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Católicos, sem essa de adivinhação!
Doutrina

Católicos, sem essa de adivinhação!

Católicos, sem essa de adivinhação!

As revelações de Deus não são para nos meter medo e encher a cabeça de preocupações e previsões de um futuro terreno. São, antes, para nos convidar ao amor e à meditação do único futuro que não passará jamais.

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Abril de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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A presente pandemia do novo coronavírus desenterrou os temores de muitas pessoas de fé com relação ao fim dos tempos. As igrejas católicas fechadas no mundo inteiro e o culto público a Deus suspenso por tempo indeterminado remetem-nos quase de imediato à supressão do holocausto perpétuo, tal como profetizada no livro do profeta Daniel (cf. 9, 27). Some-se a  este cenário praticamente inaudito na história da Igreja a apostasia geral que há da verdade, e é como se todas as peças do quebra-cabeça se encaixassem… 

A bem da verdade, embora não haja Missas públicas, nem por isso o santo sacrifício deixou de ser rezado pelos sacerdotes, com o que não seria exato falar de “cessação” ou até “abolição” do sacrifício em nossos tempos. Além disso, por mais terrível que esteja a situação da estrutura humana da Igreja, nossos templos continuam a guardar o Corpo e o Sangue do único e verdadeiro Deus. Por isso, a “abominação desoladora” de que fala o mesmo profeta Daniel (cf. 11, 31; 12, 11) — e que tantos já evocaram recentemente — tem suas aplicações à nossa época, sim, mas cum grano salis. Certamente há coisas muito piores por vir.

Comecemos lembrando que os sinais que precedem o fim do mundo foram dados pelo próprio Senhor. Ainda que Ele tenha alertado: ninguém sabe o dia nem a hora (cf. Mc 13, 32), mas nem por isso seus discípulos ficaram completamente “no escuro”. Precederiam a segunda vinda de Cristo a pregação do Evangelho por todo o mundo, a conversão dos judeus, a apostasia da fé, a aparição do Anticristo e, além disso, grandes calamidades (cf. Ott, T. Dogm., pp. 712-714) — de cuja lista não estão excluídas as pestes (cf. Mt 24, 7). 

Tudo isso está no Evangelho, para quem quiser ler, e em fidelidade às palavras de Jesus, também o atual Catecismo fala amplamente sobre o tema (cf. nn. 668-682). Tocar nesse assunto, portanto, não é alimentar “teorias da conspiração”, mas simplesmente falar de nossa fé católica. No Credo, todos os fiéis são chamados a confessar que Cristo, do Céu, “há de vir a julgar os vivos e os mortos” — e não de qualquer modo, sed cum gloria, como diz o Símbolo niceno. 

Mas uma coisa é crer nisso, outra bem diferente é transformar essas verdades em objeto de uma curiosidade malsã.

Pois é sentença certa em teologia que “os homens desconhecem o momento em que Jesus virá de novo” (Ott, T. Dogm., p. 714), e ponto final. A nós não cabe conhecer os tempos e momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade (cf. At 1, 7). A curiosidade humana pode tornar-se pecaminosa por várias razões, e uma delas, segundo Santo Tomás de Aquino, é

quando alguém ambiciona conhecer uma verdade superior às suas possibilidades, pois assim cai, facilmente, em erros. Por isso, diz o livro do Eclesiástico (3, 22): “O que é muito difícil para ti, não o procures; o que está acima de tuas forças, não o investigues nem sejas curioso a respeito das muitas obras dele”. E depois acrescenta (v. 26): “Muitos se transviaram por suas especulações; sua imaginação perversa falseou seus pensamentos” (STh II-II 167 1 c.). 

Acontece muitas vezes, é verdade, de o Céu adiantar-se, por assim dizer, revelando de maneira privada os desígnios divinos para determinadas épocas. Foi o que aconteceu em La Salette, em Lourdes e em Fátima, e pode acontecer também agora, porque Deus é livre para comunicar-nos a sua vontade da forma que achar mais conveniente. O que não podemos é perder de vista a intenção e a essência do que Ele nos quer transmitir. Não é correto, diante dos apelos e mensagens autênticas do além, comportar-nos como “adivinhos católicos”, usando-os simplesmente para fazer conjecturas e roteiros apocalípticos, como se fosse menos verdade, agora, que o futuro de fato a Deus pertence, e que, “quanto àquele dia e àquela hora, ninguém o sabe, nem mesmo os anjos do céu, mas somente o Pai” (Mt 24, 36). 

