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A história dos santos mártires de Wuhan
Santos & Mártires

A história dos santos mártires de Wuhan

A história dos santos mártires de Wuhan

Agora todos conhecem essa cidade chinesa… Mas poucos sabem que, cerca de 200 anos atrás, dois missionários morreram nesse mesmíssimo lugar, vítimas de estrangulamento, deixando uma mensagem de esperança a todos que sofrem com a atual pandemia.

Anthony E. ClarkTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Maio de 2020Tempo de leitura: 13 minutos
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Às vezes a Providência nos conduz por caminhos inesperados. Há algum tempo, quando fui a Wuhan, na China, para realizar uma pesquisa sobre os santos mártires da região, eu tinha certeza de que quase nenhuma pessoa da minha terra natal, os EUA, tinha ouvido falar desse lugar. Também pensei que jamais viriam a saber da existência dele. Eu estava errado. Hoje, “Wuhan” faz parte do vocabulário habitual de quase todos os habitantes da terra.

Quero apresentar hoje alguns comentários sobre dois missionários católicos — ambos vicentinos, isto é, membros da congregação de sacerdotes fundada por São Vicente de Paulo (1581–1660) — que foram martirizados num distrito de Wuhan: São Francisco Regis Clet (1748–1820) e São João Gabriel Perboyre (1802–1840). Todos estamos muito apreensivos com a expansão do coronavírus pelo planeta, e a forma como esses dois mártires católicos sofreram e morreram parecerá bastante familiar àqueles que sabem como a COVID-19 aflige os contagiados. Santos Clet e Perboyre viveram com medo por causa do caos e da turbulência que os cercava; eles foram isolados e morreram estrangulados. Estão entre os poucos santos católicos que morreram por não poderem respirar.

Esses santos da China foram canonizados não apenas por causa do modo como sofreram e morreram, mas também por seu testemunho heroico de fé e caridade. A famosa religiosa carmelita Santa Teresa de Lisieux (1873–1897) ficou tão impressionada com os dois mártires de Wuhan, que guardava em seu devocionário um santinho de São Perboyre. Minhas notas estão organizadas em quatro breves seções: primeiro, darei alguns detalhes sobre a vida de São Clet e São Perboyre; segundo, descreverei o medo que experimentaram antes da morte; terceiro, falarei sobre seu isolamento; e, quarto, falarei sobre a santidade e a coragem que demonstraram durante seu sofrimento final e morte em Wuhan.

Nós, católicos, sabemos que só depois da morte é que as pessoas se tornam santas; antes disso, elas estão simplesmente a caminho. Ainda assim, como diz Nosso Senhor, a luz não pode esconder-se debaixo do alqueire (cf. Mt 5, 15), de modo que, ainda em vida, são notáveis os sinais de perfeição que acompanham os verdadeiros discípulos de Cristo.

Com Clet e Perboyre não foi diferente. 

Santa Teresinha do Menino Jesus trazia em seu devocionário este santinho de São Perboyre.

Francisco Regis Clet foi o décimo filho de uma família de quinze, e com vinte e um anos entrou para os vicentinos, admirado com o amor de São Vicente de Paulo pelos pobres e aflitos. Ele estava em Paris quando teve início a violenta perseguição aos católicos durante a Revolução Francesa (1789–1799), e quando os sacerdotes começaram a ser expulsos do país ele se prontificou a ir para a China, onde certamente enfrentaria o mesmo tipo de perseguição.

Francisco Regis Clet sabia que a vida humana vem de Deus e existe para servir a Ele. Por isso, estava determinado a sair de um lugar que parecia estar se afastando de Deus a fim de servir aos pobres num lugar onde Deus ainda não era conhecido. Antes de embarcar para a China, o despretensioso filho de São Vicente escreveu uma carta à irmã Maria Teresa: “Quis a divina Providência que eu saísse daqui para trabalhar pela salvação das almas [na China]”. Ele começou a vida como missionário na China em 1789, e três décadas depois foi amarrado a um poste de madeira em Wuhan; enrolaram-lhe uma corda no pescoço, asfixiando-o até a morte.

Como seu confrade, João Gabriel Perboyre nasceu no seio de uma família numerosa francesa. Ele e mais quatro irmãos se tornaram vicentinos pelo desejo de servir ao próximo como Jesus havia feito, e de seguir os passos de São Vicente. João Gabriel entrou para os vicentinos com apenas dezesseis anos. Ainda seminarista, tornou-se conhecido por sua devoção intensa a Jesus Sacramentado, pois passava várias horas diante do tabernáculo, ajoelhado e rezando em ação de graças após receber a Comunhão. É fácil imaginar a angústia que sentia ao ser impedido de celebrar a Santa Missa nas diversas prisões chinesas em que ficou detido.

