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A longa marcha de Hollywood para o brejo
Sociedade

A longa marcha
de Hollywood para o brejo

A longa marcha de Hollywood para o brejo

Apesar do histórico escandaloso de Hollywood, com casos de assédios, subornos, traições e até estupros, houve uma “época de ouro” do cinema em que os filmes brilhavam pela virtude. Tudo graças aos católicos da Legião da Decência.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Abril de 2020Tempo de leitura: 12 minutos
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Quando a atriz Maria Schneider saiu de casa para o estúdio, a fim de gravar uma cena do filme Último tango em Paris, de 1972, tudo indicava que seria só mais um dia comum... Mas não foi. Por trás das câmeras, o diretor Bernardo Bertolucci e o ator Marlon Brando haviam tramado algo terrível. Maria Schneider não faria apenas uma simulação de estupro, como previsto no roteiro, mas sofreria o crime propriamente dito. Insanidade, sem dúvida; mas, no vale tudo da arte, qualquer coisa seria possível. “Queria sua reação como menina, não como atriz”, alegou Bertolucci numa entrevista.

A atriz tinha apenas 19 anos na época, e nem por isso escapou da “experiência” de Brando, então com 48. Depois do episódio, ela nunca mais se recuperaria da violência, caindo nas drogas e inclusive tentando o suicídio. Veria ainda sua carreira declinar, enquanto Brando e Bertolucci ostentavam prêmios da Academia de cinema.

Maria Schneider morreu vítima de um câncer em 2011. História trágica, é verdade, mas tristemente compartilhada por tantas outras atrizes que, para sobreviverem em Hollywood, tiveram de ceder a humilhações parecidas. Recentemente, o ator Silvester Stallone confessou que embebedou a atriz Sharon Stone, sua companheira de set em O Especialista, de 1994, a fim de fazê-la gravar uma cena de sexo [1]. Denúncias graves também surgiram contra o diretor Harvey Weinstein, que acabou condenado a 23 anos de prisão por assédio e estupro.

Tudo uma grande vergonha para a indústria cinematográfica, cujo histórico de atrocidades não é de hoje e faria inveja a qualquer filme de terror. É sabido, por exemplo, que atrizes como Bette Davis e Joan Crawford, estrelas da década 1940, foram obrigadas a abortar para poderem cumprir seus contratos. Afinal de contas, “para conseguir algo é preciso ser completamente livre”, outra declaração insana de Bertolucci, que, todavia, define bem a mentalidade hollywoodiana. Ainda mais se milhões em bilheteria estiverem em jogo.

A bem da verdade, nada disso seria possível — ao menos não em grande escala — se não houvesse uma plateia embrutecida pelos vícios para aplaudir. Com a velha política do “pão e circo”, os cineastas não têm dúvida do que fazer para conquistar mentes desocupadas pela ignorância e gerar montanhas de dólares. Apesar de grotescos, filmes como Último tango em Paris foram aclamados pela crítica e ainda mais celebrados pelos espectadores. E a coisa só piorou de 1972 para cá, com indecências do tipo Cinquenta tons de cinza e Ninfomaníaca, verdadeiras lástimas, que nem todos os prêmios “Framboesas de Ouro” no mundo seriam capazes de expressar.

Na encíclica Vigilanti Cura, à qual voltaremos adiante, o Papa Pio XI fazia notar como a arte poderia ser rebaixada ao vil se levasse em conta apenas o interesse econômico; porque “enquanto a produção de figuras realmente artísticas, de cenas humanas e ao mesmo tempo virtuosas exige um esforço intelectual, trabalho, habilidade e também uma despesa grande” (n. 14), a baixaria não requer nada disso. Ao contrário, dizia o então Sumo Pontífice, “é relativamente fácil provocar certa categoria de pessoas e de classes sociais com representações que excitam as paixões e despertam os instintos inferiores, latentes no coração humano” (n. 14). E a história do cinema só mostra como o Papa estava certo.

A “época de ouro” e a Igreja Católica

As décadas de 1930 a 1960 são conhecidas como a “época de ouro” de Hollywood. Isso porque, nesse período, foram lançados grandes clássicos do cinema, que arrebataram o público não pela vulgaridade e o cinismo, mas pela beleza de uma arte realmente virtuosa, de alto nível e digna de todos os prêmios. É desse período filmes como Ben-Hur, O homem que não vendeu a sua alma, A canção de Bernadette e Os sinos de Santa Maria, todos vencedores do Oscar em uma ou mais categorias [2]. O que poucos sabem, porém, é que essa “época de ouro” esteve intimamente associada à Igreja Católica, que empreendeu uma “cruzada” para manter a sétima arte dentro dos trilhos da decência e da honestidade.

Jennifer Jones em “A canção de Bernadette”.

