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Nossa Senhora do Carmo, padroeira e mestra da vida interior
Espiritualidade

Nossa Senhora do Carmo,
padroeira e mestra da vida interior

Nossa Senhora do Carmo, padroeira e mestra da vida interior

Os que desejam viver plenamente a devoção a Nossa Senhora do Carmo devem seguir Maria nas profundezas da sua vida interior.

Pe. Gabriel de S. M.ª Madalena16 de Julho de 2018
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Ó Maria, formosura do Carmelo, tornai-me digno da vossa proteção, revesti-me com a vossa veste, sede a mestra da minha vida interior.

A Santíssima Virgem é a Mãe que nos reveste de graça, que toma sob a sua proteção a nossa vida sobrenatural até garantir o seu pleno desabrochar na vida eterna. Ela, a toda pura, cheia de graça desde o primeiro instante da sua conceição, toma as nossas almas manchadas pelo pecado, e com um gesto maternal, lava-as no Sangue de Cristo, reveste-as da graça que, juntamente com Ele, nos mereceu. Bem podemos dizer que a veste da graça foi tecida pelas mãos benditas de Maria que, dia a dia, momento a momento, se deu inteiramente a si mesma, em união com o seu Filho, pela nossa redenção.

A lenda fala da túnica inconsútil que a Virgem teceu para Jesus; mas para nós fez realmente muito mais: cooperou para nos conseguir a veste da nossa salvação eterna, veste nupcial com que seremos introduzidos na sala do banquete celeste. Oh! como Ela quereria que esta veste fosse imperecível! Desde o momento em que a recebemos, Maria nunca deixou de nos seguir com o seu olhar maternal para proteger em nós a vida da graça. Cada vez que nos convertemos a Deus, nos levantamos de uma culpa — grande ou pequena — ou progredimos na graça, sempre o fazemos por intermédio de Maria.

O escapulário que a Senhora do Carmo nos oferece não é mais do que o símbolo exterior desta sua incessante solicitude maternal; símbolo, mas também sinal e penhor de salvação eterna. “Recebe, amado filho — disse a Virgem a S. Simão Stock — este escapulário… quem morrer com ele não padecerá o fogo eterno”. A Virgem assegura a graça suprema da perseverança final a todos os que usarem dignamente o seu escapulário.

“Quem usa o escapulário — disse Pio XII — faz profissão de pertencer a Nossa Senhora”; precisamente por lhe pertencermos, a Virgem tem um cuidado especialíssimo com as nossas almas: o que é seu não se pode perder, não pode ser tocado pelo fogo eterno. A sua poderosa intercessão maternal dá-lhe direito a repetir em nosso favor as palavras de Jesus: “Pai Santo... conservei os que me deste e nenhum deles se perdeu” (Jo 17, 12).

A devoção à Virgem do Carmo é também um premente apelo à vida interior, a essa vida que foi de modo especialíssimo a vida de Maria. A Virgem quer que sejamos muito mais semelhantes a Ela no coração e no espírito do que no hábito exterior. Se penetrássemos na alma de Maria, veríamos que a graça produziu nEla uma imensa riqueza de vida interior: vida de recolhimento, de oração, de ininterrupta doação a Deus, de contato contínuo, de união íntima com Ele. A alma de Maria é um santuário reservado só para Deus, onde nenhuma criatura humana jamais imprimiu a sua forma, onde reina o amor e o zelo pela glória de Deus e pela salvação dos homens.

“Nossa Senhora do Monte Carmelo”, por Pietro Novelli.

Os que desejam viver plenamente a devoção a Nossa Senhora do Carmo devem seguir Maria nas profundezas da sua vida interior. O Carmelo é o símbolo da vida contemplativa, vida toda dedicada à busca de Deus, toda dirigida para a intimidade divina; e quem melhor realizou este ideal altíssimo foi a Virgem, Regina decor Carmeli. “No deserto habitará a equidade, e a justiça terá o seu assento no Carmelo. A paz será a obra da justiça e o fruto da justiça é o silêncio e a segurança para sempre. O meu povo repousará na mansão da paz, nos tabernáculos da confiança”.