Luís, irmão de João Gabriel, também foi vicentino e foi enviado à China antes dele. Os dois irmãos — de sangue e religião — eram muito próximos um do outro. Foi, portanto, um golpe doloroso para João Gabriel receber a notícia de que Luís falecera por causa de uma doença quando estava a caminho da China. Em seu leito de morte, o Pe. Luís Perboyre, CM († 1831), escreveu o seguinte, em carta dirigida ao irmão João Gabriel: “Morrerei antes de completar o meu objetivo. Espero que o meu irmão sacerdote possa assumir o meu lugar”. João Gabriel de fato o assumiu. Ele deixou a França cinco anos após a morte de Luís, e em 1835 deu os seus primeiros passos como missionário em território chinês. Foi breve o período que Perboyre passou na China. Apenas cinco anos depois de sua chegada, assim como Clet, ele foi atado a um poste e estrangulado.

Sófocles, o antigo tragediógrafo grego (497 a.C.), escreveu o seguinte sobre o medo: “Para aquele que sente medo, tudo ao seu redor parece crepitar”. Em épocas terríveis, uma pessoa pode facilmente sentir medo daquilo que não perceberia em períodos normais. Quando Clet e Perboyre serviram como missionários na China, o império estava mergulhado em turbulências. Quando Clet viveu na China, ocorreu uma revolta liderada por uma seita milenarista chamada “Ordem da Lótus Branca”, e as autoridades locais pensaram que os cristãos faziam parte do grupo. O resultado foi terrível tanto para os missionários como para os fiéis chineses; os cristãos eram odiados e atacados por membros da seita e pelo governo.

Túmulos onde primeiro foram enterrados os corpos dos santos mártires de Wuhan, antes de seu translado a Paris.

Francisco Regis Clet escreveu o seguinte numa carta: “Eles destroem tudo o que está em seu caminho, queimam casas e levam tudo o que podem carregar; em seguida, matam todos os que não podem escapar a tempo”. Perboyre passou por uma turbulência interna e outra externa — nem todos os santos enfrentam o medo com um sentimento de paz e resignação. Quando o panorama se tornou mais violento e aterrador, João Gabriel — de acordo com uma fonte — “experimentou uma intensa angústia na alma” e “foi atormentado por uma violenta tentação de ceder ao desespero”. Foi a reflexão sobre a descrença do apóstolo São Tomé que tirou a dúvida e o medo de Perboyre: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé” (Jo 20, 27). Mais do que o medo, porém, o que atormentou sobremaneira Clet e Perboyre, antes de eles serem finalmente executados no distrito de Wuchang, em Wuhan, foi a solidão provocada pelo isolamento.

Uma intriga anticristã ocorrida em 1818 obrigou Francisco Regis Clet a se esconder. No dia 25 de maio, o palácio imperial em Pequim foi subitamente coberto por “fortes ventos e chuvas torrenciais, enquanto o céu se avermelhava e se ouviam estrondos de trovões na cidade”. Os conselheiros do imperador sugeriram que o estranho evento fora causado pela interferência espiritual dos missionários cristãos. Assim, a polícia foi enviada para prender o Pe. Clet. Obrigado a permanecer isolado, Clet se escondeu em pequenas cavernas e lugares remotos nos bosques, vindo a encontrar refúgio no lar de uma família católica, onde se isolou por seis meses.

A localização de Clet foi finalmente revelada por um apóstata. Entregue a um tribunal local, Clet foi obrigado a ajoelhar-se sobre correntes enquanto lhe golpeavam o rosto com uma cinta de couro, por ele ter-se negado a denunciar a sua fé cristã. De acordo com uma testemunha, mais tarde, uma vez transferido para a prisão de Wuhan, “as roupas dele estavam manchadas com sangue dos cortes e feridas provocados pelos golpes […] que ele suportou em sua jornada até lá”. Condenado à morte por asfixia lenta em 17 de fevereiro de 1820, Clet foi levado ao campo de execução, onde “suportou com tranquilidade o estrangulamento (uma corda foi enrolada em seu pescoço em três etapas)”. Seus restos mortais, coletados com afeição por católicos chineses devotos, foram enviados a Paris, onde se encontram ainda hoje, na casa geral dos vicentinos.

Alguns dizem que a morte e o sofrimento de Perboyre foram ainda mais cruéis. Surgiu em 1839 um movimento anticristão que obrigou João Gabriel a viver em isolamento, e durante esse período ele foi protegido por cristãos chineses que lhe deram abrigo, mesmo pondo suas próprias vidas em risco. Em 16 de setembro de 1839, depois de celebrar a Santa Missa, um cristão local informou o Pe. Perboyre de que dois oficiais e uma grande tropa se aproximavam rapidamente da igreja. Perboyre se negou a fugir do perigo antes de consumir o Santíssimo Sacramento e reuniu os vasos sagrados para protegê-los da profanação. Ele fugiu apenas alguns momentos antes de a igreja ser sitiada e sobreviveu escondendo-se em florestas e cômodos ocultos em lares de cristãos chineses.