Nos primeiros anos da década de 1920, os filmes norte-americanos começaram a preocupar uma parcela da população por conta do excesso de bandidos, monstros e sensualidade em cena. Para enfrentar o problema, o sr. Martin Quigley, um leigo católico, e o padre jesuíta Daniel Lord se juntaram a outras lideranças de protestantes e judeus, com quem publicaram, em 1929, o Motion Picture Production Code, que proibia cenas de nudez, blasfêmias, danças indecentes, entre outras coisas, nos filmes. O código também previa a promoção de valores religiosos, o triunfo do bem sobre o mal e a punição para comportamentos imorais etc [3].

Os estúdios convenientemente aceitaram o código, a fim de fugirem da censura do governo, uma vez que o cinema não era protegido pela Primeira Emenda da Constituição Americana. Desse modo, as produções passaram a cultivar mais as virtudes e dar menos espaço a imoralidades... Até que veio a Grande Depressão, provocada pela quebra da bolsa de valores de Nova Iorque.

O cinema também foi afetado pela crise, vendo seus rendimentos cair vertiginosamente. Qual foi a solução dos estúdios? Isso mesmo, as produções voltaram a apelar para o grotesco, a violência e a perversão, com conteúdos cada vez mais ousados. Entre os gêneros mais polêmicos, chamavam a atenção os filmes policiais, sobretudo pela glamourização de bandidos que aludiam à figura de Al Capone, o mais famoso gângster da história dos Estados Unidos.

Era, sem dúvida, um meio eficaz e rápido de gerar lucro. Mas o lucro está para a imoralidade como o fogo está para o combustível. Portanto, a resposta da Igreja Católica não tardaria. Em 1933, alguns bispos americanos se reuniram e, com a ajuda de vários leigos, fundaram a Legião da Decência [4].

A princípio, a iniciativa foi vista com incredulidade, como podemos ler neste editorial da revista Time, de 1934: “Suas conferências anuais aprovaram resoluções. Seus clérigos defenderam leis de censura. Seus jornais protestaram. Mas nem com todo esse zelo a Igreja conseguiu fazer muita coisa”. O que parecia estar fadado ao fracasso, todavia, logo se converteu no instrumento mais poderoso de regulação do cinema.

A preocupação maior de Hollywood era com a ameaça de boicote. Todos os anos, no dia 8 de dezembro, solenidade da Imaculada Conceição, 20 milhões de católicos faziam um juramento durante a Missa de não assistirem aos filmes condenados pela Legião:

Eu condeno todos os filmes imorais e indecentes, como aqueles que glorificam o crime ou criminosos. Eu prometo fazer tudo que puder para fortalecer a opinião pública contra a produção de filmes imorais e indecentes e unir-me a todos aqueles que protestam por isso também. Eu reconheço minha obrigação de formar uma consciência reta acerca de filmes que são perigosos para a minha vida moral. E juro por mim mesmo manter-me longe deles (grifos nossos).

Os estúdios instituíram a Production Code Administration (PCA), pondo o jornalista católico Joseph Breen como seu diretor. E a dinâmica passou a ser mais ou menos esta: Breen recebia o roteiro dos filmes e, com base nas indicações da Legião da Decência, fazia os cortes e as sugestões. Havia uma classificação dos filmes segundo o código A, B e C. Uma produção recebia A, quando era livre de objeções, ou B, para filmes com objeções. C, obviamente, era dado a produções condenáveis. A Legião ainda publicava mensalmente uma revista com a classificação dos filmes. Era um trabalho de gigante.

Em 1944, o Oscar de melhor atriz foi da intérprete de S. Bernadette.

Tal pressão submeteu Hollywood à moral católica, de modo que todos os filmes, de 1934 a 1954, não saíam sem o selo da PCA. Os estúdios sabiam que não tinham a menor chance de emplacar de outro modo. Se é verdade que o resultado nem sempre foi o esperado, e que muitas das decisões de Joseph Breen podem ser questionadas, o fato é que a produção cinematográfica daqueles anos despontou pela qualidade e a valorização das virtudes, como reconhece o especialista em cinema Thomas Doherty, da Universidade Brandeis, em Massachusetts.

Contrariando os que haviam predito “que o valor artístico do cinema sofreria pelas exigências da ‘Legião da Decência’”, o que se deu, na verdade, foi justamente o oposto: “Esta Legião deu forte impulso aos esforços feitos para elevar cada vez mais o cinema à grande nobreza de nível artístico, impelindo-o à produção de obras clássicas e a criações originais de valor pouco comum”, frisou Pio XI na encíclica Vigilanti Cura (n. 12). O Papa ficou tão satisfeito com o trabalho que incentivou os bispos do mundo todo a adotarem o mesmo modelo da Legião.

Seja como for, a Igreja não pretendia cercear a criatividade artística, mas justamente preveni-la contra a autodestruição. Para mentes dominadas pelo liberalismo, isso parece estranho, porque, em nosso tempo, a liberdade foi alçada a valor absoluto. Mas qualquer pessoa minimamente responsável consegue perceber o perigo de uma liberdade doentia. Se ela não é regulada, se ela não obedece às leis da natureza, essa liberdade se converte numa máquina de destruição, como um carro desgovernado no trânsito. As pessoas podem andar livremente nas ruas porque existem leis. Do contrário, estariam todas ameaçadas.

