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Maria Goretti, “um anjo em carne humana”
Santos & Mártires

Maria Goretti, “um
anjo em carne humana”

Maria Goretti, “um anjo em carne humana”

“Sustentada pela graça celeste, à qual correspondeu com vontade forte e generosa, Santa Maria Goretti entregou a vida sem perder a glória da virgindade.”

Papa Pio XIITradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Julho de 2018
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Deus sapientíssimo, querendo remediar a inconstância de muitos jovens dos nossos tempos, dignou-se enviar à Igreja logo no início do século passado um exemplo preclaro de amor à pureza e fortaleza constante na fidelidade a Cristo.

Trata-se de Santa Maria Goretti, cuja memória litúrgica celebramos amanhã, dia 6 de julho, e que, apesar de sua origem humilde e desconhecida, mereceu ser chamada durante seu processo de canonização um “grande e estupendo milagre” e “espetáculo digno do céu”.

A fim de render as homenagens que merece esta santa menina, cujo corpo frágil, resistindo até a morte, pôde manter com heróica fortaleza a integridade da alma, transcrevemos abaixo a homilia pronunciada em 1950 pelo Venerável Papa Pio XII [1] um dia após declará-la solenemente santa.


Veneráveis irmãos e filhos diletos:

A virgindade é um gênero de vida angélico” [2], que a religião cristã elevou a tão excelso grau de beleza que se nos afigura algo maior do que a terra e digno do céu; e se lhe acrescentamos a palma do martírio, torna-se algo que à suavidade e pureza da graça vem juntar uma inabalável fortaleza; e, contemplando-a, somos levados à prática daquelas virtudes, daqueles atos heróicos a que nos obrigam os mandamentos cristãos. Tudo isso, pois, vemo-lo na virginal menina Maria Goretti, a quem Nos foi dado coroar ontem com a glória dos santos do céu.

Maria Goretti nasceu em uma família pobre, que, para alimentar com trabalho honesto a crescente prole, teve de abandonar a pequena cidade natal e migrar para a região do Lácio, onde, pelo cultivo do campo, proveria aos filhos um pouco de sustento.

Criança reza em frente às relíquias de Santa Maria Goretti.

Como fosse dotada de pureza de alma, unida a certa prontidão para o trabalho, desde pequena Maria Goretti se portou de tal modo que não só se distinguia pelos bons costumes, mas também se destacava pela diligente e incansável dedicação com que, solícita e serena, assistia a mãe nos cuidados domésticos.

Analfabeta, foi dela que Maria Goretti aprendeu os rudimentos da doutrina cristã, que ela cuidadosamente buscava gravar no coração; e nada lhe era mais grato, nada mais doce do que ir sempre que possível à igreja, longe de casa, para ali ser instruída na religião católica e, aos pés do do altar de Deus e da bem-aventurada Virgem Maria, fazer suas abrasadíssimas orações.

Quando enfim se lhe permitiu aproximar-se da mesa eucarística e nutrir-se com a pastagem celeste, ela o fez com tão zelosa piedade, com tão flagrante caridade, que, mais do que uma menina, parecia um anjo em carne humana. Dali mesmo hauriu a força divina pela qual, poucos meses mais tarde, antes de completar doze anos, pôde lutar vitoriosamente até a morte, a fim de preservar intacto e incontaminado o alvo lírio de sua inocência e apresentá-lo, purpurado com o sangue do martírio, ao divino Autor de sua vida virginal.

Foi acérrima a batalha, como todos sabem, que esta inofensiva virgem teve de enfrentar; uma agitada e cega procela despenhou-se repentinamente sobre ela, procurando-lhe manchar e violar a angélica pureza. Mas, apesar do gravíssimo perigo em que se encontrava, ela pôde repetir ao Redentor essas palavras do célebre livro A imitação de Cristo: “Ainda que eu seja tentado e vexado com muitas tribulações, nada temerei, enquanto estiver comigo a vossa graça. Ela é a minha fortaleza; ela me dá conselho e amparo. Ela é mais poderosa do que todos os inimigos” (l. III, c. 55). Assim, sustentada pela graça celeste, à qual correspondeu com generosa e forte vontade, Maria Goretti entregou a vida sem perder a glória da virgindade.

Na vida desta humilde menina, que esboçamos em linhas gerais, é-nos permitido entrever um espetáculo, veneráveis irmãos e filhos queridos, não só — como dissemos — digno do céu, mas digno ainda de ser contemplado com admiração e veneração por este nosso século. Aprendam os pais e mães de família o quanto é importante educar reta, santa e corajosamente os filhos que Deus lhes confiou e conformá-los às leis da religião católica, de tal maneira que, quando lhes for provada a virtude, eles possam, com o auxílio da graça divina, sair ilesos, íntegros e imaculados.

Aprenda a jovial infância, aprenda a animada juventude, não a precipitar-se em alegrias vãs e passageiras, nos prazeres enganadores do vício — que destroem a pura inocência, que geram uma terrível tristeza, que debilitam antes do tempo as forças da alma e do corpo —, mas antes a lutar vivamente, enfrentando embora desafios árduos e difíceis, por aquela perfeição moral cristã que todos nós, com vontade firme, ajudada com os dons celestes, esforço, trabalho e oração, podemos alcançar um dia.

Aprenda enfim este débil mundo, excessivamente propenso às coisas mais baixas, a venerar e imitar a invencível fortaleza desta virginal menina. Olhai todos para este lírio do campo, rescendendo suavíssimo odor, para estas fulgentes palmas do martírio, e compreendei o quanto os valores cristãos são capazes de moderar e educar devidamente os homens e o quanto as alegrias celestes — conquistadas ao preço da inocência de vida, preservada incólume, e da virtude laboriosamente adquirida — superam e excedem as vãs concupiscências, visto que apenas Deus pode domar e tranquilizar a alma humana e satisfazer suas infinitas aspirações.

