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Carta de um pai a seu filho: como rezar e ser um cristão melhor?
Espiritualidade

Carta de um pai a seu filho:
como rezar e ser um cristão melhor?

Carta de um pai a seu filho: como rezar e ser um cristão melhor?

A verdadeira profundidade não está no fundo do oceano, mas no abismo do coração humano, que se torna sombrio com o pecado e o egoísmo, mas que também é capaz de ser preenchido com a graça de Deus.

OnePeterFive.comTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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A carta a seguir foi escrita há alguns anos por um pai a seu filho adolescente, que havia lhe pedido conselhos sobre como rezar e como ser um cristão melhor.


Caro N.,

Há muito tempo pretendo escrever uma carta para você, assim como já lhe escrevi algumas no passado. 

Primeiro, quero elogiá-lo por ser tão fiel à sua oração da manhã. Deus o abençoará abundantemente por essa fidelidade. Como Nosso Senhor diz: “Aquele que é fiel nas coisas pequenas será também fiel nas coisas grandes. E quem é injusto nas coisas pequenas, sê-lo-á também nas grandes” (Lc 16, 10). O caminho pelo qual crescemos na santidade consiste em sermos fiéis nas coisas bem pequenas. Fazer o trabalho escolar, as tarefas domésticas, as atividades diárias, da melhor forma e sem reclamar, é o caminho para a santidade.

Cuidado com a tentação sutil de fazer outras coisas pela manhã que possam reduzir o seu tempo de oração. Certamente, você pode levar alguns minutos para ficar bem acordado; para muitos, tomar uma xícara de café ou de chá é uma condição sine qua non para exercer uma atividade racional, logo após acordar. Mas, o mais rápido possível, faça a coisa mais importante de cada dia: adore, louve, agradeça e suplique ao Senhor. Deus é bom, e sua misericórdia dura para sempre. Ele é a rocha sobre a qual devemos construir toda a nossa vida.

Durante a oração da manhã, reserve um tempo para a meditação silenciosa — a fim de somente ficar recolhido na presença do Senhor. Para isso, a leitura espiritual é crucial, porque empilha a madeira seca e, quem sabe, talvez atice um pouco de fogo. Mas, quando o fogo se acender, devemos nos sentar quietos ao redor dele para nos aquecer. Precisamos de tempo e um pouco de calma para que a semente da Palavra de Deus se enraíze e cresça. Quando você chegar a um ponto de quietude, permaneça lá — não tenha pressa de chegar ao próximo passo.

Se você se distrair, como todos fazem, retorne gentilmente ao Senhor. Peça perdão por ter se distraído e volte a pensar nEle. Se estiver se sentindo muito distraído, pegue então o rosário e reze-o lentamente, ou faça a seguinte oração a Jesus, até que sua mente e coração sejam trazidos de volta à quietude: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, que sou um pecador”.

Senhor, quebrai a dura crosta que envolve o meu coração e a minha mente. Não escondais vosso rosto de mim. Deixai-vos conhecer por mim. Tomai meu coração e fazei-o vosso. Derramai em minh’alma a vossa paz.

Eis aqui algo muito importante: reze a partir de seus desejos, medos, preocupações, confusões, decepções, problemas, alegrias, prazeres. Quando Deus lhe concede essas coisas ou permite que você as experimente, Ele está fornecendo a matéria-prima para sua oração. Tudo o que você traz dentro de si, suas experiências, pensamentos e sentimentos, constituem o contexto no qual Deus quer vir ao seu encontro; e é sobre isso que Ele deseja ouvi-lo. A oração é sobre a nossa vida aqui e agora. Não é uma fuga para outro lugar; é uma forma de encontrar a graça, no momento presente, para ser seu filho.

A postura faz diferença em nossa oração. Sentar-se na posição vertical, sem muito relaxamento, é uma boa postura para meditar; mas também precisamos nos ajoelhar regularmente, e não ter preguiça de dobrar os joelhos, mantendo as costas eretas. Não é fácil fazê-lo — e isso é bom. Precisamos aprender a negar a nós mesmos, e o ato de nos ajoelharmos faz com que sejamos colocados no nosso devido lugar diante do “grande Deus do céu e da terra”, que é nosso Criador e Juiz.

