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Para que existe o Brasil?
Espiritualidade

Para que existe o Brasil?

Para que existe o Brasil?

Para que existem as nações? Para que existirá o Brasil? Qual será a riqueza de que estamos incumbidos? Qual será a partitura que devemos executar no maravilhoso concerto que tem por ouvintes as hierarquias dos anjos?

Gustavo Corção7 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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Andei estes dias pensando no problema do um e do múltiplo que divide as filosofias e as mentalidades. Nas filosofias de inspiração nominalista, infensas às idéias universais, predomina a tendência de valorizar a diversidade; nas filosofias de inspiração aristotélico-tomista, ao contrário, ensina-se que a perfeição de uma coisa deve ser procurada na sua maior unidade, desde que saibamos distinguir entre unidade vista do lado da forma e uniformidade tomada do lado da matéria.

É errado, e meio tolo, atribuir à diversidade, ao pluralismo, um título de nobreza, e dizer, como diz o professor Anísio Teixeira, que uma sociedade se torna mais evoluída na medida em que se torna mais complexa e mais diferenciada. Chega a dizer que haveria vantagem, para o Brasil, se em lugar da predominância católica nós tivéssemos uma solução maior, um estoque mais variado de credos. Ora, parece-nos fácil provar a falta de consistência de tal opinião. Afirmando o que afirma, o conhecido autor de livros sobre pedagogia professa, simplesmente, um total ceticismo religioso, e deseja a diversidade dos credos como se nenhum deles pretendesse conter verdades, e de fato as contivesse. Duvidamos que o professor Anísio Teixeira desejasse para o Brasil, para o desenvolvimento, para a emancipação econômica e cultural do Brasil, um pluralismo científico, uma diversidade de opiniões a respeito do funcionamento do fígado, das causas do câncer, e das propriedades do triângulo retângulo. É claro, amigo leitor, que também nós desejamos o pluralismo no campo do direito de pesquisar, mas é claríssimo que só diremos que há progresso científico na proporção em que se unificam os conhecimentos e as opiniões.

Há entretanto certas diversidades que têm uma significação de riqueza e de perfeição, além daquela que tem o título precário de direito de pesquisa. A variedade de indivíduos concretos dentro de uma espécie, a variedade das rosas, por exemplo, é uma riqueza, é, digamos assim, um belo esforço que as existências concretas realizam para exprimir o conteúdo total de uma essência. Para conhecer um pouco o que é uma rosa, qual é o pensamento de Deus que ganha corpo na rainha das flores, é preciso ter visto muitas pétalas, muitos matizes, muitas raças diferentes do mesmo sonho divino. A diversidade aí é um discurso, é um poema que se estende para com muitas palavras dizer uma coisa. No fundo da questão, como se vê, há sempre o primado da unidade, mas no caso que tomamos como exemplo a diversidade não tem o sentido melancólico, amargo, que tem o da diversidade de opiniões toleradas enquanto não se acha a verdade única de uma coisa. E o que disse da rosa vale também para o homem. A perfeição da humanidade-essência se realiza na humanidade-existência. A riqueza da idéia “homem”, que Deus concebeu e criou, não cabe num só indivíduo, não se esgota no mais belo, no mais talentoso dos homens. Foi preciso deixar a história correr. Foi preciso deixar nascer um Mozart, um Gauss, uma Catarina de Sena, um Paulo de Tarso, um Einstein, e muitos outros exemplares mais obscuros, foi preciso deixar nascer o rapaz que dias atrás me contava que não aceitara um trabalho com o triplo de sua remuneração atual, porque precisava fazer certas coisas que sua consciência desaconselhava, foi preciso multiplicarem-se os talentos, as inclinações, as vocações, as nomeações de Deus, para que a vasta multidão, numa espécie de longo e ardoroso discurso, explicasse aos astros, aos anjos, a toda a criação, o que é este ser espantoso, absurdo, incongruente, maravilhoso, que um deles definiu como “animal racional”. A definição essencial é breve, mas a explanação, para corresponder à profundidade de tão singela definição, teve de ser extensa como a história da humanidade.

