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O Anticristo e seus disfarces
Espiritualidade

O Anticristo e seus disfarces

O Anticristo e seus disfarces

O Anticristo não se dará a conhecer como tal. Do contrário, poucos haveriam de segui-lo. Como, então, ele arrebanhará seguidores nesta nova época da história?

Fulton J. SheenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Novembro de 2017
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Durante a última semana do ano eclesiástico, a Liturgia da Igreja dirige o nosso olhar para o juízo final e os sinais que o acompanharão. No Fim dos Tempos, ensina o Catecismo da Igreja Católica, o Anticristo logrará enganar a muitos, instaurando uma falsa religião em que o homem, fazendo-se Deus, pensará ter encontrado a solução para todos os males desta vida, embora à custa da verdade salvífica do Deus que se fez homem.

Nesta nova matéria, o Venerável Fulton Sheen descreve-nos, com visão quase profética e muitíssimo atual, como será essa derradeira e não tão distante impostura religiosa.

O texto que tornamos disponível abaixo é uma versão reduzida e adaptada de um sermão pregado por Fulton Sheen, via rádio, em 1947. O texto completo desta pregação se encontra logo a seguir, no decorrer da matéria.


O novo momento histórico em que estamos entrando poder-se-ia chamar o período religioso da história humana. Por “religioso”, contudo, não queremos dizer que os homens se voltarão para Deus, senão que, pelo contrário, a indiferença ao absoluto, traço distintivo do período liberal da civilização, dará lugar a uma busca apaixonada por outro absoluto. De agora em diante, lutar-se-á não mais por colônias e direitos nacionais, mas por almas. Não haverá espadas meio embainhadas, lealdades pela metade nem vagas reivindicações de uma ingênua tolerância. Não haverá sequer grandes heresias, já que elas pressupõem alguma aceitação, ainda que parcial, da verdade.

As frentes de batalha já têm sido claramente demarcadas e não há mais dúvida sobre o que está em jogo. De agora em diante, os homens estarão divididos em duas religiões, entendidas aqui como sujeição a um absoluto. O conflito do futuro será travado, pois, entre o Absoluto que é o Deus-homem, de um lado, e o absoluto em que se converteu o homem-deus, de outro; entre o Deus que se fez homem e o homem que se proclamou deus; entre os que são irmãos em Cristo e os que conluiam com o Anticristo.

O Anticristo, porém, não se dará a conhecer como tal; do contrário, poucos haveriam de segui-lo. Ele não trajará vermelho, não terá cheiro de enxofre nem um tridente ou uma cauda pontiaguda como o Mefistófeles de Fausto. Essa caricatura serviu-lhe para convencer a muitos de que ele não existe, pois o diabo sabe que tanto maior será o seu poder quanto menos acreditarmos em sua existência. É precisamente quando o ignoramos que maior é o poder que ele exerce sobre nós. Deus, com efeito, definiu-se como “Eu sou aquele que sou” (Ex 3, 14); o diabo, ao contrário, como “eu sou aquele que não sou”.

Em nenhuma passagem das Sagradas Escrituras se encontra qualquer referência à imagem popular do demônio como um bufão vestido de vermelho. A Bíblia o descreve como um anjo decaído, como o “príncipe deste mundo” (cf., por exemplo, Jo 12, 31; 16, 11), cuja principal ocupação é tentar persuadir-nos de que não há outro mundo além deste. Sua lógica é simples: se não existe nenhum céu, tampouco existe um inferno; ora, se não há inferno, então não existe pecado; mas se o pecado não existe, tampouco haverá um juiz; portanto, se não há julgamento, o que é bom é mau e o que é mau é bom.

Mas, além disso tudo, Nosso Senhor adverte que o Anticristo será tão parecido com Ele que até os eleitos se enganarão a seu respeito (cf. Mt 13, 22) — e é claro que nenhum desses diabos de gibi seria capaz de ludibriar um eleito.

Mas como, afinal de contas, ele arrebanhará seguidores nesta nova época da história? Ele virá travestido de grande humanitário, portador de paz, prosperidade e abundância, não como meios de nos conduzir a Deus, mas como fins em si mesmos. De sua pena sairão livros sobre um novo conceito de Deus, escritos com o fim de mudar nossa maneira de viver, de estimular a fé na astrologia, a fim de que o responsável pelo pecado sejam, não as nossas decisões livres, mas as estrelas.

Ele explicará a culpa com jargões psicológicos, como um “erotismo” inibido, de sorte que os homens se envergonharão de não ser liberais e “mente aberta” aos olhos dos colegas. De fato, ele será tão “mente aberta” a ponto de identificar tolerância com indiferença ao que é certo e errado, verdadeiro e falso.

Ele espalhará a mentira de que os homens não podem ser felizes enquanto não melhorarem a sociedade e, assim, abastecerem o egoísmo, que é o combustível das futuras revoluções.

Ele fomentará a ciência, mas com o único propósito de fazer com que os fabricantes de armas usem as maravilhas da ciência como instrumento de destruição; ele estimulará os divórcios com a alegação de que é impossível viver para sempre com o mesmo “parceiro”; ele alimentará o amor a si mesmo e matará por inanição o amor ao próximo; ele usará a religião para destruí-la; ele chegará inclusive a falar de Cristo como de um dos “maiores homens da história”; ele dirá que sua missão não é mais do que libertar os homens das superstições e do “fascismo”, termo aliás que ele deixará sempre por definir; ele será simpático às crianças, mas dirá às pessoas com quem devem casar-se ou não, quem pode ser pai e quem não pode.

A tentação de Cristo pelo demônio, por Félix-Joseph Barrias.

Ele tentará os fiéis com os mesmos ardis com que tentara a Cristo. A tentação de converter em pão um punhado de pedras será agora a tentação de trocar a liberdade pela segurança, na medida em que o pão se torna uma arma política e só os que lhe seguem a cartilha terão direito a comer. A tentação de atirar-se imprudentemente da torre do Templo à espera de um milagre será agora um apelo para abandonar os nobres pináculos da verdade em que reinam a razão e a fé e atirar-se às profundezas em que vivem as massas, alimentadas com slogans e chavões publicitários. O Anticristo não quer que a hierarquia da Igreja proclame princípios imutáveis, mas que organizações de massa, sob a direção de um sujeito qualquer, se sirvam de métodos de propaganda para orientar o gosto e a preferência das sociedades: ele quer opiniões, não verdades; palpiteiros, não professores; pesquisas de opinião, não princípios; natureza, não graça — e será para agrilhoar-se com estas mentiras que os homens sacudirão o jugo de Cristo.

