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São José, o primeiro adorador do Verbo encarnado
Santos & Mártires

São José, o primeiro
adorador do Verbo encarnado

São José, o primeiro adorador do Verbo encarnado

Como habitou no seio de Maria e viveu em Nazaré, Nosso Senhor está presente no sacrário de cada igreja católica. O que muitas vezes falta em nossos templos são almas que se pareçam com São José, e adorem Jesus presente e escondido no tabernáculo.

Pe. Donald CallowayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 16 minutos
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Quantas vezes S. José, como um pardal solitário, abrigou-se sobre o telhado daquele templo sagrado da divindade, a fim de contemplar o divino Menino dormindo em seus braços ao mesmo tempo que pensava no seu próprio repouso eterno no seio do Pai celestial? — Bem-aventurado Guilherme José Chaminade [1].

Para onde quer que S. José fosse com sua esposa e Filho, sua casa se tornava uma capela de adoração. Nazaré, Belém e o Egito são todos lugares onde ele contemplou a presença divina de Jesus Cristo e recebeu outros para fazerem a mesma coisa. Nesse sentido, S. José é o fundador das capelas de adoração e, com sua esposa, foi o primeiro a conduzir uma procissão com o Corpo e o Sangue de Cristo.

Junto com Jesus e Maria, S. José deu ao mundo a maior capela de adoração conhecida pelos homens: a Igreja Católica. Graças a Maria e a S. José, aliás, todos os templos católicos ao redor do mundo têm um tabernáculo guardando a presença real de Jesus Cristo — Cristo presente em seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Ninguém é capaz de descrever a adoração da nobre alma de S. José. Ele não viu nada, e ainda assim acreditou; sua fé teve de perscrutar o véu virginal de Maria. Por isso, você deve agir do mesmo modo! Sob o véu das espécies sagradas, sua fé deve enxergar Nosso Senhor. Peça, então, a S. José uma fé viva e constante. — S. Pedro Julião Eymard [2].

Em Nazaré, S. José já se achava a poucos centímetros da presença “tabernaculada” de Deus no ventre de Maria, por assim dizer, meses antes de o anjo ter-lhe revelado que sua esposa estava grávida do Menino. O Deus encarnado estava vivendo e crescendo dentro do ventre de Maria. E o Senhor estava preparando José para ser o amado pai do maior tesouro que o mundo jamais conheceu: o Filho de Deus encarnado.

Como todo homem recém-casado, S. José também nunca quis ficar longe de sua esposa. Por essa razão, ele deve ter ficado bastante surpreso quando Maria lhe manifestou o desejo de passar três meses com sua prima Isabel. Quando lemos este episódio no Evangelho, nós acabamos presumindo que Maria não pediu a S. José que a acompanhasse até a casa de Isabel. As Sagradas Páginas, contudo, não nos dizem o que realmente aconteceu, senão que Maria foi às pressas para a região montanhosa. Não ficamos sabendo se S. José foi ou não com ela.

Muitos santos e místicos — por exemplo, S. Bernardo de Claraval, S. Boaventura, S. Bernardino de Sena, S. Francisco de Sales, a Venerável Maria de Ágreda, a Bem-aventurada Ana Catarina Emmerich e outros — acreditam que S. José realmente acompanhou Maria até a casa de Isabel. Afinal, por que ele não iria com ela? Que tipo de esposo ele seria se deixasse sua jovem e bela esposa fazer tal viagem desacompanhada do esposo? De fato, o Novo Testamento não nos conta explicitamente que S. José foi com Maria, mas também não diz explicitamente que ele não foi. De uma perspectiva marital, como ele poderia ficar longe dela por tanto tempo? Faria muito mais sentido, portanto, que S. José a tivesse acompanhado, e mesmo permanecido por lá durante os três meses. Porque, além de uma longa jornada de Nazaré até as regiões montanhosas onde vivia Isabel (quase 160 km), coisas horríveis também poderiam acontecer com a bela esposa de S. José durante o caminho. 

Que homem recém-casado não estaria preocupado com tal jornada, especialmente quando esta envolve caminhar e dormir em lugares perigosos? Nenhum homem mentalmente sadio ficaria para trás.

Nos escritos místicos da Venerável Maria de Ágreda, Maria SS. e S. José têm uma conversa adorável sobre a Visitação:

[Maria a S. José:] “Meu senhor e marido, o Bom Deus agradou-se em me iluminar, informando-me que minha prima Isabel, apesar de infértil, agora está esperando um filho há muito desejado. Portanto, acho que pode ser adequado eu ir visitá-la para ajudá-la e confortá-la espiritualmente. Se isso, meu senhor, estiver de acordo com tua vontade, eu o farei. Considera o que pode ser melhor e diz-me o que devo fazer.

[S. José a Maria:] “Bem sabes, minha senhora e minha esposa, que teus desejos são meus e que confio plenamente na tua prudência, pois a tua mais sincera vontade não se inclinaria a nada que não fosse da maior satisfação do Altíssimo. Então, acredito que seja a mesma coisa com essa jornada. E para que não pareça estranho que tu a empreendas sem a companhia de teu marido, seguir-te-ei com alegria para ser útil a ti no caminho, até que tu alcances o teu destino [3].

Ainda que José não tenha permanecido os três meses com Maria na casa de Isabel, é bem provável que ele ao menos a tenha acompanhado, a fim de mantê-la a salvo de ladrões e homens mal intencionados. E, chegando à casa de Isabel com Maria, ele teria voltado sozinho para Nazaré. Depois de três meses, ele teria feito a viagem de volta para a casa de Isabel e escoltado com segurança sua esposa até Nazaré. Se isso, pois, aconteceu mesmo, S. José conduziu, sem saber, a primeira procissão com o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor.

Para uma meditação razoável, digamos que José ao menos acompanhou Maria à casa de Isabel. E o que ele deve ter experimentado ao chegar lá? Bem, ele provavelmente ouviu a saudação, cheia do Espírito Santo, de Isabel a Maria:

Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como me acontece que a mãe do meu Senhor venha a mim? Logo que ressoou aos meus ouvidos a tua saudação, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque se cumprirá o que lhe foi dito da parte do Senhor (Lc 1, 42-45).

E o que S. José deve ter pensado da saudação de Isabel? Ora, aquelas palavras devem ter-lhe parecido estranhas. Até porque ele de forma alguma teria entendido o significado teológico daquilo, uma vez que não tinha ideia de que sua esposa estava grávida. No entanto, como um homem de profunda oração, ele deve ter ponderado tais palavras e levado tudo à oração. Ele pode não ter entendido o significado daquilo no momento, mas meses depois, quando percebeu que Maria estava grávida, certamente se lembrou das palavras de Isabel. Lembrando que Isabel chamara Maria de “Mãe do meu Senhor”, os olhos de José devem ter sido abertos para a realidade plena do que estava acontecendo no ventre de sua esposa. E, como todo judeu devoto, José também não ignorava as Escrituras que afirmam que uma virgem daria à luz o Messias (cf. Is 7, 14). Por isso, percebendo tamanha maravilha, ele deve ter-se sentido completamente indigno de ser marido [de Maria] e pai de uma criança como aquela.

A possibilidade de José ter acompanhado Maria e ouvido a inspirada saudação de Isabel nos ajuda a entender por que ele nunca duvidou de Nossa Senhora ou quis divorciar-se dela. Como Isabel, ele ficou maravilhado com a revelação de que sua amada esposa estava grávida de um filho celestial. E, sendo um homem justo e temente a Deus, José não se considerava digno de viver sob o mesmo teto que Maria e de servir como pai da criança em seu ventre. Como ele poderia ser digno de ser marido de tal esposa? Como ele poderia levar tal mãe e filho para sua casa e submetê-los aos seus cuidados? De fato, nada menos que um anúncio angelical o impediria de se retirar da situação.