Essa diversidade, que é uma explicação, uma demonstração prática e existencial de uma natureza definida por uma fórmula universal — essa diversidade que pertence à didática de Deus, é boa, é excelente, e nem sequer representa uma tolerância, uma expectativa, um alargamento à espera de uma unidade maior. Não. A diversidade da multiplicação de indivíduos da mesma espécie, ao mesmo tempo que dilata os limites da definição, fortifica os vínculos da unidade interna da coisa. Ao contrário do que pensa o nominalista, nós sentimos ainda mais forte a unidade de natureza humana quando passeamos pelo imenso jardim onde nasceram e desabrocharam as flores da humanidade. Cada vez mais entendemos, sentimos, penetramos a idéia de um ser que pelo gênero pertence à animalidade e pela espécie pertence à racionalidade.

E o que dizemos para os homens diremos também para as nações. A variedade delas é uma riqueza, desde que seja vista naquela perspectiva que enriquece e fortifica a unidade. Para que existem as nações? Para si mesmas? Para serem poderosas potências armadas e engenhos mortíferos e enfeitadas com bandeiras e hinos? Para serem temas de discursos? Para trazerem cores diversas à cartografia, e tornarem as etapas mais agradáveis? Para que existirá o Brasil? Para o sr. Negrão de Lima ser embaixador dele em outra nação que por sua vez manda embaixadores para o Brasil? Existirá o Brasil, como nação, como pátria, para as crianças de colégio fazerem composições patrióticas, e para os construtores de Brasília se encherem de lucro à custa da mesma idéia ensinada nos colégios? Existirá para o hino, para a bandeira?

Parece-nos claro que, se fosse para tais serventias, melhor seria que houvesse um só país, falando uma só língua. A transcendental utilidade, a finalidade das nações tem de ser procurada mais alto e na mesma direção em que se explica a diversidade dos homens. Além da variedade de pessoa para pessoa, a idéia de homem, pensada e criada por Deus, precisa da variedade de grupos. Existem nações com timbres culturais diferentes, como existem instrumentos diversos da mesma sinfonia. E cada nação traz ao mundo a contribuição preciosa de um timbre, de um matiz, de um odor que compõe a grande apoteose do plano de Deus, no centro da qual está a Cruz do Salvador como grande síntese do pensamento de Deus sobre o Homem, ou melhor, do pensamento de Deus tornado Homem.

Em palavras mais frias diremos que as nações têm vocações diversas na partitura, e idênticas no objetivo final que é a glória de Deus e a exposição universal das obras e feitos do homem, que se completará no dia do juízo final. Por aí se vê que as nações, não só para as trocas imediatas de utilidades, existem, umas para outras numa grande e essencial solidariedade. E é nessa perspectiva que deveriam ser armados todos os problemas nacionais, e não na mesquinha e tola perspectiva do egoísmo coletivo que faz da nação um fim em si mesma.

“Primeira Missa no Brasil”, de Vítor Meireles.

E qual será, nessa ordem de idéias, a razão de ser do Brasil? Qual será a vocação coletiva, a vocação nacional deste povo que anda perplexo, tonto, sem saber o que fazer de seu imenso território, e sem o tipo de almas que aqui vive, trabalha, canta, chora e ri. E ri, e chora, com um sotaque espiritual diferente dos outros povos. E dança como o francês ou o russo não sabem dançar. Dizem que o Garrincha, assistindo um jogo dos russos, sorria com ar de certa superioridade, e quando lhe perguntaram se não estava com medo do treinadíssimo time soviético, respondeu: — “Não. Eles são duros de cadeiras.” E era verdade. Eles não tinham os requebros de nossa astúcia física, a flexibilidade de nossa graça felina, certamente serão duros de cadeiras em muitas outras coisas em que somos graciosos e ágeis.

A verdade manda confessar que, fora do futebol, pouca coisa trouxemos para a tal apoteose da essência humana. Qual será a riqueza de que estamos incumbidos? Qual será a partitura que devemos executar no maravilhoso concerto que tem por ouvintes as hierarquias dos anjos?

