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O Anticristo e seus disfarces
Espiritualidade

O Anticristo e seus disfarces

O Anticristo e seus disfarces

O Anticristo não se dará a conhecer como tal. Do contrário, poucos haveriam de segui-lo. Como, então, ele arrebanhará seguidores nesta nova época da história?

Fulton J. SheenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Novembro de 2017
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Durante a última semana do ano eclesiástico, a Liturgia da Igreja dirige o nosso olhar para o juízo final e os sinais que o acompanharão. No Fim dos Tempos, ensina o Catecismo da Igreja Católica, o Anticristo logrará enganar a muitos, instaurando uma falsa religião em que o homem, fazendo-se Deus, pensará ter encontrado a solução para todos os males desta vida, embora à custa da verdade salvífica do Deus que se fez homem.

Nesta nova matéria, o Venerável Fulton Sheen descreve-nos, com visão quase profética e muitíssimo atual, como será essa derradeira e não tão distante impostura religiosa.

O texto que tornamos disponível abaixo é uma versão reduzida e adaptada de um sermão pregado por Fulton Sheen, via rádio, em 1947. O texto completo desta pregação se encontra logo a seguir, no decorrer da matéria.


O novo momento histórico em que estamos entrando poder-se-ia chamar o período religioso da história humana. Por “religioso”, contudo, não queremos dizer que os homens se voltarão para Deus, senão que, pelo contrário, a indiferença ao absoluto, traço distintivo do período liberal da civilização, dará lugar a uma busca apaixonada por outro absoluto. De agora em diante, lutar-se-á não mais por colônias e direitos nacionais, mas por almas. Não haverá espadas meio embainhadas, lealdades pela metade nem vagas reivindicações de uma ingênua tolerância. Não haverá sequer grandes heresias, já que elas pressupõem alguma aceitação, ainda que parcial, da verdade.

As frentes de batalha já têm sido claramente demarcadas e não há mais dúvida sobre o que está em jogo. De agora em diante, os homens estarão divididos em duas religiões, entendidas aqui como sujeição a um absoluto. O conflito do futuro será travado, pois, entre o Absoluto que é o Deus-homem, de um lado, e o absoluto em que se converteu o homem-deus, de outro; entre o Deus que se fez homem e o homem que se proclamou deus; entre os que são irmãos em Cristo e os que conluiam com o Anticristo.

O Anticristo, porém, não se dará a conhecer como tal; do contrário, poucos haveriam de segui-lo. Ele não trajará vermelho, não terá cheiro de enxofre nem um tridente ou uma cauda pontiaguda como o Mefistófeles de Fausto. Essa caricatura serviu-lhe para convencer a muitos de que ele não existe, pois o diabo sabe que tanto maior será o seu poder quanto menos acreditarmos em sua existência. É precisamente quando o ignoramos que maior é o poder que ele exerce sobre nós. Deus, com efeito, definiu-se como “Eu sou aquele que sou” (Ex 3, 14); o diabo, ao contrário, como “eu sou aquele que não sou”.

Em nenhuma passagem das Sagradas Escrituras se encontra qualquer referência à imagem popular do demônio como um bufão vestido de vermelho. A Bíblia o descreve como um anjo decaído, como o “príncipe deste mundo” (cf., por exemplo, Jo 12, 31; 16, 11), cuja principal ocupação é tentar persuadir-nos de que não há outro mundo além deste. Sua lógica é simples: se não existe nenhum céu, tampouco existe um inferno; ora, se não há inferno, então não existe pecado; mas se o pecado não existe, tampouco haverá um juiz; portanto, se não há julgamento, o que é bom é mau e o que é mau é bom.

Mas, além disso tudo, Nosso Senhor adverte que o Anticristo será tão parecido com Ele que até os eleitos se enganarão a seu respeito (cf. Mt 13, 22) — e é claro que nenhum desses diabos de gibi seria capaz de ludibriar um eleito.

Mas como, afinal de contas, ele arrebanhará seguidores nesta nova época da história? Ele virá travestido de grande humanitário, portador de paz, prosperidade e abundância, não como meios de nos conduzir a Deus, mas como fins em si mesmos. De sua pena sairão livros sobre um novo conceito de Deus, escritos com o fim de mudar nossa maneira de viver, de estimular a fé na astrologia, a fim de que o responsável pelo pecado sejam, não as nossas decisões livres, mas as estrelas.

Ele explicará a culpa com jargões psicológicos, como um “erotismo” inibido, de sorte que os homens se envergonharão de não ser liberais e “mente aberta” aos olhos dos colegas. De fato, ele será tão “mente aberta” a ponto de identificar tolerância com indiferença ao que é certo e errado, verdadeiro e falso.

Ele espalhará a mentira de que os homens não podem ser felizes enquanto não melhorarem a sociedade e, assim, abastecerem o egoísmo, que é o combustível das futuras revoluções.

Ele fomentará a ciência, mas com o único propósito de fazer com que os fabricantes de armas usem as maravilhas da ciência como instrumento de destruição; ele estimulará os divórcios com a alegação de que é impossível viver para sempre com o mesmo “parceiro”; ele alimentará o amor a si mesmo e matará por inanição o amor ao próximo; ele usará a religião para destruí-la; ele chegará inclusive a falar de Cristo como de um dos “maiores homens da história”; ele dirá que sua missão não é mais do que libertar os homens das superstições e do “fascismo”, termo aliás que ele deixará sempre por definir; ele será simpático às crianças, mas dirá às pessoas com quem devem casar-se ou não, quem pode ser pai e quem não pode.

A tentação de Cristo pelo demônio, por Félix-Joseph Barrias.

Ele tentará os fiéis com os mesmos ardis com que tentara a Cristo. A tentação de converter em pão um punhado de pedras será agora a tentação de trocar a liberdade pela segurança, na medida em que o pão se torna uma arma política e só os que lhe seguem a cartilha terão direito a comer. A tentação de atirar-se imprudentemente da torre do Templo à espera de um milagre será agora um apelo para abandonar os nobres pináculos da verdade em que reinam a razão e a fé e atirar-se às profundezas em que vivem as massas, alimentadas com slogans e chavões publicitários. O Anticristo não quer que a hierarquia da Igreja proclame princípios imutáveis, mas que organizações de massa, sob a direção de um sujeito qualquer, se sirvam de métodos de propaganda para orientar o gosto e a preferência das sociedades: ele quer opiniões, não verdades; palpiteiros, não professores; pesquisas de opinião, não princípios; natureza, não graça — e será para agrilhoar-se com estas mentiras que os homens sacudirão o jugo de Cristo.

A terceira tentação, com a qual Satanás prometeu a Cristo todos os reinos da terra, caso Ele, prostrado em terra, o adorasse, converter-se-á na tentação de criar uma nova religião sem cruz, sem liturgia, sem vida futura; uma cidade do homem sem uma cidade de Deus; uma política, enfim, de caráter religioso — ou seja, uma religião que nos exija dar a César até mesmo o que é de Deus.

No coração de todo esse aparente amor pela humanidade, floreado com envolventes discursos sobre liberdade e igualdade, o Anticristo guardará um segredo, desconhecido de todos: ele não acreditará em Deus, pois a religião por ele professada não será, no fundo, mais do que uma fraternidade entre os homens sem a paternidade de Deus. Assim ele há de enganar inclusive os eleitos.