Por outro lado, se S. José não acompanhou sua esposa à casa de Isabel, imagine a solidão que ele deve ter sentido por estar sem Maria por três meses. Uma separação de tal duração teria sido uma tortura para seu coração. O coração de S. José deve ter esperado ansiosamente para se reunir com sua amada. A ideia de ouvir a voz dela outra vez deve ter ocupado sua mente dia e noite. Como seu coração deve ter batido forte de alegria com o retorno de sua rainha após três longos meses.

“A Sagrada Família com o Infante Batista”, de Murillo.

Quer ele tenha acompanhado Maria à casa de Isabel ou não, ele provavelmente viajou com sua esposa e Filho para ver Isabel, Zacarias e S. João Batista, em “visitas” posteriores. Esses tipos de visitas são corriqueiras. A intuição católica sempre soube disso e, por essa razão, retratou essas visitações na arte. Cenas de Maria, José, o Menino Jesus e João Batista são proeminentes na arte católica em todo o mundo. Afinal, Jesus e João eram parentes. Eles devem ter brincado e rezado juntos durante as muitas visitas que aconteceram ao longo dos anos. S. José, de fato, pode não ter presenciado a saudação de Isabel, ou testemunhado o nascimento de S. João Batista, mas ele com certeza ouviu e falou com S. João Batista em outras visitas familiares. S. José e S. João Batista provavelmente se conheceram.

Se, portanto, a primeira procissão com Jesus foi para a casa de Isabel, a segunda procissão aconteceu quando S. José viajou com sua esposa grávida para Belém, a fim de serem inscritos no censo. Nesta procissão, José estabeleceu a primeira capela de adoração do mundo: Belém. O Venerável Joseph Mindszenty recorda, nesse sentido, que “S. José foi apressado com Maria a Belém, que significa ‘casa do pão’, para que ali nascesse o pão da vida eterna” [4].

Ora, nada mais apropriado do que a primeira exposição pública do Pão vivo do Céu ocorrer justamente em Belém. Como bem lembra o Venerável Joseph Mindszenty, a palavra Belém em hebraico significa “casa do pão”. Em árabe, por sua vez, Belém significa “casa da refeição” ou “casa da carne”. Nosso Senhor Jesus, o verdadeiro Pão que desceu do Céu, nasceu na pobreza e foi colocado na manjedoura por uma razão: sendo um rei humilde, ele quis que S. José o colocasse numa manjedoura pobre, porque a manjedoura é onde os animais se alimentam. E a palavra “manjedoura” está relacionada a uma palavra italiana muito conhecida: mangiare (comer).

Ó tão íntima familiaridade a de estar sempre com Deus, falar só com Deus, trabalhar, descansar, conversar na companhia e na presença de Deus! Quantas vezes o bem-aventurado tutor do Menino Jesus, como uma abelha casta, colheu o néctar da devoção pura desta bela flor de Jessé! Quantas vezes ele, José, como uma pomba, se escondeu no interior desta rocha! — Bem-aventurado Guilherme José Chaminade.

A primeira capela de adoração foi visitada por pastores locais, seguidos de perto por sábios vindos de uma terra distante só para homenagear o recém-nascido Deus-Rei, deitado numa manjedoura. Porém, S. José não estabeleceria a adoração apenas na Terra Santa. S. José estabeleceu a segunda capela de adoração em território pagão: o Egito.

S. José é ousado.

Quando Jesus nasceu, o Egito era território pagão e o celeiro do mundo. Por essa razão, foi muito oportuno o fato de Deus ter enviado José ao Egito! Lá, S. José foi o responsável por criar a Hóstia viva que alimentaria o mundo. O José do Velho Testamento salvou seu povo da fome distribuindo grãos do Egito. De modo semelhante, o novo José ofereceria ao mundo o “grão” que ele amorosamente havia cultivado no Egito, o Pão vivo que dá vida eterna!

Depois dessa passagem pelo Egito, José e Maria voltaram com Jesus para Nazaré. Essa longa caminhada foi, e continua sendo, a maior procissão do Corpo e Sangue de Cristo já realizada. Foi uma procissão que percorreu mais de 190 km.

Uma vez em Nazaré, José e sua esposa adoraram a presença divina de Jesus em sua casa por décadas. Em certo sentido, era como uma casa de adoração perpétua e contemplação ininterrupta, mesmo enquanto se realizavam todas as tarefas diárias e afazeres da vida doméstica. A adoração durou décadas!

Se os dois discípulos que iam a Emaús foram inflamados de amor divino apenas pelos poucos momentos que passaram em companhia de Nosso Salvador e por suas palavras — tanto assim, que eles disseram: “Não estava ardendo o nosso coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos abria as Escrituras?” (Lc 24, 32) —, que chamas de santo amor não devemos supor que foram acesas no coração de S. José, que por trinta anos conversou com Jesus Cristo e ouviu suas palavras de vida eterna?S. Afonso de Ligório [6].

Mesmo que Jesus estivesse fora de casa, trabalhando ou viajando, José ainda permanecia na presença de Deus quando estava perto de sua esposa. Deixe-me explicar.

A Sagrada Família, por Francisco de Goya y Lucientes.

Você já ouviu falar de microquimerismo fetal, por vezes também chamado de microquimerismo fetomaternal? É um termo longo e complicado, eu sei, mas que revela algo maravilhoso sobre a conexão biológica entre uma mãe e um filho. Microquimerismo fetal é o termo científico que descreve o processo no qual células vivas de uma criança permanecem no corpo de sua mãe após o término da gravidez. No final do século XX, os cientistas descobriram que, quando uma mulher fica grávida, as células de seu bebê permanecem no corpo da mãe, mesmo após ela dar à luz. E muitas dessas células permanecem no corpo da mãe pelo resto de sua vida.

Aliás, os cientistas e pesquisadores também descobriram que esse intercâmbio celular, por assim dizer, também ocorre em outra direção; células da mãe migram para o corpo de seu filho e permanecem no corpo dele pelo resto de sua vida! Isso é incrível.

Nesse sentido, embora S. José não soubesse nada de microquimerismo fetal, Deus continuou a abençoá-lo com a presença de Jesus sempre que ele estava na presença de sua esposa. Estar perto de Maria é estar perto de Jesus. Jesus vive nela! Maria tem em seu corpo algumas das células vivas de seu Filho divino. Por isso, Nosso Senhor não precisava estar na casa de José para que seu pai adotivo permanecesse na presença de Deus. Onde quer que Maria estivesse, Jesus estava. A esposa de S. José é um tabernáculo vivo, uma custódia ambulante, um templo velado. Não admira que os demônios não ousem chegar perto de Maria — ela nunca está sem a presença divina. Deus mora em seu corpo!

Se o lírio, por estar exposto apenas por alguns dias à luz e ao calor do sol, adquire sua alvura deslumbrante, quem pode conceber o extraordinário grau de pureza a que S. José foi exaltado, por estar exposto como estava dia e noite, durante tantos anos, aos raios do Sol de Justiça e da Lua Mística que deriva todo o seu esplendor de Jesus? — S. Francisco de Sales [7].

