CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
O coronavírus, a hora da morte e a esperança cristã
Doutrina

O coronavírus,
a hora da morte e a esperança cristã

O coronavírus, a hora da morte e a esperança cristã

Se estamos unidos a Cristo, não precisamos temer os horrores deste mundo. Eles não podem tirar a vida que está dentro de nós, não podem nos privar da nossa alegria, não podem nos roubar a esperança que nos preenche: a esperança da vida eterna.

Scott HahnTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Abril de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
imprimir

Para muitos de nós a morte se tornou muito menos abstrata, e a vida, bem mais incerta [1].

A situação na qual nosso mundo inesperadamente se encontra é inédita sob vários aspectos.

Penso, é claro, em 11 de setembro de 2001. Ainda me lembro do choque e da tristeza que senti quando vi as Torres Gêmeas caírem. Também me lembro da incerteza dos dias que se seguiram. Naquela ocasião, não sabíamos se e quando os ataques terminariam. Não sabíamos o que os terroristas ainda tinham reservado para nosso país. Só sabíamos que, em poucas horas, milhares de nossos compatriotas haviam sofrido mortes terríveis. E estávamos assustados.

Para muitos de nós, o 11 de setembro foi um alerta — uma lembrança de que nossas vidas confortáveis e estáveis poderiam ser destruídas num instante, que a morte pode estar sempre muito próxima e que nada neste mundo é certo, muito menos o dia de amanhã.

Scott Hahn, autor destas linhas.

Logo depois que as Torres caíram, Kimberly e eu reunimos nossos filhos para rezar. Como nós, eles também estavam tentando entender o que havia acontecido, e Hannah, que acabara de fazer treze anos, me fez uma pergunta.

“Pai,” disse ela, “preciso saber: vamos todos morrer?”

“Sim,” respondi. “100%. Sem dúvida.”

Todas as crianças me olharam assustadas. Fiz uma pausa. Em seguida, continuei. “Todo o mundo morrerá, Hannah. Mas creio que não será hoje”.

Acrescentei: “Mas o importante — a verdadeira questão — não é o fato de que morreremos, mas saber se estamos preparados para morrer”. 

Mais tarde, depois que terminamos nossas orações, retomei a pergunta de Hannah. Expliquei que, embora a taxa de mortalidade para cada um de nós fosse de 100%, a de imortalidade também era de 100% para cada um. A morte não é o fim. Para ninguém. Cada pessoa que já viveu ainda está viva num ou noutro estado — o de graça ou de desgraça.

Então, citei o sermão de São John Henry Newman sobre “A Individualidade da Alma”. Neste sermão, ele nos recorda o seguinte:

Todos aqueles milhões e milhões de seres humanos que, sucessivamente, já pisaram a terra e viram o sol estão vivos e juntos neste exato momento. Creio que vocês reconhecerão que não compreendemos isso adequadamente. Todos aqueles cananeus que foram mortos pelos filhos de Israel, cada um deles está em algum lugar do universo neste momento, num lugar designado por Deus.  

Não tenho certeza de qual foi a impressão que o sermão de Newman deixou nas crianças naquela ocasião, mas fiquei pensando na visão das massas da humanidade — de Adão e Eva, passando pelos homens e mulheres que morreram em 11 de setembro, até as pessoas que, enquanto escrevo, estão morrendo por causa daquele terrível vírus que literalmente tira nosso fôlego. Enquanto vejo o desenrolar das notícias, não posso deixar de pensar em todas aquelas pessoas que ainda estão vivas, esperando, aguardando, com medo ou esperança, o Último Dia.

Da maldição à bênção. — Depois da morte, a ponte que separa a esperança do medo é intransponível. Todos os que já morreram e esperam o Juízo Final sabem o que acontecerá. Sabem que seu corpo ressuscitará para a morte ou para a vida. Aqueles que esperam têm certeza de sua esperança. Aqueles que temem têm certeza de seu medo. Todos sabem o que escolheram livremente em vida — Céu ou inferno — e sabem que o momento de fazer outra escolha já passou. Cristo Juiz declarou seu destino, e ele está selado.

