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Deus predestinou uns ao céu e outros ao inferno?
Doutrina

Deus predestinou
uns ao céu e outros ao inferno?

Deus predestinou
uns ao céu e outros ao inferno?

Se Deus criou os homens sabendo que iriam uns para o céu e outros para o inferno, seria correto dizer que Ele “predestinou” algumas almas a serem condenadas?

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Janeiro de 2019
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Se Deus criou os homens sabendo que iriam uns para o céu e outros, para o inferno, seria correto dizer que Ele predestinou algumas almas a serem condenadas, assim como predestinou outras à salvação eterna?

Deve guiar-nos nesta resposta um versículo bíblico: “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4). Isso significa, em primeiro lugar, que não: Deus não criou nenhum ser humano com a intenção de condená-lo ao inferno. Essa tese — assumida por Calvino em suas consequências mais absurdas, a ponto de o herege reformador defender que Deus teria predestinado o ser humano inclusive ao pecado — deve ser descartada antes de qualquer coisa, sob o risco de blasfemarmos contra a justiça e a santidade divinas. Adotá-la equivaleria a dizer que Deus deseja o mal a suas criaturas.

Mas o termo predestinação admite, de fato, inúmeros sentidos. Por isso, antes de nos aprofundarmos na questão teológica, seria importante deixar bem claro a que, afinal, estamos nos referindo quando usamos este termo.

Em um sentido mais amplo, predestinação seria “todo decreto divino por meio do qual Deus, devido à infalível presciência que tem do futuro, fixou e ordenou desde a eternidade todos os eventos que ocorreriam no tempo, especialmente os procedentes diretamente, ou pelo menos influenciados pelo livre-arbítrio do homem” [1]. Neste sentido, falar de predestinação seria o mesmo que falar da Providência Divina, que todas as coisas governa com sabedoria.

Em um sentido mais estrito, porém, a predestinação diz respeito ao destino eterno que Deus tem reservado para suas criaturas racionais e, em especial, aos seres humanos. Teríamos de falar aqui, portanto, de uma dupla predestinação: uma ao céu e outra ao inferno (sendo esta mais comumente chamada de “reprovação”).

Mas as duas precisam ser entendidas do modo ortodoxo. Santo Tomás de Aquino, ao responder se Deus reprova algum homem (S. Th., I, q. 23, a. 3), explica que “a predestinação [ao céu] inclui a vontade de conferir a graça e a glória, assim também a reprovação inclui a vontade de permitir que alguém caia em culpa e de infligir a pena da condenação por esta culpa”. Note-se que os verbos usados pelo Aquinate não são os mesmos: em relação aos predestinados, há a vontade de conferir a graça e a glória; em relação aos condenados, há a vontade de permitir que pequem e de infligir a pena devida pelo pecado. As palavras são importantes porque deixam clara a interferência da liberdade humana no projeto original de Deus: embora Ele queira, de fato, que todos os homens se salvem, alguns, em virtude do “não” que respondem ao amor divino, terminam se condenando.

Explicação melhor a esse respeito encontramos ainda na Suma Teológica, quando Santo Tomás afirma, em relação à passagem de que “Deus quer que todos os homens se salvem”, tratar-se aqui de sua vontade antecedente, e não de sua vontade consequente:

Essa distinção não se toma da parte da própria vontade divina, em que não existe antes nem depois, mas da parte das coisas que Ele quer. Para compreendê-lo, é preciso considerar que qualquer coisa, na medida em que é boa, é querida por Deus. Ora, algo pode ser à primeira vista considerado, de modo absoluto, bom ou mau; ao passo que, considerado com outra coisa, e esta é uma consideração consequente, seja exatamente o contrário.

Por exemplo: que um homem esteja vivo é um bem, matar um homem é mal, se consideramos de modo absoluto. Se, contudo, se acrescenta, para determinado homem, que é um assassino ou um perigo para a coletividade, sob esse aspecto é bom que este homem seja morto, é um mal que viva. Daí poder-se falar de um juiz justo: quanto à vontade antecedente quer que todo homem viva, mas quanto à vontade consequente quer que o assassino seja enforcado. Assim também Deus quer, quanto à vontade antecedente, que todos os homens sejam salvos, mas quanto à vontade consequente quer que alguns sejam condenados, segundo exige sua justiça (I, q. 19, a. 6, ad 1).

