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Não me deixem ser cremado!
Doutrina

Não me deixem ser cremado!

Não me deixem ser cremado!

A Igreja não aprova a cremação; ela a permite. Porém, como no caso da doutrina católica sobre a sexualidade, considerada por muitos rígida e intransigente, o caminho mais difícil é também o mais belo, humano e glorioso.

Casey ChalkTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Há algo inexplicavelmente profundo no corpo sem vida e enterrado, mesmo quando sobram apenas ossos e pó depois de sua deterioração. Ele recorda ao homem sua mortalidade, ao mesmo tempo que sugere (por meio da tensão de um cadáver que se parece com um ente querido, mas já não é essa pessoa plenamente) algo transcendente sobre a condição humana. Na famosa cena do cemitério em Hamlet, os coveiros zombam dos falecidos, até que Hamlet aparece e, observando um crânio, lamenta: “Hélas, pobre Yorick! Eu o conheci, Horácio…”. Depois da morte de Cristo, mulheres choram sobre seu corpo sem alma e procuram honrá-lo com especiarias e lençóis brancos.

Desde então, os cristãos têm honrado os corpos sem vida dos santos. Nós também deveríamos honrar os nossos.

Os cristãos têm boas razões para realizar tais práticas, como observam Scott Hahn e Emily Stimpson em seu livro recém-publicado, Hope to Die: The Christian Meaning of Death and the Resurrection of the Body [“Esperança de morrer: o sentido cristão da morte e a ressurreição do corpo”, ainda sem tradução portuguesa]. Em essência, o homem é feito à imagem de Deus precisamente por ter um corpo e uma alma intelectual. Não se trata simplesmente de um corpo com uma alma sensível, como no caso dos outros animais, nem de um puro espírito inteligente, como no dos anjos. E, como nos diz Gn 1, 31, esse ente de corpo e alma era bombondade que o pecado poderia manchar, mas não apagar.

“Cristo Morto com os Anjos”, de Edouard Manet.

A Encarnação confirmou e elevou a bondade do corpo. O Verbo se fez carne por meio do vaso puro de Maria. Como declaravam os primeiros cristãos em sua crítica aos gnósticos antimaterialistas: como poderia ser má a carne, se Deus se dignou assumi-la para si? Por meio da Encarnação, Deus tornou possível a união do corpo humano à divindade, seja através do próprio Cristo, seja também, por extensão, através de nossa união com Ele.

Quando Jesus morreu e ressuscitou dos mortos, Ele foi visto não como uma aparição sem corpo, mas como um homem glorificado. Ao aparecer a Tomé, Ele diz: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé” (Jo 20, 27). Jesus vence a morte no corpo. Os primeiros cristãos traziam essa mensagem no coração, reconhecendo que seu próprio destino eterno estava imerso na mesma realidade. São João declara: “Sabemos que, quando isso se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é” (1Jo 3, 2). São Paulo afirma: “Assim como reproduzi­mos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do homem celestial” (1Cor 15, 49). 

Os sacramentos, particularmente a Eucaristia, são os meios para vivenciarmos essa união com o corpo ressuscitado de Cristo. Na verdade, como o sacerdote diz na epiclese, pão e vinho se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo. Na Missa, nós entramos em comunhão com Cristo não apenas espiritual, mas fisicamente. Scott Hahn explica: “A transubstanciação é, com efeito, uma espécie de fusão nuclear. Ela põe em movimento um processo que criará algo completamente novo: um novo nós”. Com todo respeito a formas de doutrina e espiritualidade cristãs que espiritualizam demais o céu às custas de sua dimensão física, quando nossos corpos ressuscitarem no último dia, eles se unirão a nossas almas, como aconteceu com Cristo.

Essa concepção do corpo humano estava em flagrante conflito com as concepções do mundo antigo. Os pagãos procuravam satisfazer seus desejos corporais das formas mais glutônicas e luxuriosas, mas isso porque eles não achavam que seus corpos importassem. O corpo humano possuía uma perfeição, juvenil e efêmera, e depois que essa beleza desaparecia — particularmente após a morte —, sua degradação pútrida e repugnante deveria ser mantida a uma distância social segura. É por isso que tantos povos pagãos queimavam os corpos de seus mortos. É possível imaginar os participantes de um funeral pensando, enquanto viam o cadáver se transformar em cinzas: “Tu não precisarás disso no lugar para onde estás indo!”

A “obsessão” cristã com os cadáveres impressionava muitos povos antigos (certamente os romanos), que a consideravam bizarra e repugnante. Os cristãos honram os mortos, visitam seus túmulos, guardam seus ossos, e até os veneram e beijam! Mas esses atos de devoção só eram possíveis graças à doutrina cristã sobre a ressurreição, que tributa uma grande estima ao corpo humano, mesmo o corpo morto, pois ele ressuscitará um dia e será renovado. Às vezes era muito difícil convencer um pagão que se convertia a abandonar suas piras funerárias; Carlos Magno, o convertido que se tornou o primeiro Sacro Imperador Romano, fez da cremação um crime de pena capital!

Sim, como Scott Hahn observa, depois do império de Carlos Magno, “nenhum outro país ou poder europeu baniu ou permitiu explicitamente a cremação. Não era necessário fazê-lo. Ninguém queria ser cremado”. Então, a cristandade permaneceu de pé por um milênio. Foi somente no século XIX que diversos grupos — “radicais franceses, maçons italianos, socialistas alemães, bolcheviques russos, médicos ingleses e engenheiros civis americanos” — começaram a resgatar o interesse pela cremação. Muitos de seus defensores eram ateus e anticristãos declarados. Segundo o historiador Thomas Laqueur, “a ideia era que a cremação pusesse abaixo aquela comunidade milenar que enterrava seus mortos em solo sagrado, oferecendo, para tanto, uma alternativa vinda da história”. 

