CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
“Porque abandonastes a Deus, também Ele vos abandonará”
Sociedade

“Porque
abandonastes a Deus,
também Ele vos abandonará”

“Porque abandonastes a Deus, também Ele vos abandonará”

Há uma causa central e comum para a decadência das culturas e das civilizações: o abandono das leis de Deus. Afastando-se da verdade que por si mesma liberta, os homens se voltam para mentiras e pecados, que os escravizam e enfraquecem. É o começo do fim.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Julho de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
imprimir

No século IV, S. Agostinho lamentou o declínio de Roma e da cultura romana. Como qualquer bom cidadão, ele amava seu país e sua cultura. Mas as coisas estavam caindo aos pedaços, a decadência estava por toda parte. Ele lutou para entender e aceitá-lo. Triste, ele escreveu A Cidade de Deus, que contém suas próprias observações e explicações sobre uma época muito parecida com a nossa, em que uma civilização estava em colapso.

Existe um ciclo em que impérios, nações, culturas e civilizações passam. Eles se erguem, às vezes heroicamente em uma grande batalha, e prosperam; mas depois veem a decadência e a desordem, à medida que sua grandeza se transforma em ganância e, depois, em preguiça. Sua força diminui e um inimigo os domina com facilidade, ou simplesmente os substitui. Esse ciclo é inevitável? Não, mas há uma causa central e comum de declínio: o abandono das leis de Deus, conhecidas pela Lei natural ou pela verdade revelada. Afastando-se da verdade que por si mesma liberta, eles se voltam para mentiras e pecados, que os escravizam e enfraquecem.

Muito antes de Agostinho ou de nós, houve desastres que aconteceram com o povo de Deus. Uma história do Segundo Livro das Crônicas fala ao nosso tempo e faz uma pergunta central. Vejamos primeiro o texto e depois o apliquemos:

Depois da morte de Joiada, os chefes de Judá [...] abandonaram o Templo do Senhor, o Deus de seus pais e se puseram a adorar as imagens de asserá e outros ídolos. Tamanhas faltas atraíram a ira divina contra Judá e Jerusalém. Enviou-lhes o Senhor profetas para os converter ao Senhor. Porém, pregaram em vão e não foram ouvidos. Então, o espírito de Deus apossou-se de Zacarias, filho do sacerdote Joiada, o qual se apresentou diante do povo: “Eis — disse ele — o que diz o Senhor: Por que transgredis as ordens do Senhor? Nada conseguireis. Porque abandonastes o Senhor, por isso ele também vos abandonará”.

Mas eles se revoltaram contra ele e o apedrejaram por ordem do rei, no átrio do Templo do Senhor.

Ao fim de um ano, o exército dos sírios atacou Joás. Invadiu Judá e Jerusalém [...]. Embora os sírios tivessem vindo em pequeno número, o Senhor lhes entregou um enorme exército, porque Judá tinha abandonado o Senhor, o Deus de seus pais (2Cr 24, 17–24).

Os contornos da história são claros o suficiente. Israel abandonou o Senhor e prostituiu-se adorando o deus dos cananeus. Isso causou muitos males, como a discórdia e o declínio econômico. O pecado também enfraqueceu os laços familiares, a unidade nacional e a força de caráter. Por isso, mesmo um pequeno grupo de arameus os derrotou facilmente.

O profeta Zacarias de Michelangelo.

Em um momento crítico, o profeta Zacarias fez uma pergunta central: “Por que transgredis as ordens do Senhor? Nada conseguireis. Porque abandonastes o Senhor, por isso Ele também vos abandonará” (2Cr 24, 20). Em outras palavras: por que você está sendo tão tolo a ponto de abandonar o Senhor e rejeitar suas bênçãos? Invoque o Senhor que você abandonou! Ele é a única fonte de verdadeira bênção para você!

Mas o povo e os príncipes consideraram odiosas as palavras do profeta e o apedrejaram até a morte no pórtico do Templo. Esse assassinato foi tão repugnante que Jesus, mais tarde, o apontaria como particularmente mau, juntando-lhe uma advertência muito grave para o povo de seu tempo: “Caia sobre vós todos o sangue inocente derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o Templo e o altar. Em verdade vos digo: todos esses crimes pesam sobre esta raça” (Mt 23, 35–36).

E esse grande castigo realmente aconteceu. Em 70 d.C., Jerusalém e o Templo foram destruídos pelos romanos. Embora a cidade tenha sido reconstruída, desde então o Templo, a civilização e a cultura que ela representa nunca foram reconstruídos. Uma era terminou em abril do ano 70. A pergunta assustadora de Zacarias ficou sem resposta para eles: “Por que transgredis as ordens do Senhor?” A recusa deles em dar uma resposta e fazer as pazes tornou real a grande advertência: porque abandonastes o Senhor, Ele também vos abandonou. Tanto Zacarias quanto Jesus advertiram épocas diferentes, mas a advertência chega agora a nós que, transgredindo coletivamente a Lei de Deus, derramamos sangue inocente e o abandonamos por falta de fé e, pior ainda, por indiferentismo.

Sim, em nosso próprio tempo, somos indiferentes a Deus. Um grande número de secularistas militantes abandonou a adoração ao verdadeiro Deus e, agora, presta culto ao deus desta época, que cegou a mente dos incrédulos para que eles não possam ver a luz do Evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus (cf. 2Cor 4, 4). Por odiarem a verdade, eles a chamam de odiosa; por preferirem a escuridão, a luz da verdade os horroriza. Deus e a santa fé que Ele inspirou são detestáveis para eles; por isso, eles exigem a remoção de todas as imagens religiosas, sua palavra e influência, dos lugares públicos. Muitos outros também, ainda que menos militantes, não têm lugar para Deus ou para a fé em suas vidas. Deus é simplesmente irrelevante para eles, e a fé, da qual Ele é autor, está desatualizada e fora de sintonia com as falsas “virtudes” do nosso tempo.

E o que tudo isso nos deu? Indiscutivelmente, o colapso de uma outrora grande civilização. Nossos pilares estão abalados e as coisas estão decaindo rapidamente.

O primeiro pilar de qualquer civilização é uma família forte, na qual nascem os vínculos e as lealdades duradouras. Nossa unidade básica não é o indivíduo, é a família. O que o átomo (com seus prótons, nêutrons e elétrons) é para o mundo físico, a família (com pai, mãe e filhos) é para a civilização. Divida o átomo, e tremendas forças destrutivas serão liberadas, que, se não forem controladas, porão tudo a perder. Divida a família, como fizemos, e tremendas forças destrutivas se espalharão; se não forem controladas, tudo desvanecerá e serão criadas situações absolutamente perigosas. 

Não é apenas a taxa de divórcio que aumentou sete vezes no século XX. Também a coabitação, a má conduta sexual, a maternidade solteira e, agora, as uniões entre pessoas do mesmo sexo, que minaram a definição bíblica de casamento, entre um homem e uma mulher, até que a morte os separe, dando como frutos os filhos. Como sempre, são as crianças que pagam o preço pelo mau comportamento dos adultos. Quando os pais jogam a cruz no chão, são os filhos que devem retomá-la. Esse caos familiar raramente produz crescimento. A maioria das crianças que emergem do caldeirão da família desfeita é enfraquecida, traumatizada, carente do que realmente contribui para uma boa formação humana.

Devido à má conduta sexual, muitas crianças nunca veem a luz do dia. 85% dos abortos são realizados em mulheres solteiras. Portanto, a fornicação leva ao aborto, que mata mais de 60 milhões dos nossos próprios filhos desde 1973 nos EUA. Esse sangue clama por vingança, como Jesus recordou acima. Nós iremos pagar e já estamos pagando pelo que fizemos ao colapsar nossas famílias e matar nossos próprios filhos. É o assassinato de uma civilização.

Outro pilar de qualquer civilização é uma cultura forte. E no cerne de qualquer cultura há um “culto” ou devoção a Deus. Atualmente, estamos envolvidos em um experimento insensato para ver se podemos ter uma cultura sem um culto comum. Não podemos. Enquanto a América teve inúmeras diferenças sectárias ao longo dos séculos, ainda havia uma visão de mundo bíblica, judaico-cristã, básica e comum. A visão moral das Escrituras, apesar de não ser vivida perfeitamente, era uma referência fundamental. Normas sobre casamento, sexualidade, direitos humanos e justiça foram traçadas a partir dessa visão comum. Mesmo com relação à escravidão, embora os pais fundadores não pudessem acabar com ela, o movimento abolicionista enraizado nas igrejas e denominações lhe deu fim, e o movimento dos direitos civis, também enraizado nas igrejas, lutou para acabar com a segregação e a discriminação.