Ele fundará uma contra-Igreja, que será uma contrafação ridícula da Igreja de Cristo, porque ele, o diabo, é o macaco de Deus. A igreja do diabo, com efeito, apresentará as notas e características da Igreja, mas todas às avessas, esvaziadas de seu conteúdo divino. Ela será o “corpo místico” do Anticristo, que aparentará, externamente, ser o Corpo Místico de Nosso Senhor. O homem moderno, em sua desesperada busca por um Deus a que ele, contudo, se recusa adorar, procurará afoitamente, frustrado e solitário, pertencer a alguma “comunidade”, que lhe dê um sentido e lhe expanda os horizontes, ainda que à custa de diluir-se numa vaga coletividade. Nesse momento, serão paradoxalmente os mesmos motivos por que o homem moderno deu as costas à Igreja que o levarão a aceitar a contra-Igreja do diabo.

Com efeito, o século passado rejeitou a Igreja por ela ser infalível; negou-se a acreditar que um suposto Vigário de Cristo pudesse ser imune ao erro ao pronunciar-se sobre temas de fé e moral na qualidade de Pastor de toda a cristandade. O século XX, no entanto, alistar-se-á nas fileiras da contra-Igreja justamente por ser ela infalível: a sua “cabeça visível”, sediada agora em Moscou, pronuncia-se ex cathedra em matérias de economia e política, enquanto “Pastor” do comunismo mundial.

Ao longo dos últimos séculos, a Igreja foi duramente criticada por proclamar-se católica e universal, unindo a todos os homens sob um só Senhor, em uma só fé e por meio de um só Batismo. Mas ninguém — dirá o século XIX — pode considerar-se um bom cidadão, seja americano, francês ou alemão, se consente em ser pastoreado, ainda que misticamente, por uma autoridade espiritual. Contudo, será precisamente a “catolicidade” e a “universalidade” da contra-Igreja o que mais irá atrair o pobre espírito moderno: ela porá abaixo todas as fronteiras nacionais; desdenhará dos sentimentos patrióticos, libertando-nos dos deveres de piedade para com o próprio país; fará os homens sentirem orgulho, não de serem americanos, franceses ou alemães, mas de pertencerem a uma classe revolucionária sob a batuta de seu “vigário”, cujas ordens vêm, não mais do Vaticano, mas do Kremlin.

O século XIX rejeitou a Igreja sob o pretexto de que ela era “intolerante”, sempre pronta para excomungar o primeiro herege que rejeitasse as tradições apostólicas, sempre insistindo em que Cristo fundou uma só Igreja, sempre ensinando que a Verdade é una e que os dogmas, ou se aceitam de todo, ou se rejeitam por inteiro. Mas nesta hora diabólica em que vivemos, os filhos e netos dos que assim se opunham à Igreja aderem à sua contrafação justamente por ela eliminar os seus hereges, exterminar os seus trotskistas, excomungar os que não aceitam a doutrina de que talvez não haja um só rebanho e um só pastor, mas, sim, um só formigueiro e um único tamanduá.

O mundo liberal rejeitou a Igreja porque ela era muito “dogmática” e “intransigente”, com suas definições precisas de “união hipostática” e “Imaculada Conceição”; era muito “hierárquica”, com seus Bispos, os sucessores dos Apóstolos, alegando ser os guardiões da fé e dos costumes dos povos. Mas, curiosamente, milhões de pessoas têm-se filiado à contra-Igreja por essas mesmíssimas razões: amam a infalibilidade com que ela define os dogmas do materialismo dialético, do determinismo econômico, da mais-valia; amam sua hierarquia e veneram os líderes do partido como se foram Bispos, sucessores dos “apóstolos” — Marx e Lênin —, cuja missão é preservar o depósito da fé do partido até a consumação dos séculos.

Ora, uma vez que os sinais dos nossos tempos parecem apontar para uma luta entre dois absolutos, há duas razões para crer que o futuro será um tempo de grandes provações.

Em primeiro lugar, para pôr fim à dissolução a que estamos assistindo. Se não houvesse catástrofes, a impiedade alastrar-se-ia sem freios. De fato, o que a morte é para um pecador, uma catástrofe o é para uma civilização má e corrupta. Por que Deus poria à porta do paraíso terrestre um anjo cingido de uma espada flamejante senão para impedir que nossos primeiros pais, depois da Queda, tornassem a entrar no Éden para comer da árvore da vida e, assim, imortalizassem a própria iniquidade? Deus não há de permitir que a injustiça se arraste pela eternidade afora. Revoluções, desintegração, caos, tudo isso é um aviso de que estamos errados, de que os nossos sonhos têm sido vãos e perversos.

A vingança da verdade moral é a ruína dos que a repudiam. O caos em que se revolve o tempo presente é, pois, o argumento negativo mais contundente a favor do cristianismo. As catástrofes testemunham o poder de Deus em um mundo sem sentido, já que por meio delas o Senhor reduz a nada uma existência sem sentido. A destruição que se segue à apostasia torna-se, deste modo, o triunfo do sentido, uma reafirmação de que há, sim, um propósito.

Adversidade: eis aí a palavra que melhor exprime a condenação divina do mal, o selo do julgamento divino. Assim como o inferno não é um pecado, mas sua consequência, assim também os tempos de tribulação não são um pecado, mas o salário do pecado (cf. Rm 6, 32). Sob o véu das catástrofes descobre-se que o mal, em realidade, é auto-destrutivo: é impossível que nos afastemos de Deus sem nos fazermos a nós mesmos uma grande violência.

A segunda razão por que as crises são necessárias é para evitar que a Igreja e o mundo se identifiquem. Nosso Senhor quis que os seus seguidores fossem diferentes em espírito daqueles que não O seguem: “Não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia” (Jo 15, 19). Embora seja essa a vontade divina, é verdade, infelizmente, que a linha divisória entre os que seguem ou não a Cristo é com frequência pouco nítida. Em vez do preto e do branco, o que vemos é um borrão cinzento. Mediocridade e transigência são, pois, as notas características de muitos cristãos modernos: como os pagãos com quem vivem, eles se entregam aos mesmos divertimentos; educam os filhos no mesmo espírito mundano e ateu; assistem aos mesmos programas; abrem as portas de casa para certos costumes pagãos, como o divórcio, segundas uniões; permitem, enfim, que o comunismo destile seu veneno na política e no cinema.

Já não há mais o conflito, a oposição que, ao menos em tese, nos deveria caracterizar. O mundo nos influencia mais do que nós o influenciamos. Não há mais a fuga sæculi, a fuga do mundo. De modo que São Paulo pode dizer-nos sem injúria o que outrora dissera aos fiéis de Corinto: “Que união pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunidade entre a luz e as trevas? Que compatibilidade pode haver entre Cristo e Belial?” (2Cor 6, 14s).

O que São Paulo diz aqui, noutras palavras, é que os que foram encarregados de construir um centro de saúde adoeceram e, portanto, já não têm mais como curar ninguém. Ora, uma vez que a fusão entre o espírito cristão e o espírito pagão é um fato consumado — como ouro misturado com metais menos nobres —, não há meio de purificar a mistura a não ser lançando-a na fornalha e separando os elementos amalgamados. Eis o que farão as provações. É preciso, portanto, que o mal se instale para rejeitar-nos, desprezar-nos, odiar-nos, perseguir-nos, para que assim possamos, afinal, decidir de que lado estaremos, a quem seremos leais e fiéis. Como poderíamos distinguir as árvores rijas e firmes das débeis e fracas sem que o vento soprasse? Diminuiremos, sim, em número; mas aumentaremos em qualidade. Cumprir-se-á então o que dissera Nosso Senhor: “Quem não ajunta comigo, espalha” (Mt 20, 30).

