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As hóstias milagrosas de Daroca
Igreja Católica

As hóstias milagrosas de Daroca

As hóstias milagrosas de Daroca

“Seis hóstias embebidas em sangue e coladas nos corporais”: este milagre eucarístico do século XIII aconteceu em Daroca, na Espanha, e foi considerado pelo Papa um sinal do céu para que se instituísse a festa de Corpus Christi.

Pe. Rafael IbargurenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Junho de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Enquanto continuamos a sentir o vazio da presença eucarística (teremos a emblemática procissão de Corpus Christi pelas ruas de nossas cidades?), saiamos do prosaico dia-a-dia em que vivemos e nos desloquemos no espaço e no tempo para a Espanha, ou Las Españas, no século XIII [1]. 

Daroca, uma bela cidade medieval em Aragão, que já fora uma vila celta e mais tarde uma cidade romana, localizada a cerca de 80 km de Saragoça, foi escolhida por Deus para ser a guardiã de um maravilhoso milagre eucarístico. Ainda hoje, apesar da descristianização generalizada, em Daroca são solenemente celebrados (pelo menos até 2019…) a Semana Santa e o Corpus Christi.

Os muçulmanos, em seu esforço por conquistar toda a Península Ibérica, rondavam Daroca. As tropas cristãs de Aragão foram então organizadas para defender e reconquistar suas terras. Católicos de Daroca, Teruel e Calatayud estavam se preparando para a batalha. Eram 23 de fevereiro de 1239.

O pároco de Daroca, Pe. Mateo Martínez, estava celebrando a Missa e havia consagrado seis hóstias para a comunhão dos capitães das tropas. De repente, um ataque inimigo forçou a suspensão da Missa, e o padre correu apressadamente para uma montanha próxima, a fim de esconder, envoltas em corporais, as hóstias já consagradas.

No ataque, os cristãos saíram vitoriosos, e os comandantes pediram ao sacerdote que lhes desse a comunhão em ação de graças pela vitória. O padre foi até o lugar onde havia escondido o Santíssimo Sacramento para que não fosse profanado e, para seu espanto, encontrou as seis hóstias embebidas em sangue e coladas nos corporais.

Os comandantes da guerra ficaram encantados com a visão do milagre e o consideraram um sinal de que seriam vitoriosos no futuro ataque. Eles pediram ao clérigo que colocasse os corporais manchados de sangue em uma moldura para elevá-los como um estandarte. Com ele, retornaram à batalha, obtendo novas vitórias.

Os corporais de Daroca.

Os seis comandantes eram de lugares diferentes e, naturalmente, cada um queria que os corporais fossem para sua própria cidade, para serem homenageados na respectiva catedral ou templo. Eles discutiram e discutiram… ninguém cedia, e eles não entraram em acordo. Eles decidiram, então, fazer um sorteio. E a própria cidade de Daroca acabou sendo escolhida para ser a sede desse tesouro precioso.

Dois dos chefes, porém, não aceitaram. Então, uma solução singular foi proposta: os corporais seriam colocados nas costas de uma mula árabe, capturada na conquista, que nunca antes pisara terras cristãs. Eles a deixariam perambular pelo tempo que quisesse e, onde ela parasse, ali seria definitivamente o lugar escolhido para as relíquias ficarem. O plano foi executado.

A mula, com o tesouro às costas, pôs-se em marcha e andou por doze dias uma distância de cerca de 200 km, beirando as cidades, sem entrar em nenhuma. Por fim, caiu exausta diante da Igreja de São Marcos… na cidade de Daroca, para a qual retornou! Ali permaneceram os corporais, que, mais tarde, foram levados para a atual Basílica de Santa Maria dos Sagrados Corporais, onde são venerados em uma capela decorada com pinturas que evocam o milagre.

Existem tradições interessantes, transmitidas por gerações, sobre a jornada da mula. Contam que vários milagres aconteceram em sua jornada: cânticos de anjos, demônios que abandonaram possessos, conversões etc.

Alguns anos após o milagre, em 1261, uma delegação de Daroca viajou a Roma para informar Urbano IV — um Papa que muito amava a Eucaristia — sobre o milagre eucarístico em sua cidade. O pontífice foi contemporâneo da religiosa Santa Juliana de Cornillon, de Liège, Bélgica, que tanto trabalhou pela instituição de uma festa própria para o Santíssimo Sacramento. Na época, Urbano IV, que já havia sido canonista em Liège, estava em Orvieto, onde declarou outro famoso milagre eucarístico, o de Bolsena, e instituiu em 1264 a festa de Corpus Christi. O milagre eucarístico de Daroca foi considerado mais um sinal do céu para que a festa de Corpus Christi, hoje solenidade, fosse estabelecida.

Santo Tomás de Aquino, que providencialmente esteve na ocasião com o Papa, compôs hinos para a própria Missa de Corpus Christi. Mais tarde, o sábio santo dominicano seria nomeado padroeiro da cidade de Daroca. E, em 1444, o Papa Eugênio IV concedeu indulgências e jubileus a serem celebrados em Daroca. Foi esse Pontífice quem declarou autênticos outros milagres eucarísticos: o de Walldurn, na Alemanha, e o de Ferrara, na Itália. Foi um tempo de fé ardente… 

Alguém pode se perguntar: por que em tempos de fé robusta os milagres acontecem com relativa frequência e, na sociedade materialista de hoje, os milagres são tão raros ou quase inexistentes? Os milagres não tocariam os corações e alimentariam a fé sonolenta das pessoas?