Em suma, o responsável pela própria condenação é sempre o homem, nunca Deus.

O mesmo não se pode dizer, no entanto, da predestinação ao céu, sob o risco de incorrermos no extremo do pelagianismo. A obra da salvação do homem, desde o início até a sua consumação, é de iniciativa divina, pois é Deus “que opera em nós o querer e o fazer” (Fl 2, 13): Ele, “aos que predestinou, também os chamou; e aos que chamou, também os justificou; e aos que justificou, também os glorificou” (Rm 8, 30).

Esse trabalho de Deus não dispensa, é claro, a colaboração humana: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”, dizia Santo Agostinho. Em inúmeras passagens do Evangelho, o céu e o inferno são tratados como o “prêmio” e o “castigo” eternos devidos a nossas obras boas ou más. Não é verdade, portanto, que nos salvaremos por puro arbítrio divino, não importando o que fizermos ou deixarmos de fazer. Se o nosso nome estiver escrito no Livro da Vida, isso se deverá sem dúvida nenhuma à misericórdia divina, mas à misericórdia que nós livremente aceitamos dizendo “sim”, dia após dia, à vontade de Deus.

Nesta vida, porém, ninguém pode estar seguro da própria salvação. Escutemos a esse respeito o que ensinou o imortal Concílio de Trento, respondendo às angústias mal resolvidas dos autores da “Reforma” Protestante e advertindo-nos da necessidade de viver santamente:

Ninguém [...], enquanto vive nesta condição mortal, deve presumir do arcano mistério da predestinação divina a ponto de se julgar, seguramente, no número dos predestinados, como se fosse verdade que quem foi justificado ou não pode mais pecar ou, se pecar, deve contar com um seguro arrependimento. Pois não se pode saber a quem Deus escolheu para si, senão por uma especial revelação.

De modo semelhante deve-se dizer em relação ao dom da perseverança, do qual está escrito: “Quem perseverar até o fim, será salvo” (Mt 10, 22) [...]. Ninguém, quanto a este dom, imagine alguma coisa com absoluta certeza, embora todos devam nutrir e guardar firmíssima esperança no auxílio de Deus. Pois, se não falharem quanto à sua graça, Deus, como começou a boa obra, assim também a levará a termo, operando o querer e o realizar (cf. Fl 2, 13).

Todavia, aqueles que crêem estar em pé cuidem de não cair (cf. 1Cor 10, 12) e realizem a própria salvação com temor e tremor (cf. Fl 2, 12), nas fadigas, nas vigílias, nas esmolas, nas orações e nas ofertas, nos jejuns e na castidade (cf. 2Cor 6, 5s). Sabendo que foram regenerados na esperança da glória (cf. 1Pd 1, 3), mas não ainda na glória, devem temer pela batalha que ainda resta contra a carne, contra o mundo, contra o diabo, da qual não podem sair vencedores, se não obedecerem, com a graça de Deus, às palavras do Apóstolo: “Somos devedores, mas não à carne, para vivermos segundo a carne; pois, se viveis segundo a carne, morrereis. Se, ao contrário, no Espírito fazeis morrer as obras da carne, vivereis” (Rm 8, 12) [2].

— Agora estou em parafusos! Ninguém pode ter certeza da própria salvação? É possível, então, que uma pessoa cumpra a vontade de Deus ao longo de toda a vida e, no último instante, consentindo em um pecado mortal, seja condenada ao inferno? Como pensar nisso e não enlouquecer?

Tendo “firmíssima esperança no auxílio de Deus”, como diz o Concílio de Trento e como ensina este episódio da biografia de São Francisco de Sales:

Entre fins de 1586 e começos de 1587, quando ainda estudava em Paris, [Francisco] tomara contato com a tese teológica da predestinação, defendida pelos protestantes (em especial Calvino) e por alguns autores católicos, e muito discutida na universidade. Ao debruçar-se sobre esse problema, começara a duvidar da própria salvação — muito embora, tanto quanto é possível sabê-lo, nunca tenha cometido um único pecado mortal —, e passara uns bons dois meses acossado por uma tentação obsessiva de desespero que lhe ia roendo a paz de espírito e até a saúde física.