Nem todos, é verdade, estão chamados a encarar o martírio; todos, porém, somos chamados a adquirir a virtude cristã. A virtude, no entanto, requer força, a qual, se bem não atinja o cume da fortaleza desta angélica menina, nos exige contudo esforço diuturno, diligentíssimo e incessante até o fim da vida. Esforço que, por isso mesmo, pode chamar-se um lento e contínuo martírio, para cuja realização nos adverte essa divina sentença de Jesus Cristo: “O Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam” (Mt 11, 12).

A este fim, pois, dirijamos os nossos esforços, apoiando-nos na graça divina; a isto nos excite o exemplo da santa virgem e mártir Maria Goretti; e que ela, do trono celeste donde goza a eterna bem-aventurança, por suas preces nos alcance do divino Redentor que todos nós, cada um em sua própria e peculiar condição de vida, sigamos alegres, prontos e operantes os seus memoráveis passos.

Referências

  1. Cf. Pio XII, Homilia de 24 jun. 1950, por ocasião da solene canonização de S. Maria Goretti (AAS 42 [1950] 580-582).
  2. S. João Damasceno, De fide orthod., 1.4.24 (PL 94, 1210).

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Uma estratégia para o Brasil vencer a Copa
Espiritualidade

Uma estratégia para
o Brasil vencer a Copa

Uma estratégia para o Brasil vencer a Copa

Para que o esporte não se torne apenas “pão e circo”, é preciso lembrar que a nossa verdadeira meta não é a taça de ouro da FIFA. Nós corremos por uma coroa incorruptível.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Julho de 2018
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Nesta sexta-feira, a seleção brasileira enfrentará mais um jogo decisivo contra a seleção da Bélgica, a fim de conseguir uma vaga na semifinal da Copa do Mundo 2018.

Em 2002, o Brasil passou apuros para vencer os chamados “diabos vermelhos”. Com um sofrido gol de Ronaldo e outro de Rivaldo, todos no segundo tempo, a seleção canarinho foi, enfim, para as próximas fases, até chegar ao pentacampeonato. Mas a Bélgica conseguiu assustar.

Ronaldo comemora gol durante Brasil e Bélgica, em 2002.

Para o confronto deste ano, especialistas e torcedores já traçaram algumas estratégias, e os supersticiosos já escolheram até um “amuleto” para a seleção: o russo Yury Torsky, que no último jogo do Brasil contra o México teria “azarado” os nossos adversários com um olhar “maligno”. Bobagens à parte, o fato é que o treinador Tite está bem empenhado em levar os brasileiros para o hexa e apagar de vez o fiasco dos 7 a 1 contra a Alemanha, no Mineirão, na Copa de 2014.

O futebol é mesmo uma paixão brasileira que movimenta o país inteiro. Até o comércio fecha as portas para que os funcionários — e os patrões — tenham a chance de assistir aos jogos do Brasil. Em si, o esporte não tem nada de ruim e até já serviu para ensinamentos apostólicos. Na Primeira Carta aos Coríntios, São Paulo fala das “corridas de um estádio”, onde todos correm, mas só um recebe o prêmio (9, 24). Mas, para que esse esporte não se torne apenas pão e circo, é preciso lembrar que a nossa verdadeira meta não é a taça de ouro da FIFA. Nós corremos por uma coroa incorruptível.

Além da Bélgica, o Brasil tem outros “diabos vermelhos”, muito mais perigosos, para enfrentar: o aborto, o sexo desregrado, a corrupção etc. E somente uma nação que, semelhante aos atletas, aceite fazer sacrifícios pela vitória poderá conquistar o tesouro que a traça não corrói. Há, portanto, uma única e verdadeira estratégia para o Brasil vencer esta “Copa” de nossas vidas: a busca da santidade! E essa busca pode ser compreendida através da própria dinâmica dos esportes, como bem demonstrou São Paulo. Vejamos algumas lições.

O técnico ou o diretor espiritual

Um dos requisitos básicos para o bom desempenho de um time esportivo é a escolha de um bom técnico ou preparador físico. As grandes vitórias das seleções brasileiras, por exemplo, dependeram inegavelmente da tática e da sabedoria de técnicos que, conhecendo os pontos fracos e fortes tanto dos jogadores como dos adversários, elaboraram a melhor e mais eficaz estratégia para vencer.

Técnico Tite, hoje na Seleção Brasileira, ostentando a Taça do torneio Libertadores da América.

O técnico é uma espécie de mentor: ele dirige seus discípulos com conselhos, exortações e incentivos, tornando-os capazes de grandes conquistas, até das mais improváveis. Prova disso encontra-se no papel de Tite, atual técnico do Brasil, para a conquista do mais desejado troféu do Corinthians, em 2012: a taça da Libertadores da América.

Na corrida espiritual, por sua vez, a orientação de um bom “treinador” também é imprescindível. São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei, falava assim em seu Caminho: “Diretor. — Precisas dele. — Para te entregares, para te dares…, obedecendo. — E Diretor que conheça o teu apostolado, que saiba o que Deus quer” (n. 62). Com a mesma ênfase São Francisco de Sales fazia esta importante advertência: “Se tens uma vontade sincera de entrar nas veredas da devoção, procura um guia sábio e prático que te conduza” (Introdução à vida devota, cap. 4).

A direção espiritual é uma forma de o cristão praticar as virtudes da obediência e da sinceridade, sem as quais ninguém consegue acessar a própria alma e, por conseguinte, vencer os próprios defeitos. Obedecendo às orientações de um bom diretor, os cristãos fazem como os grandes campeões que, não confiando apenas nos próprios talentos, mas também nas advertências dos técnicos acerca dos inimigos, desviam-se dos golpes rivais e conquistam os pontos necessários para a vitória.