A liberdade humana também pode se deteriorar por um exercício vicioso. Em razão disso, Pio XI advertia na mesma encíclica contra a possibilidade de que o cinema “injuriasse e desacreditasse a moral cristã, ou simplesmente a moral humana e natural, a regra suprema que deve reger e regulamentar o grande dom da arte” (n. 4). Foi em afastar essa possibilidade do horizonte do cinema que a Legião da Decência se aplicou.

Henrique VIII (Robert Shaw) e S. Thomas More (Paul Scofield), em “O homem que não vendeu a sua alma”.

Da decadência aos dias de hoje

Na década de 1960, porém, as coisas saíram do trilho novamente. Em primeiro lugar, a Suprema Corte americana já havia julgado, em 1948, o processo U.S. vs. Paramount Picture, que pôs fim ao monopólio dos estúdios sobre as salas de cinema. Depois, em 1959, a mesma Corte decidiu que o filme francês Os Amantes poderia ser exibido sem cortes, de modo que as cenas de nudez passaram a ser mais frequentes. Os Estados Unidos logo se viram invadidos por produções independentes e estrangeiras, que abusavam da sensualidade e da violência, por não estarem submetidas à PCA. Consequentemente, Hollywood começou a ceder às pressões econômicas e ao apelo dos tempos pós-guerra. 

Em 1963, o The New York Times publicava a seguinte notícia: “A Legião da Decência pediu ontem a Hollywood para produzir mais filmes dedicados à família”. Dos 270 filmes revisados naquele ano, apenas 51 haviam recebido a classificação A, um resultado bastante alarmante. De fato, a última grande batalha da Legião da Decência deu-se contra o filme Boneca de carne, de 1956, que acabou banido de várias salas, depois dos protestos da Igreja. Depois disso, a própria hierarquia passou a arrefecer o tom, crendo que os católicos deveriam, de agora em diante, preferir o remédio da misericórdia ao da severidade [5].

Com o lançamento de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de 1966, Hollywood definitivamente abandonou a “época de ouro” para mergulhar de cabeça nos novos tempos. Recheado de palavrões e vulgaridades, o filme fazia um ataque aos épicos das décadas de 1940 a 1950. A produção também marcou a decadência da Legião, que já havia adotado um novo sistema de classificação e, inclusive, outro nome [6]. Para sugerir uma abordagem mais positiva, o grupo passou a avaliar também a atuação dos atores e outros quesitos artísticos, além da questão moral. Era o início do fim.

Atualmente, o cinema vive um marasmo de ideias desconcertante. As grandes produções se resumem a filmes de super-heróis, com roteiros previsíveis e atuações tão convincentes quanto um poste. Mais grave ainda: Hollywood chafurda na lama dos escândalos, com casos de assédios, subornos, traições e até estupros. E, infelizmente, a coisa deve se manter assim, enquanto não surgir um movimento verdadeiro de purificação do cinema, como foi a iniciativa da Legião da Decência. As atrizes que nos desculpem, mas, para enfrentar o problema, não basta fazer discurso político no Oscar e campanhas nas redes sociais, enquanto elas mesmas e (os demais) estiverem envenenados pela ilusão do sucesso e do dinheiro.

Toda essa ruína tem sua causa em algo muito mais profundo: a concupiscência. O pecado sempre é “agradável aos olhos” e “desejável por dar entendimento” (Gn 3, 6). O rei Davi caiu em desgraça justamente depois de ter visto e desejado o corpo de Betsabé. Do mesmo modo, quantos já não caíram em desgraça depois de terem assistido a algum filme imoral, seduzidos pelo prazer do som e, sobretudo, da imagem. Era o que ajuizava Pio XI já naquela época:

As variadíssimas cenas no cinema são representadas por homens e mulheres escolhidos sob o critério da arte e de um conjunto de qualidades naturais, e que se exibem num aparato tão deslumbrante a se tornarem às vezes uma causa de sedução, principalmente para a mocidade. O cinema ainda tem a seu serviço a música, as salas luxuosas, o realismo vigoroso, todas as formas do capricho na extravagância. E por isso seu encanto se exerce com um atrativo particular sobre as crianças e os adolescentes. Justamente na idade, na qual o senso moral está em formação, quando se desenvolvem as noções e os sentimentos de justiça e de retidão, dos deveres e das obrigações, do ideal da vida, é que o cinema toma uma posição preponderante. E, infelizmente, no atual estado de coisas, é geralmente para o mal que o cinema exerce sua influência (grifos nossos; Id., n. 25-26).

Na “época de ouro” do cinema, o que mantinha os católicos longe de qualquer filme indecente era o risco dum “pecado mortal”. A Legião da Decência sempre deixou claro esse risco e, com essa pedagogia, impediu que muitas cenas como a de Maria Schneider e Marlon Brando fossem rodadas. Não seria saudosismo extemporâneo desejar que iniciativas como esta, que tão bons frutos deram no passado, ressurgissem para o bem não só do cinema, mas sobretudo das almas. Como público católico, temos o direito e o dever de expressar o nosso ponto de vista e reclamar, tanto de produtores quanto das autoridades públicas, aquele respeito mínimo à pessoa humana, à família e à integridade física e moral de todo ser humano, que todas as formas sadias de entretenimento deveriam transmitir [7].

