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A hegemonia do indiferentismo maçônico
Sociedade

A hegemonia do
indiferentismo maçônico

A hegemonia do indiferentismo maçônico

A ideia de que tanto faz ser deste ou daquele “deus”, pertencer a esta ou àquela religião, tornou-se hoje o ar que respiramos… Dormimos católicos, acordamos maçons e sequer nos demos conta disso.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Novembro de 2018
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Passados 35 anos da Declaração sobre as associações maçônicas, da Congregação para a Doutrina da Fé, que com muita clareza reafirmou a condenação da Igreja Católica à maçonaria, é chegada a hora de investigar o porquê de essa orientação ter sido (e ainda ser) tão amplamente ignorada e negligenciada pelos tantos católicos… Por que todos parecem dar de ombros a esta manifestação do Magistério da Igreja, não obstante seu peso e seriedade?

Para entender o que está acontecendo, seria necessário explicitar, antes de tudo, a razão fundamental da incompatibilidade entre essas duas sociedades. É muito comum ouvir hoje em dia que não há mais ânimos acirrados entre Igreja e maçonaria; que as razões meramente políticas do conflito entre as duas já cessaram; e que, portanto, o melhor a fazer seria todos esquecerem o passado e darem as mãos em um grande gesto de fraternidade.

Acontece que a oposição católica às associações maçônicas situa-se em um nível mais profundo do que normalmente se pensa.

O Papa Leão XIII deixou isso claro em sua encíclica Humanum Genus (de longe, o melhor e mais completo documento magisterial já escrito a respeito), quando escreveu o seguinte:

A doutrina fundamental dos naturalistas, que eles [os maçons] tornam suficientemente conhecida em seu próprio nome, é que a natureza humana e a razão humana deveriam em todas as coisas ser senhora e guia. Eles ligam muito pouco para os deveres para com Deus, ou os pervertem por opiniões errôneas e vagas. Pois eles negam que qualquer coisa tenha sido ensinada por Deus; eles não permitem qualquer dogma de religião ou verdade que não possa ser entendida pela inteligência humana, nem qualquer mestre que deva ser acreditado por causa de sua autoridade. E desde que é o dever especial e exclusivo da Igreja Católica estabelecer completamente em palavras as verdades divinamente recebidas, ensinar, além de outros auxílios divinos à salvação, a autoridade de seu ofício, e defender a mesma com perfeita pureza, é contra a Igreja que o ódio e o ataque dos inimigos é principalmente dirigido (n. 12).

Notem que Leão XIII não diz neste trecho que os maçons maquinam diretamente contra a Igreja. Para ser mais exato, é contra o que a Igreja é e ensina que se concentram os seus esforços. Noutras palavras, os maçons possuem uma “doutrina” com princípios muito bem estabelecidos e, dado que a Igreja é e faz justamente o contrário do que eles ensinam e postulam, os católicos acabamos entrando no rol de seus inimigos e opositores.

Por isso, qualquer tentativa de diálogo e reconciliação entre as duas instituições que despreze essa oposição fundamental está fadada ao fracasso. A maçonaria não é anticatólica por “gosto” ou “capricho”: são seus princípios que, na verdade, contrariam frontalmente a doutrina católica.

Para dar um exemplo desta incompatibilidade — e responder também à pergunta inicial deste artigo —, veja-se o que diz o Papa Leão XIII, ainda na encíclica acima referida, sobre a “amizade” maçônica com todas as religiões:

Se aqueles que são admitidos como membros não são ordenados a abjurar por quaisquer palavras as doutrinas católicas, esta omissão, muito longe de ser adversa aos desígnios dos maçons, é mais útil para os seus propósitos. Primeiro, deste modo eles facilmente enganam os ingênuos e os incautos, e podem induzir um número muito maior a se tornarem membros. Novamente, como todos que se oferecem são recebidos qualquer que possa ser sua forma de religião, eles deste modo ensinam o grande erro desta época ― que uma consideração por religião deveria ser tida como assunto indiferente, e que todas as religiões são semelhantes. Este modo de raciocinar é calculado para trazer a ruína de todas as formas de religião, e especialmente da religião católica, que, como é a única que é verdadeira, não pode, sem grande injustiça, ser considerada como meramente igual às outras religiões (n. 16).