O espírito de equipe

Uma boa seleção trabalha em equipe. A fraternidade desperta os ânimos à sua volta e motiva todos a buscarem o mesmo ideal. Exemplo disso vimos no jogo entre Espanha e Rússia, pelas oitavas de final desta última Copa. Os russos, evidentemente inferiores no futebol, souberam jogar de igual para igual contra os espanhóis, aguentando juntos a pressão dos adversários. Apoiados pela forte torcida, os donos da casa conseguiram sustentar o placar e vencer a partida nos pênaltis, para desespero da grande Espanha.

Equipe russa comemora classificação improvável na Copa.

Influência semelhante exercem os cristãos no ambiente em que vivem. Cheios de alegria e vibração pela vida adquirida na intimidade diária com Cristo, as almas piedosas animam os espíritos abatidos pelo pecado e pelo sofrimento do mundo.

Mais ainda: “A beleza e o júbilo que transparecem em seus semblantes”, nota São Francisco de Sales, “nos ensinam com que tranquilidade devemos encarar os incidentes da vida; sua cabeça, suas mãos e pés descobertos dão-nos a refletir que nenhum outro motivo devemos ter em nossas intenções e ações além de agradar a Deus” (Introdução à vida devota, 2). A vida e o testemunho dos santos, mais do que suas palavras, são o instrumento mais poderoso de que Deus se serve para inflamar os corações dos homens.

O treino

A rotina de exercícios e preparação está para o esporte como a oração e as mortificações estão para a vida interior. A fidelidade dos atletas aos treinos está intimamente relacionada à sua performance em campo. Quem não tem um preparo físico e emocional adequado não aguenta a pressão das disputas.

Mutatis mutandis, o cristão preguiçoso não pode se queixar se a sua vida interior é um completo deserto, uma coisa sem sal, e frequentemente marcada por pecados mortais. Trata-se de uma consequência óbvia do modo como ele trata as coisas de Deus e do mundo. Um cristão sem piedade é um freguês do diabo. É 7 a 1 na certa.

Em seu Caminho de Perfeição, Santa Teresa d’Ávila adverte claramente sobre a purificação da alma — exercida, entre outras coisas, pela luta contra os pecados mortais — como condição inegociável à santidade. Sem o desapego do mundo — as riquezas, o sexo, as pessoas, a vontade etc. — ninguém pode alcançar a perfeição. E isso não é algo absurdo, como podem pensar alguns.

Notem que, para a Copa do Mundo de 2002, quando o Brasil conquistou o pentacampeonato, o então técnico Felipão foi taxativo ao recomendar a abstinência sexual aos jogadores durante a concentração dos jogos. Quem não consegue ter controle sobre a própria sexualidade “não é um ser humano, mas um animal irracional”, declarou o técnico. É claro que a castidade simplesmente por fins esportivos não é propriamente uma coisa virtuosa, mas se até os atletas se impõem a abstinência por um prêmio qualquer, por que os cristãos não podem viver a castidade pela salvação eterna?

Seleção comemora pentacampeonato, em 2002.

Como no karatê, por exemplo, que requer uma alta disciplina, atenção e proatividade nos exercícios, a vida interior deve ser adequadamente preparada, com ambiente e hora marcada para o diálogo com Deus. Caso contrário, toda tentativa de aproximar-se do sagrado será minada pelas distrações e outras artimanhas do inimigo.

O bom combate

A heroicidade de um atleta nos esportes é reconhecida, como dito anteriormente, pela sua motivação, ainda que, ao final de tudo, ele esteja arrebentado pelo cansaço e humilhado pelo choro de uma aparente derrota. Quem se dedica com devoção vence mesmo perdendo.

É assim que São Paulo, mais uma vez, relaciona os esportes seculares ao maior de todos os esportes, que é a conquista da vida eterna. Imolado no altar de Deus pela salvação das almas, ele confessa toda a sua esperança sobrenatural, dizendo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4, 7).

Na história da Igreja, o exemplo dos mártires talvez seja o que melhor expressa essa paradoxal vitória com aparência de derrota. Consumidos pelas chamas, os cristãos cantavam alegremente para desconcerto de Nero e glória de Cristo. Foi esse impressionante testemunho de resistência e fidelidade a Deus que obteve a estima de tantas pessoas mundo afora e levou Tertuliano a declarar: “O sangue dos mártires é semente para novos cristãos”. Na derrota da morte temporal, eles ganharam forças para receber a vida eterna.

Guardadas as devidas proporções, o Brasil amargou uma derrota dramática para a Alemanha na semifinal da Copa de 2014, e isso talvez tenha servido de lição para que, neste campeonato, a nossa seleção esteja mais bem preparada para levar o hexa.

Vencemos com a cruz. Afinal, Jesus é o maior de todos os atletas e técnicos. Derrotando a morte, Ele nos abriu as portas do Céu, onde podemos receber a coroa incorruptível de que falava São Paulo. É do Senhor que ouvimos as seguintes palavras: “No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 36). Ao seu lado, a medalha do primeiro lugar está garantida.

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O Matrimônio é bom, mas a vida religiosa é ainda melhor
Doutrina

O Matrimônio é bom, mas
a vida religiosa é ainda melhor

O Matrimônio é bom, mas a vida religiosa é ainda melhor

Quem se casa em Cristo e traz filhos ao mundo faz bem, mas quem renuncia a isso para seguir a Cristo mais de perto, faz ainda melhor. É o que dizem, em uníssono, Jesus Cristo, São Paulo, os Santos Padres e o Magistério da Igreja.