Mas aqui e agora o abismo entre esperança e medo pode ser cruzado. Não precisamos temer o fim desta vida terrena. Não precisamos viver aterrorizados com o que virá depois de fecharmos nossos olhos pela última vez. Não importa o quanto nos afastamos de Deus, não importa quantas vezes nos voltamos contra Ele e seus caminhos, ainda temos tempo para fazer outra escolha. Como o filho pródigo, podemos voltar para a casa do Pai, sabendo que Ele nos acolherá de braços abertos e transformará o medo da morte em esperança de vida. 

Evidentemente, o medo que muitos de nós temos da morte é natural. Não fomos feitos para a morte, mas para a vida. 

No entanto, Jesus veio nos libertar do medo da morte. A obediência amorosa que Ele ofereceu na cruz expiou nossos pecados e abriu as portas do Céu para todos os que O seguiram. Mas ela também mudou o sentido mesmo da morte para aqueles que se uniram a Ele. “Transformou a maldição da morte numa bênção”, fazendo da morte a porta que leva à vida eterna com Deus (Catecismo da Igreja Católica, n. 1009).

Citando São Paulo, o Catecismo explica ainda:

Graças a Cristo, a morte cristã tem um sentido positivo. “Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro” (Fl 1, 21). “É digna de fé esta palavra: se tivermos morrido com Cristo, também com Ele viveremos” (2Tm 2, 11). A novidade essencial da morte cristã está nisto: pelo Batismo, o cristão já “morreu com Cristo” sacramentalmente para viver uma vida nova; se morremos na graça de Cristo, a morte física consuma este “morrer com Cristo” e completa assim a nossa incorporação nEle, no seu ato redentor: pelo Batismo, o cristão já “morreu com Cristo” sacramentalmente para viver uma vida nova; se morremos na graça de Cristo, a morte física consuma este “morrer com Cristo” e completa assim a nossa incorporação nEle, no seu ato redentor (n. 1010).

Isto é, para aqueles que morrem na graça de Cristo, a morte não é um ato solitário; é uma “participação na morte do Senhor”, e quando morremos com o Senhor, também ressurgimos com Ele; participamos de sua Ressurreição (cf. n. 1006).

Essa participação muda tudo. A liturgia da Igreja nos recorda isso. Tuis enim fidelibus, Domine, vita mutatur, non tollitur, escutamos o sacerdote dizer nas Missas de defuntos. “Para os vossos fiéis, Senhor, a vida é transformada, não tirada, e, se lhes é destruída a morada desta habitação terrestre, está-lhes preparada nos céus uma habitação eterna”.

Quando sabemos que a morte não é o fim, quando sabemos que a morte é apenas o início da alegria, vida e comunhão eternas com Aquele que amamos, a esperança afasta o medo. Ela leva-nos a ansiar pela morte, a desejar estar com Cristo num mundo onde não há sofrimento, dor nem perda. Por isso São Francisco podia rezar assim:  

Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a morte corporal, à qual nenhum homem vivo pode escapar.
Ai daqueles que morrem em pecado mortal!
Bem-aventurados os que ela encontrar a cumprir as tuas santíssimas vontades,
porque a segunda morte não lhes fará mal (Catecismo, n. 1014).

Saber que a morte não é o fim nos leva a ansiar por algo mais. Leva-nos a querer compartilhar nossa esperança com outros.

Os primeiros cristãos — nossos pais e mães na fé — não temiam a morte; esperavam por ela. Muitos deles a buscavam, desejando apenas começar o que C. S. Lewis descreveu em A Última Batalha como o “Capítulo um da Grande História, que ninguém na terra leu; que dura para sempre; e na qual cada capítulo é melhor que o anterior”.

“Glória do Cristo recém-nascido”, da Igreja de Sant’Ana, em Viena.