Alguns utilizavam razões sanitárias para argumentar a favor da cremação. Os cadáveres, diziam, poluem o abastecimento de água e liberam gases tóxicos no ar. Mais tarde, no século XX, passaram a usar argumentos ecológicos — diziam que a Terra não tinha espaço suficiente para abrigar os mortos da humanidade. O sepultamento também foi se tornando cada vez mais caro, às vezes atingindo valores proibitivos. Finalmente, o mundo globalizado encoraja a disseminação da cremação, já que outras tradições religiosas (o hinduísmo e o budismo, por exemplo) normalmente queimam seus defuntos. O efeito dessas forças é alarmante: em 1905, 99,9% dos britânicos eram sepultados. Em 2017, cerca de 77% foram cremados.

A posição da Igreja sobre a cremação sempre girou em torno de uma permissão relutante. Marco Minúcio Félix, um apologeta cristão do século III, escreveu: “Não tememos a perda pela cremação, embora adotemos o costume do sepultamento, mais antigo e superior”. Em 1300, por sua vez, o Papa Bonifácio reafirmou que a cremação era para bruxas e hereges, não para os fiéis cristãos. Essa posição foi consagrada como disciplina da Igreja no Código de Direito Canônico de 1917, que diz: “Os corpos dos fiéis defuntos devem ser sepultados, e sua cremação é proibida” (Cân. 1203, § 1). A Enciclopédia Católica, de 1908, explica que a cremação é “uma profissão pública da falta de religião e de materialismo”. 

Nada disso, porém, equivalia a uma censura doutrinal formal contra a cremação. Por isso o Papa Paulo VI pôde suspender de forma legítima a proibição da cremação em seu documento Piam et Constantem, de 1963. Como explica Scott Hahn, a instrução apostólica era uma concessão ao crescente número de cristãos que solicitavam a permissão da Igreja para realizar a cremação “por motivos de saúde, econômicos ou outras razões de ordem privada ou pública”. Mesmo assim, o sepultamento continuou normativo, como diz a instrução: “Devem ser tomadas todas as medidas para preservar a prática do reverente sepultamento do fiel defunto”. Os cristãos só poderiam agir de outro modo “quando forçados a fazê-lo por necessidade”.

Outros documentos da Igreja têm reiterado a relutante autorização de Paulo VI para a cremação. O novo Código de Direito Canônico, de 1983, explica que “a Igreja recomenda sinceramente a preservação do piedoso costume do sepultamento”, embora “não proíba a cremação”. Scott Hahn cita a escritora católica Patricia Snow, que afirma que a Igreja “encoraja, prefere veementemente e recomenda com sinceridade que os católicos continuem a piedosa e constante (piam et constantem) prática do sepultamento dos corpos dos fiéis defuntos”. Na verdade, depois que Snow escreveu isso, o Vaticano publicou em 2016 outro documento no qual recomendava “insistentemente” que o sepultamento era “acima de tudo a forma mais adequada de manifestar a fé e a esperança na ressurreição do corpo”. 

A Igreja não aprova a cremação; ela a permite. Porém, como no caso da doutrina da Igreja sobre a sexualidade, considerada por muitos rígida e intransigente, o caminho mais difícil é também o mais belo, humano e glorioso. O sepultamento cristão prega a ressurreição, a transformação e a glorificação do corpo humano. Diz Scott Hahn:

A cremação transmite lições sobre o corpo que são diretamente contrárias àquilo em que a Igreja realmente crê. Ela ensina que o corpo é descartável, que não é uma parte integral da pessoa humana. Além disso, ensina que o corpo perde o valor quando a alma se separa dele — que o corpo encerrou seu ciclo e não lhe resta mais nada. Não há ressurreição, transformação ou glorificação.

Sim, os católicos piedosos podem ser cremados em boa consciência. Talvez, em alguns casos, seja prudente ou até necessário fazê-lo. Mas estou com Scott Hahn. Quando eu morrer, quero que meu corpo seja uma mensagem flagrante de afirmação da vida eterna corpórea que Cristo conquistou para todos nós.

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Não temos outro rei senão... Cristo!
Sociedade

Não temos outro rei senão... Cristo!

Não temos outro rei senão... Cristo!

Nosso Senhor Jesus Cristo deve vir em primeiro lugar também na vida pública: é a única forma de manter a saúde mental dos povos, a única forma de evitar que, em última instância, os poderes deste mundo se erijam em deuses.

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Quando o Papa Pio XI instituiu a festa em honra a Cristo Rei, em 1925, ele a quis no final do ano litúrgico, como coroação de todos os mistérios da vida de Jesus. 

Ao contrário da festa que consta no atual calendário litúrgico, porém, a intenção original de Pio XI, expressa em sua encíclica Quas primas, era homenagear Cristo Rei no último domingo de outubro. Isto a fim de que, antes de celebrar a glória de todos os santos, em 1.º de novembro, a Igreja celebrasse e exaltasse a glória daquele que triunfa em todos os santos.

Mas não era só isso. Desde o princípio, a instituição dessa festa representou, por parte da Igreja, uma verdadeira “declaração de guerra” contra o mundo moderno: primeiro contra o erro do laicismo, que queria tirar Deus da vida pública, mas também contra alguns Estados que, ao ameaçar os justos direitos de Deus e da Igreja, espezinhavam direitos básicos de seus cidadãos.

Era o caso — só para dar dois exemplos — do México e da União Soviética, que desde 1917 começaram a perseguir de modo ferrenho os cristãos. No primeiro caso, a resistência católica ao anticlericalismo deu origem à Cristiada, um verdadeiro exercício de legítima defesa da Igreja. No segundo caso, pilhas e pilhas de cadáveres foram amontoadas em nome de um “mundo melhor” que até hoje não chegou — seja na própria Rússia, seja nos países comunistas onde seus erros foram principalmente disseminados.

Ou seja, a festa de Cristo Rei foi pensada como uma reação vigorosa da Igreja ao ódio a Deus, que transbordava das legiões de espíritos maus para as almas dos que nos governam; e, deles, para toda a sociedade. 

