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Santa Corona, rogai por nós!
Espiritualidade

Santa Corona, rogai por nós!

Santa Corona, rogai por nós!

Santa Corona pode não ter sido a padroeira das epidemias antes, mas agora é. E seu culto tornou-se, infelizmente, uma espécie de novidade na Igreja moderna: uma súplica espontânea dos fiéis por uma ajuda sobrenatural.

Michael Warren DavisTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Abril de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Só dois tipos de pessoa parecem desfrutar de uma emergência nacional: intrometidos e estraga-prazeres. Ambos dedicam suas vidas a provar que sabem mais que o pobre caipira que mora ao lado.

Em meados de março, portais de notícias católicos começaram a relatar uma coincidência extraordinária: não somente existe uma santa chamada Corona como ela é também padroeira das epidemias. De repente, o culto a ela explodiu e a internet foi inundada com novas orações e ladainhas que suplicavam à obscura Santa Corona o fim da pandemia de COVID-19.

Santa Corona, do Mestre do Palácio de Veneza (séc. XIV).

Por volta do fim do mês, no entanto, os checadores de “fatos” do site Snopes (aqueles especialistas no martirológio romano) anunciaram que, na verdade, Santa Corona não era padroeira das epidemias. E, para provar isso, citaram Catherine M. Mooney, professora associada do Boston College — claramente uma pessoa muito mais inteligente do que você —, que afirmou o seguinte: “Junto com aqueles [santos] que realmente existiram, há muitos outros que simplesmente apareceram nas lendas ao longo dos séculos, muitas vezes inventados. Páginas de internet que falam sobre santos são famosas por repetir informações fictícias”.

A afirmação deve se estender à Legenda Áurea (daí o nome), que é nossa principal fonte para as vidas de santos populares como São Cristóvão e São Jorge. Felizmente, muitos departamentos de teologia de escolas dirigidas por jesuítas, como o Boston College, evoluíram e superaram a necessidade da Legenda, da Bíblia e de outros textos de historicidade duvidosa.

A professora Mooney prossegue e explica que “Santa Corona não era conhecida como padroeira das pandemias, pelo menos até alguém (quem?) lhe chamar assim. Ela deve ter recebido essa alcunha porque seu nome ‘Corona’, que significa coroa, poderia conectá-la ao coronavírus”.

A reportagem do portal Snopes desencadeou uma onda de sabichões que desde então têm trabalhado furiosamente para destruir o florescente culto a Santa Corona. 

Em princípio, eles estão certos. Não há realmente nenhum registro histórico de que Santa Corona tenha sido invocada contra pragas e pandemias. Tradicionalmente, ela é considerada a padroeira dos apostadores e dos caçadores de tesouros. E é provável que seu verdadeiro nome tenha sido Stéfane.

Mas, afinal, quem se importa com isso? Esses desmancha-prazeres realmente acham que Corona recusará nossas orações por não ser oficialmente designada como padroeira das epidemias?

O portal Snopes & Co. deve ter uma compreensão estranha sobre o funcionamento das orações por intercessão. Eles parecem imaginar que os santos são como o panteão grego, no qual as divindades têm uma função específica dentro da vasta burocracia celestial, e tomam muito cuidado para “permanecer cada um no seu galho”. Por isso, assim como um ateniense não faria uma prece a Héstia, deusa do lar, para pedir a vitória numa batalha, um americano não recorreria ao departamento de veículos motorizados para receber o seguro-desemprego. Um espartano que sacrificasse a Ares para obter uma colheita abundante seria como aquele que, dois mil anos depois, iria até uma agência de Seguro Social para solicitar a renovação da carteira de motorista.