Muitas vezes as pessoas se referem ao Evangelho ou mesmo à história da salvação como “a maior história já contada”. Mas não é verdade. É apenas uma introdução ou um prelúdio. O que virá depois desta vida, quando os bem-aventurados entrarem na visão beatífica e virem pelos olhos do Pai a história de sua vida, da vida de todas as pessoas, do mundo inteiro, aquela será a maior história já contada, à qual pertencem todas as outras histórias, a história que dá sentido a todas as outras, a história que esperamos escutar durante toda a vida.

Neste exato momento, somos chamados como cristãos a imitar os primeiros cristãos. Podemos ou não ser chamados a correr na direção da morte numa arena ou numa ala de hospital. Mas certamente somos chamados a deixar nosso medo de lado e a viver com esperança. Somos chamados a esperar que veremos nossos entes queridos novamente e a esperar que, junto deles, um dia descansaremos nos braços do nosso Pai.

Somos também chamados a esperar em Deus, que tomou o maior ato de maldade já perpetrado — a crucifixão de Nosso Senhor — e tirou dele o maior bem que o mundo já conheceu: a redenção da humanidade. Se Deus pode tirar o bem, a glória, a beleza e a vida desse tipo de maldade, com certeza pode tirar o bem, a glória, a beleza e a vida do mal que enfrentamos hoje. 

A esperança é o que nos sustentará nos próximos dias. Ela também nos ajudará a viver a alegria no dia de hoje, não importa que sofrimentos nos aflijam atualmente.

Mais uma vez: a morte não é o fim. Fomos feitos para a vida, para a alegria. E em Cristo essa vida e essa alegria serão nossas. Em Cristo, elas já são nossas. A morte traz a concretização delas, mas já podemos vivê-las agora, mesmo no meio da tristeza, da guerra, das pragas, da pobreza e da confusão. Se estamos unidos a Cristo, não precisamos temer os horrores deste mundo. Eles não podem tirar a vida que está dentro de nós, não podem nos privar da nossa alegria, não podem nos roubar a esperança que nos preenche — a esperança da vida eterna. 

“Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Cor 15, 55).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Rituais macabros desmascaram propaganda pró-aborto
Sociedade

Rituais macabros
desmascaram propaganda pró-aborto

Rituais macabros desmascaram propaganda pró-aborto

Grupos defensores do aborto alegam com frequência que a prática não elimina uma vida humana. Mas as observações de uma médica aborteira revelam: muitas mulheres sabem bem a verdade do que estão fazendo...

Sarah TerzoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Abril de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
imprimir

Grupos defensores do aborto alegam com frequência que a prática não elimina uma vida humana, mas as observações de uma aborteira revelam que muitas mulheres sabem bem a verdade do que estão fazendo.

Embora algumas ativistas admitam que o aborto elimina, sim, uma vida, descobri que, em sua maioria, as ativistas que encontramos em fóruns ou manifestações pró-aborto negam que o aborto tire a vida de um bebê. Em vez disso, dizem eles, o aborto remove “tecido”, “células” ou, quando são estranhamente explícitos, um “feto”, mas não um ser humano em desenvolvimento.

Afirmações desumanizadoras sobre os nascituros podem ser encontradas com frequência na literatura pró-aborto. Um livreto distribuído pela unidade da Planned Parenthood nas Montanhas Rochosas, por exemplo, diz o seguinte:

O feto está vivo? As algas, as minhocas e o seu apêndice estão vivos. O bolor no pão que está na geladeira está vivo. As pessoas não estão de acordo sobre o que é a vida.

De acordo com a Planned Parenthood, portanto, fazer um aborto é tão insignificante quanto eliminar bolor, algas ou minhocas. Dizem que não há nenhuma diferença entre tirar o apêndice e arrancar um bebê do ventre materno à força (desmembrando-o com um fórceps, envenenando-o ou sujeitando-o a uma sucção violenta que lhe arranca braços e pernas).

A feminista Amanda Marcotte, do site pró-aborto Rewire News, disse certa vez no Twitter:

A ingestão de antibióticos elimina mais vidas do que um aborto. Um organismo é menos do que os bilhões de mortos pelo uso de um antibiótico.

