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Teriam sofrido e morrido em vão os santos mártires?
Santos & Mártires

Teriam sofrido e morrido
em vão os santos mártires?

Teriam sofrido e morrido em vão os santos mártires?

“Pode haver situações em que o homem, e especialmente o cristão, não pode ignorar que deve sacrificar tudo, inclusive a própria vida, a fim de salvar a própria alma”. É o que nos recordam os mártires.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Agosto de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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No antigo calendário litúrgico, o dia 1.º de agosto é dedicado a uma santa família do Antigo Testamento, que morreu martirizada durante a perseguição do rei Antíoco IV Epifânio, por volta do ano 150 a.C.: trata-se da comemoração dos Santos Macabeus, que, embora não conste mais no calendário reformado, é uma celebração tradicional, antiquíssima e quase universal, sendo recordada também nos ritos ambrosiano e bizantino. O prefácio da Missa de hoje no rito de S. Ambrósio chega a contar em detalhes o martírio desses irmãos: 

É justo e salutar, em honra do vosso nome, Senhor, celebrar anualmente com toda admiração os vossos santos mártires Macabeus, irmãos pelo nascimento, semelhantes pela paixão. Concebeu-os a mãe em seu útero e coração, a fim de que os que havia gerado ao mundo segundo a carne, pelo espírito de fecundidade os gerasse a Deus onipotente para a vida. Porquanto os que nasceram carnalmente para a morte, religiosamente morriam para a vida. Cortam-se-lhe as línguas, arranca-se-lhes o couro cabeludo: e entre estes <tormentos> os gloriosíssimos jovens não se lamentavam, para serem mais cruelmente punidos; mas antes exultavam, para mais gloriosamente expirarem e serem assim consolo e exemplo uns para os outros. Depois de todos eles, foi, por fim, a vez da mãe pelo sangue e pela fé: não porque fosse ela a última, mas para que entregasse antes a Deus os frutos do seu ventre e alcançasse, segura, o prêmio de sua oferenda (tradução e grifos nossos).

O relato completo, porém, do que aconteceu a esses irmãos e a essa mãe encontra-se nas próprias Escrituras, no cap. 7 do Segundo Livro dos Macabeus

“Martírio dos Sete Macabeus”, por Antonio Ciseri.

Os filhos, num total de sete, “foram um dia presos com sua mãe” e instados a comer carne de porco, “por meio de golpes de azorrague e de nervos de boi” (v. 1). Um azorrague era uma espécie de açoite feito com tiras de couro e que possuía, em cada ponta, um instrumento cortante ou pedaços de articulações de carneiro. 

O espírito daquela família, no entanto, era resoluto. Nenhum dos terríveis golpes de azorrague diminuiu-lhes o fervor em cumprir a vontade de Deus: “Estamos prontos a morrer, antes de violar as leis de nossos pais” (v. 2), disse um deles, sem medo.

As torturas se seguiam, como em um conto de terror: “O rei ordenou que aquecessem até a brasa assadeiras e caldeirões” e “que cortassem a língua do que falara por todos e, depois, que lhe arrancassem a pele da cabeça e lhe cortassem também as extremidades, tudo isso à vista de seus irmãos e de sua mãe” (v. 3-4).

O que fizeram, então, aqueles rapazes, vendo seu irmão ser cruelmente torturado até o suplício? Não renunciaram a seu propósito, nem titubearam, mas “exortavam-se mutuamente a morrer com coragem” (v. 6). Animados pela esperança na ressurreição dos mortos, eles entregavam bravamente sua vida a Deus, um após o outro.

Chegando o momento de infligir a morte ao filho mais novo, Antíoco recuou por um instante. Ele insistia com o caçula, “prometendo-lhe com juramento torná-lo rico e feliz, se abandonasse as tradições de seus antepassados, tratá-lo como amigo e confiar-lhe cargos” (v. 24). Mas nem assim o jovem cedia. Então o rei tentou conversar com sua mãe: mandou que ela se aproximasse e o fizesse mudar de opinião, a fim de conservar a própria vida.