Imagino o que os detratores de Santa Corona pensam (se é que realmente pensam) que ela faz quando recebe um pedido para acabar com o surto de COVID-19. Devem imaginá-la sentada à mesa no terceiro porão do Paraíso, onde todos os santos secundários possuem cubículos, com sua caixa de correio abarrotada de pedidos para acabar com a peste. Ela se volta para Santo Elígio, padroeiro dos trabalhadores de postos de gasolina, e lamenta: 

Procuraram o departamento errado! Durante a semana passada, encaminhei correios eletrônicos a Sebastião e Roque no Setor de Doenças Infecciosas. Eu disse a eles: ‘Não sou sua secretária!’ O Chefe precisa enviar um memorando ou algo parecido. Não posso simplesmente redirecionar chamadas. A Disney está enfrentando grande dificuldade com o roteiro de A Lenda do Tesouro Perdido 3, e um dos escritores me pediu ajuda. Poderia ser minha grande chance. Não tenho tempo para me preocupar com aquelas pessoas doentes.

Peço a devida licença aos nossos amigos protestantes, mas essa é uma das principais diferenças entre o culto aos santos e os antigos cultos pagãos. O pagão via seus deuses como mafiosos que exigiam subornos sob a forma de holocaustos em troca de “proteção”. Para nós, os santos são simplesmente amigos. Podemos nos dirigir a eles — a qualquer um deles — sempre que quisermos e em qualquer necessidade, e podemos ter a certeza de que tentarão fazer o melhor.

E, é claro, podemos atribuir a eles algumas especialidades. Meu amigo Tom me ajuda com os impostos por ser contador; Roger me dá frutos frescos por ser fazendeiro. Mas se eu tiver de mudar móveis de lugar ou organizar uma festa de aniversário para minha esposa, sei que poderia contar com a ajuda dos dois. Afinal, para que servem os amigos? 

É verdade que muitas vezes os patrocínios dos santos são designados pela Santa Sé. Por exemplo, Santa Clara de Assis é a padroeira celeste da televisão, porque ela teve visões do Santo Sacrifício da Missa quando esteve acamada. Isso é muito útil para aqueles que recentemente se viram obrigados a assistir à Missa dominical pelo YouTube. Podemos pedir que Santa Clara nos ajude a manter a concentração de nossos pensamentos e orações junto com o sacerdote no altar, apesar da distância física. Temos aqui um caso em que Roma (de forma muito útil) recomenda um determinado santo para uma tarefa específica. 

São Thomas More, ou Tomás Moro, mártir inglês do século XVI.

Historicamente, porém, tais especialidades costumavam ser designadas pelos próprios fiéis. Eram os “patrocínios por aclamação”, por assim dizer. Dessa forma, ao longo dos quatrocentos anos entre sua morte e canonização, São Tomás Moro angariou seguidores entre advogados e políticos. Eles não esperaram a permissão do Vaticano para venerar o grande mártir, porque ela não era necessária. Os católicos veem os santos não como burocratas, mas como amigos. Independentemente da situação ou da provação, os santos querem nos ajudar, seja lá como for.

Não há dúvida, portanto, de que a cena no céu se desenvolveu de modo muito distinto.

Podemos imaginar os padroeiros populares correndo de um lado para o outro, atendendo a pedidos de modo frenético. São Cristóvão se apressa entre pais que estão partindo para uma longa viagem de carro; Santo Antônio cuida de mães ocupadas que perderam as chaves do carro. E, em meio a essa “confusão”, a amável Corona está assentada em seu pequeno trono. De vez em quando ela escuta a súplica de uma avó italiana para que ajude seu neto a pagar a dívida da jogatina, mas em geral seus dias são um tanto rotineiros.

Então, de repente escuta-se um estrondoso bramido vindo da terra. Os céus se abalam; o livro de São Pedro quase cai do suporte. Santa Corona quase não presta atenção e espera que São Miguel entre na batalha com sua espada flamejante ou que São Brandão salte no mar com sua bóia salva-vidas. Então, ela percebe que Santo Antônio e São Cristóvão, São Miguel e São Brandão permanecem em suas mesas. Todos se voltam para ela de uma só vez.

Santa Corona pisca para eles. Então, ela finalmente escuta milhares de vozes chamando por seu nome. Desconcertada, ela olha na direção de Nosso Senhor, que sorri. “Estão chamando você, Corona.” Em seguida, ela se levanta, põe sua coroa da glória e começa a trabalhar.