Quando nos envia seus mensageiros (e Deus realmente no-los envia); quando Ele manda, por exemplo, que sua Mãe santíssima apareça (como em tantos lugares apareceu), predizendo castigos e anunciando desgraças, os avisos celestes vêm sempre acompanhados de condições: se não se fizer isto, dar-se-á aquilo. Os alertas das revelações privadas são sempre um eco da Palavra eterna que diz: “Se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo” (Lc 13, 3). Porque, no fundo, o que importa é isto: a nossa conversão, o arrependimento dos nossos pecados, a reforma da nossa vida.

Assim como não interessava, naquela ocasião, se os galileus mortos por Pilatos e os homens sobre os quais caiu a torre de Siloé eram mais pecadores que o resto, também hoje tampouco nos interessam as minúcias dos próximos capítulos do presente flagelo ou os eventos finais de nossa salvação. O fato é que, se não nos convertermos; se não aproveitarmos o que Deus bondosamente tem permitido em nossas vidas para fazer penitência por nossas faltas, lembrar-nos que temos uma alma, meditar em que, com ou sem coronavírus, todos um dia morreremos e seremos julgados... nós pereceremos. E não de uma morte física, mas da morte eterna.

Concentremo-nos nesta verdade, meditemos sobre isto em oração: a vida eterna é o que ficará; por isso, é com ela que devemos nos preocupar, acima de tudo. Nesses dias em que só se tem notícia de infectados e mortos, complôs e desinformações, crises e colapsos, somos constantemente tentados à curiosidade e à angústia, à ansiedade e até ao desespero. Mas eis com que palavras Nosso Senhor quer consolar-nos nestes dias: 

Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas essas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado (Mt 6, 31-34).

Isso é muito difícil, porque somos assaltados de todos os lados pelo mundo, e as vozes parecem gritar-nos na cabeça: “Preocupe-se! Preocupe-se! Preocupe-se!” Mas o que Jesus nos manda é possível, sim, se pedirmos cada vez mais no Deus providente, que cuida com muito mais desvelo de nós que dos pássaros do céu e das ervas do campo; se meditarmos em que o amanhã desta vida não nos está garantido (ou seja, eu posso morrer hoje), mas o amanhã da vida eterna virá e, se eu estiver na graça de Deus, viverei com Ele e serei feliz para sempre ao seu lado.

Quando o Céu nos visita, é para recordar-nos isso (e quando nos castiga, é para evitar que nos condenemos ao inferno). Não se trata de pôr-nos um medo mundano e encher-nos a cabeça de preocupações e previsões de um futuro terreno, mas de convidar-nos ao amor, e à meditação do único futuro que não passará jamais. Se entendermos isso, olharemos de outro modo tanto para as notícias de todos os dias, quanto para as profecias dos últimos dias (sejam elas ou não dignas de crédito).

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A Encarnação e a Ressurreição
Doutrina

A Encarnação e a Ressurreição

A Encarnação e a Ressurreição

Chesterton chama à ressurreição da carne “o mais surpreendente dos dogmas”. Mas sejamos francos: o mundo moderno rejeita completamente esse dogma. E a maioria dos católicos provavelmente nunca paramos para refletir sobre o seu significado.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Abril de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Em seu incomparável livro sobre Santo Tomás de Aquino, G. K. Chesterton mostra que o Doutor Angélico não apenas defendeu a realidade da Encarnação como mostrou suas implicações. A Encarnação uniu o Céu e a terra, mas também uniu o corpo e a alma de uma nova maneira. A presença divina preencheu algo criado, tornando-o sagrado não por um momento, mas para todo o sempre. Mesmo sem a Encarnação podemos compreender que um homem não é um homem sem corpo, assim como tampouco o é sem alma. “Um cadáver não é um homem, mas um fantasma tampouco.” Tendemos a pensar na alma como algo eterno e no corpo como algo temporal. Afinal, corpos sem vida se decompõem. Mas um determinado corpo não se decompôs. Quando o próprio Deus assumiu a carne humana algo novo aconteceu, algo a que Chesterton chama “o mais surpreendente dos dogmas: a ressurreição do corpo”.