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Julho de 2018
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Como o celibato e a virgindade se encontram constantemente sob ataque não apenas no mundo secular, mas até mesmo dentro da Igreja e de sua própria hierarquia, vale a pena renovar nossa compreensão da imutável doutrina católica e nossa fidelidade à “fé que, uma vez para sempre, foi transmitida aos santos” (Jd 3).

Na Igreja antiga, Joviniano († ± 400 d.C.) era um herege que ensinava a igualdade entre o Matrimônio sacramental e o celibato pelo Reino de Deus. Suas visões foram severamente refutadas por São Jerônimo e Santo Agostinho, e a Igreja em seu Magistério tem constantemente ensinado o mesmo que eles: quem se casa em Cristo e traz filhos ao mundo faz bem, mas quem renuncia seja ao casamento, seja à própria família, para seguir a Cristo mais de perto, faz ainda melhor.

Não obstante, o jovinianismo tem marcado presença ao longo da história cristã. Os reformadores protestantes desafiaram a doutrina tradicional da Igreja, apesar de ela se basear nas próprias palavras de Cristo e de São Paulo (cf. Mt 19, 11s; 1Cor 7, 25s.38.40). Em tempos mais recentes, nós certamente vemos entre os católicos uma espécie de jovinianismo prático, que eu descobri em praticamente todos os estudantes a quem lecionei.

Talvez por terem encontrado em suas vidas tão poucos religiosos e religiosas autênticos, eles tendem a pensar que seja errado colocar o estado religioso acima do estado matrimonial como meio para alcançar a perfeição na caridade e a contemplação. Por isso, a maior parte fica surpresa ao descobrir que está em conflito com o ensinamento unânime dos Santos Padres, dos Doutores, dos Papas e dos Concílios [1].

Um estudante expôs o caso da seguinte forma em um exame final: “Se sou uma pessoa casada e faço tudo, inclusive trocar fraldas, ir ao trabalho, amar minha esposa, construir uma casa e um jardim, tudo por amor a Deus, como dizer que eu não estou fazendo de mim mesmo e de minha vida um ‘holocausto’, uma oferta total, tão agradável a Deus quanto a oferta de um religioso que renuncia à sua família, a suas propriedades e à própria vontade? De fato, o religioso ainda tem roupas, uma cama, uma casa onde morar, provavelmente um monte de livros, preocupações financeiras em sua comunidade, coisas práticas de que cuidar, os seus irmãos como uma família, e na maior parte das vezes ele faz o que quer dia após dia, mesmo que as grandes decisões pertençam (em parte) a um superior. Então, em que a vida dele é assim tão diferente da minha?”

“O Esponsório Místico de Santa Catarina de Alexandria”, por Anthony van Dyck.

Soa plausível, não? Com um vago apelo ao “chamado universal à santidade” e ao “primado da caridade”, alguém pode rapidamente deduzir que todos os estados de vida cristãos são iguais. Curiosamente, Santo Tomás de Aquino também ensina que a santidade é para todos e que a caridade ocupa um lugar de honra na tarefa de se tornar santo, mas ele não chega, nem de longe, à mesma conclusão igualitarista.

O estudante declara que “o Matrimônio também é um holocausto total”. Eu pergunto: em que sentido? O homem ou a mulher casado está realmente renunciando a cônjuge, filhos, campos ou à própria vontade? Em certo sentido sim — mas, em um sentido decisivo, não. Quando Jesus disse a seus discípulos que eles, que deixaram tudo para O seguir, receberiam o cêntuplo, Ele não estava falando metaforicamente, mas em sentido literal. Tampouco estava dizendo que aqueles que renunciaram a essas coisas “de frente” estavam autorizados a reintroduzi-las depois, pela porta dos fundos. A bem-aventurança do cêntuplo cabe tão-somente àqueles que permaneceram pobres, castos e obedientes, e só na medida em que eles verdadeiramente o foram.

A fim de entender melhor o ensinamento de Nosso Senhor, levemos em consideração que os conselhos evangélicos de pobreza, castidade (no sentido de continência perpétua) e obediência são meios de atingir a meta da perfeição na caridade, que é a santidade.

Os conselhos afastam aqueles bens materiais e temporais que tendem a distrair ou enfraquecer nosso foco em Deus, ou que nos fazem confiar nessas coisas mais do que nEle. Diferentemente dos Mandamentos, os conselhos não nos separam de coisas más que são incompatíveis com o amor de Deus. Ao contrário, eles nos separam de coisas que são em si mesmas boas, muito boas até, mas que não são o bem maior, e que podem impedir, portanto, um foco direto nos bens mais elevados, bem como no Doador de todos os bens, que é o próprio Deus.

A razão por que é útil nos separarmos das coisas boas para focar em bens mais elevados e na Fonte de todos eles é que todos nós somos seres finitos com capacidades finitas de atenção e de amor. Portanto, ao remover nossa atenção e nosso amor dos bens mundanos e temporais, os conselhos evangélicos nos ajudam a concentrá-los mais inteiramente nos bens espirituais e eternos, no que é divino. Santo Tomás o explica belamente da seguinte forma:

É manifesto que o coração humano é atraído a uma coisa tanto mais intensamente quanto mais se afasta de muitas. Assim, a mente do homem é atraída ao amor de Deus tanto mais perfeitamente quanto mais diminui nele o afeto pelas coisas temporais. […] Todos os conselhos evangélicos, portanto, pelos quais somos convidados à perfeição, têm como propósito que a mente do homem seja desviada do afeto pelas coisas temporais, a fim de que, deste modo, sua mente seja atraída mais livremente a Deus, contemplando-O, amando-O e cumprindo com a sua vontade. [2]

No clima presente, é importante enfatizar que os conselhos não são propostos como bons porque as coisas que se renunciam ao segui-los sejam más, mas porque existe um caminho melhor para crescer no amor do que pelo uso dessas coisas. A renúncia ao Matrimônio permite a uma pessoa crescer mais no amor de Deus e ao próximo simplesmente porque a dedicação direta do nosso coração e mente a Deus é um meio melhor para crescer no amor do que o Matrimônio, seja considerado em si mesmo, seja como um sacramento [3]. O Papa São João Paulo II ensinou isso com muita clareza:

A referência à união nupcial de Cristo e da Igreja confere ao casamento a sua máxima dignidade: em particular, o sacramento do Matrimônio faz os esposos entrarem no mistério da união de Cristo e da Igreja. Mas a profissão da virgindade ou do celibato faz os consagrados participarem no mistério dessas núpcias de uma maneira mais direta.