Mas o que fez aquela mulher, que tinha visto seus outros seis filhos serem torturados e mortos diante de si? O que fez aquela mãe dolorosa, que a essa altura já tinha dilacerada a alma? A Escritura diz que “ela consentiu em persuadir o filho” (v. 26), mas que, em seguida, exortou-lhe, falando em língua materna: “Meu filho, não temas este algoz, mas sê digno de teus irmãos e aceita a morte, para que no dia da misericórdia eu te encontre no meio deles” (v. 27.29).

Esta santa mulher, mesmo acabrunhada pelo sofrimento de perder todos os seus filhos, estava consciente de haver algo muito pior que a morte do corpo. Depois, “seguindo as pegadas de todos os seus filhos, a mãe pereceu por último” (v. 41). Naquele dia, uma família inteira entregava-se em sacrifício a Deus. Eles preferiram morrer a violar as leis de seus pais, a abandonar as tradições de seus antepassados.

Mas o que eram essas leis e tradições, e pelas quais esses santos deram a vida? Não se tratava de meras convenções humanas, e por mais dignos de honra que fossem seus antepassados, não foi simplesmente por eles que os mártires macabeus derramaram o próprio sangue. Essa família tinha consciência da origem das leis de sua religião: era o próprio Deus que as havia instituído. Por isso, desobedecer a elas era desobedecer a Deus. Foi para não ofendê-lo, portanto, para não pecar, que essa mãe e esses filhos enfrentaram as mais cruéis das torturas. Eles traziam bem vivas no coração as palavras do salmista: “Vosso amor vale mais do que a vida” (Sl 62, 4).

O que essa história tem a ver conosco, não é preciso muito para perceber… O exemplo desses jovens é um testemunho luminoso da coragem que precisamos ter em nossos dias para obedecer àquilo que Deus nos ensina através da Igreja que Ele mesmo deixou sobre a terra. No tempo desses Santos Macabeus, o que havia era a lei de Moisés e o oráculo dos profetas; foi em respeito a esse tesouro que eles morreram como mártires. Nos nossos tempos, porém, como diz a introdução da Carta aos Hebreus, foi o próprio Filho de Deus quem veio ao nosso encontro, deixando à Igreja a autoridade de ensinar em seu nome; é, pois, para conservar essa doutrina — muito mais elevada, perfeita e superior do que a antiga — que nós devemos estar dispostos a morrer.

Pode parecer “antiquada” essa teologia do martírio, mas ela é uma das respostas mais contundentes à crise moral que enfrentamos hoje, dentro e fora da Igreja. Não sem razão o Papa Pio XII, em um célebre discurso a mulheres (que já publicamos na íntegra aqui), recorreu justamente à história dos Santos Macabeus para ilustrar o heroísmo que muitas vezes o cumprimento da vontade de Deus nos exige:

Pode haver situações em que o homem, e especialmente o cristão, não pode ignorar que deve sacrificar tudo, inclusive a própria vida, a fim de salvar a própria alma. Todos os mártires no-lo recordam. E os há em grande número, também em nossos tempos. Mas será que a mãe dos Macabeus e seus filhos, santas Perpétua e Felicidade, sem embargo de seus recém-nascidos, Maria Goretti e milhares de outros, homens e mulheres venerados pela Igreja e que se opuseram à “situação”, sofreram inutilmente — e até por engano — uma morte sangrenta? Certamente não. E eles, com seu sangue, são os testemunhos mais expressivos da verdade contra a “nova moral”

Ao se referir à “situação” e à “nova moral”, o Papa Pio XII se referia à chamada moral de situação, segundo a qual “cada indivíduo em cada instante e conjuntura é dono de fazer o que lhe pareça melhor, sem ataduras de nenhum gênero”; Deus, nesse sistema moral, “só dá valor à intenção reta e à resposta sincera; a ação não lhe importa”. 

Na prática, isso significa que os Santos Macabeus poderiam muito bem ter se empanturrado de carne de porco; que os primeiros mártires cristãos poderiam muito bem ter jogado o quanto de incenso quisessem diante da estátua do Imperador; que São Thomas More poderia muito bem ter aceitado o adultério de Henrique VIII; que São José Sánchez del Río poderia muito bem ter cedido à pressão de seus perseguidores e negado a Cristo Rei… Bastava, veja só, que eles trouxessem no coração uma “boa intenção” e uma “sinceridade” meio abstrata, e estava tudo certo. 