Notas

  1. Tanto a notícia do estupro de Maria Schneider quanto a da confissão de Silvester Stallone foram reportados por El País, aqui e aqui, mas recomendamos discrição aos curiosos, pois ambas as reportagens contêm linguagem e imagens impróprias.
  2. Ben-Hur (1959) é, ao lado de Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003), o filme que mais venceu o Oscar na história do cinema. Das doze indicações que recebeu, levou para casa onze estatuetas, incluindo a de melhor filme. O homem que não vendeu a sua alma (1966) venceu em seis das oito indicações, incluindo melhor filme também; A canção de Bernadette (1944) conquistou quatro Oscars e Os sinos de Santa Maria (1946) venceu em uma categoria.
  3. Esse código de leis ficou também conhecido por Código Hays, por conta do líder presbiteriano Will Hays, que então presidia a Associação de Produtores e Distribuidores de Filmes da América. Algumas pessoas o criticam por ter colocado restrições quanto à representação da miscigenação nos Estados Unidos. É preciso entender, porém, que Hollywood estava ameaçada por vários escândalos, sobretudo por um suposto estupro e assassinato da atriz Virginia Rappe pelo ator Fatty Arbuckle. Por isso, vários estados queriam impor leis duríssimas de restrição aos filmes. Daí que os próprios cineastas adotaram o Código Hays para fugir da pressão governamental, quando a questão da miscigenação era ainda um grande tabu.
  4. As informações históricas sobre a Legião da Decência foram retiradas do canal Vox, da agência Catholic News Service e do site First Things.
  5. Além do “espírito do Concílio”, deve-se ressaltar também a enorme influência que a Revolução Sexual, da década de 1960, provocou sobre a mentalidade de muitos sacerdotes católicos, culminando nos escândalos de abusos que vergonhosamente conhecemos hoje. Tudo isso influenciou no modo de os católicos enxergarem o mundo, incluindo a arte.
  6. O que restou da Legião da Decência se resume hoje a um departamento da agência Catholic News Service, algo praticamente inexpressivo. Há também uma iniciativa do diácono permanente Steven D. Greydanus, membro do Círculo de Críticos de Filmes de Nova Iorque e articulista do National Catholic Register, que mantém a página Decent Films.
  7. Cf. Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, Pornografia e Violência nas Comunicações Sociais. Uma Resposta Pastoral, de 7 mai. 1989, nn. 25-27.

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Três coisas que você pode fazer para catequizar os seus filhos em casa
Família

Três coisas que você pode fazer
para catequizar os seus filhos em casa

Três coisas que você pode fazer para catequizar os seus filhos em casa

Nós, pais, temos de alimentar, vestir e proteger nossa família. São grandes responsabilidades, e não deveriam ser minimizadas. Mas há outra, ainda maior, que muitas vezes fica esquecida: somos chamados a catequizar os nossos filhos!

William HemsworthTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Abril de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Já fui chamado de muitas coisas na vida: bom soldado, trabalhador confiável, empregado modelo e até de bom marido. São coisas fantásticas e admiráveis, mas insignificantes se comparadas ao meu título favorito: pai. O Senhor abençoou-nos a mim e à minha esposa com quatro criança incríveis, mas cuja educação implica muita responsabilidade.

Você provavelmente estará pensando que digo uma obviedade. Afinal, nós pais temos de alimentar, vestir e proteger nossa família. São grandes responsabilidades, e não deveriam ser minimizadas; mas há outra, ainda maior, que não está na lista. Como pais, também somos chamados a catequizar nossos filhos.

Catequizar é difícil. — Sejamos honestos: a Igreja está perdendo jovens aos montes. Ouvi por esses dias um episódio do podcast Word on Fire” em que o bispo Robert Barron dizia que, para cada pessoa que entra na Igreja, outras seis a abandonam.

Por que alguém abandonaria a verdade? A resposta é bem simples: as pessoas abandonam a verdade porque não sabem o que ela é. As pessoas, em sua maioria, deixam a Igreja porque nunca lhes ensinaram no que ela acredita nem responderam às suas dúvidas.

Sempre há exceções, é claro, mas isso depende da catequese. Quando fui catequista, era comum escutar dos pais comentários como este: “Ensinar a fé é função sua. Não sei por onde começar”. O objetivo deste artigo é oferecer algumas orientações sobre isso.

1. Explique aos seus filhos o que é a Missa. — O primeiro passo na catequização das crianças é levá-las à Missa. Em meu primeiro ano como catequista, tive dezessete alunos, dos quais apenas seis iam à Missa todas as semanas. O Catecismo afirma que os pais são os primeiros mestres da fé, o que é reiterado diversas vezes também na Sagrada Escritura. Os filhos veem os pais como um exemplo, e se a Igreja não é importante para nós, é provável que não o será para eles.