Mas, nas últimas décadas, optamos cada vez mais por abandonar essa visão comum em favor do subjetivismo e de uma diversidade insípida, divisiva e rebelde que não pode nos unir, em vez da diversidade frutífera, unida por uma visão moral básica e enriquecida por forças e tradições diversas. Deus e tradições religiosas, observâncias e normas são rejeitadas com crescente hostilidade. A fé é marginalizada, e até, às vezes, legalmente excluída do debate público.

Isso levou, por sua vez, a um terceiro e significativo problema: a ascensão do subjetivismo e do relativismo. No subjetivismo, o locus (ou lugar) da verdade se move do objeto para o sujeito. O que uma coisa realmente é ou o que está claramente acontecendo em uma situação é suprimido em favor da opinião subjetiva sobre o que é uma coisa ou o que está acontecendo. Com efeito, passamos de uma fonte comum e externa de verdade para uma fonte cada vez mais subjetiva de “verdade”. É rotina ouvir um argumento bem fundamentado ser descartado por alguém dizendo: “Isso pode ser verdade para você, mas não é verdade para mim”. O que, é claro, parte de uma compreensão equivocada do que é a verdade. A verdade não é opinião; é antes uma declaração, baseada em evidências e testemunhos, do que está de acordo com a realidade. O que essa mudança do objeto para o sujeito significa é que não se pode mais discutir racionalmente. O apelo a um conjunto de ideias em comum, extraídas de uma visão de mundo bíblica e da própria realidade, já proporcionou uma base para pensar, discutir e decidir. Isso, uma vez removido, implica em que, num debate ou discussão, prevalece quem tem mais poder, dinheiro, influência, ou simplesmente quem é mais “exótico” e crítico.

Por essas e outras razões, não pode haver uma cultura sem um culto comum: alguém (Deus) ou algo (um corpo de crenças) acima de todos nós, a quem ou a que devemos nos conformar e no qual devemos basear nosso raciocínio. O que resta é um vácuo e uma luta pelo poder entre indivíduos ou grupos que não têm uma base comum para raciocinar. E assim é travada uma batalha, a tirania do relativismo; uma cultura entra em colapso e, com ela, toda uma civilização.

Dito isso, voltemos à pergunta e ao aviso.

Pergunta: “Por que transgredis as ordens do Senhor? Nada conseguireis.” 

Aviso: “Porque abandonastes o Senhor, por isso ele também vos abandonará.”

Existe um caminho de volta? Sim, mas apenas de uma maneira: “Se meu povo, sobre o qual foi invocado o meu nome, se humilhar, se procurar minha face para orar, se renunciar ao seu mau procedimento, escutarei do alto do céu e sanarei sua terra” (2Cr 7, 14).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

São José, o primeiro dos santos
Santos & Mártires

São José, o primeiro dos santos

São José, o primeiro dos santos

A vocação de José, no silêncio e no escondimento, supera a dos grandes Apóstolos, porque toca de mais perto o mistério da Encarnação redentora. Logo, não estará São José, depois de Maria, o mais perto possível do próprio Autor da graça?

Pe. Reginald Garrigou-LagrangeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Julho de 2020Tempo de leitura: 21 minutos
imprimir

A doutrina que afirma que S. José, mais do que qualquer outro santo, foi e sempre será o mais próximo de Nosso Senhor parece ser, cada vez mais, doutrina comum na Igreja. De fato, não duvida a nossa santa Madre Igreja em afirmar que o humilde carpinteiro superou em graça e bem-aventurança os Patriarcas; e, com base em diversos testemunhos, consta com certeza que ele ultrapassou em santidade o maior dos profetas, Moisés, assim como S. João Batista, os Apóstolos, os santos Pedro e João juntos e, por fim, S. Paulo. Elevou-se em santidade, portanto, acima dos grandes mártires e Doutores da Igreja.

A doutrina assim formulada vem de Gerson [1] e S. Bernardino de Sena [2]; mas, a partir do séc. XVI, se tornou cada vez mais comum: admitiram-na, com efeito, S. Teresa, S. Francisco de Sales, Suárez [3], S. Afonso de Ligório e muitos outros [4]. Ultimamente, escreveu S. S. Leão XIII na Encíclica “Quamquam pluries”: 

Com certeza, a dignidade de Mãe de Deus é tão sublime que não se pode encontrar nada de mais excelso. Mas é também verdade que, como S. José está ligado a Maria pelo vínculo conjugal, ninguém, mais do que ele, se aproximou daquela dignidade excelsa que situa a Mãe de Deus acima de todas as criaturas. Com efeito, o matrimônio, entre todas as sociedades e uniões, forma a mais íntima, da qual deriva naturalmente uma participação recíproca de bens entre os cônjuges. Por isso, se Deus escolheu José como esposo da Virgem, com isso não somente o tornou seu companheiro de vida, testemunha de sua virgindade, defensor de sua honestidade; mas, por força da própria sociedade conjugal, o tornou também participante de sua dignidade sublime [5].

Ora, do fato de esta dignidade da Mãe de Deus situá-la acima de todas as criaturas, como se disse nesta declaração, se segue porventura que S. José, guardadas as proporções, ultrapassa em santidade também a todos os anjos? Não se pode afirmá-lo com certeza. Será suficiente exprimir esta doutrina, cada vez mais aceita na Igreja, nos seguintes termos: “Entre todos os bem-aventurados, abaixo de Jesus e sua Mãe, S. José ocupa nos céus o mais alto trono e está assentado entre anjos e arcanjos”. A missão dele sobre a Sagrada Família o fez patrono da Igreja universal, além de seu protetor e defensor. Também, em certo sentido, lhe foi confiada em todas as gerações uma multidão de cristãos, como se vê na famosa ladainha que canta suas excelências. 

Queremos aqui expor o princípio em que se funda esta doutrina, admitida há muito mais de cinco séculos, sobre o primado de S. José no coro de todos os santos.

I. Uma missão supereminente a algo divino dada imediatamente por Deus reclama uma santidade proporcionada. — O princípio geral com que a sagrada Teologia mostra, explicitando a divina Revelação, que foi sumamente conveniente, já neste mundo, a) a plenitude da graça criada na alma do Salvador, b) ou a santidade de Maria, c) ou também a fé dos Apóstolos, se funda na missão divina e principal que lhes foi confiada: esta missão, com efeito, reclamava uma santidade proporcionada. Algo semelhante se pode dizer de S. José.

As obras de Deus são perfeitas, sobretudo as que dele procedem imediata e exclusivamente; nelas, nada desordenado nem fora de proporção se pode encontrar. Assim podemos falar do dia divino da criação, ou seja, das coisas originalmente instituídas por Deus [6]; assim também dos maiores servos de Deus, por Ele imediatamente suscitados para restaurar, antes de tudo, a obra divina perturbada pelo pecado. “Deus criou o homem à sua imagem” (Gn 1, 27), “manifestou o […] desígnio de reunir em Cristo todas as coisas” (Ef 1, 9s).

A verdade e a importância desse princípio, constante na Revelação e, ao mesmo tempo, evidente por si mesmo, se compreendem melhor se considerarmos por contraste o que sói acontecer no governo das coisas humanas. Não raro, homens inaptos e imprudentes obtêm funções altíssimas, para incômodo deles e em prejuízo daqueles a quem deveriam governar. Isso nos faria às vezes arder de raiva, se não pensássemos que Deus compensa tais defeitos com os atos frequentemente heroicos de alguma santidade oculta; o que, porém, temos de recordar mais do que tudo é que cada um de nós deve dizer um mea culpa por tantos negligentes no desempenho de seu ofício: tão frequentes são estas faltas, que já nem lhes damos importância. A desordem, no entanto, continua sendo desordem, e a incompetência, incompetência. Nada parecido se dá com os que, escolhidos imediatamente por Deus e por Ele diretamente preparados, foram chamados a um ministério supereminente na obra da Redenção. O Senhor lhes dá a santidade precisa, porque tudo faz com medida; assim, nada desordenado nem fora de proporção se pode encontrar nas obras propriamente divinas, das quais só Ele é autor.

a) Assim recebeu, especialmente, a santa alma de Jesus Cristo, no primeiro instante de sua criação, a plenitude absoluta de graça, por estar mais intimamente unida ao Verbo de Deus, que é a fonte de toda a vida sobrenatural. Não só isso: esta alma santa devia difundir a vida divina pela luz do Evangelho e pelos méritos infinitos do sacrifício na cruz: “Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça […]. Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou” (Jo 1, 16.18).