Dedução lógica de tudo isso? Os pobres mártires sofreram “inutilmente”.

Mas é evidente que esse tipo de raciocínio não se limita a interpretações do passado; tudo é calculado para dar ao homem de hoje a “liberdade” (que está mais para libertinagem) de fazer o que lhe der na telha. Assim, diante das múltiplas situações (e algumas até muito difíceis, não negamos) com que se deparam os homens de hoje, seria lícito e perfeitamente aceitável que se contrariasse um “mandamentozinho” aqui e ali só para não se “enrascar”, só para não ficar numa situação embaraçosa, só para não sofrer um “martírio branco” diante dos outros. 

Porque o cristianismo custa, porque o Evangelho é exigente — e porque não queremos nos confessar fracos, miseráveis e até obstinados, dependendo do caso —, o pecado é visto por tantos de nós como algo “inevitável”: “todo o mundo faz”, “as coisas são assim mesmo”, “ninguém é de ferro” e, afinal, “o que importa é o coração”, “Deus não vai nos tratar assim também, a ferro e fogo” etc

Dedução lógica? Quem procura fazer a vontade de Deus é bobo, ultrapassado e está sofrendo à toa. Daqui a repulsa de tantos à vida religiosa, à busca de Deus e à obediência aos Mandamentos.

Para romper com essa forma mundana de pensar, nada melhor do que olhar com fé para o exemplo dos mártires. Os Santos Macabeus podiam muito bem ter cedido à tentação de comer carne e procurado “racionalizar” depois, usando alguma “justificativa” para sua traição. Mas, se o fizessem, seriam lembrados hoje na liturgia? Mais do que isso: teriam feito a coisa certa? Teriam salvado suas almas? 

Certos teólogos modernos arriscariam a dizer que “sim”, que no fundo é preciso compreender cada situação, e que o “certo” e o “errado” são muito relativosMas, afinal, iremos seguir as novidades do momento ou as leis e tradições de nossos pais? Iremos nos guiar pelas picadas que alguns decidiram abrir no meio do mato ou pela estrada segura que percorreram os santos? Iremos seguir as últimas modas teológicas ou a Palavra eterna que diz: “Seja o vosso sim, sim; e o vosso não, não; o que passa disto vem do Maligno” (Mt 5, 37)?

Certamente é mais difícil aceitar o que nos ensina o Senhor e nos submeter ao que Ele diz, ao invés de simplesmente fazer o que bem entendermos, tentando nos “desculpar” depois com alguma história mais ou menos bem elaborada. Acontece que viver de desculpas pode até trazer facilidades, mas não traz a salvação. Esta só nos vem quando entramos em contato com a Verdade, por mais dura e dolorosa que ela às vezes nos pareça num primeiro momento. É só conhecendo a ela que seremos verdadeiramente livres (cf. Jo 8, 32). Nesta e na outra vida.

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Leão XIII, São Miguel e o Combate Espiritual
Cursos

Leão XIII,
São Miguel e o Combate Espiritual

Leão XIII, São Miguel e o Combate Espiritual

“São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate…”: são a origem e a história desta oração, que tantos de nós dirigimos ao “príncipe da milícia celeste”, o tema de nosso mais novo curso.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Agosto de 2019Tempo de leitura: 1 minutos
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São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate…”: eis a oração que tantos de nós, católicos, dirigimos insistentemente ao “príncipe da milícia celeste”, pedindo refúgio e proteção nas batalhas que travamos neste vale de lágrimas. 

Como você deve saber, essa oração foi composta há não muito tempo, por ninguém menos que o Papa Leão XIII, e depois de uma visão impressionante que ele teve, cujo teor Sua Santidade confidenciou a pouquíssimas pessoas e sempre com a devida reserva.

Mas não, não se trata de “teoria da conspiração”. As fontes mais abalizadas são concordes: houve de fato uma missiva celeste para que essa invocação a São Miguel Arcanjo fosse rezada. 

Nem é preciso dizer que as circunstâncias em que nos encontramos não fizeram diminuir em nada a urgência e importância desta devoção… Muito pelo contrário!

Para que batalhas, porém, essa oração foi composta? E como discernir, em meio às inúmeras histórias que circulam na internet, o que é verdade do que é lenda e fantasia? 