Por mais insensato que possa parecer tal idéia aos que vivem estudando os chamados problemas brasileiros, é nesta perspectiva profética, teológica, metafísica, que deveriam estar situadas todas as pesquisas. Há problemas imediatos, como o socorro devido às vítimas do nordeste, mas há o grau de problema da vocação, da direção geral, que anda esquecido, ou que está sob a ameaça de uma trágica apostasia. E aqui — deixando para outro dia a continuação desta louca conversa — ouso dizer o que penso de um Brasil que trai a sua vocação e que se desvia dos caminhos de Deus. Rasguem as vestes os fariseus do nacionalismo materialista (aliás outro não há), dêem-me os títulos que quiserem: ouso dizer que prefiro vê-lo apagado do mapa, afundado na terra, tragado pelo mar, do que vê-lo instalado num desenvolvimento que nem sequer traz a felicidade material, animal, das multidões, e que volta as costas ao chamamento de Deus e à esperança dos homens.

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Ele foi até Fátima só para pintar a visão do inferno
Igreja Católica

Ele foi até Fátima
só para pintar a visão do inferno

Ele foi até Fátima só para pintar a visão do inferno

Muitos não sabem, mas, no auge de sua popularidade, em 1960, o pintor surrealista Salvador Dalí foi contratado para pintar a visão do inferno, tal como Lúcia, Jacinta e Francisco a tiveram em Fátima, durante uma aparição de Nossa Senhora.

Barb ErnsterTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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Essa história pode ser conhecida melhor e mais a fundo em Dalí’s Fatima Secret, título de um premiado documentário (que pode ser adquirido aqui) e de um livro homônimo escrito por Paul Perry (que pode ser adquirido aqui).


Salvador Dalí é considerado um dos maiores artistas do século XX e o mais famoso surrealista. No auge da sua popularidade, em 1960, ele foi contratado pelo chamado “Exército Azul de Nossa Senhora de Fátima” para pintar a visão do inferno, tal como Lúcia, Jacinta e Francisco a tiveram durante a aparição de 13 de julho de 1917, em Fátima. A ideia do quadro partiu de um protestante que, depois de ler sobre a visão nas Memórias da Irmã Lúcia, se converteu ao catolicismo e entrou no seminário. Pensava-se que, com esta mensagem, Dalí poderia alcançar jovens e incrédulos com muito mais eficácia que qualquer sermão numa manhã de domingo ou história a respeito dos santos. Esse encargo mudaria a vida e a obra de Dalí, tirando-o de seu ateísmo declarado e trazendo-o de volta a suas raízes católicas [1].

Dalí cresceu na Espanha, perto da fronteira com a França, na Catalunha. Seu pai era ateu e anticlerical, e sua mãe, uma devota católica romana. Nascido apenas nove meses após a morte de seu irmão homônimo, Salvador costumava ouvir de seus pais que ele era seu irmão reencarnado. Tendo de conciliar as diferentes influências que recebia, de fé em Deus e ao mesmo tempo de incredulidade, Dalí cresceu confuso e incerto, afirmando certa vez: “O céu deve se encontrar exatamente no centro do coração do homem que tem fé. Neste momento, ainda não tenho fé e temo que morrerei sem o céu”.

Salvador Dalí, em 1939.

Após sua primeira exposição nos Estados Unidos, em 1934, ele se tornou uma sensação imediata, e a fama de Dalí cresceu ao longo dos anos 1930 e 40. Sua famosa pintura A Persistência da Memória, com a imagem de relógios de bolso derretendo, ajudou a definir seu método de criatividade e surrealismo, o “método crítico-paranoico”. A criatividade de Dalí surgia de imagens que ele extraía do subconsciente enquanto caía em um estado de semivigília, ou hipnagogia.

Ao longo de sua vida, Dalí lutou com a ideia de sua própria morte, um medo que não conseguia superar. Ele estudou novas descobertas relacionadas à terceira dimensão, que o levaram a buscar o acesso à quarta dimensão e à imortalidade. Suas obras são permeadas por temas de erotismo, morte e decadência, mas também por temas religiosos e assuntos relacionados ao progresso científico.

Ele tinha 55 anos quando foi abordado pelo Exército Azul para pintar a visão do inferno. O cofundador da associação, John Haffert, recebeu uma carta do seminarista encorajando-o a apresentar a ideia ao artista. Ele também colocou as economias de sua vida para pagar por isso. Haffert encontrou-se com Dalí no hotel onde ele estava hospedado em Nova Iorque e contou-lhe sobre a missão do Exército Azul de divulgar a mensagem de Fátima. John leu para ele a história de Fátima nos escritos de Lúcia e a descrição da visão do inferno.