Estes versículos de Isaías (cf. 32, 16-18) reproduzidos no Ofício próprio de Nossa Senhora do Monte Carmelo esboçam muito bem o espírito contemplativo e são, ao mesmo tempo, um belo retrato da alma de Maria, verdadeiro “jardim” (Carmelo em hebreu significa jardim) de virtudes, oásis de silêncio e de paz, onde reina a justiça e a equidade, oásis de segurança, todo envolto na sombra de Deus, todo cheio de Deus.

Toda a alma de vida interior, embora vivendo no meio do ruído do mundo, há-de esforçar-se por alcançar esta paz, este silêncio interior que tornam possível o contato contínuo com Deus. São as paixões e os apegos que fazem barulho dentro de nós, perturbando a paz do nosso espírito e interrompendo o trato íntimo com o Senhor. Só a alma completamente desprendida e que domina inteiramente as suas paixões, poderá, como Maria, ser um “jardim” solitário e silencioso, onde o Senhor encontre as Suas delícias. É esta a graça que hoje devemos pedir à Senhora, escolhendo-a para padroeira e mestra da nossa vida interior.

Colóquio — “Ó Maria, flor do Carmelo, vinha florida, esplendor do céu, Virgem fecunda e singular, Mãe bondosa e intacta, aos vossos filhos dai privilégios, Estrela do mar!” (S. Simão Stock).

“Ó Virgem bendita, quem vos invocou nas suas necessidades, sem que tenha recebido o vosso socorro? Nós, vossos pobres servos, regozijamo-nos convosco por todas as vossas virtudes, mas pela vossa misericórdia regozijamo-nos conosco. Louvamos a virgindade, admiramos a humildade, mas para quem é miserável, a misericórdia tem um sabor muito mais doce. Abraçamos a misericórdia com maior ternura, lembramo-la muitas vezes, invocamo-la com mais frequência.

Com efeito, foi a vossa misericórdia que obteve a redenção do mundo e que, juntamente com as vossas orações, conseguiu a salvação de todos os homens. Portanto, ó bendita, quem poderá medir o comprimento e a largura, a altura e a profundidade da vossa misericórdia? A sua extensão chega até ao fim dos tempos para socorrer todos os que vos invocam; a sua largura envolve o mundo inteiro, de modo que toda a terra fica cheia da vossa bondade. A altura da vossa misericórdia abriu as portas da cidade celeste e a sua profundidade obteve a redenção dos que habitam nas trevas e nas sombras da morte.

Por vós, ó Maria, enche-se o céu, o inferno esvazia-se, os que se extraviavam regressam ao bom caminho. Assim a vossa poderosíssima e piissima caridade derrama-se sobre nós com um amor compassivo e auxiliador” (S. Bernardo).

Referências

  • Extraído e levemente adaptado de “Intimidade Divina: Meditações sobre a Vida Interior para Todos os Dias do Ano”, 2.ª ed., Porto: Edições Carmelitanas, 1967, pp. 1464-1467.

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Você é torre forte ou cata-vento?
Espiritualidade

Você é torre forte ou cata-vento?

Você é torre forte ou cata-vento?

O que você prefere ser: uma torre forte ou uma ventoinha? Escravo do medo do “que dirão?”, ou escravo da sua consciência?

Dom Tihamer Toth12 de Julho de 2018
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Nas pequenas cidades da Idade Média, encontram-se, não raro, vestígios de fortalezas e castelos; e, mesmo onde as construções estão reduzidas a algumas pedras, não é difícil achar quase intacta a alta torre do velho castelo.

Ora, essas torres que viram desaparecer tantos séculos e que a seus pés contemplam, com olhar impassível, o turbilhão da vida moderna, como dão bem uma ideia do caráter firme! Ao lado delas, tudo muda, tudo se transforma, tudo evolui: vende-se e compra-se; delas, porém, nada nem ninguém pode alterar o granito.