Mas, embora nos refiramos aqui ao advento do Anticristo e a sua oposição a Nosso Senhor, não é pela Igreja que tememos; é pelo mundo. Não é a infalibilidade que nos preocupa, mas o abismo do erro em que se lança o mundo. Não tememos que Deus um dia venha a ser destronado, mas que a barbárie volte a governar o mundo. Não é a transubstanciação que desaparecerá, mas talvez os lares; os Sacramentos não deixarão de existir, mas talvez a lei moral. A Igreja não pode ter outras palavras para a mulher que se lamenta e bate no peito além daquela de Nosso Senhor em direção ao Calvário: “Não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos” (Lc 23, 28).

Em seus dezenove séculos de existência, a Igreja sobreviveu a outras grandes crises, e ela continuará a lamentar os males dos tempos atuais. A Igreja tem as suas Sextas-Feiras Santas, as quais porém não são mais do que um prelúdio de seus Domingos de Páscoa, pois permanecem de pé as promessas divinas: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18); “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20); “Todo o que cair sobre esta pedra ficará despedaçado” (Lc 20, 18).

Nunca antes na história houve tão forte argumento a favor do cristianismo: os homens têm-se dado conta de que suas misérias e angústias, suas guerras e revoluções, aumentam quanto mais negam a Cristo. Porque o mal se destrói a si mesmo; só o bem é capaz de perdurar.

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Possessão? A tentação é pior, diz exorcista
Doutrina

Possessão?
A tentação é pior, diz exorcista

Possessão? A tentação é pior, diz exorcista

“Nós não devemos subestimar a gravidade da tentação. Ela não é tão espetacular quanto a possessão, mas é de longe muito mais perigosa para a alma.”

Catholic News AgencyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Maio de 2019
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Ainda que representações dramáticas de possessões demoníacas, como as de Hollywood, dêem a entender que são elas a principal atividade do demônio, um padre e exorcista dominicano alerta: a ameaça maior e mais comum colocada pelo demônio para a salvação de uma pessoa é a tentação ao pecado.

“A manifestação demoníaca mais comum é a tentação, e ela é muito pior do que a possessão”, disse o Pe. François Dermine, O.P., em entrevista à Catholic News Agency, em 10 de maio.

O sacerdote, exorcista há mais de 25 anos, explica que a possessão não é uma ameaça espiritual da mesma forma que a tentação, e que é até possível, a um possesso, que ele faça um “progresso espiritual extraordinário”, chegando mesmo à santidade.

Isso se deve ao fato de que a possessão do corpo de uma pessoa ocorre sem o seu conhecimento ou consentimento. A possessão em si mesma não torna a sua vítima moralmente culpável.

“Nós não devemos subestimar a gravidade da tentação. Ela não é tão espetacular quanto a possessão, mas é de longe muito mais perigosa [para a alma]”, diz o sacerdote.

“Resistir à tentação é simples”, ele afirma, ainda que nem sempre seja fácil. “É preciso evitar as ocasiões de pecado, é claro, levar uma vida cristã e ter vida espiritual. Faz-se necessário rezar, comportar-se corretamente e amar as pessoas com que nos encontramos todos os dias e também aquelas com que convivemos.”

Segundo o Pe. Dermine, depois da tentação, outra forma muito comum de atividade demoníaca é a opressão. Às vezes as pessoas podem encontrar alguns problemas, geralmente de saúde, nos negócios ou na família, e que não podem ser explicados por causas naturais. Quando se julga que a causa desses problemas é uma opressão diabólica, dá-se-lhes o nome de “preternaturais” e eles podem demandar o auxílio de um exorcista.

“Das ações extraordinárias do demônio, essa é a mais comum”, diz o Pe. Dermine, explicando que a tentação é considerada como ação demoníaca “ordinária”.

O sacerdote adverte que as pessoas não deveriam concluir de imediato que problemas físicos ou sofrimentos sejam resultado de uma opressão demoníaca, porque na maioria das vezes eles podem ser explicados por causas naturais.

Se alguém visitou um médico (ou um psicólogo, se for o caso) e nenhuma explicação natural pôde ser encontrada, então é o caso de se procurar um exorcista. “Quando uma pessoa vem e pede uma bênção para um problema específico”, diz o padre, “a primeira coisa que um exorcista deve perguntar é: você já foi a um médico?”.

O Pe. François Dermine é nascido no Canadá, mas vive na Itália praticamente desde que foi ordenado sacerdote, em 1979. Exorcista desde 1994, ele exerce seu ministério na Arquidiocese de Ancona-Osimo e foi convidado a falar sobre como é a vida de um exorcista durante o 14.º curso sobre exorcismo e orações de libertação — evento organizado pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum e pelo Gruppo di Ricerca e Informazione Socio-Religiosa.

O curso tem duração de uma semana, encerrou-se no dia 10 de maio e tem como finalidade não só formar novos exorcistas, mas também inteirar sacerdotes e leigos do exorcismo e de tópicos semelhantes. O Pe. Dermine disse que muitos dos leigos participando do curso compareceram a pedido de seus bispos, para que aprendessem a prestar auxílio aos sacerdotes durante os exorcismos.

O sacerdote conta ainda que, em sua palestra, apresentou alguns dos erros mais comuns cometidos por exorcistas, como o de confundir manifestações demoníacas preternaturais com carismas sobrenaturais, vindos de Deus. “Há uma diferença muito importante”, ele explica. “Nós temos uma natureza humana e não podemos conhecer as coisas sem antes as termos aprendido por meio de nossos sentidos.”

“Deus nos criou para agir de uma certa forma. Se você tem percepções extrassensoriais e coisas do tipo, e elas não servem para influenciar ou provocar um resultado espiritual, então elas não podem vir de Deus”, ele adverte. Pessoas com tais percepções são normalmente chamadas de “médiuns” na cultura secular.

Esses tipos de sentimentos ou manifestações preternaturais podem ser “causa de muitos problemas”, explica o sacerdote, e as pessoas envolvidas nisso podem precisar da ajuda de um exorcista.

O padre nota que existe um valor cultural em se ministrar um curso sobre exorcismos para padres e leigos, e isso acontece porque o tópico é no mais das vezes misterioso, suscitando o desejo de aprender. “A maior parte das pessoas que vêm aqui fazem-no não porque têm intenção de se tornarem exorcistas necessariamente, mas porque querem aprender”, ele diz.

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Um exame de consciência litúrgico
Liturgia

Um exame de consciência litúrgico

Um exame de consciência litúrgico

Toda liturgia deveria ser capaz de expressar a grandeza que é pertencer à Igreja. Tudo nela deveria nos dizer ao coração: “Esta é a tua casa. Este é o teu lugar. Tudo aquilo por que tanto anseia o mais profundo de tua alma… está aqui.”

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Maio de 2019
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“Quão amável, ó Senhor, é vossa casa,
quanto a amo, Senhor Deus do universo!
Minha alma desfalece de saudades
e anseia pelos átrios do Senhor!
[...]
Na verdade, um só dia em vosso templo
vale mais do que milhares fora dele!”

(Sl 83(84), 2-3.11)

É notório o trabalho pastoral e teológico que Bento XVI, antes mesmo de ser eleito Papa, realizou no âmbito da sagrada liturgia. Quem não conhece esse trabalho tem agora a oportunidade de adquirir a obra Teologia da Liturgia, lançada recentemente pela CNBB, e que constitui o primeiro volume das obras completas de Ratzinger em português.