Claro que não. Porque os milagres são, precisamente, presentes de Deus para almas que têm fé, que estão dispostas a acreditar. “Se não ouvirem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite algum dos mortos”, disse Abraão ao homem rico da parábola, que ardia no inferno (Lc 16, 31).

De qualquer forma, todos os dias, em todos os momentos e em milhares de lugares, acontece um milagre muito maior e mais impressionante do que todos os outros: a transubstanciação. Na Missa, pelas palavras da consagração, proferidas pelo próprio Cristo pela voz do sacerdote, e por obra do Espírito Santo, pão e vinho tornam-se Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor.

Não se valoriza adequadamente este milagre supremo, e se pretendem outros, que seriam “inúteis”!

Notas

  1. Este texto foi escrito em 2020, mas, como as restrições devido à pandemia do coronavírus persistem, esta introdução ainda é bem apropriada para o momento que vivemos.

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Novena em honra ao Sagrado Coração de Jesus
Oração

Novena em honra ao
Sagrado Coração de Jesus

Novena em honra ao Sagrado Coração de Jesus

Da véspera de Corpus Christi até a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, esta novena é uma verdadeira súplica a Nosso Senhor para que abrase com o fogo de sua caridade divina os nossos corações, tão mornos e indiferentes.

Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Junho de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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Como a Páscoa e Pentecostes, a festa do Sagrado Coração de Jesus é móvel: todos os anos ela cai em uma data diferente. Sua previsão, no entanto, é sempre a sexta-feira após a oitava de Corpus Christi. Para os que desejam se preparar com uma novena para esta celebração, portanto, o dia de início é a quarta-feira que precede a solenidade do Santíssimo Sacramento (hoje) — embora as orações que constam a seguir possam ser rezadas a qualquer tempo.

O texto abaixo se encontra disponível em inúmeros sítios da internet e foi apenas revisado para esta publicação. A novena se estrutura com uma oração preparatória, uma meditação própria para cada dia e uma última oração, que deve ser rezada no final de todos os dias. É recomendável, ainda, a récita da ladainha do Sagrado Coração de Jesus, enriquecida pela Igreja com indulgências parciais (cf. Enchr. Indulg., conc. 22).


“Alegoria da Santa Eucaristia”, de Miguel Cabrera.

Oração inicial. — Lembrai-vos, ó dulcíssimo Jesus, que nunca se ouviu dizer que alguém, recorrendo com confiança ao vosso Sagrado Coração, implorando vossa divina assistência e reclamando a vossa infinita misericórdia, fosse por Vós abandonado. Possuído, pois, e animado da mesma confiança, ó Coração Sagrado de Jesus, Rei de todos os corações, recorro a Vós, e gemendo sob o peso de meus pecados, me prostro diante de Vós. Meu Jesus, pelo vosso precioso Sangue e pelo amor de vosso divino Coração, não desprezeis as minhas súplicas, mas ouvi-as favoravelmente e dignai-vos atender-me. Amém. 


Dia I
Coração de Jesus, Templo da Santíssima Trindade

Pondera, alma minha, como o Coração de Jesus foi o templo mais sagrado que neste mundo teve a Trindade Santíssima e Beatíssima. Um só ato de amor ou de reverência, ou de adoração, ou de outra qualquer virtude que saiu deste Coração unido à Pessoa do divino Verbo era para Deus de estima infinitamente maior que todos os atos que podiam formar todas as criaturas do mundo, ainda que todas fossem abrasados serafins. Considera, pois, alma minha, que aumentos de glória teria a Santíssima Trindade com as adorações e louvores que Jesus Cristo lhe deu neste templo? E se tu, alma minha, também deves ser templo da Santíssima Trindade pela graça, pede a este Senhor que faça o teu coração conforme a este ardentíssimo Coração. 

Pai-nosso, Ave-Maria e Glória.

℣. Jesus, manso e humilde de coração,
℟. Fazei o nosso coração semelhante ao vosso.

Reza-se a última oração, no final.

Dia II
Coração de Jesus, Artífice do Santíssimo Sacramento

Pondera, alma minha, que do soberano Coração de Jesus saiu o Diviníssimo Sacramento, onde temos depositado o Sangue sacratíssimo que manou do seu lado; e foi tal a fineza do Coração de Jesus, disse o Senhor a uma serva sua, que, se não se deixara no Santíssimo Sacramento, não poderia morrer na Cruz. Tão apegado estava aquele amante Coração aos homens que, impaciente de ausências, vendo que havia de partir para o Pai, inventou esta indústria amorosa de partir e ficar juntamente, de glorificar os santos no Céu e nos fazer companhia na terra. Considera, alma minha, quanto deves ao abrasado Coração do teu Senhor, e confunde-te de tão pouco lhe agradeceres por realizar, com a instituição do Santíssimo Sacramento, a ideia de boa obra em que Ele te comunica infinitos bens. 