Feliz és tu, SS. Patriarca, pelas horas agradáveis que passaste contemplando com alegria Jesus e desfrutando com prazer da encantadora beleza interior e exterior de Maria! Tu os contemplaste constantemente, extraindo doçura, paciência e abnegação de seus corações. — Bem-aventurada Conchita Cabrera [8].

Padres, monges e freiras têm o privilégio de experimentar algo do que seria viver como S. José. Cada mosteiro e/ou convento tem um tabernáculo que abriga a presença divina; todos os tabernáculos são basicamente uma réplica do templo corporal de Maria. Não importa se o tabernáculo está velado ou se as portas estão fechadas: Jesus ainda está lá. A mesma coisa se passou na sagrada casa de Nazaré. Deus viveu em Maria o tempo todo, e José estava perpetuamente na presença de Jesus. “A marca do cristão é a disposição de buscar o Divino na carne de um bebê no berço, bem como Cristo sob a aparência do pão no altar”, diz Fulton Sheen [9].

Maria, o tabernáculo de Deus, é reproduzida em cada tabernáculo de uma igreja católica. O que muitas vezes falta diante desses tabernáculos, no entanto, são almas que se pareçam com José — almas que adoram Jesus presente e escondido no tabernáculo. A Igreja precisa de mais pessoas como S. José. “Devemos implorar por bons adoradores; o Santíssimo Sacramento precisa deles como sucessores de S. José e imitadores de sua vida de adoração”, afirmava S. Pedro Julião Eymard [10].

Para ser como S. José, consequentemente, você também precisa adorar a Cristo. E você pode fazer isso indo a uma igreja católica mais próxima, onde Jesus está presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, no SS. Sacramento. A Eucaristia é Jesus Cristo. O SS. Sacramento é a fonte e o ápice da fé cristã, e José quer levar você a um relacionamento mais profundo com Jesus Eucarístico.

Em 1997, João Paulo II conduziu uma visita papal ao Santuário de S. José, em Kalisz, Polônia, e contou aos presentes que, antes de cada uma de suas Missas, ele rezava a seguinte oração a S. José:

Ó homem bem-aventurado, S. José, a quem foi dado não só ver e ouvir Deus, que muitos reis queriam ver e não viram, ouvir e não ouviram (cf. Mt 13, 17), mas também levá-lo nos braços, beijá-lo, vesti-lo e protegê-lo!

Deus, vós que nos concedestes o sacerdócio régio, fazei, nós vos pedimos, que como S. José, o qual mereceu tocar e com respeito levar nos seus braços o vosso Filho unigênito, nascido de Maria Virgem, possamos obter a graça de servir junto dos vossos altares, com a pureza do coração e com a inocência das obras, a fim de recebermos hoje dignamente o sacratíssimo Corpo e Sangue do vosso Filho e merecermos o prêmio eterno no mundo futuro [11].

Passe, portanto, algum tempo na presença de Jesus no SS. Sacramento. Se houver adoração perpétua em uma igreja em seu bairro, inscreva-se para uma hora santa semanal. A adoração mudará sua vida. Mas se não houver uma igreja com adoração perpétua em seu bairro, há às vezes alguma paróquia que expõe o Santíssimo algumas horas por dia ou em um determinado dia da semana para a adoração dos fiéis. Vá! Mas se ainda assim você não conseguir encontrar uma igreja que ofereça a exposição do SS. Sacramento, simplesmente visite qualquer igreja católica e reze diante do sacrário. Jesus está lá noite e dia. E ele espera por você. Seja outro S. José para Jesus e Maria! “Quando você visitar o SS. Sacramento, aproxime-se de Jesus com o amor da SS. Virgem, de S. José e de S. João”, orientava S. José Sebastião Pelczar [12].

Ó Bem-aventurado José, adoro convosco as primeiras palavras que saíram da boca do Verbo encarnado. Prostro-me convosco para beijar com reverência as primeiras pegadas deixadas pelos seus adoráveis pés. Ó Deus infinito, tu te tornaste fraco para nos dar força; quiseste falar como as outras crianças para nos ensinar a língua do Céu! Ó beato José, inspira-me os teus sentimentos por Jesus e obtém-me a graça de amar a Deus como tu. Amém. — Bem-aventurado Bártolo Longo [13].

Referências

  1. Bem-aventurado Guilherme José Chaminade, Marian Writings. Dayton, OH: Marianist Press, 1980, p. 235, v. 1.
  2. S. Pedro Julião Eymard, Month of St. Joseph. Cleveland, OH: Emmanuel Publications, 1948, p. 51.
  3. Venerável Maria de Ágreda apud Sandro Barbagallo, St. Joseph in Art: Iconology and Iconography of the Redeemer’s Silent Guardian. Citta del Vaticano: Edizioni Musei Vaticani, 2014, p. 33.
  4. Venerável Joseph Mindszenty, The Mother. St. Paul, MN: Radio Replies Press, 1949, p. 42.
  5. Bem-aventurado Guilherme José Chaminade. op. cit. , p. 235.
  6. S. Afonso de Ligório, The Glories of Mary. Charlotte, NC: TAN Books, 2012, p. 596.
  7. S. Francisco de Sales apud Pe. Nicholas O’Rafferty, Discourses on St. Joseph. Milwaukee, WI: Bruce Publishing Co., 1951, p. 203.
  8. Bem-aventurada Conceição Cabrera de Armida, Roses and Thorns. Staten Island, NY: Society of St. Paul, 2007, p. 53.
  9. Venerável Fulton Sheen, The World’s First Love: Mary, Mother of God. San Francisco, CA: Ignatius Press, 1996, p. 211.
  10. S. Pedro Julião Eymard, op. cit. p. 2.
  11. S. João Paulo II, Homilia na Capela de S. José em Kalisz. 4 de jun. de 1997.
  12. S. José Sebastião Pelczar, Thoughts of St. Joseph Sebastian Pelczar for Every Day of the Year.
  13. Bem-aventurado Bártolo Longo, Il Mese di Marzo: In Onore di San Giuseppe. Pompei, Italy: Pontificio Santuario di Pompei, 2001, p. 63.

Notas

  • Texto extraído de: Pe. Donald H. Calloway, Consecration to St. Joseph: The Wonders of Our Spiritual Father. Stockbridge: Marian Press, 2020, p. 172s.

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Santo Tomás, mestre de piedade
Santos & Mártires

Santo Tomás,
mestre de piedade

Santo Tomás, mestre de piedade

Santo Tomás, se é mestre nos estudos, não o é menos na piedade. Só ele, entre todos os Doutores, soube unir na mais perfeita amizade a erudição com a virtude, a verdade com a caridade, a leitura com a oração.

Pe. Édouard Hugon, OPTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 13 minutos
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É conhecido, entre outros, o encômio com que o celebérrimo Pe. Pedro Labbe, SJ, cantou as glórias do Aquinate: “Tomás”, diz, “foi anjo antes de ser Doutor Angélico… Fala de Deus como se o tivesse visto; disputa de tal modo sobre os anjos como se fora espírito. Infunde horror ao pecado quando o mostra; torna amáveis as virtudes quando as descreve” (Elogium S. Thomæ).

Entre as virtudes especialmente amáveis e que se hão de amar brilha a piedade, que emerge de tal forma tanto da vida quanto dos escritos dele, que se pode chamar ao Angélico modelo e mestre de piedade: antes, porém, modelo que mestre, já que ele primeiro viveu o que ensinou, e por isso é mestre, porque modelo. Afirma-o também a Encíclica Studiorum ducem, enquanto admira e propõe no santo Preceptor esta aliança da doutrina com a piedade, da erudição com a virtude, da verdade com a caridade. Com efeito, segundo o Sumo Pontífice, “por certo vínculo admirável de parentesco estão unidas entre si a verdadeira ciência e a piedade, companheira de todas as virtudes”. 