Esses são apenas dois exemplos típicos da retórica empregada na literatura e nas mídias sociais de quem defende o aborto. Vejamos, porém, a citação abaixo. Em seu livro “Por que sou uma médica aborteira” [Why I Am an Abortion Doctor, sem tradução portuguesa], Susan T. Poppema descreve os rituais realizados por algumas mulheres que abortaram em sua clínica [1]. Poppema diz:

Na realidade, nossa clínica é um local relativamente tranquilo. Algumas mulheres ampliam essa percepção quando realizam rituais em torno dos procedimentos. Há pouco tempo, uma paciente veio com seu parceiro e trouxe velas; ela nitidamente transformou a experiência numa forma ritual de dizer: “Tenho orgulho de mim por fazer esta escolha, e também estou triste por ela” (New York: Prometheus, 1996, p. 120). 

Obviamente, essas pacientes sabiam que não estavam se livrando de “bolor” ou de “algas”. Ninguém acende velas depois de jogar no lixo um pedaço de pão embolorado. Ninguém realiza um ritual depois de tirar algas do aquário. Ninguém “fica triste” ou sente a necessidade de comemorar a destruição de germes. Não temos rituais para nos ajudar a lidar com nossas emoções depois que tomamos antibióticos, assim como não existem grupos de apoio para pessoas que passam desinfetante nos armários da cozinha.

O aborto é mais do que uma simples cirurgia de rotina. Qual foi a última vez que você ouviu falar de um paciente que levou velas no dia de tirar as amígdalas? Quantas pessoas realizam um ritual quando vão a um consultório para remover um cisto? Quantas vezes você foi ao dentista e viu um paciente acender velas para prestar reverências aos sisos extraídos?

Exceto em casos de doentes mentais, a resposta é: nunca

As palavras de Poppema indicam que suas pacientes sabem que abortar é algo muito mais sério do que matar “bolor” ou “bactérias”. Isso é verdade, apesar da propaganda pró-aborto a que foram expostas. Por mais que as ativistas tentem desumanizar o nascituro, muitas mulheres ainda sabem qual é a verdade: trazem no útero uma vida humana.

Não sei se Marcotte ou a pessoa que escreveu o panfleto da Planned Parenthood realmente acreditam no que disseram sobre os nascituros, ou se sabem que sua propaganda é falsa e enganosa. Será que realmente vêem a ecografia de um bebê chutando e chupando dedo e enxergam algo parecido com bolor ou bactéria?

Quem ganha a vida promovendo o aborto tem um grande motivo para negar a realidade: aliviar a sua consciência. Essa pessoa fará o possível para desumanizar os nascituros, a fim de justificar o lucro obtido com a morte deles. Uma mulher que aborta pode sentir uma necessidade semelhante. Para aliviar o peso de sua culpa ou justificar um rendimento obtido com a promoção da morte, essas pessoas podem convencer a si mesmas de que bebês com batimentos cardíacos, ondas cerebrais e, muitas vezes, dedos de mãos e pés formados, são semelhantes a algas e a bactérias. 

Por barulhenta que seja, porém, a propaganda a favor do aborto, cada vez mais pessoas conseguem ver o que ela esconde.

Notas

  1. Chamamos a atenção dos leitores para o fato de que esse não é um relato isolado e aleatório. Um texto recente sobre “o sacrifício de crianças na era da Covid-19” traz uma porção de “rituais de aborto pré-escritos”, com invocações de espíritos e orações a divindades pagãs, com direito a “Amém”. Evidentemente, (queremos acreditar que) só uma minoria das mulheres que abortam realiza cerimônias desse gênero. O simples fato de elas existirem, no entanto, aponta para um claro desequilíbrio moral da nossa civilização (Nota da Equipe CNP).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A Páscoa e os zumbis
Doutrina