Livrara-se dela num dia em que, ajoelhado diante de uma imagem de Nossa Senhora, fizera a única coisa possível a quem se encontra nessa situação: um ato heroico de abandono e de esperança em Deus. Declarou ao Senhor que estava disposto a amá-lo durante esta vida mesmo que o seu destino fosse a condenação eterna, e abandonou todas as dúvidas acerca da sua salvação na Misericórdia divina [3].

A exemplo de São Francisco de Sales, confiemo-nos à Virgem Maria, “esperança nossa”, sempre que nos ocorrer qualquer tentação, seja ao desespero, seja à presunção. E aprendamos a ter sempre em mente este ato de esperança: “Eu espero, meu Deus, com firme confiança, que pelos merecimentos de meu Senhor Jesus Cristo, me dareis a salvação eterna e as graças necessárias para consegui-la, porque vós, sumamente bom e poderoso, o haveis prometido a quem observar fielmente os vossos mandamentos, como eu proponho fazer com o vosso auxílio”. Amém.

Referências

  1. Joseph Pole, “Predestination”. The Catholic Encyclopedia, v. 12. New York: Robert Appleton Company, 1911.
  2. Concílio de Trento, Decreto sobre a justificação, 6.ª sessão, 13 jan. 1547, cc. 12-13 (DH 1540-1541).
  3. Joseph Tissot, A arte de aproveitar as próprias faltas, trad. de Emérico da Gama. 3.ª ed., São Paulo: Quadrante, 2003, p. 10.

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O verdadeiro “sexto sentido”
Espiritualidade

O verdadeiro “sexto sentido”

O verdadeiro “sexto sentido”

Se tivéssemos um “sexto sentido” aguçado para falarmos com nossos entes queridos que já se foram, isso ainda seria muito pouco, diante da dádiva que é nos relacionarmos com o próprio Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Janeiro de 2019
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Quando deixam de acreditar em Deus, as pessoas passam a acreditar em qualquer coisa”: eis uma sentença atualíssima de G. K. Chesterton. Não é novidade para ninguém que nosso mundo, ainda que se denomine católico nesta ou naquela região, vive uma terrível perda generalizada da fé. Pessoas, famílias e sociedades que se orgulhavam de seu batismo, que se ufanavam do título de cristãs, hoje conservam dessa prática religiosa apenas uma vaga lembrança.

Não seria exato dizer, no entanto, que nos transformamos em ateus. Não. O homem é um ser essencialmente religioso, de modo que, se não adora o Deus com “d” maiúsculo, fatalmente ele molda para si outros deuses, com “d” minúsculo; se não é o Evangelho de Cristo e o Catecismo da Igreja que nossa época segue, então são as crendices, as superstições e as idolatrias que predominam.

A crença de que os mortos estão de alguma forma entre nós, por exemplo, é praticamente o ar que respiramos, principalmente no Brasil, devido às fortes influências espíritas que infelizmente recebemos da mídia e de nossos antepassados. Vários anos atrás fez muito sucesso em todo o mundo a produção O Sexto Sentido, cujo enredo reafirma justamente esta tese: a de que as pessoas que morrem, no fundo, não nos deixam, estão andando entre nós, e a algumas pessoas especiais (os chamados “médiuns”) essas almas até apareceriam com certa frequência para revelar ou pedir que sejam feitas certas coisas etc.

Como todo “bom erro”, também este se serve de elementos de verdade para convencer os incautos. Ora, que exista uma vida além desta, todo católico que vá à Missa aos domingos o confessa quando diz: “Creio na vida eterna”. Aparições de pessoas que já morreram, por sua vez, são tão velhas quanto é velha a humanidade, e até a Igreja Católica admite a sua possibilidade extraordinária. Basta pensar nas inúmeras aparições de Nossa Senhora, de Saragoça a Fátima, ou nas visitas que as almas do Purgatório vez ou outra fazem aos vivos, pedindo orações e atestando as verdades de fé que aprendemos na catequese.