Santa Corona pode não ter sido a padroeira das epidemias antes, mas agora é. E seu culto tornou-se, infelizmente, uma espécie de novidade na Igreja moderna: uma súplica espontânea dos fiéis por uma ajuda sobrenatural. Pedir a São Tomás Moro para fazer de você um advogado melhor ou a Santo Antônio para ajudá-lo a encontrar as chaves do carro são gestos muito bonitos. Mas há algo de deliciosamente medieval quando a Igreja, arrependida, de repente clama ao céu por uma intervenção direta no mundo — não apenas em nossas vidas, mas em todo o curso da história humana.

Muitas vezes só experimentamos esse tipo de fé em casos de extrema necessidade. Somos como os israelitas, que adoravam seus falsos ídolos na paz e na prosperidade, mas voltavam-se para o único Deus verdadeiro na fome e na guerra. E, como sabemos, Ele jamais deixou de atender às suas orações — sabendo perfeitamente bem que lhe dariam as costas novamente, tão logo conseguissem o que queriam.

O mesmo ocorre com Santa Corona. Há uma bela simplicidade da fé em ação nos corações daqueles que se voltam para ela agora em suas necessidades. Eles a honram, e ela atenderá suas orações. (Resta a esperança de que, após o término da pandemia, nós tenhamos um pouco mais de gratidão que os israelitas.)

Enquanto isso, aqueles que negam o poder dos santos de Deus — que fiscalizam as orações dos fiéis num momento de necessidade — deveriam prestar atenção ao alerta do salmista:

Apartai-vos de mim todos os que praticais a iniquidade,
Porque o Senhor ouviu a voz do meu pranto.
O Senhor ouviu a minha súplica,
o Senhor recebeu a minha oração.
Sejam confundidos, e em extremo conturbados todos os meus inimigos;
retirem-se, e sejam num momento cobertos de ignomínia (Sl 6, 9-11).

Santa Corona, rogai por nós!

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O hospital, uma instituição cristã
Sociedade

O hospital, uma instituição cristã

O hospital, uma instituição cristã

Você sabia que o hospital foi inventado exclusivamente pela Igreja Católica? Não que os pagãos não tivessem a medicina... O que eles não tinham é a caridade — ou hospitalidade, virtude que deu nome a essa instituição de saúde.

Mike AquilinaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Abril de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Você sabia que a instituição que conhecemos pelo nome de hospital foi inventada exclusivamente pela Igreja Católica?

Bem, ela foi. O mundo antigo tinha todos os componentes materiais necessários para uma instituição desse tipo. Tinha profissionais da medicina e pessoas doentes. Tinha uma tradição centenária de ciência e tecnologia médicas. Mesmo assim, não conseguiu reunir tudo aquilo para criar um hospital. Não era possível tornar rentável um empreendimento desse tipo; portanto, não havia um motivo convincente para mantê-lo em funcionamento durante uma epidemia.

Em vez do hospital, os antigos tinham médicos independentes, que se deslocavam de um lugar para outro como caixeiros-viajantes — geralmente fugindo de seu fracasso mais recente. Transmitiam seus conhecimentos entre os familiares (como se fossem segredos comerciais) e jamais arriscavam divulgá-los em público.

Os pagãos tinham a medicina; o que não tinham é caridade, como passou a expressar-se em hospital-idade, a virtude que deu nome à instituição de saúde.

Foram os cristãos que inventaram o hospital, e fizeram-no para responder a uma necessidade real e urgente — numa época de pandemia. 

Em meados do século III, o mundo de repente se viu subjugado por uma epidemia. Os estudiosos não sabem ao certo se a doença era varíola ou gripe. Alguns dizem que era ebola. Independentemente de qual tenha sido o vírus, ele rapidamente atingiu o grau de pandemia — e assim permaneceu por treze anos. Naquela época, a população do império diminuiu 30%, e houve um declínio proporcional em todos os setores da economia, sem falar nos militares.

A prática do cristianismo era ilegal. Na verdade, era um crime capital, punido com mais severidade durante a epidemia. Por quê? Porque os romanos tradicionais atribuíam sua má sorte à recusa dos cristãos em sacrificar aos deuses.