Jesus Cristo ressuscitou fisicamente dos mortos. Seu corpo reuniu-se à sua alma. Depois, ascendeu em corpo ao Céu. Cristo é o “primogênito dentre os mortos”, de acordo com São Paulo. Isso quer dizer que devemos segui-lo na ressurreição. Significa que nossos corpos também são sagrados e também ressuscitarão dos mortos para se reunir com nossas almas. Esse é o dogma da Igreja Católica desde sua fundação.

Sejamos francos: o mundo moderno rejeita completamente esse dogma. Sejamos ainda mais francos: a maioria dos católicos provavelmente não reflete sobre o sentido desse dogma. Sejamos francos uma última vez: nós também não. Como diz Chesterton: é um dogma demasiado surpreendente.

A rejeição da tradição, seja pelo mundo ou pelos membros da Igreja, pode ser completa e deliberada ou passiva e irrefletida. Geralmente, ocorre o segundo caso, já que somos levados a desenvolver uma letargia intelectual por influência da tonalidade monótona que dá a falsa noção de progresso. O velho é ruim, o novo é bom. Rejeitemos o que é velho, acolhamos o que é novo. As coisas vão sempre melhorar; então, sigamos o fluxo. Esse senso de “progresso” é uma combinação de otimismo negligente com um determinismo ainda mais negligente. Porém, se pusermos nosso cérebro para funcionar e realmente refletirmos sobre o que estamos rejeitando, compreenderemos as implicações da filosofia que aceitamos inconscientemente. A filosofia do progresso não é apenas um ódio à tradição; é também a ideia de que, inevitavelmente, tudo está melhorando por si só. Ela é usada como justificativa para a má conduta, para considerá-la inevitável e também como um sinal de progresso.

Mas a história não é um relato de progresso. É o relato da Queda e da Salvação, da tentativa de recuperar algo que perdemos. É por isso que Chesterton diz que todos os poemas já escritos poderiam ser compilados num único volume com o título de Paraíso Perdido.

Nós perdemos algo e temos de recuperá-lo. A filosofia da Salvação é completamente diferente da filosofia do Progresso. Queremos restaurar algo que foi perdido? Queremos preservar algo que é bom? Ou queremos persistir num estado de amnésia, vandalismo e cremação (isto é, esquecendo, destruindo e queimando o passado, em vez de enterrá-lo)?

É neste ponto que temos de encarar o surpreendente dogma da ressurreição do corpo. Chesterton previu que a insistência moderna na ideia de higiene (uma ideia “progressista”) traria de volta o hábito pagão da cremação. A cremação realmente está de volta [1]. É um ataque à tradição cristã. Significa queimar as coisas e assim esquecê-las. Não deixa de ser irônico o fato de uma geração que parece idolatrar a saúde e o físico não ter, em última análise, respeito algum pelo corpo. Queimamos o corpo porque não cremos na ressurreição dos mortos. Chesterton diz: “Nós traímos os mortos”.

A cremação moderna é pior que a pagã porque é clínica e fria, caso prefiram usar esses termos. É completamente utilitária e desprovida de cerimônia. Chesterton a sintetiza em seu poema The Song of the Strange Ascetic, “A Canção do Estranho Asceta”:

Se eu fosse um pagão,
minha pira no alto poria
e, em um vermelho turbilhão,
rugindo ao céu iria;
mas é Higgins o pagão
e homem mais rico que eu:
a ele meteram no fogão
como a torta que não comeu [2].

A Igreja Católica desestimula (mas não proíbe) a cremação, porque cremos não apenas no respeito pelo corpo, mas em sua ressurreição. Se a cremação for necessária (como exceção, não como regra), a Igreja ensina que os restos mortais não devem ser espalhados, mas enterrados juntos. Obviamente, um Deus todo-poderoso pode ressuscitar o corpo independentemente de seu estado; mas destruir de forma deliberada os restos mortais é tentar o Senhor, é insistir na ideia de que nossos caminhos são melhores que os dEle.

A moda atual de espalhar as cinzas é também uma tentativa de esquecer a morte. Um túmulo nos faz lembrar dela. Faz com que nos preparemos para nossa própria morte, o que nos ajuda a viver uma vida melhor. Mas nos faz pensar principalmente na ressurreição. O mais glorioso túmulo na terra é o que está vazio em Jerusalém.