Infelizmente, o tom social dessa celebração foi em grande parte atenuado no Novus Ordo de Paulo VI. No documento com o qual se instituiu o novo calendário litúrgico, é possível ler, inclusive, que a festa antiga não foi apenas transferida de outubro para o fim do ano litúrgico; o que se deu foi uma verdadeira substituição [1]. Mudou-se o nome da festa; mudaram-se os textos litúrgicos; e, se é evidente que nem por isso a doutrina da Igreja mudou, as mentes dos sacerdotes e dos fiéis foram, pouco a pouco, perdendo consciência do que é a realeza social de Cristo, devido à quase total falta de menção a ela, seja nas salas de aula de teologia, seja nos templos e na divina liturgia. 

“Deus Onipotente”: detalhe do Retábulo de Gante, de Jan van Eyck.

Mas não é só a omissão dessa verdade doutrinal que nos fez chegar ao estado em que nos encontramos hoje. O laicismo já muito antes do Concílio Vaticano II se encontrava suficientemente difundido, e praticamente sem resistência de nenhum gênero. A separação entre Estado e Igreja tal como a encontramos hoje nas sociedades civis provocou uma cisão no homem moderno, separando-lhe o corpo e a alma e criando em sua mente uma espécie de esquizofrenia.

De fato, ele leu no Evangelho: Reddite quae sunt Caesaris Caesari, et quae sunt Dei Deo, “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21), e entendeu o quê? Que César é tão “deus” das coisas terrenas quanto Deus, com d maiúsculo, o é das espirituais. Assim como Deus tudo criou, e tudo funciona de acordo com suas disposições, cada nação tem o seu próprio “deus” — ou, no caso, seu próprio ídolo. No mundo ocidental, isso fica evidente nas leis cada vez mais injustas que são promulgadas pelas autoridades civis. Elas se acham onipotentes e, à base de simples canetadas, definem quem pode viver e morrer, o que é família e o que não é, o que os filhos dos outros devem aprender ou não. De fato, em quantas nações do mundo o aborto já não foi legalizado? Em quantas já não é preciso mais ser homem e mulher para celebrar um casamento civil [2]? Em quantas outras, enfim, a “teoria” de gênero — no fundo, uma ideologia — já não se transformou em política de Estado?

“Mas as nações não são livres para aprovar as leis que entenderem mais oportunas para seus cidadãos?” Sim, as pessoas, melhor dizendo, são livres para votar e aprovar as normas que acharem mais convenientes para seus respectivos territórios, mas essa liberdade não é absoluta. Ela deve levar em conta a realidade das coisas, tais como foram criadas por Deus, e não instaurar uma nova ordem das coisas, uma “realidade paralela”, por assim dizer. Se um tiranete instituísse uma lei “abolindo” a gravidade, todos ririam dele e diriam, com razão, que ele perdeu o juízo. Todavia, diante de parlamentos, tribunais e conselhos que hoje proclamam (às vezes em uníssono) que um homem pode ser mulher e uma mulher, homem, todos os meios de comunicação já estão devidamente coordenados para impor uma “espiral do silêncio” e patrulhar quem quer que ouse manifestar-se contra César!

Em outra ocasião, porém, Jesus disse: Nemo potest duobus dominis servire, “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6, 24). Ou seja, é preciso dar a César o que é de César, sim, mas só Deus é Senhor em absoluto; só Ele é Senhor dos senhores; a Ele inclusive os césares desse mundo devem estar sujeitos. E não porque nós, católicos, sejamos teocratas, no sentido de que os Estados nacionais deveriam ser “fagocitados” pela Igreja em todo o mundo; mas somos, sim, teocêntricos, e acreditamos que é preciso pôr Deus em primeiro lugar, também na vida pública, pois esta é a única forma de manter a saúde mental dos povos, a única forma de evitar que, em última instância, os poderes deste mundo se erijam em deuses — e inclusive ordenem a seus súditos que lhes prestem culto. 

É o que já está acontecendo na China, onde os cristãos estão sendo obrigados a substituir, em suas casas, representações de Cristo por quadros e ditos do ditador da vez: Xi Jinping.

A notícia assusta, mas é este o fim inevitável para o qual caminham todos os que perdem a fé em Jesus Cristo. Pois Ele, Deus feito homem, é o único refúgio e proteção dos pobres contra os poderosos deste mundo: sem o Deus que se fez homem, os homens se fazem deuses, e agem efetivamente como tais. Sem os limites da lei de Cristo, as leis dos homens não têm limite algum. Sem o justo temor do juízo divino, todos os juízes não só podem falhar, como realmente falham; não só podem condenar inocentes, como realmente condenam; não só podem fazer vista grossa aos maus, como realmente fazem. Daí o aborto legalizado em tantos lugares; pais pressionados a submeter os filhos ao “novo normal” da moralidade pública, nas escolas, com teoria de gênero, sexualização precoce, preconceitos contra a Igreja etc.

Ao bom católico, diante de tudo isso, não resta outra alternativa senão, com o máximo de suas forças, resistir. A menos que ele queira tornar-se mais um em meio à multidão que condenou Jesus à morte, clamando, quase dois mil anos atrás: Non habemus regem nisi Caesarem, “Não temos outro rei, senão César” (Jo 19, 15). 

Não, a fé em Jesus, Nosso Senhor, não tolera compromissos fáceis com o mundo, conluios criminosos com a mentalidade dominante. O caminho de quem procura acomodar o Evangelho às modas e novidades deste mundo; o caminho de quem, na prática, serve a dois senhores é evoluir rapidamente para a apostasia, para a traição de Cristo, para o abandono da Verdade: aut enim unum odio habebit et alterum diliget, aut unum sustinebit et alterum contemnet, “porque ou odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro” (Mt 6, 24).

A juíza norte-americana Amy Coney Barrett, católica e mãe de 7 filhos.