Pai-nosso, Ave-Maria e Glória.

℣. Jesus, manso e humilde de coração,
℟. Fazei o nosso coração semelhante ao vosso.

Reza-se a última oração, no final.

Dia III
Coração de Jesus, Sarça de penetrantes espinhos

Pondera, alma minha, que desde que principiaram neste Coração os alentos da vida, até que se exalaram na morte, nunca viveu sem penas este inocente Coração, porque, como, logo que esteve animado, aceitou o preceito de padecer pelos homens, logo com a vida principiaram suas penas. Antes que chegassem os tormentos exteriores, Jesus tolerava interiormente as penas, vendo as grandes ofensas que os homens faziam ao seu Eterno Pai. No Horto foi tão viva a representação de suas penas, que rompeu-se-lhe o sangue por todos os poros. E se as penas somente consideradas causaram-lhe tanta amargura, que seriam quando verdadeiramente padecidas? Confunde-te, alma minha, da tibieza com que amas este Divino Coração, e da negligência com que não o imitas, pois tanto te repugna padecer, e tanto foges de mortificar-te. 

Pai-nosso, Ave-Maria e Glória.  

℣. Jesus, manso e humilde de coração,
℟. Fazei o nosso coração semelhante ao vosso. 

Reza-se a última oração, no final.

Dia IV
Coração de Jesus, Fornalha abrasadíssima de caridade

Pondera, alma minha, que o extremo com que este Sagrado Coração amou e ama a Deus, só o mesmo Deus o pode compreender. O peito era fornalha de incêndios, o Coração era mina de labaredas que subiam tão alto, que lá iam rematar em Deus. Veio à terra este ardentíssimo Coração para lhe pôr fogo, e sendo o mundo tão grande, ainda sobrariam incêndios, se o mundo fôra infinitas vezes maior. As raras finezas que o Senhor obrou por nós e os contínuos benefícios que nos está fazendo, tudo são chamas que continuamente saem dessa fornalha de abrasadíssima caridade. E é possível, alma minha, que vendo o teu coração rodeado de tantas chamas quantos são os benefícios que recebes do Coração de Jesus, ainda esteja tão fria e tíbia? 

Pai-nosso, Ave-Maria e Glória.  

℣. Jesus, manso e humilde de coração,
℟. Fazei o nosso coração semelhante ao vosso. 

Reza-se a última oração, no final.

Dia V
Coração de Jesus, Paraíso de delícias celestiais

Pondera, alma minha, que neste suavíssimo Coração se encerram todas as delícias do Paraíso. Ele é o mar onde elas entram, e de onde saem todos os rios dos divinos regalos; entram nele, comunicados por Deus, e saem dele para deliciarem as almas justas. No paraíso deste Coração deu o Senhor entrada a muitos santos que se singularizaram em virtudes eminentes, e vendo-se eles quase submergidos em um mar de consolações, pediam ao Senhor que os moderasse, porque sem desfalecerem não podiam suportar abundância tão excessiva. Pobre de ti, alma minha, que tão pouco participas destas riquezas! Mas de que te admiras, se tu não amas aquele centro de amor? Aprende tu a amá-lo, e far-te-ás digna das delícias deste paraíso. 

Pai-nosso, Ave-Maria e Glória.  

℣. Jesus, manso e humilde de coração,
℟. Fazei o nosso coração semelhante ao vosso. 

Reza-se a última oração, no final.

Dia VI
Coração de Jesus, Tesouro riquíssimo de graças

Pondera, alma minha, que assim como o tesouro é um agregado de muitas riquezas, também o Coração de Jesus é um depósito de infinitas graças. Aqui acharás uma inocência suma, uma humildade profundíssima, uma fortaleza imensa, uma sabedoria infinda; e enfim, para fazeres conceito das graças e riquezas deste tesouro, hás de primeiro considerar quem as comunicou e a quem se comunicaram. O Eterno Pai foi quem as comunicou, e o Filho de Deus foi a quem se comunicaram. E tendo o Eterno Pai uma liberalidade infinita, que graças não receberia o Filho de Deus desta infinita liberalidade? Aqui se perde o juízo e aqui se abisma a consideração humana. Alma minha, se as graças deste tesouro são tantas, ama tu a este Coração para poderes participar das suas riquezas. 

Pai-nosso, Ave-Maria e Glória.  

℣. Jesus, manso e humilde de coração,
℟. Fazei o nosso coração semelhante ao vosso. 

Reza-se a última oração, no final.

Dia VII
Coração de Jesus, Abismo de imensa piedade

Pondera, alma minha, que é tão piedoso este amante Coração, que a ninguém nega sua piedade; tanto que, se alguma alma aflita recorre a Ele com viva fé, logo acode a consolá-la com seu remédio; tanto que, quando vê algum atribulado, logo corre, piedoso, com seu afeto para o socorrer. Vendo-se ofendido com as nossas culpas, dissimula tudo, e espera o nosso arrependimento para nos perdoar. Se depois de arrependidos tornamos a cair nas mesmas misérias, ainda não cansa a sua paciência, ainda não esgota a sua misericórdia, ainda não fecha as portas da sua piedade, mas antes nos busca com auxílios e nos chama com repetidas inspirações, e se nos voltamos para Ele, logo se alegra e se põe bem conosco. E crendo tu, alma minha, tudo isto, não morres de amor por este Coração? 