Ora, viu o Doutor Angélico neste texto do Evangelho, e também em alguns outros semelhantes, não somente a plenitude de graça, mas também a glória ou visão beatífica que, ainda na terra, gozava o nosso Salvador, a fim de nos conduzir, como Mestre dos mestres e Senhor dos senhores, à vida eterna [7].

b) Por força do mesmo princípio, para ser digna Mãe de Deus, Maria teve de ser “cheia de graça” (cf. Lc 1, 28), preservada da mancha do pecado original, associada a todas as dores, mas também às glórias de Jesus. Por sua missão singular como Mãe de Deus, teve de acercar-se mais intimamente ao Verbo encarnado, e isto nos dois mistérios da Encarnação e Redenção. “Como fosse a mais próxima da Fonte de toda graça, foi sumamente conveniente que ela, mais do que qualquer outra criatura, mais até do que os santos e todos os anjos, recebesse graça sobre graça” [8].

c) Igualmente, ensina-nos a sagrada Teologia que os Apóstolos conheciam mais perfeitamente os mistérios da fé porque se encontravam mais perto do Senhor [9]. S. Tomás julga temerária a negação dessa doutrina; mas ele compara os Apóstolos com os santos de tempos posteriores, não com S. José nem com S. João Batista [10].

Ora, não será a missão de S. José superior à dos Apóstolos, e também à do santo Precursor? A vocação dele, assim como a de Maria, Mãe de Deus, foi decerto singular. Em previsão dessa missão singular, não teria S. José se acercado mais à Fonte da graça, para que estivesse mais intimamente unido ao Senhor?

II. A missão supereminente de S. José. — A S. João Batista incumbia o ofício de anunciar a vinda iminente do Messias. Por essa razão, pode-se dizer que ele foi, no Antigo Testamento, o maior Precursor de Jesus. Assim entende S. Tomás as palavras do Senhor no Evangelho segundo S. Mateus: “Em verdade vos digo: entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista” (Mt 11, 11) [11]. Mas acrescenta o Salvador logo em seguida: “No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”. Ora, o Reino dos Céus é a Igreja, ao mesmo tempo na terra e no céu; é o Novo Testamento, mais perfeito do que o Antigo enquanto estado [permanente], ainda que alguns justos do Antigo Testamento tenham sido mais santos do que muitos da Nova Aliança [12]. Quem na Igreja é o menor? Há nestas palavras um grande mistério, razão por que foram explicadas de maneiras diversas. Evocam aquelas palavras ditas por Jesus noutra ocasião: “Quem dentre vós for o menor, esse será grande” (Lc 9, 48). O menor é o mais humilde, o servo de todos [13]. Devido à conexão e proporção entre as virtudes, significa também aquele que tem a máxima caridade [14]. Quem, portanto, foi na Igreja o mais humilde? Aquele, ao que parece, que não foi nem Apóstolo, nem evangelista, nem mártir (ao menos exteriormente), nem Pontífice, nem sacerdote, nem Doutor; mas que não conheceu e amou menos a Jesus do que os Apóstolos, os evangelistas, os mártires, os Pontífices e os Doutores: o humilde carpinteiro nazareno, José.

“O sonho de São José”, de Francisco Herrera, o Jovem.

Os Apóstolos foram chamados para revelar aos homens o Salvador e pregar o Evangelho da salvação. A missão deles, assim como a de João Batista, se refere à ordem da graça, que é necessária a todos para a salvação. Há porém outra ordem, superior à da graça, a saber: a ordem constituída pelo mistério mesmo da Encarnação, que é a ordem da união hipostática, ou seja, da união pessoal da humanidade de Jesus com o próprio Verbo de Deus. A esta ordem superior pertence, terminativamente, a missão especial de Maria, isto é, a divina maternidade, e em certo sentido (ou seja, extrínseca, moral e mediatamente) a missão oculta do bem-aventurado José.

Bossuet, no primeiro precônio deste grandíssimo santo, o expôs belamente com as seguintes palavras (3.º ponto): “Dentre todas as vocações, destaco duas, nas Escrituras, que parecem diretamente opostas: a primeira é a dos Apóstolos; a segunda, a de José. Jesus se revelou aos Apóstolos, para que o anunciassem por todo o mundo; revelou-se a José, para que o protegesse e ocultasse. Os Apóstolos são luzeiros para mostrar Jesus Cristo ao mundo. José é um véu para o encobrir; e sob esse véu misterioso se escondem a virgindade de Maria e a grandeza do Salvador das almas […]. Quem glorifica os Apóstolos com a honra da pregação, glorifica José com a humildade do silêncio”. Porque, de fato, ainda não tinha chegado o tempo de manifestar-se o mistério do Natal, mas devia preparar-se por trinta anos de vida oculta. Esta razão foi exposta, de diversas formas, por S. Bernardo [15], S. Bernardino de Sena [16], Isidoro Isolano [17], Suárez [18] e por vários autores modernos [19].

A perfeição consiste em fazer a vontade de Deus, cada um segundo a própria vocação. Ora, a vocação de José, no silêncio e no escondimento, supera a dos grandes Apóstolos, porque toca de mais perto o mistério da Encarnação redentora. Logo, não estará S. José, depois de Maria, o mais perto possível do próprio Autor da graça? Se tal é assim, José recebeu no silêncio de Belém, no exílio do Egito, até mesmo em sua casinha em Nazaré, graças mais copiosas do que as que já receberam os outros santos.

a) Qual foi a missão especial de S. José com respeito à bem-aventurada Maria? Foi, acima de tudo, a custódia da virgindade e da honra da Virgem Mãe, por ter contraído com a futura Mãe de Deus um matrimônio verdadeiro e absolutamente santo. Como se lê no Evangelho segundo S. Mateus: “Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: ‘José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo’” (Mt 1, 20). Portanto, Maria é verdadeiramente esposa de José. Trata-se de matrimônio verdadeiro [20], que era, de fato, celeste e teria uma divina fecundidade [21]. A plenitude inicial de graça concedida à Virgem Mãe, em previsão da maternidade divina, de certo modo “exigia” o mistério da Encarnação [22]. Como diz Bossuet: “Foi a virgindade de Maria que trouxe Jesus do céu. Se é a sua pureza que a torna fecunda, não recearei mais afirmar que José teve sua parte nesse grande milagre. Porque essa pureza angélica, se é o bem da divina Maria, é também o depósito do justo José” [23].

Esta era a imaculada e reverendíssima união com a mais perfeita das criaturas, na simplicíssima casa de um pobre artesão. Assim, José foi mais íntimo do que qualquer outro santo daquela que é Mãe de Deus e também Mãe espiritual de todos os homens, inclusive do próprio José, daquela que é Corredentora, Medianeira universal e, enfim, distribuidora de todas as graças. Por isso, José amou Maria com amor puríssimo e devotíssimo. Era este amor também um amor teologal, porque em Deus e por Deus amava ele a bem-aventurada Virgem, em razão de toda a glória que lhe foi dada por Deus. A beleza do universo inteiro pouco valia em comparação com a união daquelas duas almas excelsas, união essa criada pelo próprio Senhor em ordem à nossa redenção, para exultação dos anjos e alegria do mesmo Senhor.

b) Qual foi, por último, a missão especial de José com respeito ao Senhor? Foi-lhe confiado, verdadeira e realmente, o Verbo de Deus feito carne: a José, digo, mais do que a qualquer outro justo, entre os homens de todas as gerações. Teve, com efeito, o velho Simeão, por uns poucos momentos, o Menino Jesus entre os braços e viu nele a salvação do povo, “luz para iluminar as nações” (Lc 2, 32). José, porém, a todas as horas, de dia e de noite, tomou conta da infância do Senhor. Teve frequentemente em suas mãos aquele a quem reconhecia como seu Criador e Salvador; dele recebeu graça sobre graça nos momentos em que com Ele mais intimamente convivia; viu-o crescer e deu-lhe educação humana: e Jesus lhe era submisso. É comum, por isso, chamar-lhe “pai nutrício” do nosso Salvador; mas, em certo sentido, foi até mais do que isso: com efeito, como observa S. Tomás [24], somente per accidens um homem se torna, após o matrimônio, pai “nutrício” ou “adotivo”; José, pelo contrário, não recebeu per accidens, de forma alguma, a missão de velar por Jesus, já que foi para isso, especificamente, que ele foi criado e veio ao mundo. Esta era a sua predestinação. Em previsão dessa missão totalmente divina, Deus lhe providenciou todas as graças por ele recebidas desde menino, a saber: a piedade, a virgindade, a prudência, uma perfeita fidelidade. Não só isso: recebeu também um coração de pai com respeito a Jesus, pois o motivo de sua união com a bem-aventurada Virgem era, nos eternos desígnios de Deus, proteger e educar o Salvador [25]. Esta é a principal missão de José, em virtude da qual recebeu uma santidade proporcionada, quer dizer, proporcionada ao seu grau [de participação] no mistério da Encarnação, superior à ordem da graça e de mais largos horizontes [26].