É o que você vai descobrir no mais novo curso de nosso site: “A Oração de São Miguel Arcanjo”!

O lançamento deste conteúdo exclusivo para alunos será no próximo dia 12 de agosto. Em 6 aulas, Padre Paulo Ricardo contará a história desta célebre oração e, sobretudo, aprofundará a teologia e a espiritualidade por trás delas, pois não só é verdade que os anjos nos auxiliam no combate espiritual desta vida, como São Miguel possui um papel preponderante nessa batalha.

Venha participar conosco desta jornada histórica e teológica! Para receber mais informações a respeito deste conteúdo, inscreva-se em nossa lista exclusiva de e-mails, clicando aqui, e aguarde nossas comunicações!

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A “soberba disfarçada” dos que não têm tempo para Deus
Espiritualidade

A “soberba disfarçada”
dos que não têm tempo para Deus

A “soberba disfarçada” dos que não têm tempo para Deus

Rezamos, então? Ah, sim, rezamos! Mas o fazemos do nosso modo e em nosso tempo. As regras, somos nós que as ditamos; os termos, nós que os estabelecemos. Rezamos, sim, mas os deuses, no fundo, somos nós.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Julho de 2019Tempo de leitura: 6 minutos
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No calendário litúrgico anterior à reforma litúrgica de Paulo VI, o Tempo depois de Pentecostes (correspondente ao “Tempo Comum” de agora) era inaugurado com a parábola do grande banquete (cf. Lc 14, 16-24). O texto, proclamado no domingo seguinte à grande solenidade de Corpus Christi (o 2.º depois de Pentecostes), servia de “complemento” para os ensinamentos desta grande celebração [1], lançando uma luz sobre toda a nossa vida espiritual.

Em primeiro lugar, o banquete a que faz referência Nosso Senhor nesta parábola pode significar várias coisas. Numa outra versão da mesma história, presente no Evangelho de S. Mateus (22, 1-14), Jesus fala mais propriamente de um banquete “nupcial”, ou seja, de um casamento. Com essa analogia, Ele quer fazer referência à união entre Deus e o homem que já aconteceu em Jesus Cristo (e à qual chamamos “união hipostática”), à que está acontecendo hoje em nossa vida de oração e em cada comunhão eucarística (pois incorporamos ao nosso o Corpo de Cristo) e, por fim, à que acontecerá no fim dos tempos, quando nos unirmos a Ele de modo total e definitivo.

Concentremo-nos no segundo sentido da comparação: nossa comunhão com Deus através da vida espiritual. À luz disso, as desculpas que os convidados apresentam ao longo da parábola nada mais são do que as desculpas que nós mesmos apresentamos para não procurarmos a Deus e nos unirmos a Ele através da oração e dos sacramentos. No Evangelho, é um homem que comprou uma fazenda e precisa governá-la; é outro que comprou umas juntas de bois e precisa vê-las; é outro que se casou e precisa cumprir seus deveres conjugais… Ou seja, ninguém desocupado; são justamente os “ocupados demais” que Nosso Senhor procura repreender. 

O problema não está, evidentemente, em ter ocupações, posses ou uma família a cuidar. A grande questão, aqui, é que esses homens não compreendem (ou não querem compreender) que toda a sua vida deveria girar em torno desse banquete que é a oração íntima com Deus. O fato mesmo de eles apresentarem desculpas para não comparecerem ao festim já constitui um absurdo. Seria como alguém dizer que está “ocupado demais” para comer, por exemplo; que tem muito o que fazer e, justamente por isso, deixará de se alimentar… Ora, mas não é justamente o alimento que dará forças a essa pessoa para desempenhar bem suas atividades? 

É com esses olhos que devemos enxergar as desculpas que tantos de nós arrumamos para não rezar: “não tenho tempo”, “estou muito ocupado”, “minha vida é uma correria” são o tipo de frase que só se deve usar para coisas dispensáveis ou insignificantes. Se achamos que a oração seja isso, então a verdade é que nós ainda não entendemos nada de cristianismo. Pior do que isso: não entendemos nada da realidade do nosso ser, que tem uma necessidade profunda de Deus, uma inquietude que não cessará jamais, enquanto não repousarmos nele. Se é essa a nossa postura, somos como o homem orgulhoso descrito pelo livro do Apocalipse: 

Dizes: Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito — e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que compres de mim ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro (3, 17-18). 