Disso não se segue, porém, que não haja barreira entre vivos e mortos nem que comunicações vindas do além sejam como que o pão que comemos todas as manhãs. A sã doutrina católica ensina-nos, a propósito, em consonância com inúmeras passagens bíblicas (cf. Lv 20, 27; Dt 18, 10ss; 1Cr 10, 13; Eclo 34, 2; Is 8, 19; 44, 25; Cl 2, 18), que é pecado tentar estabelecer contato com as almas de nossos entes falecidos. Fazer disso um “dom” ou uma profissão, então, nem se fale.

Mas para Hollywood e para nossos espíritas essa suposta “sensibilidade” para falar com os falecidos seria uma espécie de “sexto sentido”. A ideia por trás é a de um órgão humano mesmo, atrofiado na maioria das pessoas, mas que seria necessário desenvolver, talvez se tornando um “médium” profissional ou coisa do gênero. E o fato de ser um sentido a mais, além dos outros cinco que possuímos — visão, audição, tato, olfato e paladar —, passa a ideia de um conhecimento transcendente, superior. Trocando em miúdos, esse é o máximo que as pessoas conseguem vislumbrar em matéria de espiritualidade, seria esse o ápice da religiosidade moderna.

O que nos ensina, porém, a fé católica? O que Jesus Cristo veio nos ensinar dois mil anos atrás com seu Evangelho? Uma verdade muito mais poderosa e elevante do que a mensagem correntemente propagada pelo espiritismo: que Deus quer nos colocar em contato com Ele mesmo; que Ele quer nos fazer íntimos não apenas de nossos consanguíneos, ou dos santos e anjos do Céu, mas dEle próprio. Por isso, Ele não previu que sua doutrina fosse revelada aos homens por meio de espíritos desencarnados, mas enviou o seu próprio Filho ao mundo — “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai” —, e no-lo enviou na carne, a fim de que tomássemos parte em sua natureza divina (cf. 2Pd 1, 4). Eis a grande novidade do cristianismo, à qual infelizmente a nossa cultura não tem acesso… porque não crê.

Se nos fosse permitido pegar emprestada aqui a ideia do “sexto sentido”, nós diríamos que, sim, todos os seres humanos o têm, e devem usá-lo, e devem aperfeiçoá-lo. Mas este sentido, de que se trata propriamente?

A boa teologia católica nos ensina que a graça santificante, que todos recebemos no sacramento do Batismo, gera em nós um verdadeiro organismo sobrenatural, criado por Deus na alma e com o qual nos relacionamos não com uma alma penada ou outra — pois isso, sinceramente, seria muito pouco, já que a sede de felicidade de nossa alma clama pelo infinito, clama pelo eterno, clama por Deus, e nenhuma criatura neste mundo, por mais amor que tenhamos tido por ela nesta vida, é capaz de preencher esse vazio… Com esse organismo, nós nos relacionamos com o próprio Deus vivo, que nos alimenta continuamente através da oração e dos sacramentos de sua Santa Igreja.

Isso só nos parece pouca coisa — e muitos de nós talvez gostaríamos de ter mais a presença dos próprios entes queridos que a presença de um Deus que não somos capazes de tocar, sentir, pegar etc. — porque é pouca nossa fé, e grande o nosso “sentimentalismo”. Aqui, a analogia dos sentidos precisa ser retomada para nos recordar que a experiência religiosa é fundamentalmente uma experiência que transcende, que supera, diferentemente daquilo a que temos acesso com nossa visão, nosso tato e nossos outros sentidos. Nas palavras do Apóstolo, “coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Cor 2, 9).

Nosso Senhor também, ao falar do Reino de Deus, referiu-se certa vez a um tesouro escondido que, para ser encontrado, requer que também nós nos escondamos, nos retiremos no interior do nosso coração (cf. Mt 13, 44-46). Com isso, Cristo estava a indicar-nos que precisamos sair da experiência meramente sensorial para entrar em contato com Ele. A oração cristã, quando bem compreendida e realizada, é justamente essa experiência — a respeito da qual há vários cursos disponíveis em nosso site, a propósito.