Quando estiver na Missa, explique aos seus filhos o que está acontecendo. Mostre-lhes quantas referências à Sagrada Escritura há na Missa, explique por que o sacerdote diz aquelas palavras durante a consagração e em que medida a Missa antecipa o banquete nupcial do Cordeiro, que ocorre no Céu enquanto ela é celebrada aqui na terra. Não há “excessos” na Missa: tudo é importante. Quanto mais conhecimento tiverem as crianças, mais comprometidas serão com a fé.

Estamos passando por uma situação sem precedentes. Neste momento, a Missa pública está suspensa em grande parte das dioceses no mundo inteiro. Felizmente, muitos sacerdotes tomaram a iniciativa de transmitir suas Missas privadas. Isso é benéfico para todos nós, porque a Missa ainda está sendo celebrada. É possível encontrar muitas dessas celebrações no YouTube e noutros lugares, o que também nos dá a oportunidade de poder “pausar” a celebração para discutir seus diferentes aspectos.

2. Reze com seus filhos. — Nem sempre me saí bem nesse quesito. Eu fazia as objeções de sempre: “Já é tarde” ou “Estou muito ocupado”. Certa vez, disse boa-noite ao meu filho, e ele respondeu: “Eu queria que você rezasse comigo antes de dormir”. Aprendi algo muito importante naquela noite. Nossos filhos querem que rezemos com eles. Quando o fazemos, tornamo-nos um exemplo do que é a oração.

Ensinar os filhos a rezar é uma prioridade ou algo que você faz de forma passiva? Se for uma prioridade, então é provável que a oração também seja prioridade para eles. Quando todos vivemos uma vida de oração intensa, compreendemos com mais clareza o quanto Cristo nos ama. 

Mas lembre-se de que é impossível estabelecer uma relação sólida sem diálogo. O mesmo acontece com a oração. Não há comunhão sem diálogo. A oração nos ajuda a reforçar nosso vínculo com Deus, e é urgente ensiná-lo aos nossos filhos. Podemos falar de oração até cansar, mas nada substitui o nosso exemplo concreto. É o nosso exemplo o que mais fala sobre a importância de rezar. É, portanto, à medida da nossa oração que crescerá nosso relacionamento com Deus e com nossos filhos.

Nesta época de instabilidade, pergunte aos seus filhos o que eles costumam pedir ao rezar. Assim, unido a eles, você poderá rezar diretamente por suas necessidades e preocupações, e também pelas de seus amigos. Se fizer isso, você se surpreenderá com o que pode aprender sobre a vida deles.

3. Leia a Sagrada Escritura com seus filhos. — Ler a Escritura com seus filhos pode parecer óbvio, mas temos de nos perguntar se o estamos fazendo bem. Quando digo ler a Sagrada Escritura, refiro-me a pegar a Bíblia e lê-la. Isso não quer dizer que bíblias ilustradas e para crianças não sirvam para nada; elas podem, sim, ser usadas, mas como recursos complementares.

Isso ajudará as crianças a desenvolver um profundo amor pela Sagrada Escritura, o que, por sua vez, levantará mais dúvidas a que poderemos responder. Isso revelará ainda o fundamento bíblico da fé católica e os ajudará a resistir às objeções anticatólicas que virão no futuro. Também é importante sermos honestos em nossas respostas. Se as crianças nos fizerem uma pergunta a que não sabemos responder, precisamos admiti-lo, fazer nossa pesquisa e voltar com a resposta.

Não há ocasião mais apropriada do que a atual para fortalecer nosso compromisso com a leitura da Sagrada Escritura. Isso substituirá parte do tempo que as crianças passam na frente da TV, enquanto as aulas estão suspensas. Ensine-lhes que as Escrituras são cartas de amor enviadas por Deus. Isso ressaltará o quanto elas são importantes para a nossa fé.

Conclusão. — Esses três itens são apenas algumas das muitas coisas que você pode fazer para educar seus filhos na fé nesta época estranha. Reserve um tempo e faça um plano. A fé não para, e nossa responsabilidade como pais é transmiti-la. Estamos sendo forçados a ir mais devagar, e isso é algo bom. Aproveitemos essa oportunidade para ensinar nossos filhos a respeito de Cristo e sua Igreja.

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O coronavírus, a hora da morte e a esperança cristã
Doutrina

O coronavírus,
a hora da morte e a esperança cristã

O coronavírus, a hora da morte e a esperança cristã

Se estamos unidos a Cristo, não precisamos temer os horrores deste mundo. Eles não podem tirar a vida que está dentro de nós, não podem nos privar da nossa alegria, não podem nos roubar a esperança que nos preenche: a esperança da vida eterna.

Scott HahnTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Abril de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Para muitos de nós a morte se tornou muito menos abstrata, e a vida, bem mais incerta [1].

A situação na qual nosso mundo inesperadamente se encontra é inédita sob vários aspectos.