Notas

  1. Original em inglês: “If I had been a Heathen/I’d have piled my pyre on high/And in a great red whirlwind/Gone roaring to the sky/But Higgins is a Heathen/And a richer man than I/And they put him in an oven/Just as if he were a pie”.
  2. Essa reflexão pascal foi escrita em 2016, muito antes da recente pandemia do novo coronavírus (2019-2020). As críticas aqui feitas à prática da cremação não pretendem abarcar, portanto, as circunstâncias específicas em que nos encontramos. Para um estudo mais profundo do que ensina a Igreja a esse respeito (e uma possível discussão sobre a oportunidade da cremação agora), v. Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução Ad resurgendum cum Christo, 15 de agosto de 2016, n. 4: “Onde por razões de tipo higiênico, econômico ou social se escolhe a cremação [...], a Igreja não vê razões doutrinais para impedir tal práxis [...]. A Igreja continua a preferir a sepultura dos corpos uma vez que assim se evidencia uma estima maior pelos defuntos; todavia, a cremação não é proibida, ‘a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã’” (Nota da Equipe CNP).

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Santa Corona, rogai por nós!
Espiritualidade

Santa Corona, rogai por nós!

Santa Corona, rogai por nós!

Santa Corona pode não ter sido a padroeira das epidemias antes, mas agora é. E seu culto tornou-se, infelizmente, uma espécie de novidade na Igreja moderna: uma súplica espontânea dos fiéis por uma ajuda sobrenatural.

Michael Warren DavisTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Abril de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Só dois tipos de pessoa parecem desfrutar de uma emergência nacional: intrometidos e estraga-prazeres. Ambos dedicam suas vidas a provar que sabem mais que o pobre caipira que mora ao lado.

Em meados de março, portais de notícias católicos começaram a relatar uma coincidência extraordinária: não somente existe uma santa chamada Corona como ela é também padroeira das epidemias. De repente, o culto a ela explodiu e a internet foi inundada com novas orações e ladainhas que suplicavam à obscura Santa Corona o fim da pandemia de COVID-19.

Santa Corona, do Mestre do Palácio de Veneza (séc. XIV).

Por volta do fim do mês, no entanto, os checadores de “fatos” do site Snopes (aqueles especialistas no martirológio romano) anunciaram que, na verdade, Santa Corona não era padroeira das epidemias. E, para provar isso, citaram Catherine M. Mooney, professora associada do Boston College — claramente uma pessoa muito mais inteligente do que você —, que afirmou o seguinte: “Junto com aqueles [santos] que realmente existiram, há muitos outros que simplesmente apareceram nas lendas ao longo dos séculos, muitas vezes inventados. Páginas de internet que falam sobre santos são famosas por repetir informações fictícias”.

A afirmação deve se estender à Legenda Áurea (daí o nome), que é nossa principal fonte para as vidas de santos populares como São Cristóvão e São Jorge. Felizmente, muitos departamentos de teologia de escolas dirigidas por jesuítas, como o Boston College, evoluíram e superaram a necessidade da Legenda, da Bíblia e de outros textos de historicidade duvidosa.

A professora Mooney prossegue e explica que “Santa Corona não era conhecida como padroeira das pandemias, pelo menos até alguém (quem?) lhe chamar assim. Ela deve ter recebido essa alcunha porque seu nome ‘Corona’, que significa coroa, poderia conectá-la ao coronavírus”.

A reportagem do portal Snopes desencadeou uma onda de sabichões que desde então têm trabalhado furiosamente para destruir o florescente culto a Santa Corona. 

Em princípio, eles estão certos. Não há realmente nenhum registro histórico de que Santa Corona tenha sido invocada contra pragas e pandemias. Tradicionalmente, ela é considerada a padroeira dos apostadores e dos caçadores de tesouros. E é provável que seu verdadeiro nome tenha sido Stéfane.

Mas, afinal, quem se importa com isso? Esses desmancha-prazeres realmente acham que Corona recusará nossas orações por não ser oficialmente designada como padroeira das epidemias?

O portal Snopes & Co. deve ter uma compreensão estranha sobre o funcionamento das orações por intercessão. Eles parecem imaginar que os santos são como o panteão grego, no qual as divindades têm uma função específica dentro da vasta burocracia celestial, e tomam muito cuidado para “permanecer cada um no seu galho”. Por isso, assim como um ateniense não faria uma prece a Héstia, deusa do lar, para pedir a vitória numa batalha, um americano não recorreria ao departamento de veículos motorizados para receber o seguro-desemprego. Um espartano que sacrificasse a Ares para obter uma colheita abundante seria como aquele que, dois mil anos depois, iria até uma agência de Seguro Social para solicitar a renovação da carteira de motorista.