Naquela época, um bispo chamado Cipriano governava a igreja na África do Norte. Ele fora um importante procurador na cidade de Cartago, tendo-se tornado célebre por seu trabalho nas cortes. E ele, até que enfim, pôde utilizar toda a sua colossal inteligência para lidar com os problemas da Igreja em sua época.

Cipriano convocou seu rebanho para atuar com caridade heroica durante a epidemia, insistindo em que os médicos cristãos tinham o dever de cuidar não apenas de seus irmãos na fé, mas também de seus semelhantes pagãos — as mesmas pessoas que estavam tentando matá-los.

Cipriano exortou assim seus fiéis: “Não há nada de extraordinário em cuidar apenas do nosso próprio povo. (...) Também deveríamos amar os nossos inimigos. (...) O bem deveria ser feito a todos, não apenas aos irmãos na fé”. 

E dessa exortação de um bispo surgiu a assistência médica tal como a conhecemos. O maior especialista em história dos hospitais, Dr. Gary Ferngren, afirmou esse ponto de modo enfático em sua recente pesquisa pela Universidade Johns Hopkins:

O hospital foi, em sua origem e concepção, uma instituição tipicamente cristã, enraizada nos conceitos cristãos de caridade e filantropia. No mundo antigo, não houve nenhuma instituição pré-cristã que servisse ao propósito para o qual os hospitais cristãos foram criados (...). Nenhum dos serviços de assistência médica no período clássico (...) se pareciam com hospitais.

Esse não foi um fenômeno local. Temos testemunhos semelhantes de Alexandria no Egito e em outros lugares. O grande sociólogo Rodney Stark observou que a Igreja Católica cresceu durante esse período num ritmo constante de 40% a cada década, e acredita que esse crescimento deveu-se, pelo menos em parte, ao seu profundo e inédito testemunho de caridade.

Esse padrão manifestou-se com ainda mais clareza no século seguinte, durante a epidemia de 312. Até aquele momento, havia muitos cristãos em todas as grandes cidades. Portanto, seu empenho era mais eficaz, amplo e visível. Eusébio, que foi testemunha disso, relata que os cristãos “reuniam o grande número de pessoas que haviam sido reduzidas a espantalhos em toda a cidade e distribuíam pães a todas elas”. 

Mais uma vez, Gary Ferngren afirma de modo enfático que “o único cuidado com os doentes e moribundos durante a epidemia de 312-13 foi oferecido pelas igrejas cristãs”. E acrescenta: “Nenhuma assistência caritativa de qualquer tipo, pública ou privada, existia além da cristã, porque não havia bases religiosas, filosóficas ou sociais para isso”.

As epidemias estavam entre os grandes terrores do mundo antigo. Médicos eram capazes de identificar as doenças, mas não sabiam como impedir a disseminação delas. Medicamentos antibióticos e antivirais ainda eram parte de um futuro distante. 

Então, quando uma epidemia atingia uma cidade, os médicos eram os primeiros a abandoná-la. Eles conheciam os sintomas por causa de seus manuais, sabiam o que estava por vir e sabiam que não havia nada que pudessem fazer para deter o horror inevitável.

Os cristãos também não podiam acabar com as epidemias. Mas podiam arriscar suas vidas para servir canja de galinha aos doentes (e de fato o faziam). Podiam criar um lugar limpo e bem iluminado onde os doentes pudessem descansar (e de fato o faziam). E como resultado, alguns daqueles doentes se recuperavam e se tornavam cristãos.

Com o tempo, aquelas instituições cristãs estáveis — aqueles hospitais — tornaram-se verdadeiros locais de pesquisa médica. Somente neles os profissionais da medicina podiam ganhar experiência juntos, comparar anotações abertamente e progredir.

Muitas vezes escutamos as pessoas afirmarem que ao longo da história a Igreja travou uma “guerra contra a ciência” ou “contra as mulheres”. Isso é um erro inequívoco, e a história do hospital explica por quê. Muitos dos pioneiros da área foram mulheres — por exemplo, Fabíola em Roma e Olímpia em Constantinopla. Elas mudaram a sociedade de um modo que as mulheres pagãs não podiam. A Igreja criou possibilidades que eram impossíveis na antiguidade clássica.