Penso, é claro, em 11 de setembro de 2001. Ainda me lembro do choque e da tristeza que senti quando vi as Torres Gêmeas caírem. Também me lembro da incerteza dos dias que se seguiram. Naquela ocasião, não sabíamos se e quando os ataques terminariam. Não sabíamos o que os terroristas ainda tinham reservado para nosso país. Só sabíamos que, em poucas horas, milhares de nossos compatriotas haviam sofrido mortes terríveis. E estávamos assustados.

Para muitos de nós, o 11 de setembro foi um alerta — uma lembrança de que nossas vidas confortáveis e estáveis poderiam ser destruídas num instante, que a morte pode estar sempre muito próxima e que nada neste mundo é certo, muito menos o dia de amanhã.

Scott Hahn, autor destas linhas.

Logo depois que as Torres caíram, Kimberly e eu reunimos nossos filhos para rezar. Como nós, eles também estavam tentando entender o que havia acontecido, e Hannah, que acabara de fazer treze anos, me fez uma pergunta.

“Pai,” disse ela, “preciso saber: vamos todos morrer?”

“Sim,” respondi. “100%. Sem dúvida.”

Todas as crianças me olharam assustadas. Fiz uma pausa. Em seguida, continuei. “Todo o mundo morrerá, Hannah. Mas creio que não será hoje”.

Acrescentei: “Mas o importante — a verdadeira questão — não é o fato de que morreremos, mas saber se estamos preparados para morrer”. 

Mais tarde, depois que terminamos nossas orações, retomei a pergunta de Hannah. Expliquei que, embora a taxa de mortalidade para cada um de nós fosse de 100%, a de imortalidade também era de 100% para cada um. A morte não é o fim. Para ninguém. Cada pessoa que já viveu ainda está viva num ou noutro estado — o de graça ou de desgraça.

Então, citei o sermão de São John Henry Newman sobre “A Individualidade da Alma”. Neste sermão, ele nos recorda o seguinte:

Todos aqueles milhões e milhões de seres humanos que, sucessivamente, já pisaram a terra e viram o sol estão vivos e juntos neste exato momento. Creio que vocês reconhecerão que não compreendemos isso adequadamente. Todos aqueles cananeus que foram mortos pelos filhos de Israel, cada um deles está em algum lugar do universo neste momento, num lugar designado por Deus.  

Não tenho certeza de qual foi a impressão que o sermão de Newman deixou nas crianças naquela ocasião, mas fiquei pensando na visão das massas da humanidade — de Adão e Eva, passando pelos homens e mulheres que morreram em 11 de setembro, até as pessoas que, enquanto escrevo, estão morrendo por causa daquele terrível vírus que literalmente tira nosso fôlego. Enquanto vejo o desenrolar das notícias, não posso deixar de pensar em todas aquelas pessoas que ainda estão vivas, esperando, aguardando, com medo ou esperança, o Último Dia.

Da maldição à bênção. — Depois da morte, a ponte que separa a esperança do medo é intransponível. Todos os que já morreram e esperam o Juízo Final sabem o que acontecerá. Sabem que seu corpo ressuscitará para a morte ou para a vida. Aqueles que esperam têm certeza de sua esperança. Aqueles que temem têm certeza de seu medo. Todos sabem o que escolheram livremente em vida — Céu ou inferno — e sabem que o momento de fazer outra escolha já passou. Cristo Juiz declarou seu destino, e ele está selado.

Mas aqui e agora o abismo entre esperança e medo pode ser cruzado. Não precisamos temer o fim desta vida terrena. Não precisamos viver aterrorizados com o que virá depois de fecharmos nossos olhos pela última vez. Não importa o quanto nos afastamos de Deus, não importa quantas vezes nos voltamos contra Ele e seus caminhos, ainda temos tempo para fazer outra escolha. Como o filho pródigo, podemos voltar para a casa do Pai, sabendo que Ele nos acolherá de braços abertos e transformará o medo da morte em esperança de vida. 

Evidentemente, o medo que muitos de nós temos da morte é natural. Não fomos feitos para a morte, mas para a vida. 

No entanto, Jesus veio nos libertar do medo da morte. A obediência amorosa que Ele ofereceu na cruz expiou nossos pecados e abriu as portas do Céu para todos os que O seguiram. Mas ela também mudou o sentido mesmo da morte para aqueles que se uniram a Ele. “Transformou a maldição da morte numa bênção”, fazendo da morte a porta que leva à vida eterna com Deus (Catecismo da Igreja Católica, n. 1009).

Citando São Paulo, o Catecismo explica ainda:

Graças a Cristo, a morte cristã tem um sentido positivo. “Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro” (Fl 1, 21). “É digna de fé esta palavra: se tivermos morrido com Cristo, também com Ele viveremos” (2Tm 2, 11). A novidade essencial da morte cristã está nisto: pelo Batismo, o cristão já “morreu com Cristo” sacramentalmente para viver uma vida nova; se morremos na graça de Cristo, a morte física consuma este “morrer com Cristo” e completa assim a nossa incorporação nEle, no seu ato redentor: pelo Batismo, o cristão já “morreu com Cristo” sacramentalmente para viver uma vida nova; se morremos na graça de Cristo, a morte física consuma este “morrer com Cristo” e completa assim a nossa incorporação nEle, no seu ato redentor (n. 1010).