Reserve com antecedência um período de tempo para rezar pela manhã. A princípio, pode ser 15 minutos, e, posteriormente, 30 minutos. Tendo decidido isso, permaneça comprometido com todo o seu tempo de oração, sem abreviar ou fazer de qualquer jeito. Os últimos minutos tendem a ser os mais difíceis e os mais proveitosos. Quando estiver difícil ou “árido”, é então que você mais treina sua vontade no hábito da perseverança e da fidelidade. Começar a rezar requer um ato de vontade, mas perseverar na oração requer um ato de vontade singular e maior. É como a diferença entre começar a correr e continuar correndo mesmo sem fôlego.

Uma vez você me perguntou o que significa “seguir Jesus”. Em poucas palavras, significa o seguinte:

Crer nos seus ensinamentos.
Esperar nas suas promessas.
Amar a Deus e ao próximo.

Seguir a Cristo é apegar-se com fé a suas palavras e deixar que elas iluminem a nossa mente e o nosso coração; confiar em sua misericórdia o tempo todo e saber que Ele nos levará para casa; amá-lo com todo o nosso ser, para que seu amor possa nos conquistar, reerguer nosso ser e depois se espalhar para o mundo por meio de nós. O segredo para ser feliz é amar e ser amado.

A fé é o remédio para o nosso orgulho e para os limites da nossa razão. A fé é um presente de Deus, mas requer, da nossa parte, assentimento e prática. Deus nos dá mãos e pés, mas somos nós que escolhemos usá-los. Assim, Ele também nos dá as virtudes da fé, da esperança e do amor, e a liberdade de exercitá-las. Sempre que as usamos, elas se fortalecem, e passam a determinar, cada vez mais, o curso de nossa vida.

E qual é o propósito de nossas vidas? Servir a Deus conhecendo e amando-o, aperfeiçoando-nos e servindo ao próximo. Primeiro devemos amar a Deus acima de tudo; em seguida, devemos amar a nós mesmos corretamente; por fim, devemos amar ao próximo como a nós mesmos.

Como posso fazer isso hoje? Todo grande plano é realizado em pequenas etapas. Faça um plano, pelo menos um plano aproximado, para o dia, alternando um “Eu devo...” com um “Eu quero...” (as coisas que deve fazer, mesmo que não queira, com as coisas que gostaria de fazer), e o mais importante, ofereça todo seu dia e todo seu ser ao Senhor.

Trabalhe duro, torne-se proativo e responsável. Pegue o touro pelos chifres. Não seja alguém que nunca sabe o que precisa ser feito. Obviamente, se precisar de ajuda, peça. Mas, faça o que fizer, seja proativo e não indiferente, bem disposto e não preguiçoso; e esteja preocupado em sempre melhorar, ao invés de se contentar com o que já é ou possui. Faça os seus trabalhos com calma, e não de qualquer jeito ou às pressas.

O que significa “servir aos outros”? Pense assim: seu trabalho é fazer as outras pessoas felizes ou, no mínimo, menos infelizes. Tudo o que você puder fazer para aliviar seus fardos ou ajudá-las a carregá-los, para atenuar seus problemas e tristezas, para ser amigo, enfim, tudo isso é uma maneira de servir. Pense que você estará servindo ao Senhor neles, como disse Jesus: “Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 40).

O contrário de servir aos outros é egoísmo. Egoísmo significa ensimesmar-se, preocupando-se apenas com os próprios projetos e desejos. Está intimamente ligado à ganância — ou seja, ao espírito de querer muitas coisas, de se cercar delas e se sentir com direito a elas. Usadas na medida certa, as coisas não são um problema; mas podemos perder rapidamente o equilíbrio e a orientação. Podemos nos perder nas coisas e esquecer de onde vieram e para que servem. Se o nosso coração não está onde precisa estar, as coisas não nos deixarão mais satisfeitos, e sim mais solitários. Se o nosso coração está onde deveria estar, não nos importamos tanto com os bens — e quando os tivermos, saberemos como usá-los e como viver sem eles. Precisamos evitar o perigo de viver pelas coisas, e não por Deus e pelas pessoas que Ele quer que amemos.