Finalmente, foi descoberto e capturado por patrulheiros, que o levaram aos tribunais arrastado pelo cabelo, a fim de ser interrogado. Foi torturado, forçado a se ajoelhar sobre correntes e pendurado em vigas pelos polegares, antes de ser levado para Wuhan junto com muitos outros cristãos chineses que se negaram a abandonar o seu pastor. Em sua cela, João Gabriel Perboyre foi acorrentado à parede — as correntes estavam tão apertadas, que ele perdeu parte de um dos pés e uma das mãos

Um dos cristãos que acompanharam Perboyre, batizado com o nome de Estanislau, foi torturado junto com ele. Estanislau foi levado a um monte de estrume, onde recebeu a ordem de pisar num crucifixo e a negar a sua fé cristã — e foi condenado à morte por ter-se recusado a obedecer. O Pe. Perboyre escutou a última confissão de Estanislau antes que ele rastejasse até a sua execução, pois os seus membros inferiores foram tão surrados, que ele não conseguia caminhar de pé. O que Perboyre sofreu foi tão cruel quanto o que haviam sofrido seus amigos próximos. Forçado a se ajoelhar sobre vidro estilhaçado, o sacerdote teve o rosto marcado com a acusação: “Professor de falsa religião”. Ele foi obrigado a vestir os seus paramentos enquanto desfilava e era humilhado.   

Por fim, em 11 de setembro de 1840, João Gabriel Perboyre, carregando uma placa que anunciava sua sentença, foi levado da sua cela até o local da execução. É difícil ler o registro dos vicentinos sobre esses momentos finais, mas contarei aqui a parte que descreve a forma como ele foi executado em Wuchang, distrito de Wuhan:

Em seguida, o carrasco pôs-lhe uma corda em volta do pescoço e inseriu um pedaço de bambu no laço. Com um forte giro, apertou a corda em torno do pescoço do condenado; logo depois, afrouxou a corda para dar ao pobre sofredor um momento de fôlego. Então, apertou a corda uma segunda vez e a soltou de novo. Somente na terceira vez ele deixou a corda apertada até a morte da vítima.

Por coincidência, consta nos registros oficiais da execução que Perboyre morreu na tarde de uma sexta-feira às 15h, dia e horário em que, segundo a tradição, Cristo deu seu último suspiro na cruz. Para conseguir a corda e as roupas de Perboyre depois do estrangulamento, os cristãos da região subornaram as autoridades. O corpo dele foi cuidadosamente enterrado ao lado do túmulo de Francisco Regis num lugar chamado Montanha Hong, próximo a Wuhan. Guardo alguns fragmentos das roupas de Clet e Perboyre em meu escritório, perto de minha mesa de trabalho. Uma das coisas que mais comoveram as testemunhas dos interrogatórios de Perboyre foi o fato de ele simplesmente ter beijado o crucifixo (como se estivesse recebendo os últimos sacramentos da Igreja), após o magistrado ter ordenado que o santo o pisasse

Gosto muito da forma como G. K. Chesterton (1874-1936) descreve a coragem cristã. Escreve ele: “A coragem é praticamente uma contradição em termos. É um forte desejo de viver que assume a forma de uma disposição para morrer”. Clet e Perboyre tinham a esperança de viver para dar continuidade ao seu serviço à Igreja na China, mas estavam preparados para a morte, caso a Providência os chamasse.

Concluirei com alguns comentários sobre o que aconteceu com a comunidade católica nas últimas décadas, relacionando isso aos exemplos históricos de São Clet e São Perboyre. Quando viajei para Wuhan, tinha dois objetivos principais: descobrir como os cristãos daquela região ainda enxergam os mártires vicentinos e encontrar o exato local em que foram executados por estrangulamento. Naturalmente, os vicentinos foram muito úteis. Deram-me acesso privilegiado aos seus arquivos e financiaram minha viagem à China.

Retrato do martírio de São João Gabriel Perboyre.

Descobri algo surpreendente: os católicos da região ainda recordam e celebram o exemplo de Clet e Perboyre. Na verdade, seminaristas que agora se preparam para o sacerdócio no seminário de Wuhan cuidam com muito carinho das duas lápides que outrora adornavam os túmulos de Clet e Perboyre; os monumentos de pedra costumam ser enfeitados com flores frescas e se veem seminaristas pedindo diante deles a intercessão dos santos. As lápides foram transferidas para a casa de um católico da região, onde ficaram escondidas durante os anos nefastos da Revolução Cultural (1966–1976). O bispo de Wuhan, Bernardino Dong Guangqing, OFM (1917–2007), fez uma pesquisa sobre as lápides depois do fim da Revolução Cultural e as levou de volta ao seminário Huayuanshan. Com a ajuda do reitor da catedral de Wuhan, eu também pude encontrar a localização exata dos martírios dos dois vicentinos, que ocorrem em 1820 e 1840.

Nos últimos meses, o seminário, as igrejas e os locais sagrados de Wuhan se tornaram lugares de oração fervorosa, pois muitos membros da comunidade cristã sofreram e morreram por causa da COVID-19. Muitos provaram do mesmo sofrimento que afligiu São Clet e São Perboyre, pois também tiveram dificuldades para respirar. A garantia de que os santos mártires de Wuhan esperam por eles no céu tem servido de consolo para os católicos chineses da região. Talvez alguns dos falecidos estejam agora respirando livremente com eles na luz da visão beatífica, onde não se conhece mais doença.