Antigas torres são o símbolo do caráter inabalável do homem que cumpre o seu dever virilmente. Outrora, a torre era o melhor refúgio dos habitantes do castelo; hoje, o homem de caráter firme é o melhor sustentáculo da sociedade. “Nunca abandone o lugar em que a vocação o colocou, e cumpra-lhe todos os deveres”, parecem nos dizer aquelas pedras mudas. “Considere o número de anos exigidos para a minha construção, quantas pedras foram necessárias, quanto trabalho, quanta boa vontade e quanto suor! Mas tudo isso não foi em vão. Sobrevivo a centenas e centenas de anos!”.

Por acaso, meu jovem, não se deixa desalentar facilmente na sua boa vontade? Quantas vezes não se arrojou pelo bom caminho, cheio de ardor juvenil? Quantas vezes não prometeu trabalhar seriamente no desenvolvimento do seu caráter? Mas, depois de algumas horas, de alguns dias, quando muito, a chama do entusiasmo apagava, o ardor desaparecia, e você tornava a ser o mesmo, não é verdade? Foram precisos anos, dezenas de anos talvez, para levantar a torre; e você, quereria se tornar homem de caráter num só dia!

Bem sabe, todavia, que se o caminho do pecado é agradável e semeado de flores deliciosas no começo, logo desilusão terrível nele aguarda o pecador; e que, se é difícil ser virtuoso no início, esse caminho em breve se torna cada vez menos duro, e sempre, no seu final, se acha a paz de uma consciência tranquila.

Mas, que é que eu vejo lá, no cume daquela velha torre? Aquela coisa que nunca fica no lugar, que vira para a direita e para a esquerda? Um cata-vento! Não tem direção fixa nem base estável. Vejo-me quase tentado a dizer que ela não tem princípios nem caráter, porque, se os tivesse, por mais que o vento soprasse, ela não lhe obedeceria.

Abandonar seus princípios, agir contra as próprias convicções, por ser mais cômodo, porque isso assegura uma carreira melhor, porque, em volta de si, o vento sopra de outro lado, é próprio de cata-vento. Mas me diga, amigo, merece o nome de homem aquele que nas suas ações, princípios e convicções se deixa guiar pelas circunstâncias exteriores e pelos conselhos de “companheiros”?

E, no entanto, quantos desses jovens não há! Você conhece dúzias deles, e eu também. São todos os que não sabem andar com os próprios pés, que espiritualmente são menores ainda, que olham sempre à direita e à esquerda para ver o que o vizinho faz.

Eis aqui um a quem a consciência avisa: “Não leia esse livro, ouvi dizer que ele é cheio de imundície moral. Por que deixaria a veste branca da sua alma se arrastar na água podre desse pantanal infecto?”. “Está bem, não o lerei”. Chega, porém, um colega: “Oh! Santinho do pau oco, criança!”, escarnece. “Eu, criança?”, e pega o livro, e o lê até a última linha e emporcalha a alma na lama que ele traz.

Agora outro, a quem a consciência diz ainda: “Não vá à exibição de tal peça, de tal filme! Deixe tal companhia perigosa!”. “Como fazer? Os outros vão lá; eles assim se divertem bastante. Serei o único contrário?”.

Ora, meu filho, é exatamente esse o modo de pensar e de agir dos cata-ventos.

Pois bem, escolha. O que prefere ser: uma torre forte ou uma ventoinha? Escravo do medo do “que dirão?”, ou escravo da sua consciência?

Escravo da própria consciência! Este título se lê como se fosse um romance de detetives”, você pensa. Mas se engana. Quando se pode dizer de um jovem que ele é senhor da sua vontade e escravo da própria consciência é a maior honra que se lhe pode fazer. Se é capaz de ser contínua e invencivelmente fiel a tudo o que a consciência manda, você é um jovem de nobre caráter.

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Os pais são culpados dos pecados de seus filhos?
Educação

Os pais são culpados
dos pecados de seus filhos?

Os pais são culpados dos pecados de seus filhos?