A Páscoa e os zumbis

A Páscoa e os zumbis

O que explica o fascínio contemporâneo pelos zumbis? Surpreendentemente, não é uma pergunta para o Halloween, mas para a Páscoa. A resposta a seguinte: somos atraídos pelos mortos porque acreditamos na vida eterna.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Abril de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

Zumbis têm andado por aí ultimamente. Não zumbis de verdade, é claro, porque eles não existem. Levando em conta sua popularidade, o fato de não existirem é um grande inconveniente para eles. Mas tampouco lhes seria muito vantajoso existir. Ainda que pudessem experimentar certa satisfação, sua vida intelectual e espiritual, penso eu, seria terrivelmente limitada. É difícil, no entanto, afirmar e argumentar qualquer coisa a respeito, dada a monstruosa falta de evidências.   

Mas o que é o fascínio pelos zumbis? Surpreendentemente, não é uma pergunta para o Halloween, mas para a Páscoa. A resposta é a seguinte: somos atraídos pelos mortos porque acreditamos na vida eterna. Porém, num mundo decaído e corrupto, até nossa ideia de ressurreição é decaída e corrupta. Não temos vida após a morte; temos mortos-vivos. Ainda que seja apenas uma fantasia e uma forma de entretenimento de baixa qualidade, não deixa de ser o reflexo da corrupção de uma boa ideia. É a arte imitando a morte. Na outra ponta da experiência humana, permitimos o mesmo tipo de distorção doentia: em lugar da glória da vida nova surgindo no útero, temos a destruição, fria e clínica, da vida. Em lugar de bebês, temos não nascidos. Mas isso não é fantasia. É uma realidade trágica.

Esses dois lamentáveis extremos são, é claro, precisamente o oposto da perspectiva cristã, desespero em vez de esperança, tristeza brutal em vez de alegria. O contraste fica ainda mais evidente na época da Páscoa. Eu lhes direi a razão, porque um amigo meu, dr. Stuart Kolner, que, como eu, encontrou seu caminho para a Igreja Católica em grande medida por influência de G. K. Chesterton, acabou de me enviar um e-mail maravilhoso:

Entre o tempo da Paixão e a Páscoa, refleti profundamente na ideia de “vitalização” [quickening], que me veio à mente várias vezes enquanto meditava sobre o Tríduo. Na experiência humana, as duas circunstâncias mais improváveis para uma vitalização são, sem dúvida, um útero [womb] selado e um túmulo [tomb] selado. No entanto, aprouve ao Deus das surpresas suscitar vida em ambos. Talvez não seja um pensamento original, mas creio que G. K. Chesterton teria apreciado o paralelo linguístico e a audácia divina que nosso Pai tantas vezes usa para nos lembrar de nossas origens misteriosas.

Como disse: maravilhoso.

O útero [womb] selado e o túmulo [tomb] selado. Os dois lugares mais improváveis para encontrar vida. Esse “paralelo linguístico” (neste caso, uma rima entre termos em inglês) entre o nascimento virginal e a Ressurreição é adequado porque são as extremidades da vida de Cristo, uma compatível com a outra. O útero selado é a Virgem Maria. Um lugar imaculado e intocado. O túmulo selado é o local onde se depositou o corpo de Cristo depois de sua morte cruel. Estava literalmente selado. Pôncio Pilatos pôs sua marca na pedra acima do túmulo e determinou que dois guardas ficassem lá. Outro local onde não era possível entrar e que não podia ser tocado. Mesmo assim, houve uma vitalização no interior dos dois lugares.

A Encarnação é o maior dos paradoxos: Deus se faz carne. Por isso celebramos o Natal e a Páscoa. A Encarnação nos reúne em torno da manjedoura e do túmulo vazio com intensa alegria. Quando nos alegramos e celebramos — como todos deveríamos fazer —, a teologia não é a primeira coisa que vem à mente. Mas a teologia — isto é, a lógica de Deus — explica por que ficamos tão felizes. É necessário que Deus venha como bebê para que possa morrer como homem. É necessário que morra como homem para que ressuscite dos mortos. Não pode haver maior esperança que a vida eterna.