Imagino o que os detratores de Santa Corona pensam (se é que realmente pensam) que ela faz quando recebe um pedido para acabar com o surto de COVID-19. Devem imaginá-la sentada à mesa no terceiro porão do Paraíso, onde todos os santos secundários possuem cubículos, com sua caixa de correio abarrotada de pedidos para acabar com a peste. Ela se volta para Santo Elígio, padroeiro dos trabalhadores de postos de gasolina, e lamenta: 

Procuraram o departamento errado! Durante a semana passada, encaminhei correios eletrônicos a Sebastião e Roque no Setor de Doenças Infecciosas. Eu disse a eles: ‘Não sou sua secretária!’ O Chefe precisa enviar um memorando ou algo parecido. Não posso simplesmente redirecionar chamadas. A Disney está enfrentando grande dificuldade com o roteiro de A Lenda do Tesouro Perdido 3, e um dos escritores me pediu ajuda. Poderia ser minha grande chance. Não tenho tempo para me preocupar com aquelas pessoas doentes.

Peço a devida licença aos nossos amigos protestantes, mas essa é uma das principais diferenças entre o culto aos santos e os antigos cultos pagãos. O pagão via seus deuses como mafiosos que exigiam subornos sob a forma de holocaustos em troca de “proteção”. Para nós, os santos são simplesmente amigos. Podemos nos dirigir a eles — a qualquer um deles — sempre que quisermos e em qualquer necessidade, e podemos ter a certeza de que tentarão fazer o melhor.

E, é claro, podemos atribuir a eles algumas especialidades. Meu amigo Tom me ajuda com os impostos por ser contador; Roger me dá frutos frescos por ser fazendeiro. Mas se eu tiver de mudar móveis de lugar ou organizar uma festa de aniversário para minha esposa, sei que poderia contar com a ajuda dos dois. Afinal, para que servem os amigos? 

É verdade que muitas vezes os patrocínios dos santos são designados pela Santa Sé. Por exemplo, Santa Clara de Assis é a padroeira celeste da televisão, porque ela teve visões do Santo Sacrifício da Missa quando esteve acamada. Isso é muito útil para aqueles que recentemente se viram obrigados a assistir à Missa dominical pelo YouTube. Podemos pedir que Santa Clara nos ajude a manter a concentração de nossos pensamentos e orações junto com o sacerdote no altar, apesar da distância física. Temos aqui um caso em que Roma (de forma muito útil) recomenda um determinado santo para uma tarefa específica. 

São Thomas More, ou Tomás Moro, mártir inglês do século XVI.

Historicamente, porém, tais especialidades costumavam ser designadas pelos próprios fiéis. Eram os “patrocínios por aclamação”, por assim dizer. Dessa forma, ao longo dos quatrocentos anos entre sua morte e canonização, São Tomás Moro angariou seguidores entre advogados e políticos. Eles não esperaram a permissão do Vaticano para venerar o grande mártir, porque ela não era necessária. Os católicos veem os santos não como burocratas, mas como amigos. Independentemente da situação ou da provação, os santos querem nos ajudar, seja lá como for.

Não há dúvida, portanto, de que a cena no céu se desenvolveu de modo muito distinto.

Podemos imaginar os padroeiros populares correndo de um lado para o outro, atendendo a pedidos de modo frenético. São Cristóvão se apressa entre pais que estão partindo para uma longa viagem de carro; Santo Antônio cuida de mães ocupadas que perderam as chaves do carro. E, em meio a essa “confusão”, a amável Corona está assentada em seu pequeno trono. De vez em quando ela escuta a súplica de uma avó italiana para que ajude seu neto a pagar a dívida da jogatina, mas em geral seus dias são um tanto rotineiros.

Então, de repente escuta-se um estrondoso bramido vindo da terra. Os céus se abalam; o livro de São Pedro quase cai do suporte. Santa Corona quase não presta atenção e espera que São Miguel entre na batalha com sua espada flamejante ou que São Brandão salte no mar com sua bóia salva-vidas. Então, ela percebe que Santo Antônio e São Cristóvão, São Miguel e São Brandão permanecem em suas mesas. Todos se voltam para ela de uma só vez.