O Rev. D. Sinibaldi, em obra há pouco publicada (cf. La grandezza di San Giuseppe, pp. 23–36), o afirma abertamente. Ele mostra, pois, que S. José foi predestinado desde a eternidade para ser o esposo da bem-aventurada Virgem, e explica, com S. Tomás, a tríplice conveniência desta predestinação.

Pergunta-se o Doutor Angélico (cf. STh III 29, 1) se Cristo devia nascer de uma Virgem realmente desposada, e se houve verdadeiro matrimônio entre a Mãe do Senhor e José. Responde que isso foi conveniente, por causa de Cristo, de sua Mãe e também por nossa causa.

a) Por causa de Cristo, com efeito, para que, antes de manifestar-se o mistério do seu nascimento, não fosse rejeitado como filho ilegítimo, e também para a proteção do Menino recém-nascido. b) Não foi menos conveniente em relação a Maria, para que não fosse lapidada como adúltera pelos judeus, como notou Jerônimo; segundo, para que, desta forma, se livrasse da perseguição e dos perigos que, com o nascimento do Menino, teriam início. c) Também por nossa causa isso foi conveniente. Primeiro, porque com o testemunho de José se confirmou que o Cristo nasceu de uma Virgem; segundo a ordem das coisas humanas, admiravelmente, se tornam ainda mais críveis as palavras da Virgem. Por fim, foi maximamente conveniente porque, assim, encontramos em Maria o modelo perfeito tanto de virgem quanto de mulher e mãe cristã.

Assim se podem entender alguns autores que afirmam que o decreto da Encarnação promulgado desde a eternidade, por força do qual se dispôs como a Encarnação havia de acontecer, hic et nunc, em condições concretas, abarcava não somente a Jesus e sua Mãe, mas também a S. José. Fora, com efeito, estabelecido desde a eternidade que o Verbo de Deus feito carne nasceria admiravelmente de Maria sempre Virgem, unida ao justo José pelo vínculo de um verdadeiro matrimônio. Assim se exprime, no Evangelho segundo S. Lucas, a execução deste decreto: “O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria” (Lc 1, 26–27).

Eis por que S. Bernardo chama a José nosso “fidelíssimo coadjutor do grande Conselho”. 

Por isso afirma o Rev. D. Sinibaldi, na esteira de Suárez e outros autores, que o ministério de José pertence à ordem da união hipostática extrínseca, moral e mediatamente [27]. Não porque José, como instrumento físico do Espírito Santo, tenha cooperado para [produzir-se] o mistério da Encarnação. Neste aspecto, com efeito, o papel dele se encontra muito abaixo da participação de Maria, que foi Mãe de Deus; ele foi, não obstante, predestinado a ser, na ordem das causas morais, custódio da virgindade e da honra da bem-aventurada Maria, além de guardião do Menino Jesus. Aqui, portanto, se há de evitar toda exageração que possa gerar falsas expressões de tão grande mistério [28]. De fato, o culto que se deve tributar a S. José não excede, especificamente, aquele a que chamamos “de dulia”; no entanto, podemos com justiça pensar que este culto de dulia corresponde a S. José num grau superior ao de qualquer outro santo [29]. Por esse motivo, invoca-o a Santa Igreja, em suas coletas, imediatamente depois de Maria, mas antes dos Apóstolos, como vemos na oração “A cunctis”. Do mesmo modo, hoje ele é honrado com uma menção especial no Prefácio [N.T.: e também no Cânon Romano, por desejo de S. João XXIII, e nas demais Orações Eucarísticas, por decreto recente do Papa Francisco], e foi-lhe dedicado o mês de março.

III. As virtudes e dons sobrenaturais de S. José. — As virtudes de S. José são, antes de tudo, as virtudes da vida oculta, em grau correspondente ao de sua graça habitual [30]: humildade profunda; grande, que nunca é perturbada; esperança inabalável; mais do que tudo, uma caridade imensa, que crescia sem interrupção, pelo contato diário do Senhor Jesus; além disso, a fina bondade de um pobre que, embora sem bens, era rico dos mais preciosos dons de Deus, a saber: os sete dons do Espírito Santo, no mesmo grau de sua caridade. Assim canta a ladainha: “José justíssimo, castíssimo, prudentíssimo, fortíssimo, obedientíssimo, justíssimo, fidelíssimo, espelho de paciência, amante da pobreza, modelo dos operários, honra da vida de família”.

A sua viva fé foi, por vezes, dolorosa, devido à obscuridade com que entrevia algum [mistério] altíssimo, sobretudo quando ainda ignorava o segredo da concepção virginal, que a humildade de Maria lhe ocultava [31]. Então, a palavra de Deus, transmitida pelo anjo ao anunciar o admirável nascimento do Salvador, o atravessou de luz. José, decerto, poderia ter duvidado de coisa tão inaudita; acreditou, porém, com simplicidade de coração, e aquela insígne graça não só não o encheu de soberba como o confirmou ainda mais na humildade. “Por que”, diria ele, “a mim, José, antes que a qualquer outro, o Altíssimo confiou como depósito o seu infinito tesouro?” Tal dom não lhe era devido por seus méritos, como ele bem reconhecia. Assim interpretou aquela gratuita predileção de Deus para com ele, pois o beneplácito de Deus, que é sumamente livre, é também razão de si mesmo; então se desanuviam as profecias, e a fé do carpinteiro cresce admiravelmente.

Pouco depois, no entanto, tornou a escuridão: por entre os raios e sombras do mistério deve caminhar José. Já era pobre antes que se lhe manifestasse a predileção divina, isto é, o segredo de Deus; fez-se mais pobre, como nota Bossuet, ao nascer Jesus. Não havia lugar para ele na menor hospedaria em Belém: era preciso recolher-se num estábulo. Em seu delicado coração, certamente José se sentiu pungido por não ter nada que pudesse dar a Maria e a seu Filho. Quando Jesus entra em uma alma, como dizem os santos, entra com a cruz e dela afasta qualquer outra coisa, a fim de uni-la a si. Foram Maria e José os primeiros a entendê-lo, e a profecia de Simeão lhes confirmou a tribulação.

Tem início a perseguição. Herodes quer matar o Messias. Avisado pelo anjo, o chefe da Sagrada Família deve fugir com Maria e o Menino para o Egito. Como fosse um pobre artesão e nada mais tivesse além do trabalho de suas mãos, partiu para uma região longínqua, onde ninguém o conhecia, fortalecido porém pela palavra de Deus que lhe trouxera o anjo. Esta foi a sua missão: deve esconder o Senhor e livrá-lo dos perseguidores; quando não houver mais o que temer, deverá retornar para Nazaré. Assim é José, ministro e protetor da vida oculta de Jesus, como também os Apóstolos são os ministros de sua vida pública; daí que, no segredo, ninguém esteve, depois da bem-aventurada Virgem, mais intimamente unido ao Verbo de Deus encarnado [32].

Nesta vida oculta de muitos trabalhos, a noite escura da fé é iluminada, com luz radiante e suave, pelo crescimento da santa humanidade do Verbo encarnado. De volta a Nazaré, nos anos em que lá viveu a Sagrada Família, imperava o silêncio da contemplação na pequenina casa do carpinteiro, que era um verdadeiro santuário, de fato mais santo do que o Templo de Jerusalém: um silêncio cheio de doçura, uma amorosíssima contemplação do mistério da Encarnação, já consumado, mas ainda por todos ignorado. As palavras ali proferidas revelavam o estado das almas; mas, mesmo sem palavras, nesta casa repleta de inocência e amor transluziam as almas, que se entendiam umas às outras perfeitamente.

“São José e o Menino Jesus”, de Murillo.