A realidade mais fundamental não são as partículas subatômicas, mas o amor de Deus, que sustenta todas as coisas no ser — que me sustenta no ser, a fim de que eu seja amado por Ele e possa amá-lo de volta. A realidade mais suprema não é o cosmos ou seus milhões de galáxias incontáveis, mas a sabedoria e a bondade de Deus, que ordenam sutilmente todas as coisas e manifestam sua glória a nós, que somos seus filhos amados. A verdadeira profundidade não está no fundo do oceano, mas no abismo do coração humano, que se torna sombrio com o pecado e o egoísmo, mas que também é capaz de ser preenchido com a graça de Deus. O que é mais alto não são as montanhas elevadas, mas a misericórdia de Deus que nos rodeia e nos cura.

Deus todo-poderoso e eterno,
Vós sois o autor de todas as coisas —
sem Vós nada existiria.
Vós me chamastes a existir,
e me sustentais no ser, a todo momento,
inclusive neste exato momento, em que eu vos invoco com fé.
Vós sois a verdade que dá sentido a tudo,
a bondade que torna qualquer coisa amável,
a beleza que ilumina a face da terra.
Dai-me o conhecimento de vossa verdade e o zelo em buscá-la.
Abri meus olhos para a vossa bondade e
fazei-me bom, como Vós sois bom.

Tomai meu coração com sua beleza
e não permitais que eu vos abandone jamais.
Amém.

Com todo o meu amor,

Papai.

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Por que um curso sobre “Os Quatro Temperamentos”?
Cursos

Por que um curso sobre
“Os Quatro Temperamentos”?

Por que um curso sobre “Os Quatro Temperamentos”?

Deus quer que a semente da sua graça germine no terreno do nosso coração. Mas e nós? Que pedras e espinhos precisamos arrancar para que a árvore da santidade crie raízes, cresça e dê os seus frutos?

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 2 minutos
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Com tantas aulas, episódios e textos à disposição, e com temas os mais variados, poderia talvez ficar em alguns a interrogação sobre o quê, afinal, é o site do Padre Paulo Ricardo, e a que fim se presta esse apostolado.

Se ainda resta dúvida, tratemos de eliminá-la de uma vez por todas: nossa preocupação é eminentemente espiritual, é levar os que nos visitam a buscar o unum necessarium de suas vidas, que é Deus. Para isto nossos cursos exclusivos, para isto tantas transmissões ao vivo, para isto homilias todos os dias, para isto as matérias em nosso blog: fazer as pessoas se encontrarem com Nosso Senhor Jesus Cristo e crescerem na intimidade com Ele. Nada menos.

É exatamente nesse quadro que se insere, pois, o mais novo curso que Padre Paulo Ricardo está preparando para os nossos alunos, sobre “Os Quatro Temperamentos”. 

É possível que você já tenha recebido algo a esse respeito nas redes sociais, mas expliquemos melhor aqui, e com uma frase de Santo Tomás de Aquino, a razão de ser desse conteúdo inédito: “Gratia non tollit naturam, sed perficitA graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa”.

Ou seja, o padre não virou psicólogo, nem coach, nem nada do gênero… O que acontece é que o processo da nossa santificação, embora seja sobrenatural e de iniciativa realmente divina, não se dá contra ou apesar de nós. A obra que Deus realiza nas almas acontece justamente a partir do barro de que somos feitos! Nas palavras de Santo Agostinho, “o Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. 

Dizendo ainda de outro modo, a semente da graça divina precisa germinar no terreno do nosso coração, mas, quanto a nós, quais são as pedras e os espinhos que precisamos arrancar, a fim de que a árvore da santidade crie raízes, cresça e dê os seus frutos? 

É justamente a essa pergunta que o conhecimento do seu temperamento pode proporcionar uma resposta. Se por um lado não se deve superestimar a sua importância, como se fôssemos “animais” e estivéssemos confinados aos limites do que a natureza nos impôs, nem por isso os temperamentos devem ser subestimados, como se não passassem de uma “teoria ultrapassada”, sem nada a acrescentar à nossa vida de virtudes e de busca de Deus.

Quer saber melhor, então, como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã? Inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito!

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“Eu posso falar com papai?”
Sociedade

“Eu posso falar com papai?”

“Eu posso falar com papai?”