Santa Corona pisca para eles. Então, ela finalmente escuta milhares de vozes chamando por seu nome. Desconcertada, ela olha na direção de Nosso Senhor, que sorri. “Estão chamando você, Corona.” Em seguida, ela se levanta, põe sua coroa da glória e começa a trabalhar.

Santa Corona pode não ter sido a padroeira das epidemias antes, mas agora é. E seu culto tornou-se, infelizmente, uma espécie de novidade na Igreja moderna: uma súplica espontânea dos fiéis por uma ajuda sobrenatural. Pedir a São Tomás Moro para fazer de você um advogado melhor ou a Santo Antônio para ajudá-lo a encontrar as chaves do carro são gestos muito bonitos. Mas há algo de deliciosamente medieval quando a Igreja, arrependida, de repente clama ao céu por uma intervenção direta no mundo — não apenas em nossas vidas, mas em todo o curso da história humana.

Muitas vezes só experimentamos esse tipo de fé em casos de extrema necessidade. Somos como os israelitas, que adoravam seus falsos ídolos na paz e na prosperidade, mas voltavam-se para o único Deus verdadeiro na fome e na guerra. E, como sabemos, Ele jamais deixou de atender às suas orações — sabendo perfeitamente bem que lhe dariam as costas novamente, tão logo conseguissem o que queriam.

O mesmo ocorre com Santa Corona. Há uma bela simplicidade da fé em ação nos corações daqueles que se voltam para ela agora em suas necessidades. Eles a honram, e ela atenderá suas orações. (Resta a esperança de que, após o término da pandemia, nós tenhamos um pouco mais de gratidão que os israelitas.)

Enquanto isso, aqueles que negam o poder dos santos de Deus — que fiscalizam as orações dos fiéis num momento de necessidade — deveriam prestar atenção ao alerta do salmista:

Apartai-vos de mim todos os que praticais a iniquidade,
Porque o Senhor ouviu a voz do meu pranto.
O Senhor ouviu a minha súplica,
o Senhor recebeu a minha oração.
Sejam confundidos, e em extremo conturbados todos os meus inimigos;
retirem-se, e sejam num momento cobertos de ignomínia (Sl 6, 9-11).

Santa Corona, rogai por nós!

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O hospital, uma instituição cristã
Sociedade

O hospital, uma instituição cristã

O hospital, uma instituição cristã

Você sabia que o hospital foi inventado exclusivamente pela Igreja Católica? Não que os pagãos não tivessem a medicina... O que eles não tinham é a caridade — ou hospitalidade, virtude que deu nome a essa instituição de saúde.

Mike AquilinaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Abril de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Você sabia que a instituição que conhecemos pelo nome de hospital foi inventada exclusivamente pela Igreja Católica?

Bem, ela foi. O mundo antigo tinha todos os componentes materiais necessários para uma instituição desse tipo. Tinha profissionais da medicina e pessoas doentes. Tinha uma tradição centenária de ciência e tecnologia médicas. Mesmo assim, não conseguiu reunir tudo aquilo para criar um hospital. Não era possível tornar rentável um empreendimento desse tipo; portanto, não havia um motivo convincente para mantê-lo em funcionamento durante uma epidemia.

Em vez do hospital, os antigos tinham médicos independentes, que se deslocavam de um lugar para outro como caixeiros-viajantes — geralmente fugindo de seu fracasso mais recente. Transmitiam seus conhecimentos entre os familiares (como se fossem segredos comerciais) e jamais arriscavam divulgá-los em público.

Os pagãos tinham a medicina; o que não tinham é caridade, como passou a expressar-se em hospital-idade, a virtude que deu nome à instituição de saúde.

Foram os cristãos que inventaram o hospital, e fizeram-no para responder a uma necessidade real e urgente — numa época de pandemia. 

Em meados do século III, o mundo de repente se viu subjugado por uma epidemia. Os estudiosos não sabem ao certo se a doença era varíola ou gripe. Alguns dizem que era ebola. Independentemente de qual tenha sido o vírus, ele rapidamente atingiu o grau de pandemia — e assim permaneceu por treze anos. Naquela época, a população do império diminuiu 30%, e houve um declínio proporcional em todos os setores da economia, sem falar nos militares.

A prática do cristianismo era ilegal. Na verdade, era um crime capital, punido com mais severidade durante a epidemia. Por quê? Porque os romanos tradicionais atribuíam sua má sorte à recusa dos cristãos em sacrificar aos deuses.