Depois da contemplação da bem-aventurada Maria, houve por acaso neste mundo contemplação mais discreta e amorosa do que aquela em que se regalava o humilde artesão enquanto contemplava Jesus? Em virtude dessa graça, experimentava ele afetos de pai e devotíssimo e exímio protetor: era amado por Jesus, menino e adolescente, com piedade e benevolência e, ao mesmo tempo, com certa força singular que não pode encontrar-se senão no próprio Coração de Deus. Os olhares de José para Jesus traziam-lhe à memória o mistério de Belém, o exílio egípcio e o alto mistério da salvação de todo o mundo. A ação incessante do Verbo encarnado em José era a própria ação criadora continuada, que conserva a vida natural, e também o amor de Deus que infunde, conserva e acrescenta a luz natural e a caridade na mente, fonte ubérrima de sempre novas graças.

Em nenhum outro lugar se acha maior grandeza nem mais perfeita simplicidade. Como no profeta José do Antigo Testamento, isto é, no José vendido por seus irmãos, que era figura de Cristo, assim era esta altíssima contemplação, em formas as mais simples, contemplação divina, imersa num puro amor de caridade. Trazia José no coração o maior dos segredos, ou seja, o da Encarnação redentora, mas ainda não havia chegado a hora de revelar este mistério. Com efeito, os judeus não acreditariam nem o entenderiam. Muitos deles esperavam um Messias temporal, coroado de glória, mas não um Messias pobre, que padecesse por nós. Este mistério, velava-o a presença de S. José, enquanto Jesus era chamado “o filho do carpinteiro”. O pobre artesão mantinha em casa o Verbo encarnado. Guardava o Desejado das gentes, que fora prenunciado pelos profetas, e não dizia palavra sobre este grande milagre. Esta amorosíssima contemplação de José era a mais doce; exigia-lhe, porém, a maior abnegação, ao ponto da mais acerba imolação, quando se lembrava das palavras de Simeão: “Será um sinal que provocará contradições” (Lc 2, 34), e do que foi dito a Maria: “Uma espada transpas­sa­rá a tua alma” (Lc 2, 35). A aceitação do mistério da Redenção dolorosa se lhe afigurava como a acerba consumação da Encarnação; e, de fato, lhe foi necessário um amor generoso para oferecer a Deus, em sumo holocausto, o Menino Jesus com sua Mãe, aos quais amava mais do que à própria vida. José não ofereceu o sacrifício eucarístico; mas, em seu coração, ofereceu ao Pai o Menino Jesus pela nossa salvação.

Não podemos imaginar que progressos admiráveis de fé, contemplação e amor realizava a alma de José. Tanto se ocultou o carpinteiro na terra quanto foi glorificado no céu. Aquele a quem o Verbo de Deus aqui se fez obediente alegra-se agora na vida celeste, por sua admirável intercessão junto ao SS. Coração de Jesus. Os serviços que prestava à casa de Nazaré, presta-os ainda hoje às famílias cristãs, às comunidades religiosas e às virgens consagradas a Deus. Como observa S. Teresa, é para todos mestre na vida de oração; também, como canta a ladainha, alívio dos miseráveis, esperança dos doentes, padroeiro dos moribundos, terror dos demônios, protetor da Santa Igreja, a grande família de Nosso Senhor. Imploremos-lhe que nos mostre o valor da vida escondida, o esplendor dos mistérios de Cristo e a bondade infinita de Deus, que ele mesmo viu na Encarnação libertadora.