Ninguém negará a orientação da maçonaria rumo ao indiferentismo religioso: ela impõe a seus adeptos tão-somente a crença num vago e abstrato Grande Arquiteto do Universo, que teoricamente poderia ser, ao mesmo tempo, o Alá de um muçulmano, a Trindade de um católico… e até o Lúcifer de um satanista.

Acontece que essa visão — a de que tanto faz ser deste ou daquele “deus”, pertencer a esta ou àquela religião — não é hoje a crença da maçonaria. Não. Este é o ar que respiramos, é a mentalidade predominante, hegemônica e (por que não dizer?) vitoriosa sobre a doutrina católica de sempre. Exatamente por isso os próprios católicos não se incomodam com este que é, nas palavras de Leão XIII, “o grande erro desta época”: infelizmente, já nos rendemos a essa ideia nem a consideramos mais como um erro. Mutatis mutandis, é como se tivéssemos dormido católicos e acordado maçons (parafraseando uma expressão já consagrada de São Jerônimo sobre o arianismo).

Basta observar a reação de muitas pessoas — na internet e fora dela — a uma matéria ou pregação um pouco mais inflamada do nosso site expondo a fé da Igreja e combatendo um ou outro erro do protestantismo, do espiritismo (que, a propósito, é tão relativista quanto a maçonaria) ou de qualquer outra religião. As pessoas de modo geral estão convencidas de que, não importa o credo que você professe, não importa se você tem fé católica ou não, contanto que você seja uma pessoa “boa”, creia em alguma coisa e tenha um padrão razoável de decência e honestidade, a ponto de não matar e não roubar, sua salvação e seu “pedacinho no Céu” já estão garantidos.

O curioso é que Nosso Senhor Jesus Cristo e a Igreja que Ele fundou não só nunca ensinaram uma coisa dessas, como sempre disseram e se comportaram no sentido exatamente oposto a tudo isso. Não seria necessário muito tempo para percebê-lo. Basta uma leitura rápida, por exemplo, do documento Dominus Iesus para entrar em contato com este dado da Revelação. Basta ler a vida de um único santo missionário ou mártir para entender que a religião só é assunto banal para a nossa época, “maçônica”, relativista e cheia de respeitos humanos; para um cristão de fato, a fé é uma questão de vida ou morte.

Se há algum tempo, portanto, a Igreja foi tão insistente em suas condenações à maçonaria, hoje seria necessário um esforço mais “contracultural” do que dirigido especificamente a esta instituição. Dentro ou fora da maçonaria, é forçoso reconhecê-lo, ninguém mais acredita que para salvar-se é necessário crer em Cristo e entrar e perseverar na Igreja que Ele fundou (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 846). Talvez haja até quem ria do documento que no próximo dia 26 de novembro completa mais um aniversário, e segundo o qual “estão em estado de pecado grave” os fiéis católicos que se inscrevem na maçonaria. “Afinal”, alguém poderia perguntar, “quem ainda acredita nesse negócio de pecado?”

Nós sabemos, pela fé, que “as portas do inferno não prevalecerão” jamais contra a Igreja: ainda que sejamos atacados de todos os lados, ainda que estejamos reduzidos a um verdadeiro “grão de mostarda”… non praevalebunt! É essa esperança que nos anima a seguir em frente e a “arregaçar as mangas”, pois só um trabalho de verdadeira e profunda “reevangelização” (a começar pelos católicos!) poderá reverter o triste e lamentável quadro em que nos encontramos.

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A Santa Missa e as quatro lições mais importantes de nossa infância
Espiritualidade

A Santa Missa e as quatro lições
mais importantes de nossa infância

A Santa Missa e as quatro lições mais importantes de nossa infância

Poder dizer a Deus “perdão”, “eu te amo”, “por favor” e “obrigado”, na Santa Missa, não é só um privilégio único para uma simples criatura. É um ato constantemente transformador.

Michael P. Foley,  Catholic CultureTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Novembro de 2018
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Uma das questões do velho Catecismo de São Pio X era: “Para que fins se oferece o Santo Sacrifício da Missa?” A resposta era dada em quatro partes:

  1. “para honrar a Deus como convém, e sob este ponto de vista o sacrifício é latrêutico;
  2. para lhe dar graças pelos seus benefícios, e sob este ponto de vista o sacrifício é eucarístico;
  3. para aplacá-lo, dar-lhe a devida satisfação pelos nossos pecados, para sufragar as almas do Purgatório, e sob este ponto de vista o sacrifício é propiciatório;
  4. para alcançar todas as graças que nos são necessárias, e sob este ponto de vista o sacrifício é impetratório” (n. 657).