Tudo o que disse aqui sobre São Clet e São Perboyre pode parecer-se com o que os acadêmicos qualificam de “hagiografia piedosa”, mas apenas transmiti relatos que se podem encontrar nos arquivos da Igreja e em documentos oficiais imperiais, disponíveis nos arquivos do Estado. A palavra mártir significa “testemunha”, e sem dúvida eles deram testemunho não apenas da convicção de sua fé e amor a Deus, mas também do que podem ser o sofrimento e a dor para os cristãos quando compreendem o que está à espera dos que sofrem e morrem unidos a Deus. Clet e Perboyre foram mártires, e não pode haver martírio sem sofrimento ou morte. Tomás de Kempis (1380–1471), o famoso autor da Imitação de Cristo, disse: “Aquele que sabe sofrer terá mais tarde muita paz; essa pessoa é […] amiga de Cristo e herdeira do céu”.

Terminarei com as palavras de São Perboyre que estavam escritas no já mencionado santinho que Santa Teresinha guardava com a imagem dele; elas apresentam o conselho de Perboyre sobre como cada um de nós deveria enfrentar o sofrimento e a morte: “Puisque Dieu a voulu mourir pour nous, nous ne devons pas craindre de mourir pour LuiAssim como Deus quis morrer por nós, jamais deveríamos ter medo de morrer por Ele”.

São Francisco Regis Clet e São João Gabriel Perboyre, rogai por nós!

Notas

  • Esse relato dos santos mártires católicos que morreram no distrito de Wuchang, em Wuhan (China), foi apresentado no dia 19 de abril de 2020, Domingo da Divina Misericórdia, após Missa celebrada por D. Thomas Daly na catedral de Nossa Senhora de Lourdes, em Spokane (EUA). As fontes usadas para a conferência vêm, em grande parte, de materiais consultados pelo autor para a publicação de seu livro China’s Saints: Catholic Martyrdom during the Qing [1644-1911] (sem tradução no Brasil), dentre os quais os mais valiosos são os que se encontram hoje no arquivo principal da Congregação da Missão, em Paris. Na ocasião, o autor foi gentilmente auxiliado pelo Pe. Claude Lautissier, CM, arquivista da casa geral dos vicentinos. A matéria original, em inglês, foi levemente adaptada para esta publicação em português.

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Atirei o pau no Papa
Igreja Católica

Atirei o pau no Papa

Atirei o pau no Papa

Não é de hoje essa bobagem de que “a Igreja mandou exterminar gatos na Idade Média”. Mas um ator da Rede Globo resolveu repetir a mesma conversa, a fim de entreter o povo em casa. O resultado não poderia ter sido pior.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Maio de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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O pecado original não perturbou apenas a relação entre o homem e a mulher. Pensando bem, os gatos também saíram perdendo nessa história. Quem aqui nunca testemunhou o prazer psicótico com que um menininho esfola o bichano da irmã mais velha? Há bem pouco tempo, aliás, a molecada se divertia, aqui e acolá, cantarolando sobre o berro do gato que sobreviveu a uma paulada na moleira. Felizmente, algum pedagogo de bom senso fez o serviço de educar esses meninos, salvando muitos felinos de estalos na cauda ou de irem parar no microondas.

Mas pau que não bate em Chico, serve para bater em Francisco. Na verdade, em Gregório IX. De fato, mais comum do que moleques endiabrados maltratando gatos é artista falando bobagens a respeito da Igreja. E, nesse caso em particular, há, infelizmente, bem poucos pedagogos interessados na solução do problema. Com toda franqueza, é bem provável que eles sejam a causa da querela, dadas as aulas absurdas sobre o quão terrível e obscura teria sido a tal da “Idade das Trevas”. Por isso, qualquer pedaço de pau serve para bater na Igreja, como dizia Chesterton, inclusive acusá-la de ter mandado exterminar gatos.

Papa Gregório IX, por Thomas Hudson Jones (Capitólio, EUA).

Quem embarcou nessa canoa furada ultimamente foi o ator global Miguel Falabella. Conhecido por seus programas humorísticos, o artista resolveu falar “sério” nos últimos dias, com o nobilíssimo objetivo de “informar” os pobres brasileiros, presos em casa por conta do coronavírus. O resultado, no entanto, foi uma tragédia grega. Segundo Falabella, a culpada pelo surto de Peste Negra na Europa, durante o século XIV, teria sido a Igreja Católica, porque, em 1232, o Papa Gregório IX teria ordenado a matança de todos os gatos, por considerá-los — atenção! — “animais demoníacos”. E sem um predador natural, concluiu Falabella, os ratos tomaram conta da Europa, espalhando a bactéria da peste bubônica por toda parte.