Os maus pais, diz São João Crisóstomo, são “piores que os assassinos de seus próprios filhos”, pois, enquanto estes “separam a alma do corpo, aqueles lançam-lhes corpo e alma no fogo do Inferno”.

São João Crisóstomo12 de Julho de 2018
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Saibamos que Deus não suportará de boa mente a negligência com que são tratados aqueles por quem tanto se preocupa. Pois Ele mesmo não pode ter feito tanto para salvá-los e, ao mesmo tempo, pouco se importar que os negligenciem. Não, Deus não dará de ombros, mas se ofenderá e irritará veementemente.

Por isso, o bem-aventurado Paulo continuamente nos exorta, dizendo: “Pais, criai vossos filhos na disciplina e correção do Senhor” (Ef 6, 4). Porque, se estamos obrigados a zelar pelas almas deles como quem há de prestar contas por elas (cf. Hb 13, 17), com maior razão o está o pai que os gerou, que os criou, que convive com eles sob o mesmo teto.

Ora, assim como o pai não tem escapatória nem desculpa dos próprios delitos, tampouco o tem em relação aos dos filhos. E isto, é mais uma vez o bem-aventurado Paulo quem no-lo esclarece. Com efeito, ao determinar como devem ser os que hão de mandar nos outros, entre todas as qualidades que diz lhes serem necessárias, exige também o do cuidado dos filhos (cf. 1Tm 3, 4), insinuando que um pai já não pode ter esperança alguma de perdão se seus filhos se perderem.

E justamente. De fato, se os homens fossem viciosos por natureza, poderiam com razão desculpar-se de seus atos; mas como nos tornamos bons ou maus por livre escolha, que justificativa, afinal, poderá alegar o pai que permite que se extravie e corrompa aquele a quem ama mais do que tudo?

Dirá acaso que não quis fazê-lo bom? Mas quem, sendo pai, diria semelhante coisa, já que a própria natureza o desperta e move para cumprir esse dever?

Dirá talvez que não o pôde? Tampouco, porque, tendo-o no colo desde pequeno, posto sob seus cuidados e sua primeira e única autoridade, vivendo ainda na mesma casa, poderia facilmente e sem dificuldade tê-lo educado.

De sorte que não se pode achar outra origem para o extravio dos filhos que o louco afã dos pais pelos bens mundanos. O não olhar senão para eles, o não julgar nada preferível a eles, obriga-os a descuidarem tanto da própria alma como da dos filhos.

A estes pais — e ninguém pense que é a ira que me leva a dizê-lo —, eu não recearia qualificá-los como piores que os assassinos de seus próprios filhos. Estes, com efeito, separam a alma do corpo; aqueles, porém, lançam-lhes corpo e alma no fogo da Geena. Àquela morte todos, por lei natural, se devem submeter; mas esta última seria possível evitar, se não a acarretasse a negligência dos pais.

Acrescente-se a isso que a morte do corpo será rapidamente destruída com a chegada da ressurreição; mas a morte da alma, ao contrário, não terá consolo, porque não só não a espera mais salvação alguma, senão que terá ainda de sofrer forçosamente tormentos eternos. Daí que tenhamos dito, não sem razão, que tais pais são piores que os assassinos de seus filhos.

Não, não é crime tão horrível amolar a espada, pô-la em riste e umedecê-la na garganta do próprio filho quanto perder e corromper uma alma, pois nada, de fato, se compara a tamanho atentado.

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Para que serve a infalibilidade da Igreja?
Doutrina

Para que serve
a infalibilidade da Igreja?

Para que serve a infalibilidade da Igreja?

O bem-aventurado Cardeal Newman explica em que consiste a infalibilidade da Igreja e faz uma profissão de fé por todos os católicos do mundo.

Beato John Henry Newman12 de Julho de 2018
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Na sua plenitude, o poder da infalibilidade da Igreja é tão formidável quanto o mal gigantesco que o fez nascer. Pretende, quando exercido de modo legítimo (porque de outro modo deveria, naturalmente, ficar inerte) conhecer com certeza e nos menores detalhes o sentido exato de todas as partes da mensagem divina que Nosso Senhor confiou aos Apóstolos.