Isto é, para aqueles que morrem na graça de Cristo, a morte não é um ato solitário; é uma “participação na morte do Senhor”, e quando morremos com o Senhor, também ressurgimos com Ele; participamos de sua Ressurreição (cf. n. 1006).

Essa participação muda tudo. A liturgia da Igreja nos recorda isso. Tuis enim fidelibus, Domine, vita mutatur, non tollitur, escutamos o sacerdote dizer nas Missas de defuntos. “Para os vossos fiéis, Senhor, a vida é transformada, não tirada, e, se lhes é destruída a morada desta habitação terrestre, está-lhes preparada nos céus uma habitação eterna”.

Quando sabemos que a morte não é o fim, quando sabemos que a morte é apenas o início da alegria, vida e comunhão eternas com Aquele que amamos, a esperança afasta o medo. Ela leva-nos a ansiar pela morte, a desejar estar com Cristo num mundo onde não há sofrimento, dor nem perda. Por isso São Francisco podia rezar assim:  

Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a morte corporal, à qual nenhum homem vivo pode escapar.
Ai daqueles que morrem em pecado mortal!
Bem-aventurados os que ela encontrar a cumprir as tuas santíssimas vontades,
porque a segunda morte não lhes fará mal (Catecismo, n. 1014).

Saber que a morte não é o fim nos leva a ansiar por algo mais. Leva-nos a querer compartilhar nossa esperança com outros.

Os primeiros cristãos — nossos pais e mães na fé — não temiam a morte; esperavam por ela. Muitos deles a buscavam, desejando apenas começar o que C. S. Lewis descreveu em A Última Batalha como o “Capítulo um da Grande História, que ninguém na terra leu; que dura para sempre; e na qual cada capítulo é melhor que o anterior”.

“Glória do Cristo recém-nascido”, da Igreja de Sant’Ana, em Viena.

Muitas vezes as pessoas se referem ao Evangelho ou mesmo à história da salvação como “a maior história já contada”. Mas não é verdade. É apenas uma introdução ou um prelúdio. O que virá depois desta vida, quando os bem-aventurados entrarem na visão beatífica e virem pelos olhos do Pai a história de sua vida, da vida de todas as pessoas, do mundo inteiro, aquela será a maior história já contada, à qual pertencem todas as outras histórias, a história que dá sentido a todas as outras, a história que esperamos escutar durante toda a vida.

Neste exato momento, somos chamados como cristãos a imitar os primeiros cristãos. Podemos ou não ser chamados a correr na direção da morte numa arena ou numa ala de hospital. Mas certamente somos chamados a deixar nosso medo de lado e a viver com esperança. Somos chamados a esperar que veremos nossos entes queridos novamente e a esperar que, junto deles, um dia descansaremos nos braços do nosso Pai.

Somos também chamados a esperar em Deus, que tomou o maior ato de maldade já perpetrado — a crucifixão de Nosso Senhor — e tirou dele o maior bem que o mundo já conheceu: a redenção da humanidade. Se Deus pode tirar o bem, a glória, a beleza e a vida desse tipo de maldade, com certeza pode tirar o bem, a glória, a beleza e a vida do mal que enfrentamos hoje. 

A esperança é o que nos sustentará nos próximos dias. Ela também nos ajudará a viver a alegria no dia de hoje, não importa que sofrimentos nos aflijam atualmente.

Mais uma vez: a morte não é o fim. Fomos feitos para a vida, para a alegria. E em Cristo essa vida e essa alegria serão nossas. Em Cristo, elas já são nossas. A morte traz a concretização delas, mas já podemos vivê-las agora, mesmo no meio da tristeza, da guerra, das pragas, da pobreza e da confusão. Se estamos unidos a Cristo, não precisamos temer os horrores deste mundo. Eles não podem tirar a vida que está dentro de nós, não podem nos privar da nossa alegria, não podem nos roubar a esperança que nos preenche — a esperança da vida eterna. 

“Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Cor 15, 55).

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Rituais macabros desmascaram propaganda pró-aborto
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Rituais macabros
desmascaram propaganda pró-aborto

Rituais macabros desmascaram propaganda pró-aborto

Grupos defensores do aborto alegam com frequência que a prática não elimina uma vida humana. Mas as observações de uma médica aborteira revelam: muitas mulheres sabem bem a verdade do que estão fazendo...

Sarah TerzoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Abril de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Grupos defensores do aborto alegam com frequência que a prática não elimina uma vida humana, mas as observações de uma aborteira revelam que muitas mulheres sabem bem a verdade do que estão fazendo.