Atente-se para a grande força da expressão “parentesco” (cognatio), como se ao mesmo tempo nascessem e na mesma família convivessem a ciência e a piedade. De fato, nas obras do Angélico, de modo quase espontâneo e por um suave processo, a piedade brota da Teologia como os frutos da árvore. Para pô-lo em evidência, indicaremos brevemente, após vermos a noção de piedade, como de cada tratado — sobre Deus, sobre a graça, sobre os atos humanos, sobre as virtudes, sobre a Encarnação, a Eucaristia etc. — emanam aplicações de máxima e felicíssima utilidade para a vida espiritual.

Detalhe de “O triunfo de S. Tomás”, por Benozzo Gozzoli.

1. A virtude da piedade. — A piedade, com base no nosso Doutor, pode ser definida: é a virtude moral anexa à justiça pela qual se presta o culto devido aos pais, à pátria e sobretudo a Deus, que recebe por excelência o título de Pai nosso. Pertence, com efeito, à justiça, porque tem por objeto um débito; mas se distingue da razão de justiça, porquanto não se podem recompensar os pais, a pátria e Deus segundo a medida que lhes é devida (secundum æqualitatem) e, por isso, é uma virtude anexa.

Presta culto aos que são princípio do nosso ser ou governo. Ora, o primeiro princípio desse tipo é Deus, enquanto os pais, dos quais nascemos, e a pátria, na qual fomos nutridos, são princípios secundários (STh II-II 100, 1 ad 3). Por essa razão, a piedade, que honra os pais e a pátria, predica-se por excelência do culto a Deus, assim como a Deus mesmo, por certa superexcelência, convém o nome de pai (cf. STh II-II 100, 3 ad 2).

A estas noções deve dar-se a máxima atenção nestes nossos tempos, nos quais o amor à pátria degenera por vezes até os excessos de um falso ou imoderado nacionalismo, como se fora uma “religião”. Aprendemos de S. Tomás que os pais, a pátria e Deus não devem nunca ser separados, mas amados com a mesma virtude, guardada sempre a ordem devida, segundo a razão pela qual são princípio do nosso ser. Por isso, Deus há de ser honrado e amado por excelência, de modo que nada amemos mais do que a Ele, nem contra Ele, nem tanto quanto a Ele (cf. STh II-II 134, 3 ad 2).

Ora, a piedade, enquanto virtude moral, honra o pai carnal e os outros parentes de sangue; mas, enquanto dom do Espírito Santo, honra a Deus, e assim este dom pode ser definido, com base no mesmo Doutor: Disposição da alma pela qual é facilmente movida pelo Espírito Santo a ter um afeto filial por Deus como pai (cf. STh II-II 121, 1 e 3).

Eis, portanto, cingindo-nos ao escopo que aqui temos em mira, o que há de fixar-se bem firme na mente: é próprio da piedade excitar um filial afeto por Deus enquanto pai. Daí se vê por que S. Tomás é, com justiça, chamado mestre de piedade: porque a sua doutrina, por sua força intrínseca e como que por certo calor nativo, acende este afeto, promove-o e alimenta-o. E nisto se mostra um mestre admirável, na medida em que o faz não com palavras pomposas, não à força e a lanço, mas de modo tão simples, modesto, quase a furto, inclusive nas respostas às objeções, que a nossa mente se vê banhada de inefável devoção. Assim, ao falar do efeito da Eucaristia, afirma (STh III 79, 1 ad 2): 

Como diz S. Gregório, “o amor de Deus não é ocioso: opera grandes coisas, se está presente” (Hom. 30, 2). Por isso, este sacramento, no que depende de sua própria virtude, não só confere o hábito da graça e da virtude, mas também o excita em ato, segundo S. Paulo: “A caridade de Cristo nos impele” (2Cor 5, 14). Daí se segue que, pela virtude deste sacramento, a alma se delicia espiritualmente e, de certo modo, se inebria com a doçura da bondade divina, segundo o Cântico dos Cânticos: “Amigos, comei e bebei; inebriai-vos, ó caríssimos” (Ct 5, 1).

Nestas palavras se revela, de fato, uma forte eloquência; mas, ao mesmo tempo, se franqueiam os segredos da vida interior do Doutor Eucarístico, que mais de uma vez se inebriou com a doçura da bondade divina. Ei-lo: porque piedosíssimo, pôde ser mestre de piedade.

2. O amor, a inabitação e a graça. — A semelhante conclusão se pode chegar por cada tratado. Para arrebatar-nos ao amor das coisas invisíveis, escreve sobre o amor de Deus coisas admiráveis: “É o amor de Deus que infunde e cria a bondade nas coisas” (STh I 79, 1 ad 2), princípio no qual muitíssimas vezes insiste para estabelecer a diferença entre o amor criado e o amor divino. 

Com efeito, o nosso amor, por ser débil e ineficaz, supõe um bem no amado, mas de forma alguma o produz. Por esse motivo, quando amamos um pecador, não o transformamos por isso em santo e formoso, senão que lhe cobrimos feiura: fechamos-lhe os olhos ou não lha imputamos. O amor de Deus, ao contrário, infunde o bem que ama em nós e, por isso, quando começa a amar um pecador, o torna realmente belo e justo, apagando e purificando os pecados, renovando-lhe interiormente a alma (cf. STh I-II 110, 1; 113, 1 e 2).

Assim, porque Cristo nos chama amigos, faz-nos dignos de sua amizade, verdadeiramente belos, verdadeiramente justos e santos. Só o pensamento disso está já pleno de consolação… No entanto, para tornar mais forte e intenso o nosso afeto por Deus, expõe o Angélico que Deus está presente substancialmente em nós como hóspede e amigo, para que possamos, ainda neste exílio, gozar a sua presença: “Toda a Trindade em nós habita pela graça” (De ver., q. 27, 2 ad 3), a saber: não só infundindo dons criados, mas também fazendo em nós, pessoalmente, a sua morada.

Por essa razão, conclui: “O bem da graça de um só é maior do que o bem de natureza de todo o universo” (STh I-II 113, 9 ad 2).

Caetano, que se compraz não só com sutilezas metafísicas, mas também com uma verdadeira e terna piedade, meditando estas áureas palavras de S. Tomás, exclama: “Tem sempre ante teus olhos, de dia e de noite, que o bem da graça de um só é melhor do que o bem de natureza de todo o universo, para que vejas sem cessar a condenação a que se risca quem não dá valor à perda de tamanho bem”.

3. A virtude e a paz. — Também nas questões aparentemente mais áridas sugere o S. Doutor muitos ensinamentos que ajudam e nutrem a vida espiritual. Assim, comparando o filósofo moral, o retor, o político e o teólogo, observa: 

O que o retor persuade, o político decide; ao teólogo, porém, a quem servem as demais artes, competem todos os modos mencionados. Pois ele compartilha com o filósofo moral a consideração dos atos viciosos e virtuosos, e considera, com o retor e o político, os atos na medida em que merecem ser punidos ou premiados (STh I-II 7, 2 ad 3).

Isso vale particularmente para o homem piedoso, asceta e místico, que sempre considera os atos humanos enquanto se referem à vida sobrenatural.

Pintura do Doutor Angélico na igreja de São Roque, em Acireale, Itália.