Antes de tudo, já é uma grande piada achar que os gatos, por si só, impediriam o surto de Peste Negra. Primeiro, porque eles também poderiam ser infectados pela doença e transmiti-la aos demais. Além disso, gatos não são os únicos predadores naturais de roedores; nessa lista também se incluem os cachorros, as doninhas, as cobras e certos pássaros. Portanto, as causas da epidemia foram muito mais profundas do que uma suposta “carência criminosa” de felinos caçadores. Na verdade, estudos mais recentes indicam que foram os piolhos dos humanos, e não as pulgas dos roedores, os responsáveis pela transmissão da doença.

Mas onde há uma vergonha, há sempre um desavisado querendo passá-la. Não é de hoje que essa história divulgada por Falabella circula por aí, embora não passe de puro delírio. O decreto de Gregório IX a que costumam aludir para acusar a Igreja é o Vox in Rama, endereçado primeiramente ao rei Henrique VII da Germânia e ao arcebispo de Mainz, Siegfried III. Acontece que nesse documento o Papa não fala absolutamente nada (nem uma vírgula) sobre matar gatos ou quaisquer outros animais. A única menção ao bicho está na descrição de um ritual herético em que havia uma estátua de gato preto, cujas nádegas deviam oscular os participantes de tão macabra liturgia.

Ilustração de um manuscrito produzido na Bretanha, no século XV, retrata caçadores com cães atirando flechas em um gato selvagem.

Obviamente, o Santo Padre estava preocupado com o crescimento dessa seita satânica e, em razão disso, pediu às autoridades uma posição firme… Mas não os mandou dizimar gatos. Também não há registro algum de que alguém, em toda a Europa, tenha interpretado essa carta papal, especificamente, como uma ordem de extermínio. Até porque aquele era o tempo medieval, não é mesmo?, e, por isso, não havia comunicação em massa como nos dias de hoje. Portanto, a carta do Papa não corria o risco de cair num Vatileaks. Ela era reservada a um círculo bem pequeno de pessoas, porque a preocupação do Santo Padre dizia respeito a uma região particular da Germânia. Tudo indica que ninguém fora dali soube do assunto.

Mais ainda, é preciso ressaltar que o documento também cita a presença de outros animais em rituais macabros, como sapos, por exemplo. Se a simples menção aos gatos pudesse ser interpretada como ordem para matá-los, o mesmo teria de valer para os demais, por pura lógica. Mas nenhum arquivo registra, em toda a história da Europa, um genocídio batráquico incentivado pela Igreja.

O que se sabe, de fato, é que em certas regiões da Europa havia, sim, um festival bastante estranho, em que as pessoas jogavam gatos na fogueira. Daí podem ter vindo as pinturas do assassinato deles. É precisamente nessa festividade, aliás, que a cidade de Ypres, na Bélgica, se inspira para realizar o Kattenstoet, que significa “Festival do Gato”, uma espécie de reparação ao que acontecia antigamente. Também em 1730 (depois da Idade Média, portanto) houve um incidente na França, envolvendo tipógrafos aprendizes que, por vingança, recolheram os gatos de seus mestres e os mataram, sob o pretexto de que eram utilizados para bruxaria. Esse crime foi narrado pelo escritor Robert Darnton, no livro The Great Cat Massacre and Other Episodes, que se tornou muito popular em 1984.

Outra fonte muito citada pelos detratores da Igreja é o Classical Cats: The Rise and Fall of Sacred Cat, escrito pelo historiador americano Donald Engels. No epílogo do livro, Engels afirma que os cristãos odiavam gatos e os relacionavam a criaturas do demônio. O problema é que o autor, como de praxe, não apresenta qualquer evidência concreta e incontrastável para tamanha afirmação, mas apenas a sua interpretação pessoal de casos particulares e documentos pontifícios, como o Vox in Rama. O historiador Spencer Alexander McDaniel, da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, dá mais detalhes sobre o embuste num artigo de seu site, de onde tiramos boa parte das informações para este texto. Vale a pena conferir.

Houve, sim, matança de gatos aqui e ali na Idade Média como também em outras épocas. Mas nada disso jamais aconteceu por ordens de um Papa. Tratou-se apenas de episódios, entre tantos outros, da brutalidade humana, como sói acontecer em toda a história. Até hoje há quem queira atirar o pau no gato só para vê-lo berrar. Mas há também quem queira atirar o pau no Papa, só para culpá-lo do berro do gato…

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De avião ou a pé? Com ou sem sacramentos?
Doutrina

De avião ou a pé?
Com ou sem sacramentos?

De avião ou a pé? Com ou sem sacramentos?

Contra uma teologia moderna que praticamente “protestantiza” a Igreja, é preciso dizer que os sete sacramentos são necessários, sim, e a ausência deles, na vida diária, custa muito a todo coração que se queira chamar de católico.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Maio de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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A situação atípica em que nos encontramos, devido à pandemia do novo coronavírus, nos deve fazer refletir sobre a importância e a necessidade dos sacramentos, quando tantos dentro da Igreja os relativizam, e não é de hoje. 

Referindo-se a Nosso Senhor, o Catecismo diz que “a obra salvífica de sua humanidade santa e santificante é o sacramento da salvação que se manifesta e age nos sacramentos da Igreja” (n. 774); isto é, depois de ter subido aos céus, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, “age agora pelos sacramentos, instituídos por Ele para comunicar sua graça” (n. 1084).