Se nos permitem a comparação, todo católico deveria procurar merecer, com sua vida, o elogio que há alguns anos recebeu a juíza Amy Coney Barrett, recém-nomeada ministra da Suprema Corte norte-americana (sob protestos, evidentemente, da mídia e de políticos anticristãos). Constatando as firmes posições da magistrada católica em matérias que dizem respeito à lei natural, uma senadora do Partido Democrata lhe dirigiu, em 2017, durante uma sabatina, as seguintes palavras: The dogma lives loudly within you — que poderíamos traduzir como: O dogma vive fortemente dentro de você, ou: O dogma fala alto dentro de você, ou ainda: O dogma está entranhado em você.

A parlamentar em questão usou a palavra dogma num sentido lato e, com a sua afirmação, ela pretendia não elogiar a juíza, mas denegrir-lhe a imagem. O que ela receava, porém, ao ver o nome de Amy avançar nas mais altas cortes da Justiça dos Estados Unidos? 

O temor dela era que, num conflito entre César e Deus, a balança da juíza pendesse mais para Deus, como São Pedro adverte que os cristãos devem agir: Oboedire oportet Deo magis quam hominibus, “Convém obedecer antes a Deus que aos homens” (At 5, 29). O temor dela — e de todos os seus companheiros de partido —  era ter diante de si um outro Thomas More, o santo que morreu como the king’s faithful servant, but God’s first, isto é, “fiel servidor do rei, mas servo de Deus em primeiro lugar”. O temor dela — e de todo o mundo descrente — é que ainda haja cristãos dispostos a testemunhar a própria fé, cristãos prontos a dar a vida por aquilo em que acreditam, como fizeram os mártires.

É uma pena que mulheres como esta sejam figuras raras em nossas repartições públicas. Porque a expectativa que todo o mundo deveria ter de um cristão autêntico na vida política é justamente esta: que, entre Deus e César, ele não hesitasse jamais em obedecer ao primeiro.

Os discípulos de Jesus não devem vender-se nunca à opinião pública, buscar os aplausos do mundo, se isso significa trair o seu Deus.

O nosso problema hoje é que, infelizmente, já não podem dizer a nosso respeito: “O dogma está entranhado em você”. Muito pelo contrário: o afã de agradar o mundo, as preocupações mundanas, os apegos desta vida, tudo isso pode muito bem ter feito morrer, já há muito tempo, a chama da fé em nossos corações.

Esta é, pois, a grande tragédia: o dogma já não habita mais nos corações de tantos de nós, católicos. Já não nos preocupamos mais em dar testemunho da lei de Cristo; não só a fé já não é mais importante para nós, mas a própria realidade das coisas, como foram criadas por Deus, não nos interessa mais. Preferimos manter uma aparência aos olhos dos outros a assumir a verdade com todas as suas consequências. Preferimos ceder ao aborto, à revolução sexual e à ideologia de gênero, a defender com unhas e dentes a lei de Deus inscrita no mais profundo do coração humano.

A Virgem de Fátima prometeu, no entanto, que ao menos em Portugal se conservaria sempre o dogma da fé. Por essa razão em especial, nós, lusófonos, devemos combater com muito mais empenho esse divórcio entre vida religiosa e vida pública, a que a Gaudium et spes chamou, com razão, um dos mais graves erros do nosso tempo (cf. n. 43). 

Não devemos nos contentar, de fato, com o “cumprimento dos atos de culto e de certos deveres morais” (id.), pois ser cristão é muito mais do que isso: é confessar o reinado social de Cristo sobre todos os povos; é confessar que, acima de todos os césares deste mundo louco, há um Deus que tudo governa com sabedoria; é viver, enfim — e buscar que as pessoas ao nosso redor vivam — de acordo com as leis que essa Inteligência suprema ditou, desde toda a eternidade, para a nossa felicidade e eterna salvação.

Notas

  1. “No último domingo per annum celebra-se a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do universo, no lugar [loco] da festa instituída pelo Papa Pio XI em 1925, fixada para o último domingo de outubro. Deste modo, põe-se sob melhor luz a importância também escatológica deste domingo” (Calendarium Romanum, p. 63, trad. nossa).
  2. Malgrado a orientação cristalina da Igreja, emitida há alguns anos pela Congregação para a Doutrina da Fé, a respeito do reconhecimento civil das uniões homossexuais.

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Três lições da Divina Comédia
Espiritualidade

Três lições da Divina Comédia

Três lições da Divina Comédia

Neste ano em que recordamos o 700.º aniversário de conclusão do maior poema cristão já escrito, vale a pena lançar um olhar sobre algumas de suas páginas e extrair daí, para nossa vida de fé, algumas preciosas lições.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Neste ano celebramos o 700.º aniversário da conclusão do maior poema cristão já escrito: A Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Não conhecemos a data exata — “ele parou de escrever no dia 11 de março” —, mas de fato sabemos que o poeta florentino terminou a obra em 1320. Dante deu apenas o título de Comédia ao poema. “Divina” é um acréscimo do século XVI.

O sentido de “comédia” não é o do português moderno (algo que tira sarro ou faz rir alto — embora alguns momentos da leitura provoquem um largo sorriso ou façam perder o fôlego). O sentido de comédia da obra é o mesmo que vemos nas comédias de Shakespeare: as personagens sofrem provações, contratempos e sentem angústia antes de serem arrastadas para um final feliz que jamais poderiam ter arquitetado. Os personagens recebem suas recompensas e são tratados com generosa compaixão.  

A Comédia inicia com a famosa descrição:

No meio do caminho em nossa vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era perdida (Inferno I, 1-3) [1].

Talvez não exista nenhum adulto que não tenha se sentido assim, perdido numa selva escura em alguma época da vida. Essa “selva escura” é ampla o suficiente para nos recordar tantos aspectos diferentes da vida: diversas provações e confusões que afligem, seja em termos pessoais ou quando observamos a situação do mundo ou da Igreja. Notemos também que Dante usa tanto o singular como o plural: “nossa” e “me”. Ele sabe que é uma jornada comum a todos nós.