Pretende conhecer seus próprios limites e decidir o que pode ou não pode decidir, de modo absoluto. Pretende, além disso, defender questões que não são diretamente religiosas, pelo menos para determinar se elas implicam alguma relação indireta com a religião e, em certos casos particulares, para julgar de modo absoluto se vão de acordo com a verdade revelada.

Reivindica a autoridade de decidir como mestre, de modo infalível ou não, se tais ou quais afirmações, no seu espírito ou nas suas consequências, são de natureza a prejudicar o depósito da fé e, segundo o caso, de as autorizar, interdizer ou condenar.

O Cardeal Newman, em pintura de John Everett Millais.

Defende para si o direito de impor silêncio em todas as matérias e controvérsias doutrinais, que, em virtude do seu próprio ipse dixit, declara perigosas, inúteis ou inoportunas. Qualquer que seja o modo de ver dos católicos sobre tais atos, proclama que eles os devem aceitar com os sinais de respeito, de submissão e fidelidade que os ingleses, por exemplo, tributam ao rei; sem os criticar, sob pretexto de serem inoportunos no fundo, violentos ou severos na forma.

Reclama, por fim, o direito de infligir castigos espirituais, de cortar os habituais socorros de vida divina e, simplesmente, de excomungar os que recusam submeter-se às suas declarações formais.

Tal é, vista no seu aspecto exterior, revestida e cercada pelos atributos da alta soberania, a infalibilidade que reside na Igreja Católica. Repetindo o que acima afirmei, trata-se de um poder supereminente e prodigioso, enviado à terra para combater e dominar um mal gigantesco.

Agora, após descrevê-lo, professo minha absoluta submissão às suas exigências. Creio no conjunto do dogma revelado como foi ensinado pelos Apóstolos, confiado por eles à Igreja e por ela imposto à minha inteligência. Aceito-o baseado na interpretação infalível da autoridade a quem foi confiado por Deus e (implicitamente) tal qual for interpretado pela mesma autoridade até o fim dos tempos. Submeto-me também às tradições da Igreja universalmente aceitas, que contêm a matéria das novas definições dogmáticas feitas no decurso dos séculos e que em todas as épocas constituem, por assim dizer, o revestimento e a ilustração do dogma católico já definido.

Submeto-me, igualmente, às outras decisões da Santa Sé, quer teológicas, quer não, transmitidas pelos órgãos competentes que, mesmo sem levar em conta a questão da infalibilidade, por títulos mais modestos, exigem o meu assentimento.

Considero ainda que, pouco a pouco, no curso do tempo, as investigações da verdade católica tomaram verdadeira ciência com método e vocabulário próprios, sob a direção intelectual dos grandes espíritos de Santo Atanásio, Santo Agostinho e Santo Tomás. De nenhum modo sinto a tentação de reduzir a frangalhos esta grande herança de pensamento, que nos foi assim transmitida para os dias atuais.

Tal é a profissão de fé que faço ex animo por mim e por todos os católicos do mundo.

A primeira reflexão que virá ao espírito é que a inteligência irriquieta da humanidade comum, todo esforço pessoal e toda ação independente serão reprimidos; se for este o meio de pô-la em ordem, não se manterá na ordem senão para ser destruída. Mas este está longe de ser o resultado real, longe do que é, a meu ver, a intenção da sublime providência que nada mais pretendia do que um grande remédio para um grande mal.

Não é isto, com efeito, o que ressalta historicamente do conflito, no passado, entre a infalibilidade e a razão, nem a perspectiva do que será no futuro. A energia da inteligência humana “cresce na razão direta da oposição”; desenvolve-se com alegria, com um vigor rude e flexível sob os terríveis golpes da arma forjada pela mão divina e nunca se acha tanto na posse de si mesma como quando acaba de ser derrotada.