Isso significa bem concretamente que, onde quer que uma criança esteja sendo batizada, onde quer que um sacerdote esteja rezando Missa ou absolvendo alguém de seus pecados, ali está sendo fincada uma verdadeira “escada” que une o Céu à terra, por onde Jesus ressuscitado comunica individualmente a salvação que Ele operou dois mil anos atrás, por toda a humanidade. Os sacramentos são os meios de tomarmos parte na Redenção que Cristo realizou de uma vez por todas na Cruz, dois mil anos atrás. Não nos basta confessar, com o Credo niceno, que o Filho de Deus desceu dos céus propter nos homines (“por nós, homens”); é preciso que descubramos também, com o Prólogo de São João, que Ele é a luz que ilumina omnem hominem (“todo homem”, cf. Jo 1, 9). Noutras palavras, Jesus não morreu por uma massa amorfa de gente, mas por cada um de nós em particular.

Essas noções, que podem parecer óbvias a quem recebeu uma boa catequese, infelizmente estão “fora de moda” em muitos institutos de teologia. Ao invés de seguir as balizas do que a Igreja sempre ensinou nessa matéria, e de forma dogmática, muitos hoje em dia têm imitado os reformadores protestantes e ensinado um conceito bastante problemático de sacramento: este não passaria de um “ritual simbólico”, feito para evocar uma ideia religiosa, lembrar o que Jesus fez, avivar a nossa confiança em Deus, mas de modo algum ele produziria realmente a graça divina.

Isso explica, em parte, a crise de fé na presença real de Jesus na Eucaristia, a prática disseminada das comunhões sacrílegas e a dificuldade que tantos católicos já tinham de encontrar sacerdotes disponíveis para a Confissão (muito antes de o coronavírus nos visitar). Sem uma fé correta a respeito da ação própria dos sacramentos em nossa alma, fica realmente difícil dar-lhes a devida importância, e não surpreende que tantas vozes surjam, agora, chamando de “desnecessários” aquilo que dois mil anos de Igreja sempre ensinaram ser os meios ordinários de recebermos os favores do Céu.

Mas, contra essa teologia moderna que praticamente “protestantiza” a Igreja Católica, é preciso dizer que os sete sacramentos são necessários, sim, e a ausência deles, na vida diária, custa muito (ou pelo menos deveria custar) a todo coração que se queira chamar de católico. É claro que

os sacramentos não são necessários com necessidade absoluta, como é necessário que Deus exista, já que foram instituídos em razão da pura bondade divina; mas o são com necessidade hipotética, isto é, suposto o fim <para o qual foram instituídos>. Não porque Deus não possa, sem eles, salvar o homem, pois não fez depender dos sacramentos o seu poder, como se diz na Letra: “Como o alimento é necessário à vida”, mas porque pelos sacramentos se realiza de modo mais conveniente a salvação do homem, assim como o cavalo se diz necessário à viagem, quer dizer, porque a cavalo se viaja mais facilmente (Santo Tomás de Aquino, In IV Sent., d. 1, q. 1, a. 2, qc. 1, grifos nossos).

Ou seja, o Deus que instituiu os sacramentos evidentemente não tem a sua ação limitada por eles; Ele pode distribuir a sua graça salvadora aos homens como bem quiser. O Deus dos sacramentos é maior que os sacramentos de Deus, poderíamos dizer.

Essa verdade é uma fonte de grande consolação para nós, especialmente nesses dias em que nos encontramos privados da Missa e afastados, mais ou menos, dos demais sacramentos. Não existe apenas a graça ex opere operato; há também a graça ex opere operantis. Ou seja, além da graça que nos visita nesses sinais sensíveis da Igreja, há também o Deus que nos visita no silêncio de nossa oração íntima, em nossos atos de fé, de esperança e de caridade, nas mortificações que fazemos por amor a Ele. Agora é o momento de redescobrir e colocar em prática tudo isso. Muitos santos se santificaram assim, em situações em que o acesso aos sacramentos era muito mais difícil que agora.

Só que, também, não podemos cair no risco de subestimar o poder desses sete auxílios que Deus nos deu. A comparação que Santo Tomás de Aquino faz com um cavalo “necessário à viagem” deveria fazer-nos pensar. Qual foi a viagem mais longa que já fizemos? Talvez já tenhamos visitado o exterior, de avião. Talvez tenhamos percorrido longas distâncias dentro de nosso próprio país, de carro ou de ônibus. Seja como for, uma rápida pesquisa no Google Maps poderia dar-nos uma ideia de quão demorada seria a viagem que fizemos com esses meios de transportes caso decidíssemos fazê-la a pé, correndo ou até nadando.