Portanto, deveríamos agradecer aos nossos predecessores na fé por podermos combater a pandemia deste ano por meio da medicina. E talvez possamos perguntar que maravilhas Deus realizará por meio das circunstâncias atuais.

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“Memento mori” em tempos de pânico
Espiritualidade

“Memento mori” em tempos de pânico

“Memento mori” em tempos de pânico

O coronavírus alterou a realidade. À medida que se espalha pelo mundo, a morte entra, de certa maneira, na vida de todos ao mesmo tempo. Estamos experimentando um memento mori comunitário, uma lembrança constante e sempre presente da morte.

Irmã Theresa Aletheia NobleTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Abril de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Nossas vidas se paralisam quando a morte ameaça a quem amamos. A dor da tristeza muitas vezes se amplia pelo fato de o mundo seguir seu curso enquanto nós permanecemos imóveis. Quando a morte aparece na vida diária, podemos ir ao banco ou ao mercado e sentir-nos ofendidos por um momento ao ouvir as pessoas rirem alto. Depois, porém, recordamos que a morte não as atingiu. O coronavírus alterou a realidade. À medida que se espalha pelo mundo, a morte entra, de certa maneira, na vida de todos ao mesmo tempo. Estamos experimentando um memento mori comunitário, uma lembrança constante e sempre presente da morte.

Hoje, vejo a providência de Deus no fato de, três anos antes do início dessa crise, ter colocado sobre a minha mesa uma pequena caveira de cerâmica e começado a meditar sobre a minha morte, imitando o fundador da minha ordem religiosa, o Beato Tiago Alberione. Naquela ocasião, depois de sete anos no convento, o mal-estar da mediocridade e da falta de fervor medrava em minha vida espiritual. Eu protestava a Jesus na oração, dizendo-lhe: “Ajuda-me! Enche-me novamente com teu fogo e teu fervor”. Ele respondeu a minhas orações com a graça da meditação sobre a morte. De uma hora para a outra, tudo ficou claro; senti como se tivesse ido ao oftalmologista e saído de lá com a prescrição certa. Meditar sobre a morte mudou minha vida.

Um dos benefícios do memento mori, a prática da meditação sobre a morte, é ser uma oportunidade para a graça divina trazer à tona e à nossa atenção o fato de agirmos e pensarmos muitas vezes como gente sem fé. Ex-ateia que sou, Deus me ajuda constantemente a ver quando ainda me comporto como se Ele não existisse e Jesus não tivesse me salvado. Católicos de berço e convertidos de outros credos e religiões também não estão imunes a esse tipo de comportamento. Muitos de nós vivemos o dia-a-dia de modos que revelam uma incompreensão básica da vida e da morte sob a perspectiva cristã. Podemos recorrer aos ensinamentos da Igreja nessas matérias para, em alguma medida, remediar o problema, mas a prática da meditação sobre a morte ajuda-nos a ver de verdade como nossas vidas ainda estão muito enredadas nos fios dessa mentalidade venenosa.

Enquanto os católicos respondem à crise da COVID-19 na internet, vêm à tona algumas manifestações de incredulidade na atitude de alguns perante a vida e a morte. Num dos extremos estão os que se esconderam em casa e só pensam em si. Finalmente forçados a encarar a morte, ficam dominados pelo terror e o medo que prevalecem. É claro que todos o estamos sentindo em certa medida, mas para a maioria de nós é fácil reconhecer que o medo exagerado e egoísta não é a resposta cristã ideal a esta situação. O outro extremo é um pouco mais complicado. Algumas pessoas estão declarando de forma descarada que não têm medo da morte nem estão tomando os cuidados rigorosos exigidos pelas circunstâncias. À primeira vista, uma tal atitude pode até parecer santidade. Afinal, os mártires demonstraram coragem diante da morte. Esquecemo-nos, porém, que eles tampouco encaravam a vida e a morte com leviandade.