Pai-nosso, Ave-Maria e Glória.  

℣. Jesus, manso e humilde de coração,
℟. Fazei o nosso coração semelhante ao vosso. 

Reza-se a última oração, no final.

Dia VIII Coração de Jesus, Atrativo dos nossos corações

Pondera, alma minha, o que disse Nosso Senhor: que só depois de ser exaltado na Cruz, e não antes, é que lhe abririam o lado, ficando assim patente o seu amante Coração. Porque julgou o Senhor que quem pusesse os olhos nele, atraído por uma suavíssima violência, certissimamente se havia de render. E se tu, alma minha, te não rendes, é porque não pões nele os olhos. Se tu viras que deste Coração manam as celestes verdades, com que se afugentam as trevas das culpas; se tu viras que dele mana o fogo que abrasa as almas frias, as luzes que desterram as nossas ignorâncias, as misericórdias que lavam as nossas culpas, as doçuras, os auxílios, as inspirações... e enfim, se viras que deste Coração mana todo o bem, deixarias tu, alma minha, de amar este Coração? Deixarias de ficar presa em laços de tanto amor? 

Pai-nosso, Ave-Maria e Glória.  

℣. Jesus, manso e humilde de coração,
℟. Fazei o nosso coração semelhante ao vosso. 

Reza-se a última oração, no final.

Dia IX
Coração de Jesus, Penhor de vida eterna

Pondera, alma minha, que assim como o coração humano é o princípio da vida temporal, assim o Coração de Jesus é para nós o princípio da vida eterna; porque, se para a vida eterna é necessário o perdão das culpas e a remissão dos pecados, saindo deste Coração sangue e água, e tendo nós o Sangue de Cristo como fundamento de nossa redenção, e na água uma representação do Batismo, sem o qual ninguém entra na glória, segue-se daqui que este Coração é a porta por onde todos entram para a vida eterna. Assim como Deus lá no Paraíso deu a vida ao homem com um sopro, também com um outro sopro infundiu Cristo nos seus discípulos a graça do Espírito Santo, porque, como o hálito da boca sai do coração, quis Cristo mostrar que do seu Coração é que nos vem a graça. Pois, alma minha, se tu crês tudo isto, sabe, que se amares a este Divino Coração, e o imitares, alcançarás a graça, e conseguirás a glória na vida eterna. 

Pai-nosso, Ave-Maria e Glória.  

℣. Jesus, manso e humilde de coração,
℟. Fazei o nosso coração semelhante ao vosso. 

Reza-se a oração abaixo.


Oração final. — Dulcíssimo Coração de Jesus, vosso precioso Sangue é a vida da minha alma; só em Vós quero viver, só a Vós quero amar e servir. Pela sede ardente que vos abrasa de me salvar, iluminai o meu espírito com a luz de vossa divina graça. Santificai o meu coração, fortalecei a minha vontade, perdoai os meus pecados e curai todas as minhas misérias. Aumentai minha fé, fortificai a minha esperança e acendei em mim cada vez mais o fogo do vosso santo amor. Concedei-me, enfim, todas as graças que espero alcançar com esta novena. Ó dulcíssimo Jesus, vivei em mim agora e por todo o sempre. Amém. 

℣. Doce Coração de Jesus,
℟. fazei que eu vos ame cada vez mais!

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Depois de Pentecostes, os Apóstolos ficaram assim...
Espiritualidade

Depois de Pentecostes,
os Apóstolos ficaram assim...

Depois de Pentecostes, os Apóstolos ficaram assim...

Antes de Pentecostes, os Apóstolos se reuniam amedrontados e a portas fechadas. Depois do derramamento do Espírito Santo, porém, suas mentes foram despertadas, seus corações, confirmados, e eles passaram a manifestar as quatro seguintes qualidades.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Maio de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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A passagem bíblica a seguir, extraída dos Atos dos Apóstolos, apresenta um retrato de coragem e santa ousadia bem pouco evidentes em muitos católicos. 

Analisemos o episódio, que acontece logo após a cura do homem paralítico diante do portão chamado Belo. Em seguida, reflitamos sobre quatro qualidades manifestadas pelos Apóstolos Pedro e Paulo. 

Vendo eles [os sinedritas] a coragem de Pedro e de João, e considerando que eram homens sem estudo e sem instrução, admiravam-se. Reconheciam-nos como companheiros de Jesus. Mas, vendo com eles o homem que tinha sido curado, não puderam replicar. Mandaram que se retirassem da sala do conselho, e confe­renciaram entre si: “Que faremos destes homens? Porquanto o milagre por eles feito se tornou conhecido de todos os habitantes de Jerusalém, e não o podemos negar. Todavia, para que esta notícia não se divulgue mais entre o povo, proibamos, com ameaças, que no futuro falem a alguém nesse nome”. Chamaram-nos e ordenaram-lhes que absolutamente não falassem nem ensinassem em nome de Jesus. Responderam-lhes Pedro e João: “Julgai-o vós mesmos se é justo diante de Deus obedecermos a vós mais do que a Deus. Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido”. Eles, então, ameaçando-os de novo, soltaram-nos, não achando pretexto para os castigar por causa do povo, porque todos glorificavam a Deus pelo que tinha acontecido (At 4, 13-21).