Enquanto o amor conjugal se dirige ao Cristo Esposo mediante uma união humana, o amor virginal vai diretamente à pessoa de Cristo através de uma união imediata com Ele, sem intermediários: um esponsório espiritual verdadeiramente completo e decisivo. Assim, nas pessoas daqueles que professam e vivem a castidade consagrada, a Igreja exprime no mais alto grau a sua união de Esposa com Cristo Esposo. [4]

Implicado nessas palavras está, no entanto, um alerta salutar. Uma pessoa que renuncia ao casamento — um monge ou religiosa, um padre, um bispo — não será melhor por isso se não usar a liberdade de seu coração para se devotar mais completamente a Deus e ao serviço da Igreja. De fato, ele será pior, visto que lhe faltará o grande bem do Matrimônio assim como o bem superior da virgindade ou do celibato “por causa do Reino” — justamente a orientação que torna essa escolha um bem tão elevado.

Além disso, a intensidade e a firmeza no propósito de perseguir a meta da santidade, seja qual for o meio que se escolha para tanto, são muito mais importantes que os meios enquanto tais. Para ser mais concreto, é melhor buscar a santidade no Matrimônio de todo o coração, do que procurá-la na vida religiosa com o coração dividido ao meio.

Nosso Senhor providenciou para nós dois nobres caminhos, um bom e um melhor, para entrarmos no mistério de sua união nupcial indissolúvel com a Igreja: através de uma imagem sacramental dessa união, no Matrimônio, e através de uma participação mística nessa mesma união, na vida consagrada.

Referências

  1. Cf. Concílio de Trento, 24.ª Sessão, Doutrina e cânones sobre o sacramento do Matrimônio, 11 nov. 1563, cân. 10 (DH 1810): “Se alguém disser que o estado conjugal deve ser preferido ao estado de virgindade ou celibato, e que não é melhor e mais valioso permanecer na virgindade ou celibato do que unir-se em matrimônio: seja anátema”.
  2. Santo Tomás de Aquino, Liber de perfectione spiritualis vitae, c. 6.
  3. Cf. Papa Pio XII, Carta Encíclica Sacra Virginitas, 25 de março de 1954, nn. 37-39 (DH 3911-3912).
  4. Papa João Paulo II, Audiência Geral, 23 de novembro de 1994, n. 4.

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Um Cardeal contra a ditadura do relativismo
Testemunhos

Um Cardeal contra
a ditadura do relativismo

Um Cardeal contra a ditadura do relativismo

Muito antes de o Cardeal Ratzinger denunciar a “ditadura do relativismo”, um prelado inglês dedicara sua vida a lutar contra a mesma coisa. Mas na sua época o nome do inimigo era outro.

Hermann Geissler,  EWTNTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Julho de 2018
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No Consistório de 15 de maio de 1879, John Henry Newman foi criado Cardeal da Santa Igreja Romana. Leão XIII, que há pouco fora eleito Papa, quis conferir pessoalmente a dignidade de Cardeal ao famoso convertido, a quem ele carinhosamente chamava na audiência “meu Cardeal”.

Ao receber o biglietto com a notícia de sua elevação ao cardinalato, três dias antes do Consistório acima mencionado, Newman falou às pessoas presentes na residência do Cardeal Howard, em Roma. Seu discurso se tornaria célebre.

Depois de agradecer ao Santo Padre por tão grande honra, ele disse humildemente que cometera “muitos erros” em sua vida e que não possuía nada “da elevada perfeição que caracteriza os escritos dos santos”. Acrescentou, no entanto, ter agido sempre com “uma intenção honesta, sem interesses pessoais, uma têmpera de obediência, uma disposição a ser corrigido, um horror ao erro, um desejo de servir a Santa Igreja e, por misericórdia de Deus, uma justa medida de sucesso”.

O recém-eleito Cardeal resumiu, então, o núcleo essencial de sua missão como pastor e teólogo:

Alegro-me em dizer que a um grande mal desde o princípio eu me opus. Resisti por 30, 40, 50 anos, com o melhor que estava ao meu alcance fazer, ao espírito de liberalismo em religião [1]. Nunca a Santa Igreja precisou tão intensamente como agora de defensores contra esse erro, quando infelizmente ele se espalhou como uma armadilha por todo o mundo; e, nessa grande ocasião, quando é natural para alguém em minha posição olhar para o mundo, para a Santa Igreja e para o seu futuro, eu espero que não seja fora de propósito renovar o protesto que eu tão frequentemente tenho feito contra ele.

Para celebrar a memória desse grande Cardeal, seria apropriado mencionar certos estágios de sua vida, com o propósito de ilustrar seu exemplar compromisso no serviço da Verdade.

Conversão: Deus e dogma

Newman, em foto mais jovem.

O Cardeal Newman nasceu em Londres, a 21 de fevereiro de 1801. Foi criado na tradição anglicana e, na juventude, tinha uma forte inclinação religiosa, que se expressava na leitura da Bíblia. Desde a mais tenra idade, a Sagrada Escritura forneceu-lhe altos padrões morais, mas seu potencial intelectual exigia algo mais preciso e mais claramente definido.