Sem oração, desenganemo-nos, nossa única familiaridade será com as coisas daqui, com as realidades deste mundo terreno e passageiro. Se não tirarmos um pedaço do nosso dia para entrarmos em contato com as verdades divinas, para nos alimentarmos com a sua Palavra, viveremos só do que conhecemos com nossos sentidos, continuaremos na carne… e nosso destino eterno será o equivalente dessa escolha terrível: pereceremos juntamente com nossos cinco sentidos.

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E a música religiosa se fez barulho e repetição
Espiritualidade

E a música religiosa
se fez barulho e repetição

E a música religiosa
se fez barulho e repetição

Sem ascese, educação dos sentidos, oração íntima e luta séria contra o pecado, qualquer esforço musical para atrair as almas será inútil. E o que chamam de amor de Deus desaparecerá após o último acorde da canção.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Janeiro de 2019
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Melodias repetitivas, letras dramáticas, batidas eletrônicas, vocais sofisticados e videoclipes psicodélicos… Não, não estamos falando de nenhum disco de uma banda pop. Essa, leitores, parece ser a nova “pegada” da música gospel ou cristã de modo geral. Isso mesmo. Tanto no meio protestante como no católico, grupos têm se destacado por esse estilo que mistura “desabafo emocional” com “louvor a Deus”.

A novidade chama a atenção. Embora o canto religioso faça parte da tradição de diferentes confissões cristãs, o fenômeno que agora observamos é muito singular. “Esta música acabou de impedir meu suicídio”; “Não sou nada religiosa, mas que música maravilhosa”; “Chorei muito”. Comentários assim costumam acompanhar os clipes e músicas lançadas por esse novo nicho de cantores religiosos. Um gênero que antes parecia restrito aos grupos de oração, assembleias e cultos agora se expande para outros lugares, atraindo não-cristãos, homossexuais, ateus e jovens em geral.

Obviamente, trata-se de uma realidade emblemática, que pede, por isso mesmo, uma reflexão urgente sobre os meios de evangelização atuais. Não se pode negar a existência de um problema de comunicação entre a Igreja e o mundo. E, seja justo ou não, o conceito que muitos desse público afastado (homossexuais, ateus, agnósticos etc.) têm da Igreja é bastante negativo. Por não se acharem acolhidos, eles vão buscar refúgio em outros lugares, onde aparentemente podem expressar-se e receber atenção: as baladas, raves e outros festivais do tipo são como que os novos “templos de culto” onde essas pessoas podem extravasar e expor seus sentimentos por meio de todos aqueles ritmos, símbolos, sons e jogos de luzes. No fundo, o que desejam é preencher o próprio vazio com alguma coisa que lhes dê a sensação de serem amadas. E é aí que entra a “música eletrônica cristã”.

O objetivo desses novos musicais religiosos é justamente comunicar-se com “o público de fora da Igreja”, sobretudo com aqueles que se sentem marginalizados pela pregação cristã. Quando essas pessoas ouvem algum cristão cantando sobre suas dores, sentem-se logo atraídos pelo que pensam ser o amor de Deus. Desse modo, o amor de que estariam privados por não mais frequentarem alguma igreja, eles experimentam pelas sensações da letra e das batidas dessas canções. Para eles, é quase uma “experiência mística”.

Deve-se entender, porém, que os jovens vivem um período de transição da personalidade que se caracteriza pela necessidade de sentir-se amado e confirmado pelo mundo. Por isso, a parte afetiva de seus cérebros está mais “em alta” que a intelectiva. O que a música eletrônica faz é atiçar ainda mais aquela região cerebral, provocando ondas de sentimentos e excitações quase como um alucinógeno. Pela frequência alta de batidas nessas canções, a parte do cérebro responsável pela decodificação da harmonia das formas fica praticamente anestesiada, ao passo que a parte emocional continua em plena atividade. Isso explica os choros compulsivos, e até histéricos, que geralmente acontecem nesses grandes concertos musicais. Nas horas em que passam ouvindo essas batidas (o famoso “tam-tam”), esses jovens “saem do mundo real” e conseguem esquecer dos problemas que os angustiam.