Naturalmente, nós cremos que Deus se fez carne quando foi milagrosamente concebido no útero na Virgem Maria, um evento que sempre celebramos no meio da Quaresma com a solenidade da Anunciação. Mas, como observa o dr. Kolner, a primeira vitalização no útero, quando o corpo de Cristo, ainda bebê, começou a se mover, certamente tem um paralelo com o corpo do Cristo morto no túmulo. Este não era um zumbi. Era o Senhor ressuscitado.

Divina audácia! Essa é a frase mais chestertoniana do e-mail do dr. Kolner, perfeitamente escrito; é a combinação de duas palavras que normalmente não aparecem juntas. Não esperamos que Deus seja audacioso. Mas é muito divertido quando percebemos que Ele é. Sabemos que uma das emoções agradáveis da vida está em ser audaz e ousado, em assumir riscos e romper convenções de forma corajosa. Somente a teologia católica reconhece que o Autor da vida tem a capacidade de desfrutar não somente da vida, mas da emoção da vida e de ser audaz.

Mais uma coisa: Chesterton enxerga o tema permanente da Ressurreição na história cristã quando observa que na história já houve momentos em que a Igreja parecia estar morta, destruída por algum evento físico, por uma filosofia estúpida, por uma enorme heresia, por um escândalo gigante ou pela corrupção integral. E ela sempre recobrou vida de algum modo, porque possui um Deus que sabe qual o caminho para sair do túmulo. Como sugere o dr. Kolner, facilmente podemos imaginar Chesterton completando o raciocínio ao dizer que impressiona o fato de termos um Deus que sabe tanto o caminho para sair do útero como o caminho para sair do túmulo.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Por que não podemos nos confessar via internet?
Doutrina

Por que não podemos
nos confessar via internet?

Por que não podemos nos confessar via internet?

O argumento contra a confissão eletrônica pode parecer negativo, mas é justamente o contrário. Os requisitos para a Penitência respeitam e preservam a dimensão pessoal e social da salvação, o sacramento e os que o realizam.

Dominic M. Langevin, O.P.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Abril de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
imprimir

Se você estiver preso em casa morrendo num hospital por causa do coronavírus, poderá telefonar a um sacerdote para receber o perdão sacramental? 0-800-CON-FES-SAR? Ou poderá receber o sacramento da Penitência via Zoom ou Skype?

Não. Não dará certo.

Muitos têm abordado o tema da perspectiva do direito canônico, isto é, o que a lei canônica permite ou proíbe (ou deveria permitir). Porém, também deveríamos abordar o assunto do ponto de vista da teologia sacramental, na qual o direito canônico deve se basear. Embora a crise da COVID-19 nos pareça inédita, questões relativas aos sacramentos não o são. A prática penitencial da Igreja já passou por desafios semelhantes (na verdade, piores). O Magistério e os teólogos já estudaram as possibilidades relativas a tais meios, como a confissão por telefone ou internet, e já as rejeitaram — por boas razões teológicas.   

Como afirma o Catecismo da Igreja Católica: “Os sacramentos são sinais eficazes da graça”. Como sinais, os sacramentos possuem uma dimensão física. São orientados por princípios e fins espirituais, mas são também ritos que possuem palavras, gestos e elementos visíveis. Foi assim que Cristo os instituiu, é assim que a Igreja deve celebrá-los. 

O sacramento da Penitência pode ser descrito como um “diálogo” — em relação ao seu significado e efeitos. O objetivo do sacramento é perdoar o pecado grave cometido após o Batismo, para que seja restaurado nosso diálogo amigável e familiar com Deus e com a Igreja. Esse diálogo é, em si mesmo, suscitado por outro diálogo. A cerimônia do sacramento da Penitência envolve basicamente uma discussão entre duas pessoas. O penitente reconhece perante o sacerdote seu arrependimento pelos pecados individuais cometidos, promete realizar uma obra satisfatória e pede perdão. O sacerdote determina a obra satisfatória e absolve o penitente, aperfeiçoando-o na vida da graça. Aqui o sacerdote age in persona Christi.