E então, o que separa este mundo e o Céu? O que nos separa da eternidade? A jornada rumo à vida eterna não só é mais longa como muito mais árdua, e seria loucura, sem dúvida, prescindir dos instrumentos ordinários que Deus colocou à nossa disposição para que nos aproximássemos dele. Assim como certamente morreríamos insolados subindo do sul do Brasil ao nordeste, ou afogados tentando chegar a nado na Europa, é um perigo tremendo percorrer as vias tortuosas dessa vida sem o auxílio dos sacramentos.

Além disso, a Igreja ensina que há sacramentos mais necessários que outros para a salvação. É o caso do Batismo e da Penitência. Nosso Senhor mesmo incutiu a necessidade de que renascêssemos da água e do Espírito (cf. Jo 3, 5); e também falou do ramo que, separado da videira, só servia para ser lançado ao fogo (cf. Jo 15, 6) — ou seja, se nos apartamos de Cristo pelo pecado mortal, precisamos ser de novo “enxertados” por Ele.

Essa é a fé da Igreja. E é por isso que ela manda aos pais que procurem o quanto antes batizar os filhos recém-nascidos; e aos que estão no pecado que procurem o quanto antes um confessor, para se acusarem e receberem a absolvição de seus pecados. É certo que Deus pode muito bem salvar de outro modo, seja os infantes não batizados, seja os pecadores arrependidos “não confessados”; todavia, se está em nossas mãos salvar a estes com um ou dois minutos para ouvir-lhes os pecados [1] e àqueles com um simples copo d’água (que inclusive, em situações extremas, qualquer um pode derramar), seremos cobrados se não o fizermos

Afinal, Deus quis precisar” dos homens para salvá-los! E é precisamente esse o mistério por trás não só dos sacramentos, mas de toda a missão da Igreja.

Notas

  1. É tal a importância desses sacramentos que alguns moralistas chegam a defender que, “ainda que com perigo para a própria vida ou sob outros grandes incômodos temporais, o pastor de almas deve administrar os sacramentos aos fiéis que se encontram em extrema necessidade espiritual. Deve, por exemplo, em tempo de peste ou de outra doença contagiosa, administrar os sacramentos do Batismo e da Penitência mesmo com risco de vida, de acordo com o que diz Jo 10, 11: ‘O bom pastor dá a vida por suas ovelhas’. O mesmo se aplica ao sacramento da Extrema Unção, quando há a certeza de que o enfermo não é capaz de receber o sacramento da Penitência (Pe. Dominic M. Prümmer, Manual de Teologia Moral, v. III, n. 72ss).

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Dez maneiras de não se preocupar durante a pandemia
Espiritualidade

Dez maneiras
de não se preocupar durante a pandemia

Dez maneiras de não se preocupar durante a pandemia

Nós e os que amamos ficaremos doentes? O sistema de saúde entrará em colapso? Como ficará a economia? É natural que essas e outras inquietações nos atinjam. O que podemos fazer, então, para não nos preocuparmos além da medida?

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Maio de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Este texto não foi escrito pelo Pe. Paulo Ricardo; trata-se de uma tradução, feita por nossa equipe, de um texto do Pe. Dwight Longenecker, sacerdote americano. Portanto, os sentimentos e preocupações expressas no início deste texto são pessoais e não necessariamente manifestam o sentir e o parecer do padre e de nossa equipe.

De todo modo, os dez conselhos oferecidos abaixo por esse sacerdote, para que enfrentemos esse tempo de pandemia, são muitíssimo apropriados. Daí a oportunidade da tradução. 

Para conferir as reflexões do próprio Pe. Paulo Ricardo a respeito da atual crise do coronavírus, recomendamos a nossos leitores que assistam a todos os episódios do programa COVID-19 e aos últimos dos programas Ao vivo com Pe. Paulo e Homilia Dominical.


A vida da maioria das pessoas se tornou uma confusão por causa da pandemia. Não foi diferente com a minha. A suspensão completa dos sacramentos me deixou muito preocupado. Consigo entender a interrupção dos serviços públicos oferecidos pela Igreja, mas a suspensão de todos os sacramentos — inclusive das visitas aos lares e das confissões individuais — parece-me algo draconiano. No entanto, com tanta incerteza em relação ao vírus, entendo que todos os líderes prefiram pecar por excesso de cuidado. Inicialmente, a maioria das pessoas negaram que houvesse um problema sério. Isso é natural. Também reagi assim. Ainda temos de verificar qual é a exata dimensão do problema, mas é melhor prevenir do que remediar.

O fato de o mundo ter virado do avesso por causa da pandemia deixa muitas pessoas preocupadas. Preocupamo-nos com nossa saúde. Ficaremos doentes? Será grave? Morreremos? A preocupação aumenta no caso dos idosos ou daqueles que já possuem outras doenças. Também nos preocupamos com aqueles que amamos. Se temos amigos ou parentes mais velhos, preocupamo-nos com eles. Além disso, existe uma preocupação numa dimensão mais abrangente. O sistema de saúde entrará em colapso? E se a situação durar mais do que o esperado e provocar um colapso social? O que acontecerá se a infraestrutura e os sistemas começarem a ruir? E se a economia colapsar integralmente?    