A essência das “músicas eletrônicas cristãs” é exatamente igual à das demais, com sons repetitivos e suficientemente intensos para causar excitação. Não é de espantar, portanto, que públicos tão distintos se identifiquem com essas canções. Se, no fundo, o que querem é “alívio” e “bem-estar”, letras e melodias que provocam êxtase devem ser mesmo muito atraentes. A diferença entre uma e outra é meramente acidental. Mas o resultado sensível é, ao fim e ao cabo, o mesmo para todas as músicas do “tam-tam”, como diria o médico Minh Dung Nghiem: “Um estado de consciência alterada no qual o cérebro intelectual está perturbado, desligado do mundo exterior, e o cérebro emocional está excitado ao máximo”. Em outras palavras, as emoções predominam sobre a inteligência.

“Examinai tudo e guardai o que for bom”, ensina o Apóstolo (1Ts 5, 19-22). Essas músicas estão impedindo suicídios? Ótimo. Homossexuais estão se sentindo atraídos pela mensagem evangélica? Excelente. Céticos voltaram a pensar em Deus? Aleluia. Nada impede que a graça toque os corações por algum instrumento fora do convencional. O Espírito Santo sopra onde quer. Aliás, a Igreja precisa ir a esses grupos, acolhê-los, ouvi-los e confortá-los como uma verdadeira mãe consola um filho. Estamos, de fato, diante de uma juventude profundamente ferida e, por conseguinte, desiludida com a família, com o mundo e com a própria vida. Encontrar meios de renovar a fé, a esperança e o amor nesses corações é, de fato, uma tarefa imprescindível.

Por outro lado, o uso indiscriminado de qualquer meio para a evangelização pode converter-se num “topa tudo por fiéis”. A música eletrônica é, desde a sua raiz, uma arte para o entretenimento, que diverge profundamente do espírito da autêntica música sacra, por exemplo, cuja finalidade é excitar “mais facilmente os fiéis à piedade” e a que “se preparem melhor para receber os frutos da graça, próprios da celebração dos sagrados mistérios” (São Pio X, Tra le sollecitudini, n. 1). Enquanto esta atua sobre a região intelectual do cérebro, inspirando no coração sentimentos de devoção, silêncio e meditação profunda, aquela agita as paixões. Na sua forma, a música eletrônica não possui a delicadeza necessária para inspirar a santidade e a ordem, como no caso do canto gregoriano ou polifônico. Ao contrário, a música pop “está cada vez mais barulhenta e repetitiva”.

Os músicos cristãos devem distinguir bem essas duas realidades, a fim de que sua arte não se resuma a produzir espasmos emocionais que perturbam a inteligência e a vontade. O mecanismo da fé pressupõe um intelecto ordenado para a contemplação do mistério divino — fides quaerens intellectum. A autêntica evangelização, portanto, é aquela que provoca no coração da pessoa um incômodo real, que inspira desejos de vida santa e a leva para um encontro íntimo com Cristo. A cura para as feridas dos jovens está no amadurecimento, na descoberta de um sentido final em suas vidas, pelo qual eles devem se empenhar numa luta ascética e contemplativa. E essa descoberta só se faz pela meditação. A e o amor de Deus não são produzidos por batuques e guitarras frenéticas, que mais agitam o espírito do que o acalmam. A música não é um sacramento. Encontramos Deus, sim, na oração silenciosa, pela qual meditamos as verdades e tocamos realmente a Sua substância, como também na graça que emana de uma vida sacramental e, sobretudo, eucarística. Nenhuma música pode substituir a Eucaristia.

O que percebemos, no mais das vezes, é que muitos jovens acabam resumindo as suas relações com Deus às emoções do entretenimento musical. Confundem “unção” com “paixão”, de modo que o progresso espiritual não acontece. Não há, pois, verdadeiro amadurecimento nisso, e eles acabam agindo como Herodes diante de João Batista: “Ele gostava muito de ouvi-lo, mas ficava desconcertado” (Mc 6, 20). O tetrarca da Galileia não se deixava penetrar pelo que havia de verdadeiramente importante na mensagem do profeta, mas se entretinha talvez com a sua beleza retórica, tom de voz e eloquência. Herodes queria ouvir sobre Deus, sentir emoções como num espetáculo, mas não estava disposto a mudar de vida. O apelo do Batista o desconcertava. No fim das contas, as suas paixões deram cabo da vida de João, e a cabeça do profeta foi parar numa bandeja.