Costumam pensar os escritores protestantes que há dois grandes princípios que exercem influência na história da religião, a autoridade e o livre exame, sendo-lhes atribuído este último enquanto nós herdamos o primeiro para sermos por ele esmagados. Não é assim; é o mesmo grande corpo católico, somente ele, que pode fornecer o campo aos dois combatentes para esse duelo terrível e sem fim.

Monumento retratando o Papa Pio VII, na Basílica de S. Pedro.

Para a vida mesma da religião, encarnada nas suas grandes obras e na sua história, é necessário que esta guerra continue sem interrupção. Todo exercício da infalibilidade é provocado por uma atividade intensa e multiforme da razão, ora sua aliada, ora sua irredutível adversária. Mesmo terminada a sua tarefa, provoca reações da razão. Como no governo civil o Estado vive e sustenta-se pelo entrechoque dos partidos e das rivalidades, pela alternativa de triunfos e de derrotas, a cristandade oferece-nos aos olhos, não um simples quadro de absolutismo religioso, mas, à semelhança da maré, o espetáculo do fluxo e refluxo da autoridade e do livre exame.

É uma vasta reunião de seres humanos dotados de inteligência rebelde e movidos por paixões selvagens que se fundem em um todo, graças à beleza e a majestade de um poder sobre-humano; reunidos no que se poderia chamar uma grande escola de correção e de aperfeiçoamento; não como em algum hospital revolvendo-se no leito de enfermo, ou sepultados vivos em alguma prisão mas, se me é permitido mudar de metáfora, como em uma oficina moral destinada a fundir, a purificar e a moldar, por um processo contínuo e ruidoso, a matéria bruta da natureza humana, perigosa mas excelente e capaz de realizar os desígnios de Deus.

Diz São Paulo que o poder apostólico não lhe foi dado para a destruição, mas para edificação. É o que melhor define o papel da infalibilidade da Igreja. É um suplemento às necessidades e não vai além. Seu objetivo e sua eficácia não são de enfraquecer a liberdade ou o vigor do pensamento humano nas especulações religiosas, mas de conter e controlar as extravagâncias. Quais as suas grandes realizações no domínio da teologia? Jazem aniquilados o arianismo, o eutiquianismo, o pelagianismo e o maniqueísmo, o luteranismo e o jansenismo. Tal a amplidão do resultado conseguido no passado.

Venhamos agora às garantias que nos oferece para o futuro.

Em primeiro lugar, a infalibilidade não pode sair de um domínio de ideias bem determinado, e, em todas as decisões ou definições (como são chamadas), deve deixar bem claro que não foge a estes limites. As grandes verdades da lei moral, da religião natural e da fé apostólica são ao mesmo tempo seus limites e seus fundamentos. Não os pode ultrapassar e a eles deve sempre referir-se.

Seu objeto e os artigos deste objeto lhe são fixados. Deve declarar-se sempre guiada pela Escritura e pela Tradição. Deve submeter-se às verdades que põe em relevo ou, segundo o termo mais corrente, que ela define. No futuro nada me pode ser proposto como fazendo parte da fé senão o que eu já admito; se o não admitia antes, é porque ainda não fizera meu esse aspecto da fé. Nada de natureza diversa e muito menos contrária me pode ser imposto.

A nova verdade promulgada, se é que se pode chamar nova, deve ser, pelo menos, homogênea, análoga e estar de modo implícito na antiga verdade. Deve ser tal, que eu mesmo a possa supor ou desejá-la compreendida na revelação apostólica; enfim, deve ser tal que meus pensamentos concordem com ela ou a ela se incorporem, apenas acabe de ouvi-la.

É possível que, como eu, outros tenham sempre admitido esta verdade novamente promulgada e a única coisa que se decidiu a meu favor foi que, daqui por diante, posso ter a satisfação de saber que sempre considerei verdadeiro somente o que os Apóstolos creram antes de mim.

Referências

  • John Henry Newman. Apologia pro vita sua, ou História das minhas Opiniões Religiosas (trad. port. de F. Machado da Fonseca). São Paulo: Paulinas, 1963, pp. 323-327.

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