“Cabe a você apresentar esta visão de forma verdadeira e vívida”, disse Haffert a ele. “Você está sendo escolhido para ser o artista de Nossa Senhora. Um intérprete visual para Deus”.

Dalí ouviu com atenção e pediu um prato de escargot. Quando chegou, ele começou a espetar os caracóis com garfos de escargot, explicando a Haffert que os grandes artistas sempre usavam tridentes para representar os demônios no inferno, mas ele usaria garfos de escargot. “A alma de um pecador é como um caracol”, explicou ele. “Ela se encaracola e se esconde dentro da casca, e a única maneira de buscá-la é usando um garfo de escargot!”

Os dois acertaram os termos do contrato e assinaram o acordo em um guardanapo de papel.

Haffert decidiu tentar um encontro entre Dalí e a Irmã Lúcia, que, em 1960, era uma monja carmelita de clausura, em Coimbra, Portugal. Ele não teve nenhum sucesso, mesmo depois de escrever para ela pessoalmente. Dalí disse a Haffert que não havia problema. Ele estudaria o que ela disse sobre a visão e montaria sua própria versão dela, dizendo-lhe: “Vou pintar o que vejo”.

Detalhe de “A Persistência da Memória”, obra-prima de Dalí.

Por mais de um ano Dalí se debruçou sobre a visão do inferno, tal como descrita por Lúcia, procurando por imagens em seu subconsciente, mas tudo foi em vão. Haffert sugeriu que ele fosse a Fátima em busca de inspiração. Parte do problema de Dalí era que ele não sabia como apresentar a Santíssima Virgem Maria. Sua esposa, Gala, sempre fora o rosto das mulheres em suas pinturas.

Em Fátima, ele foi levado diretamente ao local onde a Mãe Santíssima apareceu e onde as crianças viram a terra se abrir, revelando o inferno. A chave para compreender a visão do inferno, segundo seu guia, o cônego José Galamba de Oliveira, era o apelo à conversão. E o Coração Imaculado de Maria é sinal de esperança para todos os que respondem à sua mensagem de conversão.

Durante esta viagem, por influência de Galamba, Dalí finalmente conseguiu se encontrar com a Irmã Lúcia. Ele passou algum tempo com ela, conversando através das grades do locutório. Dalí comentaria mais tarde como era especial “respirar o mesmo ar que uma futura santa”, como era estar diante de uma presença celestial. Dalí finalmente teve a inspiração para pintar a visão do inferno.

Antes de sair de Fátima, Dalí pediu ao cônego Galamba que ouvisse sua confissão. O padre contou depois a Haffert que foi “a confissão mais comovente, sincera e profunda” que ele já ouvira em suas muitas décadas como sacerdote.

Em 13 de março de 1962, Haffert recebeu a notícia de que a pintura estava terminada e o senhor Dalí queria apresentá-la. Ele todavia não pôde estar presente na ocasião, mas o monsenhor Harold Colgan, cofundador do Exército Azul junto com Haffert, foi em seu lugar. Pela expressão em seu rosto quando a pintura foi revelada, mons. Colgan ficou chocado com a visão de acordo com Dalí. Não era o que ele esperava.

“Visão do Inferno”, por Salvador Dalí.

No entanto, após um estudo e exame mais aprofundados, acredita-se que Dalí tenha retratado a si mesmo na visão, pintando a sua própria conversão. O quadro mostra uma pessoa moribunda, com sua alma vermelha e translúcida, torturada e atormentada por demônios no inferno, que o espetam com garfos de escargot, tentando extrair sua alma. Abaixo, a terra fissurada se abre para o lugar do inferno. Acima, a Santíssima Mãe, angustiada diante do horror de uma alma se perdendo, revela seu coração dolorido e amoroso. Uma figura solitária em oração segura um crucifixo apontado para o céu.

As crianças de Fátima disseram que teriam morrido de medo da visão do inferno se Maria não estivesse com elas. Ela disse às crianças: “Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração”. Durante a aparição de agosto, ela lhes implorou: “Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas”.