Embora nossa fé exija que aceitemos a morte, ela também nos chama a compreender o valor e a fragilidade surpreendentes de nossa vida e da vida do próximo. A vida humana é valiosa em qualquer circunstância, em qualquer estágio de desenvolvimento e em qualquer idade. Como disse o Papa São João Paulo II na Evangelium Vitae: “O sangue de Cristo, ao mesmo tempo que revela a grandeza do amor do Pai, manifesta também como o homem é precioso aos olhos de Deus e quão inestimável é o valor de sua vida” (n. 25). Muitos de nós professamos crer nisso, mas outra coisa que essa pandemia trouxe à tona foi o desprezo pela vida dos idosos

Infelizmente, algumas pessoas têm afirmado que, como os idosos morrerão em breve de qualquer jeito, não há motivo para maiores preocupações. No entanto, não há nada em nossa fé que diga que a vida perde valor com o tempo. Toda vida merece ser preservada como um tesouro precioso até sermos chamados por Deus para abrir mão dela. A meditação sobre a morte pode nos ajudar a confrontar alguns aspectos da vida que, por medo da morte, não valorizamos. Memento mori nos auxilia a ter a coragem necessária diante da morte, mas também nos leva a cuidar de nossa própria vida e da vida dos outros. Quando pensamos em nossa morte com frequência durante a oração, aprendemos que nossa vida são preciosas e que podemos confiá-las a Deus. 

Geralmente, os católicos têm liberdade para meditar sobre a morte quando se sentem preparados para fazê-lo. Hoje, no entanto, cada dia nos apresenta um convite doloroso e manifesto para meditarmos sobre a morte. Se não o aceitarmos agora, daremos uma brecha para que esse estado constante de memento mori nos leve à tentação e ao desespero. Deus sempre tira o bem do mal, e Ele pode usar essa pandemia para nossa santidade, ainda que isso nos leve à morte. Mas devemos também convidá-lo a entrar em nossas vidas, a fim de que possamos nos preparar. Podemos fazer isso começando a meditar sobre a morte com regularidade ou dedicando-nos com maior intensidade a essa prática. Só precisamos abrir nosso coração para Deus a fim apresentar a Ele o medo que sentimos da morte. Ele pode, com certeza, iluminar a escuridão em nosso coração e em nosso mundo.

Algumas destas perguntas podem servir de estímulo para os católicos que nunca meditaram sobre a morte no contexto da oração:

  • Como Deus está me chamando a contactar a comunidade mais ampla nesta época de medo, doença e instabilidade financeira? Que riscos Deus quer que eu corra para servir o seu povo?
  • Como Deus me chama a ter um cuidado rigoroso a fim de evitar a disseminação do vírus entre os vulneráveis e os fracos? Como posso valorizar a vida e me preparar para a morte?
  • Como Deus está me pedindo que escute as ansiedades e medos dos que estão ao meu redor e como pede que eu expresse os meus?
  • Dedique um momento da oração para refletir sobre a fragilidade e a beleza da vida humana em geral e de sua vida em particular. Em seguida, dedique um tempo para refletir sobre a inevitabilidade de sua morte. Imagine-se aos pés da cruz e converse com Jesus sobre tudo o que está acontecendo.
  • Reflita sobre a pergunta: “Estou preparado(a) para morrer?” Faça um exame de consciência e procure a confissão, se possível; se não puder ir, faça um propósito de ir tão logo seja possível e manifeste a Deus seu arrependimento e contrição. 

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O choro da salmista e a beleza da liturgia
Liturgia

O choro da salmista e a beleza da liturgia

O choro da salmista e a beleza da liturgia

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”, cantou entre lágrimas a salmista Carolina Andrade, que emocionou os católicos neste Domingo de Ramos. O ocorrido nos ajuda a redescobrir a beleza da liturgia e sua importância para nossas vidas.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Abril de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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O cenário era desolador e, ao mesmo tempo, belo. Uma igreja praticamente vazia — o Santuário do Pai das Misericórdias, na Canção Nova —, em pleno Domingo de Ramos, dava o tom para que a salmista, Carolina Andrade, ecoasse o refrão do Salmo 21, com uma emoção cortante: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” As imagens logo foram espalhadas pelas redes sociais, ganhando o coração dos fiéis que, nestes dias de isolamento, se sentiram unidos àquela prece de dor e clemência.