Foi desejo do próprio Papa emérito que no primeiro volume de suas opera omnia constassem seus escritos sobre a liturgia. Ele quis seguir a mesma ordem do Concílio Vaticano II — de cujos documentos o primeiro foi justamente a Sacrosanctum Concilium — e priorizar aquela que foi a “realidade central” de sua vida desde a infância, como ele mesmo escreve em sua autobiografia:

Cada novo degrau no acesso à liturgia era, para mim, um grande acontecimento. Cada livro novo me era uma preciosidade, e eu não podia sonhar com nada mais lindo. Foi para mim uma aventura cativante esse lento acesso ao misterioso mundo da liturgia, que lá no altar, diante de nós e para nós, se realizava. Tornou-se cada vez mais claro para mim que eu me encontrava aí diante de uma realidade que não foi inventada por uma pessoa qualquer, e não havia sido criada por uma autoridade ou grande personagem. Essa misteriosa fusão de textos e ações tinha nascido da fé da Igreja, através dos séculos. Carregava dentro de si o peso de toda a história, mas era, ao mesmo tempo, muito mais do que um produto da história humana. Cada século tinha contribuído com seus vestígios. As introduções nos ensinavam o que tinha vindo da Igreja primitiva, da Idade Média, dos tempos modernos. Nem tudo era lógico. Tudo era bastante complicado; nem sempre era fácil a gente se orientar. Mas exatamente por isso aquela estrutura era maravilhosa, e nos sentíamos em casa [1].

Detenhamo-nos por um momento nestas últimas palavras do Papa, pois elas descrevem um sentimento que com certeza já perpassou o coração de todo católico diante de uma liturgia bem celebrada: sentirmo-nos em casa.

A expressão tem um sentido bem preciso. O Papa evidentemente não está dizendo que a liturgia foi feita para as pessoas se sentirem em casa como se se tratasse de algo banal, trivial, profano. Ele fala de nos sentirmos em casa como um sinal de pertença e de familiaridade. Neste sentido preciso, sim, é possível afirmar que a liturgia foi feita para que nos sintamos em casa.

Mas a casa a que o Papa se refere não é um templo feito por mão de homens, para usar uma expressão do Apóstolo (cf. At 17, 24). O que a liturgia faz é colocar-nos em contato com o mistério da Igreja, o mistério

da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos, da assembleia festiva dos primeiros inscritos no livro dos céus, e de Deus, juiz universal, e das almas dos justos que chegaram à perfeição, enfim, de Jesus, o mediador da Nova Aliança, e do sangue da aspersão, que fala com mais eloquência que o sangue de Abel (Hb 12, 22-24).

Em uma palavra, a liturgia existe a fim de nos transportar para o que há além desta vida terrena. No Batismo, todos nós, católicos, recebemos uma nova vida, a vida sobrenatural da graça, isto é, uma vida muito acima dos dados meramente naturais. Por meio desta porta, nós adentramos o edifício espiritual da Igreja, o Corpo místico de Cristo, formado

  • por todos os santos que já passaram por este mundo e agora estão no Céu,
  • por todas as almas justas que estão se purificando no Purgatório e
  • por todos os guerreiros valorosos que militam neste vale de lágrimas.

Esta casa, caro leitor, é a morada de todos os bem-aventurados, dos homens e mulheres que, em todos os tempos e lugares, temeram e amaram a Deus, e cumpriram com a sua santíssima vontade. Por isso, porque é uma casa ornada das mais belas virtudes, nenhuma casa se lhe é capaz de igualar.

A liturgia deveria ser capaz de expressar esta magnificência que é pertencer à Igreja. Todas as orações que nela existem, todos os cantos que foram compostos e incorporados a ela ao longo dos séculos, todos os gestos sagrados que o sacerdote faz e que o povo acompanha (ou deveria acompanhar) com piedade e devoção, tudo isso deveria falar mui ternamente ao nosso coração e dizer: “Esta é a tua casa. Este é o teu lugar. Tudo aquilo por que tanto anseia o mais profundo de tua alma está aqui.”

Mas a experiência que, ao pequeno Ratzinger, transmitiu imediatamente a sensação de pertença, pode ser para outros, em um primeiro momento, ocasião de choque e estranhamento. Vejamos o que aconteceu, por exemplo, ao famoso escritor francês Paul Claudel (em suas próprias palavras):

Assim era a infeliz criança que, a 25 de dezembro de 1886, foi a Notre-Dame de Paris para assistir aos ofícios de Natal. Começava então a escrever, e parecia-me que nas cerimônias católicas, consideradas com um diletantismo superior, encontraria um excitante apropriado e a matéria de alguns exercícios decadentes.

Foi com essas disposições que, acotovelado e empurrado pela multidão, assisti, com um prazer medíocre, à missa cantada. Depois, não tendo nada melhor a fazer, voltei para assistir às vésperas. As crianças do coro, vestidas de branco, e os alunos do seminário menor de Saint Nicholas du Chardonnet, que os ajudavam, cantavam o que mais tarde soube ser o Magnificat.

Eu próprio estava de pé entre a multidão, junto do segundo pilar à entrada do coro, à direita da sacristia. E foi então que se produziu o acontecimento que domina toda a minha vida. Em um instante, meu coração foi tocado e acreditei.

Acreditei com tal força de adesão, com tal elevação de todo o meu ser, com tão poderosa convicção, com tal certeza sem deixar lugar a qualquer espécie de dúvida, que, a partir de então, todos os livros, todos os raciocínios e todas as circunstâncias de uma vida agitada não puderam abalar-me a fé, nem mesmo, para ser mais preciso, atingi-la.

Tive de súbito o forte sentimento da inocência, da eterna juventude de Deus, uma revelação inefável. Tentando, como o fiz várias vezes, reconstituir os minutos que se seguiram a esse instante extraordinário, encontro os elementos seguintes que, entretanto, formavam apenas um clarão, uma única arma de que a Providência Divina se servia para atingir e abrir enfim o coração de uma pobre criança desesperada: ‘Como são felizes os que crêem! E se fosse verdade? É verdade! Deus existe. Ele está em toda parte. É alguém, é um Ser tão pessoal quanto eu. Ele me ama, Ele me convoca.’

As lágrimas e os soluções vieram… e o canto tão doce do Adeste fideles aumentou ainda mais minha emoção. Emoção bem doce, mas a que se misturava um sentimento de espanto e quase de horror. Pois minhas convicções filosóficas estavam intactas. Deus as deixara desdenhosamente onde estavam, e eu nada via a mudar nelas; a religião católica me parecia continuar o mesmo tesouro de anedotas absurdas, seus padres e fiéis me inspiravam a mesma aversão que ia até o ódio e o desgosto. O edifício de minhas opiniões e de meus conhecimentos permanecia de pé, e não lhe achava qualquer defeito. Tinha apenas me retirado dele. Um novo e formidável ser, com exigências terríveis para o jovem e o artista que eu era, tinha-se revelado, e não sabia como conciliá-lo com coisa alguma que me cercava.

O estado de um homem que fosse arrancado de um golpe de seu corpo, para ser colocado em um corpo estranho, no meio de um mundo desconhecido, é a única comparação que posso encontrar para exprimir este estado de confusão completa. O que mais repugnava a minhas opiniões e a meu gosto, era, entretanto, a verdade e o fato de ter de acomodar-se a ela custasse o que custasse. Ah! Isso não aconteceria sem que tentasse tudo que me fosse possível para resistir [2].

Percebam como, curiosamente, o que para um católico de berço, praticante, foi sentir-se em casa, para esse artista (até então um católico “morno”) foi justamente a experiência do deslocamento: o homem que ele era até aquele momento sentia-se fora de lugar, transportado a uma realidade nova e inesperada.

É que o pequeno Ratzinger tinha fé; Paul Claudel ainda não. E foi só a partir do momento em que lhe caíram as escamas dos olhos, foi só quando ele acreditou, que a liturgia ganhou, para ele, todo o sentido que realmente possui.