1. Autoridade. — O texto começa com uma referência à “coragem” de Pedro e João, relacionando-a com o fato de as autoridades religiosas estarem “admiradas”. Como homens comuns e sem estudo conseguiam falar e agir daquela maneira?

A palavra grega traduzida como “coragem” é παρρησία (parresía ou parrhēsía), que vem de pás (“tudo”) + rhēsis, “um provérbio ou afirmação citada com determinação”. Em outras palavras, parresía significa falar com confiança e manifestar uma forte determinação; significa falar de modo claro, público ou eficaz. O termo “retórica” vem da raiz rhēsis. Retórica é a arte do discurso eficaz ou persuasivo e, em seu sentido mais técnico, geralmente requer treinamento em lógica e postura.

Portanto, a coragem descrita nessa passagem mostra a transformação operada pela Ressurreição e por Pentecostes. Antes de Pentecostes, os Apóstolos, embora muitas vezes fossem zelosos e estivessem dispostos a fazer sacrifícios para seguir Jesus, também demoraram para entender o que viam e muitas vezes ficavam confusos. A partir do domingo de Páscoa (cf. Lc 24, 32.45) e, muito provavelmente, ao longo dos quarenta dias antes da Ascensão, o Senhor instruiu e formou os Apóstolos no Evangelho. No entanto, somente em Pentecostes suas mentes foram plenamente despertadas e seus corações, confirmados. Jesus havia dito: “Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ele vos ensinará toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e vos anunciará as coisas que virão” (Jo 16, 12-13). Em outra passagem, Ele acrescentou: “Disse-vos essas coisas enquanto estou convosco. Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, irá ensinar-vos todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 25-26). 

Antes de Pentecostes, os Apóstolos e os discípulos reuniram-se amedrontados a portas fechadas. No entanto, em seguida eles prosseguem com a coragem aqui descrita. Os líderes religiosos ficam “admirados” e se maravilham com o fato de homens comuns e não instruídos terem um domínio tão abrangente do assunto de que tratam, bem como uma coragem tão serena. Pedro e João curaram um homem aleijado havia quarenta anos. Eles sabiam que ele era aleijado e já o tinham visto no Templo. Os líderes religiosos não conseguem explicá-lo. Além do mais, as ameaças de costume não parecem gerar neles o efeito desejado. 

Sim, Pedro e João agem com coragem, confiança e intrepidez. Estão manifestando o dom que o Senhor prometeu quando disse: 

Mas, antes de tudo isso, vos lançarão as mãos e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença dos reis e dos governadores, por causa de mim. Isso vos acontecerá para que vos sirva de testemunho. Gravai bem no vosso espírito: não prepareis vossa defesa, porque eu vos darei uma palavra cheia de sabedoria, à qual não poderão resistir nem contradizer os vossos adversários (Lc 21, 12-15).

Como esses homens mudaram (particularmente Pedro)! Está claro que o Senhor lhes deu um dom tal como prometera. Sua coragem é fruto da graça de Deus. Que essa graça possa chegar aos líderes da Igreja hoje, tanto no clero como no laicato. Precisamos mais do nunca dessa santa coragem.

“A Descida do Espírito Santo”, por Ticiano.

2. Sua vinculação a Cristo. — O texto diz que o Sinédrio reconheceu que eles haviam estado com Jesus. Que trecho magnífico. Embora isso possa significar que eles se lembravam de que os Apóstolos acompanharam Jesus, para o leitor a expressão é muito mais profunda. Pedro e João manifestam por meio de suas vidas transformadas que estiveram com Jesus. Eles apresentam o fruto de um relacionamento transformador com Jesus Cristo. Sim, aqueles homens estiveram com Jesus. É óbvio!

E você e eu? Alguém poderia olhar para nós e concluir que estivemos com Jesus? Isso não seria uma descrição do que deveria ser a vida cristã normal? Sua relação com Jesus Cristo é óbvia para os outros? Deveria ser.

Naturalmente, é uma triste realidade que a maioria dos cristãos se contentem em esconder a própria fé ou em seguir a cultura ao seu redor. São cristãos disfarçados, como agentes secretos; embora tenham sido escolhidos por Deus, estão paralisados. Não há fogo genuíno para chamar a atenção dos outros nem proclamações corajosas ou sinais visíveis de vida espiritual. Poucas pessoas concluiriam que esses cristãos estiveram com Jesus.

Onde estamos no espectro da luz? A Luz de Cristo é visível em nós (cf. Mt 5, 14)? Portamos as marcas registradas de Jesus (cf. Gl 6, 17)? Amamos os nossos inimigos (cf. Mt 5, 44)? Brilhamos como as estrelas em meio a uma geração perversa e depravada (cf. Fl 2, 15)? 