Adoração, ação de graças, petição e satisfação: a menção desses quatro fins está presente em muitos missais antigos e é ainda uma lição corriqueira de qualquer catequese tradicional sobre a Missa. O que geralmente se deixa de lado, no entanto, é a relação que guardam esses fins com nossas próprias vidas concretas como seres humanos. Como exatamente essas quatro coisas se relacionam com o nosso bem-estar psicológico, emocional e espiritual?

Uma forma de tratar esta questão é ter em mente as quatro coisas mais importantes que nós aprendemos a dizer quando somos crianças: “eu te amo”, “obrigado”, “por favor” e “desculpe-me”. Essas quatro simples expressões não só são capazes de colocar tanto jovens quanto adultos no caminho da felicidade humana; elas também proporcionam uma útil analogia para o que acontece em cada Sacrifício da Missa.

Lições para a vida

A tragédia da linguagem após o Éden é que um veículo originalmente projetado para denominar corretamente a realidade (como vemos em Adão com os animais) tornou-se mais frequentemente um meio de a manipular ou obscurecer. Dizer “eu te amo”, “obrigado”, “por favor” e “desculpe-me” pode ser um ato de tremenda dissimulação e até exploração, mas me parece evidente que, quando um bom pai passa tais palavras a seu filho, não é para equipá-lo com ferramentas de manipulação.

Por mais que falemos da importância de ensinar nosso filhos a “dizer” por favor e obrigado, nossa meta final é fazê-los dizer essas coisas e realmente senti-las. Quando uma mãe faz o seu filho se desculpar com a própria irmã por puxar-lhe o cabelo, ela normalmente não fica satisfeita com um “desculpe-me” frio e um olhar desafiador e obstinado. Obviamente, seu objetivo é fazer o menino entender que o que ele fez é errado, a fim de que ele possa sentir um arrependimento verdadeiro do que fez e procurar corrigir a injustiça, não simplesmente pronunciar uma sequência específica de sons verbais. A mesma coisa vale para as três outras coisas que instruímos nossos filhos a “dizer”.

Implícito, portanto, no objetivo de educar crianças que digam “eu te amo”, “obrigado”, “por favor” e “desculpe-me” está algo maior do que um hábito trivial de boas maneiras, ou uma conformidade e submissão sem sentido a convenções sociais. De alguma forma, a ideia é transformar uma jovem mente no tipo de pessoa que seja amoroso, agradecido, deferente e, quando necessário, contritamente determinado a fazer reparos. Talvez porque essas qualidades não sejam apenas escolhas dignas em si mesmas, mas também conduzam à aquisição de outras virtudes.

Alguém que sabe a importância do arrependimento, por exemplo, também sabe a importância de perdoar (o que não é pouca coisa); e alguém verdadeiramente agradecido mais facilmente se inclina a ser generoso para com os outros. Certamente, uma das razões pelas quais tanto crentes quanto não crentes acham o servo impiedoso da parábola (cf. Mt 18, 23-34) tão repreensível é o fato de ele violar tão grosseiramente ambos esses princípios do senso comum.

Por trás dessas expressões simples, portanto, reside uma antropologia moral saudável, um esboço amplo do que seja viver bem. Idealmente falando,

  • uma pessoa capaz de dizer “eu te amo” com sinceridade é capaz de compromisso, devoção e autossacrifício;
  • uma pessoa capaz de dizer “obrigado” com sinceridade reconhece, como veremos, o dom imerecido da própria existência e o seu débito para com um mundo mais amplo que ela não criou;
  • uma pessoa capaz de dizer “por favor” com sinceridade confessa sua dependência de uma realidade fora de si mesma e rejeita o princípio de que “a verdade é relativa”, transcendendo o egoísmo debilitante que faria dela, na expressão de Walter Scott, um vil “desgraçado, concentrado todo em si mesmo”; e, finalmente,
  • uma pessoa capaz de dizer com sinceridade “desculpe-me” (ou “perdão”, para ofensas maiores) está fazendo o difícil mas crucial ingresso no mundo do autoconhecimento, sem desculpas nem disfarces, apresentando a coragem de reconhecer as próprias faltas e a resolução de corrigi-las.