Embora algumas ativistas admitam que o aborto elimina, sim, uma vida, descobri que, em sua maioria, as ativistas que encontramos em fóruns ou manifestações pró-aborto negam que o aborto tire a vida de um bebê. Em vez disso, dizem eles, o aborto remove “tecido”, “células” ou, quando são estranhamente explícitos, um “feto”, mas não um ser humano em desenvolvimento.

Afirmações desumanizadoras sobre os nascituros podem ser encontradas com frequência na literatura pró-aborto. Um livreto distribuído pela unidade da Planned Parenthood nas Montanhas Rochosas, por exemplo, diz o seguinte:

O feto está vivo? As algas, as minhocas e o seu apêndice estão vivos. O bolor no pão que está na geladeira está vivo. As pessoas não estão de acordo sobre o que é a vida.

De acordo com a Planned Parenthood, portanto, fazer um aborto é tão insignificante quanto eliminar bolor, algas ou minhocas. Dizem que não há nenhuma diferença entre tirar o apêndice e arrancar um bebê do ventre materno à força (desmembrando-o com um fórceps, envenenando-o ou sujeitando-o a uma sucção violenta que lhe arranca braços e pernas).

A feminista Amanda Marcotte, do site pró-aborto Rewire News, disse certa vez no Twitter:

A ingestão de antibióticos elimina mais vidas do que um aborto. Um organismo é menos do que os bilhões de mortos pelo uso de um antibiótico.

Esses são apenas dois exemplos típicos da retórica empregada na literatura e nas mídias sociais de quem defende o aborto. Vejamos, porém, a citação abaixo. Em seu livro “Por que sou uma médica aborteira” [Why I Am an Abortion Doctor, sem tradução portuguesa], Susan T. Poppema descreve os rituais realizados por algumas mulheres que abortaram em sua clínica [1]. Poppema diz:

Na realidade, nossa clínica é um local relativamente tranquilo. Algumas mulheres ampliam essa percepção quando realizam rituais em torno dos procedimentos. Há pouco tempo, uma paciente veio com seu parceiro e trouxe velas; ela nitidamente transformou a experiência numa forma ritual de dizer: “Tenho orgulho de mim por fazer esta escolha, e também estou triste por ela” (New York: Prometheus, 1996, p. 120). 

Obviamente, essas pacientes sabiam que não estavam se livrando de “bolor” ou de “algas”. Ninguém acende velas depois de jogar no lixo um pedaço de pão embolorado. Ninguém realiza um ritual depois de tirar algas do aquário. Ninguém “fica triste” ou sente a necessidade de comemorar a destruição de germes. Não temos rituais para nos ajudar a lidar com nossas emoções depois que tomamos antibióticos, assim como não existem grupos de apoio para pessoas que passam desinfetante nos armários da cozinha.

O aborto é mais do que uma simples cirurgia de rotina. Qual foi a última vez que você ouviu falar de um paciente que levou velas no dia de tirar as amígdalas? Quantas pessoas realizam um ritual quando vão a um consultório para remover um cisto? Quantas vezes você foi ao dentista e viu um paciente acender velas para prestar reverências aos sisos extraídos?

Exceto em casos de doentes mentais, a resposta é: nunca

As palavras de Poppema indicam que suas pacientes sabem que abortar é algo muito mais sério do que matar “bolor” ou “bactérias”. Isso é verdade, apesar da propaganda pró-aborto a que foram expostas. Por mais que as ativistas tentem desumanizar o nascituro, muitas mulheres ainda sabem qual é a verdade: trazem no útero uma vida humana.

Não sei se Marcotte ou a pessoa que escreveu o panfleto da Planned Parenthood realmente acreditam no que disseram sobre os nascituros, ou se sabem que sua propaganda é falsa e enganosa. Será que realmente vêem a ecografia de um bebê chutando e chupando dedo e enxergam algo parecido com bolor ou bactéria?

Quem ganha a vida promovendo o aborto tem um grande motivo para negar a realidade: aliviar a sua consciência. Essa pessoa fará o possível para desumanizar os nascituros, a fim de justificar o lucro obtido com a morte deles. Uma mulher que aborta pode sentir uma necessidade semelhante. Para aliviar o peso de sua culpa ou justificar um rendimento obtido com a promoção da morte, essas pessoas podem convencer a si mesmas de que bebês com batimentos cardíacos, ondas cerebrais e, muitas vezes, dedos de mãos e pés formados, são semelhantes a algas e a bactérias. 

Por barulhenta que seja, porém, a propaganda a favor do aborto, cada vez mais pessoas conseguem ver o que ela esconde.

Notas

  1. Chamamos a atenção dos leitores para o fato de que esse não é um relato isolado e aleatório. Um texto recente sobre “o sacrifício de crianças na era da Covid-19” traz uma porção de “rituais de aborto pré-escritos”, com invocações de espíritos e orações a divindades pagãs, com direito a “Amém”. Evidentemente, (queremos acreditar que) só uma minoria das mulheres que abortam realiza cerimônias desse gênero. O simples fato de elas existirem, no entanto, aponta para um claro desequilíbrio moral da nossa civilização (Nota da Equipe CNP).

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