Ao contrário da maioria dos outros sacramentos, não é necessário um objeto físico inanimado. Algumas interpretações medievais da Penitência atribuíam a ação sacramental exclusivamente ao confessor ou ao penitente. Santo Tomás de Aquino esclareceu que as duas pessoas têm uma função sacramental essencial. O Concílio de Trento confirmou essa interpretação. Poderíamos chamar o sacramento de “concelebração” entre penitente e sacerdote. O rito sacramental possui quatro atos específicos: a contrição do penitente, a confissão, a satisfação e a absolvição. Não se trata de um monólogo, mas de um diálogo. 

A conversação salvífica não pode ocorrer por meios eletrônicos porque o sacramento da Penitência requer a presença física conjunta e a ação ao vivo e interpessoal entre o penitente e o confessor. Devem existir condições para uma conversa plena, natural e humana.

No início do século XVII, o Magistério ensinou que um penitente não pode “confessar pecados sacramentalmente, por carta ou mensageiro, a um confessor ausente” ou “receber a absolvição desse mesmo confessor ausente” (DH 1994; ver também 1995). O problema não estava na confissão por escrito [1], pois Santo Tomás e outros teólogos aceitaram abertamente esse tipo de confissão. O problema também não era a confissão com a ajuda de outra pessoa, pois em alguns casos é admissível a presença de um intérprete, por exemplo. O problema estava na presença e ação simultâneas, de modo que a confissão e a absolvição fizessem parte de um único diálogo físico e cooperativo.    

A sincronização é essencial. Dados os possíveis altos e baixos da vida moral, o penitente precisa ser capaz de manifestar o arrependimento atual em relação a ações passadas, agora rejeitadas. E o sacerdote deve dar a absolvição no presente. Às vezes essa exigência é descrita como “presença moral”. Mas essa atenção interpessoal requer uma proximidade física.

Ao longo dos séculos, os teólogos detalharam as condições necessárias para um diálogo ao vivo e verdadeiro que fosse adequado ao sacramento da Penitência. Em geral, ensinaram que o penitente e o confessor poderiam estar separados por uma distância de até 15 metros — mais ou menos o comprimento de uma sala ampla. Teoricamente, é possível (mas incerto) celebrar o sacramento a uma distância maior que essa. Se um penitente estiver a 150 metros de distância do confessor, por exemplo, haverá um verdadeiro encontro humano, uma verdadeira conversação com o sacerdote que permita falar sobre as matérias do pecado (privadas e constrangedoras)?  

É improvável. Com um megafone acústico que possa transportar a voz humana por meio de ondas sonoras produzidas naturalmente talvez pudesse haver um verdadeiro diálogo. Mas, neste caso, a dimensão física da estrutura sacramental poderia ser levada além de seus limites. O sacramento exige uma presença e um diálogo verdadeiramente humanos, o que exige uma dimensão humana natural.

O uso exclusivo de dispositivos eletrônicos para a celebração do sacramento da Penitência a grandes distâncias foi amplamente condenado, ao longo de mais de cem anos, tanto por especialistas em teologia sacramental e moral como por canonistas. A razão é que tais recursos violam os princípios da presença física e da ação conjunta. Quando ondas sonoras são produzidas por um alto-falante elétrico — mesmo um pequeno, como um telefone — há uma separação entre o produto elétrico e o agente humano. O alto-falante não é parte do corpo humano, como o são as cordas vocais ou as mãos. Ele é uma ferramenta artificial de comunicação. Não é fundamentalmente distinto de outras formas de comunicação que funcionam através de longas distâncias, como sinalizadores de fumaça, cartas e telégrafos. Um alto-falante é apenas mais rápido e mais preciso. O fato de ser possível gravar e reproduzir perfeitamente os sons do alto-falante prova que ele não é humano.  