Paul Claudel.

Foi preciso, portanto, uma experiência totalmente alheia a seu mundo para que Paul Claudel se convertesse. Como o peixe que é tirado da água para a terra, Cristo pescou a alma desse homem, tirando-a de um ambiente para colocá-lo em outro completamente diferente. Essa migração — que constitui, no fundo, a essência de toda e qualquer conversão — deveria nos lembrar uma coisa de que muitos em nossa época parecem ter-se esquecido, a saber: que não são as nossas “adaptações”, as nossas “manipulações”, as nossas tentativas de “acomodar” o sagrado à banalidade das nossas vidas o que trará as pessoas de volta à Igreja. Muito pelo contrário, é justamente o estupor diante do sobrenatural, o espanto diante do sagrado, a admiração com o que é nobre e elevado, a isca de que tantos precisam para se livrar da miséria, da baixeza, da lama em que estão afundados.

Lendo o relato da conversão de um homem ao simples ouvir de uma música sacra, deveríamos nos perguntar se a mesma experiência teria acontecido, por exemplo, se aquelas crianças em Notre-Dame (a mesma Notre-Dame que estava em chamas alguns dias atrás) estivessem cantando uma música popular, um “sambinha” para Cristo, um jogral infantil ou um iê-iê-iê festivo para homenagear os fiéis presentes na celebração daquelas Vésperas…

Ora, alguém poderá dizer, “o Espírito sopra onde quer”. E é verdade. Mas será que podemos tão soberbamente pretender que o Espírito Santo se adeque à pobreza de nossos esquemas, à vulgaridade de nossas profanações, à baixeza de nossas invencionices? Que Deus se sirva até das mais insignificantes das coisas para trazer uma pessoa a si, é coisa de que ninguém duvida; agora, que façamos o que quisermos na liturgia, sob o pretexto de que “o que importa é o coração”, e como se um “batuque” e um “molejo” estivessem no mesmo nível de um coro de crianças cantando um Magnificat ou um Adeste fideles, é no mínimo uma profunda falta de bom senso (para não falar do pecado de irreverência que aqui se esconde sob a aparência de “simplicidade” e “despojamento”). Além do mais, que uma e outra pessoa aja dessa forma por ignorância, é coisa que se pode muito bem admitir; que não haja, no entanto, uma única voz capaz de dizer esse óbvio ululante, é coisa que escapa à nossa compreensão, é coisa que só a expressão “mistério da iniquidade” pode explicar…

É por isso que nós, católicos, precisamos fazer um exame de consciência urgente, perguntando-nos se o modo como celebramos a liturgia tem revelado aos homens a face de Deus ou a face… do próprio homem. Nossas crianças será que sentem, a respeito da liturgia de nossas igrejas, o mesmo que sentia o pequeno Ratzinger, a ponto de dizerem: “Estou em casa”? Será que nossas Missas têm favorecido e despertado nas pessoas esse nobre sentimento de pertença que o Papa Bento XVI teve em menino e que foi decisivo para sua vida e vocação cristã? Ou, ao contrário, não estaremos sonegando a nossos filhos, com nossos desrespeitos, nossas bizarrices, nossas danças e piruetas “litúrgicas”, o próprio tesouro da fé da Igreja?

E os que estão de fora — como estava Paul Claudel antes daquela visita a Notre-Dame —, com que impressão ficam ao se aproximar de nossas igrejas? A de um grupo sério de pessoas que temem a Deus e O veneram com respeito e reverência? Ou a de um bando que vive da gritaria e do oba-oba?

Na verdade, ante a dessacralização e as profanações que acontecem em tantas de nossas Missas, ao ver o silêncio e as orações secretas substituídas pela verborragia e pelos “programas de auditório”, diante do sentimentalismo que tomou o lugar da nobreza do canto gregoriano [3], não há como não tomar emprestadas as palavras do salmista ao ver desolada sua terra: “Por que razão vós destruístes sua cerca, para que todos os passantes a vindimem, o javali da mata virgem a devaste, e os animais do descampado nela pastem?” (Sl 79(80), 13-14).

Nós nos perguntamos o porquê, mas não é muito difícil chegar a uma resposta satisfatória. Como não enxergar em tudo isso que nos está acontecendo a justa mão de Deus nos castigando por nossos pecados? Não é curioso (para não dizer providencial) que justamente a nossa época, tão dada à sensualidade, seja privada na liturgia de todos os aspectos sensíveis que a enobreceram em outras épocas? Por que outro motivo nos teria sido negada a beleza e as glórias da liturgia, senão para que pagássemos o preço (merecido) da feiura dos pecados em que vivemos atolados?

Sim, tudo isso é verdade, mas lembremo-nos sempre: Deus, como Pai amoroso, só nos castiga porque busca a nossa conversão. Ele não permitiria os males que estamos experimentando, se não quisesse deles extrair um bem muito concreto: a purificação da nossa fé.

Portanto, se a liturgia de sua paróquia está ruim, se na Missa de que você participa o Cristo parece se despojar totalmente, como fez no Calvário, não deixe nunca de adorá-lo sob as espécies eucarísticas e de fazer-lhe companhia em meio aos verdugos que O maltratam… E não, não se trata de “cruzar os braços”. Se você puder fazer algo, mãos à obra, é claro! O que pudermos realizar, o que estiver ao nosso alcance fazer pelo resgate da liturgia, façamos, não fiquemos inertes.

Só não caiamos na tentação de trair a fé; de deixar a nossa casa, que é a Igreja; de abandonar Nosso Senhor justamente quando Ele mais precisa daqueles que O adorem, em espírito e em verdade.

Referências

  1. Joseph Ratzinger, Lembranças da minha vida: autobiografia parcial (1927-1977), trad. Frederico Stein, 2.ª ed., São Paulo: Paulinas, 2007, pp. 20-21.
  2. Jacques Madaule, Paul Claudel (1868-1955), in: Convertidos do século XX, trad. Hoche Luiz Pulchério, 2.ª ed., Rio de Janeiro: Agir, 1966, pp. 132-133.
  3. “Halevy, afamado compositor de óperas, discípulo de Cherubini, diz: ‘Como podem os sacerdotes católicos, possuidores do canto gregoriano, a mais linda melodia religiosa que existe no mundo, permitir nas suas igrejas a pobreza da nossa música moderna?’” (Pe. João Batista Reus, Curso de Liturgia, 3.ª ed., Rio de Janeiro: Vozes, 1952, p. 65)

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Fátima, o “grande mistério” e a Teologia do Corpo
Família

Fátima, o “grande mistério” e a Teologia do Corpo

Fátima, o “grande mistério” e a Teologia do Corpo

Cem anos após a mensagem de Fátima, na época racionalista em que vivemos, onde a sexualidade é reduzida apenas à biologia, haverá espaço ainda para “o grande mistério” que é o Matrimônio?

Brian KranickTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Maio de 2019
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Como se sabe, a Irmã Lúcia de Fátima escreveu uma carta ao Cardeal Caffarra prevendo que “o confronto final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre a família e sobre o Matrimônio”. Não muito tempo depois, o Papa João Paulo II se encontrava no meio das famosas catequeses de sua “Teologia do Corpo”, sobre o Matrimônio e a família, quando um assassino turco tentou matá-lo. A tentativa de assassinato aconteceu em 13 de maio de 1981, dia da festa de Nossa Senhora de Fátima, e o mesmo dia em que o Papa João Paulo II iria anunciar a fundação de seu Pontifício Instituto para Estudos sobre Matrimônio e Família. Ele creditou “à mão de uma mãe”, Nossa Senhora de Fátima, o ter a vida salva naquele dia, permitindo assim que seus insights exegéticos sobre a Teologia do Corpo fossem promulgados.