Bem cedo, quando contava apenas 14 anos, ele foi tentado pela descrença e pela autossuficiência. Queria ser um homem honrado, mas sem acreditar em Deus. “Lembro-me que queria ser virtuoso sem ser religioso”, escreve. “Eu não havia entendido o que significava amar a Deus.” Enquanto o jovem estudante lutava com essa tentação, Deus bateu-lhe à porta do coração.

Durante as férias de 1816, ele leu Force of Truth, de Thomas Scott, e o conteúdo do livro deixou-lhe uma profunda impressão. Experimentou em seguida sua “primeira conversão”, que ele mesmo considerava uma das graças mais significativas de sua vida. A experiência envolvia uma consciência aguçada da existência e da presença de Deus, bem como do mundo invisível.

Em sua Apologia pro vita sua, Newman confessou que essa experiência teve uma grande influência em sua personalidade,

isolando-me dos objetos que me rodeavam, confirmando-me na desconfiança da realidade dos fenômenos materiais e fazendo com que concentrasse todos os meus pensamentos em dois seres, dois únicos seres, de evidência luminosa e absoluta, eu e meu Criador. [2]

Ele também escolheu da obra de Scott duas frases que marcariam toda a sua vida: “É preferível a santidade à paz” e “O progresso é a única evidência da vida” [3].

Depois dessa primeira conversão, Newman procurou amar a Deus sobre todas as coisas e seguir a Verdade sem concessões:

Aos quinze anos (no outono de 1816), operou-se uma grande mudança nos meus pensamentos. Sofri o influxo de um credo bem definido, meu espírito ressentiu a impressão do que era um dogma, impressão que, graças a Deus, nunca mais me deixou, nem se ofuscou. [4]

Ele começou a perceber, então, a importância dos grandes dogmas cristãos: a Encarnação do Filho de Deus, a obra da Redenção de Cristo, o dom do Espírito que habita na alma da pessoa batizada, a fé que não pode permanecer como uma simples teoria, devendo exprimir-se em um programa de vida.

O Movimento de Oxford

Depois de seus estudos no Trinity College, em Oxford, Newman foi eleito fellow do Oriel College. Tornou-se ministro anglicano e, depois, vigário de Santa Maria, igreja da Universidade de Oxford. No Oriel College ele conheceu alguns representantes da Alta Igreja Anglicana e começou a se interessar pelos Padres da Igreja. Neles descobriu o frescor e a honestidade da Igreja primitiva, que tinha de lançar raízes em um mundo pagão.

O Cardeal Newman em Roma.

Ao mesmo tempo, sentia-se cada vez mais insatisfeito com a situação espiritual de sua confissão religiosa e preocupado com a crescente influência do liberalismo em Oxford e por toda a Inglaterra. Para combater essas tendências, Newman, juntamente com alguns amigos, fundou o Movimento de Oxford em 1833. Seus defensores denunciavam o distanciamento da nação da prática da fé e lutavam por um retorno ao Cristianismo primitivo por meio de uma sadia reforma dogmática, espiritual e litúrgica.

Newman resume o princípio fundamental do Movimento de Oxford com as seguintes palavras:

Minha luta era contra o liberalismo. Por liberalismo entendia o princípio antidogmático e seus desenvolvimentos. […] Desde os quinze anos, o dogma tem sido o princípio fundamental da minha religião; não conheço outra; não posso conceber a ideia de nenhuma outra religião. Religião de puro sentimento é um sonho e um escárnio. Piedade que prescinde da existência de um Ser Supremo é o mesmo que amor filial sem pais. [5]

Fica claro, a partir disso, que a doutrina do liberalismo que Newman rejeitava é idêntica à concepção relativista da religião e da moral.

Publicando tracts (“panfletos”) fáceis de disseminar, o Movimento de Oxford se esforçava por penetrar as consciências dos eclesiásticos, bem como dos simples fiéis, que se encontravam entre os extremos do sentimentalismo e do racionalismo.

Newman percebeu que a polêmica contra o liberalismo religioso exigia uma doutrina fundamental sólida. Ele estava convencido de ter encontrado a base para tanto nos escritos dos Padres, que ele admirava como os verdadeiros arautos e mestres da fé cristã, representantes daquela religião antiga “que praticamente desaparecera desta terra e que devia ser ressuscitada”.

Enquanto o Movimento de Oxford se expandia, Newman desenvolveu a teoria da Via Media. Com isso ele pretendia demonstrar que a Comunhão Anglicana era a legítima herdeira do Cristianismo primitivo e a verdadeira Igreja de Cristo, já que não possuía nenhum sinal nem dos erros doutrinais dos protestantes nem da corrupção e dos abusos que ele acreditava existir na Igreja de Roma.

Em direção à Igreja Católica

O Cardeal Newman, em pintura de John Everett Millais.

A Via Media de Newman estava calcada no dogma, no sistema sacramental e no antirromanismo. Entretanto, estudando a história da Igreja no século IV, Newman fez uma grande descoberta: percebeu o Cristianismo do seu próprio século refletido em três grupos religiosos daquele período: nos arianos, os protestantes; nos ortodoxos, a Igreja de Roma; nos semiarianos, os anglicanos [6]. Essa constatação suscitou-lhe as primeiras dúvidas a respeito da Comunhão Anglicana.

Pouco tempo depois, ele leu um artigo no qual a posição dos donatistas africanos à época de Agostinho era comparada à dos anglicanos. Newman não conseguia esquecer a frase: Securus judicat orbis terrarum, citada por Santo Agostinho [7]: “A Igreja universal, em seus juízos, está segura da Verdade”, na tradução do próprio Newman.

