavia, a experiência da realidade do mal pode ter o efeito surpreendente de levá-las a enxergar essa mesma realidade nelas mesmas e, assim, suplicar a misericórdia de Deus.

O que acontece se não confessamos os nossos pecados? São Roberto Belarmino diz que a punição para o pecado é… o pecado. Se ele é a ruptura com Deus, então, a insistência no pecado preserva essa separação. Além disso, também nos torturamos quando pecamos. Tornamo-nos escravos do mais cruel dos mestres. 

É apenas quando somos salvos dos nossos pecados que interrompemos a espiral descendente do pecado. Uma das coisas que atraiu Chesterton para a Igreja Católica foi o sacramento da Confissão. Ele sabia que uma Igreja da qual a Confissão era componente essencial certamente tinha um credo fundamentado na verdade. O pecado é uma mentira, e confessá-lo significa dizer a verdade. O pecado é uma prisão, e o confessionário é a forma de sair dela. Cristo, a própria Verdade, veio para nos libertar.

Ah, e se quiser saber de qual história do Padre Brown estou falando, não lhe direi. Leia todas!

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