Em seguida, Dante mostra como a selva na qual estava perdido tinha características de um pesadelo:

Ah, só dizer o que era é cousa dura
esta selva selvagem, aspra e forte,
que de temor renova à mente a agrura!
Tão amarga é, que pouco mais é morte (Inferno I, 4-7).

Felizmente, ele recebeu auxílio de mais uma maneira e fez a jornada pelo inferno e pelo purgatório até o céu. Estas são algumas das coisas que ele descobriu em sua jornada e que podem nos ajudar, se nós também nos sentirmos perdidos numa selva escura e apavorante.

A história que permaneceu de modo mais vívido na memória da minha esposa após a primeira leitura da Comédia na faculdade foi a de Buonconte de Montefeltro [2], salvo da condenação eterna de última hora. Foi um católico que adiara o arrependimento, e recebeu uma facada na garganta numa batalha. Quem o salvou? Maria.  

cheguei com fundo golpe pela gola,
fugindo a pé e ensanguentando o plano.
Ali palavra e vista se me evola;
caí ao nome de Maria (Purgatório V, 97-101).

Quando leu essa história, ela não era católica; assim, considerou-a incrível (no sentido literal), tanto pelo poder que atribui à Santíssima Virgem como pelo fato de um único ato de arrependimento poder ser tão eficaz. O demônio, diz Dante, também foi incrédulo em relação a essa demonstração de misericórdia: 

É vero e diz aos vivos o que ouvi:
o anjo de Deus tomou-me e o do inferno
bradava: “Ó tu do céu, tiras-mo aqui?
Levas contigo deste o que é eterno
por uma lagrimeta que mo tolhe” (Purgatório V, 103–107)

“Diz aos vivos o que ouvi.” Talvez tenhamos de anunciá-lo primeiro a nós? Como nos recorda a oração Memorare: nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tenha recorrido à proteção de Maria tenha sido desamparado por ela. Mesmo nas situações mais extremas. Tal é poder de Maria, tal é o poder da misericórdia. “‘Uma lagrimeta tem por resposta um oceano de misericórdia” [3].

A segunda pessoa a ser destacada é Sápia, membro da nobreza de Siena. Ela está no terraço do purgatório para os invejosos, onde todos têm os olhos costurados.

A paz quis ter com Deus já sobre o extremo
de minha vida; e ainda não seria
menor dever que em penitência gemo,
se não fosse a memória em que me havia
Pier Pettinaio em santas orações
que por mim caridade então pedia (Purgatório XIII, 124-129).

Pier Pettinaio, que teria sido o “equivalente social de um imigrante camelô” [4], rezou por essa nobre rica e arrogante! E as orações dele a levaram a uma altura considerável da montanha do purgatório, reduzindo-lhe consideravelmente o tempo de purificação. Aqui vemos a unidade do Corpo Místico em ação — particularmente, a conexão entre a Igreja militante e a Igreja padecente

Ilustração das linhas iniciais da Divina Comédia, por Gustavo Doré.

Mas esse é apenas um exemplo dessa unidade e do poder dos fiéis para fazer com que o Corpo Místico inteiro cresça em caridade. No Paraíso, Dante encontra algumas almas no segundo céu, que, resplandecendo em glória, o enxergam e dizem umas às outras com grande entusiasmo: “Eis quem fará crescer nossos amores” (Paraíso V, 105). Nosso amor mútuo e a Deus cresce à medida que ajudamos uns aos outros

Com que frequência refletimos sobre esse fato? Já refletimos sobre ele? Como ele mudaria nossa vida diária se nos lembrássemos dele! Nossos pequenos e grandes sacrifícios, nossos atos de amor, o “oferecimento” de nossos problemas e tarefas realmente fazem a diferença no mundo e na Igreja. Como Dante, não precisamos estar numa jornada no céu; isso também se aplica a nós porque estamos — assim se espera — numa jornada para o céu. “Ninguéns” e “nadas” também podem fazer a diferença.

No Paraíso, a história de Piccarda, aspirante a freira que está no céu da lua, é citada com frequência, ou antes sua conhecida fala, que talvez seja a mais citada do poema. Ao responder à pergunta de Dante sobre o motivo pelo qual os que estão nos céus inferiores não sentem inveja dos que possuem mais glória nos níveis superiores, Piccarda diz: “Na sua vontade é nossa paz” (Paraíso III, 85). Uma verdade profundamente consoladora. É necessário ter humildade, desapego adequado e confiança para alcançar essa paz. 

Minha esposa compartilhou comigo uma conversa que teve certa tarde com um monge beneditino de Núrsia (conversa da qual ela jamais se esqueceu). Ela lhe perguntara como conseguia permanecer tranquilo em meio ao movimento causado pela recepção de convidados e turistas em sua loja. Ele respondeu: “Paz… é a vontade de Deus neste exato momento.”

Como podemos associar essas três lições de Dante à situação atual?

Primeiro, voltemo-nos para Maria — sempre.

Segundo, rezemos pelos mortos e pelos moribundos. Uma simples oração pode fazer toda a diferença para alguém, e só saberemos isso quando (se Deus quiser) chegarmos ao céu e encontrarmos nosso irmão ou irmã, que nos agradecerá por toda a eternidade, assim como seremos gratos a tantas outras pessoas.

Terceiro, confiemos na vontade de Deus, que não se surpreende com o que está acontecendo. Ele tem ciência da situação e a deseja ou permite, porque dela advirá algum bem para aqueles que o amam. Como São Pio de Pietrelcina costumava dizer: “Não tenham medo de Deus, porque Ele não quer lhes fazer mal algum. Amem-no bastante, porque Ele deseja lhes fazer um bem enorme” [5].