As circunstâncias impostas pela pandemia da Covid-19 criaram a ocasião perfeita para refletirmos sobre o significado da liturgia católica e a sua influência em nossas vidas, especialmente no que se refere à Santa Missa. Apesar da dimensão fundamentalmente espiritual do culto cristão, há quem não admita a celebração privada da Eucaristia, como se o sacrifício só tivesse valor se celebrado em público. Para o teólogo liberal Massimo Faggioli, por exemplo, as Missas ditas privadamente seriam uma espécie de “onanismo litúrgico”. (Dada a natureza vulgar e, sobretudo, blasfema da comparação, nem nos atrevemos a pensar qual seria a concepção dele para a liturgia com o povo.)

É fato que, após o Concílio Vaticano II, por uma compreensão equivocada da liturgia, a Santa Missa foi reduzida à “celebração de um sinal que correspondesse a um vago sentimento de comunidade” [1]. Com isso se deu permissão a todo tipo de experiências que, no mais das vezes, só serviram para desfigurar a genuína beleza dos ritos e autorizar a arbitrariedade dos liturgistas, quando o próprio Concílio enfatizou que a liturgia deveria contribuir “em sumo grau” para os fiéis exprimirem na vida e manifestarem aos outros “o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja” [2].

A beleza e a eficácia da liturgia têm sua origem justamente no fato de que ela não é uma invenção humana, mas já “existia antes de que nós tivéssemos participado dela, porque foi iniciada na Santíssima Trindade” [3]. Por isso, adverte o Catecismo, “nem mesmo a autoridade suprema da Igreja pode mudar a liturgia a seu bel-prazer, mas somente na obediência da fé e no respeito religioso do mistério da liturgia” (n. 1125). É apenas porque participamos da vida divina de Cristo que podemos interagir com o sacrifício de adoração, ação de graças, contrição e intercessão da Santa Missa. Ao longo dos séculos, a Igreja cuidou para que a essência desse culto fosse bem vivida através dos ritos de cada tradição litúrgica válida, num desenvolvimento orgânico e espiritual.

A participação na Missa é, por isso mesmo, uma ação pela qual o homem deve empenhar todo o seu ser, corpo e alma, na devoção ao Senhor. Esse empenho diz respeito não tanto à execução de gestos e tarefas aleatórias, mas à participação espiritual e afetiva no mistério celebrado. Afinal, “quem não sabe apreciar o valor gratuito (ou seja, da graça) da beleza, em especial da beleza litúrgica, dificilmente conseguirá realizar um ato adequado de culto divino” [4]. Portanto, o homem não precisa inventar nada de novo; ele só precisa abrir-se ao mistério, acolher amorosamente a Palavra de Deus, que, na liturgia santa, se traduz por meio de cada rito, símbolo, gesto ou palavra.

Entrementes, o que deixou o canto da salmista Carolina Andrade particularmente belo foi o fato de ela não ter usado nenhum recurso vocal ou gestual extravagante, típico de certa música gospel, para prender a atenção dos demais (também porque não havia gente para isso); o que ela fez foi simplesmente transmitir aquilo que ela recebeu da liturgia: a Palavra viva da Sagrada Escritura, que é palavra de vida eterna. Os câmeras da TV Canção Nova ainda tiveram a sensibilidade de não explorar a emoção da jovem, cortando a transmissão para o crucifixo no centro do altar. Porque a razão de ser da liturgia é Jesus; Ele é o protagonista; Ele, e somente Ele, portanto, deve ser o centro da nossa atenção.

Essa verdade precisa ser particularmente lembrada agora, que nos encontramos privados do Santíssimo Sacramento. A celebração litúrgica não é um ato isolado, de uma comunidade local que se reúne narcisisticamente, mas uma realidade transcendente, mística, espiritual, que une o Céu e a terra, o visível e o invisível, e é capaz de alimentar mesmo os que estão lá fora. Quem se emocionou com o que viu na TV, por exemplo, pôde tomar parte no ato de fé da salmista, entrando em comunhão com a pessoa de Jesus, para além da recepção da Eucaristia. Pois quando rezamos liturgicamente, com o empenho do nosso coração, somos capazes de adentrar no mistério de Nosso Senhor e realizar uma verdadeira refeição espiritual — que às vezes, não sempre, pode reverberar em nossas emoções.