A biografia de João Paulo II escrita por George Weigel descreveu suas ideias revolucionárias sobre a Teologia do Corpo como “uma espécie de bomba-relógio teológica, programada para explodir com dramáticas consequências, talvez no século XXI”. Quais eram essas novas ideias? Como reafirmou o autor Christopher West, a tese do Papa é a de que o corpo humano “foi criado a fim de transferir para a realidade visível do mundo o mistério escondido na eternidade em Deus; para ser um sinal disso, portanto”. O corpo é algo não só biológico, mas também teológico. O corpo é o sacramento da pessoa. Ao contrário das más interpretações que normalmente se fazem, a Igreja não ensina que o corpo ou o sexo é ruim; essa é uma heresia neognóstica que deprecia o corpo como algo que nos é externo e passível de ser consumido. Na verdade, a Igreja ensina que o corpo é bom e santo, templo do Espírito Santo. Ele é encarnacional e sacramental. O corpo é uma pessoa e a pessoa é um corpo.

Mas o corpo também é mais do que isso. Deus o criou como um sinal e autorrevelação de seu próprio mistério divino. Deus “imprimiu na carne modelada sua própria forma, de modo que até o que fosse visível tivesse a forma divina” (Catecismo da Igreja Católica, § 704). O mistério central da fé cristã é que Deus é uma comunhão eterna de três Pessoas divinas: Pai, Filho e Espírito Santo. Há uma sacramentalidade no corpo humano que torna visível esse mistério escondido na eternidade.

O que o corpo nos fala sobre Deus

Como isso se dá? No princípio, quando Deus criou o homem, ele o fez duas encarnações separadas, mas complementares, homem e mulher. Através da beleza da diferença sexual, masculina e feminina, somos chamados a formar uma comunhão de pessoas, assim como há uma comunhão de Pessoas na Divindade. Nesse intercâmbio de amor entre marido e mulher, uma terceira pessoa é gerada em uma criança, formando novamente um ícone do amor trinitário, assim como através do amor mútuo entre o Pai e o Filho procede o Espírito Santo. Desse modo, a família humana torna visível no mundo criado — ainda que por uma via analógica e de distância infinita — o intercâmbio de amor, eterno e oculto, que há em Deus. Ao homem é dado tomar parte nesse grande mistério de geração e criação, à imitação da Trindade. Pode-se entender então que, quando Deus diz a Adão e Eva: “Crescei e multiplicai-vos”, ele está realmente lhes dizendo, em um nível simbólico, para manifestar sua imagem trinitária em todo o mundo. Esta é a vocação original do ser humano: amar como Deus ama.

E Deus nos ensina a amar como Ele ama através da complementaridade dos sexos, tal como ela foi impressa em nossos corpos. Esse dado revela o significado esponsal da nossa própria existência. Jesus mesmo reafirma a dualidade dos sexos e seu significado nupcial. Quando os fariseus o questionam sobre o divórcio, Jesus lhes responde: “Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: ‘Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne?’ Assim, já não são dois, mas uma só carne” (Mt 19, 4-6). E os dois tornam-se um no sacramento primordial do Matrimônio: foi o sacramento original, o protótipo a apontar para a união esponsal de Cristo com a Igreja. São Paulo se refere a esse casamento de Cristo com a Igreja como um “grande mistério” (Ef 5, 32). Os casais unidos em santo matrimônio constituem um sinal sacramental do Esposo divino e sua Esposa.

Um tema subjacente a toda a Bíblia é que Deus quer nos “casar” (Os 2, 19). De fato, Ele quis nos tornar tão óbvio seu plano nupcial, que criou nossos próprios corpos, masculino e feminino, a fim de nos preparar para esse matrimônio místico e eterno. O casamento humano é, portanto, o sinal e o sacramento, revelando a realidade eterna da união entre Cristo e sua Igreja. Jesus também falou disso quando se dirigiu aos saduceus dizendo: “Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22, 30). Jesus reafirma que o casamento terrestre não é em si mesmo o fim último, senão um sinal do casamento celeste que há de vir. Trata-se de um precursor da verdade final, quando o sinal terreno finalmente dará lugar à realidade celestial. Na ressurreição, o corpo se tornará eterno, incorruptível, espiritual e divino. No entanto, como acontece com qualquer proposta de casamento, o consentimento mútuo é necessário. Nós devemos dar o nosso “sim” através da fé e da oferta de nós mesmos.

O casamento foi construído sobre essa noção de um dom livre e sincero dado de si para o outro. O dom de si próprio no casamento é um sinal e uma analogia do dom total de Cristo por sua Igreja. Na Última Ceia, quando Jesus institui a Eucaristia, Ele diz: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22, 19). Jesus se oferece corporalmente por nós, sua Esposa. A total auto-oferta de seu corpo é consumada com sua crucificação. Da mesma forma, a Eucaristia é uma renovação desse dom esponsal que Cristo oferece de seu corpo. Nas palavras de Jesus: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 56). Essa é a nossa comunhão em uma só carne com Ele.

O plano original de Deus para o casamento

Jesus por diversas vezes nos aponta de volta ao princípio, a fim de que vejamos o plano original de Deus para o Matrimônio. Em resposta aos fariseus que o desafiavam a respeito do casamento, Jesus diz que “no começo não foi assim” (Mt 19, 8). Implicitamente Ele nos diz que permanece em nós, ainda que de modo residual, um certo eco dessa inocência original. Na “nudez original” do ser humano, Adão e Eva “estavam nus e não se envergonhavam” (Gn 2, 25). Eles não tinham nem vergonha, nem medo, nem luxúria; apenas inocência. Suas naturezas compostas, corpo e alma, estavam em perfeita harmonia. Adão e Eva viam um no outro uma pessoa inteira, imagem perfeita do Criador. A total doação de si que eles estavam destinados a fazer um ao outro era uma personificação do amor oblativo de Deus e uma expressão perfeita do significado nupcial de seus corpos. Cristo nos chama a restaurar isso.

É claro que, com a Queda do homem no pecado original, a imoralidade e a morte entraram no mundo. Adão e Eva tomaram folhas de figueira e juntaram-nas para cobrir seus corpos e ocultar sua vergonha. Na linguagem mítica da pré-história do Gênesis, as coisas tinham dado terrivelmente errado e nunca mais foram as mesmas desde então. A perfeita harmonia entre corpo e alma havia se rompido. Nossa natureza humana foi ferida pela concupiscência, o orgulho, a luxúria e a desobediência. A revelação da pessoa como uma imagem de Deus, a teologia estampada em nossos corpos, obscureceu-se.

Mesmo assim, apesar do pecado, aponta João Paulo II, “o casamento continuou a ser a plataforma para a realização dos planos eternos de Deus”. Em nenhum outro lugar isso ficou tão evidente quanto  na Encarnação. Jesus quis se fazer carne no seio de uma família e ser criado por uma mãe e um pai. A Encarnação de Jesus mostra que o corpo, e o casamento e a família permanecem “muito bons”. Ele destaca a centralidade do casamento como sacramento. As Escrituras nos dizem que Jesus também foi convidado para um casamento (cf. Jo 2, 2). Sua presença santifica o sacramento. Jesus realizou seu primeiro milagre público nas bodas de Caná, transformando a água em vinho. Aquele casamento aponta para a consumação do seu próprio matrimônio no Calvário, quando Ele oferece seu corpo por sua Esposa.