Referências

  1. A tradução da Divina Comédia usada ao longo de todo o artigo é a de Vasco Graça Moura. Editora Quetzal, Lisboa, 2015. 
  2. Cf. Jason Baxter, A Beginner’s Guide to Dante’s Divine Comedy. Grand Rapids, Baker Academic, 2018, p. 91.
  3. Baxter, Beginner’s Guide, p. 91.
  4. Baxter, Beginner’s Guide, p. 93. Também é interessante observar que esse Pier, um joão-ninguém, tornou-se eremita franciscano e foi venerado em Siena como santo.
  5. John McClernon, Sermon in Sentence: St. Pio of Pietrelcina. London, Baronious Press, 2019, p. 97.

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A verdade sobre os apócrifos
Igreja Católica

A verdade sobre os apócrifos

A verdade sobre os apócrifos

Todo o mundo já ouviu falar dos “evangelhos apócrifos”, e basta falar no assunto para lançar uma sombra de suspeita sobre a Igreja. Mas o que são mesmo os livros apócrifos? Dirão eles algo de “inconveniente” sobre a “verdadeira” história de Jesus?

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Olá, padre Paulo e equipe Christo Nihil Præponere. Escuto muitos boatos e conversinhas sobre os evangelhos apócrifos. Seria muito bom um conteúdo explicando o que é e como tratar esse assunto. Obrigada”.

Resposta: Para a teologia católica, a palavra “apócrifo” tem um sentido técnico definido, estreitamente relacionado com a questão do cânon bíblico e da inspiração dos livros da Sagrada Escritura. Esclareçamos primeiro os termos do problema para considerarmos em seguida a origem e as classes de livros apócrifos e, por último, contrastarmos com a verdade dos fatos o tipo de informação (ou, antes, desinformação) que alguns meios costumam veicular sobre o assunto.

1) Noção. — A palavra “apócrifo” deriva do grego ἀπόκρυϕον e significa, etimologicamente, “coisa oculta”, “recôndita”, “secreta” ou “escondida”. Nesse sentido, os antigos costumavam chamar de apócrifos os escritos que continham doutrinas reservadas aos iniciados de alguma seita ou conhecidas apenas pelos membros de um determinado grupo. Nesta última acepção, um livro apócrifo é sinônimo de esotérico (por oposição a exotérico), ou seja, lido exclusivamente pelos integrantes de uma escola filosófica, em lições fechadas ao público.

Entre os Santos Padres e escritores eclesiásticos dos primeiros séculos, a palavra sofre algumas oscilações de sentido e passa a ser usada para designar três coisas: a) livros de autoria duvidosa ou desconhecida, às vezes atribuídos falsamente a um autor (chamados por isso de pseudepígrafos) [1]; b) livros heréticos ou que ensinavam coisas verdadeiras misturadas com falsas; c) e livros de leitura privada, ou seja, extralitúrgica, em contraposição aos livros que a Igreja costumava ler publicamente na Missa [2].

2) Definição. — E os apócrifos bíblicos? O que são? Trata-se de um conjunto de escritos de autoria incerta que, apesar de sua afinidade com as Sagradas Escrituras (quer por título ou conteúdo) e da grande autoridade que, não raro, se lhes atribuiu no passado, nunca foram reconhecidos pela Igreja como inspirados nem canônicos [3].

3) Origem. — Essa definição se aplica a todos os livros apócrifos, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Os apócrifos veterotestamentários, de acordo com alguns estudiosos, surgiram no período da chamada “literatura intertestamentária”, entre os séculos II a.C. e I d.C. Estes livros, bastante numerosos, podem ser classificados segundo a matéria de que tratam em três séries análogas à distribuição dos livros do Antigo Testamento: históricos, didáticos e proféticos [4]. Quanto à origem, estes apócrifos podem ter surgido em resposta a diferentes necessidades:

[…] em parte, ao propósito de acrescentar à Lei novas tradições, prescrições, explicações ou exortações morais; em parte, ao desejo de completar a história bíblica; em parte, enfim, à intenção de propor […] os vaticínios dos profetas referentes à era messiânica, para que os judeus, de ânimo abatido pelas calamidades, se reconfortassem com a esperança da iminente libertação [5].

Os apócrifos neotestamentários, por sua vez, são de origem mais recente: começam a difundir-se desde pelo menos o século II d.C e continuarão a ser escritos até o já tardio século IV. Também estes apócrifos podem ser agrupados de maneira análoga à distribuição dos livros canônicos do Novo Testamento. Por isso, é comum falar-se de evangelhos apócrifos, Atos apócrifos, epístolas apócrifas e Apocalipses apócrifos. Quanto à origem, é ponto pacífico que

[…] alguns foram escritos por hereges, com o fim de propagar os dogmas e erros da própria seita; outros, por fiéis piedosos, com a intenção de preencher as lacunas da história evangélica, ou para transmitir à memória das futuras gerações os feitos dos Apóstolos e outros varões apostólicos, conservados às vezes na tradição, mas frequentemente deturpados pela inclusão de falsas circunstâncias e portentos [6].

Em razão dessa dupla fonte (em uns casos, hereges; em outros, cristãos ortodoxos), o conjunto da literatura apócrifa não se reduz, sem mais, a livros heterodoxos. Alguns o são, e é por isso que as autoridades eclesiásticas resistiram desde o princípio à sua difusão e inclusão entre as leituras da Liturgia. Destacam-se nesta categoria os evangelhos gnósticos, que começaram a pulular logo nos primeiros séculos da era cristã, e não é improvável que antes da morte do Apóstolo S. João já estivessem circulando certas falsificações gnósticas (se não por escrito, ao menos por ensino oral) da vida de Jesus [7]. Outros, porém, não só estão livres de problemas doutrinais sérios como preservam tradições fidedignas (misturadas às vezes, é verdade, com exageros, imprecisões ou fábulas); daí que tenham gozado de autoridade e estima, chegando inclusive a ser considerados canônicos por autores antigos. “Apócrifo”, portanto, não é sinônimo de “herético”.