Os nossos filhos merecem mais e melhor. Eles não precisam de super-heróis; eles só precisam dos heróis silenciosos, discretos e ordinários de todo dia que atendam ao nome de “papai”.

Doug MainwaringTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 11 minutos
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Quando eu comecei a dar meus primeiros passos “fora do armário” [1] em meados dos anos 1990, um cara chamado Tex ofereceu-me um pequeno apanhado sobre sua vida entre um e outro drinque, num bar da cidade. A conversa teve um giro inesperado: ele explicou que o seu atual “parceiro” tinha-se mudado do outro lado do país, deixando para trás esposa e filhos. Tex atendia de vez em quando ao telefone de casa (isto foi antes dos celulares) e ouvia do outro lado uma pequenina voz a perguntar-lhe timidamente: “Eu posso falar com papai?” Era a filha de oito anos do seu “parceiro”, ligando de algum lugar do outro lado dos Estados Unidos. Tex disse ter ficado profundamente chocado ao se dar conta de que a filha de seu “parceiro” tinha de pedir permissão a um estranho para poder falar com o próprio pai.

Quando esta pequena menina me vem à cabeça, meus pensamentos acabam se dirigindo às várias pessoas nascidas de doadores de esperma, muitas das quais se fazem dia após dia a mesma pergunta em seus corações: “Eu posso falar com papai?”

Quando comecei a falar publicamente sobre os perigos do “casamento” homossexual para as crianças, achei difícil encontrar defensores do casamento “neutro” intelectualmente honestos o bastante para um debate ponderado. Foi então que me caiu a ficha: ao menos metade das pessoas que queriam rotular-me disto ou daquilo eram fruto de matrimônios fracassados.

Lá pelos idos de 2013, durante minha participação num painel de debates, um rapaz acusou-me de ser injusto com gays, lésbicas e seus filhos. Aproveitei a oportunidade e perguntei-lhe na lata:

— Os seus pais se divorciaram quando você ainda era criança?

Ele ficou um pouco surpreso com uma pergunta tão pessoal:

— Sim — respondeu, já sem ares de arrogante.

— E você vive com sua mãe? — perguntei.

— Sim — disse ele.

— Você vê o seu pai com frequência?

— Não — disse —, eu quase nunca o vejo.

— Você sente falta dele? Gostaria de estar mais vezes com ele? 

— Claro, com certeza — respondeu, um pouco melancólico.

— O divórcio dos seus pais aumentou a sua felicidade ou a sua infelicidade? — perguntei.

— Minha infelicidade.

— Então, os seus pais acabaram com o seu lar e criaram novas estruturas que punham em primeiro lugar as necessidades deles, não as suas. Além disso, eram estruturas que promoviam a sua contínua infelicidade. Você aprendeu a conviver com isto porque, como uma simples criança, não tinha controle algum sobre as ações de seus pais; no entanto, essas novas estruturas não foram construídas tendo em vista as suas necessidades.

— Não, na verdade. Eu não tinha direito de voto nem nada; eu era apenas uma criança.

— Justamente — concluí. — Logo, que diferença há para os filhos de “casais” homossexuais, aos quais se negam um pai ou uma mãe? Você pensa realmente que ter “duas mães” ou “dois pais” é o mesmo que ter por perto uma mãe e um pai que o amam e cuidam de você? Sério mesmo? Ter uma mãe a mais em casa o deixaria verdadeiramente satisfeito, ou você ainda teria, lá dentro do coração, aquela pergunta por seu pai à procura de resposta? 

— Entendo. 

Então, por que você quer condenar outras crianças a não terem pai? Ou a não terem mãe?

Ele entendeu o meu ponto: não gostou nada, é verdade; mas o entendeu — e voltou para o seu lugar. Não faço ideia se ele mudou opinião; mas ele ao menos teve a chance de ouvir um ponto de vista diferente, e um que fosse razoável. 

Enquanto ia embora, pensava comigo mesmo: “Para ser intelectualmente honesto, não posso falar em público contra os perigos do casamento ‘neutro’ sem falar, ao mesmo tempo, contra o mal objetivo para as crianças que é o divórcio”. O divórcio é um perigo muitíssimo maior e muito mais generalizado para as crianças do que a possibilidade de ser criado sem mãe ou sem pai por um “casal” de gays ou lésbicas. Eu então suspirei: havia ainda muito o que consertar e pôr em ordem.