Naquela época, um bispo chamado Cipriano governava a igreja na África do Norte. Ele fora um importante procurador na cidade de Cartago, tendo-se tornado célebre por seu trabalho nas cortes. E ele, até que enfim, pôde utilizar toda a sua colossal inteligência para lidar com os problemas da Igreja em sua época.

Cipriano convocou seu rebanho para atuar com caridade heroica durante a epidemia, insistindo em que os médicos cristãos tinham o dever de cuidar não apenas de seus irmãos na fé, mas também de seus semelhantes pagãos — as mesmas pessoas que estavam tentando matá-los.

Cipriano exortou assim seus fiéis: “Não há nada de extraordinário em cuidar apenas do nosso próprio povo. (...) Também deveríamos amar os nossos inimigos. (...) O bem deveria ser feito a todos, não apenas aos irmãos na fé”. 

E dessa exortação de um bispo surgiu a assistência médica tal como a conhecemos. O maior especialista em história dos hospitais, Dr. Gary Ferngren, afirmou esse ponto de modo enfático em sua recente pesquisa pela Universidade Johns Hopkins:

O hospital foi, em sua origem e concepção, uma instituição tipicamente cristã, enraizada nos conceitos cristãos de caridade e filantropia. No mundo antigo, não houve nenhuma instituição pré-cristã que servisse ao propósito para o qual os hospitais cristãos foram criados (...). Nenhum dos serviços de assistência médica no período clássico (...) se pareciam com hospitais.

Esse não foi um fenômeno local. Temos testemunhos semelhantes de Alexandria no Egito e em outros lugares. O grande sociólogo Rodney Stark observou que a Igreja Católica cresceu durante esse período num ritmo constante de 40% a cada década, e acredita que esse crescimento deveu-se, pelo menos em parte, ao seu profundo e inédito testemunho de caridade.

Esse padrão manifestou-se com ainda mais clareza no século seguinte, durante a epidemia de 312. Até aquele momento, havia muitos cristãos em todas as grandes cidades. Portanto, seu empenho era mais eficaz, amplo e visível. Eusébio, que foi testemunha disso, relata que os cristãos “reuniam o grande número de pessoas que haviam sido reduzidas a espantalhos em toda a cidade e distribuíam pães a todas elas”. 

Mais uma vez, Gary Ferngren afirma de modo enfático que “o único cuidado com os doentes e moribundos durante a epidemia de 312-13 foi oferecido pelas igrejas cristãs”. E acrescenta: “Nenhuma assistência caritativa de qualquer tipo, pública ou privada, existia além da cristã, porque não havia bases religiosas, filosóficas ou sociais para isso”.

As epidemias estavam entre os grandes terrores do mundo antigo. Médicos eram capazes de identificar as doenças, mas não sabiam como impedir a disseminação delas. Medicamentos antibióticos e antivirais ainda eram parte de um futuro distante. 

Então, quando uma epidemia atingia uma cidade, os médicos eram os primeiros a abandoná-la. Eles conheciam os sintomas por causa de seus manuais, sabiam o que estava por vir e sabiam que não havia nada que pudessem fazer para deter o horror inevitável.

Os cristãos também não podiam acabar com as epidemias. Mas podiam arriscar suas vidas para servir canja de galinha aos doentes (e de fato o faziam). Podiam criar um lugar limpo e bem iluminado onde os doentes pudessem descansar (e de fato o faziam). E como resultado, alguns daqueles doentes se recuperavam e se tornavam cristãos.

Com o tempo, aquelas instituições cristãs estáveis — aqueles hospitais — tornaram-se verdadeiros locais de pesquisa médica. Somente neles os profissionais da medicina podiam ganhar experiência juntos, comparar anotações abertamente e progredir.

Muitas vezes escutamos as pessoas afirmarem que ao longo da história a Igreja travou uma “guerra contra a ciência” ou “contra as mulheres”. Isso é um erro inequívoco, e a história do hospital explica por quê. Muitos dos pioneiros da área foram mulheres — por exemplo, Fabíola em Roma e Olímpia em Constantinopla. Elas mudaram a sociedade de um modo que as mulheres pagãs não podiam. A Igreja criou possibilidades que eram impossíveis na antiguidade clássica.

Portanto, deveríamos agradecer aos nossos predecessores na fé por podermos combater a pandemia deste ano por meio da medicina. E talvez possamos perguntar que maravilhas Deus realizará por meio das circunstâncias atuais.

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