Ouvimos o Pe. Labbe louvar S. Tomás por fazer amáveis as virtudes quando as descreve. O S. Doutor mostra que toda virtude é amável, já que a beleza convém a qualquer virtude (cf. STh II-II 141, 2 ad 3); mas deve chamar-se bela, de modo especial, à virtude que afasta o homem das coisas que mais o deturpam, a saber: dos prazeres que convêm à natureza humana segundo a parte mais inferior. É por isso que a castidade é uma virtude belíssima. Ora, uma vez que o angélico é o Doutor da castidade, resplende nele uma beleza singular, aspecto no qual ele é superior a S. Agostinho, como lembra a nossa Liturgia: “Diz Agostinho assim a um irmão: ‘Tomás me é igual em glória, mas me supera em pureza virginal’” (resp. IX Matut.). A virtude da temperança auxilia a piedade, a fim de que toda a vida espiritual seja devidamente governada. Pois um homem realmente temperante deseja com moderação e sempre conforme o termo médio da razão; e, pelo mesmo motivo, se entristece com moderação (cf. STh II-II 141, 2 ad 3).

Assim se lançam em todo o homem os fundamentos daquela verdadeira paz a que S. Agostinho chamava tranquilidade da ordem. Não há como não ver o quão bela e precisa é esta definição. A paz não é apenas tranquilidade, já que pode haver certa paz aparente, fingida ou maldosa, como são os gozos desonestos do coração; mas tampouco é apenas ordem, já que a ordem pode ser ferida ou desprezada, senão que é, a um tempo, tranquilidade e ordem ou, melhor ainda, tranquilidade da ordem (cf. De civit. Dei XIX, 93). Donde se segue que o homem perfeitamente piedoso é o que possui em paz a própria alma.

4. A Paixão e a Eucaristia. — A Encarnação é um mistério de piedade, assim como a Eucaristia é o sacramento da piedade. De ambos escreveu o Angélico coisas admiráveis que alimentam uma terníssima devoção. Bastam umas poucas palavras suas para nos comovermos interiormente com as dores de Cristo.

Mostra que a dor da Paixão foi, em Cristo, maior do que todas as dores, tanto extensivamente, porque experimentou em si todas as dores, quanto intensivamente, porque nele a dor foi puríssima e, portanto, máxima (cf. STh III 46). Para intensificar em nós a compaixão, acrescenta: 

A vida corporal de Cristo foi de tanta dignidade, por causa sobretudo de sua união com a divindade, que a morte dela por uma só hora seria mais de lastimar do que a morte de outro homem, por grande que fosse a duração. Por isso diz o Filósofo (cf. EN III, 9) que o virtuoso tanto mais ama a própria vida quanto mais sabe ser ela melhor, e contudo a expõe pelo bem da virtude. Do mesmo modo, Cristo expôs sua vida maximamente amada pelo bem da caridade (STh III 46, 6 ad 4).

Tudo isso abrasa a alma de modo mais eficaz do que as orações e pregações mais refinadas e, por sua própria força, leva à seguinte conclusão: “Como não amar de volta a quem assim nos amou?” Excita também o mais possível a piedade quando fala dos efeitos da morte de Cristo, que nos libertou de nossas duas mortes, isto é, do corpo e da alma (cf. STh III 41). S. Tomás parece fazer eco a S. Efrém, o Sírio, algumas de cujas palavras vale a pena referir, para que nos ensinem hoje a piedade, ao mesmo tempo, os Doutores de Edessa e de Aquino, ou seja, a Igreja oriental e latina: “Glória a ti”, diz S. Efrém cantando a Cristo, “glória a ti, que da tua cruz fizeste uma ponte sobre a morte, a fim de que por ela passem as almas da região da morte para a da vida!” (De Domino Nostro, ed. Lamy, I 158). Belíssima poesia, que nos pinta a cruz como uma ponte sobre a morte!

No tratado sobre a Eucaristia, S. Tomás é ainda mais Doutor de piedade, expondo por que Cristo quis, na véspera de sua Paixão, instituir este sacramento: porque as coisas que fazem ou dizem por último os amigos que partem são as que mais se imprimem na memória, e é quando mais se inflama o afeto (cf. STh III 73 5); e por que nos quis consolar nesta peregrinação com sua presença corporal? Porque o mais próprio da amizade é conviver com os amigos.

Por essa razão, conclui: “Daí ser este sacramento, por tão familiar união de Cristo conosco, o sinal da maior caridade e o sustentáculo da nossa esperança” (STh III 75, 1).

5. Piedade mariana. — Tampouco há de passar em silêncio o fato de o Angélico ser mestre de verdadeira piedade à Bem-aventurada Virgem Maria.

Ele mesmo formulou o firmíssimo e universal princípio no qual se contêm todas as glórias da Beatíssima Virgem: “Na Virgem bendita devia aparecer tudo o que é perfeição” (In IV Sent., dist. 30, q. 2, a. 1, sol. 1). Prova-o pela proximidade com Cristo, fonte das graças:

Quanto mais algo se aproxima do princípio em qualquer gênero, tanto mais participa do efeito desse princípio. Pois bem, Cristo é o princípio da graça. Ora, a bem-aventurada Virgem Maria foi a mais próxima de Cristo segundo a humanidade, porque dela recebeu [Cristo] a natureza humana. Logo, devia receber de Cristo, mais do que outros, uma maior plenitude de graça (STh III 27, 5).

Não só isso. Dessa união com Cristo infere o Angélico uma afinidade com Deus. Comentando esta sentença, Caetano, piedosíssimo também nessa matéria, escreve estas conhecidíssimas palavras: 

Note-se que a junção, por consanguinidade carnal, com a humanidade assunta pelo Verbo chama-se, no texto, “afinidade com Deus” (affinitas ad Deum), de sorte que os consanguíneos de Cristo, enquanto homem, são afins de Deus segundo a razão em que “Deus” é o nome da divindade… Por isso, a Mãe dele foi constituída como afim de Deus… a única que alcança, por sua própria operação natural, os confins (ad fines) da divindade, ao conceber a Deus, dá-lo à luz, criá-lo e alimentá-lo com seu próprio leite (In STh II-II 103, 4).

Argumentos esses que são poderosíssimos estímulos para a piedade, pois se tanta dignidade tem Maria, a ponto de alcançar os confins da divindade, qual não deve ser o nosso filial afeto pela Mãe de Deus e dos homens?

6. Conclusão. — Já que não podemos repisar cada um [dos tratados], notemos apenas que a nossa piedade encontra o máximo auxílio no que ensina o Angélico acerca dos Novíssimos, sobretudo acerca da bem-aventurança celeste, dos dotes, das auréolas e das qualidades dos corpos [ressuscitados]. Aqui também se vê como se cumpre o que com veemência desejava o Sumo Pontífice Pio XI, a quem, como a protetor amantíssimo, agradece o Colégio Angelicum: Pax Christi in regno Christi, quando finalmente Deus será tudo em todos (cf. 1Cor 15, 28).

Do que sucintamente apontamos fica patente como o Mestre de piedade está sempre de mãos dadas com o Mestre dos estudos: pode, sim, mostrar o caminho nos estudos quem tão amigavelmente uniu a doutrina com a piedade, a erudição com a virtude, a verdade com a caridade. Ora, se é guia nos estudos, também nos costumes irá preparar um caminho seguro. Ora, se, como diz o Apóstolo, “a piedade é útil para tudo”, tendo a promessa da vida presente e da futura, o que foi Guia para a verdade e a piedade, será no fim Guia para a felicidade.