Notas

  1. Sermo in nativitatem virginis Mariæ, IV.ª consideratio.
  2. Sermo I de Ioseph, c. 3. Opera Lugdun., 1650, t. IV, p. 254.
  3. In Summam S. Thomæ, III, q. 29, disp. 8, §1.
  4. Isidoro Isolano, OP, Summa de donis S. Ioseph, 1522 (ed. Pe. Berthier, Roma, 1897); Ch. Sauvé, Saint Joseph intime, Paris, 1920; Card. Lépicier, Tractatus de Sancto Ioseph, Paris, 1908; A. Michel, art. “Saint Joseph”, em Dictionnaire de Théologie catholique; Msr. Sinibaldi, La grandezza di S. Giuseppe, Roma, 1927, p. 36ss; Pe. José M. Bover, SJ, De cultu S. Ioseph amplificando, Barcelona, 1926.
  5. Leão XIII, Encíclica “Quamquam pluries”, de 15 ago. 1889 (ASS 22 [1889–90] 66). Trad. port. (aqui levemente modificada) de Honório Dalbosco e Lourenço Costa, em Documentos de Leão XIII. São Paulo: Paulus, 2005, p. 375.
  6. Cf. S. Tomás de Aquino, STh I 94, 3: “Na ordem natural, o perfeito precede o imperfeito, como o ato à potência, pois o que está em potência não se reduz ao ato senão por algum ente em ato. Ora, uma vez que as coisas foram originalmente criadas por Deus não só para que existissem em si mesmas, mas para que fossem também princípios de outras [coisas], por isso foram criadas em estado perfeito, no qual poderiam ser princípios de outras […]. Por isso, o primeiro homem foi criado em estado perfeito quanto ao corpo […] e quanto à alma, para que de imediato pudesse instruir e governar a outros [homens]”.
  7. Cf. S. Tomás de Aquino, STh III 7, 9: “Cristo teve a plenitude de graça [...], porque a teve em grau sumo, segundo o modo mais perfeito com que se pode possuí-la. O que se evidencia, em primeiro lugar, pela proximidade da alma de Cristo à fonte da graça. Foi dito (a. 1) que, quanto mais próximo está algo receptivo da causa que [nele] influi, tanto mais abundantemente recebe [o seu influxo]. Por isso, a alma de Cristo, que está unida a Deus mais intimamente entre todas as criaturas racionais, recebe a máxima influência de sua graça. Em segundo lugar, pela comparação dela com seu efeito. De tal modo, pois, recebia a alma de Cristo a graça para que dela, de certo modo, se difundisse em outros. [...] A graça lhe era conferida como a certo princípio universal no gênero dos que a possuem”. — STh III 9, 2: “O que está em potência é reduzido ao ato por aquilo que está em ato: é necessário, com efeito, que esteja quente aquilo pelo qual outras coisas são aquecidas. Pois bem, o homem está em potência para a ciência dos bem-aventurados, que consiste na visão de Deus e a ela se ordena como ao seu fim […]. Ora, os homens são levados ao fim da bem-aventurança pela humanidade de Cristo […] Logo, era necessário que o conhecimento beato, que consiste na visão de Deus, conviesse do modo mais excelente a Cristo homem, porquanto a causa deve sempre ser superior ao [efeito] causado”.
  8. STh III 27, 5: “Quanto mais algo se aproxima do princípio em qualquer gênero, tanto mais participa do efeito desse princípio […]. Pois bem, Cristo é o princípio da graça, autoritativamente segundo a divindade, instrumentalmente segundo a humanidade […]. Ora, a bem-aventurada Virgem Maria foi a mais próxima de Cristo segundo a humanidade, porque dela recebeu [Cristo] a natureza humana […]. Logo, devia receber de Cristo, mais do que outros, uma maior plenitude de graça”; ibid., ad 3: “Não há dúvida de que a bem-aventurada Virgem recebeu de modo excelente o dom de sabedoria e, inclusive, a graça da profecia [...] na medida correspondente à sua condição”.
  9. Cf. S. Tomás de Aquino, STh II-II 1, 7 ad 4: “Os que foram mais próximos de Cristo, ou antes, como João Batista, ou depois, como os Apóstolos, conheceram mais plenamente os mistérios da fé”. 
  10. In Ep. ad Rom. 8, 23, sobre estas palavras: “Temos as primícias do Espírito”: “Os Apóstolos receberam o Espírito Santo antes e com maior abundância do que outros”. Também In Ep. ad Ephes. 4, 11, sobre estas palavras: “A uns ele constituiu Apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores”.
  11. S. Tomás de Aquino, In Matth. 11, 11, escreve: “Não é inconveniente chamar a João Batista maior do que todos os Patriarcas do Antigo Testamento. De fato, é maior e mais excelente aquele que é elevado a maior ofício. Abraão, com efeito, é o maior entre os Patriarcas quanto à provação da fé; Moisés, por seu turno, quanto ao ofício da profecia, como se lê em Dt 34, 10: ‘Não se levantou mais em Israel profeta comparável a Moisés’. Ora, todos estes foram precursores do Senhor; nenhum deles, porém, teve tanta excelência e favor; por isso, [João Batista] foi elevado a maior ofício: ‘Será grande diante do Senhor’ (Lc 1, 15). João Batista é o Precursor por excelência entre todos os santos do Antigo Testamento; assim se explica, de modo suficiente, por que na ladainha de todos os santos ele é invocado logo depois da bem-aventurada Virgem Maria e dos anjos. Nele termina o Antigo Testamento, com ele se anuncia o Novo. Cf. Pe. M. I. Lagrange, OP, L’Evangile selon Saint Matthieu, p. 222; L’Evangile selon S. Luc., p. 221; Knabenbauer, Evangelium secundum Matthæum, t. I, pp. 429–431.
  12. Cf. S. Tomás de Aquino, In Matth. 11. Diz: “Pode esta locução ‘o menor no Reino dos Céus é maior do que ele’ ser explicada de três maneiras. Em primeiro lugar, de maneira que por ‘Reino dos Céus’ se entenda a ordem dos bem-aventurados, e quem entre eles é o menor, é maior do qualquer viador […]. E isto é verdadeiro quanto à grandeza atual: de fato, é maior em ato quem é compreensor, mas não quanto à grandeza virtual, assim como uma pequena planta se diz maior por virtude, embora outra seja maior por quantidade. Em segundo, de maneira que por ‘Reino dos céus’ se designe a Igreja presente: e por isso ‘menor’ não se diz universalmente, mas cronologicamente […]. Logo, o que é menor, é maior do que ele. Em terceiro lugar, de maneira que algo se diga ‘maior’ em dois sentidos: ou quanto ao mérito, e assim muitos Patriarcas são maiores do que alguns [fiéis] do Novo Testamento […], ou comparando um estado [de vida] com outro, assim como as virgens são maiores do que os casados, ainda que nem toda e qualquer virgem seja maior do que todo e qualquer casado”. — Fazendo abstração do mérito dos diversos servos de Deus, o Novo Testamento, sobretudo na pátria, é evidentemente, enquanto estado espiritual, mais perfeito do que o Antigo. S. João Batista, porém, está na fronteira entre ambos. Cf. Lagrange e Knabenbauer, loc. cit., e também Fillion, Evangile selon Saint Matthieu, p. 222, e D. Busy, S. Jean Baptiste, Paris, 1922.
  13. Cf. Lc 22, 26: “Mas o que entre vós é o maior, torne-se como o último; e o que governa seja como o servo”.
  14. Cf. S. Tomás de Aquino, STh I-II 66, 2.
  15. S. Bernardo, Hom. 2 super Missus est, quase ao final: “É fiel e prudente o servo que o Senhor constituiu porto-seguro de sua Mãe, nutrício de sua carne e único coadjutor fidelíssimo do grande Conselho neste mundo”.
  16. S. Bernardino de Sena, Sermo I de S. Ioseph: “Se o comparas com toda a Igreja de Cristo, acaso não é este o homem eleito e especial por quem e sob o qual Cristo foi ordenada e honestamente introduzido no mundo? Se, portanto, da Virgem Mãe é devedora toda a santa Igreja, já que por ela se tornou digna de receber a Cristo; assim, verdadeiramente, depois dela, deve a ele graça e reverência singular […]. Foi ele que com grandes trabalhos nutriu para todos os eleitos o Pão do céu, que dá a vida celeste”.
  17. Summa de donis Sancti Ioseph (1522), Parte III, cap. XVIII, 18: “São quatro as propriedades da dignidade apostólica: a pregação (‘Ide e pregai o Evangelho a toda a criatura’), a iluminação (‘Vós sois a luz do mundo’), a reconciliação (‘A quem perdoardes os pecados, ser-lhe-ão perdoados’) e o falar pelo Espírito Santo (‘Não sereis vós que falareis, mas é o Espírito de vosso Pai que falará em vós’). Estas propriedades são as mais dignas, porque imediatamente procedem de, se subordinam a e são por causa de Cristo. Pois bem, as propriedades de S. José foram o desposório com a Rainha dos céus, o título de pai do Rei dos anjos, a defesa do Messias prometido na Lei dos judeus e a educação do Salvador de todos. Ora, estas propriedades estão imediatamente acima de, são para e por causa de Cristo. Portanto, todo o que tiver bom juízo discorra a partir da verdade divina, apure e conclua da comparação entre a majestade apostólica e a celeste dignidade de José qual não há de ser a sua excelência, dignidade, santidade e inexplicável perfeição de virtudes. Aproxima-te de coração elevado, e não verás envilecida nem humilhada a majestade da grandeza apostólica, mas Deus será exaltado nos gozosos dons de seu pai putativo, José”. — Também ibid., Parte I, caps. IV, V, IX. Esta obra de Isidoro Isolano, OP, foi muito elogiada por Bento XIV. 
  18. Cf. In Summam Theologiam, III, c. 29, disp. VIII, §1.
  19. Cf. Msr. Sinibaldi, op. cit., p. 36s.
  20. Cf. S. Tomás de Aquino, STh III 29, 2.
  21. Cf. S. Tomás de Aquino, In IV Sent., dist. 30, q. 2, a. 2 ad 4: “A prole não se diz bem do matrimônio somente enquanto é gerada pelo matrimônio, mas também enquanto é recebida e educada no matrimônio, e assim o bem deste matrimônio [de Maria e José] foi aquela prole [Jesus], e não do primeiro modo. No entanto, nem o filho adulterino nem o filho adotivo que é educado no matrimônio são [ditos] bem do matrimônio, já que o matrimônio não se ordena [per se] à educação deles, ao contrário deste matrimônio [de Maria e José], que foi especialmente ordenado para receber e educar tal prole”.
  22. Cf. S. Tomás de Aquino, STh III 2, 11 ad 3: “Diz-se que a bem-aventurada Virgem mereceu conceber o Senhor de todas as coisas, não porque mereceu que Ele se encarnasse, mas porque mereceu, pela graça que lhe foi dada, aquele grau de pureza e santidade pelo qual poderia ser digna Mãe de Deus”; ibid.: “Os santos Patriarcas [do Antigo Testamento] mereceram ex congruo a Encarnação, ou seja, desejando-a e impetrando-a”.
  23. Premier Panégyrique de Saint Joseph, 1.º ponto.
  24. Cf. In IV Sent., loc. cit.
  25. Lc 2, 51: “Erat subditus illis”. Cf. Alphonse Marie Portman, OP, Manuel de dévotion à Saint Joseph, Parte I, cap. 3.
  26. Pode-se afirmar que S. José foi confirmado em graça no instante de seu matrimônio com a bem-aventurada Virgem Maria. Cf. Dict. Théol., art. cit., c. 1518.
  27. Cf. Msr. Giacomo Sinibaldi, La grandezza di San Giuseppe, Roma, 1927, p. 36ss: “O ministério de S. José está na ordem da união hipostática […]. Por ministério […] deve entender-se um ofício, uma função, que impõe e produz uma série de atos que visam alcançar um objetivo determinado […]. Maria nasceu para ser Mãe de Deus […]. Mas o casamento virginal de Maria depende de José […]. Por conseguinte, o ministério de José tem uma estreita relação com a constituição da ordem da união hipostática […]. Celebrando o seu conúbio virginal com Maria, José prepara a Mãe de Deus como Deus a quer, e nisto consiste a sua cooperação com a realização do grande Mistério. Daí se vê que a cooperação de José não se equipara à de Maria. Enquanto a cooperação de Maria é intrínseca, física e imediata, a de José é extrínseca, moral e mediata (por Maria); trata-se, porém, de verdadeira cooperação”.
  28. As palavras do Símbolo “conceptus est de Spiritu Sancto” sempre se entenderam como referidas somente ao Espírito Santo. Cf. S. Tomás de Aquino, CG IV 45, 2: “Por isso, nesta geração [de Cristo segundo a carne] não podia haver o princípio ativo do sêmen viril, mas somente a virtude divina”. Assim também em vários capítulos do Compêndio de Teologia, cc. 218–219.221.223. Poder-se-iam citar ainda muitos textos, sobretudo de S. Efrém, trazidos recentemente à baila pelo Pe. I. M. Bover, SJ, Ephemerides Theologicæ Lovanienses, abr. 1928, v.gr.: “Maria deu à luz o Menino, que foi adscrito à Lei não em nome dela, mas no de José, embora por ele não fosse gerado. Nasceu sem José o filho de José, que foi a um tempo filho e Senhor de Davi” (ed. Roma 1732–1746, sír.-lat. III, 601). Em outro lugar, S. Efrém diz de S. José que “não teve parte alguma naquela geração” (ibid., greg.-lat. II, 276-277). — Também S. Agostinho: “O Senhor, portanto, não foi gerado por José, embora assim se acreditasse; no entanto, nasceu para a piedade e a caridade de José um filho de Maria Virgem” (PL 38, 351). Também S. Francisco de Sales, Œvres complètes, Annecy, 1895, t. VI, p. 354s.
  29. Msr. Sinibaldi, op. cit., p. 242; Card. Lépicier, op. cit., p. 287.
  30. Cf. S. Tomás de Aquino, STh I-II 66, 2.
  31. S. Tomás de Aquino diz em In IV Sent., dist. 30, q. 2 ad 5: “José não quis repudiar Maria, como se fôra desposar outra, nem por causa de alguma suspeita, mas porque temia, por reverência, coabitar com tão grande santidade. Eis por que lhe foi dito: ‘Não temas’ (Mt 1, 20)”.
  32. Declarou-o recentemente Pio XI, que reina feliz, num sermão pronunciado na Aula Consistorial, na festa de S. José, dia 19 de mar. de 1928, por ocasião do decreto das virtudes heróicas da Venerável Joana Elisabete Bichier des Âges. Comparando a vocação de S. José com a de S. João Batista e S. Pedro, diz o Sumo Pontífice: “Fato sugestivo: ver despontarem tão próximas e brilhantes, quase contemporâneas, certas figuras tão magníficas: S. João Batista, que se ergue do deserto com voz ora estrondosa, ora doce, como o leão que ruge e como o amigo do Esposo que se alegra com a glória do martírio; Pedro, que ouve da boca do divino Mestre estas sublimes palavras, pronunciadas também diante do mundo e dos séculos: ‘Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; vai e prega ao mundo inteiro’, missão grandiosa e divinamente deslumbrante. Entre essas duas missões, aparece a de S. José, missão recolhida, silenciosa, quase despercebida, oculta, que não devia fazer-se notar senão séculos mais tarde; um silêncio que havia de dar lugar, sem dúvida, mas muito tempo depois, a um retumbante canto de glória. E, de fato, onde é mais profundo o mistério, mais espessa é a noite que o encobre, maior o silêncio, é justamente aí que a missão é mais alta, mais brilhante é o cortejo de virtudes necessárias e dos méritos apresentados, por uma necessidade feliz de os ecoar. Missão única, grandiosa, a de guardar o Filho de Deus, o Rei do mundo; missão de guardar a virgindade, a santidade de Maria; missão única de participar do grande mistério, oculto aos olhos dos séculos, e de cooperar assim à Encarnação e à Redenção. Toda a santidade de José está precisamente no cumprimento, escrupulosamente fiel, dessa missão tão grande e tão humilde, tão alta e tão escondida, tão esplêndida e tão cercada de trevas”.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Um argumento feminino contra a ordenação de mulheres
Espiritualidade