Ninguém sabe o que a Irmã Lúcia disse a Dalí em sua breve visita, mas ela tinha um talento especial para dizer exatamente o que alguém precisava ouvir para voltar a Deus, incluindo comunistas obstinados. Ela deve tê-lo ajudado a conhecer o amor de Deus e de sua Mãe Santíssima e a ver que seu Imaculado Coração é um refúgio para os pecadores. Na visão que pintou, Dalí não usou Gala como modelo para o rosto de Maria. Ele voltou a suas raízes católicas e à fé em Deus e enfrentou sua mortalidade.

Em 1997, quando a Irmã Lúcia finalmente viu o retrato da visão, por Dalí, ela o estudou atentamente e disse a seu intérprete: “O inferno é espiritual e não físico, e é impossível para qualquer pessoa fazer uma imagem do inferno. A pintura chega o mais humanamente possível de uma representação do inferno”.

Salvador Dalí morreu de insuficiência cardíaca no dia 23 de janeiro de 1989, aos 84 anos. Ele manteve seus sentimentos religiosos em segredo do mundo. A Irmã Lúcia certamente deve ter rezado por ele.

Sua pintura Visão do Inferno está exposta na casa de um colecionador de arte de Connecticut, que a comprou do Apostolado Mundial de Fátima em 2007.

Notas

  1. Ao menos pontualmente é possível afirmar isso, pois, como narrado no texto, enquanto procurava inspiração para pintar a sua Visão do Inferno, Salvador Dalí realmente se confessou com um sacerdote católico. Se ele se manteve ou não em estado de graça até o fim de sua vida, já é outra história. Como explicado no final deste mesmo texto, o artista “manteve seus sentimentos religiosos em segredo do mundo”. Por outro lado, não consta que muitos de seus quadros obscenos tenham sido tirados de circulação. Só nos resta, portanto, confiar a sua alma à misericórdia de Deus, oferecendo nossas orações por ele (N.T.).

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Por que precisamos voltar a ler o Martirológio?
Santos & Mártires

Por que precisamos
voltar a ler o Martirológio?

Por que precisamos voltar a ler o Martirológio?

É hora de voltarmos a ler o Martirológio Romano — como Igreja militante reunida em torno dos membros mais ilustres da Igreja triunfante; como irmãos reunidos para folhear e admirar o álbum de sua família.

Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Em nosso trabalho diário, incessante e incansável, de resgatar as tradições de nossos antepassados e repassá-las às futuras gerações, um livro não pode faltar: o Martirológio Romano.

Apesar do nome, o livro elenca santos e beatos diversos da Santa Igreja, não apenas os que morreram pela fé. Na explicação do prof. Peter Kwasniewski:

O Martirológio Romano começou como uma antiga lista dos nomes dos mártires em seu dies natalis, isto é, nos dias em que eles nasceram para a glória celeste. Foi-se incrementando século após século, à medida que confessores, Doutores, monges, eremitas, frades, virgens, viúvas, reis, rainhas e outros se juntavam à procissão dos mártires através dos séculos. Trata-se de um livro litúrgico, de fato, porque é recitado ou cantado como parte do igualmente antigo ofício de Prima. (O costume é ler a lista de santos do dia seguinte, o que nos prepara mentalmente para as I Vésperas de qualquer grande festa próxima e, em geral, nos faz lembrar com antecedência dos santos de que queiramos fazer memória.) Ele também transmite a fé da Igreja e continua a ser usado pelos religiosos, clérigos e fiéis leigos que aderiram ao usus antiquior do Rito Romano.

A Prima é uma hora canônica do rito antigo, não mais presente nos livros litúrgicos pós-conciliares. Era rezada após as Laudes, e sua composição, bastante rígida, se concentrava em pedir a Deus luzes e forças para os trabalhos do dia que começava. No meio desse ofício, era prescrita a leitura do Martirológio, com a qual se pedia a intercessão dos santos, ao mesmo tempo que um breve elogio de suas vidas era proposto à nossa meditação, como exemplo a ser seguido.

É claro que, com a abolição da hora Prima — a qual, diferentemente de outros itens da reforma litúrgica, foi pedida pelo próprio Concílio Vaticano II —, também se tornou menos comum o uso e a leitura quotidiana do Martirológio. Seu valor, no entanto, não só permanece: à medida que se aprofunda cada vez mais o processo de “protestantização” no seio da Igreja, sua importância hoje talvez seja muito maior do que 60 anos atrás.