Ao contrário, uma pessoa que não tenha sido educada nesses quatro ditos e nas disposições por trás deles, foi gravemente injustiçada, porque não foi estimulada ou a superar o próprio egoísmo ou, o que acaba sendo a mesma coisa, a entender a realidade da condição humana.

Os quatro fins da Missa

Curiosamente, esse caminho quadriforme guarda uma semelhança formidável com a teologia tradicional da Santa Missa. Sendo mais específico, dizer “eu te amo” em casa é análogo ao ato de adoração que acontece na Missa, “obrigado” à ação de graças, “por favor” à petição, e “desculpe-me” à satisfação.

Quando Nosso Senhor se ofereceu na cruz como um sacrifício vivo, aquele sacrifício incluía um ato infinito de adoração a seu Pai, de ação de graças a Ele, de petição ou de impetração por nossa causa, e de satisfação (ou propiciação, expiação) pelos pecados da humanidade. Esses quatro componentes, por sua vez, são representados por Cristo através da ação do sacerdote em cada Missa. E nós, os fiéis, assistimos à Missa para tomar parte e ser enriquecidos por esses fins.

Nossos próprios atos de devoção não são, é claro, idênticos aos de Nosso Senhor. A expiação de Cristo, por exemplo, não incluía “desculpe-me” da mesma forma que a nossa, porquanto Ele não tinha nada por que ser perdoado. Mas nossa frágil tentativa de compensar os próprios fracassos em um ato de expiação torna-se eficaz pela liberalidade infinita de nosso Deus crucificado e ressuscitado, sendo profunda, portanto, a diferença entre os dois atos.

As quatro perturbações do espírito

Uma razão pela qual essa analogia é significativa, portanto, é o fato de ela indicar que o sacrifício da cruz — e por extensão o do altar — contribui poderosamente para a perfeição sobrenatural de nosso potencial natural para o bem, assim como para a restauração de nossa natureza após a Queda.

Para demonstrá-lo, só precisamos considerar o substrato emocional básico do ser humano, à luz das quatro perturbationes da alma: alegria, desejo, medo e tristeza. Essa útil classificação foi empregada por Cícero (cf. De finibus bonorum et malorum, 3, 10; Tusculanae Disputationes, 4, 6), o qual tomou-a emprestada dos estoicos, e depois seria usada por pensadores cristãos como Santo Agostinho (cf. Confissões, X, 14, 22).

As quatro emoções a que Cícero faz referência guardam uma interessante relação com as quatro expressões que discutimos e com as quatro finalidades da Missa — não que elas se encaixem perfeitamente uma na outra da mesma forma, mas bons atos de adoração, ação de graças, petição e restituição contrita levam à perfeição nossos instintos mais básicos de alegria, desejo, medo e tristeza.

Desejo

No plano natural, por exemplo, o puro desejo pessoal é humanizado e sublimado pelo ato simples e sincero de dizer “por favor”. Ao invés de arrebatar o que queremos, nós reconhecemos um limite de propriedade e humildemente pedimos que esse limite seja redesenhado, com o que trocamos a brutalidade da coerção pela gentileza da cortesia. A súplica consiste, portanto, em uma sublimação do desejo, não no sentido corrompido de Freud de suprimir a libido, mas no sentido genuíno de tornar o desejo sublime ou elevado.

É esse sentido de sublimidade que encontra sua mais alta expressão na Missa, onde o desejo pessoal é aperfeiçoado sobrenaturalmente no pedido altruísta que aí fazemos não apenas por nós mesmos, mas por todos os homens. Quão longe isso está do materialismo da “oração de Jabes” na moda (cf. 1Cr 4, 10), em que cristãos são encorajados a rezar pelas ninharias desta vida como se não trouxessem dentro de si nenhum desejo de eternidade. A Missa, ao contrário, existe seja para expandir e reordenar nossos desejos a fim de que bens maiores tenham prioridade sobre bens menores, por um lado, seja para transcender também a eles, por outro.

Isso fica particularmente claro nas orações da coleta do Missal tridentino para os Domingos depois de Pentecostes, o período do ano litúrgico correspondente ao tempo da Igreja. As coletas refletem um foco recorrente em reorientar e aumentar o desejo dos fiéis. Além de pedir que sejam atendidos nossos pedidos, por exemplo, as orações pedem por uma mudança no que queremos:

  • Fac nos amare quod praecipis, “fazei-nos amar os preceitos da vossa lei” (13.º Domingo);
  • Insere pectoribus nostris amorem tui nominis, “infundi no nosso coração o amor do vosso nome” (6.º Domingo);
  • Fac eos, quae tibi sunt placita, postulare, “fazei que vos peçam [aqueles que vos invocam] o que vos apraz” (9.º Domingo), etc.