Trata-se de uma lição importante. Se a pregação de João Batista, cuja gravidade é inquestionável, servia apenas de entretenimento para Herodes, o que pensar de uma música religiosa que concentra seus esforços justamente no entretenimento vulgar? O poeta francês Paul Claudel converteu-se ao catolicismo escutando o singelo canto do Magnificat, durante uma Missa de Natal. Teria ele a mesma graça nos dias de hoje? Parece claro que o caminho deve ser mais amplo que o da mera inserção do pop dentro das liturgias e outras reuniões. Se não houver ascese, educação dos sentidos, meditação, oração íntima, vivência dos sacramentos e luta séria contra o pecado, qualquer esforço musical para atrair as almas será inútil. E o que chamam de amor de Deus desaparecerá após o último acorde da canção. Toda balada tem fim. Inclusive as que se consideram cristãs.

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A primeira grande crise da Igreja
Igreja Católica

A primeira grande crise da Igreja

A primeira grande crise da Igreja

Uma heresia poderosa, nos primeiros séculos do cristianismo, quase devastou a Igreja. Mas, como em todas as outras épocas, Deus não deixou de suscitar grandes santos para defender o depósito da fé e a verdade sobre seu Filho Jesus.

Rodney PelletierTradução: adaptação de Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Janeiro de 2019
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Conhecer e estudar a história da Igreja é algo que nos ajuda a compreender muitos dos acontecimentos de hoje e nos motiva a ter mais esperança na ação divina. Vejamos um caso particular.

O século IV viu o surgimento da sutil heresia do arianismo — uma negação virulenta da divindade de Jesus Cristo. Hoje isto nos parece “senso comum”: É óbvio que Jesus é Deus! Como poderia algum cristão dizer o contrário?” No entanto, desde o fim da era apostólica, no século II, até o século IV, essa foi uma doutrina que a Igreja teve de declarar oficialmente para esclarecer a confusão da época.

O arianismo manifestou-se desde o começo do cristianismo. Nosso Senhor mesmo teve de mostrar que não era apenas um profeta poderoso, mas uma Pessoa Divina. Para isso, realizou milagres e falou com uma autoridade jamais vista em um profeta de Israel.

Depois de sua ascensão ao Céu, os Apóstolos do Senhor ensinaram sua divindade, desde a pregação de São Pedro em Pentecostes até o Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1, 1). São João viu a necessidade de escrever seu Evangelho — tão notavelmente diferente dos outros três — para reforçar a doutrina de que Jesus Cristo é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, com uma natureza humana e uma divina.

E foi exatamente isso que acabou se tornando um obstáculo para muitos cristãos primitivos. A maioria das heresias que surgiram até o século IV envolviam erros de compreensão acerca de Jesus Cristo.

Esses erros alcançaram seu auge na teologia do padre Ário. Ordenado entre 312 e 313 d.C., em Alexandria, no Egito — um dos maiores centros de teologia cristã do mundo antigo —, Ário tinha uma história de adesão aos erros teológicos da seita lucianista e foi excomungado em 319 por Santo Alexandre, bispo de Alexandria. Apesar disso, ele era conhecido por seu ascetismo e sua pregação.

No centro de tanta controvérsia estava a palavra grega ὁμοούσιος (homo-ousios), que significa “da mesma substância”. Ário preferia a palavra ὁμοιούσιος (homo-i-ousios), que significa “de substância similar” — não igual em dignidade ou coeternidade com o Pai.