O pai pródigo

Alguns anos após o nosso divórcio, tornou-se comum que a minha ex-mulher me chamasse à sua casa devido a alguma birra do nosso filho. Ao chegar lá, encontrava um verdadeiro tumulto. Geralmente, ele se irritava por alguma coisa, e aquilo despertava um acesso de raiva totalmente desproporcional ao problema. Ele gritava e chorava e esperneava, então se trancava no quarto, sem deixar ninguém mais entrar. Era horrível assistir à cena. Felizmente, ele acabava se acalmando depois de um tempo e voltava ao normal.

A raiva do meu filho, por sua vez, gerava novas discussões com a minha ex-mulher. O que devíamos fazer a respeito do comportamento dele? Seria preciso medicá-lo? Ou o melhor seria dar-lhe uma surra? Ou quem sabe procurar um psicólogo?

Depois de o episódio se repetir algumas vezes, pareceu-me claro como água de que o meu filho estava precisando. Ele não tinha apenas um problema comportamental; ele precisava, isso sim, de uma única coisa: de que os seus pais estivessem juntos de novo e se amassem um ao outro. O “fatiamento” da nossa família havia gerado uma carga insuportável de estresse para aquela frágil alma de apenas quatro anos. E os seus pais eram os grandes responsáveis por isso, ainda que, para nós, o problema parecesse ser todo dele.

O nosso menino não tinha culpa alguma; era eu, com certeza, que a tinha.

Foram precisos alguns anos mais para que a minha ex-mulher e eu tomássemos jeito. Nesse meio tempo, os nossos filhos vieram morar comigo. Não era bem uma solução; era somente um paliativo para resolver aos poucos uma situação desconfortável. Embora isso tenha resolvido alguns problemas, também é verdade que gerou outros e permaneceu, no fim das contas, uma resposta insatisfatória.

Para justificar o divórcio e a existência de “duas famílias”, os adultos estávamos impondo uma charada, exigindo que todos à nossa volta (sobretudo os nossos filhos) fingissem que os nossos objetivos egoístas e a nossa incapacidade de “ajeitar as coisas” não eram nada de mais. No fundo, não tínhamos feito senão descarregar nossos problemas e disfunções sobre os nossos filhos. Estávamos aliviando o nosso próprio estresse pondo-o sobre os ombros das nossas crianças.

Felizmente, uma dúzia de anos mais tarde, nós finalmente deixamos de pretextos e voltamos a ser marido e mulher, casados e pais de seus filhos. Muitas feridas se têm cicatrizado desde então, algumas das quais foram uma surpresa até mesmo para nós. E jamais saberemos de que outros problemas em potencial os nossos filhos foram preservados.

Uma lição de Hollywood

Nunca antes na história as crianças tinham sido geradas com a intenção explícita de serem privadas ou de uma mãe ou de um pai. E no entanto as crianças que vêm a este mundo para satisfazer os desejos de “casais” de gays ou lésbicas nascem exatamente com essa finalidade. Elas vivem conscientes de que um de seus pais biológicos será para sempre um enigma, um fantasma.

Até pouco tempo atrás, viam-se as crianças como um puro dom de Deus; agora, porém, as novas leis que “redefinem” o matrimônio estão produzindo o triste resultado de crianças igualmente “indefinidas”, reduzidas a objetos do capricho de adultos. Por outro lado, as famílias destas crianças consistem, não já em seus antepassados, mas em um pequeno grupo de barrigas de aluguel, doadores e advogados que fazem as vezes do sexo ausente em “casamentos sem gênero”.

Dennis Quaid e Linsay Lohan em “Operação Cupido”.

Talvez soe estranho, mas um filme da Disney de 1998, Operação Cupido (refilmagem do clássico de 1961 estrelado por Hayley Mills), pode nos ensinar muito sobre o que acontece com crianças criadas por “dois pais” gays ou “duas mães” lésbicas.