Se a confissão de um penitente usa apenas meios artificiais sem qualquer sinal natural que manifeste a contrição ao confessor, ou se a absolvição do sacerdote se dá por instrumentos puramente artificiais, certamente não há a corporeidade e a atualidade necessárias para que haja o sinal sacramental. Isso não exclui, por exemplo, a amplificação de um aparelho auditivo (que auxilia, mas não substitui a comunicação natural). Isso significa apenas que devem existir condições para uma conversação física e que os órgãos e sentidos naturais devem estar presentes no sinal sacramental. 

A confissão por meios eletrônicos também ameaçaria o direito dos penitentes — protegido pelo sigilo sacramental — a confessar-se com privacidade. A Agência Nacional de Segurança mostrou que pode gravar — e muitas vezes o faz — todas as conversas telefônicas num país. O governo e determinadas empresas muitas vezes têm acessos backdoor a transmissões seguras (assim são chamadas) como as que são feitas via Skype. Será que o sacramento da Penitência deveria ser administrado em tais circunstâncias? É verdade que os penitentes podem renunciar ao direito à confissão privada (por exemplo, num quarto de hospital cheio). Mas é imprudente pensar numa forma eletrônica de confissão quando se sabe que outros estão escutando.

Mesmo em caso de absolvição geral — a absolvição de muitas pessoas ao mesmo tempo, sem confissão integral prévia por causa de uma excepcional falta de tempo — o rito da Igreja diz que os “penitentes que desejem receber a absolvição [...] devem indicá-lo com algum tipo de sinal”, ajoelhando-se ou curvando a cabeça e dizendo um ato de contrição. Como ensinou o Concílio de Trento: “Se alguém [...] disser que a confissão do penitente não é necessária para que o sacerdote possa absolvê-lo, seja anátema” (DH 1709). 

É inegável que a estrutura dos sacramentos limita sua aplicabilidade. Esse é o escândalo da particularidade sacramental, semelhante à particularidade da Encarnação: Deus considerou apropriado oferecer meios específicos de salvação a pessoas específicas em locais e momentos específicos. E as outras pessoas? Elas têm outros — ainda que inferiores, talvez — meios de salvação. De fato, Deus “deseja que todos os homens sejam salvos” (1Tm 2, 4).

O argumento contra a confissão eletrônica pode parecer negativo, mas é justamente o contrário. Os requisitos para a Penitência respeitam e preservam a dimensão pessoal e social da salvação, o sacramento e os que o realizam. A culpa da pessoa pelo passado e sua contrição no presente são ressaltadas quando ela pode dizer ao ministro de Deus e da Igreja: “Perdoa-me, padre, pois eu pequei [...]. Estou sinceramente arrependido de ter cometido esses pecados”. O mesmo personalismo se aplica quando o sacerdote, instrumento de Cristo, responde: “Eu te perdoo.”

De fato, a crise da COVID-19 nos faz lembrar de nossa existência como pessoas e das condições para a comunhão cristã. Homens e mulheres em quarentena estão sozinhos, apesar dos meios eletrônicos de comunicação, e estão rompendo as determinações de confinamento para se encontrar com familiares e amigos e passar tempo com eles. A comunicação eletrônica não é suficiente. E há um motivo para os que estão assistindo à Missa pela TV saberem que isso não equivale a estar fisicamente na Missa. Por isso anseiam voltar à igreja. A Eucaristia na tela da TV não é a Presença Real.

Nós, seres humanos, somos físicos. A salvação e a comunhão cristãs também o são. O sacramento da Penitência protege e auxilia nossa personalidade encarnada.

Notas

  1. Admite-se, “com causa justa e razoável (v.gr., dificuldade de falar, grandíssima vergonha etc.) que se entregue ao confessor a confissão por escrito e que, uma vez lida esta pelo sacerdote, o penitente presente diante dele diga: ‘Acuso-me de todos os pecados que o senhor acaba de ler neste escrito’. Só então pode receber a absolvição sacramental” (Antonio R. Marín, Teología moral para seglares, vol. 2, p. 303, n. 193).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.