Como notou certa feita o grande padre e teólogo jesuíta John Hardon, nenhuma heresia jamais obteve sucesso sem antes receber o apoio de algum bispo católico. Não foi diferente com o arianismo. Embora Ário tivesse sido condenado pelo bispo Alexandre de Alexandria e pelo sínodo dos bispos egípcios em 321, o bispo Eusébio de Nicomédia era colaborador do heresiarca e favorito do imperador Constantino. Com o apelo de Ário ao poder político, em questão de poucos anos espalhou-se por todo o Império Romano a blasfêmia de que Jesus Cristo, longe de ser Deus, não passava de uma mera criatura.

Vendo os recém-legalizados cristãos divididos em um assunto tão importante, o imperador Constantino procurou reunir tanto o lado católico quanto o ariano para que eles chegassem a uma resolução. No ano de 325, então, em união com todos os bispos do mundo conhecido, ele convocou o Concílio Ecumênico de Niceia (atual Iznik, na Turquia). Quase dois mil bispos, padres e diáconos se juntaram para o concílio.

Afresco do século XVI retratando o Concílio de Niceia.

Em Niceia se reuniram grandes mentes católicas, como Santo Atanásio, à época diácono, Santo Hilário de Poitiers, São Nicolau e muitos outros. Embora Ário tivesse feito suas objeções, o concílio voltou-se contra ele, sustentando o ensinamento constante de Jesus Cristo tal como foi transmitido por seus Apóstolos.

Desde então, todos os católicos do Ocidente e do Oriente professam a divindade de Jesus Cristo tal como consta no Credo de Niceia: “Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por ele todas as coisas foram feitas.”

Ário e os outros bispos que se recusaram a aceitar o Credo de Niceia foram excomungados pelo concílio e exilados na Ilíria pelo imperador.

Apenas três anos mais tarde, Eusébio de Nicomédia escreveu uma carta a Constantino em nome de Ário, e o heresiarca foi admitido de volta. Ao contrário do que ocorreu no Concílio de Niceia, desta vez o imperador se envolveu diretamente nos assuntos religiosos e fez da teologia de Ário sua opção pessoal. Ário passou os sete anos seguintes sob a proteção do imperador, tornando difícil a vida dos católicos. O heresiarca nutria um ódio especial para com Santo Atanásio e conspirou para que o santo fosse expulso de sua diocese cinco vezes.

Em 335, Constantino ordenou ao bispo de Constantinopla que desse a Ário a Santa Comunhão como sinal de reconciliação. O patriarca, ciente de que Ário não estava arrependido, rezou para que o heresiarca morresse antes de causar escândalo e cometer esse sacrilégio. Conta-se que, estando Ário a caminho da Missa (advertência de linguagem forte),

apoderou-se dele um medo nascido da consciência de seus crimes; e com violência, naquele mesmo instante, soltou-se-lhe o ventre. Perguntou então se por ali havia latrinas e, como lhe dissessem que estavam atrás do fórum de Constantino, para lá se dirigiu. Logo em seguida começou a desfalecer, e juntamente com os excrementos saiu-lhe também o ânus [...]. Seguiu-se então uma grande hemorragia, e por fim foi expelido o intestino delgado junto com o baço e o fígado. E assim morreu ele sem demora (Sócrates Escolástico, História Eclesiástica, c. 38, PG 67, 177-178).

Apesar da vitória dos católicos no concílio, a heresia continuou a espalhar-se entre os bispos e os leigos. Anos depois, São Jerônimo lamentaria: “Ingemuit totus orbis et arianum se esse miratus est — O mundo todo acordou em uma manhã, surpreendido e lamentando por descobrir-se ariano.” Tribos bárbaras como os godos, lombardos, vândalos e visigodos abraçaram a heresia e levaram-na até o século VI a muitas das terras do Império Romano fora da Itália. Lá pelo século VIII, entretanto, elas foram convertidas ao catolicismo.

Como se pode ver, a marca dessas grande crises que acontecem na vida da Igreja é a confusão. No século IV, mesmo depois que os bispos se reuniram para combater com força o erro da época, décadas foram necessárias para acabar com os efeitos mais imediatos do arianismo. Ao fim e ao cabo, porém, sempre permanece viva a promessa de Nosso Senhor no Evangelho: “Portae inferi non praevalebunt adversus eamAs portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja” (Mt 16, 18).

Recomendações

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