No filme, duas meninas praticamente idênticas, Hallie Parke e Annie James, se cruzam por acaso num acampamento de verão. Elas logo descobrem ser irmãs gêmeas separadas na maternidade, e elaboram um plano para trocar de papéis e assumir uma o lugar da outra. Elas têm tanta vontade de conhecer seus pais que estão dispostas a mudar de aparência, o corte de cabelo, seu maneirismo, tom de voz e sotaque, e até mesmo a ir para outro país, simplesmente para passar alguns dias “clandestinos” com a mãe ou o pai que nunca conheceram.

Hallie vive com o pai na Califórnia, em uma linda mansão de encosta, com piscina e cavalariça. Ela tem um belo pai, que é também um excelente vitivinicultor. Hallie, em resumo, tem tudo; mas ela ainda anseia pela mãe que lhe foi negada. Enquanto isso, Annie vive em uma mansão num chique subúrbio londrino. A sua bela mãe é uma conhecida designer de moda. Elas têm vários mordomos e um chofer exclusivo para o seu carro de luxo; mas, ainda assim, Annie anseia pelo pai que lhe foi negado.

Ambas as meninas vivem um invejável conto de fadas. Mas, para quem assiste ao filme (e a maioria dos espectadores desfruta de muito menos bem-estar e segurança do que elas), o sentimento pelas duas é de tristeza, porque a cada uma falta ou o pai ou a mãe. Esta ironia é o argumento do filme.

É interessante também que a tia de Hallie vive na casa da sobrinha, servindo-lhe como uma espécie de “mãe substituta”, ao passo que o avô materno de Annie vive com a filha e a neta, fazendo as vezes da figura paterna para a menina. Muito embora esses maravilhosos e otimistas pais solteiros tenham por perto algum parente carinhoso do outro sexo, existe uma profunda lacuna nos corações de Annie e Hallie

No filme, os adultos são responsáveis por dividir as crianças. No caso dos filhos de casais “sem gênero”, os adultos são responsáveis por torná-las carentes, com uma carência que estará para sempre dentro dos seus corações. Crianças “fabricadas sob medida” para casais gays têm de enfrentar uma vida empobrecida desde o momento em que nascem, na medida em que dois homens as arrancam da sua “barriga de aluguel”, negando-lhes a única oportunidade que terão na vida de sentir o que é um abraço de mãe. Essa oportunidade perdida é a experiência mais próxima que terão estas crianças de tocar alguém que, de certa maneira, poderiam chamar de mãe.

À medida que forem crescendo, o desejo delas pela mamãe será ignorado, silenciado, desprezado. Porque, no fim das contas, o papai pensa não ter necessidade alguma de uma mulher em casa. E, se isso é assim, por que a teriam o seu filho ou a sua filha? O clamor de um filho pela mamãe, dessa forma, acaba se tornando um insulto para um pai que não quer se casar ou para um “casal” gay. Para a criança, o melhor parecerá sofrer em silêncio, a fim de não chatear o pai ou “os pais” com esses assunto “tabu”.

Todos nós temos de refletir com muito cuidado sobre as consequências, nem sempre intencionais ou deliberadas, que implica (ou que são propositalmente escondidas) a aceitação dos “matrimônios” homossexuais e o desinteresse persistente da nossa sociedade pelo divórcio e as famílias monoparentais. Nós, adultos, damos um grande bocejo quando estes temas entram em pauta. Mas as crianças, essas, sim, têm uma reação diferente: elas choram de noite até pegarem no sono.

Quando o que está em jogo é a paternidade, precisamos ser homens

Os homens divorciados, ou os homens que se “uniram” a outros homens para criar os próprios filhos, ou os que são doadores anônimos de esperma, todos estes seguem as pegadas de Esaú, com a diferença de que não é nosso o direito de primogenitura que estamos vendendo por um prato de lentilhas: é às nossas crianças que ele pertence. E nós, insensíveis, vendemos a preço de nada este que é o maior tesouro delas, o poder ser criado por seus pais biológicos, em uma família natural intacta.

Este mundo não precisa que os homens tomem mesquinhamente o que querem, sobretudo se o preço disso é o bem-estar dos nossos filhos. Espera-se que os homens façam justamente o contrário: os homens têm o dever de proteger os filhos da infelicidade, da solidão e de outros perigos. Homens de verdade não fazem de seus filhos as vítimas de seus próprios interesses. Homens de verdade protegem, cuidam, suportando o estresse e as dificuldades, em vez de as transferirem para os próprios filhos. Homens de verdade enfrentam os problemas cara a cara.