“O Martírio de Santo André”, por Pedro Paulo Rubens.

Sim, é lastimável dizê-lo, mas os católicos de nossa época infelizmente perderam o contato que os fiéis de outras épocas tinham com os santos — com seus tríduos, novenas e ladainhas. Numa ânsia por nos aproximar dos evangélicos, terminamos acolhendo seus postulados e incorporando-os em nossa vida; é como se, de repente, tivéssemos ficado “com medo” de invocar os santos, celebrar suas memórias e ter imagens deles em casa. Nas próprias igrejas católicas, muitas festas tradicionais em honra dos santos se perderam, e os lugares que a eles se reservavam nos templos foram miseravelmente esvaziados, quando não destruídos por completo. 

Esse estado de coisas precisa mudar, a começar pelas nossas próprias casas. Assim como nos relacionamos no dia a dia com os que amamos — nossos cônjuges e filhos, parentes e amigos —, precisamos também criar uma familiaridade com os santos e santas da Igreja. Afinal de contas, se com a graça de Deus viermos a nos salvar, é no convívio com essas almas bem-aventuradas que passaremos a eternidade depois desta vida. Se nossa morada permanente de fato não é neste mundo — como confessamos todos os domingos ao dizer: “Creio… na vida eterna” —, precisamos nos esforçar desde já por conhecer os nossos vizinhos do outro mundo. 

Com efeito, como seremos verdadeiros “membros da família de Deus”, “concidadãos dos santos” (Ef 2, 19), se não tivermos intimidade com eles, se não soubermos ao menos quem foram e por que morreram? 

É claro que, para conhecer a fundo a vida dos santos, o Martirológio Romano não será suficiente. O elenco dos santos e beatos aí presente, além de não ser exaustivo, não contém biografias extensas. De todo modo, sua leituraespecialmente se assídua, quando não quotidianajá é um começo e tanto, que nos ajudará também a orientar nossos dias de acordo com o calendário litúrgico da Igreja. 

Sim, porque os católicos, além do ano civil, com seus meses e dias determinados, têm uma marcação transcendente do tempo, orientada pelos mistérios da nossa fé, pelos eventos extraordinários da vida dos santos e por muitas outras devoções que recebemos de nossos antepassados. Assim, janeiro é o tempo do Natal; fevereiro e março, da Quaresma; em abril temos a Paixão do Senhor e sua Páscoa; em maio, Nossa Senhora; em junho, os célebres Santo Antônio, São João Batista e São Pedro; em julho, o Preciosíssimo Sangue de Cristo; em agosto, São Lourenço e as vocações; em setembro, São Miguel Arcanjo; em outubro, os Santos Anjos e o Rosário de Nossa Senhora; em novembro, as almas do Purgatório; em dezembro é Advento; e no ano seguinte começamos tudo de novo...

Como era belo, também nesse sentido, o costume de dar aos filhos os nomes dos santos! As crianças já nasciam protegidas por companheiros celestes, recebendo desde o princípio as bênçãos de seus santos padroeiros! Os dias destes, marcados pelo Martirológio, eram celebrados com festa igual ou até maior que a dos aniversários natalícios! Eis a tradição do aniversário onomástico, que precisamos recuperar.

“O Martírio de São Pedro”, por Caravaggio.

Outra coisa em que o Martirológio nos ajuda muito, com os relatos tantas vezes perturbadores de como morreram os mártires, é na lembrança destas palavras de Nosso Senhor, das quais nós, seja por ingenuidade, seja pela adesão a certas ideologias, acabamos nos esquecendo: Mundus vos odit, “O mundo vos odeia” (Jo 15, 18). Das primeiras perseguições dos imperadores romanos, passando pelas expansões islâmicas, e pelos morticínios das revoluções “iluministas”, até os campos de concentração modernos, a história é um testemunho vivo desta verdade.

Muitos de nós, em alguns lugares, ficamos “mal acostumados” com a relativa paz de que gozávamos no exercício de nossa religião. Mas as notícias mais recentes — de cidadãos tendo desrespeitadas as suas liberdades mais básicas e fundamentais; de famílias vendo o direito de educar os próprios filhos ameaçado por um Estado cada vez mais ingerente; de regimes totalitários e assassinos perseguindo abertamente os discípulos de Cristo — vêm para nos chacoalhar e lembrar: não fomos feitos para o conforto deste mundo passageiro. Não à toa o príncipe dele é justamente o antagonista de Cristo, o verdadeiro “Príncipe da Paz” de que fala a Escritura (cf. Is 9, 6). 