E, uma vez que nossos desejos tenham se convertido ou se voltado para esses bens maiores, a Igreja vai além e declara que Deus superará até mesmo esses bens e nos dará, como é dito na coleta do 11.º Domingo, quod oratio non praesumit, “o que não ousamos esperar da pobreza das nossas orações”.

Toda essa teologia do desejo, da impetração e da transcendência talvez em nenhum outro lugar esteja mais bela e sucintamente expressa do que na coleta para o 5.º Domingo depois de Pentecostes:

Ó Deus, que preparastes para os que vos amam bens invisíveis, infundi nos nossos corações o fogo do vosso amor, e fazei que, amando-vos em todas e sobre todas as coisas, alcancemos o efeito das vossas promessas, que superam toda a nossa esperança.

Seria necessário um ensaio adicional para desvelar os diferentes pressupostos dessa coleta no que diz respeito ao télos da mente humana e a sua relação com a ordem criada e o seu Criador. Basta-nos dizer que o “por favor” do desejo humano está sendo transposto aqui para um nível completamente novo.

Medo e tristeza

Medo e tristeza, por outro lado, são ambos responsáveis pelo ato de pedir desculpas e fazer reparações, mas só se esses atos forem genuínos. Um pedido imperfeito de desculpas tem como motivo único o medo: “Estou pedindo desculpas a você não porque eu esteja verdadeiramente arrependido do que fiz, mas porque tenho medo do que você fará a mim caso eu não lhe peça desculpas”. O pedido perfeito de desculpas, ao contrário, traz consigo o sentimento de tristeza: “Eu vejo que te machuquei de alguma forma e fiquei realmente entristecido com isso”.

Um pedido de desculpas perfeito, no entanto, também envolve o medo, não o medo da represália, como no caso anterior, mas o medo de ser afastado da pessoa amada. Santo Tomás distingue dois tipos de temores:

  • o servil, como o de um escravo que tem medo de ser punido por seu senhor; e
  • o nobre ou filial (cf. Suma Teológica, II-II, q. 19; também I-II, q. 67, a. 4, ad 2; II-II, q. 7, a. 1), como o de um marido que teme fazer algo a sua esposa pelo medo de ela perder o respeito que tem para com ele, não pelo medo de que ela venha a agredi-lo pelo que ele fez.

Ainda que o temor servil tenha sua importância nesta vida (sendo inclusive suficiente para fazer um ato de contrição, mesmo imperfeito), ele é obviamente inferior ao temor filial, motivado mais por amor do que por mera autopreservação.

Assim se dá com a propiciação no culto divino, que pressupõe uma tristeza pelas injustiças que cometemos e um medo de ofender o Deus a quem amamos e que tanto fez por nossa causa.

Sim, o temor envolvido pode muitas vezes ser apenas o de ir para o inferno, aquele pressentimento de que, se eu dormir no domingo ao invés de ir à Missa estarei cometendo um pecado mortal; e esse medo, por mais ignóbil que pareça, pode me levar à Missa e até abrir-me às graças que podem ser obtidas ali. Mas, como Santo Agostinho observou ironicamente uma vez, “as pessoas que têm medo de pecar por causa do inferno têm medo não do pecado, mas do fogo”. Assim como o homem emocionalmente maduro é motivado pelo medo nobre mais do que pelo servil, também o homem espiritualmente maduro teme mais o poder destruidor intrínseco ao pecado e o efeito que este tem na amizade com o seu Criador do que o julgamento extrínseco que o espera ao final desta vida.

Alegria

Finalmente, o sentimento de alegria acompanha os atos sinceros de dizer “eu te amo” e “obrigado”. De fato, o amor nem sempre vem acompanhado de uma alegria eufórica; muitas vezes, os compromissos do amor trazem consigo tristeza e sofrimento. Entretanto, mesmo que pareça estranho, até a dor do amor é melhor do que a falta dele (assumindo que estejamos falando de um amor bem ordenado, não do de concupiscência) e é só através do amor que a verdadeira alegria pode ser experimentada.