3. Impressionante habilidade. — Embora os santos Pedro e João tenham sido presos, a situação se inverteu, com efeito, e foram eles que prenderam o Sinédrio. Como observamos acima, Pedro e João não parecem intimidados pelas ameaças de sempre, e seus argumentos não são facilmente abandonados, pois falam com sinceridade e autoridade. Além disso, as multidões ficam espantadas, e os próprios líderes não conseguem explicar como um homem que notoriamente fora aleijado por quarenta anos agora caminha e até dança!

Eles realmente não sabem o que fazer. São contidos pelo cativante e corajoso testemunho diante deles.

João Paulo II e Madre Teresa.

A verdadeira santidade pode ter esse efeito, ao menos em certas condições. S. Teresa de Calcutá era assim. Embora muitos não tivessem a mesma fé que ela, até os inimigos da fé a admiravam. Isso acontecia, não porque bajulasse os outros, mas justamente pelo contrário. Ela tinha coragem para repreender inclusive os mais poderosos, mas demonstrava um amor que não podia ser negado. A forma como refletia a glória de Cristo deixava todos paralisados.

Este talvez seja um dos dons mais raros de todos, mas ainda deve ser buscado, para que ao menos algumas pessoas em cada época tenham uma santidade e bondade cativantes em sua pureza. 

4. Assertividade. — Ser apropriadamente assertivo é atender às necessidades de alguém sem pisar outras pessoas. E qual é a maior necessidade de qualquer santo? Proclamar a Cristo crucificado e ressuscitado. Desse modo, quando Pedro e João são instados a parar de proclamar o nome de Jesus, reafirmam a necessidade e o direito de continuarem a fazê-lo. Mas o fazem sem desrespeitar os líderes que estão diante deles. Não gritam: “Não vos escutaremos!” Não os desrespeitam pessoalmente de modo algum. Ao contrário, recomendam-se à consciência dos líderes como forma de recusar respeitosamente uma ordem a que não podem obedecer: “Julgai-o vós mesmos se é justo diante de Deus obedecermos a vós mais do que a Deus. Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido”.

Em outras palavras, eles dizem: “Irmãos, anciãos, não concordais com que um homem há de obedecer a Deus antes que a qualquer outro homem? Fazei o que tendes de fazer. Tende vossos juízos. Nós, porém, devemos obedecer ao Senhor e falar de Jesus até o nosso último suspiro.”

São respeitosos, mas falam com clareza; afirmam a si mesmos e sua missão, mas não atacam nem pisoteiam as reputações ou a justa autoridade dos membros daquela comunidade ou estado; não podem cooperar com uma ordem vil, mas não atacam nem encenam uma tentativa de tomar o poder. Ficam diante de seus oponentes e olham nos olhos deles. Não fogem nem cedem ao medo, mas tampouco se tornam como eles no que diz respeito à arrogância e a exigências injustas. 

Este é um bom modelo para nós que estamos começando a viver dias difíceis, nos quais as pressões da cultura e do governo podem exigir que nos recusemos a cooperar com demandas perversas. Nosso objetivo não é humilhar nem vencer nossos oponentes, mas convertê-los, e se não os convertermos, que ao menos possamos converter a cultura ao nosso redor. Como diz S. Paulo: “Afastamos de nós todo procedimento fingido e vergonhoso. Não andamos com astúcia, nem falsificamos a Palavra de Deus. Pela manifestação da verdade nós nos recomendamos à consciên­cia de todos os homens, diante de Deus” (2Cor 4, 2). 

Aqui temos um modelo para nós e alguns desafios. Temos de manifestar uma corajosa e sincera confiança no Evangelho que proclamamos, porque conhecemos Jesus e estamos sendo conformados à sua imagem. Na verdade, deveríamos pedir e nos esforçar para ter aquela rara santidade, cativante em sua pureza, mas que também nos leva a anunciar a Cristo assertivamente, sem concessões nem hipocrisia. — Ajudai-nos, Senhor!

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Este ícone russo do século XV é uma janela para a Santíssima Trindade
Espiritualidade

Este ícone russo do século XV
é uma janela para a Santíssima Trindade

Este ícone russo do século XV é uma janela para a Santíssima Trindade

Como o mistério para o qual aponta, esta representação da Trindade, do iconógrafo russo Andrei Rublev, é inesgotável em suas riquezas: cada detalhe nela presente possui diversas camadas de significado.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Maio de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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À medida que nos aproximamos da grande festa da Santíssima Trindade, no domingo depois de Pentecostes, seria muito conveniente meditar sobre este que é o mais fundamental de todos os mistérios da fé cristã. Para isso, podemos recorrer à ajuda do iconógrafo russo Andrei Rublev e seu ícone da Trindade, finalizado em algum momento entre os anos de 1411 e 1427, na mesma época em que Fra Angelico pintava suas primeiras obras-primas nos arredores de Florença. 