Em suma, precisamos nos preparar para as perseguições que se avizinham. E que modo pode haver melhor de fazer isso, senão olhando para os que nos precederam e venceram antes de nós as mesmíssimas batalhas que estamos prestes a travar

Por isso, é hora de voltarmos a ler o Martirológio Romano — como Igreja militante reunida em torno dos membros mais ilustres da Igreja triunfante; como irmãos reunidos para folhear e admirar o álbum de sua família. Olhando para a vitória dos mártires, das virgens e dos confessores, ganharemos ânimo no caminho deste “vale de lágrimas”. Descansando para beber água na fonte de sua glória, receberemos graças, forças, para combater nossos inimigos. 

Os que tiverem afinidade com a liturgia antiga, podem acrescentar o Martirológio todos os dias em suas orações matinais, recitando a hora Prima. Saibam todos, porém, que essa obra está à disposição de todos, seja em sua forma mais atualizada, disponível aqui, seja em suas edições mais antigas. Nunca o tesouro da vida dos santos esteve tão facilmente acessível!

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O egoísmo e a instabilidade dos casamentos fechados aos filhos
Família

O egoísmo e a instabilidade
dos casamentos fechados aos filhos

O egoísmo e a instabilidade dos casamentos fechados aos filhos

Por que os casais que escolhem não ter filhos são, em última instância, egoístas e instáveis? Qual o problema com essa falta de desejo, que infelizmente parece estar se alastrando pelo Ocidente nos dias de hoje?

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Muitos séculos antes de Cristo, Aristóteles registrou a seguinte observação em sua Ética a Nicômaco: “Os filhos parecem ser um vínculo de união. Logo, casais estéreis se separam mais facilmente, pois os filhos são um bem comum às duas partes, e o que é comum preserva a amizade” [1]. No século XIII, Santo Tomás de Aquino fez o seguinte comentário a essa passagem: 

Em seguida, [Aristóteles] indica um meio de fortalecer essa amizade [do matrimônio]. Ele observa que os filhos parecem ser causa de uma união estável e duradoura. Logo, casais estéreis se separam mais facilmente. De fato, no passado, o divórcio era concedido por causa da esterilidade. A razão disso é que os filhos são um bem comum ao marido e à mulher, cuja união existe pelo bem dos filhos. Mas o que é comum continua e preserva a amizade, que também consiste em compartilhar (communicatio), como foi dito.

O Papa João Paulo II, um filósofo da moral muito familiarizado com Aristóteles e Santo Tomás, parece ter pensado justamente nisso quando escreveu o seguinte em sua Carta às Famílias

No recém-nascido realiza-se o bem comum da família. Assim como o bem comum dos esposos se cumpre no amor esponsal, pronto a dar e a acolher a nova vida, do mesmo modo bem comum da família se realiza mediante o mesmo amor esponsal concretizado no recém-nascido (n. 11).

Nem o filósofo iluminista Baruch Spinoza (1632-1677) — um moderno obstinado que afirmou que as coisas não agem por natureza com vistas a um fim e que as causas finais são produtos de nossa fantasia — foi capaz de negar em sua Ética que o matrimônio está inerentemente ligado aos filhos [2]. Foi como se os próprios fatos o forçassem a dar assentimento:   

Com relação ao matrimônio, certamente está em conformidade com a razão o fato de que o desejo de união física pode não ser provocado apenas pela beleza corporal, mas também pelo desejo de gerar filhos e educá-los; e mais ainda: o amor entre os dois, isto é, entre homem e mulher, pode não ser causado apenas pela beleza corporal, mas também pela liberdade da alma.   

Portanto, não estamos completamente despreparados para a observação um tanto ácida de Blaise Pascal (1623-1662), extraída de seus Pensamentos, segundo a qual os filhos são um bem tão grande para o matrimônio, que os casais que os evitam de forma egoísta são piores do que os fornicadores:

Não é a bênção nupcial [da Igreja] que remove o pecado da procriação, mas o desejo de gerar filhos para Deus, o que só é genuíno no matrimônio… As filhas de Ló, por exemplo, que só queriam ter filhos, eram mais puras sem o casamento do que as pessoas casadas que não desejam ter filhos.