A terceira tentação, com a qual Satanás prometeu a Cristo todos os reinos da terra, caso Ele, prostrado em terra, o adorasse, converter-se-á na tentação de criar uma nova religião sem cruz, sem liturgia, sem vida futura; uma cidade do homem sem uma cidade de Deus; uma política, enfim, de caráter religioso — ou seja, uma religião que nos exija dar a César até mesmo o que é de Deus.

No coração de todo esse aparente amor pela humanidade, floreado com envolventes discursos sobre liberdade e igualdade, o Anticristo guardará um segredo, desconhecido de todos: ele não acreditará em Deus, pois a religião por ele professada não será, no fundo, mais do que uma fraternidade entre os homens sem a paternidade de Deus. Assim ele há de enganar inclusive os eleitos.

Ele fundará uma contra-Igreja, que será uma contrafação ridícula da Igreja de Cristo, porque ele, o diabo, é o macaco de Deus. A igreja do diabo, com efeito, apresentará as notas e características da Igreja, mas todas às avessas, esvaziadas de seu conteúdo divino. Ela será o “corpo místico” do Anticristo, que aparentará, externamente, ser o Corpo Místico de Nosso Senhor. O homem moderno, em sua desesperada busca por um Deus a que ele, contudo, se recusa adorar, procurará afoitamente, frustrado e solitário, pertencer a alguma “comunidade”, que lhe dê um sentido e lhe expanda os horizontes, ainda que à custa de diluir-se numa vaga coletividade. Nesse momento, serão paradoxalmente os mesmos motivos por que o homem moderno deu as costas à Igreja que o levarão a aceitar a contra-Igreja do diabo.

Com efeito, o século passado rejeitou a Igreja por ela ser infalível; negou-se a acreditar que um suposto Vigário de Cristo pudesse ser imune ao erro ao pronunciar-se sobre temas de fé e moral na qualidade de Pastor de toda a cristandade. O século XX, no entanto, alistar-se-á nas fileiras da contra-Igreja justamente por ser ela infalível: a sua “cabeça visível”, sediada agora em Moscou, pronuncia-se ex cathedra em matérias de economia e política, enquanto “Pastor” do comunismo mundial.

Ao longo dos últimos séculos, a Igreja foi duramente criticada por proclamar-se católica e universal, unindo a todos os homens sob um só Senhor, em uma só fé e por meio de um só Batismo. Mas ninguém — dirá o século XIX — pode considerar-se um bom cidadão, seja americano, francês ou alemão, se consente em ser pastoreado, ainda que misticamente, por uma autoridade espiritual. Contudo, será precisamente a “catolicidade” e a “universalidade” da contra-Igreja o que mais irá atrair o pobre espírito moderno: ela porá abaixo todas as fronteiras nacionais; desdenhará dos sentimentos patrióticos, libertando-nos dos deveres de piedade para com o próprio país; fará os homens sentirem orgulho, não de serem americanos, franceses ou alemães, mas de pertencerem a uma classe revolucionária sob a batuta de seu “vigário”, cujas ordens vêm, não mais do Vaticano, mas do Kremlin.

O século XIX rejeitou a Igreja sob o pretexto de que ela era “intolerante”, sempre pronta para excomungar o primeiro herege que rejeitasse as tradições apostólicas, sempre insistindo em que Cristo fundou uma só Igreja, sempre ensinando que a Verdade é una e que os dogmas, ou se aceitam de todo, ou se rejeitam por inteiro. Mas nesta hora diabólica em que vivemos, os filhos e netos dos que assim se opunham à Igreja aderem à sua contrafação justamente por ela eliminar os seus hereges, exterminar os seus trotskistas, excomungar os que não aceitam a doutrina de que talvez não haja um só rebanho e um só pastor, mas, sim, um só formigueiro e um único tamanduá.

O mundo liberal rejeitou a Igreja porque ela era muito “dogmática” e “intransigente”, com suas definições precisas de “união hipostática” e “Imaculada Conceição”; era muito “hierárquica”, com seus Bispos, os sucessores dos Apóstolos, alegando ser os guardiões da fé e dos costumes dos povos. Mas, curiosamente, milhões de pessoas têm-se filiado à contra-Igreja por essas mesmíssimas razões: amam a infalibilidade com que ela define os dogmas do materialismo dialético, do determinismo econômico, da mais-valia; amam sua hierarquia e veneram os líderes do partido como se foram Bispos, sucessores dos “apóstolos” — Marx e Lênin —, cuja missão é preservar o depósito da fé do partido até a consumação dos séculos.

Ora, uma vez que os sinais dos nossos tempos parecem apontar para uma luta entre dois absolutos, há duas razões para crer que o futuro será um tempo de grandes provações.

Em primeiro lugar, para pôr fim à dissolução a que estamos assistindo. Se não houvesse catástrofes, a impiedade alastrar-se-ia sem freios. De fato, o que a morte é para um pecador, uma catástrofe o é para uma civilização má e corrupta. Por que Deus poria à porta do paraíso terrestre um anjo cingido de uma espada flamejante senão para impedir que nossos primeiros pais, depois da Queda, tornassem a entrar no Éden para comer da árvore da vida e, assim, imortalizassem a própria iniquidade? Deus não há de permitir que a injustiça se arraste pela eternidade afora. Revoluções, desintegração, caos, tudo isso é um aviso de que estamos errados, de que os nossos sonhos têm sido vãos e perversos.

A vingança da verdade moral é a ruína dos que a repudiam. O caos em que se revolve o tempo presente é, pois, o argumento negativo mais contundente a favor do cristianismo. As catástrofes testemunham o poder de Deus em um mundo sem sentido, já que por meio delas o Senhor reduz a nada uma existência sem sentido. A destruição que se segue à apostasia torna-se, deste modo, o triunfo do sentido, uma reafirmação de que há, sim, um propósito.

Adversidade: eis aí a palavra que melhor exprime a condenação divina do mal, o selo do julgamento divino. Assim como o inferno não é um pecado, mas sua consequência, assim também os tempos de tribulação não são um pecado, mas o salário do pecado (cf. Rm 6, 32). Sob o véu das catástrofes descobre-se que o mal, em realidade, é auto-destrutivo: é impossível que nos afastemos de Deus sem nos fazermos a nós mesmos uma grande violência.