Quando o que está em jogo é a paternidade, a nossa cultura precisa que os homens sejam homens. Para alguns, isso pode exigir o abandono de alguns sonhos e dos nossos próprios desejos. No entanto, a nossa cultura está cada vez mais dominada por homens autocentrados e covardes. C. S. Lewis diria que a nossa é uma cultura de homens despeitados.

O Papa S. João Paulo II disse certa feita: “O pecado original, assim, intenta abolir a paternidade, destruindo-lhe os raios que permeiam o mundo criado, pondo em dúvida a verdade sobre Deus, que é amor”. Nestes tempos, o casamento, a família e inclusive o sexo biológico são subvertidos de todos os modos possíveis, e a paternidade, de modo particular, é objeto de ataques incansáveis e violentos. Cabe aos homens lutarmos corajosamente contra eles.

Os nossos filhos merecem mais e melhor. Eles não precisam de super-heróis; eles só precisam dos heróis silenciosos, discretos e ordinários de todo dia que atendam ao nome de “papai”— não pronunciado do outro lado do telefone, mas sussurrado ao nosso ouvido por quem estreitamos carinhosamente ao peito.

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A urgente atualidade de uma carta do futuro Papa João Paulo II
Doutrina

A urgente atualidade de
uma carta do futuro Papa João Paulo II

A urgente atualidade de uma carta do futuro Papa João Paulo II

“É impossível pensar que a moralidade conjugal ensinada na Humanae Vitae possa ser revogada, isto é, considerada falível”: eis o que escrevia ao Papa Paulo VI, em 1969, o Cardeal Karol Wojtyła.

David G. Bonagura Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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No cinquentenário da encíclica Humanae Vitae, ano passado, veio à luz pela primeira vez uma carta particular do então Cardeal Karol Wojtyła ao Papa Paulo VI, na qual o arcebispo polonês agradece ao pontífice pela encíclica. Na carta, Wojtyła faz sugestões concretas para uma instrução pastoral “absolutamente necessária” do Vaticano com o fim de superar as “dúvidas existentes” quanto à proibição do controle de natalidade, à natureza da vida conjugal e à autoridade dos ensinamentos papais.

Além de sua fascinante e franca explicação das principais controvérsias em torno da encíclica, esta carta — na verdade, um ensaio em tamanho e estilo — nos permite vislumbrar o que, mais tarde, seriam os ensinamentos do magistério do Papa São João Paulo II.

Ao escrever em 1969, poucos meses após a publicação da Humanae Vitae, o Cardeal Wojtyła viu claramente que as críticas ao conteúdo e ao estilo da encíclica feriam profundamente a missão da Igreja: “Desafiar a doutrina moral da Igreja em um campo tão importante como o tratado na encíclica pode ser o pontapé inicial de um processo, muito mais amplo, de pôr em xeque outros elementos da fé e da vida cristã”. 

Hoje, décadas mais tarde, podemos constatar a verdade inegável de tal afirmação.

Primeiro, com relação à fé e à vida cristã em geral, Wojtyła ressaltou o poder da Igreja de ensinar com autoridade sobre questões de moral. Isso porque, logo após a publicação de Humanae Vitae, teólogos dissidentes foram a programas de rádio e às páginas dos jornais a fim de minar a autoridade da Igreja para ensinar de forma vinculante em questões morais.

Vinte e cinco anos depois, já eleito Papa, João Paulo II aprovou a publicação da instrução Donum Veritatis, sobre a vocação eclesial do teólogo, que buscava reorientar a teologia como vocação a serviço da Igreja, e não de ideologias mundanas.

De forma mais específica, Wojtyła mostrou-se resoluto, em sua carta de 1969, ao apresentar a Humanae Vitae como expressão da autoridade da Igreja em sua missão de ensinar: “A encíclica Humanae Vitae não é um documento solene que expressa uma doutrina ex cathedra; portanto, não contém nenhuma definição dogmática. No entanto, por ser um documento do ensino comum do Papa, tem caráter infalível e irrevogável. É impossível pensar que a moralidade conjugal ensinada na Humanae Vitae possa ser revogada, isto é, considerada falível”.