Como o mistério para o qual aponta, essa imagem é inesgotável em suas riquezas: cada detalhe possui diversas camadas de significado. Neste artigo seguirei a análise de Paul Evdokimov (às vezes palavra a palavra), publicada no livro The Art of the Icon: A Theology of Beauty, pp. 243–57 (“A Arte do Ícone: Uma Teologia da Beleza”, sem tradução no Brasil), além dos insights do Pe. Gabriel Bunge (The Rublev Trinity). Meu objetivo é explicar as principais características desse ícone, a fim de que sua mensagem nos acompanhe em nossas orações dirigidas ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

A Trindade de Rublev.

Em primeiro lugar, que vemos no ícone? Seria um retrato da própria Trindade? Não. O mistério do Deus invisível não pode ser retratado pelo homem. Apenas o Cristo encarnado pode ser retratado em sua aparência carnal. O Espírito pode ser representado em forma de pombo e de chamas, mas o Pai jamais veio ao mundo numa missão visível. Ademais, a própria Trindade só pode ser retratada por meio de metáforas que apontam para ela.

Em vez disso, vemos uma imagem criada da Trindade — a saber, a teofania narrada em Gênesis 18, chamada “hospitalidade de Abraão”. Na história bíblica, três peregrinos misteriosos visitam Abraão, que, pelo juramento de Mamre, os acolhe em sua tenda, sacrifica um novilho para lhes preparar uma refeição e põe a comida diante deles sobre uma mesa. Um texto litúrgico oriental diz sobre essa história: “Bem-aventurado Abraão, vistes e recebestes a divindade, una e trina”. Na tradição iconográfica, havia muitas representações prévias dessa cena, as quais davam a Abraão e a Sara papéis importantes; Rublev porém os omite completamente. A própria ausência deles no retrato convida-nos a penetrar ainda mais no ícone e a passar a um segundo nível. 

A “Eterna Assembleia dos Três” tem diante de si a economia da salvação, o plano de Deus revelado na história. O significado da paisagem é alterado: a tenda de Abraão se torna o palácio-templo; o carvalho de Mamre, a Árvore da Vida. O cosmo é representado pelo esboço de uma tigela posta sobre o altar: nela está a cabeça de um novilho oferecido como alimento, o sacrifício eucarístico para a vida do mundo. O fato de o altar e a tigela representarem o cosmo é enfatizado pelas quatro quinas do altar e pelo pequeno retângulo posto sobre ele, o que nos lembra os quatro pontos cardeais.

Por ser transcendente e inacessível, só é possível insinuar como é a vida interior da Trindade. Ainda assim, Rublev encontra formas de apontar para ela, seguindo a tradicional verdade de que a economia da salvação deriva das processões das Pessoas no interior da divindade (e de certa forma as reflete). 

As três Pessoas aparecem conversando, provavelmente sobre o seguinte versículo do Evangelho de João: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único” (Jo 3, 16). Deus é amor em si, em sua essência trinitária, e seu amor pelo mundo é o reflexo de seu amor trinitário, a continuação ou extensão dele até os âmbitos mais distantes do ser. O dom de si ofertado por Deus nunca surge ou resulta de uma perda ou falta; ao contrário, trata-se de um derramamento da superabundância de seu amor. Esse dom de si é representado pela tigela, que podemos interpretar como um poço que nunca seca.

Os anjos estão reunidos em torno da refeição divina. Ainda que seja a cabeça de um novilho, segundo a história narrada em Gênesis, recordamos imediatamente o Cordeiro a respeito do qual o Apocalipse diz o seguinte: o Cordeiro tem sido imolado desde a origem do mundo. O amor, inclusive o sacrifício e a imolação que fluem dele, precederam a criação do mundo e são sua origem

Os três anjos estão parados: há em cada um deles a suprema paz do ser; mas, ao mesmo tempo, cada um está inteiramente presente para o outro. Veja como a imagem do Filho (no centro) e a do Espírito Santo (à direita) curvam suas cabeças de modo delicado e gracioso para sua origem comum, o Pai (à esquerda), que, por sua vez, olha fixamente para eles.

Porém, esse repouso também é movimento, que começa com o pé do anjo estirado à direita e continua até sua cabeça inclinada. Passa pelo anjo do meio e empurra o cosmo: a rocha e a árvore. O movimento termina na posição vertical do anjo à esquerda, onde entra em posição de descanso, como se estivesse num recipiente. Ainda assim, o movimento circular continua com os pés da figura da esquerda, os quais se estendem em direção à figura da direita, completando assim o círculo e mostrando que esse movimento é contínuo. Sempre aparece novamente, e o círculo não é rompido. 

Junto desse movimento circular, cuja conclusão ordena o trabalho inteiro, assim como a eternidade ordena o tempo, temos o movimento vertical do templo e dos cetros. Estes designam a aspiração do criado pelo incriado, do terreno pelo celeste, no qual todo movimento ascendente tem sua conclusão. Talvez possamos dizer que vemos nesses dois movimentos a ágape, ou o amor oblativo, e o eros, ou o amor ardente: aquele brotando de uma abundância já possuída, este surgindo de uma necessidade de ser preenchido.