A segunda razão por que as crises são necessárias é para evitar que a Igreja e o mundo se identifiquem. Nosso Senhor quis que os seus seguidores fossem diferentes em espírito daqueles que não O seguem: “Não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia” (Jo 15, 19). Embora seja essa a vontade divina, é verdade, infelizmente, que a linha divisória entre os que seguem ou não a Cristo é com frequência pouco nítida. Em vez do preto e do branco, o que vemos é um borrão cinzento. Mediocridade e transigência são, pois, as notas características de muitos cristãos modernos: como os pagãos com quem vivem, eles se entregam aos mesmos divertimentos; educam os filhos no mesmo espírito mundano e ateu; assistem aos mesmos programas; abrem as portas de casa para certos costumes pagãos, como o divórcio, segundas uniões; permitem, enfim, que o comunismo destile seu veneno na política e no cinema.

Já não há mais o conflito, a oposição que, ao menos em tese, nos deveria caracterizar. O mundo nos influencia mais do que nós o influenciamos. Não há mais a fuga sæculi, a fuga do mundo. De modo que São Paulo pode dizer-nos sem injúria o que outrora dissera aos fiéis de Corinto: “Que união pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunidade entre a luz e as trevas? Que compatibilidade pode haver entre Cristo e Belial?” (2Cor 6, 14s).

O que São Paulo diz aqui, noutras palavras, é que os que foram encarregados de construir um centro de saúde adoeceram e, portanto, já não têm mais como curar ninguém. Ora, uma vez que a fusão entre o espírito cristão e o espírito pagão é um fato consumado — como ouro misturado com metais menos nobres —, não há meio de purificar a mistura a não ser lançando-a na fornalha e separando os elementos amalgamados. Eis o que farão as provações. É preciso, portanto, que o mal se instale para rejeitar-nos, desprezar-nos, odiar-nos, perseguir-nos, para que assim possamos, afinal, decidir de que lado estaremos, a quem seremos leais e fiéis. Como poderíamos distinguir as árvores rijas e firmes das débeis e fracas sem que o vento soprasse? Diminuiremos, sim, em número; mas aumentaremos em qualidade. Cumprir-se-á então o que dissera Nosso Senhor: “Quem não ajunta comigo, espalha” (Mt 20, 30).

Mas, embora nos refiramos aqui ao advento do Anticristo e a sua oposição a Nosso Senhor, não é pela Igreja que tememos; é pelo mundo. Não é a infalibilidade que nos preocupa, mas o abismo do erro em que se lança o mundo. Não tememos que Deus um dia venha a ser destronado, mas que a barbárie volte a governar o mundo. Não é a transubstanciação que desaparecerá, mas talvez os lares; os Sacramentos não deixarão de existir, mas talvez a lei moral. A Igreja não pode ter outras palavras para a mulher que se lamenta e bate no peito além daquela de Nosso Senhor em direção ao Calvário: “Não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos” (Lc 23, 28).

Em seus dezenove séculos de existência, a Igreja sobreviveu a outras grandes crises, e ela continuará a lamentar os males dos tempos atuais. A Igreja tem as suas Sextas-Feiras Santas, as quais porém não são mais do que um prelúdio de seus Domingos de Páscoa, pois permanecem de pé as promessas divinas: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18); “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20); “Todo o que cair sobre esta pedra ficará despedaçado” (Lc 20, 18).

Nunca antes na história houve tão forte argumento a favor do cristianismo: os homens têm-se dado conta de que suas misérias e angústias, suas guerras e revoluções, aumentam quanto mais negam a Cristo. Porque o mal se destrói a si mesmo; só o bem é capaz de perdurar.

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São José, o patriarcado e os homens de hoje
Espiritualidade

São José,
o patriarcado e os homens de hoje

São José,
o patriarcado e os homens de hoje

O patriarcado é uma coisa ruim? Entenda nesta matéria por que as famílias precisam de homens e como eles podem se tornar pais segundo o coração puríssimo de São José.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Março de 2019
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Na oitava da solenidade de São José, a liturgia da Igreja põe-nos diante dos olhos o mistério da Encarnação do Verbo de Deus, com a solenidade da Anunciação. E tudo isso em plena Quaresma. É como se nossos pés se detivessem às portas de Jerusalém... e voltássemos a Nazaré, à infância do Salvador, ao Natal.

Nestas linhas, porém, queremos meditar antes sobre um dado da natureza humana. É que a figura de São José, ao lado de Maria e de Jesus — das quais temos abundantes exemplos na arte sacra — vem nos recordar, especialmente a essa nossa época louca e revolucionária, que as famílias precisam de pais, de figuras masculinas (homens!) que as conduzam e liderem; vem nos lembrar que o patriarcado (não obstante a distorção moderna sofrida pelo termo) é uma coisa boa e deve ser conservado.

Muitos argumentos poderiam ser empregados aqui para confirmar essa verdade, argumentos extraídos da simples observação da natureza humana, vindos da psicologia, da antropologia e de outras ciências. Mas, a princípio, às pessoas da Igreja, lembremos tão somente que Deus, querendo vir à terra, confiou-se à responsabilidade de um patriarca; e ainda Ele, moldando a criatura mais perfeita que jamais existiu — a Virgem Maria —, confiou-a igualmente a um homem. Os dois maiores dons com que a humanidade seria agraciada, portanto, sob a tutela de um varão, e a ele submissos. Eis a nobilíssima missão de São José. Eis a verdade que o mundo moderno, se não faz questão de negar, faz o possível ao menos para calar, ignorar ou deixar que morra no esquecimento.

De fato, a releitura que muitos em nossa época, sem fé, tentam fazer da Encarnação é que Jesus teria sido fruto de uma “produção independente”. Numa tentativa patética talvez de justificar a desestruturação por que passam hoje as famílias, a imagem que se vende muitas vezes de Maria Santíssima é a de uma “mãe solteira”, desamparada, que dá à luz um filho nos escombros de uma pobre gruta e sem assistência humana quase nenhuma — São José sempre à parte, sempre coadjuvante, sempre deixado de lado.