No Sermão da Montanha, Cristo novamente nos chama de volta ao modo como eram as coisas no princípio. Jesus diz: “Todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração” (Mt 5, 28). Ele nos desafia a encontrar uma maneira nova e pura de olhar um para o outro, com a custódia de nossos olhos e uma pureza de coração que seja capaz de ver a pessoa como imagem de Deus. Jesus nos chama à conversão e a um domínio de si mesmo. Esse é o novo ethos que Jesus institui para o coração: agora se infunde em nosso eros um amor ágape. A visão antropológica de João Paulo II é uma sexualidade redimida, um “ethos da redenção do corpo”, o qual, através do poder de Cristo, torna-se livre do domínio da concupiscência e da autogratificação sexual. Somos chamados a essa libertação e a essa liberdade de ser; foi para isso que Jesus veio nos resgatar; Ele veio para que tivéssemos vida, e vida em abundância (cf. Jo 10, 10).

Satanás trabalha para minar nosso relacionamento com Deus

Se, no entanto, o Matrimônio é o sacramento primordial — a primeira revelação, na Criação, do ser interior de Deus e a primeira revelação da união de Cristo com sua Igreja —, há alguma dúvida de por que Satanás o ataca? É precisamente nessa unidade original dos sexos que ele tenta romper nossa comunhão com Deus. O objetivo de Satanás é manter o homem longe de seu destino eterno com Cristo. A Irmã Lúcia comentou, de fato, que muitas pessoas vão para o inferno por causa dos “pecados da carne”. Ao distorcer a teologia de nossos corpos, Satanás planeja obscurecer a imagem trinitária dentro de nós. Ele procura zombar da nossa união em uma só carne com Cristo. Vivemos em uma sociedade cada vez mais depravada, que torce o sacramento, transforma-o em um antissacramento e distorce o sinal em uma impostura diabólica. A desconcertante perda da ética sexual nos últimos cinquenta anos pelo menos, como parte da Revolução Sexual (e subsequente “cultura da morte”), mostra o ataque selvagem que se tem feito ao casamento, à sexualidade, à procriação e à família. Não é difícil perceber quantas falsificações obtiveram ampla aceitação cultural, infelizmente até por muitos dentro da Igreja. Como João Paulo II declarou: “O ‘grande mistério’ encontra-se ameaçado em nós e ao nosso redor”. Não surpreende que a progressiva destruição da moral sexual, especialmente a redefinição tanto do casamento quanto dos sexos, seja agora a ponta de lança que ameaça a liberdade religiosa.

Refletindo ademais sobre as proibições sexuais da Igreja, como a contracepção, por exemplo, a conclusão do Papa é que ela é teologicamente sacrílega porque falsifica o sinal sacramental do Matrimônio. Ao explorar essas verdades sublimes, João Paulo II considerou sua Teologia do Corpo como “um extenso comentário” sobre a Humanae Vitae e a regulação do nascimento. Será que nós nos fazemos as perguntas difíceis, como se é livre, total, fiel e fecunda a nossa união dentro do Matrimônio? Em nossa modernidade racionalista, onde a sexualidade é reduzida apenas à biologia, haverá ainda espaço para “o grande mistério”? Para entender o ensinamento da Igreja sobre controle de natalidade e ética sexual, é necessário ter uma “visão integral do homem e de sua vocação ”. A abertura à vida faz todo o sentido no “profetismo do corpo” como imagem de Deus, mas parece loucura quando não se tem em mente o sinal sacramental.

Agora que cruzamos o limiar do centenário das aparições de Fátima, talvez possamos, como o Papa João Paulo II, apelar a Nossa Senhora de Fátima por uma intervenção em prol do Matrimônio e da família. Foi em outubro de 1917, no clímax da última aparição da Virgem, que o mundo recebeu a visão milagrosa da Sagrada Família: Nossa Senhora e o Menino Jesus nos braços de São José. Eles nos foram apresentados como o modelo da família perfeita. Nós também podemos nos esforçar em nossas famílias pela santidade e a perfeição através da oração, da penitência e dos sacramentos. Como a Irmã Lúcia escreveu sobre a visão da Sagrada Família:

Em tempos como o presente, quando a família muitas vezes parece incompreendida na forma como foi estabelecida por Deus, e é atacada por doutrinas errôneas e contrárias aos propósitos para os quais o divino Criador a instituiu, Deus quis nos deixar um lembrete do propósito para o qual Ele estabeleceu a família no mundo.

Por isso, na mensagem de Fátima, Deus nos chama a voltar os olhos para a Sagrada Família de Nazaré, na qual Ele escolheu nascer e crescer, em graça e estatura, a fim de nos apresentar um modelo para imitar, enquanto nossos passos percorrem o caminho de nossa peregrinação ao Céu.

O Matrimônio é um sinal sacramental por toda a vida do mistério interior de Deus, sinal que deve ser vivido de forma casta e experimentado na temperança quotidiana de nossas vidas, por reverência a Cristo. Esse é, para muitos, o mapa da nossa estrada para a vida eterna. Vamos estudar novamente a Teologia do Corpo, como parte da nova evangelização, a fim de que brilhem novamente a verdade e a compaixão neste mundo tão desesperadamente necessitado delas, pois o tempo urge.

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Nem todo o mundo é hipócrita como você!
Espiritualidade

Nem todo o mundo
é hipócrita como você!

Nem todo o mundo é hipócrita como você!

Não é que não haja hipócritas dentro de nossas igrejas. Certamente os há, certamente eles abundam. Mas quem está em condições de fazer esse juízo, apontando aos hipócritas um por um?

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Maio de 2019
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Se há uma coisa que ainda precisamos compreender bem e em toda a sua profundidade, é a ação transformadora, realmente transformadora, da graça de Deus na alma humana. Digo que precisamos compreender, na primeira pessoa, porque de modo geral até os católicos ignoramos a beleza da teologia da graça, que está presente não só nos bons escritos dos santos Doutores da Igreja, mas principalmente nas páginas do Santo Evangelho.

Para esclarecer as coisas, digamos desde o início qual é o erro que parece ter impregnado a mente das pessoas de nossa época e que precisamos combater com todas as nossas forças, especialmente nestes tempos de confusão moral: trata-se da visão protestante de justificação. Em que ela consiste, é o Pe. Boulenger quem nos explica:

Na opinião deles (Lutero, Calvino), o homem, desde o pecado original, está despojado do livre-arbítrio, e por isso incapaz de qualquer coisa boa, de modo que a fé sozinha, a fé sem obras, é o requisito único para a justificação. Acresce que esta fé, dos tais inovadores, não é a fé propriamente dita, pela qual cremos, por serem revelações de Deus, todas as verdades que a Igreja nos ensina, não. É uma confiança que nos leva a julgar perdoados pela imputação os nossos pecados, isto é, pela aplicação dos méritos de Jesus Cristo [...].

No sistema deles, pela justificação, os pecados não são verdadeiramente destruídos. São apenas vendados. Encobertos e ocultos pelos méritos de Jesus Cristo que nos são atribuídos. Não é nenhuma renovação intrínseca que a graça produz no homem justificado.

Essa justificação vem a ser, antes, uma espécie de sentença, uma proclamação que nos declara justos, se bem que, interiormente, não haja em nós mudança alguma [1].

Na prática, o que é essa “justificação” senão uma farsa, uma roupa bonita com que Deus veste o pecador só para lhe disfarçar a sujeira, as misérias e a podridão? É tão aberrantemente contrária ao espírito do Evangelho e da Nova Aliança essa forma de pensar que custa-nos crer que alguém lhe possa realmente dar crédito. O Jesus que tanto condenou a hipocrisia dos fariseus — cujos lábios e corações viviam fora de sintonia (cf. Is 29, 13) — torna-se nessa teologia miserável, Ele mesmo, um grande fariseu.