Um argumento feminino
contra a ordenação de mulheres

Um argumento feminino contra a ordenação de mulheres

O sacerdócio precisa da influência de mulheres santas, mas essa influência não deve vir de uma posição de poder que tantas tentam alcançar exigindo a ordenação de mulheres. O maior exemplo sobre o papel das mulheres e o sacerdócio vem de Nossa Senhora.

Constance T. HullTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Julho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
imprimir

Para que nós, mulheres, aceitemos o nosso papel específico na santificação do sacerdócio, temos de estar dispostas a abandonar a postura antagônica que muitas vezes assumimos frente aos homens. Muitos danos foram causados na dinâmica entre homens e mulheres por causa das formas radicais de feminismo, que procuram opor homens e mulheres numa interminável luta por poder. Isso serviu para criar uma fratura em todo tipo de relação entre homens e mulheres, inclusive entre sacerdotes e mulheres.

O sacerdócio precisa da influência de mulheres santas, mas essa influência não deve vir de uma posição de poder que tantas tentam alcançar exigindo a ordenação de mulheres ao sacerdócio e ao diaconato permanente, assim como de outros papéis de liderança leiga no seio da Igreja. (É um caso irônico, já que as mulheres dominam a maior parte das posições de liderança nas paróquias e nas dioceses.)

Se o principal objetivo de uma mulher é ter um lugar de autoridade na hierarquia quando defende a igualdade, então ela não compreende a natureza do sacerdócio nem o seu chamado para servir a Cristo como mulher na Igreja. Qualquer movimento, da parte de homens e mulheres, que não busque na Igreja mais do que o poder vinculado ao sacerdócio está separado do sacerdócio instituído por Cristo na Última Ceia.

“Cristo lavando os pés dos seus discípulos”, por um seguidor de Peter Paul Rubens.

Quando Nosso Senhor instituiu o sacerdócio, mostrou aos Apóstolos que ser um de seus sacerdotes significa ser um homem de serviço e entrega radical. Significa abandonar o desejo de poder, honra e status no mundo, a fim de assumir o lugar mais baixo na cruz. Eles não devem pretender dominar o mundo ou a Igreja. Em vez disso, devem seguir o caminho do Servo Sofredor, que se esvazia a si mesmo por amor ao Pai para a salvação do mundo. Isso quer dizer que qualquer argumento pela igualdade entre os sexos centrado na ordenação de mulheres e em dar mais poder a elas no seio da Igreja está nas antípodas daquilo e de Quem o sacerdócio representa.

A resposta a como as mulheres podem, especificamente, ajudar a renovar o sacerdócio requer um distanciamento do desejo por controle sobre os homens e de uma “igualdade” falsa e mundana, e a adoção de uma visão de mundo sobrenatural. Nós, mulheres, somos chamadas por nossos dons femininos singulares a ajudar na santificação dos sacerdotes. É um papel essencial, mas que está muito em baixa por causa das constantes disputas de poder que ocorrem até nas menores paróquias.

A outra disparidade crítica entre mulheres de fé e sacerdotes é o fato de que todos os relacionamentos em nossa cultura foram reduzidos ao sexo. Isso quer dizer que a autêntica complementaridade entre homem e mulher, um dom de Deus, foi perdida. Essa complementaridade não diz respeito apenas ao amor romântico e ao casamento; inclui também amizades e laços familiares, ambos em nível material e espiritual.

Sim, homens e mulheres devem ser mais prudentes em seus relacionamentos por causa da atração natural que sentem um pelo outro. Mas isso não quer dizer, de modo algum, que homens e mulheres sejam incapazes de expressar uma caridade autêntica e santa. Significa apenas que é necessário um esforço mais profundo, assim como uma vigilância constante. Não podemos nos esquecer de que o maligno está sempre à espreita. Se houver uma falta de maturidade espiritual em um dos lados, a relação não dará certo e poderá ser uma fonte de perigo espiritual para ambos os lados. Isso quer dizer, simplesmente, que a dedicação à santidade e ao progresso espiritual deve estar acima de todo o resto — e esse é um bom conselho, inclusive para uma cultura saudável. O que não devemos fazer de modo algum é estabelecer uma divisão rígida entre homens e mulheres, evitando qualquer amizade ou cooperação, por causa de um puritanismo equivocado e temeroso. 

Nosso maior exemplo sobre o papel das mulheres e o sacerdócio vem de Nossa Senhora. Ela é o exemplo por excelência para nós. Ela é Rainha e Mãe de todos os sacerdotes, e é por meio do seu exemplo que mulheres e sacerdotes podem adquirir uma compreensão mais clara de como as mulheres podem ajudá-los a crescer em santidade, sobretudo em tempos de crise.

Essa dimensão mariana se vê principalmente na maternidade espiritual dos sacerdotes. Naturalmente, esse papel remonta a Nossa Senhora, que se tornou Mãe de todos os sacerdotes quando o seu Filho, moribundo na cruz, lhe entregou São João. Ao longo de toda a história da Igreja, essa foi uma missão que muitas mulheres — leigas e religiosas — receberam de Cristo por meio de Nossa Senhora. 

Na década passada, houve um movimento ainda maior de promoção da maternidade espiritual dos sacerdotes na Igreja. A Congregação para o Clero publicou em 2007 um documento sobre a necessidade da maternidade espiritual e da adoração eucarística para a santificação dos sacerdotes. É um chamado que tem início no segredo do coração, mas que pode se manifestar de diversas formas segundo a vontade particular de Deus para cada mulher.

Dados os ataques ao sacerdócio e os escândalos atuais, é cada vez mais necessário que os sacerdotes saibam que essas mulheres estão presentes em seu meio, lutando espiritualmente por eles na oração, oferecendo sacrifícios e reparações e encorajando-os — como fez Nossa Senhora em Caná —, a fim de ajudá-los no caminho da santidade.

Os sacerdotes precisam saber que há mulheres dedicadas a ajudá-los em seu ministério sacerdotal e que não procuram ter controle ou poder sobre eles. Há muitos sacerdotes que pensam estar sozinhos, e é por isso que o Espírito Santo têm tornado públicas algumas mães espirituais, enquanto outras permanecem escondidas. A própria Igreja afirmou que esse chamado é essencial, embora ainda seja muito incompreendido.