O homem que vive sem oração e, além disso, não se dá conta do quanto precisa de Deus, é exatamente isto: um “infeliz, miserável, pobre, cego e nu”, que se acha “rico”, homem de “bons negócios” e “de nada” necessitado. Ou seja, é um soberbo

Mas essa soberba… quantas vezes pode vir disfarçada de humildade! São Gregório Magno, comentando a frase com que os primeiros convidados pretendiam desculpar-se — “Peço-te que me dês por dispensado” (em latim: Rogo te, habe me excusatum) —, ensina que “aquele que se escusa de ir à ceia de quem o convida, seja por causa da fazenda, seja para experimentar as juntas de bois, simula palavras de humildade: com efeito, enquanto diz ‘rogo-te’, mas se recusa a ir, soa-lhe na voz humildade, mas soberba na ação (humilitas sona in voce, superbia in actione)” [2].

O verbo usado pelo autor sagrado é mesmo providencial: Rogo. Ora, rogar é uma espécie de oração. Logo, também os soberbos “rezam”. Não são pagãos os homens da parábola. Não se trata de descrentes, ateus ou incrédulos. Primeiro porque Nosso Senhor contou essa história aos judeus simbolizando nos primeiros convidados justamente o povo eleito que não O quis receber; mas depois, numa interpretação mais ampla, esses convidados “ocupados demais” somos nós mesmos, os religiosos que acreditamos em Deus, mas vivemos como se Ele não existisse.

Rezamos, então? Ah, sim, rezamos! Mas o fazemos do nosso modo, em nosso tempo; as regras, somos nós que as ditamos; os termos, nós que os estabelecemos; a data, nós que a definimos. Rezamos, sim, mas os deuses, no fundo, somos nós.

Mas poderia o verdadeiro Deus se contentar com um culto prestado deste modo, com uma oração assim soberba? Não, não poderia ser. Nosso Senhor diz que os seus O adorariam “em espírito e em verdade” (Jo 4, 23), e não exteriormente, de modo fingido e dissimulado. Por isso, o texto da parábola diz expressamente que o Senhor se irou com esses homens “ocupados demais”, e que não provariam jamais do seu banquete. Seus lugares seriam ocupados por outros: “os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (et pauperes, ac debiles, et caecos, et claudos). 

E por que eles? Porque é essa a disposição interior que Deus espera de nós; Ele quer que nos reconheçamos necessitados dele, que nos demos conta de nossa pobreza, de nossa debilidade, de nossa cegueira e de nossa inconstância; e não que nos consideremos “plenos” e “autossuficientes” a ponto de O abandonarmos e pensarmos que temos tudo aquilo de que precisamos. Porque essa postura, no fim das contas, não passa de uma ilusão. Pauperes, debiles, caeci et claudi somos todos. A diferença é que uns andam na verdade do que são (e, por isso, são humildes), enquanto outros escolheram deliberadamente viver numa mentira: a de que se bastam a si mesmos.

E quem se basta... infelizmente deixa de participar do admirabile commercium que aconteceu no momento da Encarnação: 

Deus veio a esta nossa pobre terra para realizar uma troca; para dizer-nos, como só um bom Deus poderia fazer: “Tu me dás a tua humanidade e eu te darei a minha divindade; tu me dás o teu tempo e eu te darei a minha eternidade; tu me dás o teu corpo frágil e eu te darei a redenção; tu me dás o teu coração partido e eu te darei amor; tu me dás o teu nada e eu te darei o meu Tudo.” [3]

Quem se basta continua “humano demais”; continua aprisionado no tempo tão passageiro desta existência; continua preso às necessidades tão corriqueiras deste corpo mortal; continua vivendo no mundo limitado dos próprios sentimentos; continua fechado em seu “nada” e, no fim, não ganha o Tudo que o Preciosíssimo Sangue de Cristo nos veio comprar.