É natural que essas e outras inquietações nos atinjam. Então, o que podemos fazer para não nos preocupar? Eis algumas ideias:

1. Pare de ver notícias ruins. — Quando há uma colisão entre veículos, todos nós gostamos de xeretar. É difícil não parar e ficar observando. Pelo amor de Deus, não verifique o noticiário a cada cinco minutos. As notícias ruins estão lá. O mundo inteiro está confinado por causa de uma pandemia. As pessoas estão preocupadas e doentes; algumas estão morrendo. Sabemos disso, e não há muito o que fazer em relação aos grandes problemas. Portanto, veja o noticiário de manhã e de noite. Compense as notícias ruins com as boas. A situação é ruim, mas muitas pessoas estão trabalhando para cuidar dos enfermos e encontrar novas formas de combater a doença. Não estou dizendo que você deva ignorar a realidade e adotar algum tipo de otimismo artificial. Seja realista, mas não fique refém da agitação causada por notícias negativas.   

2. Ponha as notícias nas intenções de suas orações. — Depois de se atualizar com as notícias, apresente-as ao Senhor na oração. Depois de verificar as notícias da manhã, faça as orações da manhã. Faça o mesmo com as orações da noite. De que modo a oração pode ajudar? Ela desencadeia o poder de Deus no mundo. Suas orações ajudarão a fortalecer aqueles que estão trabalhando no combate à doença. Fortalecerão e ajudarão as pessoas que a contraíram. Auxiliarão os que estão de luto, os que sofrem de ansiedade e de depressão. Também ajudarão você ficar em paz, a se concentrar e a confiar em Deus.

3. Desenvolva um novo hobby. — Se estiver em confinamento, dedique algum tempo para ler os livros que sempre quis ler ou invista nos estudos ou interesses específicos aos quais sempre quis se dedicar. Faça mais exercícios físicos. Leia novos livros. Pinte ou desenhe. Pegue um livro de receitas e faça refeições magníficas. Faça pães. Isso não é somente uma coisa boa em si, mas ajudará você a não se preocupar.

4. Leia os Salmos. — São antigos poemas que muitas vezes foram compostos por pessoas em apuros. Os salmos 27 (26), 62 (61) e 91 (90) são bons para períodos de ansiedade. Eles enfatizam a necessidade de confiarmos em Deus.

5. Viva um dia de cada vez. — Lembre-se do ensinamento de Jesus: “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6, 34). Agradeça a Deus se hoje você estiver bem e se tiver aquilo de que precisa. Se amanhã você ou as pessoas que ama adoecerem, Deus estará ao seu lado para ajudar a superar a situação. “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo” (Sl 23 [22]). 

6. Entre em contato com outras pessoas. — Por telefone e e-mail, permaneça em contato com amigos, familiares e paroquianos que talvez estejam sozinhos ou com medo. Um breve telefonema tem muito significado para as pessoas e também ajudará a não se preocupar. 

7. Memorize frases que ajudem a minimizar a preocupação. — Decore algum versículo da Bíblia ou alguma citação memorável que auxilie a diminuir a preocupação. Por exemplo: “A preocupação não mudará as coisas ruins, mas fará com que você não enxergue as boas”, “Não se preocupe. Reze”, “O mundo inteiro está nas mãos dEle” ou “Não se preocupe com o dia de amanhã. A cada dia basta o seu cuidado.”

8. Lembre-se do panorama global. — A humanidade já passou por isso. Trabalhamos juntos para superar pragas, guerras, escassez de alimentos e todos os tipos de desastres terríveis. Nossos pais e avós enfrentaram crises econômicas e guerras nas quais todos os dias foram dominados por temores horríveis, preocupações e prejuízos reais. As pessoas se mobilizam. Nós sobreviveremos. 

9. Apoiemo-nos mutuamente. — Fale de forma aberta; manifeste seus medos e preocupações; escute outras pessoas. A preocupação fica pior quando se transforma em medo interior e passa a nos corroer. Exponha sua inquietação e fale sobre ela. Quando compartilhamos uma preocupação, ela é reduzida pela metade.

10. Faça um ato de abandono. — O ato de abandono é uma oração por meio da qual depositamos nossa confiança e fé apenas em Deus. É possível fazer este outro ato de fé simples: “Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, em tuas mãos eu entrego o meu espírito”. É impressionante ver como a preocupação simplesmente desaparece quando nos entregamos a Deus de modo verdadeiro, integral e simples. Permanecemos em Cristo Jesus e reivindicamos a promessa de São Paulo aos Romanos (Rm 8, 35-39): 

Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: ‘Por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro’ (Sl 43,23). Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, Nosso Senhor.

Finalmente, que o Senhor possa usar este período para fortalecer a fé, a esperança e a caridade em nossos corações. Que possamos dedicar um tempo para repensar nossas prioridades e compreender que a vida é breve e instável. Não estamos num ensaio geral. Agradeçamos a Deus pelo bem que temos e desfrutemos dessas bênçãos. Usemos o tempo com sabedoria e, antes que seja tarde, peçamos para o nosso coração a graça de amar a Deus e ao próximo como devemos.

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