À parte os elementos de verdade contidos nessa narrativa — pois é fato que o Filho de Deus quis descer à terra e, na falta de hospedagem, abrigar-se na simplicidade de uma estrebaria —, está muito longe da verdade insinuar que tenha sido nulo ou desprezível o papel de São José no mistério da Encarnação. Vale lembrar que um anjo visitou-lhe em sonho, instruindo-o sobre o que deveria fazer em relação à mulher e ao Menino e, além disso, nas palavras de São Beda, o Venerável, sua escolha foi providencial ad famam Mariae conservandam, isto é, “para salvaguardar a reputação de Maria” [1]. Sim, porque embora os esponsais de Maria e José deixassem como que “velada” a concepção virginal de Cristo, explica Santo Ambrósio, “o Senhor preferiu que alguns duvidassem da sua origem antes que do pudor de sua Mãe” [2]. Em suma, como escreve o Padre Federico Suárez:

Para um cristão que acredita em Cristo, que crê que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o fato de Deus ter escolhido José para esposo da Virgem Maria e pai legal de Jesus é motivo suficiente para pensar que, apesar de tudo, talvez não tenha sido um homem tão vulgar e comum, uma vez que o próprio Deus o escolheu — mais ainda, o criou — para desempenhar uma das missões mais difíceis e de maior responsabilidade jamais confiada a um homem [3].

O fato de ter sido um homem a zelar pela Sagrada Família, no entanto, de ter sido um homem a conduzi-la de Nazaré a Belém, e dali ao Egito, e dali de volta a Nazaré... não é mais tão óbvio quanto noutras épocas. Existe até mesmo a tentação, por parte de alguns, de relegar o papel masculino na família e na sociedade a uma mera “construção social”, tão passível de transformação quanto um hábito ou qualquer moda do momento.

Mas, não estivéssemos cegados por mentiras como a ideologia de gênero, nós seríamos capazes de ver inscrita na natureza uma ordem e uma harmonia irretocáveis: homem e mulher foram colocados desde o princípio para reinar no mundo criado, um com a cabeça e outra com o coração, um com a razão e outra com os sentimentos, um com a força física que desafia e outra com a força emocional que consola, complementaridade indispensável para a formação integral do ser humano.

É por isso que, antes de falar propriamente das virtudes de São José, importa falarmos primeiro de sua virilidade e de seu papel como pai e esposo; importa falarmos simplesmente de sua presença, já que nossa sociedade experimenta cada vez mais a ausência dos homens, justamente nos postos que mais exigiriam sua atuação…

“São José com o Menino Jesus”, de Murillo.

Sim, porque não adianta rebelar-se contra a ordem natural das coisas e pedir, seja dentro de um movimento social institucionalizado, seja através de gestos e palavras no dia-a-dia, a extinção do patriarcado ou a abolição da masculinidade. “A presença de estruturas mundanas de dominação bruta e egoística deveria não manchar, mas sim acentuar fortemente a honra e o esplendor de um patriarcado cristão caracterizado pelo serviço amoroso e pela liderança sacrificial” [4].

Dizendo de outro modo, não é porque há homens que bebem, batem em suas esposas e não educam os seus filhos que se deve pedir o fim da família e da união entre homem e mulher. O marxismo viu na chamada “família burguesa” uma estrutura essencial de dominação, mas só o fez porque olhou para a família a partir de seus vícios e de sua degradação, ao invés de olhar para o projeto original do Criador e para as famílias que o colocaram em prática.

Da parte dos homens, cabe, é claro, tomar o cuidado de não repetir os mesmos erros pelos quais caíram e fracassaram, principalmente em suas casas, tantos de nossos pais. Se sobram no mundo (e à nossa volta, bem próximos de nós) homens adúlteros, beberrões, covardes, violentos, ladrões e moles, sejamos nós o contrário de tudo isso e lutemos com afinco para ser puros (não só no corpo, mas principalmente de coração), sóbrios, corajosos, pacíficos, honestos e fortes. Essa é a melhor forma (se não a única) de lutar contra a ideologia feminista que propugna pela “liberação” e o “empoderamento” da mulher e pelo fim da autoridade paterna. De nada adianta, de fato, vencer-lhes os argumentos, se continuamos a reforçar, com nossos atos, exatamente as razões pelas quais elas odeiam o patriarcado — e que no fundo não constituem o patriarcado cristão, mas justamente a sua corrupção.

“Corrompeu-se o patriarcado, então?”, alguém poderá indagar. “E quando foi que ele existiu, por assim dizer, em sua forma pura?”

A resposta a essa pergunta infelizmente não é das mais animadoras, pois, mesmo nos tempos em que o cristianismo era o “fermento” da sociedade, o sexo masculino como um todo sempre teve grande dificuldade em observar a palavra de Cristo que diz: “Todo aquele que rejeita sua mulher e desposa uma outra, comete adultério” (Mt 19, 9). “É um triste fato”, nesse sentido, “que nos antigos centros da cristandade, e notavelmente em países de predominância católica, ter uma amante fosse, e ainda seja, um estilo de vida aceito” [5]. De fato, essa fidelidade de que fala o Evangelho sempre foi uma virtude de poucos homens, de modo que não é exagero algum afirmar que, historicamente falando, “nunca antes houve um patriarcado cristão culturalmente estabelecido” [6].

Nosso parâmetro, no entanto, não é esta ou aquela época da história; nós não nos devemos guiar pela “média” do que foram os homens de outros tempos e de outros lugares. (Do contrário, seríamos apenas “medianos”, ou pior: medíocres.) Nossa medida deve ser, sempre, os poucos corações que seguiram o Evangelho de Cristo, os poucos homens que foram patriarcas no verdadeiro sentido da palavra, pois é de Deus que provém toda paternidade no céu e na terra (cf. Ef 3, 15). Nosso modelo de patriarcado não é o coração impuro de Adão, mas o Sagrado Coração de Jesus, novo Adão; não é o coração decaído de nosso primeiro pai, mas sim o coração puríssimo do Patriarca da Sagrada Família, São José. Eis os homens que devemos imitar, eis o tipo de coração a que devemos elevar os nossos.

Para começarmos essa ascensão, porém, para implantarmos em nossa época um patriarcado realmente cristão, comecemos do básico. É evidente que abandonar a “gandaia” não é tudo. Um homem que não trai a sua esposa, que não gasta as suas horas no boteco, que não espanca sua companheira e que tampouco dilapida o patrimônio da família não está fazendo, no fundo, mais do que a sua obrigação. Mas ninguém deve subestimar a importância de falar sobre essas coisas, pois são esses pecados grosseiros que aprisionam a maior parte da humanidade — e, custa-nos dizer, maior parte das pessoas que vão à igreja também.

Noutras palavras, para que os seres humanos vivam plenamente o amor, é preciso que eles passem pela experiência da “primeira liberdade”, como diz Santo Agostinho:

A primeira liberdade consiste em estar isento de crimes [...] como são o homicídio, o adultério, a fornicação, o furto, a fraude, o sacrilégio e assim por diante. Quando alguém começa a não ter estes crimes (e nenhum cristão os deve ter), começa a levantar a cabeça para a liberdade, mas isto é apenas o início da liberdade, não a liberdade perfeita [7].