A mesma coisa vale para a gratidão, ainda que não nos seja mais tão fácil reconhecê-lo como antes. Para pensadores como Immanuel Kant, ter de dizer “obrigado” é uma ocasião mais de tristeza que de alegria, porque, em sua avaliação, gratidão envolve dívida, e esta é uma ameaça à autonomia pessoal, o fundamento da filosofia kantiana e da democracia liberal moderna.

Tal visão legalista ignora, no entanto, o efeito libertador que os laços humanos têm sobre o indivíduo. Para os antigos, a resposta apropriada ao difícil trabalho de interdependência humana era a pietas, aquela nobre devoção à própria família, à própria terra e, em última medida, ao próprio Deus. Esse era um “débito” que as pessoas eram felizes em ter, pois residia em uma abundância de bens que elas tinham consciência de ter recebido imerecidamente. O ato de lembrar esses benefícios, por sua vez, era uma fonte de feliz gratidão. Nas palavras de Sêneca, “o homem mais ingrato de todos é o que esqueceu um benefício… não é possível que um homem se torne agradecido se veio a perder por completo a memória” (De beneficiis, 3, 1).

A gratidão, portanto, não é apenas um importante componente do caráter moral de alguém; trata-se de um sintoma de conformação à realidade, isto é, a habilidade de lembrar devidamente os reais benefícios que alguém recebeu de benfeitores reais, e de reagir a essas verdades da forma apropriada.

E, seria desnecessário dizer, tudo isso aponta de maneira especial para a ação de graças que prestamos a Deus na Missa, esse ato supremo de anamnesis instituído pelo próprio Senhor, de lembrar e então representar o maior bem já recebido pela humanidade na história. Não sem razão o Aquinate vê a gratidão como uma virtude enraizada no amor, um amor que propositalmente não deve ter limites (cf. Suma Teológica, II-II, q. 106, a. 6, ad 2). Quão belo e apropriado, enfim, as últimas palavras da Missa, tanto no antigo quanto no novo rito, serem simplesmente: “Graças a Deus”!

Conclusão

Nossa comparação entre as quatro finalidades da Missa e as quatro grandes coisas que aprendemos na infância dá-nos ensejo a uma última ideia sobre a importância do sacrifício eucarístico. Pensar na “assistência” à Missa como um fardo legalista imposto a nós pela Igreja é tão empobrecedor quanto pensar em boas maneiras como meros caprichos e apêndices do pátrio poder.

Ainda que de modo algum sejam o suficiente, as boas maneiras são um instrumental orientando-nos para a ordem criada e, quando são incorporados da maneira correta, eles nos ajudam a atingir nosso pleno potencial como seres humanos. De modo similar, a adoração, a ação de graças, os pedidos e a satisfação que nós realizamos na Missa orientam-nos para o Criador de nossa natureza, fazendo-nos desenvolver não apenas nossas potências naturais, mas nossa capacidade de participar na natureza do próprio Deus.

Ser capaz de dizer “perdão”, “eu te amo”, “por favor” e “obrigado” a nosso Pai celeste, por meio de seu Filho e sob o auxílio de seu Espírito, não é só um privilégio único para uma simples criatura; é um ato constantemente transformador. E por esse dom só o que nos resta é dizer: Deo gratias.

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Uma ladainha pelas almas do Purgatório
Espiritualidade

Uma ladainha pelas almas do Purgatório

Uma ladainha pelas almas do Purgatório

Peçamos nesta ladainha a intercessão de todos os santos em favor das almas do Purgatório, a fim de que, pelos merecimentos de Jesus Cristo, sejam libertas de seus sofrimentos e admitidas sem demora na vida eterna.

Fátima19 de Novembro de 2018
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Esta ladainha é uma das orações que a piedade dos fiéis suscitou em favor das almas que sofrem no Purgatório. Aproveitando este mês de novembro, particularmente dedicado aos Novíssimos, oferecemo-la a nossos leitores como uma possibilidade a mais para sufragarmos essas benditas almas.

A oração foi retirada de um site em honra à Virgem de Fátima e levemente adaptada para esta publicação.


Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Deus, Pai dos Céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Santa Maria, rogai pelas almas do Purgatório.
Santa Mãe de Deus, rogai pelas almas do Purgatório.
Santa Virgem das Virgens, rogai pelas almas do Purgatório.
São Miguel, rogai pelas almas do Purgatório.
Todos os Anjos e Arcanjos, rogai pelas almas do Purgatório.
Todos os coros dos espíritos bem-aventurados, rogai pelas almas do Purgatório.
Todos os Santos Patriarcas e Profetas, rogai pelas almas do Purgatório.
São João Batista, rogai pelas almas do Purgatório.
São José, rogai pelas almas do Purgatório.
São Pedro, rogai pelas almas do Purgatório.
São João, rogai pelas almas do Purgatório.
Todos os Santos Apóstolos e Evangelistas, rogai pelas almas do Purgatório.
Santo Estevão, rogai pelas almas do Purgatório.
São Lourenço, rogai pelas almas do Purgatório.
Todos os Santos Mártires, rogai pelas almas do Purgatório.
São Gregório, rogai pelas almas do Purgatório.
Santo Ambrósio, rogai pelas almas do Purgatório.
Santo Agostinho, rogai pelas almas do Purgatório.
São Jerônimo, rogai pelas almas do Purgatório.
Todos os Santos Pontífices e Confessores, rogai pelas almas do Purgatório.
Todos os Santos Doutores, rogai pelas almas do Purgatório.
Todos os Santos Sacerdotes e Levitas, rogai pelas almas do Purgatório.
Todos os Santos Monges e Eremitas, rogai pelas almas do Purgatório.
Santa Maria Madalena, rogai pelas almas do Purgatório.
Santa Catarina, rogai pelas almas do Purgatório.
Santa Bárbara, rogai pelas almas do Purgatório.

De vossa cólera, livrai-as, Senhor.
Da severidade de vossa justiça, livrai-as, Senhor.
Do verme roedor da consciência, livrai-as, Senhor.
Das trevas espantosas, livrai-as, Senhor.
Das lágrimas e gemidos, livrai-as, Senhor.
Por vossa Encarnação, livrai-as, Senhor.
Por vossa Santa Natividade, livrai-as, Senhor.
Por vosso Nome dulcíssimo, livrai-as, Senhor.
Por vosso Batismo e Santo Jejum, livrai-as, Senhor.
Por vossa profunda humildade, livrai-as, Senhor.
Por vossa grande obediência, livrai-as, Senhor.
Por vosso infinito amor, livrai-as, Senhor.
Por vossas angústias e sofrimentos, livrai-as, Senhor.
Por vossa transpiração de sangue, livrai-as, Senhor.
Por vossa Coroa de espinhos, livrai-as, Senhor.
Por vossas Santas Chagas, livrai-as, Senhor.
Por vossa Cruz e vossa Paixão, livrai-as, Senhor.
Por vossa morte ignominiosa, livrai-as, Senhor.
Por vossa Santa Ressurreição, livrai-as, Senhor.
Por vossa admirável Ascensão, livrai-as, Senhor.
Pela vinda do Espírito Santo consolador, livrai-as, Senhor.

Ainda que pecadores, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Vós, que perdoastes a pecadora e ouvistes o bom ladrão, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Vós, que salvais por vossa graça, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis libertar nossos parentes, amigos e benfeitores das chamas expiadoras, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis libertar todos os fiéis defuntos de seus sofrimentos, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis ter piedade daqueles que não têm neste mundo particulares intercessores, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis perdoar a todos e libertá-los de suas penas, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis atender os seus desejos, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis admiti-los no Céu com os vossos eleitos, nós vos rogamos, ouvi-nos.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-lhes o descanso eterno (3x).

V. Ele constituiu-o senhor de sua casa.
R. E fê-lo príncipe de todos os seus bens.

Oremos:
Ó Deus, Criador e Redentor do mundo, perdoai os pecados de vossos servos e servas que a negligência dos homens esquece no Purgatório. Possam as nossas satisfações obter para eles a libertação que tanto anseiam! Senhor, que com pesar nos castigais e nos ordenastes rezar por aqueles que amais, dignai-vos abrir o Céu para as almas que partiram deste mundo e concedei-lhes a posse do repouso e da felicidade eternas. Isto vos suplicamos pela intercessão de vossa Santa Mãe e de todos os Santos. Assim seja.

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Os úteros das mulheres e as togas dos magistrados
Pró-Vida

Os úteros das mulheres
e as togas dos magistrados

Os úteros das mulheres e as togas dos magistrados

A partir do momento em que o ventre materno passa a abrigar uma nova vida humana, o útero deixa de ser um assunto privado para ser de interesse de toda a sociedade.