Ele percebeu que os conflitos doutrinários na Igreja antiga eram resolvidos não só com base no princípio da antiguidade, mas também no da catolicidade: a opinião da Igreja como um todo é um decreto infalível. Consequentemente, “a teoria da Via Media ficava absolutamente pulverizada”.

Fiel ao princípio de respeitar a Verdade, Newman decidiu retirar-se em Littlemore, um pequeno vilarejo próximo de Oxford, para alguns anos de oração e estudo. Ele começou a juntar as peças de uma reflexão que há anos o ocupava: se a Igreja Católica Romana faz parte da sucessão apostólica, como justificar aquelas doutrinas suas que não pareciam fazer parte do patrimônio de fé legado pelo Cristianismo primitivo?

O princípio do desenvolvimento autêntico que ele formulou habilitava-o a justificar vários novos ensinamentos na vida da Igreja: os dogmas tardios eram desenvolvimentos autênticos da Revelação original. Ele ilustrou esse argumento, crucial para o seu futuro, em um ensaio intitulado An Essay on the Development of Christian Doctrine.

Nesta obra-prima teológica, há uma passagem em que, rejeitando a ideia de que verdade e erro em matéria religiosa seriam supostamente uma questão de opinião e de que a salvação não dependeria de uma profissão correta da fé, Newman reafirma o que costumava chamar de princípio dogmático:

De que há, portanto, uma verdade; de que há uma só verdade; de que o erro religioso é, em si mesmo, de natureza imoral; de que seus defensores, a menos que o façam involuntariamente, são culpados em defendê-lo; de que ele é de se temer; de que a busca pela Verdade não é a gratificação da curiosidade; de que sua obtenção não tem nada do entusiasmo de uma descoberta; de que a mente está sujeita à verdade e, portanto, não lhe é superior, estando aquela obrigada não a dissertar sobre esta, mas a venerá-la; de que a verdade e a falsidade são colocadas diante de nós para provar os nossos corações; de que nossa escolha é um terrível desenho do destino no qual está inscrita ou a nossa salvação ou a nossa condenação; de que “quem quiser salvar-se deve antes de tudo professar a fé católica”; de que “quem quiser salvar-se deve pensar assim a respeito da Trindade” (cf. Símbolo Atanasiano), e não de outro modo; de que, “se tu apelares à penetração, se invocares a inteligência, buscando-a como se procura a prata, se a pesquisares como um tesouro, então compreenderás o temor do Senhor, e descobrirás o conhecimento de Deus” (Pr 2, 3-5). Esse é o princípio dogmático, que tem força.

Enquanto Newman assim procedia com seus estudos sobre o desenvolvimento da doutrina cristã, ele percebeu que a Igreja de Roma era a Igreja dos Padres, a verdadeira Igreja de Cristo.

Em sua Apologia ele escreveu:

Tudo isso levou-me a examinar mais atentamente o que não duvido fosse de muito objeto das minhas considerações, isto é, o encadeamento de argumentos por meio do qual o espírito progride das suas primeiras ideias religiosas até às últimas; cheguei à conclusão de que em verdadeira filosofia não há meio termo entre ateísmo e catolicismo, e de que um espírito consequente consigo mesmo, nas circunstâncias em que se acha neste mundo, deve abraçar um ou outro. [8]

Em 9 de outubro de 1845, Newman abraçou a fé católica e foi recebido na Igreja — “no único redil de Cristo” [9], como ele escreveu — pelo beato Dominic Barberi, um passionista italiano.

“Testes” pela Verdade

O Cardeal Newman, já em idade avançada.

Depois de ordenar-se padre católico, Newman fundou o Oratório de São Filipe Néri em Birmingham. Em suas muitas atividades pastorais e teológicas, trabalhou sobretudo para formar intelectual e espiritualmente os fiéis católicos, seus confrades e novos convertidos. De fato, ele estava convencido de que os grandes desenvolvimentos culturais e sociais da época exigiam uma fé que fosse capaz de demonstrar as razões para se ter esperança.

Em meio a numerosas dificuldades e desentendimentos de vários lados, ele trabalhou incansavelmente para incutir cultura nos leigos, “pessoas do mundo para o mundo”, mas que fossem iluminados por uma fé radiante, que eles mesmos seriam capazes de defender.

Veio à luz em 1870 uma obra sua intitulada An Essay in Aid of a Grammar of Assent. Neste outro clássico, Newman analisa filosoficamente o ato de assentimento da mente humana às verdades reveladas, procurando defender o direito das pessoas comuns à segurança nessa matéria, ainda que elas não sejam capazes de justificar e formular a fé por si mesmas. Nesse ensaio, o autor mostra de modo convincente e oportuno como a mente pode alcançar segurança, tanto em geral quanto na área da fé.

Na seção que conclui o livro, Newman nos dá como legado uma bonita passagem na qual resume o difícil teste pela Verdade, comparando-a com a religião natural, as promessas feitas aos ao povo de Israel e as várias religiões que havia espalhadas pelo Império Romano. Esta passagem, particularmente importante no mundo de hoje, onde o Cristianismo é chamado a se afirmar e espalhar em uma sociedade pluralista e multirreligiosa, diz o seguinte:

A religião natural é baseada no sentido de pecado; ela reconhece a doença, mas não é capaz de encontrar, só o que ela faz é procurar, o remédio. Esse remédio, tanto para a culpa quanto para a impotência moral, encontra-se na doutrina central da Revelação, a Mediação de Cristo.

É assim que o Cristianismo é o cumprimento da promessa feita a Abraão e das revelações mosaicas. Foi deste modo que, desde o começo, ele foi capaz de ocupar o mundo e dominar cada classe social que seus pregadores alcançavam; foi por isso que o poder romano, bem como as inúmeras religiões por ele abraçadas, não lhe puderam resistir; foi esse o segredo de sua energia perene e de seus martírios intermináveis; é por isso que, no presente, ele é tão misteriosamente poderoso, apesar dos novos e temíveis adversários que lhe obstruem o caminho.