Se queremos resgatar a masculinidade, portanto, comecemos com o básico: deixando a vida de pecados mortais. Ninguém se iluda com uma “restauração do patriarcado” que prescinda de conversão, que prescinda de uma vida interior, que prescinda de uma mudança de mentalidade e de uma vida cristã seriamente vivida. Ninguém pode vencer a sua natureza decaída contando com as próprias forças. Ninguém pode viver o dom de uma paternidade autêntica se não for, primeiro, obediente ao nosso Pai dos céus.

Foi esse o grande segredo de São José. E é também esse o caminho para sermos patriarcas como ele foi.

Referências

  1. Citado em Suma Teológica, III, q. 28, a. 1, ad 1.
  2. Id., III, q. 29, a. 1, ad 2.
  3. José, Esposo de Maria, Lisboa: Rei dos Livros/Prumo, 1986, p. 15.
  4. G. C. Dilsaver, The Three Marks of Manhood: How to Be Priest, Prophet and King of Your Family, Charlotte: TAN Books, 2012, viii.
  5. Ibid., p. 100.
  6. Ibid., p. 101.
  7. In Iohannis Evangelium Tractatus, 41, 9-10: CCL 36, 363, citado por S. João Paulo II em Veritatis Splendor, 6 ago. 1993, n. 13, nota 23.

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“Quase não haverá almas virgens no mundo”
Doutrina

“Quase não haverá
almas virgens no mundo”

“Quase não haverá
almas virgens no mundo”

Uma “atmosfera saturada do espírito de impureza”, que “correrá pelas ruas” e “com uma liberdade assombrosa”: eis a terrível profecia de Nossa Senhora do Bom Sucesso para o nosso tempo… que está se cumprindo.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Março de 2019
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É assombroso, mas estamos anestesiados e, por isso, talvez nem nos assustemos mais com a gravidade do que Nossa Senhora do Bom Sucesso profetizou a respeito de nossa época. Deveria impressionar-nos não só o fato de essa revelação ter-se dado a uma monja no longínquo século XVI, mas também a força das palavras usadas pela Virgem Santíssima na ocasião. “Quase não haverá almas virgens no mundo”, ela disse. “Nesses tempos estará a atmosfera saturada do espírito de impureza, que, à maneira de um mar imundo, correrá pelas ruas, praças e logradouros públicos com uma liberdade assombrosa.”

Detenhamo-nos sobretudo na expressão “almas virgens”, que indicam muito mais do que pode parecer a um primeiro olhar.

Lembremo-nos primeiro que o cristianismo é uma religião essencialmente interior, desde o seu princípio. As inúmeras condenações de Cristo aos “ritualismos” a que estavam presos os fariseus são suficientes para fazer-nos ver que não basta, na religião fundada por Nosso Senhor, praticar um ou outro ato externo de devoção para ser justo. Esta fórmula pode estar desgastada — principalmente em nosso tempo, tão pouco dado às práticas religiosas —, mas continua sendo verdadeira: Deus olha o coração. O lamento de Deus colocado na boca do profeta Isaías, e que o próprio Jesus repete dirigindo-se aos mesmos fariseus, é simples: “Este povo me honra somente com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim” (Is 29, 13).

Esta necessidade de uma conversão radical, que envolva os afetos mais íntimos do ser humano, Nosso Senhor a procurou inculcar nos seus discípulos desde o início de sua pregação: leiam-se, por exemplo, no Sermão da Montanha, os versículos com os quais Jesus “reforma” o quinto (cf. Mt 5, 21-26) e o sexto mandamentos do Decálogo (cf. Mt 5, 27-32). Agora, já não basta “não matar”, é preciso amar o próximo e viver fraternalmente com ele, sem iras e contendas de nenhum tipo; já não basta “não cometer adultério”, é preciso vigiar os próprios pensamentos para evitar todo tipo de impureza. Em suma, não basta evitar determinados atos externos, é preciso ter o coração limpo em primeiro lugar.

Com isso, podemos entender melhor o termo “almas virgens”, a cuja ausência Nossa Senhora se referiu falando de nosso tempo.

Primeiro, a Mãe de Deus não está falando aqui da virgindade em sentido estrito, em sua acepção meramente física (que é o sentido em que hoje comumente entendemos essa expressão). O mal de nossa época não é que as pessoas tenham relações sexuais porque o sexo seria algo “impuro” em si mesmo, nem poderia ser este o problema, porque, afinal de contas, é do relacionamento conjugal que vêm os filhos, e Cristo, em sua vida terrestre, fez questão de elevar o casamento à dignidade sacramental (ou seja, o relacionamento entre um homem e uma mulher, com o auxílio da graça de Deus, é destinado a santificá-los, a eles e a seus filhos).

Mas, segundo, também não parece que, com a expressão “almas virgens”, a Mãe de Deus esteja falando simplesmente do menor número de pessoas que se entregariam a Deus, em nosso tempo, por meio da vida religiosa. Não que esse dado não seja verdadeiro (porque tragicamente o é), mas a referência direta de Nossa Senhora à “atmosfera saturada de espírito de impureza” faz pensar mais nas “ruas, praças e logradouros públicos” que nos claustros, mais no ambiente secular que nas casas religiosas.

Portanto, ao falar da escassez de “almas virgens”, a que mais a Virgem do Bom Sucesso queria aludir, senão à perda da pureza nos corações? Que os jovens se entreguem ao sexo desregrado cada vez mais cedo, é sem dúvida uma grande tragédia; mas como eles chegaram a esse ponto, senão perdendo primeiro a inocência de alma, por meio da TV, das telas de smartphones e das músicas mundanas? Que cada vez menos almas queiram se dedicar à vida consagrada, é sem dúvida uma grande lástima; mas como os homens e mulheres de nosso século quererão dar tudo a Deus, se não estão dispostos nem a lhe dar o mínimo, que é a observância dos Mandamentos?

Por isso, precisamos redescobrir e reviver, com urgência, a “virgindade de alma”, que nada mais é do que a velha virtude cristã da castidade. Não que fosse fácil vivê-la em outras épocas (afinal, esse ensinamento de Cristo sempre foi “pedra de tropeço” para o mundo), mas o nosso século, devido em grande medida ao bombardeio pornográfico dos últimos anos, tornou-se particularmente insensível a esse apelo do Evangelho, de modo que muitos de nós sequer acreditamos que a pureza de alma seja possível!