Não nos esqueçamos, pois, que o Céu é um dom, que a vida sobrenatural é um presente de Deus, e não algo a que possamos ter “direito” com um simples crachá que nos identifique como católicos ou cristãos. Disponhamo-nos às transformações verdadeiras, profundas e radicais que Deus realmente deseja operar em nós. Mas sem desculpas, sem artifícios, sem subterfúgios. Podemos até enganar os outros, ou tentar enganar a nós mesmos; mas Deus non irridetur, “de Deus não se zomba” (Gl 6, 7): Ele conhece o mais íntimo de nosso coração.

Referências

  1. Dom Prósper Guéranger explica que, “quando ainda não se havia estabelecido a festa do Corpus Christi, este evangelho já estava assinalado para este Domingo. O Espírito divino que assiste a Igreja na ordenação de sua liturgia preparava deste modo, antecipadamente, o complemento dos ensinamentos desta grande solenidade.” (El Año Litúrgico, t. IV: El Tiempo despues de Pentecostes (I). Burgos: Editorial Aldecoa, 1955, p. 113)
  2. S. Gregório Magno, apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Lucam, c. XIV, l. 4.
  3. Fulton Sheen, “The Infinity of Littleness” (de 24 dez. 1933), in: The Eternal Galilean, Washington: National Council of Catholic Men, 1934, p. 12.

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Um Papa forte que ainda desafia o mundo moderno
Doutrina

Um Papa forte
que ainda desafia o mundo moderno

Um Papa forte que ainda desafia o mundo moderno

À medida que o mundo ocidental se despojava do jugo suave de seu Redentor para, no lugar, se deixar seduzir por ideologias, erguia-se em Roma a voz do sucessor de São Pedro.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Julho de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Em meu último artigo, repassei algumas das grandes encíclicas sociais de Leão XIII, escritas com o fim de dar à Igreja uma orientação em sua delicada e difícil relação com os Estados modernos e as situações econômicas atuais. Leão XIII estava em luta contra a emergência de um estilo de vida e uma visão de mundo inteiramente secularizados, separados da herança cristã e obcecados com a busca de um progresso estritamente material. Ele foi um dos primeiros a destacar a magnitude das mudanças que estavam acontecendo, à medida que o mundo ocidental se despojava do jugo suave de seu Redentor para, no lugar, se deixar seduzir pelas ideologias da moda como o liberalismo, o materialismo, o consumismo, que prometiam expandir a liberdade, ao mesmo tempo que punham gradualmente abaixo as instituições naturais e sobrenaturais que sustentam e confortam o homem em sua peregrinação pela terra.

Neste artigo, eu gostaria de comentar a grande traços algumas encíclicas fantásticas de Leão XIII que merecem hoje o nosso estudo. Elas bem poderiam formar um excelente “syllabus” para um clube do livro ou para os grupos de leitura de nossas paróquias. A clareza delas, somada à sua força e relativa brevidade, é um dos melhores modelos em que se deviam inspirar os documentos do magistério papal.

Em sua encíclica sobre o matrimônio cristão, Arcanum Divinae (1880), Leão XIII fala do projeto original do Criador para o casamento e a família, e desenvolve uma crítica contundente contra algumas teorias “inovadoras” e a legislação liberal que, à época, estavam apenas começando a comprometer a instituição familiar. Lida agora, com 150 anos de vantagem, esta encíclica nos permite ver a precisão incrível de todas as predições feitas pelo Papa sobre os efeitos deletérios de tais leis e ideias. No entanto, e isto é o mais importante, o Papa também aprofunda o lado positivo da matéria. Esta encíclica, por si só, constitui o marco inaugural do ensinamento católico moderno sobre matrimônio e família.

Um dos primeiros atos do pontificado de Leão XIII foi a promulgação do documento “Sobre a restauração da filosofia cristã”, mais conhecido como Aeterni Patris (1880). O trabalho inacabado do Concílio Vaticano I, suspenso em 1870 por causa da Guerra Franco-Prussiana, incluía uma revisão e reforma completas do plano de estudos católico em filosofia e teologia. Leão XIII tomou para si esta missão, apoiado em sua experiência pessoal do poder sistemático, do gênio sintético e da relevância atemporal de Santo Tomás de Aquino. Aeterni Patris foi e ainda é a Carta Magna do movimento de restauração ou, melhor dizendo, de refortalecimento do tomismo. É notável esta encíclica por sua visão conjunta da história da intelectualidade cristã e por sua ponderada, embora decidida, preferência por Santo Tomás de Aquino.