Note-se que de modo algum estamos negando a importância do culto público a Deus ou da Comunhão sacramental pelos fiéis. As Missas televisionadas mesmo não servem para os fiéis cumprirem o preceito dominical. O que queremos mostrar é que a Missa, antes de ser um encontro social, é um sacrifício místico, oferecido pelos sacerdotes em favor de seu povo, ainda que ele não esteja fisicamente presente. E esse mesmo povo pode unir-se “em espírito e em verdade” (Jo 4, 23) aos seus sacerdotes, sobretudo nesta ocasião particular de pandemia, oferecendo o sofrimento de não poderem estar na igreja. Uma comunhão espiritual vivida com tal intensidade tem um poder santificador que não podemos menosprezar; sem dúvida, nem se compara ao que significa receber sacramentalmente o Corpo e o Sangue do Senhor, mas deve servir para repararmos as inúmeras comunhões distraídas que já fizemos, bem como as incontáveis irreverências e abusos litúrgicos com que tantas vezes colaboramos em nossa ânsia por “inculturar” o santo sacrifício do Calvário. 

As últimas Semanas Santas, no Brasil, foram marcadas por abusos litúrgicos tão escandalosos que chocariam até o mais liberal dos liturgistas. Neste ano, porém, a maioria dos sacerdotes não terá à sua frente uma plateia a entreter, mas terá de se voltar sozinha ao crucifixo, a fim de oferecer o sacrifício propter nos, homines. Num desafio de fé à teologia mambembe que lhes ensinou a celebrar a Missa como se fosse um concerto, muitos finalmente terão a oportunidade de descobrir a beleza de uma importante verdade da liturgia católica: por mais que se voltem ao povo, é a Deus que eles sempre oferecem o sacrifício do altar (versus Deum, isto é, voltados para Deus). Eis a ocasião oportuna, um verdadeiro kairós, para “redescobrir e valorizar a obediência às normas litúrgicas”, como expressão da beleza da “Igreja, una e universal que preside na caridade” [5].

Sem as desculpas comuns, eles terão tempo suficiente para se paramentar com as devidas vestes litúrgicas (alva, cíngulo, estola e casula), observando as piedosas orações. Nem precisarão recorrer à Oração Eucarística II para terminar mais rápido a celebração. E que bela oportunidade será para purificar devidamente os vasos sagrados, sem a pressa habitual que faz com que tantas partículas sagradas se percam. A Comunhão eucarística, enfim, poderá ser feita com grande generosidade, num verdadeiro ato de ação de graças. Os sacerdotes que souberem aproveitar espiritualmente tudo isso certamente colherão graças abundantes.

Mas também os fiéis somos desafiados a redescobrir a verdadeira natureza da Missa, agora precisamente que sentimos como se Deus nos houvesse abandonado. Temos diante de nós a situação dos israelitas no deserto: podemos manter a fé piedosamente, enquanto Moisés (ou seja, o sacerdote) sobe sozinho o monte para interceder por nós, ou podemos construir um bezerro de ouro, esquecendo-nos de todas as graças com as quais Ele nos cumulou por tanto tempo, apesar de nosso desprezo. No entanto, para que essa última opção não seja realidade, temos de viver a Missa em nossos corações, como povo sacerdotal, fazendo repetidos atos de fé no culto que nossos sacerdotes estão oferecendo a Deus pela Igreja.

No fim das contas, é a fé católica que está em jogo. A Semana Santa nos convida a viver a Paixão de Cristo não apenas como recordação de algo passado, mas como atualização da doação gratuita de Jesus pela nossa salvação. E isso exige de nós um empenho do coração, pelo qual nossos afetos estejam todos voltados para o Senhor. Do contrário, Ele olhará para nossas lágrimas externas e dirá: “Chorai por vós mesmos e por vossos filhos… Se, de fato, fazem isto ao lenho verde, que não acontecerá ao seco?” (Lc 23, 29-30).

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