Mas, antes de apontar o dedo aos protestantes (pois não é a finalidade deste artigo), façamos nós mesmos, católicos, um exame de consciência, e vejamos bem se com nossas palavras e julgamentos não somos nós os primeiros a precisar de advertência e emenda.

Qual é a nossa reação, por exemplo, diante do bem e dos bons? Isto é, quando somos confrontados com a verdade do Evangelho, ou com alguém que procura vivê-la; quando nos deparamos com a vida de um santo, ou com uma pessoa que se esforça por viver os Mandamentos, ter uma vida de oração e lutar contra os próprios pecados… qual é normalmente a nossa postura? O que sai de nossa boca (ou em que tipo de pensamentos consentimos) quando o Cristo se apresenta diante de nós na forma de um ensinamento que nos constrange ou de uma pessoa que nos corrige, ainda que seja só com sua vida?

Talvez sejamos daqueles que dizem, meio que irrefletidamente: “Mas também não se pode ser tão radical assim”, ou: “Ninguém suporta, também, viver a religião assim, a ferro e fogo”. Talvez pensemos: “Religião não pode ser camisa de força”, ou achemos que as pessoas que procuram viver o Evangelho, no fundo, não passam de umas “reprimidas” e “recalcadas”. Talvez sejamos ainda piores e até já tenhamos teorias prontas sobre o interior e o passado dos outros: “O fulano fala e age assim agora, posa de santo, mas ele já fez isto e aquilo”; “O fulano se comporta assim agora, mas lá no fundo…” etc.

Ou seja, na cabeça de muitos de nós, qualquer pessoa que aparente ser um pouco melhor do que nós, um pouco mais esforçada do que nós, um pouco mais perfeita do que nós, já é motivo para darmos na língua e acharmos que é uma hipócrita. (No fundo, um artifício para que estejamos sempre “por cima”, para que nos sintamos sempre superiores.)

Pode até ser que não nos demos conta, mas por trás de todas essas ideias está escondida uma profunda falta de fé na santidade. No fundo, nós não acreditamos que as pessoas possam realmente ser transformadas pela graça. Para nós, elas sempre vão continuar as mesmas pecadoras miseráveis de sempre, mas disfarçadas com uma roupinha melhor aqui, um traje mais elegante acolá.

Ou seja, ao acusarmos de “hipócritas” e “farisaicas” as pessoas de igreja, na verdade, estamos revelando mais de nós mesmos do que daqueles a quem acusamos. Querendo enxergar o “fundo” do coração dos outros, nós estamos na verdade externando o que vai no fundo do nosso coração.

Talvez fosse necessário dizer a essas pessoas que nem todo o mundo é hipócrita como elas... Se é o seu caso, preste atenção: não é porque você acha os Mandamentos um fardo, não é porque você acha a religião um peso, que as pessoas são do mesmo modo. Há pessoas sinceras, que realmente querem a Deus, que realmente buscam a santidade, que realmente acreditam no Céu e querem viver por ele. E você, ao invés de desencorajar a piedade dos outros falando asneiras, faria muito melhor se entrasse na Igreja também, com o coração, ao invés de acusar as de dentro de estarem lá só de corpo presente.

Não que não haja hipócritas dentro de nossas igrejas. Certamente os há, certamente eles abundam. Mas quem está em condições de fazer esse juízo, apontando aos hipócritas um por um? E qual é a linha que separa um hipócrita, afinal, uma pessoa fingida e dissimulada, de um pecador que busca sinceramente conformar-se à vontade de Deus? Se tanto o fariseu quanto o publicano da parábola eram pecadores, por que Nosso Senhor elogiou a este e reprovou a conduta daquele (cf. Lc 18, 9-14)?

A resposta é simples: enquanto o publicano teve a humildade de reconhecer a própria miséria e saber-se necessitado da graça divina, o fariseu era cheio de si, autossuficiente demais para precisar de Deus. E talvez nós, com nossa soberba e arrogância, estejamos enveredando pelo mesmo caminho, pois, aparentemente, os esforços que os outros fazem no caminho da santidade não são necessários para nós, não é preciso ser tão “ferrenho” assim no seguimento da santidade…

Daí o fato curiosíssimo de algumas pessoas sentirem “alergia” só de ouvirem falar de “perfeição” e de “santidade”. Elas acham que está demais esse discurso. “Tem gente demais querendo ser perfeito”, talvez elas pensem.

Mas não, elas estão erradas. O que está em alta, ainda, não são os cristãos que querem ser perfeitos. (Chegaremos lá, se Deus quiser.) Hoje, infelizmente, o que abundam são cristãos medíocres, que não querem de jeito nenhum ser perfeitos. E é a esses que cabe puxar as orelhas, ao invés de desencorajar os católicos praticantes que, sendo imperfeitos, querem pelo menos abandonar o pecado e fazer-se santos por graça de Deus.

Em tempos de mornidão espiritual como os nossos, nos quais a mediocridade parece ter-se transformado em “regra de perfeição”, nunca é demais recordar o ensinamento tradicional da Igreja e dos Santos Padres de que, na vida espiritual, não progredir é regredir, pois é dever de todo cristão multiplicar o talento recebido, fazer brotar a semente plantada por Cristo e esforçar-se, numa palavra, por crescer dia a dia na caridade. Ouçamos o que nos diz a este respeito São Bernardo de Claraval:

Viu Jacó na escada anjos a subir e anjos descer. Mas viu acaso algum deles parado ou sentado? O parar-se no degrau desta frágil escada e na incerteza desta vida mortal não é, de forma alguma, permanecer imóvel no mesmo lugar. Não temos aqui morada permanente, nem possuímos ainda a futura, senão que nos dirigimos a ela. Não há remédio: é necessário ou que subas ou que desças; se tentares parar, é forçoso que caias. Não pode, em absoluto, ser chamado de bom quem não deseja ser melhor, pois quando começas a não querer melhorar, é então que deixas de ser bom (Epist. 91 [PL 182, 224]; cf. também Santo Agostinho, Sermão 169, 18).

“Quando começas a não querer melhorar, é então que deixas de ser bom”. Não nos esqueçamos nunca que “é uma luta a vida do homem sobre a terra” ( 7, 1), e que é só combatendo dia após dia contra nós mesmos, contra nossas más inclinações, contra nossa hipocrisia, sim — porque até que nos tornemos de Deus por inteiro, todos somos uma farsa em alguma medida —, só assim é que poderemos ganhar aquela paz que não nos pode dar o mundo, aquela tranquilidade de consciência que só experimentam os que vivem em Cristo.

Não é verdade, pois, que “o jogo já está ganho” — como deduzem os protestantes, tirando as consequências práticas de sua visão farisaica de justificação, e como muitos católicos fazem crer hoje em dia, desacreditados que estão da santidade. A santa liturgia ensina-nos justamente o contrário, quando canta a Jesus Ressuscitado, na Páscoa: “Tu nobis, victor rex, miserere! — Tu, rei vitorioso, tem piedade de nós!” Ora, se é vencedor o nosso rei, se derrotou o demônio, o pecado e a morte, por que pedir-lhe misericórdia? É que a vitória de Cristo já está garantida, mas a nossa perseverança não. E como só quem perseverar até o fim será salvo (cf. Mt 10, 22)... ninguém está dispensado de vigiar e orar.

Referências

  1. Boulenger, Doutrina Catholica: Manual de Instrucção Religiosa para uso dos Collegios e Catechistas voluntarios, v. 3. Livraria Paulo de Azevedo & Cia., pp. 19-20.

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