Notas

  • Este texto é uma tradução do artigo “Sanctus Thomas, Magister Pietatis”, do Pe. Édouard Hugon, OP, publicado originalmente em Roma, na revista Angelicum, vol. 3, n. 1 (mar. 1926), pp. 79–84.

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Um sermão sobre os Esponsais de Maria e São José
Santos & Mártires

Um sermão sobre os
Esponsais de Maria e São José

Um sermão sobre os Esponsais de Maria e São José

Neste sermão para a festa dos Esponsais de Maria e São José, o Cardeal Burke desfaz um mal-entendido e esclarece que não, a Virgem Santíssima não foi “mãe solteira”, porque “Jesus foi concebido e nasceu dentro do casamento”.

Gregory DipippoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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23 de janeiro é o dia tradicional da festa dos Esponsais da Virgem Maria com São José. Embora nunca tenha feito parte do calendário geral, esta era mantida por muitas Ordens religiosas, especialmente aquelas com uma devoção particular à Virgem Maria, e em muitos calendários locais. (Os padres que a quiserem celebrar podem clicar neste link, onde terão acesso ao formulário litúrgico desta memória devocional.)

Em 10 de janeiro de 2015, Sua Eminência, o Cardeal Raymond Burke, celebrou uma Missa votiva dos Esponsais da Virgem na Basílica de São Nicolau no Cárcere (San Nicola in Carcere), em Roma, como parte de uma conferência da Confraternity of Catholic Clergy; esta Missa foi escolhida porque o matrimônio e a família, e questões relacionadas a eles, foram o tema da conferência. Sua Eminência gentilmente permitiu que o site New Liturgical Movement compartilhasse o texto completo de seu sermão — e nós o traduzimos a seguir. (As leituras bíblicas desta Missa foram Provérbios 8, 22-35 e Mateus 1, 18-21.)


Cardeal Burke, durante Missa votiva dos Esponsais da Virgem, 2015.

Celebrando a Missa votiva do matrimônio da Bem-aventurada Virgem Maria com São José, contemplamos de novo o grande mistério do amor incomensurável e incessante de Deus por nós. No breve relato do Evangelho de São Mateus, vemos como Deus providenciou que seu Filho unigênito se encarnasse no seio imaculado da Virgem Maria e, ao mesmo tempo, por sua Encarnação, passasse a fazer parte da família de José e Maria. Em outras palavras, embora São José e a Bem-aventurada Virgem tivessem se casado antes da concepção virginal de Deus Filho no ventre dela, eles o fizeram com todo o respeito à consagração da virgindade de Maria a Deus desde a sua juventude, [com todo o respeito] à oferta de sua virgindade, consagrada a Deus. Ou seja, São José casou-se com Maria com o intuito de honrar, ao longo do casamento, a virgindade consagrada dela.

Pelo texto do Evangelho segundo São Mateus fica claro que Maria já era casada com São José na época da Anunciação, mas que São José ainda não a tinha acolhido em sua casa. Por isso, ao saber de sua gravidez, São José, por uma questão de decência, pensou em se divorciar dela da maneira mais discreta possível. Para ficar claro, a palavra “prometida” não pode ser entendida como “noiva”, mas sim como “desposada” ou “casada”, como o restante das palavras do texto deixa claro.

Aqui é importante recordar o rito do casamento judaico, que a Virgem Maria e São José, como judeus devotos, observaram atentamente. O rito consistia em duas fases: uma primeira fase, pela qual o contrato de casamento era selado, tornando as partes verdadeiramente marido e mulher; e uma segunda fase, pela qual o casamento era consumado com a chegada da esposa à casa de seu marido. Em sua Exortação Apostólica Redemptoris Custos, o Papa São João Paulo II descreveu a observância da prática do casamento judaico pela Virgem Maria e São José com as seguintes palavras:

Segundo o costume do povo hebraico, o matrimônio constava de duas fases: primeiro, era celebrado o matrimônio legal (verdadeiro matrimônio); e depois, só passado um certo período, é que o esposo introduzia a esposa na própria casa. Antes de viver junto com Maria, portanto, José já era o seu “esposo” (n. 18).

Maria é, de fato, a esposa de São José e, portanto, o divino Menino, concebido em seu ventre pela sombra do Espírito Santo, é membro da família de José e Maria, e goza da maternidade divina da Virgem Maria e da paternidade adotiva, ou da guarda, de São José.

O Padre René Laurentin, referindo-se à decisão de Maria desde a juventude de “não pertencer a nenhum homem, mas somente a Deus”, descreve assim o seu estado civil à época da Anunciação:

As Bíblias erroneamente traduzem como “noiva”, mas Maria está realmente casada com José, de acordo com as duas fases do casamento hebraico: o consentimento (qidushin) antes da Anunciação, e a segunda fase, a introdução da esposa na casa do marido (nissuin), conforme o acordo com José de um casamento virginal (não consumado) (Marie, source directe de l'Évangile de l'Enfance).

O Padre Laurentin passa a explicar como Maria, em razão de sua condição de esposa em um casamento virginal, acreditava ter renunciado à possibilidade da maternidade do Messias. Assim, na Anunciação, ela perguntou ao Arcanjo Gabriel: “Como se fará isso, se eu não conheço homem?” (Lc 1, 34). O Arcanjo deixou claro que foi precisamente a sua virgindade que a preparou para ser a Mãe de Deus. O Padre Laurentin, referindo-se ao seu voto de virgindade, escreve: “Mas este voto trouxe, pelo contrário, o único meio de alcançar este privilégio único. Tais são os paradoxos do Altíssimo. Ela recebe, então, a resposta que tudo torna novo e esclarece” (ibid.).

A Igreja, de fato, sempre viu no texto sobre a sabedoria eterna de Deus, do livro dos Provérbios, uma imagem da Virgem Maria, que Deus escolheu, desde o início, para ser a Mãe do Redentor: “O Senhor me criou, como primícia de suas obras, desde o princípio, antes do começo da terra” (Pr 8, 22). O texto inspirado nos leva a uma reflexão mais profunda sobre o matrimônio de Maria com José e sua maternidade divina no grande mistério da fé, o mistério da nossa salvação eterna. Pesquisando seu significado mais profundo, entendemos a verdade dos versículos finais: “Pois quem me acha encontra a vida e alcança o favor do Senhor. Mas quem me ofende, prejudica-se a si mesmo; quem me odeia, ama a morte” (Pr 8, 35-36).

Contemplando o matrimônio da Bem-aventurada Virgem Maria com São José, nós vemos como, logo no início da obra da salvação, Deus Pai cuidou para que a concepção de seu Filho unigênito em nossa carne humana fosse virginal, como de fato devia ser, mas, ao mesmo tempo, completamente legítima, a fim de manifestar plenamente a verdade, a beleza e a bondade de Deus. Deus Filho é concebido virginalmente no ventre de Maria, esposa de São José. O Evangelho segundo São Mateus é marcado, em particular, pela atenção à natureza jurídica da nossa fé e da sua prática, apresentando Cristo como o novo Moisés, o novo Legislador, mais eminentemente no Sermão da Montanha. É inconcebível que Deus Filho, em sua Encarnação, não respeitasse totalmente e, na verdade, não levasse à perfeição, tanto a virgindade da Virgem Maria quanto a santidade de seu casamento com São José.