Os apócrifos do Novo Testamento são tão numerosos quanto os do Antigo, senão mais. E embora alguns deles, como dissemos, promovam heresias e outros contenham lendas fabulosas acerca de um Jesus demasiado “milagreiro” (lendas, aliás, que a Igreja nunca acolheu como verídicas), nenhum deles foi escrito com a intenção de contar “a história real” de Cristo, como se fosse falsa ou mentirosa a que lemos nos Evangelhos canônicos. Falsa é a afirmação, que parece inspirar certos documentários e matérias de revista, de que nos apócrifos se encontrariam “revelações inesperadas” sobre um Jesus em nada parecido com o que vemos na Bíblia de todos os dias.

4) Os “apócrifos” da mídia. — Naturalmente, a palavra “apócrifo” faz despertar um não se sabe quê de curiosidade e suspeita, mas que, graças à TV e à internet, logo se desfaz para transformar-se em certeza, como um raciocínio que salta convicto para a conclusão sem antes examinar as premissas. “Se existem evangelhos apócrifos”, pensa-se, “é porque a Igreja Católica, por razões escusas, os terá escondido dos fiéis. Ora, que outra razão teria levado a Igreja a mantê-los longe do povo crédulo senão o fato de conterem a verdade sobre Jesus?”

Daí surgem as difundidíssimas “especulações” sobre o suposto conteúdo de tais escritos. O que diriam eles de tão grave para pôr a Igreja em maus lençóis, a ponto de obrigá-la a dar um “chá de sumiço” em desmentidos tão vergonhosos de sua doutrina, inventada para servir os “poderosos”? 

(Prateek Katyal/Unsplash.)

As versões variam segundo os gostos, sempre porém com uma suposição comum de fundo: Cristo não pode ter nada a ver com o que sempre creram os cristãos e ensinou a Igreja. Por isso, nos apócrifos Jesus nunca teria afirmado ser Deus nem querido fundar uma Igreja: Ele seria um hippie avant la lettre; jamais teria proibido o divórcio nem exortado à virgindade pelo Reino: Ele seria um defensor do “amor livre”; não viveu exclusivamente para cumprir a vontade do Pai e redimir a humanidade: Ele teria achado tempo para envolver-se com Maria Madalena e, quem sabe, ter filhos… 

5) Os apócrifos de verdade. — No entanto, quem se dispuser a ir às fontes e ler os apócrifos que, de fato, sobreviveram ao naufrágio do tempo, incluindo vários heterodoxos, não achará nada disso. Na verdade, achará justamente o contrário: um Jesus muito mais “ostensivo” em seus milagres, muito mais “duro” em sua doutrina, muito mais “esquisito” em seu modo de falar e agir. O que faz pôr em dúvida, desde logo, a estranha lógica pela qual a Igreja teria escondido testemunhos escritos que, mais do que contradizer, serviriam para reforçar sua pregação sobre a divindade de Cristo. Se, com efeito, a intenção das autoridades era manter o povo num estado de ignorância forçada, quase narcotizado por doutrinas absurdas, por que o teria impedido de consumir aquela “literatura fantástica”?

Além disso — como dissemos antes —, muitos apócrifos não heterodoxos, sobretudo os evangelhos lendários, apesar de não serem reconhecidos pela Igreja, contêm pequenos detalhes narrativos que ela, sim, acolheu e de alguma maneira oficializou por meio de sua Liturgia [8]. É o caso, por exemplo, dos nomes dos pais de Nossa Senhora, Joaquim e Ana (celebrados anualmente em 26 de julho), que só conhecemos graças ao chamado Protoevangelho de Tiago, também conhecido como Natividade de Maria. O texto parece ser da lavra de algum judeu converso e deve ter sido escrito, segundo algumas estimativas, em meados dos século II, no Egito ou na Ásia Menor [9].

A obra foi reelaborada mais tarde no Ocidente, entre os séculos IV e V, com base em elementos de um Evangelho de Tomé. Em versão latina, ela será conhecida como Livro do nascimento da bem-aventurada Maria e da infância do Salvador (ou Evangelho do Pseudo-Mateus). Nela encontramos episódios bastante curiosos, como o que se lê nos capítulos 20 e 21, sobre a fuga da Sagrada Família para o Egito. Como estivessem todos cansados da jornada, empreendida havia já três dias, a Santíssima Virgem sentou-se à sombra de uma palmeira para recobrar as forças:

Então, o menino Jesus, sentado de rosto alegre no colo de sua Mãe, disse à palmeira: “Dobra-te, árvore, e de teus frutos alimenta minha Mãe!” E logo em seguida, obediente a estas palavras, a palmeira inclinou-se até os pés de Maria, e eles colheram frutos, com o quais todos se alimentaram [10].

Depois disso, por ordem de Jesus, “a palmeira se ergueu, e começaram a sair pelas raízes dela fontes de água limpíssimas, fresquissimas e dulcíssimas” [11], para matar a sede do Família fugida de Belém. No dia seguinte, antes de retomar a viagem, Jesus concedeu à palmeira, em recompensa pela sua obediência, que um de seus ramos fosse levado ao Paraíso, e que a todos aqueles que, dali em diante, superassem algum desafio ou dificuldade se dissesse: “Alcançastes a palma da vitória” [12]. (Como se vê, alguns apócrifos também são fonte de “etimologias” populares!)

Não deixa de chamar a atenção que, por via de regra, as mesmas pessoas que aceitam a autoridade histórica de apócrifos heréticos, quando estes contrariam qualquer ponto da fé e doutrina cristãs, tendem a negar qualquer valor a outros, quando atestam e confirmam (em que pesem certos exageros e invenções piedosas) essa mesma fé e doutrina, como o que lemos acima. Seria mais um caso de “dois pesos, duas medidas”?... 