Independentemente de como ele se manifeste na vida de uma mulher, esse chamado é, acima de tudo, uma vocação mariana. Trata-se de amar os sacerdotes com o Imaculado Coração de Maria, ou seja, com um amor desinteressado que busca o bem supremo, isto é, sua santificação. Ser mãe espiritual significa morrer para si, como ocorre na maternidade natural. A missão de uma mãe espiritual se resume a trabalhar na ordem sobrenatural para que os sacerdotes cheguem a ser santos. Isso quer dizer que lutas por poder ou afetos desordenados não têm lugar aqui. De fato, não podemos desejar o bem de outra pessoa se formos escravos do nosso próprio ego, do desejo de controle ou se cairmos em tentação.

A verdadeira maternidade espiritual também complementa a paternidade espiritual, na medida em que ajuda a desenvolver as duas vocações. Sacerdotes — assim como maridos e pais — precisam das mulheres para crescer em sua paternidade espiritual. Por isso é essencial que os sacerdotes sejam marianos, senão correrão o risco de cair num celibato desordenado ou ficarão alheios às necessidades das mulheres que estão sob os seus cuidados. A feminilidade autêntica, que está enraizada na caridade e em uma identidade mariana, ajuda a conduzir os sacerdotes mais profundamente ao Sagrado Coração de Jesus por meio do Imaculado Coração de Maria. Esse é o caminho para uma santidade mais elevada.  

As mulheres podem ridicularizar essa função, mas isso equivale a assumir uma mentalidade mundana. Todo poder espiritual exercido por santas ao longo dos séculos — incluindo a mais recente favorita de todos nessa época de escândalos: Santa Catarina de Siena — vinha de sua disposição para travar, primeiro, batalhas espirituais. Santa Catarina foi uma mulher de profunda oração, jejum, sacrifício, mortificação e reparação. Foi por causa dessa vida íntima com Deus plena de amor que ela foi capaz de ajudar a sacerdotes, bispos e Papas. Ela não estava interessada no poder e na honra do mundo. Por isso Deus a chamou para realizar grandes missões. Deus não chama quem anda à procura de poder mundano em postos de influência. Não podemos servir a dois senhores.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A Sagrada Face e as faces de máscara
Espiritualidade

A Sagrada Face e as faces de máscara

A Sagrada Face e as faces de máscara

Ao depararmos com rostos mascarados em meio à atual pandemia, não nos esqueçamos de um rosto que permaneceu descoberto, mesmo em meio a perigos ameaçadores: a Sagrada Face de Nosso Senhor, desprotegida dos cuspes e socos de seus algozes.

David G. Bonagura Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Julho de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

A notícia atravessou meu computador como um choque. Em pleno lockdown, através da Missa diária da minha paróquia transmitida pelo YouTube, anunciou-se que o pai de um ex-aluno estava entre os enfermos que precisavam de oração. Alguns dias depois, soube pelo mesmo meio que Joe Senior havia falecido. Eu procurava em vão por notícias; não havia velório, funeral ou necrológio público, e meu questionamento à paróquia não obteve resposta. Eu conhecia Joe Senior da época em que, por quatro anos, fora professor de seu filho; os dois, aliás, dividiram os “despojos” de uma viagem de caça com minha família, há muitos anos. Meu coração doeu pelos dois e pela esposa de Joe, a quem também conheci.   

Algumas semanas mais tarde, enquanto assistia à Missa dominical (com 25% da capacidade da igreja), Joe Jr. apareceu com a mãe. Meus olhos se encontraram com os dela, e reagi com uma expressão de simpatia. Mas não fui correspondido (ao menos foi essa a minha impressão). Uma máscara escondia o meu rosto do dela e vice-versa. Não podíamos nos abraçar. Tentei expressar-lhe minha tristeza e entender o que havia acontecido, mas era impossível com uma máscara abafando-nos a voz. A tira de pano que nos protegia a saúde estava, ao mesmo tempo, adoecendo nossas almas. As máscaras criavam uma situação desconfortável e dolorosa.

Não é um argumento contra o uso de máscaras para prevenir a disseminação do coronavírus. Temos de cumprir o nosso dever. Trata-se, em primeiro lugar, de um lembrete (a pandemia foi fecunda nesse sentido) de algo precioso que não valorizamos: expressões faciais, que são a quintessência dos gestos humanos. Assim como os sacramentos, elas tornam visíveis os anseios invisíveis do coração, muitas vezes antes mesmo de uma palavra nos vir aos lábios. Seja num momento de tristeza, de triunfo ou de alegria, o semblante é uma janela aberta para a alma.

Esperamos que as máscaras se tornem relíquias de um ano inesquecível, tão-logo acabe a epidemia de COVID-19. Por ora, no entanto, as máscaras nos alienam, involuntariamente, uns dos outros no sentido verdadeiro da palavra: fazem-nos estranhos, estrangeiros até mesmo para os nossos amigos íntimos. As máscaras transformaram até o sorriso casual a um estranho (gesto simples, gentil e quase espontâneo) num estranho “olhar fixo”. Rostos cobertos escondem nossa verdadeira personalidade e criam uma barreira para o cumprimento de nossa vocação de homens e mulheres chamados à comunhão em Jesus Cristo.

Meu “encontro mascarado” me fez pensar num rosto que permaneceu descoberto, mesmo em meio a perigos ameaçadores: a Sagrada Face de Nosso Senhor, desprotegida dos cuspes e socos de seus algozes. Existe uma piedosa devoção à Sagrada Face de Jesus (não tão conhecida como deveria ser), da qual eu me havia esquecido. Percebi de imediato que a pandemia e a crise civilizacional atuais são o estímulo perfeito para começar a praticá-la.

Uma imagem da Sagrada Face de Nosso Senhor está milagrosamente preservada no véu de Verônica, hoje guardado na Basílica de São Pedro. Na década de 1840, durante a revolução política que varria a Europa, Nosso Senhor revelou à Ir. Marie de Saint-Pierre, carmelita francesa, que a blasfêmia e a profanação dos domingos feriam seu Sagrado Coração como uma “flecha envenenada”. A blasfêmia equivalia a xingá-lo em sua presença. 

Ele pediu que oferecêssemos sua Sagrada Face a Deus Pai na oração, em reparação e pela conversão dos pecadores. Como antídoto, apresentou a oração da Flecha de Ouro, a ser recitada todos os dias e, com ela, a seguinte oração: “Pai eterno, eu vos ofereço a adorável Face do vosso amado Filho, para honra e glória do vosso nome, pela conversão dos pecadores e salvação dos moribundos”.

“Santa Verônica com o véu”, de Mattia Preti.

O Venerável Leo Dupont, amigo da Ir. Marie, difundiu a devoção à Sagrada Face de Jesus pela França, onde começaram a ocorrer curas milagrosas atribuídas a ela. O Papa Leão XIII aprovou a devoção, criando a Arquiconfraria da Reparação à Sagrada Face de Jesus, a fim de que os católicos de todo o mundo pudessem participar dela. Entre os mais entusiastas, estava a família francesa Martin, uma de cujas filhas, ao entrar para o Carmelo, adotou o nome de Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face.  

A jovem santa compôs sua própria e bela oração à Sagrada Face de Jesus, cujo início é particularmente apropriado para a nossa época: “Ó Jesus […], eu venero a Sagrada Face em que, outrora, brilhou a beleza e a doçura da divindade, mas que, hoje, se transformou como que no rosto de um leproso! Contudo, sob aqueles traços desfigurados, eu reconheço vosso infinito amor”.

A Sagrada Face de Jesus é o lugar perfeito de meditação para uma nação cujas vidas médicas e civis se encontram numa encruzilhada. Neste exato momento, a nossa oração universal, embora venha do fundo de nossos corações, é simples: Livrai-nos do mal. O Único que pode fazê-lo está irreconhecível, oculto para um número cada vez maior de pessoas por causa de todo tipo de pecado. Só seremos restaurados por Ele se obedecermos à sua ordem de reparar nossos pecados e os das pessoas que o desonram. E para que a nossa vida civil tenha qualquer chance de ser restaurada, nós precisamos ser restaurados primeiro.  

Verônica não possuía cargos nem poder; mas o seu gesto de compaixão, aparentemente pequeno, para com a Sagrada Face de Nosso Senhor até hoje causa impacto, ao contrário de quaisquer ações políticas de sua época. Enquanto olhamos fixamente para a Sagrada Face, lembremo-nos de que o único caminho para superar nossa atual alienação é um amor mais profundo a Deus.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.