A compreensão exata do estado civil de São José e da Bem-aventurada Virgem Maria é importante para que, de nossa parte, haja um conhecimento e um amor mais completos do mistério da fé, mas também é importante para evitar uma confusão e um erro que são comuns hoje. A grave situação é referida na edição revisada do livro The Father John A. Hardon S.J. Basic Catholic Catechism Course. Será útil citar uma parte de seu desenvolvimento sobre o assunto:

O fato de que Jesus foi concebido virginalmente e nasceu depois do casamento de Maria e José significa que Jesus foi concebido e nasceu dentro do casamento. É o contrário do que muitos, mesmo sacerdotes, dizem na atualidade, a saber, que Jesus nasceu fora do casamento, como os filhos de tantas mulheres solteiras hoje, e que esta não é uma situação “anormal”. Uma mãe grávida e solteira estaria, segundo essas pessoas, nas mesmas condições de Maria, que, elas alegam, também estava solteira na época em que concebeu Jesus. Isto é falso; é, de fato, uma falsidade muito séria, pois mina a santidade do casamento e a razão dessa santidade. Os defensores dessa posição dizem que Jesus foi concebido depois de Maria e José ficarem noivos, não estando eles ainda casados (The Father John A. Hardon S.J. Basic Catholic Catechism Course, Manual, Revised Edition, ed. Raymond Leo Cardinal Burke).

A posição errônea descrita acima é sustentada não apenas por quem deliberadamente discorda do ensino perene da Igreja, mas também por muitas pessoas simplesmente mal catequizadas e, por isso, vítimas de tais ensinamentos falsos.

A clareza em relação ao casamento da Bem-aventurada Virgem Maria com São José torna-se ainda mais importante para as discussões sobre o casamento empreendidas atualmente pelo Sínodo dos Bispos [1]. Ao mesmo tempo que o Sínodo dos Bispos é chamado a exaltar a beleza do matrimônio, como Deus o estabeleceu desde o princípio, há uma forte tentativa de introduzir discussões sobre os chamados “elementos positivos” na coabitação de um homem e de uma mulher, como marido e mulher, sem respeito pelo santo sacramento do Matrimônio. Vemos no casamento de Maria e José, de maneira notável, a beleza do casamento, estabelecido por Deus na Criação e restaurado à sua perfeição original por Deus Filho encarnado na Redenção. Contemplando o casamento de Maria e José, entendemos de forma mais completa e sincera as palavras do próprio Cristo, quando os fariseus o testaram sobre a verdade da indissolubilidade do casamento: “Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: ‘Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne’? Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19, 4-6).

O ensino de Cristo sobre o santo Matrimônio brilha com particular esplendor no casamento de sua Mãe, Maria, e seu pai adotivo, José.

Estamos prestes a testemunhar a grande vitória da Cruz, a grande obra de Deus Filho que assumiu a nossa natureza humana no seio imaculado da Virgem Maria. Cristo agora oferece sacramentalmente o sacrifício do Calvário. Ele nos dá o fruto incomparável do seu sacrifício: seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Ele nos dá o remédio e alimento celestiais pelos quais vencemos o pecado em nossas vidas e vivemos em verdadeira liberdade, por amor a Deus e ao próximo. Que a nossa contemplação do mistério da fé no casamento da Bem-aventurada Virgem Maria com São José nos inspire a ensinar, a celebrar e a viver a verdade sobre o santo Matrimônio, como Deus o estabeleceu desde o início e o redimiu por sua Paixão, Morte e Ressurreição redentoras. Busquemos sempre no mistério eucarístico a graça de ensinar, de celebrar e de viver [a verdade do Matrimônio].


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Por que os mártires saíram de moda?
Santos & Mártires

Por que os mártires saíram de moda?

Por que os mártires saíram de moda?

Com sua vida e, sobretudo, com sua morte, os mártires escancaram a falsidade do indiferentismo religioso reinante. Por isso, o que pode explicar a atual impopularidade deles, mesmo entre os católicos, senão a apostasia da fé?

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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“É mártir que não acaba mais”: nestes últimos dias, em seu rito antigo, a Igreja celebra, em sequência, Santa Prisca (18), os santos Mário, Marta, Audíface e Ábaco (19), São Fabiano e São Sebastião (20), Santa Inês (21), São Vicente e Santo Anastácio (22). Atualmente, conservou-se como obrigatória na liturgia apenas a memória de Santa Inês, cujo nome consta na mais antiga oração eucarística da Igreja, o Cânon Romano

Mas, ainda que a liturgia atual tenha reduzido bastante o número de santos do calendário, todo católico pode ter contato diário com os mártires de sua fé através de um livro chamado Martirológio Romano. Em dois mil anos de história, foram tantas as pessoas que testemunharam Cristo a ponto de derramar o próprio sangue que, para cada dia do ano, há pelo menos alguma delas para celebrar, recordar e invocar [1].

O fato, porém, é que não só perdemos contato com os mártires como a própria “teologia do martírio”, por assim dizer, saiu um pouco de moda. Como vivemos em um tempo de apostasia generalizada, a verdade é que muitos já não creem que realmente valha a pena ter os mártires como inspiração, admiração ou modelo a ser imitado. Diante de um Deus “avô”, que não castiga mais o pecado nem condena ninguém ao inferno, o peso dos atos humanos foi totalmente relativizado. Assim, não faz diferença, na prática, obedecer ou não a Deus, seguir ou não os seus Mandamentos, cometer aqui e ali um “deslize” ou outro. Desde que haja uma disposição geral e abstrata para “seguir Jesus”, “ser bom”, “viver o amor” — ainda que ninguém saiba, na prática, o que isso significa —, o que o ser humano faz ou deixa de fazer não importa. 

Essa moral laxa casa muitíssimo bem com o indiferentismo religioso reinante: tanto faz ser católico, protestante, espírita, umbandista, budista ou o escambau. O importante é seguir algum deus — ou, às vezes, nem isso, pois dá para ser ateu também e seguir simplesmente uma “filosofia de vida”. 

É principalmente por isso que os mártires não estão na moda. Porque eles, com sua vida e, sobretudo, com sua morte, denunciam e escancaram a falsidade desse pensamento. Os mártires apenas acreditavam no que a Igreja lhes tinha transmitido (ou seja, eles não criam em qualquer coisa), e por isso, simplesmente por isso, morriam. As mentes modernas, ao se depararem com qualquer relato do Martirológio, dizem: “São loucos”. E que seja assim não nos deve impressionar, pois a sabedoria de Cristo é, de fato, loucura para o mundo (cf. 1Cor 1, 18-25). Estranho mesmo é que os próprios seguidores de Cristo pensem assim e desprezem sua própria história e antepassados. 

Não deveria ser dessa forma, mas de fato é.

O martírio e a caridade

Como remédio para essa mentalidade mundana que infelizmente contaminou muitos membros da Igreja, é preciso que repassemos rapidamente algumas noções sobre o martírio. Guiar-nos-á neste breve artigo Santo Tomás de Aquino (cf. STh II-II 124). 

Antes, porém, de passar ao que diz o Aquinate, importa considerar que esta valiosa lição de sua pena vem, na verdade, do próprio Evangelho e parte de um pressuposto muito simples: o de que existe uma “escala” de bens, sendo que, pelos superiores, vale a pena sacrificar os inferiores. Melior est misericordia tua super vitas, diz a Deus o salmista: “A tua misericórdia é melhor que todas as vidas” (Sl 62, 4). Numa análise simples de quem tem fé, morrer para ganhar a vida eterna não é (ou não deveria ser) nenhuma loucura. Trata-se simplesmente de escolher o bem maior. 