Essa ênfase na infalibilidade do Magistério ordinário — os ensinamentos constantes e universais do Papa e dos bispos unidos a ele — tornar-se-ia a abordagem preferida do Papa João Paulo II para tratar as questões doutrinárias mais sensíveis do seu pontificado.

Em vez de emitir definições solenes, João Paulo II apelou ao Magistério ordinário da Igreja para ensinar de forma infalível, por exemplo, sobre a imoralidade do aborto, na Evangelium Vitae (1995), e acerca da restrição do sacerdócio somente aos homens, na Ordinatio Sacerdotalis (1994). Usando este meio para ensinar com autoridade, João Paulo II mostrou que esses não eram apenas ensinamentos seus, mas da Igreja universal — mantidos sempre, em todos os lugares e por todos os fiéis.

Uma segunda grande preocupação enfatizada na carta de Wojtyła é “a consciência e sua relação com a lei moral”, uma vez que, após a publicação da Humanae Vitae, teólogos e pastores passaram a ensinar a muitos casais que era lícito usar o controle artificial da natalidade se suas consciências o considerassem aceitável.

Wojtyła condenou fortemente esse abuso da consciência, que não é “uma norma superior à lei moral”. E acrescentou: “Atribuir à consciência uma autonomia que lhe daria não apenas um papel normativo, mas também legislativo, seria contrário aos fundamentos tanto da lei natural quanto da lei divina. Essa autonomia seria equivalente a aceitar o subjetivismo e o relativismo nas questões morais”.

Cardeal Karol Wojtyla.

Essa compreensão distorcida da consciência tornou-se, desde então, moeda corrente e comum. Como Papa, o próprio João Paulo II assumiu a responsabilidade de levar a cabo o que havia sugerido a Paulo VI, e publicou, em 1993, sua encíclica sobre teologia moral, a Veritatis Splendor, que, sem dúvida, é um dos escritos mais importantes do seu pontificado. 

Nela João Paulo II mantém sua crítica aos que atribuem à consciência “a prerrogativa de determinar, de forma independente, os critérios do bem e do mal, para agir em função deles”. No cerne da encíclica, expôs a reta compreensão da consciência, que deve estar fundamentada na liberdade, na verdade e na lei natural (assuntos que ele já mencionara, mesmo que brevemente, na carta de 1969).

Em terceiro lugar, pode-se dizer que a carta de Wojtyła exortou Paulo VI a “expor a doutrina do matrimônio [...] com o fim de apresentar uma perspectiva correta e clara do tema do amor conjugal”. De modo particular, ele aludia à necessidade de “insistir no fato de que o casamento é uma vocação”.

Nesse contexto, o então cardeal descreveu o papel da fecundidade, da continência e do sofrimento no casamento. Ele bem sabia que assuntos tão essenciais não poderiam ser omitidos ou vistos como inadequados: “Portanto, cabe à mestra da moral e do ensino, que é a Igreja, compreender e destacar os limites que, na esfera dos valores sexuais, fazem a pessoa passar do ato dignamente vivido, para a atitude de usar e abusar do outro”.

Como Papa, João Paulo II não perdeu tempo em assumir essa postura: um ano após ser eleito, ele deu início a uma série de catequeses, hoje conhecidas como “Teologia do Corpo”, nas quais articulava o significado da sexualidade humana à luz da nossa dignidade como pessoas humanas, criadas à imagem de Deus. Além disso, em 1981, apresentou, na Familiaris Consortio, sua visão de como deve ser vivida a vocação ao matrimônio.

A carta de Wojtyła, por si só, é excelente e permanece muito relevante para nós, mesmo já passados cinquenta anos. Nela, enfatiza-se a necessidade urgente de agirmos em relação a essas questões — necessidade que, nos dias de hoje, permanece urgente. Como Papa, Wojtyła não chegou a abordar de uma só vez todas essas questões; mas, no decorrer do seu pontificado, contemplou-as, com profundidade e clareza, em vários ensinamentos.

A carta, enfim, deixa claro um fato crucial: os principais ensinamentos do pontificado de São João Paulo II foram forjados em resposta à crise da verdade, que encontrou sua expressão mais aguda na Revolução Sexual.

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