6) Conclusão. — Se é verdade que, nos primeiros séculos, a Igreja teve de lutar com força para que os apócrifos (e, antes de tudo, os heterodoxos) não envenenassem a fé do povo cristão com doutrinas estranhas, tomadas de empréstimo a todo tipo de corrente filosófica, num sincretismo que só não perde para as religiosidades difusas da Nova Era, daí não se segue que a Igreja tenha agido assim para “ocultar” a verdade. Antes, pelo contrário, as proibições e condenações eclesiásticas contra estes escritos visavam preservar a verdade histórica sobre Cristo de erros, deturpações e acréscimos indevidos, mesmo que tivessem surgido da imaginação de almas de boa-fé.

Notas

  1. Escreve a esse respeito S. Jerônimo: “Tenha-se cuidado com todos os apócrifos (apocrypha). […] saiba que não são daqueles cujos nomes levam no título” (Ep. 107, ad Lætam: PL 22, 877), e S. Agostinho fala de certas escrituras que “são chamadas apócrifas (apocryphæ) pelo fato de a sua origem, oculta, não ter sido identificada pelos Padres” (De Civ. Dei. XV 23, 3: PL 41, 470).
  2. Nesse sentido, eram chamados de apócrifos todos os livros cristãos extracanônicos (v.gr., escritos dos padres apostólicos, dos primeiros apologistas e dos próprios Santos Padres e autores eclesiásticos), como testemunha Rufino: “[Os Padres] chamaram apócrifas (apocryphas) às demais escrituras, que não quiseram fossem lidas na Igreja” (Rufino, Expos. symb. apost. 38: PL 21, 374), e S. Jerônimo opinava (cf. Præf. in Sam. et Malachim: PL 28, 600-603), seguido nisto por grande parte dos protestantes, que os livros deuterocanônicos, isto é, que não estavam no cânon dos judeus, deveriam ser postos entre os apócrifos (inter apocrypha).
  3. Traduzimos de forma simplificada a definição proposta por Stephanus Székely, Bibliotheca Apocrypha. Friburgo, Herder, 1913, vol. 1, p. 1: “Scripta incertorum auctorum, titulo vel argumento Sacris Scripturis cognata, iisque similem auctoritatem olim apud aliquos nacta, sed ab Ecclesia in canonem non admissa”. Cf. a que propõe Miguel A. Tábet, Introducción general a la Biblia. 4.ª ed., Madrid: Palabra, 2015, p. 180.
  4. Há autores que preferem agrupá-los em quatro séries: históricos, sapienciais, proféticos e apocalípticos (cf. Miguel A. Tábet, op. cit., loc. cit.).
  5. Pe. J. Prado, CSSR, Prælectiones Biblicæ. Propædeutica Biblica. 6.ª ed., Turim: Marietti, 1954, p. 108, n. 105.
  6. Id., ibid.
  7. Cf. S. Irineu de Lião, Adversus hæreses I 21 (para um resumo da doutrina de Cerinto) e III 11, 7 (para a luta de S. João contra os erros já disseminados em sua época por Cerinto e, muito antes dele, pelos nicolaítas).
  8. Diga-se de passagem que na Liturgia tradicional (isto é, no Vetus Ordo) a Igreja se serve de muitos apócrifos do Antigo Testamento. Assim, v.gr., o intróito da Missa de Réquiem é tirado de 4Esdr 2, 34s: “Esperai o vosso pastor, ele vos dará o descanso da eternidade […]. Estai preparados para os prêmios do reino, porque a luz perpétua luzirá para vós pela eternidade” (Expectate pastorem vestrum, requiem æternitatis dabit vobis […]. Parati estote ad præmia regni, quia lux perpetua lucebit vobis per æternitatem temporis). Também o intróito da Missa na terça-feira depois do Domingo de Pentecostes é tirado de 4Esdr 2, 36s: “Fugi da sombra deste século: recebei a alegria da vossa glória […]. Recebei o dom prometido e alegrai-vos, em ação de graças àquele que vos chamou ao reino celeste” (Fugite umbram sæculi huius: accipite iucunditatem gloriæ vestræ […]. Commendatum donum accipite et iucundamini, gratias agentes ei qui vos ad cælestia regna vocavit). Igualmente, o Verso que se lê com frequência na Vigília do Natal do Senhor: “Porque, só mais um pouco, e se retirará a iniquidade da Terra, e a justiça reinará em vós” (Quoniam adhuc pusillum, et tolletur iniquitas a terra, et iustitia regnabit in vos) (4Esdr 16, 53), e o Responsório II após a leitura da Escritura nos Domingos IV-XI depois de Pentecostes, tirado do Sl 151, 4: “Ele enviou o seu anjo e levou-me às ovelhas de meu pai: E ungiu-me com o óleo de sua unção” (Ipse misit Angelum suum, et tulit me ovibus patris mei: Et unxit me oleo unctionis suæ). Cf. Pe. J. Prado, CSSR, op. cit., p. 109, n. 106.
  9. Cf. H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 4.ª ed., iterum recognita a J. Prado. Marietti, 1930, vol. 1, p. 184, n. 119. Para saber mais, v. Claudio Moreschini e Enrico Norelli, História da literatura cristã antiga grega e latina. São Paulo: Loyola, vol. 1, 1996, pp. 217-220.
  10. Constantinus de Tischendorf (ed.), Evangelia Apocrypha. 2.ª ed., Leipzig, Hermann Mendelssohn, 1876, p. 88: “Tunc infantulus Iesus læto vultu in sinu matris suæ residens ait ad palmam: Flectere, arbor et de fructibus tuis refice matrem meam. Et confestim ad hanc vocem inclinavit palma cacumen suum usque ad plantas Mariæ, et collegerunt ex ea fructus quibus omnes refecti sunt”.
  11. Id., ibid: “[…] statim erecta est palma, et coeperunt per radices eius egredi fontes aquarum limpidissimi et frigidi et dulcissimi nimis”.
  12. Cf. Id., p. 89.

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