Os carrascos dos mártires geralmente lhes apresentavam uma saída aparentemente bem “simples”: realizar um determinado ato, pecaminoso, e livrar-se da morte. Bastava lançar um punhado de incenso diante da imagem do imperador. Bastava pisar uma imagem da Virgem Maria ou de Jesus. O mártir, porém, diz Santo Tomás, “nos propõe desprezar o mundo visível pelas realidades invisíveis” (4c.), a terra pelo Céu, o prazer momentâneo pela glória eterna, a vida deste mundo pela vida com Deus. Convenhamos: uma troca justa e, à luz da fé, perfeitamente racional.

É por isso que todo cristão deve estar disposto a sofrer o martírio, caso se lhe apresente a ocasião (1c.), como se repetisse com o salmista: Paratum cor meum, Deus, paratum cor meum — “Meu coração está pronto, meu Deus, está pronto o meu coração!” (Sl 107, 2). E por que isso? Porque o martírio é um ato de virtude, ao qual faz referência o próprio Jesus, nas suas bem-aventuranças: “Felizes aqueles que sofrem perseguição pelo amor da justiça, porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5, 10).

Sofrer perseguição, no entanto, é diferente de buscá-la. É preciso ter o coração sempre pronto, mas isso não significa oferecer-se presunçosamente ao martírio. Cristo, por exemplo, por várias vezes saiu do meio de seus perseguidores, quando eles pegaram em pedras para matá-lo (cf. Mt 12, 14-15; Jo 8, 59). “Um homem nunca deve oferecer a outro uma ocasião de agir injustamente”, diz o Doutor Angélico. “Mas se o outro agir injustamente, o primeiro deve suportá-lo na medida do que sente” (1 ad 3).

Além disso, o martírio é um ato impossível sem a graça de Deus e sem a virtude da caridade, que o anima. Sem amor, recorda o Apóstolo, de nada valeria entregar o próprio corpo às chamas (cf. 1Cor 13, 3). Mas é tal a ligação entre o martírio e a caridade que Santo Tomás chega a ensinar o seguinte:

O martírio, entre todos os atos virtuosos, é aquele que manifesta no mais alto grau a perfeição da caridade. Porque tanto mais se manifesta que alguém ama alguma coisa quanto por ela despreza uma coisa amada e abraça um sofrimento. É evidente que entre todos os bens da vida presente aquele que o homem mais preza é a vida e, ao contrário, aquilo que ele mais odeia é a morte, principalmente quando vem acompanhada de torturas e suplícios por medo dos quais “até os próprios animais ferozes se afastam dos prazeres mais desejáveis”, como diz Agostinho. Deste ponto de vista, é evidente que o martírio é, por natureza, o mais perfeito dos atos humanos, enquanto sinal do mais alto grau de amor, segundo o que está em Jo 15, 13: “Não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos” (3c.).

Um mártir incomum

Para exemplificar a supremacia desse testemunho dos mártires, contemos a história de um mártir tanto quanto incomum: um que, diferentemente de uma Santa Prisca ou de uma Santa Inês, levou uma vida pouco íntegra; um que morreu como santo, mas viveu mal — um “filho” de São Dimas, em suma.

E por que contar uma vida assim? Para animar-nos! Pois, ao celebrarmos na liturgia santos de estatura elevada, de vida íntegra e reputação ilibada, talvez nos sintamos um pouco intimidados e até desanimados. Prisca e Inês, por exemplo, além de mártires, foram virgens — termo que nos assusta porque, infelizmente, nós somos aquela sociedade profetizada por Nossa Senhora do Bom Sucesso, na qual quase já não existem mais “almas virgens”. (Isto é, com a atmosfera de impureza que respiramos, até as pessoas que, “tecnicamente”, são virgens, infelizmente estão com o coração contaminado.) Cristo, porém, como lemos no Evangelho, veio não para os justos, mas para os pecadores. Foi justamente 

[…] o caso de Santo André Wouters, um padre diocesano em Gorcum, na Holanda. Ele era conhecido por sua embriaguez pública, pelos múltiplos casos amorosos que mantinha e por ser pai de inúmeros filhos, apesar de seu voto de celibato. Corsários calvinistas tomaram a cidade e começaram a matar padres e religiosos. De acordo com alguns relatos, ele escolheu juntar-se a eles no cativeiro, onde foi ridicularizado por sua vida de devassidão, infidelidade e escândalo nas mãos dos carrascos calvinistas. Em 9 de julho de 1572, Pe. André Wouters foi executado, ao lado de outros 18 padres e religiosos, por ser católico. Quando o laço foi colocado em volta de seu pescoço, ele foi questionado por seus algozes se renunciaria à sua fé na Eucaristia e no papado a fim de salvar a própria vida. As últimas palavras do Pe. Wouters a seus carrascos foram: “Fornicador eu fui, herege nunca”. Ele seria canonizado pelo Beato Papa Pio IX, juntamente com os outros mártires de Gorcum, em 1865. Sua fé e seu amor a Cristo, exemplificados em seu ato de martírio, expiaram os pecados de sua vida terrena para trazê-lo, pela graça de Deus, à glória celeste [2].

“Fornicador eu fui, herege nunca”: ao reconhecer humildemente a própria culpa e indignidade, numa espécie de ato final de contrição, este sacerdote demonstrava que ninguém foi feito para o pecado, nem mesmo os pecadores. Não é porque um homem cai que deve permanecer deitado, não é porque está sujo que deve ficar imundo para sempre. Em suas palavras se vê também um senso correto da gravidade dos pecados: a é maior do que a temperança; Deus é maior do que o corpo; por isso, a heresia é pior do que a fornicação.

Os mártires de Gorcum, retratados por Cesare Fracassini.

Além disso, Pe. André Wouters não “aprovava” o seu pecado. O relato dá a entender que ele suportou com paciência o escárnio de seus perseguidores, começando já aí a reparar sua má conduta passada. E o verbo empregado no passado, “fui”, também mostra como ele já não se identificava com a sua miséria. Nas mãos dos hereges calvinistas, ele certamente se viu bem próximo da morte e abraçou aquela situação como uma oportunidade única de se emendar e redimir.

E foi justamente o que aconteceu. É tal a grandeza do martírio, que extinguiu todos os pecados passados deste padre devasso no fogo abrasado de caridade que o animou a entregar a própria vida! Há, pois, esperança para os pecadores. A misericórdia de Deus se derrama realmente com abundância sobre aqueles que se arrependem sinceramente de seus pecados e procuram consertar sua vida. 

Ao celebrarmos os mártires, portanto, lembremo-nos do grande amor que os impulsionou a entregar a própria vida por Cristo, e celebremos esta grande graça que eles receberam das mãos de Deus. Pois digno mesmo ninguém é de receber tamanha honra — nem Santa Prisca, nem Inês, nem Sebastião, nem Santo André. Isso, porém, não relativiza o sacrifício que eles realmente ofereceram para permanecer fiéis a Jesus e incorporados na única Igreja fundada por Ele — Igreja fora da qual eles acreditavam piamente não haver salvação

Se não acreditassem nisso, não teriam morrido. 

E se isso não for verdade, então eles morreram todos em vão.

Notas

  1. Os fiéis que rezam as Horas canônicas na sua forma antiga podem ter contato com o Martirológio diariamente ao recitar a hora Prima (que foi abolida da atual Liturgia das Horas).
  2. Fr. Matthew MacDonald, On the Limits and Failures of Saints. In: Catholic World Report, 2 jan. 2021.

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