Qual é o problema com essa falta de desejo? O que ela nos diz? Poderíamos começar com as incisivas observações de Gabriel Marcel, que descreve em sua obra Homo Viator a contradição da contracepção:

Os defensores do controle de natalidade alegam, de forma mais ou menos sincera, que é por piedade que se recusam a dar aos seus descendentes a chance de existir; mas ainda assim não podemos deixar de observar que essa piedade concedida a um custo baixo, não a seres vivos, mas a uma ausência de ser ou ao nada, é vista juntamente com uma oportunidade suspeitosamente positiva de satisfazer ao mais cínico egoísmo. Além disso, dificilmente ela pode ser separada de uma filosofia empobrecida que mede o valor da vida humana pelos prazeres e conveniências que proporciona.  

O que Marcel está fazendo é apontar o egoísmo inerente ao desejo de “manter o casamento apenas para nós dois”. Isso é contrário à sua própria natureza, que é boa, já que as coisas boas são feitas para ser compartilhadas, disseminadas, multiplicadas e perpetuadas. Se não quisermos multiplicar os pães e peixes que Deus nos deu uma capacidade natural de multiplicar, faremos passar fome a nós mesmos e aos outros. Se não buscarmos uma imagem viva de nosso amor, por meio da qual ele possa transcender a si mesmo e demandar ainda mais amor, levantaremos propositalmente uma barreira para o amadurecimento da amizade, o aumento das virtudes e o crescimento de nossa humanidade. Em suma, isso é autoparalisação, autoisolamento, autoimplosão. Tudo gira ao redor de um dos cônjuges. O pouco de atenção que sobra para o outro só serve para suprir as necessidades de uma das partes, não sobrando nada para mais ninguém [3]. Não à toa Aristóteles e Santo Tomás consideram esse tipo de relação instável e prestes a desintegrar-se.

É verdade que essa descrição só se aplicaria plenamente àqueles que estão tomados por uma mentalidade antifamília extrema, o que infelizmente parece estar se alastrando pelo Ocidente nos dias de hoje. Mas esse é o ponto mais baixo, o caso limite de uma tendência de pensamento e sentimento que não consegue enxergar (ou se recusa a fazê-lo) o quanto o amor esponsal é literalmente “corporificado na criança recém-nascida”

A sabedoria da Igreja Católica é muito diferente da loucura do mundo. Sua doutrina inspira, desafia e consola. Na encíclica Casti Connubii, o Papa Pio XI expressa essa sabedoria: 

Acresce que Deus quis que os homens fossem gerados, não somente para que existam e encham a terra, mas, muito mais, para que sejam adoradores de Deus, o conheçam e amem e, enfim, dele fruam perenemente nos céus. Este fim, em razão da admirável elevação do homem à ordem sobrenatural por Deus, supera tudo o que o olho viu, e o ouvido ouviu e o coração do homem concebeu (cf. 1Cor 2, 9). Daí se vê facilmente o quanto a prole, nascida pela onipotente virtude de Deus, cooperando para isso os cônjuges, é dom da divina bondade e fruto egrégio do matrimônio.

Que modo privilegiado de compartilhar o maior dos bens — batizar filhos e filhas, educá-los no temor e no amor a Deus e pô-los no caminho da vida eterna com Ele e todos os santos —, e fazê-lo como casal, como família!

Notas

  1. Quem se der ao trabalho de ler o texto completo, perceberá que a crítica do autor não é aos casais naturalmente estéreis ou com dificuldades para procriar, mas àquelas pessoas que escolheram, deliberadamente, fechar o seu casamento à geração da vida (N.T.).
  2. A caracterização de Spinoza como um filósofo do Iluminismo é historicamente imprecisa, mas já nele se encontram muitos elementos típicos dos “ilustrados” (N.T.).
  3. No original: It is all about me, a little about you inasmuch as you serve my perceived needs, and nothing about anyone else. Traduzindo literalmente, “é tudo sobre mim, um pouco sobre você (na medida em que sirva às minhas necessidades) e nada sobre mais ninguém” (N.T.).

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