Deus, no entanto, não nos manda o impossível — creiamo-lo! — e no Evangelho Ele diz mui claramente: “Todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração” (Mt 5, 28); “Se teu olho direito — Ele continua — é para ti causa de queda, arranca-o”, “Se tua mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a longe de ti” (Mt 5, 29-30). Sendo ainda mais claro: Se teu olho é para ti ocasião de desejares sexualmente as outras pessoas, seja na pornografia, seja na vida real, “arranca” de tua vida esse mau hábito! Se tua mão direita é para ti ocasião de pecares pela masturbação, ou pelos toques e abraços indecentes com outra pessoa, “corta” de tua vida este relacionamento! E se alguém ainda duvida de qual seja a gravidade deste pecado, Nosso Senhor conclui: “(...) é preferível perder-se um só dos teus membros a que o teu corpo inteiro seja atirado no inferno” (Mt 5, 30).

Muitos dizem que “os tempos mudaram”, e é verdade. Nossa Senhora do Bom Sucesso o havia profetizado. Mas se os tempos mudam, a palavra de Cristo não muda (cf. Mt 24, 35); se os tempos realmente mudaram, então mudaram para pior.

Por isso, se quisermos preservar nossas almas e nossas famílias da “atmosfera saturada” de sensualidade em que nos encontramos, não há outro remédio: precisamos ser extremamente cuidadosos com as imagens que avistamos, com os nossos relacionamentos, e até mesmo — tristes tempos os nossos! — com os lixos musicais que andam na moda. São Josemaría Escrivá dizia que “é necessária uma cruzada de virilidade e de pureza que enfrente e anule o trabalho selvagem daqueles que pensam que o homem é uma besta” (Caminho, 121), e ele tinha toda a razão. Essa cruzada é obra nossa!

Mas não venceremos — desiludamo-nos desde já — sem o auxílio da graça de Deus. É no nosso coração que mora o problema? O inimigo já está morando dentro de casa, como se diz? Então é contra nós mesmos a primeira luta que devemos travar, e — isso deveria ser óbvio para todos — não nos venceremos com nossas próprias forças. Precisamos recorrer a uma arma maior, ao auxílio de corações superiores, nos quais esta batalha da pureza tenha sido vencida e já reine a paz que tanto procuramos: por isso… Sagrado Coração de Jesus, Imaculado Coração de Maria e Coração castíssimo de São José, sede a nossa salvação! Restaurai-nos a pureza de alma e, se não somos mais “almas virgens”, fazei de nós ao menos almas penitentes!

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O segredo dos santos para vencer os pecados da carne
Espiritualidade

O segredo dos santos
para vencer os pecados da carne

O segredo dos santos
para vencer os pecados da carne

Os pecados da carne sempre estiveram conosco, desde a queda de Adão, mas nunca como agora se experimentou tamanho bombardeio de propaganda sexual e de tentações carnais.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Março de 2019
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Os jovens católicos hoje — e não apenas os jovens — estão experimentando um bombardeio sem precedentes de propaganda sexual e tentações carnais. Os pecados da carne sempre estiveram conosco desde a queda de Adão, mas nunca antes houve uma tal multidão e disponibilidade de imagens impuras e tantas incitações para ceder ao pecado, sem atenção à saúde espiritual do homem ou até mesmo à sua saúde física e psicológica.

Se C. S. Lewis acertou em dizer que “a castidade é a menos popular das virtudes cristãs”, por outro lado também é possível dizer que “a impureza é o mais popular dos vícios do mundo”. Nossa situação moderna foi descrita com bastante antecedência por Nossa Senhora do Bom Sucesso, que apareceu à Venerável Madre Mariana de Jesus Torres, em Quito, Equador, de 1594 a 1634, e falou-lhe com grandes detalhes de uma “catástrofe espiritual” que ocorreria na Igreja “um pouco depois de meados do século XX”. Entre as muitas profecias havia esta:

O terceiro motivo pelo qual se apagou a lamparina é porque nesses tempos estará a atmosfera saturada do espírito de impureza, que, à maneira de um mar imundo, correrá pelas ruas, praças e logradouros públicos com uma liberdade assombrosa. Quase não haverá almas virgens no mundo.

De modo similar, Nossa Senhora apareceu a Santa Jacinta de Fátima diversas vezes, entre dezembro de 1919 e fevereiro de 1920. Uma das coisas ditas por ela deve fazer-nos pensar: “Vão mais almas para o inferno por causa dos pecados da carne do que por qualquer outra razão”. E ainda: “Hão de vir umas modas que ofenderão muito a Nosso Senhor”.

Em seu livro The Message of Our Lady of Fatima, Dom Augustine Marie, OSB, comenta sobre essas palavras:

Vão mais almas para o inferno por causa dos pecados da carne do que por qualquer outra razão.” A Irmã Lúcia, última vidente viva de Fátima, diz que isso se refere primeiramente aos pecados contra a castidade, também chamados de pecados de impureza. Essa afirmação não é porque os pecados contra a castidade são os mais graves, mas sim porque eles são os mais comuns e, nas palavras da Irmã Lúcia, “por causa da consciência”, já que os pecados de impureza tendem a ser menos penitenciados do que os outros. Por quê?

Primeiro, porque o sentimento da injustiça cometida, que é o primeiro estímulo para que uma pessoa se arrependa de seus pecados, não é sentido fortemente quando se praticam esses pecados, com exceção do adultério.

Segundo, porque há um maior sentimento de vergonha quando se cometem certos atos impuros e, por consequência, há maior dificuldade em confessá-los no sacramento da Confissão, ou até mesmo em se arrepender deles de coração.

Terceiro, porque a atividade sexual de todos os tipos é apresentada por nossa cultura popular pós-cristã (ou até anticristã) como algo bom e natural, ao mesmo tempo que chegam a ensinar que a abstinência sexual faz mal à saúde.