Uma vez mais, foi para dar continuidade aos esforços do Concílio Vaticano I por articular a harmonia entre fé e razão e responder ao espírito arrogante do reducionismo histórico-crítico que Leão XIII redigiu sua encíclica sobre o estudo da Sagrada Escritura: a Providentissimus Deus (1893). A encíclica proclama com firmeza a inspiração divina, a inerrância e a infalibilidade do Texto Sagrado, além de reafirmar e explicar a doutrina católica tradicional acerca da dupla autoria, divina e humana, dos livros da Escritura; a sua consequente imunidade de todo erro; o vínculo inquebrantável entre Bíblia, Tradição e Magistério; e os vários sentidos da Escritura identificados pelos Padres da Igreja.

Leão XIII retratado por Franz von Lenbach.

Em 1896, Leão XIII trouxe à luz a encíclica Satis Cognitum, sobre a unidade da Igreja, na qual se abordam tão bem os fundamentos da eclesiologia que o Papa Paulo VI, em sua encíclica inaugural Ecclesiam Suam (1964), deu-lhe especial atenção como fonte primária para as futuras discussões no Concílio Vaticano II. Esta encíclica de Leão XIII confronta-se diretamente com a pergunta: teve Jesus real intenção de fundar uma Igreja, visível e hierarquicamente estruturada como um corpo de fiéis na terra, encarregada de pregar o seu Evangelho e estender aos confins do mundo os efeitos de sua Redenção? O Papa ordena de forma sucinta evidências tiradas da Escritura, o testemunho da Tradição e argumentos racionais para chegar à conclusão de que sim, há uma única Igreja de Cristo, com sua estrutura episcopal. Ao longo de todos os meus anos de estudos em eclesiologia e apologética, nunca encontrei nenhuma exposição deste tema que seja tão direta, bem ordenada, elegante e inspiradora como a de Leão XIII. 

Embora cada uma das quase cem encíclicas promulgadas por Leão XIII ofereça uma explicação penetrante da situação moderna, além de bons conselhos para os católicos, há pelo menos três delas, escritas na virada do século XIX para o XX, que me impressionaram durante anos como as mais representativas da profunda visão teológica do Papa, de seu fervor religioso tão animador e de sua ousada crítica cultural: trata-se de Annum Sacrum, sobre a consagração ao S. Coração (1899); Tametsi Futura, sobre Jesus Cristo, Redentor da humanidade (1900); e Mirae Caritatis, sobre a Santa Eucaristia (1902).

Todas elas nos falam do amor imenso que Deus manifestou por nós em Jesus Cristo, da misericórdia que Ele tem mostrado para conosco desde a queda de Adão, e da verdade divina, a única em que nossas inteligências podem encontrar paz em meio às tempestades de filosofias de vida cada vez mais confusas e contraditórias. O Papa não se contenta com afirmar que é esta a nossa terrível condição e qual é a nossa salvação; ele o expõe passo a passo, mostrando aonde nos podem, a nós homens modernos, levar as falsas filosofias de vida e como Deus nos pode resgatar do fosso de destruição que cresce cada vez mais com a nossa rejeição e desprezo de seu Evangelho. Sinto-me obrigado a dizer que teria sido de muito proveito que os Padres conciliares do Vaticano II houvessem estudado primeiro estes documentos antes de chegarem a Roma em 1962. Isto lhes teria dado a dose necessária de realismo, o refortalecimento do seu sensus catholicus, além de um modelo de brevidade e profundidade.

Neste “trio” de encíclicas, Leão XIII fomenta uma luta apaixonada pela conversão, a começar pela própria Igreja, movendo-se a partir daí em círculos concêntricos até abarcar a humanidade inteira. E, como todos os Papas antes e depois dele, Leão XIII nos convida a estar reunidos em torno do mais sublime de todos os sagrados mistérios na terra: a Santíssima Eucaristia, o Corpo e Sangue de nosso Redentor, e a deixá-lo nos unir em uma só Igreja, em um só Corpo, repleto daquela força vital que cura a queda dos filhos de Adão.

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