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Novembro de 2018
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“A mulher não é um útero a serviço da sociedade”. Foi com uma frase rasteira dessas que um conhecido ministro do Supremo Tribunal Federal voltou a defender esta semana um suposto “direito” das mulheres a abortar os próprios filhos.

Ora, que a mulher não seja o próprio útero é algo tão óbvio quanto ela não ser o seu esôfago, o seu coração ou o seu cérebro. A parte não é o todo, sim; mas “o todo sem a parte não é todo” também. Cada órgão exerce a sua função e tem a sua importância no corpo humano. Se o esôfago ajuda na alimentação, o coração bombeia sangue para todo o corpo e o cérebro comanda todas as atividades do organismo, o útero, por sua vez, abriga novas vidas. A diferença é que o esôfago, o cérebro e o coração são comuns a todo ser humano, ao passo que o útero — e com ele a maternidade — é privilégio das mulheres, e de ninguém mais.

Mas o que a humanidade deveria ver — e durante muito tempo realmente viu — como um privilégio é visto por esse ministro como um fardo. Por isso, não espanta que ele defenda justamente o oposto da maternidade: ao invés de dar a vida, as mulheres deveriam ter o direito de “dar a morte” a seus filhos; ao invés de dá-los à luz, seria a hora de dá-los “às trevas”, por assim dizer.

Dito neste termo, o argumento soa estranho, para não dizer maluco. Mas é a única forma de descrever o aborto como ele realmente é. Não se trata apenas de um debate sobre o útero feminino, sobre uma pars viscerum matris, isto é, sobre uma “extensão” do corpo da mulher. Estão em jogo aqui os direitos fundamentais de outra pessoa, e é o próprio ministro defensor do aborto que admite o fato em seu discurso. A partir do momento em que o ventre materno passa a abrigar uma nova vida humana, o útero deixa de ser um assunto privado para ser de interesse de toda a sociedade.

Não sem razão o aborto consta na seção de crimes contra a vida do Código Penal, ao lado do homicídio, do infanticídio e do auxílio ao suicídio. (Todos os termos com o radical “cídio”, do verbo latino occido, querem dizer “matar”.) Não sem razão a nossa Constituição Federal, da qual os ministros do STF deveriam ser “guardiões” (cf. art. 102, caput), diz com todas as letras que é inviolável o direito à vida (cf. art. 5.º, caput). Ora, se uma simples lesão corporal, aos olhos do Direito, merece ser punida por representar uma agressão não só contra um indivíduo, mas contra a sociedade em geral, quanto mais um ato como o aborto, que dá fim nada menos do que à vida de outrem!

Mas se as leis humanas reconhecem que ninguém pode matar, por que falar, então, de um “direito ao aborto”? Se o próprio ministro em questão reconhece que há um “conflito de direitos” envolvido aqui, como entender que ele não defenda o valor fundamental de todo o ordenamento jurídico e lhe sobreponha, ao invés, um suposto direito à “autonomia individual da mulher”, que nem na Constituição está escrito? Desde quando a “autonomia” de uma pessoa pode trucidar (literalmente, neste caso) a vida de outra? Se a liberdade de uma mulher é um valor superior à vida do nascituro, o que impede outra mãe de matar seu filho recém-nascido, ou mesmo qualquer um de matar, e sair impune por isso?

A resposta é simples. O aborto é um direito porque o ministro assim o quer (e, poderíamos acrescentar, “depois da investidura, ele não deve satisfação a mais ninguém”). Ponto e acabou: é o império do voluntarismo de toga. Para adaptar-se às ideias de um juiz, à sua visão de Direito, à utopia feminista que ele mesmo criou, todos os entraves no caminho se transformam, por um passe de mágica, em instrumentos a seu dispor. A Constituição não fala de direito fundamental à autonomia da mulher? Extraiamo-lo, pois, de uma interpretação livre do texto constitucional. O Código Civil fala de direitos do nascituro? Submetamo-los a outro direito, que nós mesmos inventamos, sob o pretexto de aplicar um malfadado princípio de “proporcionalidade”. O Código Penal criminaliza o aborto? Não pode ser, é inconstitucional! A interpretação que eu mesmo fiz da Constituição prova que o aborto tem de ser descriminado…

Rumo a essa ideia, que só existe na cabeça de um magistrado que se crê acima de tudo e de todos, caminha à força uma nação inteira. O juiz que é contra os úteros “a serviço da sociedade” usa uma toga a serviço de sua própria causa ideológica… e ninguém tem nada com isso.

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