Como explicado, então, ainda que a impureza, a imodéstia e vícios correlatos de intemperança não sejam em si mesmos os piores dos pecados, eles estão sem dúvida entre os mais comuns, especialmente em certas faixas etárias, e são ainda mortais para a alma e corrosivos para a sociedade. Que uma pessoa impenitente seja condenada ao inferno por homicídio ou fornicação, por roubo ou masturbação, seja como for ela acabará no inferno, um lugar de tormento e escuridão eternos; e ainda que a Divina Comédia de Dante esteja correta em retratar o inferno com círculos de punição mais ou menos severa, a depender dos graus de malícia com que foram cometidos os pecados, todos os condenados experimentam a pena da perda de Deus e do fogo sensível por toda a eternidade. Eis uma coisa da qual precisamos querer nos livrar a todo custo, por meio de um autocontrole honesto, de arrependimento caso tenhamos caído, de uma confiança humilde e inabalável na misericórdia de Deus e, finalmente, de um recurso contínuo à Confissão e à Comunhão.

In quo corrigit adolescentior viam suam? In custodiendo sermones tuos (Sl 118, 9). Neste versículo, que na Liturgia das Horas se traduz por: “Como um jovem poderá ter vida pura?”, o rei Davi — que teve, ele mesmo, alguns problemas com os pecados da carne — faz uma pergunta tão velha quanto andar pra trás. A nova resposta que o cristianismo dá é o próprio Cristo. Não seremos capazes de permanecer puros ou castos sem Jesus, e não há um substituto secular adequado: nenhum programa educacional, não importa o quão bem tenha sido desenhado, pode tomar o lugar de Cristo e fazer o seu trabalho.

Nosso Senhor traz-nos, de fato, incontáveis dons, mas dois são preciosos de modo especial: o conhecimento da Verdade, por meio da qual devemos viver, e a Santa Eucaristia, que nos une ao próprio Senhor que nos purifica e nos salva. Nós precisamos conhecer o caminho, e precisamos de força para segui-lo. Como é trágico ver as pessoas tentando viver sem nenhum sentido do que seja intrinsecamente certo e errado, verdadeiro e falso! Sem um mapa e uma bússola como essa, facilmente nos perdemos na selva e nos tornamos presa de feras selvagens. Mas não menos trágico é ver aqueles que, conscientes do que seja certo e errado, verdadeiro e falso, ainda vacilam e caem por não terem vida dentro de si para viver retamente. “Quem se une ao Senhor torna-se com ele um só espírito” (1Cor 6, 17).

São Cirilo de Jerusalém, Padre e Doutor da Igreja, exclama em uma de suas homilias:

Se te sentes tentado pela intemperança, alimenta-te com o Corpo e o Sangue de Cristo, que na vida terrena praticou com excelência a sobriedade, e tornar-te-ás temperante. [...] Se tu te sentes arder pela febre da impureza, aproxima-te do banquete dos anjos, e a carne imaculada de Cristo te fará puro e casto.

Comentando sobre essa passagem em seu maravilhoso livro Jesus, nosso amor eucarístico, o Pe. Stefano Manelli diz:

Ao procurarem saber como fez São Carlos Borromeu para se conservar puro e justo em meio a seus pares jovens, frívolos e entregues à dissipação, as pessoas descobriam que o seu segredo era a Comunhão frequente. [...] E São Filipe Néri, conhecedor profundo dos jovens, dizia: “A devoção ao Santíssimo Sacramento e a devoção à Virgem Maria são, não o melhor, mas o único meio para conservar a pureza. Nada a não ser a Comunhão pode conservar puro um coração aos vinte anos de idade… Não pode haver castidade sem Eucaristia.

A Eucaristia é o próprio Cristo — verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o Deus que nos criou e que nos santifica, o homem que conhece nossas fraquezas e que as cura com sua carne. É Ele quem nos assegura: “O que é impossível aos homens, é possível a Deus” (Lc 18, 27). Aproximemo-nos, pois, cada vez mais dEle, com temor e com fé, e deixemos que a força de sua presença opere milagres em nós.

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São José não é um santo qualquer!
Santos & Mártires

São José não é um santo qualquer!

São José não é um santo qualquer!

Os católicos amamos todos os santos da Igreja e até elegemos um e outro como santo de devoção. Mas São José… São José é especial. Afinal, a que outro santo Deus chamou de pai?

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Março de 2019
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Neste dia em que celebramos a grande solenidade de São José, nada é tão necessário quanto considerar a razão do culto tão fervoroso que prestamos a este santo. Por que nos deleitarmos ouvindo um Te Joseph, por que acendermos velas diante das imagens de São José, por que assistirmos a Missas, novenas e tríduos em sua honra? Qual o sentido, afinal de contas, de tantas orações, ladainhas e práticas devocionais?

Consideremos, em primeiro lugar, o motivo de toda a veneração que prestamos aos santos de modo geral.

A sagrada liturgia, dirigindo-se a Deus, reza o seguinte: “Na assembleia dos santos, vós sois glorificado e, coroando os seus méritos, exaltai os vossos próprios dons”. Essa passagem contida no Prefácio dos Santos é de uma catequese tão profunda que mereceu ser incluída no Catecismo da Igreja Católica (§ 2006). Para sondar-lhe melhor o significado, vamos logo a Santo Agostinho, de quem é tirada essa intuição (En. in Psal. 102, 7):

Deus coroa os seus dons, não os nossos méritos. — “É Ele quem te coroa de bondade e misericórdia” (Sl 102, 4). Quiçá já havias começado a te orgulhares, quando ouviste: “Te coroa”. “Portanto, sou grande”, dizes contigo; “portanto, hei pelejado”. Com as forças de quem? Com as tuas, por certo, mas ministradas por Ele. Porque é evidente que lutas; e por isso serás coroado, porque hás-de vencer: mas vê bem quem venceu primeiro, vê bem quem te há-de fazer vencedor ao seu lado. “Eu”, diz o Senhor, “venci o mundo. Alegrai-vos!” (Jo 16, 33). E por que nos havemos nós de alegrar, se foi Ele quem venceu o mundo? Não será acaso porque é como se nós mesmos tivéssemos vencido? Pois assim nos havemos de alegrar plenamente, porque fomos nós que vencemos. Os que fomos vencidos em nós pelo pecado, nele saímos vencedores pela graça. Portanto, Ele te coroa, porque coroa os seus próprios dons, não os teus méritos.

“Tenho trabalhado mais do que todos”, reconhece o Apóstolo, mas vê o que acrescenta em seguida: “Não eu, mas a graça de Deus que está comigo” (1Cor 15, 10). E depois de todos esses trabalhos espera ele receber a coroa, e diz: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia” (2Tm 4, 7-8). Por quê? Porque “combati o combate”. Por quê? Porque “terminei a carreira”. Por quê? Porque “guardei a fé”. E como combateste? Como guardaste a fé? “Não eu, mas a graça de Deus que está comigo”.