A forma como Rublev pinta os anjos mostra-nos sua unidade e igualdade: um anjo poderia ser trocado pelo outro. Desta forma, ele confessa a igualdade e a identidade essencial das Pessoas divinas. A diferença entre eles vem da atitude pessoal de cada um em relação aos outros, embora não haja repetição ou confusão. (O ouro brilhante nos ícones designa a natureza divina, sua superabundância. Infelizmente, o folheado desse ícone de 1425 já se desgastou, mas ainda é possível ver onde ele se encontrava nas auréolas.)

As asas ampliadas dos anjos envolvem e cobrem tudo. O contorno interno de todas as asas, um azul delicado, acentua a unidade e o caráter celeste da natureza divina. Um único Deus e três Pessoas perfeitamente iguais. É isso o que expressam os cetros e tronos idênticos. São sinais do mesmo poder real de que cada anjo é dotado. Suas roupas são parecidas, embora a cor seja diferenciada para ressaltar a distinção das Pessoas. A cor que possuem em comum é um azul intenso.

Rublev e seu ícone da Trindade.

O anjo que representa o Pai, à esquerda, usa uma túnica de cor púrpura suave, tendendo à invisibilidade. Ele é totalmente invisível para nós, o resplendor de sua personalidade está quase completamente velado. (Repare-se como seu quíton azul está escondido.) A casa que aparece bem atrás dele aponta para o Pai, porque “na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14, 2). 

O anjo que representa o Filho veste um quíton de cor púrpura escura, decorado com duas faixas douradas (apenas uma é visível, representando as duas naturezas, uma visível e outra invisível), e por cima do quíton traja uma clâmide de um profundo azul-ciano. O Encarnado é retratado como rei e profeta: a realeza é simbolizada pela túnica púrpura; a profecia, ou revelação de Deus, pelo manto azul-ciano, porque no Filho a “glória” de Deus nos foi revelada, e os discípulos a “viram” e “deram testemunho dela” (Jo 1, 14; 1Jo 1, 2). A árvore que aparece atrás do Filho simboliza a Árvore da Vida, o madeiro da Cruz, pois, como ensina S. João, a Paixão é a “hora” em que o Filho manifesta a glória de Deus.

O anjo que representa o Espírito veste sua clâmide de modo que o braço esquerdo fique livre. Repare-se que o anjo que representa o Filho veste a clâmide de modo que o braço direito fique livre. Isso é uma referência ao ensinamento de S. Irineu de Lyon, que diz que o Filho e o Espírito são as “duas mãos” do Pai, por meio das quais Ele opera tudo. A clâmide do anjo Espírito é verde claro, a cor litúrgica usada no tempo de Pentecostes no rito bizantino e no tempo depois de Pentecostes na Igreja ocidental, pois é a cor da nova vida, da vida renovada no Espírito, que é o “Senhor que dá a vida”. (O solo sobre o qual estão todas as figuras também é verde claro.) Atrás desse anjo aparece uma rocha, símbolo da terra, cuja “face é renovada” pelo Espírito (Sl 103, 30). Embora a idade do ícone torne difícil discerni-lo, há evidências de que Rublev pintou a rocha dividida em duas partes para fazer referência à rocha dividida pelo cajado de Moisés, fazendo a água viva brotar para as pessoas sedentas (cf. Ex 17, 6). Cristo interpretou os fluxos de água viva como o Espírito Santo (cf. Jo 7, 38). Mas assim como o Filho e o Espírito são inseparáveis, também são recíprocos os seus símbolos: a árvore verde acima do Filho também é um sinal da vida dada pelo Espírito, e a rocha acima do Espírito é também um sinal do Cristo, a “rocha espiritual” (1Cor 10, 4).

Muitas outras características dessa obra-prima são dignas de nota. Os corpos dos anjos são quatorze vezes maiores do que suas cabeças, em comparação com a diferença de tamanho entre corpo e cabeça nos seres humanos (sete vezes). Esse prolongamento reforça seu caráter etéreo e sobrenatural. As asas dos anjos e o modo esquemático como é tratado o campo passam imediatamente a impressão de imaterialidade e ausência de peso. Os pés dos anjos repousam sobre lajes, que nos lembram o túmulo vazio no ícone da Ressurreição. Não há sombras. Nenhum elemento reflete a luz natural; ao contrário, cada um emite sua própria luz, que brota de raízes secretas. É como se estivéssemos olhando por meio de um espelho a própria fonte da luz, na qual “não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade” (Tg 1, 17). 

Como todos os ícones bizantinos, este usa perspectiva invertida — as coisas mais distantes são maiores ou, ao menos, não diminuem —, a fim de abolir a distância e a profundidade em que tudo desaparece no horizonte. Trata-se de um horizonte marcado pela plenitude do ser, não pela diminuição dele, já que o horizonte aparece para uma perspectiva egocêntrica. As figuras estão próximas e quase se levantam da tela, e isso é feito para mostrar que Deus está aqui e em todo lugar. Necessariamente, a perspectiva também convida o espectador, que é o “ponto de fuga”, a entrar na pintura. Há uma “quarta cadeira” projetada e implícita à espera de você, para que tome assento e ocupe um lugar na mesa dos Três.

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