O Cristianismo traz consigo aquele dom de estancar e curar a chaga profunda da natureza humana, fato que conta mais para o seu sucesso do que uma enciclopédia repleta de conhecimento científico e uma livraria inteira de controvérsias, e por essa razão ele deve durar enquanto durar a natureza humana. Trata-se de uma verdade vital que não envelhecerá jamais.

Algumas pessoas falam do Cristianismo como se fosse uma coisa da história, com influências apenas indiretas sobre os tempos modernos, mas eu não posso consentir em que ele seja uma religião meramente histórica. Suas fundações certamente se encontram em gloriosas memórias passadas, mas seu poder está no presente. Não se trata de “saudosismo”; nós não o contemplamos em conclusões retiradas de documentos mudos e eventos mortos, mas através da fé exercida sobre objetos eternos, da posse e do uso de dons sempre recorrentes.

Nossa comunhão com o Cristianismo está no invisível, não no obsoleto. Até os dias de hoje seus ritos e cerimônias estão continuamente revelando a intervenção ativa daquela Onipotência em que há muito tempo começou a religião. Primeiramente e acima de tudo está a Santa Missa, na qual Ele, que morreu uma vez por nós sobre a Cruz, traz de volta e perpetua, através de sua presença literal nela, aquele único e mesmo sacrifício que não se pode repetir.

Depois, há a verdadeira entrada dEle, em corpo, alma e divindade, no corpo e na alma de cada adorador que dEle se aproxima para receber esse dom — um privilégio mais íntimo do que se convivêssemos com Ele durante sua estadia temporária e de longa data sobre a terra.

Há então, além disso, a sua permanência pessoal em nossas igrejas, elevando toda liturgia terrena a um antegozo do céu.

Tal é o modo como se professa o Cristianismo e, eu repito, o próprio fato de ele “adivinhar” as nossas necessidades constitui, em si mesmo, uma prova de que ele é realmente o suprimento delas.

Contra o liberalismo religioso

Concluímos retornando ao discurso de Newman, feito quando de sua elevação ao Colégio de Cardeais. Naquela ocasião, ele renovou seu protesto contra o liberalismo religioso, dando uma descrição precisa daquilo em que ele consiste — uma descrição cujo caráter profético é óbvio em nossa época:

Liberalismo em religião é a doutrina de que não existe nenhuma verdade positiva em religião, mas de que um credo é tão bom quanto qualquer outro, e é esse o ensinamento que está ganhando força e substância dia após dia. É inconsistente com qualquer reconhecimento de uma religião como verdadeira. Ensina que todas devem ser toleradas, pois todas são uma questão de opinião.

A religião revelada não é uma verdade, mas um sentimento e um “gosto”; não se trata de um fato objetivo, milagroso; e é direito de cada indivíduo fazê-la dizer apenas o que lhe manda a fantasia.

A devoção não necessariamente se funda sobre a fé. Os homens podem ir a igrejas protestantes e a católicas, podem se alimentar das duas e pertencer a nenhuma delas. Podem confraternizar juntos em pensamentos e sentimentos espirituais, sem ter quaisquer visões de doutrina em comum, nem ver a necessidade disso.

Visto que, então, a religião é uma peculiaridade tão pessoal e privada, nós devemos necessariamente ignorá-la nas relações humanas. Se uma pessoa “veste” uma nova religião a cada manhã, ninguém tem nada a ver com isso. Pensar sobre a religião de uma pessoa é tão impertinente quanto pensar em suas fontes de renda ou na gestão de sua família. A religião em nenhum sentido é o vínculo da sociedade.

Hoje nós somos testemunhas de uma mentalidade, difundida em muitos ambientes, que sustenta precisamente essas ideias, denunciadas por Newman, com consequências muito graves para a causa da Verdade, para o diálogo ecumênico e interreligioso, para a liturgia e a espiritualidade, bem como para a dimensão social e cultural da fé.

O Beato Cardeal Newman pode lembrar a todos, pastores e fiéis leigos, que a Verdade é um tesouro muito precioso a ser aceito com fé, proclamado com honestidade e defendido com força. “Normalmente a Igreja nada tem a fazer”, assim conclui o Cardeal Newman o seu discurso, “a não ser cumprir com seus próprios deveres, com confiança e em paz, esperando ver a salvação de Deus”.

Referências

  1. “Desde o fim do século XVIII a palavra [Liberalismo] tem sido aplicada mais e mais a certas tendências na vida intelectual, religiosa, política e econômica, que implicam uma emancipação parcial ou total do homem em relação à ordem divina, sobrenatural e moral. […] [O Liberalismo Católico], em geral, advoga largueza na interpretação do dogma, descuido ou desconsideração com os decretos disciplinares e doutrinais das congregações romanas, simpatia pelo Estado mesmo em suas ações contra a liberdade da Igreja, e uma disposição em considerar como clericalismo os esforços da Igreja em proteger os direitos da família e dos indivíduos ao livre exercício da religião.” (Gruber, H. [1910]. Liberalismo. Em: The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company)
  2. John Henry Newman. Apologia pro vita sua, ou História das minhas Opiniões Religiosas (trad. port. de F. Machado da Fonseca). São Paulo: Paulinas, 1963, p. 32.
  3. Ibid., p. 33.
  4. Ibid., p. 31.
  5. Ibid., p. 91.
  6. Cf. Ibid., pp. 167s; 197s.
  7. Cf. Ibid., p. 170.
  8. Ibid., p. 266.
  9. Ibid., p. 307.

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