Por isso, que também tu sejas coroado, é pela misericórdia que és coroado. Nunca sejas soberbo; louva sempre o Senhor, não “te esqueças de todos os seus benefícios” (Sl 102, 2). É benefício que, sendo tu um pecador e ímpio, sejas justificado. É um benefício que tenha Ele te erguido e guiado para que não tornes a cair. É benefício que te tenham sido dadas forças para que perseveres até o fim. É benefício que esta mesma carne sob a qual gemias venha a ressurgir, e que não se perca de tua cabeça um só fio de cabelo. É benefício que, após a ressurreição, sejas coroado. É benefício ainda que para todo o sempre louves a Deus sem defeito. Não te esqueças, pois, de todos os seus benefícios, se queres que tua alma bendiga ao Senhor (cf. Sl 102, 1-2), “que te coroa de compaixão e misericórdia”.

Respondamos, então, de uma vez: ao celebrarem os santos, os católicos não estão fazendo nada mais do que adorar a Deus, que os santificou nesta vida e os glorificou na eternidade. São festejados os coroados, sim, mas a glória dirige-se, no fundo, à bondade e à misericórdia de quem deu a coroa. Quando lemos a biografia de um santo, quando conhecemos sua vida, seus atos heroicos de virtude, o grande amor que eles tiveram a Deus, o que estamos contemplando senão a ação da graça divina neles? Seus méritos aparecem, de fato, mas por trás estão sempre os dons do alto.

Na vida de São José, porém, encontramo-nos na curiosa situação de conhecermos mais os dons com que ele foi agraciado do que propriamente os seus méritos. Sim, porque os atos de José não foram registrados por ninguém, nenhuma biografia a seu respeito legou-nos a história. O Autor Sagrado diz tão-somente que ele era “justo”, conta um e outro episódio envolvendo a Sagrada Família… e cala-se sobre todo o resto. Poderíamos dizer que a única grande notícia que temos a seu respeito é a sua paternidade, e nada mais.

Mas essa razão, se a um olhar superficial pode parecer pouco, a olhos espirituais é motivo suficiente para situarmos o culto a São José acima do culto que prestamos a qualquer outro santo da Igreja.

Santa Teresa d’Ávila, por exemplo, ao se perguntar o porquê da intercessão tão poderosa de José, tinha uma opinião muito razoável: “Parece-me que Deus concede aos outros santos a graça de nos auxiliar nesta ou naquela necessidade, mas sei por experiência que São José nos socorre em todas, como se Nosso Senhor quisesse fazer-nos compreender que, assim como Ele lhe era submisso na terra, porque estava no lugar de pai e como tal era chamado, também no céu não pode recusar-lhe nada” (Livro da Vida, VI, 6).

Na mesma linha e com muita simplicidade se manifestava o beato Cardeal Newman, no tríduo que ele compôs em honra ao pai de Jesus: “São José é santo porque seu ofício, de ser esposo e protetor de Maria, exigia especial santidade; é santo porque nenhum outro santo além dele viveu em tal e tão longa intimidade e familiaridade com a fonte de toda santidade, Jesus, Deus encarnado, e Maria, a mais santa das criaturas”.

Aprofundemo-nos um pouco mais, no entanto, e contemplemos a beleza destas linhas que o Pe. António Vieira compôs, mostrando como é especial a coroa reservada a São José, e distinta da coroa de todos os outros santos (cf. Sermão do Esposo da Mãe de Deus, São José, pregado em 19 de março de 1643):

Sonhou José, o que depois foi Vice-Rei do Egito, que o Sol, a Lua, e as Estrelas, abatendo do Céu à terra a majestade luminosa de seus resplandores, humildemente prostrados o adoravam. Quis interpretar este sonho seu Pai, e disse que ele, Jacó, era o Sol, Raquel, sua esposa, a Lua, seus filhos desde Rúben a Benjamim as Estrelas; e que viria tempo a José, em que Deus o levantaria a tão soberana fortuna, que seu mesmo Pai, sua Mãe, e seus Irmãos com o joelho em terra o adorassem (cf. Gn 37).

Os Doutores comumente têm esta interpretação do sonho por verdadeira; mas o certo é que um José foi o que sonhou, e outro José foi o sonhado. O José que sonhou foi José, o filho de Jacó: o José sonhado foi José, o Esposo de Maria. O José filho de Jacó sonhou somente; porque ainda que digamos que em seu Pai o adorou o Sol, e em seus Irmãos as Estrelas, é certo que em Raquel, sua mãe, lhe faltou a adoração da Lua; porque quando Jacó, e seus filhos adoraram a José no Egito, já era morta Raquel, e ficava sepultada em Belém.

Segue-se logo que o José verdadeiramente sonhado foi José o esposo de Maria; porque nele se cumpriram cabalmente todas as partes do sonho. Adorou a José o Sol; porque a título de sujeição filial lhe guardou reverência, e acatamento o mesmo Sol de justiça, Cristo: Et erat subditus illis (Lc 2, 51); adorou a José a Lua; porque a título de verdadeira esposa lhe deveu obediência, e amor aquela Senhora, que é como a Lua formosa: Pulchra ut Luna (Ct 6, 9); adoraram a José as Estrelas; porque a título, ou reputação de Pai de seu Mestre o respeitaram com grande veneração os Apóstolos, aqueles de quem diz o Espírito Santo: Fulgebunt quasi stellae in perpetuas aeternitates (Dn 12, 3).

A excelência de São José pode ser resumida, pois, nesta questão: a que outro homem sobre a terra Jesus chamou de “pai” e foi em tudo submisso como filho? A que outro Deus confiou uma missão tão assombrosa como esta, de ser pai do próprio Verbo de Deus feito carne? A que outro cumulou de graças tão abundantes e numerosas como a esse homem?

Portanto, não, a devoção a São José não é uma devoção como qualquer outra. O Patriarca da Sagrada Família está envolvido diretamente e de modo especialíssimo no mistério da união hipostática, de modo que o culto a ele é, juntamente com o da Virgem Maria, quase que uma “consequência necessária” da simples fé que os cristãos temos em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Fortaleçamos, pois, nosso amor a este grande Patriarca, certos de que, se até mesmo o Sol, a Lua e todas as estrelas se prostram diante desse humilde carpinteiro… só o que nos resta — a nós, que nem no céu estamos, a nós, homens tão terrestres e carnais — só o que nos resta é elevarmos a ele os nossos corações e dizermos, cheios de gratidão a Deus: “Valei-nos, glorioso São José!

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